sexta-feira, 13 de abril de 2018

SAGRAÇÃO DO SUBÚRBIO


José de Souza Martins*
Carvall 
É pouco provável que a maioria das pessoas tenha compreendido o verdadeiro significado da celebração religiosa de 7 de abril no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Aliás, aniversário da abdicação de dom Pedro I ao trono do Brasil, por pressões políticas, em favor de seu filho criança dom Pedro de Alcântara. No 7 de abril de agora, Lula não abdicou de nada, embora herdeiros tenham sido indicados: Manuela d'Ávila, do PCdoB, e Guilherme Boulos, do PSol. Rompimento tardio com o centrismo da coalizão que levou o PT ao poder e ao desastre.

Teatralidade sebastianista, na coalizão alternativa de missa, comício e manifestação popular, a cerimônia foi equivocadamente anunciada por leigos em ritos e religiões como missa em homenagem à falecida esposa do líder petista. Só Deus é homenageado na missa. Aos mortos restam as missas fúnebres por eles, e não para eles, para implorar do todo-poderoso o alívio das penas a que estão sujeitos todos os pecadores. Portanto, foi missa em memória de uma pessoa.

A todo instante, com dificuldade, o celebrante, o bispo dom Angélico Sândalo Bernardino, velho amigo de Lula, teve que chamar a distraída congregação de volta ao propósito da celebração. Foi uma cerimônia pós-moderna, em que se combinam o sagrado e o profano, o arcaico e o atual, o desalento e a esperança. Era o que dava para fazer.

O caráter semirreligioso do ato de apresentação de Luiz Inácio à Polícia Federal, para cumprimento da pena a que foi condenado pela Justiça Federal, tem um alto significado. Diferentemente de todos os outros partidos políticos, o Partido dos Trabalhadores foi concebido no marco de uma aspiração católica e de algumas igrejas protestantes à participação de seus membros no processo político brasileiro. Nos dois lados, inicialmente por meio de presença nos sindicatos de trabalhadores.

Nos anos 1950, foi primeiro bispo da região do ABC dom Jorge Marcos de Oliveira, oriundo da Ação Católica, movimento conservador do papa Pio XI. Após a morte do também conservador Pio XII, a Ação Católica inclinou-se para o "personalismo" do pensador católico Emmanuel Mounier, fundador da revista “Esprit”, e dos padres humanistas.

No plano político-ideológico, esse movimento acabou se exprimindo na chamada "esquerda católica" e nas obras do marxismo-estruturalista do franco-argelino Louis Althusser e de sua divulgadora, a chilena Marta Harnecker, ambos oriundos da Ação Católica. Esse marxismo formalista e antimarxiano teve efeitos empobrecedores no pensamento da esquerda brasileira e aprisionou a esquerda católica num binarismo antidialético e anti-histórico. A crise do PT o expressa.

Dom Jorge concebeu não só o modo do envolvimento dos operários católicos nas organizações sindicais como também a figura de operário que personificaria esse envolvimento. Concebeu Lula antes que soubesse de sua existência e antes que este soubesse que seu destino já estava traçado. Ele seria o elo católico para enfrentar o monopólio comunista das demandas sociais, camponesas e operárias. Uma grande e peculiar inovação no cenário político brasileiro que subtrai da explicação vulgar os acontecimentos políticos destes dias.

Essas influências definem a retirada de Lula, como um rito sacrifical, ele se desvelando como personificação e reavivamento do sebastianismo brasileiro. Getúlio despediu-se dizendo "Saio da vida para entrar na história". Lula anunciou sua própria ressurreição nas novas gerações: na prisão já não será Lula, será uma ideia. Deu uma dimensão mística à sua despedida.

Nas eleições presidenciais de 2002, houve um fato novo e original na história política do Brasil dominada por composições de partidos e candidatos do clientelismo rural e do populismo urbano. O fato novo estava nas poderosas candidaturas de dois nomes igualmente originários de um bairro e do subúrbio industrial de São Paulo: José Serra, da Mooca, e Luiz Inácio Lula da Silva, da região do ABC, ambos politicamente originários do movimento católico.

A eleição foi vencida por Lula. Poderia ter sido vencida por Serra. Em qualquer caso, o vencedor representaria o novo imaginário do poder e o novo sujeito territorial da política brasileira: o subúrbio e o suburbano. O Brasil fazendo política e falando pela margem, pelas rebarbas do urbano, o incompleto e transitório. Não uma classe social, mas uma situação social de meio do caminho.

A forma religiosa do evento no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC foi a sagração política do subúrbio. O território da margem da sociedade do PT, que as alianças erradas e a contaminação com o poderio do centro afastaram do destino dos simples, que continuam à espera do retorno do rei encoberto, dom Sebastião.
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 *José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, autor de “A Política do Brasil Lúmpen e Místico (Contexto).





segunda-feira, 9 de abril de 2018

Le Monde comenta prisão de Lula

 Juremir Machado da Silva* 
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O tão esperado e comemorado por muitos aconteceu: Lula está preso.

Talvez nunca antes na história deste país se tenha soltado foguete pela prisão de um homem. Os ansiosos tiveram de suportar 26 horas de 50 horas de espera até Lula se entregar à Polícia Federal. Uma decisão do juiz Sérgio Moro frustrou expectativas: não foi possível usar algemas. Não é que Lula pudesse representar perigo, mas, do ponto de vista da sociedade do espetáculo, no entender de parte da população, a imagem, a foto, ficaria muito melhor. O que vem agora? O que vem por aí?

O jornal francês “Le Monde” publicou editorial, espaço reservado para os assuntos mais importantes, sobre esse desfecho e sobre o futuro com um título de romance: “A desgraça de um presidente”. No texto, uma frase soa épica: “Grandeza e decadência de uma nação. Graça e desgraça de um Estadista”. O jornal louva o combate à corrupção da Lava Jato, mas se permite algumas observações: “A operação deve demonstrar ao país que a prisão de Lula não é um ato político. Que a prisão daquele que permanecerá como um dos líderes mais notáveis do país não significa o fim das ações. Depois de atingir figuras do Partido dos Trabalhadores até chegar ao seu líder histórico, a ‘Lava Jato’ deve atacar com igual severidade os outros caciques dos partidos do centro ou da direita”. Vai fazer isso?

O célebre e influente jornal francês, um dos mais respeitados do mundo por sua seriedade e por sua coragem, questiona as diferentes velocidades de investigação no contexto mais amplo das instituições brasileiras: “Aécio Neves, candidato à presidência em 2014 contra Dilma Rousseff, é suspeito de corrupção passiva e obstrução da justiça. Mas seu caso ainda não foi examinado pela Suprema Corte, apesar do pedido da Procuradora-Geral da República (…) há várias acusações contra Michel Temer. Mas estas permanecem bloqueadas pelo Congresso Nacional”. Vale lembrar quando o STF quer ele quebra o “foro privilegiado”. Exemplos não faltam. Quando não quer, deixa o parlamento decidir.
A abertura do editorial certamente não agradará a muitos brasileiros: “A tentação é grande de confundir o destino de Luiz Inácio Lula da Silva com o do Brasil. Uma nação emergente que, sob a presidência do ex-sindicalista, entre 2003 e 2010, embriagada de petróleo e empanturrada de soja, cana-de-açúcar e café, reduziu drasticamente a desigualdade, melhorou a educação e brilhou no cenário internacional. Hoje, o país está retornando à extrema violência, a miséria persiste, enquanto escândalos de corrupção pontuam as notícias políticas”. A prisão de Lula suscita reflexões quase por toda parte.

O jornal francês de direita, “Le Figaro”, escreveu: “Quando deixou o cargo em 1º de janeiro de 2011, Luiz Inácio Lula da Silva estava no auge de sua popularidade. Ao final de seus dois mandatos de quatro anos, oito em cada dez brasileiros tinham uma opinião favorável do ex-torneiro mecânico, que reduziu as desigualdades mais flagrantes, presidiu um forte crescimento e impôs o gigante sul-americano no cenário mundial”. Não se vive de passado, mas se pode morrer dele. Pelo jeito, Lula continuará sendo odiado e amado com intensidade. No STF a batalha vai continuar. Nesta quarta-feira terá jogo de novo?

Rosa Weber decidirá. Outra vez.

Consta que 15 dias antes de votar contra Lula em nome da colegialidade, ou seja, da jurisprudência em vigor desde 2016, ele votou em favor de um HC alegando que seria preciso esperar o julgamento das controversas ADCs 43 e 44, as ações declaratórias de constitucionalidade para saber se pode ou não prender depois da segunda instância. A rosa não tem porquê. Ou tem? Ainda saberemos.
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*Jornalista. Sociólogo. Escritor. Coordena o Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUCRS. Apresenta diariamente, ao lado de Taline Oppitz, o programa Esfera Pública, das 13 às 14 horas, na Rádio Guaíba. Colunista do Correio do Povo.
Fonte:  http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/2018/04/10781/le-monde-comenta-prisao-de-lula/

Pedagogia positiva

Luiz Felipe Pondé*

Esconder qualquer forma de negatividade na experiência de formação é um erro

Considero a pedagogia, entre todas as ciências humanas, a mais perdida. Só não deixa de existir, pura e simplesmente, porque ainda existem crianças e precisamos deixá-las em algum lugar pra se ocuparem e aprenderem, quando muito, coisas essenciais, como não matar os coleguinhas, contas de matemática (por enquanto) e ler e escrever (por enquanto). A pedagogia é a “ciência” que dá um tom sério para essa atividade de ocupação das crianças.

Uma nova modinha assola a coitada da pedagogia. A tal da pedagogia positiva.

O que viria a ser essa modinha, em poucas palavras?

Simples: ensine apenas elogiando os alunos. Veja bem, qualquer professor que tenha o mínimo de amor e cuidado com seus alunos não irá maltratá-los.

Ninguém consegue muita coisa humilhando alguém no processo do ensino. Apesar de, infelizmente, existirem muitos professores que exercem sua função a partir do ressentimento de se sentirem irrelevantes e anônimos e da simples pobreza material devido aos salários miseráveis que ganham.

Mas, dito isso, vejamos de mais perto o dano que uma pedagogia positiva pode causar aos já devastados jovens que estamos criando nesse mundo de idiotas de tudo.

A tese central parece ser que você não deve constranger um aluno apontando seus erros.

De novo: é evidente que devemos apontar erros com cuidado porque erros ferem nossa autoestima, pouco importa se você tem 8 ou 80 anos.

Mas dizer que devemos sempre ver tudo do “ponto de vista positivo” ou esconder qualquer forma de negatividade na experiência de formação é um erro típico da virada paradigmática para a idiotia que acometeu o mundo desde o fim da Guerra Fria.

Olhar as coisas de “um ponto de vista positivo”, neste sentido, não significa apenas olhar o lado “legal das coisas”. Significa a busca da eliminação das dimensões negativas (diria eu, quase no sentido dialético) da realidade.

Qualquer pessoa minimamente madura sabe que a negatividade é elemento essencial da preparação de uma pessoa pra vida adulta.

Os ruídos, as contradições, os fracassos, os momentos de desespero e de derrota nos ensinam mais do que o sucesso.

O sucesso, ao contrário, pode fazer de você uma pessoa retardada mental que pensa que tudo pode ser passível de enquadramento em alguns poucos passos “positivos”.

Esta forma de pedagogia positiva descende direto de um utilitarismo degradado.

O utilitarismo é uma escola ética britânica, de enorme impacto no mundo contemporâneo, que define o bem como a aquisição de bem-estar para a maioria da população.

Nada contra. Quem quer sofrer, afinal de contas?

O problema da aplicação sistemática e absoluta do utilitarismo, já apontado por críticos da teoria, como Aldous Huxley (1894-1963), é que ele desumaniza o homem na medida em que o torna escravo de “mais bem-estar”. Nesse processo, chegamos ao ponto de abrir mão de qualquer coisa que não some a esse aumento de bem-estar.

O resultado é que nos transformamos em retardados alegres.

E aí voltamos à pedagogia positiva. Ao negar sistematicamente a contradição e a negatividade na experiência da formação, nos juntamos à já crescente tendência de recusa do amadurecimento, presente no utilitarismo absoluto, que anda passo a passo com o chamado empoderamento do consumidor, que é, em si, uma criança velha exigindo sua satisfação contínua.

A negatividade, compreendida como a experiência do contraditório e do incontrolável pelo meu desejo de felicidade narcísica, ao ser eliminada da equação pedagógica, reduz a educação a um vazio de humanidade.

A humanidade é muito mais humana no contato com a negatividade do que com a positividade.

Aquela nos ensina os limites e os fracassos (e a vida é cercada pelo fracasso), esta nos ensina que Papai Noel tem sempre nosso nome em seu coração. Depois, quando encontramos esses jovens por aí e os chamamos de milênios chatos e mimados, não lembramos que nós os ensinamos a incapacidade de lidar com a negatividade.

Esta incapacidade habita o vazio de nossos corações de adultos imaturos a abraçar árvores por aí.
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*Pernambucano, é escritor, filósofo e ensaísta. Doutor em filosofia pela USP, é professor da PUC e da Faap. 
Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2018/04/pedagogia-positiva.shtml 

sábado, 7 de abril de 2018

Nós os equilibristas

Lya Luft*

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Quem nunca tentou ou ficou mesmo se equilibrando em cima de um muro estreito, e alto, ou até num arame emocional, mental, econômico ou físico? Dificilmente, alguém escapou disso, ainda que em curto período da vida, um momento que fosse. 

Quando menina, na minha amada escola (o Colégio Mauá, em Santa Cruz), os exercícios físicos na hora da então chamada ginástica eram, às vezes, arriscados. Caminhar sobre uma trave, eventualmente colocada beeeem alto, por exemplo, era quase impossível para quem, como eu, sem ninguém saber, tinha nascido com um problema que lhe dificultava um equilíbrio mais preciso. 

Eu treinava em casa, no pátio, nas beiradinhas de alguns canteiros do jardim ou da horta, muretinhas muito baixas, que me deixavam mais confiante, mas não mais bem-sucedida. Mais tarde, eu aprenderia que na vida também andamos em círculos, ou às tontas, ou afundando, ou voando, ou, mais vezes, precisando achar equilíbrio: amo ou detesto? Cumpro ou desobedeço (minha opção preferida quando jovenzinha)? Finjo por cortesia ou sou realista? Sigo meu sonho e fico olhando as nuvens deitada na grama ou vou para o quarto fazer o tema? Obedeço à mãe e apago a luz do abajur ou boto um casaco diante da fresta da porta e fico com meus amigos livros até o sono de verdade vencer... quando já se escutavam na rua os cascos dos cavalos da carrocinha do verdureiro, do leiteiro, ou, mais cedo ainda, o incrivelmente consolador canto dos primeiros galos - e eu seguia, mentalmente, os lugares de onde um chamava, outro respondia, mais outro... 

Tenho pensado nessas opções, que se tornariam muito mais graves e difíceis com o correr do tempo: o que eu imaginava ser a maravilhosa liberdade de ser adulto revelou-se uma série de escolhas, crescer era assumir mais responsabilidades. Mais ou menos me adaptei, e aos trancos e barrancos vim até onde estou hoje, filhos criados, netos amados, nascimentos felizes e mortes difíceis, mais livros escritos do que seria aconselhável, algumas telas pintadas, viagens, experiências, amizades maravilhosas, decepções agudas, calmarias fugazes, enfim, tudo o que cabe numa vida humana. 

E quando reviso na memória ainda muito eficiente alguns momentos desse percurso, vejo quantas vezes precisei, com ou sem sucesso, andar em cima daquela trave dos tempos de escola, ou até de um espantoso arame emocional, daqueles de circo sem rede embaixo. 

Muitas vezes, fracassei: em algumas, consegui. E hoje, nestes dias todos, nós, o país inteiro, seja de que lado for - se é que ainda sobrevivem esses conceitos maniqueístas bastante burros (na minha opinião de mera ficcionista) -, estamos numa altíssima mureta, quase um arame ou cabo: um pouco de sensatez vai fazer bem. Bastante humildade, idem. Algum realismo, melhor ainda. Desejo de paz, acima de tudo, para que se possa começar a construir, em vez de querer escapar para outras terras onde sempre seremos estrangeiros. 

Meu amor pela minha pátria perdurou e cresceu desde quando, menina do interior, eu me emocionava às lágrimas nos feriados cívicos, cantando o Hino Nacional, cheia de confiança e fé: salve lindo pendão da esperança.
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* Escritora. 
Fonte:  http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=5deb6d6f8347cf98aa1e79ed08294e65 
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sexta-feira, 6 de abril de 2018

O PROCESSO

José de Souza Martins*
 Carvall

Na direita, assim chamada, milhões de brasileiros desiludidos e alienados querem Lula na cadeia já. Nem mesmo percebem que a Justiça processa Luiz Inácio, não Lula, que são diferentes personificações do processo político. No extremo oposto, outros milhões de brasileiros irados e também alienados pressupõem que crime de esquerda não é crime e querem seu herói livre da possibilidade de prisão para que volte ao poder.

Entre os extremos, há o silêncio do processo, quebrado apenas no vozerio dos julgamentos. A lei, que o sustenta, reconhece, mesmo a quem já condenado em segunda instância, o direito aos recursos nela previstos. É o mesmo direito que tem os que urram e berram por soluções extremistas e ilegais. Lei é lei. Berro é outra coisa, bem aquém da civilidade.

Para entender este complicado momento da história política brasileira, talvez seja o caso de reler "O Processo", de Franz Kafka. Luiz Inácio não é Josef K., a personagem do romance. Mas o é também. No cenário atual, todos somos Josef K. Todos fomos detidos e acusados naquela misteriosa manhã em que surgiam as primeiras informações do que veio a ser chamado de mensalão. Porque ou votamos nele ou não tendo nele votado reconhecemos a legitimidade de seu mandato. Na democracia é assim: simples e complicada.

Desde então, todos os dias, como Josef K., quando levantamos e nos preparamos para ir ao trabalho intuímos que o olho de um poder oculto nos diz que somos o avesso do que julgávamos ser. Urros e berros das multidões inquietas, de "direita" e de "esquerda", estão muitíssimo longe do drama político brasileiro e mesmo do drama pessoal de Lula.

Na pessoa do ex-presidente, somos interrogados sobre os mistérios do poder. E quanto mais respondemos, mais nos desculpamos e mais nos sentimos culpados. Falta saber culpados de quê. Os acusados e condenados da Lava-Jato sabem o que fizeram, mas os processos caminham com base em evidências indiretas, delações pela via torta da infidelidade, a obra dos manipuladores ocultos do malfeito.

Lula temeu a possibilidade desse momento. Revelou seu temor naquele documentário que João Moreira Salles fez a respeito de sua trajetória. Quando, já finalmente eleito presidente da República, declarou que queria ter meia hora para refletir sobre quem seria ele após a Presidência da República.

Ele intuía, no limiar da travessia, que, do lado de lá, já não seria ele mesmo. De certinho retrato de pintura acadêmica, sairia como retrato pós-moderno. Tudo sugere que ele temia o poder, com razão, justamente o contrário de seus milhões de constituintes, no PT e fora dele, que na alucinação política do mando, equivocadamente, achavam e ainda acham que o poder, sendo deles, pode tudo. Não pode.

Estas horas difíceis, que se iniciaram com o mensalão e tem seu apogeu cada vez mais dramático na Operação Lava-Jato, mostram que o poder não é a pessoa que o ocupa transitoriamente. O poder é o conjunto das instituições, das leis, a Constituição, os códigos, os funcionários da lei. O poder é sempre maior do que quem se deixa fascinar pela cadeira que o simboliza. O poder é performance e personificação. Lula está fora do poder, mas ainda se imagina nele, o que nele dificulta a ação política que dos políticos se espera.

No entanto, a Justiça vai, lentamente, mostrando-lhe quem manda. No STF vai ficando claro, também para Lula, que é a Justiça que decide quem ele é. Não a rua. Mesmo que a Suprema Corte decida que, por enquanto, ele não vai para a cadeia. Não irá para a cadeia não porque tenha direitos que outros não têm, mas porque a Justiça está sendo benevolente ao considerá-lo ficção do poder. Mesmo ganhando, sairá perdendo. Esse é o aspecto doloroso do processo.

A crua realidade da história faz isso com todos os que um dia são chamados a desempenhar um papel diferente daquele a que estavam acostumados. Numa sexta-feira chuvosa de 1889, dia 15 de novembro, dom Pedro II acorda imperador do Brasil e anoitece prisioneiro, sem destino, sem segurança nem mesmo sobre as condições de sobrevivência de sua família. Getúlio Vargas, que o PT já execrou e agora quer imitar, dormiu mal aquela noite de agosto de 1954, mas amanheceu presidente da República. Antes do café da manhã, do dia 24, estava morto com um tiro que dera no próprio peito.

Mesmo absolvido ao fim de um processo judicial que poderá ser longo, Lula estará condenado. Viverá todos os seus dias até lá temendo que lhe batam à porta, que o sucessor do japonês da Federal tenha ido buscá-lo. Até esse dia, se ele chegar, Luiz Inácio terá sido prisioneiro do tormento da incerteza. O condenado confinado atrás das grades invisíveis do seu próprio medo difuso, perguntando-se: medo de quê?
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* José de Souza Martins é sociólogo. Professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, autor de “Moleque de Fábrica” (Ateliê Editorial).
Fonte: http://www.valor.com.br/cultura/5434051/o-processo 06/04/2018

MEIA-IDADE


Eliana Cardoso*
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Felícia se afasta da janela. Tonteia. Perde o chão. Passa os dedos nos olhos e acende a luz. Abre a blusa na frente do espelho e avalia os dois peitos diferentes e a cicatriz em forma de meia lua que corta o esquerdo. Tira a blusa e inspeciona a pelanca pendurada entre o sovaco e o cotovelo. Podia sair na rua, tropeçar na frente de um carro que voa, levar um tiro. O nome do abismo é sossego. Espia a sacola de plástico na cadeira. Não é o que procura.

Outra vez se aproxima da janela e olha o céu de cores lentas. Pensa na princesinha no seu álbum de retratos, o que foi e nunca mais será, o João que a amou quando
mocinha, o que teve e não tornará a ter. Mistério é continuar a existir e ainda não ser tudo. A luz de muitas qualidades de amarelo esmaece atrás da vaga neblina de fuligem e fecha o intervalo entre dois nadas. Numa pancada negra, a chuva chorona, batendo contra o silêncio da casa fechada, desaba contra a vidraça.

Felícia se assusta e considera o que está acontecendo com ela: esse vazio, esse tédio, a insatisfação que não passa, a reconsideração dos erros do passado, esse desejo de morte. Depressão, diriam muitos. Crise da meia-idade, diriam outros: sem hora marcada para chegar ela atormenta muita gente depois dos 50.

O abalo da meia-idade é o tema que Kieran Setiya explora com grande sabedoria no seu excelente "Midlife: A Philosophical guide" (Princeton University Press).

Setiya ensina filosofia no MIT e seu trabalho se concentra nas áreas de ética e epistemologia. Autor dos livros: "Practical Knowledge", "Reasons without Rationalism" e "Knowing Right From Wrong", seu "Midlife" recebeu muitos elogios. Ele descreve "Midlife" como um livro de autoajuda, inspirado na tentativa de diminuir o próprio desconforto. Aos 35 anos, insatisfeito, sofrendo de nostalgia, arrependimento, vazio e medo, via no futuro apenas a aposentadoria, o declínio e a morte.

A reflexão de Kieran Setiya nos serve a todos. Por que? Não importa a idade, estamos sempre no meio do caminho de nossas vidas sob a perspectiva de quem considera o futuro e reflete sobre o passado. Vale a pena viver?

Algumas pesquisas afirmam que as pessoas ficam mais felizes à medida que envelhecem, dando credibilidade à visão de Aristóteles de que atingimos a vida plena depois que o corpo alcança seu apogeu aos 35 anos e a mente encontra seu desenvolvimento mais completo aos 49.

Outros estudos afirmam que existe uma "Curva em forma de U" para a felicidade: somos mais felizes quando jovens, infelizes no meio do caminho e felizes outra vez na velhice. "A merda acontece na meia-idade", escreve Setiya. O jovem superestima a felicidade futura, enquanto a pessoa de meia-idade duvida da possibilidade de ser feliz na velhice. Quem sabe poderíamos evitar crises da meia-idade calibrando nossas expectativas?

Na meia-idade também nos perguntamos sobre as escolhas feitas no passado. Setiya examina sua decisão de se tornar professor de filosofia em vez de médico e decide que arrependimentos refletem uma apreciação saudável e multidimensional da nossa história. Mas a possibilidade de uma existência sem perdas tornaria nossas vidas mais rasas. Por causa do "efeito borboleta", a alternativa não escolhida implica num mundo que exclui muitas coisas que valorizamos.

Para muitas pessoas, a proximidade crescente da morte é a pior coisa da idade. Setiya sugere a superação do medo da própria morte através da reconciliação com a morte de um amigo. Considera também o consolo proposto por Epicuro: é irracional se preocupar com a morte enquanto se está vivo e, uma vez morto, você já não terá como se preocupar. E lembra a reflexão de Lucrécio: não conhecemos a vida e a história antes de nosso nascimento e o tempo depois da morte não deveria nos alarmar mais do que aquele que existia antes do nosso nascimento. Estou com Lucrécio. E mais. Acredito que, não passando de um átomo no fluxo inesgotável do universo, o passado está em mim, como estarei nos que hão de viver no futuro.

Embora Setiya identifique uma variedade de diferentes crises da meia-idade e uma variedade de maneiras pelas quais a filosofia pode ajudar a lidar com elas, sua tese mais fundamental está vinculada à análise de dois tipos de comportamento.

Existem duas maneiras fundamentalmente diferentes de conceber as atividades em que nos envolvemos. Muitas vezes as consideramos como direcionadas a um objetivo a atingir. Acontece que o plano bem-sucedido tem um fim. Tirar uma nota boa em um exame ou publicar um livro são projetos com conclusão. Nas atividades dirigidas por um objetivo, você acaba por colocar um ponto final à sua interação com algo bom, como se fizesse amigos para se despedir deles. A essas atividades Setiya chama de atividades "telic" (orientadas para a completitude).

Essas atividades, que constituem grande parte de nossas vidas, têm um lado paradoxal e autodestrutivo. Por exemplo, você estuda para passar nos exames da universidade. Há duas possibilidades. Até agora não conseguiu alcançar seu objetivo, e seu desejo continua frustrado. Ou conseguiu passar nos exames, e deixando de ter um propósito, sente tédio. Desta forma, segundo Arthur Schopenhauer, estamos condenados a oscilar entre a dor do desejo insatisfeito e o tédio de sua satisfação.

O reconhecimento desta verdade deprimente é um elemento central na crise da meia-idade. Mas não estamos condenados a esse destino, diz Setiya. Pois nem todas as atividades são "telic". Muitas atividades não são direcionadas para a conclusão de alguma tarefa ou para a realização de um objetivo. Se posso caminhar para colocar uma carta no correio, também posso simplesmente caminhar, dando um passeio, sem nenhum objetivo. Nesta atividade "atelic", posso encontrar valor no que estou fazendo, sem conceber esse valor como dependente de um fim além da própria atividade.

É possível colocar a maioria de nossas atividades sob uma perspectiva "telic" ou "atelic". Posso ver a atividade de escrever esta coluna com o objetivo de publicá-la ou posso vê-la como oportunidade para a valiosa atividade de pensar sobre a vida, uma atividade que não termina com a publicação da coluna. Desta forma, a resposta ao desespero de Schopenhauer seria uma mudança de perspectiva: apreciar o valor "atelic" de cada atividade e, assim, viver no presente.
É verdade que todo ser humano se encontra entre o passado e o futuro, mas a deliberação sobre o futuro domina a juventude, e o exame do passado, a velhice. Por isso, seria na meia-idade que a consciência da dupla temporalidade se faz mais presente. Essa consciência pode desencadear uma crise. A crise, portanto, revela que as satisfações da juventude e da velhice podem ser ilusórias. Tais satisfações "dependem da falta de consciência da natureza da vida presa no fluxo do tempo", diz o professor de filosofia da Universidade da Califórnia, Karl Schafer, (na sua resenha de "Midlife" no Los Angeles Review of Books).

Neste caso, continua Schafer, a pergunta que Setiya de fato tenta responder não é se vale a pena viver, mas como podemos entender o valor da vida dada que ela é passageira. A avaliação na maturidade da natureza da vida, presa entre o nascimento e a morte, nos deprime. Neste caso, a receita "viver no presente" lembra as ilusões saudáveis da juventude: uma técnica para evitar a verdade trágica da nossa existência; uma forma de viver, não com a verdade, mas apesar da verdade.

Schafer pode estar certo e, ainda assim, "Midlife", sendo leitura leve, é ela mesma boa terapia. Setiya combina acuidade, franqueza e humor. Enriquece seus argumentos não apenas com a contribuição de filósofos como Aristóteles e pensadores, como Schopenhauer e Montaigne, mas também com os achados de poetas e romancistas, como Philip Larkin, Virginia Woolf e Kurt Vonnegut. Difícil encontrar um filósofo capaz de escrever um livro tão breve e atraente. Talvez Felícia encontre ali a saída que procura.
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*Eliana Cardoso, economista e escritora, escreve no jornal Valor Econômico.
E-mail:eliana.anastasia@gmail.com
Fonte: http://www.valor.com.br/cultura/5434027/meia-idade 06/04/2018
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terça-feira, 3 de abril de 2018

“Cioran e a vertigem da liberdade”

 https://emcioranbr.files.wordpress.com/2018/04/777808.jpg?w=1280&h=827&crop=1

 Cioran

Rodrigo Inácio R. Sá Menezes

“O bem-sucedido em tudo é necessariamente superficial. O fracasso é uma versão moderna do nada. Ao longo da minha vida, estive fascinado pelo fracasso. Um mínimo de desequilíbrio impõe-se. Ao ser perfeitamente sadio física e psiquicamente falta um saber essencial. Uma saúde perfeita é a-espiritual.” (Entrevistas com Sylvie Jaudeau)

“O despertar independe das capacidades intelectuais: pode-se ter gênio e ser um néscio, espiritualmente falando. Por outro lado, não se está nem um pouco mais avançado com o saber enquanto tal. ‘O olho do Conhecimento’ pode ser possuído por um iletrado, que se encontrará portanto acima de qualquer sabichão. Discernir que o que és não é tu, que o que possuis não é teu, não ser mais cúmplice de nada, nem mesmo de tua própria vida – eis o que é ver com justeza, eis o que é descer até a raiz nula de tudo.” (Le mauvais démiurge)

“Quem és?” — Sou um estrangeiro para Deus, para a polícia, para mim mesmo.” (Le mauvais démiurge)

Cioran tinha duas obsessões aparentemente díspares, entre tantas outras: uma era o Japão e a cultura japonesa; a outra a vida mendicante, a indigência.
O que há em comum entre elas? Em primeiro lugar, o desejo irrefreável de uma liberdade sumamente trágica, pois no limite fadada ao fracasso: entra em rota de colisão com o “paradoxo sólido” do necessário reunido ao impossível (definição do trágico de Jankélévitch). Tanto o mendigo quanto o sannyasin budista são figuras do extremo desprendimento por vias distintas, do abandono do eu com ou sem melancolia, com ou sem ressentimentos.
É conhecida a anedota (verídica) que Cioran conta a Fernando Savater a respeito do mendigo (e músico de rua) de quem se tornou amigo, e que o visitava de vez em quando. Nunca é demasiado citá-la:

“Durante anos recebi a visita de um mendigo que vinha me fazer perguntas sobre Deus, sobre a matéria, sobre o mal, etc., às quais, claramente, eu não podia responder. Levava essas perguntas dentro dele, revirava-as em todos os sentidos, confundia-se com elas. Não conheci ninguém mais possuído, mais tomado pelo insolúvel e o inextricável. Um dia, num momento de desalento, me confessou que merecia a sua condição, que era um mendigo e nada mais, e que tanto o seu modo de existência como as suas obsessões lhe pareciam igualmente desprezíveis. Para levantar o seu ânimo, lhe disse de imediato: ‘Sabe, para mim você é o maior filósofo de Paris neste momento.’ Ele me olhou meio atônito e pensou que eu gozava da cara dele. Mas havia em minhas palavras um tom de sinceridade que não lhe escapou e que deve tê-lo impressionado. Depois, suas visitas se esparsaram até cessarem por completo. Ainda está vivo? Morreu? Não sei. A vantagem de não ter domicílio é poder desaparecer se deixar rastros. Este é o privilégio do mendigo.
Aquele homem é, ou era, verdadeiramente um filósofo. E talvez eu também seja um pouco, na medida em que, a favor dos meus males, eu me atarefei em avançar sempre a graus mais elevados de insegurança. (carta-prefácio a Fernando Savater, 22 de outubro de 1973)

A existência do Mendigo inominado é atestada por amigos de Cioran e também nos seus Cahiers. A julgar pelo ideal de biós philosophikós que se depreende de seus escritos, um ideal de filosofia nas antípodas da Academia (existencial, vivida, experimental, marginal, andarilha, indigente), não há razão para suspeitar de mentira, por complacência ou piedade, da parte do anfitrião. Cioran compreende muito bem o mendigo e a distância que o separa da maioria de nós. Ele não se permite ilusões nem a respeito dele, nem do seu antípoda, o burguês. Ou o filósofo catedrático e hierático que se julga o último dos sábios por estar munido de mil teorias, por sua erudição livresca. Ou sobre si mesmo (sendo isto o mais difícil).

É difícil admitir que haja algo na existência do mendigo que possa nos fazer alguma falta. Não se venera um mendigo: um excluído, um ninguém, um nada. O mal do mendigo é que a sua indigência é muitas vezes imposta, e sempre mal vista. Uma questão de condição, não de opção. É um pária. O mendigo conhece como ninguém a experiência da precariedade e da contingência. Que planos fazer? Que projetos? O que será do dia de amanhã? Outra maneira de dizer que o mendigo detém uma liberdade vertiginosa, mas não pode dar-se conta dela, tampouco aproveitá-la. Possui todo o tempo do mundo, mas não tem em que investi-lo. É a contrapartida negativa de sua liberdade. Se ao menos soubesse meditar, pois rezar não vai mudar sua situação. Quanto mais livre, menos expansivo, menos abundante, menos próspero o homem. A riqueza, o poder, a fama, a ascensão: tudo isso escraviza e cega o indivíduo em relação a suas próprias dimensões.

“A fonte de nossos atos reside em uma propensão inconsciente a nos considerar o centro, a razão e o resultado do tempo. Nossos reflexos e nosso orgulho transformam em planeta a parcela de carne e de consciência que somos. Se tivéssemos o justo sentido de nossa posição no mundo, se comparar fosse inseparável de viver, a revelação de nossa ínfima presença nos esmagaria. Mas viver é estar cego em relação às suas próprias dimensões…” (Breviário de decomposição)

E mais:

“Enquanto um ser ascende, prospera, avança, não se sabe quem ele é, pois sua ascensão o afasta de si mesmo, rouba-lhe realidade, e assim ele não é. Do mesmo modo, só nos conhecemos a partir do momento em que começamos a decair, quando o êxito, ao nível dos interesses humanos, se revela impossível: derrota clarividente graças à qual, tomando posse de nosso próprio ser, nos separamos do torpor universal.” (História e utopia)

Numa sociedade do apego, da ninharia, da ganância, do consumismo patológico, da obsessão pela eficácia e pelo sucesso (numa palavra: da ilusão), só o mendigo é livre — sumamente, vertiginosamente, terrivelmente. Muito embora tenha escolhido uma vida modesta longe do mainstream, na sombra da marginalidade e do anonimato, Cioran sabia que, enquanto formos uma realidade composta de corpo e consciência de si, seremos sempre mais ou menos escravos (sendo a definição do escravo esperar, contar com algo, uma recompensa ou o que quer que seja), réprobos, non-délivrés (“não-libertos”). A Ilusão é nossa primeira pele (esta, no caso, uma “pele metafísica”): variação fisiológico-cioraniana sobre o Véu de Maia. Não fomos feitos para uma experiência otimizada da liberdade com que a Natureza nos privilegiou. Cioran sentencia que “na realidade, só podemos optar entre uma vontade doente e uma vontade má; a primeira, excelente, porque atingida, imobilizada, ineficaz; a outra, nociva, logo turbulenta, investida de um princípio dinâmico: a mesma que alimenta a febre do devir e suscita os acontecimentos.” (História e utopia)

“Contar seja com o que for, aqui ou alhures, é dar prova de que ainda se arrastam cadeias. O réprobo aspira ao paraíso; e esta aspiração o rebaixa, compromete-o. Ser livre é desembaraçar-se para sempre da ideia de recompensa, é não esperar nada dos homens nem dos deuses, é renunciar não somente a este mundo e a todos os mundos mas à própria salvação, é romper inclusive com a sua ideia, esta cadeia entre as cadeias.” (Le mauvais démiurge)

A condição humana “enferma”, segundo Nietzsche, tem a ver com a natureza desmedida e temerária do homem: o animal que mais ousa, improvisa, experimenta consigo mesmo e com os outros, introduzindo em sua própria existência a novidade e o risco. “Risco glorioso, talvez”, observa Clément Rosset, “pois é a marca específica do poder humano sobre a natureza, mas risco perigoso: o homem está armado com um imprevisível poder de intervenção que lhe permite simultaneamente consolidar e arruinar as construções naturais. No cume da escala dos seres, o homem reintroduz, por um ligeiro aumento de poder cujo nome é liberdade, um elemento de incerteza que a natureza, ao conquistar a matéria, conseguira riscar do mapa das existências” (A anti-natureza).

Quanto ao mendigo, pode-se ter certeza de que ele não vai ser causa de nenhum acontecimento, vai deixar o mundo tal e qual o encontrou. O máximo que pode fazer é defecar na via pública. Mas até aí, não tem outro lugar para fazê-lo. A chave para a compreensão do interesse de Cioran pela indigência, encarnada pelo Mendigo, encontra-se nesta observação de Paulo Ferrareze: “Se, por um lado, o mendigo é alguém que nega parte da vontade de poder pelo anonimato, por outro, escolher a indigência pode ser uma manifestação do poder de se tornar aquilo que se deseja. Se o ‘Torna-te o que tu és’, da Antiguidade até Nietzsche, acerta, é preciso perguntar: qual o exercício de poder que faz o mendigo quando resolve sê-lo?” (“A indigência dos corpos”, Carta Capital, 14/01/2016). Permite compreender também a distância entre Cioran e Nietzsche, ao menos a partir do Breviário de decomposição (1949), os fatores que levariam o jovem estudante de filosofia nietzscheano a tornar-se um Docteur ès Négations.

Excluído, Réprobo, “Exilado metafísico”, “Traidor Modelo”, “Homem-fora-de-tudo”: longe de serem signos do ressentimento, são as expressões de uma paixão inextinguível do despojamento, da precariedade, da insegurança, da nudez interior, a despeito de si mesmo. Cioran sonha em “abandonar tudo sem saber o que representa esse tudo; isolar-se de seu meio; repelir – por um divórcio metafísico – a substância que te modelou, que te cerca e que te sustenta.” (Breviário de decomposição) Não há debilidade aqui, senão volúpia e entusiasmo, uma paixão violenta – e liberadora – da negação como forma de “pensar contra si”, para acertar-se consigo mesmo.

E o Japão? Mencionei a figura ascética do sannyasin, que não se restringe ao Japão, nem ao budismo (pertence também ao hinduísmo). Mas há outro elemento inerente à cultura japonesa que se relaciona ainda mais diretamente ao significado existencial do Mendigo no Ocidente na visão de Cioran. Não se sabe se ele tinha conhecimento deste fenômeno tipicamente japonês, mas é certo que teria lhe interessado sobremaneira: Jōhatsu, que significa “pessoas evaporadas”, “sumidas de repente”, não mortas, não desaparecidas por sequestro ou outro crime não solucionado. Há um filme japonês de 1967, intitulado Ningen Jōhatsu (“Um homem esvanece”), e um livro francês sobre o tema, cujos autores passaram anos investigando: The Vanished: The “Evaporated People” of Japan in Stories and Photographs (2016), de Léna Mauger e Stéphane Remael.

Trata-se, literalmente, de desaparecer sem deixar rastros, a exemplo do relato de Cioran sobre o Mendigo que lhe prestava visitas. Não se sabe que fim levou aquele amigo do filósofo de Rășinari. Qual terá sido o motivo do seu sumiço? Chateou-se com Cioran? Achou que zombava dele? Jōhatsu é um problema social sério no Japão. Uma das principais causas da sua escolha é a vergonha pela humilhação. Muitos costumam desaparecer caso percam o emprego, fracassem no casamento ou contraiam uma dívida que não possam pagar. Estas pessoas abandonam as suas velhas identidades para começar uma nova vida a partir do zero, no anonimato, invisíveis, em suas novas identidades falsas, aos olhos dos que ficaram para trás.

Não é o caso de romantizar o que é triste e lamentável. O que é precioso a respeito do jōhatsu não é a prática em si, mas o que ela pressupõe historicamente em termos morais e espirituais. Cioran amava o budismo e, se há uma religião que ele teria abraçado, caso tivesse vocação para aderir ao que quer que seja, seria esta. Sua “inaptidão orgânica” para a fé não se aplica somente ao cristianismo; ela o impede de converter-se a qualquer religião. Como Nietzsche, ele considera o budismo uma religião mais evoluída, e mais refinada, em termos práticos, do que cristianismo. Jesus mesmo não entra em questão; a crítica volta-se à igreja, à religião instituída e traduzida na história: “Toda religião que faz pacto com a história distancia-se das suas raízes. Tal é o caso do cristianismo que, na origem, estava impregnado de renúncia, mas, na sequência, verdadeira traição, transformar-se-ia em religião conquistadora” (Entrevistas com Sylvie Jaudeau).

Em Le mauvais démiurge (1969), ele afirma que o cristianismo peca por “assimilar a divindade a uma pessoa”, preconizando a ideia de um “Deus pessoal” que te conhece e se importa com você, enquanto individuo singular e especial. “É lamentável, é degradante assimilar a divindade a uma pessoa. Esta jamais será uma ideia nem um princípio alheio para quem pratica os Testamentos. Vinte séculos de altercações não se esquecem da noite para o dia” (Le mauvais démiurge). Eis, segundo Cioran, a causa do apego ao “eu” (ego), do antropocentrismo, do especismo, do titanismo galopante do Ocidente. Ateísmo, niilismo: consequências da tendência a preencher a ideia de absoluto com um conteúdo humanizado, já que não podemos admitir que o Essencial não tenha nada a nos dizer, nada com que possamos nos identificar, enquanto pessoas, sujeitos, humanos demasiado humanos. A entrevista a Sylvie Jaudeau serve de comentário à passagem de Le mauvais démiurge:

“Mesmo o descrente aspira a conversar com o ‘Único’, pois não é fácil se relacionar com o nada. O budismo elude essa dificuldade, pois não está baseado, como o cristianismo, no diálogo. Deus não lhe é necessário. Só conta a consciência do sofrimento. Essa forma de espiritualidade é a mais aceitável para uma humanidade assombrada pela ruína mais ou menos iminente.” (Entrevistas com Sylvie Jaudeau)

Cioran simpatiza com o cristianismo, ou qualquer religião, até quando deixa de preconizar a renúncia e o despojamento para tornar-se um poder temporal instituído, e um sistema fechado. “A teologia é a negação de Deus”, escreve o jovem autor de Lacrimi şi sfinţi (1937) nos cumes de uma crise religiosa marcada pela tentação da santidade. E prossegue:

“Que ideia descabelada a de buscar argumentos para provar sua existência! Todos os seus tratados valem menos do que uma exclamação de Santa Teresa. Desde que a teologia existe, nenhuma consciência ganhou com ela uma só certeza, pois a teologia não passa da versão ateia da fé. O menor balbucio místico está mais próximo de Deus que a Suma Teológica. Tudo o que é instituição e teoria deixa de estar vivo. A Igreja e a teologia asseguraram a Deus uma agonia duradoura. Só a mística o reanima de tempos em tempos.” (Lacrimi şi sfinţi)

Além da mística, onde mais Cioran descobre um vislumbre da divindade? Na música (e em especial a de Bach, “geradora de divindade”), a arte afirmativa, criadora por excelência, na qual não entra nem um pingo de ceticismo, nem de cinismo (cf. “Música e ceticismo”, Breviário de decomposição). Negando todo fundamento racional à existência de Deus, ele revela o seu lado fideísta. Se o fideísmo e o racionalismo foram considerados historicamente duas heresias e ameaças diametralmente opostas à doutrina cristã, poder-se-ia talvez conceber a atitude fideísta como uma tendência antirracionalista ou irracionalista em matéria de teologia, em matéria da relação entre fé e razão. Ou no minimo cética. A razão desmente Deus; Deus humilha e aniquila a razão, não submetendo-se às suas leis e exigências.

Voltemos ao Mendigo que visitava Cioran. Ele não levou a sério a afirmação de que era o maior filósofo de Paris naquele momento de dúvida. Talvez estivesse demasiado convencido de sua insignificância, talvez não pudesse adivinhar a personalidade “heterodoxa” do interlocutor estrangeiro. Que ele de fato valorizasse a indigência, que se lamentasse por não poder despojar-se de tudo para buscar o deserto ou o monastério, que preterisse as respostas à busca infinita, as certezas à Dúvida, tendo escrito: “Entrego-me ao prazer de estar desenganado; acima da Dúvida só coloco a satisfação que proporciona…” (Breviário de decomposição) O filósofo sem respostas, instalado em sua pequena mansarda na rua l’Odéon, lhe era tão insondável quanto o Mendigo o era para o anfitrião. Ali estava alguém, aquele homem cheio de dúvidas sobre Deus, a matéria, a morte, o mal, sem saber que as respostas para suas questões estavam na experiência concreta e vivida de suas dúvidas mesmas, na vertigem do pensamento que busca infinitamente sem alcançar nada de definitivo, nada de último.

Tanto o mendigo quanto o sannyasin representam o oposto da figura em pauta em um dos ensaios de História e utopia, “Escola de tiranos”. Um e outro encontram-se nas antípodas daquele que é tentado a ser “o primeiro na cidade”; inclinam-se antes encarnar a existência do último homem, o avesso do homem político, ambicioso, conquistador, manipulador, no limite um tirano:

“Para tornar-se um homem político, isto é, para ter as qualidades de um tirano, é necessário uma perturbação mental; para deixar de sê-lo, impõe-se outra perturbação: não se tratará, no fundo, de uma metamorfose de nosso delírio de grandeza? Passar da vontade de ser o primeiro na cidade à de ser o último nela, é substituir, através de uma mutação do orgulho, uma loucura dinâmica por uma loucura estática, um gênero de insanidade tão insólito quanto a renúncia que o precede, e que tendo a ver mais com o ascetismo do que com a política, não faz parte de nossos propósitos.” (História e utopia)

O homem é tão inapto a estar satisfeito de si quanto de estar sozinho e, mais do que isso, saborear a solidão, o solilóquio. Fernando Pessoa, no Livro do desassossego, escreve que “se não podes estar só, nasceste escravo.” É na solidão que se alcança o outro em profundidade, naquilo que possui de essencial (palavrinha de Cioran). E Cioran: “A única experiência profunda é a que se realiza na solidão. Aquela que resulta de um contágio permanece superficial — a experiência do nada não é uma experiência de grupo” (Entrevistas com Sylvie Jaudeau). Felicidade e liberdade são praticamente excludentes. A exemplo da lenda do “Grande Inquisidor”, as pessoas optam em grande parte dos casos pela primeira termos em detrimento da segunda. A História, Queda no tempo, é a história de nossos fracassos no absoluto, de nossa sempiterna inapetência à realização. “A história, espaço onde realizamos o contrário de nossas aspirações, onde as desfiguramos sem cessar, não é, evidentemente, de essência angélica. Ao considerá-la, só concebemos um desejo: promover a agrura à dignidade de uma gnose.” (História e utopia)

Cioran lançou-se loucamente, lucidamente, em busca da liberdade, mesmo que ela viesse com a vertigem e, talvez, o naufrágio. Liberdade que confunde-se com um fracasso existencial, senão metafísico. Liberdade que sempre se acompanha da sombra da ilusão autoconsciente: “Sinto que sou livre, mas sei que não sou.” Ela não é conquistada impunemente: é preciso engolir muito sapo, passar por humilhação, vergonha, passar muito aperto, adaptar-se à precariedade para mantê-la. Por isso fez o necessário para permanecer incompreendido e obscuro, sendo fiel à regra de ouro: “deixar uma imagem incompleta de si mesmo” (Aveux et anathèmes). Por isso também buscou a marginalidade, as periferias, mantendo-se à l’ecart (“Il faut se tenir à l’écart”, diz Beckett), recusando prêmio atrás de prêmio (mesmo se viessem acompanhados de milhares de francos), assim como a celebridade midiática, a fama, o espetáculo literário…

A liberdade é, para mim, o direito de ser herético. Eu não poderia viver num estado no qual vigora uma filosofia oficial; porque sou, por temperamento, um herético, e por isso mesmo um apóstata. A liberdade representa para mim não apenas a possibilidade de pensar diferentemente em relação aos outros, mas também de viver as próprias contradições, com desenvoltura. Onde não há liberdade é melhor ocultar as próprias contradições íntimas, e isso não é bom para o equilíbrio de uma pessoa. Se preferir, a liberdade é, para mim, simplesmente, a única forma de salvação. (Entrevista com Leonhard Reinisch, 1974)

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Fonte:  https://emcioranbr.org/2018/04/02/cioran-vertigem-da-liberdade/

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Francis Wolff, filósofo, define o conceito do amor em novo livro.

Francis Wolff

O filósofo francês Francis Wolff Foto: Edições Sesc

'Não Existe Amor Perfeito' chega ao Brasil pela Edições Sesc

Rodrigo Petronio*

Não Existe Amor Perfeito tem todos os ingredientes para capturar o leitor logo em um primeiro contato. Belo projeto gráfico das Edições Sesc, excelente tradução de Paulo Neves, ilustrações delicadas de Alexandre Camanho e o ensaísmo primoroso de seu autor. Professor emérito da École Normal Supérieure de Paris, Francis Wolff é um antigo conhecido dos brasileiros. Professor-visitante da USP, seus principais livros são publicados por aqui desde os anos 1980, dentre eles Dizer o Mundo e Nossa Humanidade: de Aristóteles às Neurociências.

Seria mais um guia de aprendizagem do amor? Um manual para os desnorteados afetivos? É tudo menos isso. Como é corrente em sua obra, Wolff consegue uma fina articulação entre as filosofias antiga e contemporânea, entre as categorização clássica e a metafísica do século 20. Para tanto, apoia-se sobretudo na filosofia analítica, na epistemologia (teoria do conhecimento) e na filosofia da linguagem. O resultado é uma obra que, com sensibilidade e extrema clareza, procura esgotar todas as definições e ambiguidades de um dos mais fundamentais afetos da humanidade.

As definições do amor não fogem à regra da dificuldade de todas as definições. As concepções universalistas e essencialistas não conseguem abranger a pluralidade de sentidos e experiências amorosas. E esse é um dos primeiros problemas para uma justa compreensão do conceito e do fenômeno do amor. Há definições que se apoiam em condições necessárias (sem as quais deixaria de ser amor) e em condições suficientes (aquelas que atendem ao mínimo exigido para o considerarmos amor). Contudo mesmo estas apresentam problemas. Nem todo amor cumpre os quesitos da necessidade. Nem toda suficiência é capaz de determinar sem margem de erro o que viria a ser o amor. 

Wolff então apresenta duas saídas: a teoria do protótipo e a teoria da categorização natural. A primeira é negativa: um contraexemplo não pode invalidar aquilo que é correntemente aceito como sendo amor. A segunda é positiva: as margens de um conceito não podem invalidar o centro do mesmo conceito. O que é marginal deve ser relevado em proveito das concepções nucleares. A partir dessas teorias, Wolff propõe o que seria uma maneira ideal de abordar o conceito. Essa forma situa o amor como protótipo no centro de um triângulo cujos vértices são o desejo, a paixão e a amizade. 
Não se trata de um triângulo amoroso, mas de um triângulo do amor. Nenhum desses componentes isolados representa o amor. Isso porque pode haver um desejo empenhado na aniquilação do outro. Pode haver paixão sem reciprocidade e cuidado. E pode haver amizade sem intensidade. Os vértices do triângulo são suas demarcações externas e não são amor. Ao passo que o amor pode existir de modo defectivo, ou seja, sem um destes componentes. Contudo a dialética do amor sempre se daria na tentativa de equacionar os três.  

O caso da amizade é o mais complexo. Ela implica uma reciprocidade que pode estar ausente no desejo e na paixão. A grande dificuldade é que em todas essas situações, não estamos diante de uma receita. Não nos cabe apenas mesclar esses elementos para termos a experiência amorosa. O amor exige uma instabilidade ontológica (relativa ao ser) desses três componentes. Por isso, a variabilidade infinita do amor em suas manifestações reais se relaciona à instabilidade mesma da dinâmica desses componentes.  

E aqui entra a tese de Wolff: essa heterogeneidade fluida entre desejo, amizade e amor inviabiliza a perfeição das obras e da vivência do amor. O amor não é uma substância, mas uma relação. Não apenas entre indivíduos. Também e acima de tudo entre esses componentes heterogêneos. Uma relação entre esses afetos que se sucedem, complementam-se e se invalidam mutuamente no drama amoroso. Como esses três componentes são distintos entre si, não há perfeição possível na estabilidade dessas entidades. A amizade é alegria. A paixão é vivacidade. O desejo é prazer. E a verdade é que no fundo ninguém pode dizer que um amor não seja verdadeiro na falta de uma dessas três figuras. 

O amor foi uma característica selecionada naturalmente em um sentido darwiniano?
Qualquer estado de espírito humano de certa maneira foi selecionado naturalmente, mas o que me interessa é que o amor não tem uma origem, mas três origens distintas. Amizade, desejo e paixão são completamente heterogêneas. Por isso, o que nós chamamos de amor é um estado absolutamente instável. Precisamos do lado antropológico da amizade, ou seja: há a necessidade para qualquer ser humano de fazer comunidades com outro ser humano, e a menor e mais estreita dessas comunidades é a amizade. O desejo tem outra fonte natural. Obviamente há a necessidade animal de ter relações sexuais, mas o caso do homem certamente se distingue dos outros mamíferos, porque se acompanha da representação, da ideia de beleza, e justamente pode se realizar não só como uma mera necessidade natural, mas pode se realizar no amor, ou seja, uma fusão íntima com amizade e paixão. Quanto à paixão, também é absolutamente humana, mesmo que não seja racional. Em um estado de exaltação próprio do homem, qualquer objeto pode ser objeto de paixão. São três manifestações naturais e a especificidade do amor é a mistura, a fusão íntima de pelo menos duas dessas manifestações naturais. 

Então o amor seria exclusivo da espécie humana?
Nesse sentido da palavra, sim. O que não significa que os animais não possam ter relações que, do nosso ponto de vista, se assemelham a amor. Mas no nosso caso o amor é a capacidade humana de desenvolver milhares e milhares de narrativas, de histórias, de literaturas, isso é um ponto muito importante e uma coisa dinâmica. 

É possível nutrir amor, nesse sentido estrito, por mais de uma pessoa ao mesmo tempo?
Eu tentei dar uma definição rigorosa, conceitual, mas não normativa. Nesse sentido, não tive como objetivo dizer: “esse é amor”, “esse não é”, “esse é o verdadeiro, autêntico amor”, “aquele é uma aberração” etc. Não me parece impossível em certos contextos que uma pessoa ame, de uma maneira diferente, com outra fusão desses componentes, duas pessoas ao mesmo tempo.  

Amores platônicos, inconscientes, doentios, não correspondidos também estão no triângulo?
É nisso que aposto. Qualquer forma de amor, por mais diferente que seja está dentro do mapa. Fora do mapa há muitas possibilidade de relação, mas dentro há qualquer mistura de componentes. Os três mudam a cada momento e não são os mesmos para os dois amantes, caso seja recíproco. Quando nos aproximamos dos lados do triângulo, aí temos o que eu chamo de amor defectivo, onde não há desejo, por exemplo, ou a paixão já se apagou, ou a amizade já não existe. São formas patológicas de amor, mas comuns. 

Definir o amor pode tirar o charme do assunto?
Foi isso que tentei evitar com exemplos literários. Acho que o papel da filosofia não é dar conta da intimidade, mas reduzir em conceitos e argumentos rigorosos as experiências pessoais que normalmente não se encaixam neles. 
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*Rodrigo Petronio é escritor e filósofo, professor titular da Faap e pós-doutorando do Centro de Tecnologias da Inteligência e Design Digital (TIDD/PUC-SP) - Especial para O Estado de S. Paulo
31 Março 2018 
Fonte: http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,filosofo-francis-wolff-define-o-conceito-do-amor-em-novo-livro,70002248700

Multiculturalismo no futebol deve se expandir em seleções europeias

Estátua de Eusébio, à porta do Estádio da Luz – Foto: P. Fernandes (Trebaruna) via Wikimedia Commons / CC BY 3.0

Tendência para a próxima Copa é que seleções europeias tenham mais jogadores de origem estrangeira



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Na Copa do Mundo deste ano, na Rússia, uma característica deverá ser comum em algumas seleções europeias: o caráter multicultural das equipes, com jogadores de origens diversas integrando algumas seleções nacionais. “Já na primeira Copa, em 1930, no Uruguai, a equipe da França contava com jogadores de origem argelina”, conta o jornalista Guilherme Silva Pires de Freitas, que estudou o tema em sua dissertação de mestrado apresentada na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP.
No estudo As seleções de futebol multiculturais da União Europeia, Freitas analisou os selecionados de quatro países – Alemanha, França, Holanda e Portugal – e verificou como as equipes nacionais destas nações foram mudando suas características básicas e introduzindo jogadores estrangeiros naturalizados. “Trata-se de um dos reflexos da globalização, mas há outras razões que levaram a este fenômeno”, analisa o pesquisador, destacando questões como a imigração, por exemplo.
A Copa realizada no Brasil em 2014 incentivou o pesquisador a empreender o estudo. A partir daí, Freitas reuniu dados de estatísticas de movimentos migratórios dos anos 1990 até os anos recentes, principalmente naqueles quatro países. “Mas também recorri aos anos 1960, quando de fato tiveram início as imigrações, coincidindo com os movimentos de independência de alguns países africanos e da Ásia”, destaca.

De onde vieram?


Equipe holandesa no Papendal. Da esquerda para a direita, Ruud Gullit, Ronald Koeman e Frank Rijkaard / Coleção de fotos Anefo via Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0 nl
Com os movimentos migratórios, muitos atletas passaram a ter o passaporte europeu e as seleções nacionais foram ganhando, cada vez mais, um caráter multicultural com os jogares que vinham de outras nações ou de colônias e ex-colônias.

Zidane, francês de origem argelina. A vitória francesa na final da Copa do Mundo de 1998 se deve a dois gols seus – Foto: Walterlan Papetti via Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0

Na França, como descreve o pesquisador, já atuaram pela equipe nacional jogadores da África Subsaariana e alguns atletas do norte da África, bem como jogadores de origem caribenha. A equipe campeã de 1998 era bem variada, segundo o pesquisador. No caso francês ele ressalta a criação, nos anos 1970, do Instituto Nacional do Futebol. “Contudo, para participar daquele projeto, o jovem tinha de ter nacionalidade francesa. Mas, houve casos de filhos e netos de argelinos, por exemplo, que passaram pelo instituto e voltaram ao país de origem dos pais”, conta.
A Holanda teve em alguns de seus selecionados jogadores de origem caribenha e do Suriname, na América do Sul. O primeiro caso naquele país de um atleta de origem estrangeira a integrar a seleção nacional foi na década de 1960. Depois, somente nos anos 1980, quando a lei ficou mais branda. Já na Alemanha, boa parte dos estrangeiros que chegou ao selecionado nacional era de origem turca e da Polônia. “E isso ocorreu principalmente após a Segunda Guerra Mundial”.

Os jogadores alemães Khedira (6), Boateng (20) e Özil (8) em Belo Horizonte, 2014 – Foto: Marcello Casal Jr / Agência Brasil via Wikimedia Commons / CC BY 3.0 br
Já Portugal recebeu atletas de suas ex-colônias, como Angola e Moçambique. Há atletas de origens estrangeiras que fizeram sucesso jogando pelos times nacionais de outros países, como Eusébio – nascido em Moçambique -, nos anos 1960, por Portugal. “O artilheiro das copas, Miroslav Klose, naturalizado alemão, nasceu na Polônia”, ressalta Freitas.
De acordo com o jornalista, na última Copa quase 77 atletas que disputaram pelos times europeus eram ou tinham origem de outros países. “Acredito que este ano este número seja ainda maior”, diz Freitas.

Lei Bosman

Outro fator que o pesquisador credita como influência para o fenômeno é a Lei Bosman. “Nos anos 1990, o futebol se internacionalizou, principalmente após o advento desta lei”, analisa o pesquisador. A Lei Bosman permitiu que futebolistas não fossem impedidos de jogar em outros países da União Europeia.
A Lei foi aprovada em 1995, cinco anos após Jean-Marc Bosman, um jogador belga, entrar na justiça e pedir que seu clube, o RFC Liège, o liberasse para que ele pudesse jogar no clube francês Dunkerque.
Para Freitas, há pontos positivos nesta integração que, segundo ele, mostra que o esporte está conectado com a sociedade atual e com o movimento de globalização. Mas há pontos negativos, como atitudes de cunho racista. “Vale ressaltar que quando a França venceu a Copa de 1998 o número de simpatizantes dos movimentos de integração racial cresceu”, destaca o jornalista. A pesquisa de Freitas foi apresentada no Departamento de Estudos Culturais da EACH, sob orientação do professor Luiz Gonzaga Godoi Trigo.
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Mais informações: Guilherme Silva Pires de Freitas, e-mail gui_sp_freitas@yahoo.com.br 
Fonte:  http://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-humanas/multiculturalismo-no-futebol-deve-se-expandir-em-selecoes-europeias/

A condição niilista

Luiz Felipe Pondé*
Ilustração de Cammarota para Pondé em 02.abr.2018

Não espero nada, não desejo nada, sou livre, dizia Kazantzákis. Este é o mais belo niilismo que conheço

O termo “niilista” se presta a muitos usos. De modinha para jovens que posam de niilistas pra dizer que são fodões e não padecem dos males dos fracos que creem em deuses, uma espécie de Meursault nutella (o personagem niilista de Camus no livro “O Estrangeiro”), até um uso filosoficamente mais consistente, e que merece nossa atenção e cuidado. 

No segundo sentido, o niilismo pode ser uma condição para a qual você “escorrega” mesmo sem ter plena consciência disso. Uso a expressão “condição niilista” para descrever este segundo sentido.

O niilismo é um termo que nos remete à ausência de fundamento da vida. “Nihil”, em latim, é nada. Essa ausência de fundamento da vida implica em ausência de fundamento para toda uma gama de valores que vão do bem e do mal a temas como a verdade e a mentira. 

Ao afirmar o nada como nossa origem e nosso fim, estaríamos de alguma forma afirmando nosso “parentesco” com esse nada, como algo que nos corrói desde a nossa raiz.

Na maioria dos casos, o niilismo vem acompanhado do ateísmo (não que ser ateu implique necessariamente ser niilista, ateus podem ser kantianos e sustentar a ética em decisões racionais públicas e privadas) e do relativismo (não existe verdade absoluta).

Mas, mesmo entre os crentes, o nada permanece no horizonte. Filósofos como o russo Nikolai Berdiaev (1874-1948), dostoievskiano, defendia que este mesmo nada —do qual saímos pelas mãos de Deus— nos acompanha e nos ameaça. 

Nesse sentido, Berdiaev afirmava que apenas uma vida criativa (um tanto nietzschiana), sem medo da espontaneidade, poderia nos distanciar desse nada que nos constitui.

Nada este que nos espreita não apenas com os olhos da morte, mas também com as garras do tédio, da banalidade, do vazio de sentido, enfim, da “queda no nada” como afeto do tornar-se inexistente, do afogar-se lentamente na irrelevância e na invisibilidade da vida moderna emancipada. As redes sociais, nesse sentido, são o paraíso dos irrelevantes histéricos (ele assim diria se as tivesse conhecido).

O niilismo é, assim, uma condição, não uma escolha. É um dado da “história” do homem, mais concreto do que uma “linha de pensamento” que escolhemos. 

Primeiro, porque ele está sempre presente quando uma pessoa é incapaz de experimentar a esperança no cotidiano. Você pode experimentar o niilismo mesmo que nunca tenha ouvido falar dele. Niilismo é o conceito filosófico irmão da melancolia. Sentir-se caindo na inexistência e na irrelevância é afogar-se no niilismo como realidade psíquica.

O niilismo exige cuidados, principalmente quando com ele se flerta em aulas de humanas, levando os alunos à conclusão de que caminhamos sobre um vazio de sentido e de fundamento moral

As religiões e a política, muitas vezes, vêm em socorro dessa ameaça, que hoje, com a transformação de tudo em produto, torna-se a cada dia mais presente no horizonte dos mais jovens.

Você pode, faceiramente, estar pregando o relativismo típico de antropólogos e sofistas sem se dar conta que seu ouvinte, caso ele seja uma pessoa honesta, corajosa e sincera (o que você muitas vezes não é porque está ali apenas pregando seu credo relativista “libertador de preconceitos”), facilmente chegará à condição niilista como consequência lógica e existencial do que ouve.

As pessoas têm medo do niilismo porque o associam à falta de moral. Niilistas não são confiáveis porque “comem criancinhas”. 

Do ponto de vista filosófico você teve, ao longo da história, três grandes atitudes niilistas diante da vida. Uma é a melancólica que tende à passividade. Uma outra é a “alegre” do tipo nietzschiana, afirmando a vida porque, justamente, ela é “nada”. Uma outra é a russa, de teor político, que desaguou na revolução comunista.

Nikos Kazantzákis (1883-1957), escritor grego, dizia: “Não espero nada, não desejo nada, sou livre”. Esta é a forma mais bela, entendo eu, de afirmar o niilismo como modo de vida. Mas a condição niilista exige cuidados, e não estamos prestando muita atenção em como esta condição tem tomado corpo entre os mais jovens.
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* Pernambucano, é escritor, filósofo e ensaísta. Doutor em filosofia pela USP, é professor da PUC e da Faap. 
Ilustração de Cammarota para Pondé em 02.abr.2018 - Cammarota 
Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2018/04/a-condicao-niilista.shtml