segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Procura-se um Amigo

 Edson Athayde*

“Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. (…) Não é preciso que seja de primeira mão (…).” *

Um dia, você está num quarto de hotel qualquer, de uma cidade qualquer, de um país qualquer que não o seu, e há uma janela que não dá direito a uma paisagem bonita. Nessa cidade, onde você não conhece ninguém, nem tem vontade de conhecer, não há monumentos com história que compense a visita, nem restaurantes incensados pelo Guia Michelin, nem uma praia onde as pessoas aplaudem o pôr-do-sol. Nesse dia, nessa noite, nessa hora você lembra-se dos seus.

“Os seus”, interessa-me perceber melhor essa expressão. Creio que “os seus” pode incluir a família directa mas isso é redutor. Há quem não tenha, há quem tenha mas não se dá com ela, há quem só goste dela quando longe. Não vamos, pois, utilizar a família como régua para medir o perímetro exacto da pertença.

Há os amores e os amigos. Se permitem-me, corto também os primeiros da equação. Apesar das suas quatro letras, amor é palavra muito grande, mexe com muita coisa, nem sempre traz felicidade, para ser feliz é preciso amar e ser amado (o “ou” aqui não funciona).

Sobram os amigos. Não, a frase soa-me inexacta. Os amigos nunca deveriam sobrar, nunca deveriam ficar para o final, depois de todas as pessoas importantes. Amigos de segunda, amigos que não são prioritários, são amigos que não são.

“Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer. (…)” *

Um dia desses, num quarto de hotel cheio de móveis e vazio de emoções, tive tempo para fazer umas contas e dar nomes e caras e corpos e vozes e jeitos e defeitos e manias e qualidades e risos e choros a cada um dos amigos a quem posso chamar de “meus”.

Lembrei do tema ao ler que vai fazer agora um ano que a ONU ratificou o Dia da Amizade. E que ele poderá ser celebrado, em pleno, no 30 de Julho próximo. Nem acho importante as datas e efemérides. Só peço que não fique a espera de uma noite triste para lembrar (ligar, mandar um mail, um SMS, um postal, uma mensagem, este texto, sei lá eu) a quem deseja que os seus dias sejam felizes.

“Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. (…) Para ter-se a consciência de que ainda se vive”.*

Ou como diria o meu Tio Olavo, citando um filósofo: “O que é um amigo? Uma única alma que habita dois corpos”.

* Trechos do texto “Procura-se um Amigo”, de Vinicius de Moraes.
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*  Cronista português.
Fonte: http://www.sabado.pt/Opiniao/Edson-Athayde/Procura-se-um-Amigo.aspx
OBS.: Texto digitado em português de Portugal.
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Velha senhora

<br /><b>Crédito: </b> ARTE JOÃO LUIS XAVIER

 Juremir Machado da Silva*

Aprendi com a experiência de vida: as velhas senhoras sabem muito. Não é a primeira vez que escrevo isso. Tenho uma relação privilegiada com as vovós. Elas são as minhas leitoras mais fiéis. Para cada leitora de menos de 25 anos, tenho nove de mais de 70. Ainda em Canela, na semana passada, uma jovem muito bonita sorriu para mim. Embora bem casado e feliz, sou sensível esteticamente a sorrisos de moças bonitas. Ela se aproximou e, iluminando ainda mais o sorriso, disparou:

- Minha avó lhe adora.

O "lhe" foi definitivo. Como o "seu". Por que estou dizendo tudo isso novamente? Porque me aconteceu algo digno de nota. Uma conversa proveitosa. Um encontro imprevisto que me fez passar horas refletindo. Foram poucas frases trocadas e muito tempo de maturação do conteúdo desse diálogo improvável. Vou contar tudo. Eu estava no ônibus, linha São Caetano, vindo para o Centro. Tinha um livro aberto sobre os joelhos e o celular na mão direita. Por um momento, contudo, fiquei meio perdido.

Meus pensamentos estavam longe, entre Palomas e Paris. Confesso que não me lembro bem se mais em Paris ou mais em Palomas. Creio que, por alguma razão, estava fazendo um balanço de algumas escolhas que fiz na vida. Por que escolhi a França e não os Estados Unidos para estudar? Os americanos me convidaram para visitar os Estados Unidos, queriam que estudasse inglês e acenavam com uma bolsa para eu ficar alguns anos por lá. Por que eu me tornei colorado e não gremista? Não me arrependo, mas sou pós-moderno, adoro as questões proibidas: se treinadores e jogadores mudam o tempo todo de clube, por que os torcedores não mudam também? Se as pessoas trocam de parceiros sexuais, de amores, de religião e de sexo, por que não trocam de time? Não, eu não pensava nisso.

Pensava, com certeza, na minha condição de escritor ilhado, marcado para morrer à míngua pela mídia que faz a lei da cultura no país por causa das minhas críticas, ironias e provocações. Enfim, essas coisas que assaltam a cabeça da gente dentro de um ônibus. Aí entrou uma senhora, cabelos muito brancos, sentou-se ao meu lado, pois eu estava num daqueles bancos vagos reservados a idosos ou portadores de necessidades especiais, e, sem mais nem menos, completou, isso mesmo, completou, como se estivesse conversando comigo desde o início da minha longa divagação sobre o passado, o presente e o futuro.

- É, mas precisa mostrar a bunda.

- Como?

- É preciso saber a hora de botar a funda de fora.

- De que a senhora está falando?

- Eu te leio... - as vovós não me chamam de senhor.

- Lê?

- Sim. Estou lendo agora os teus pensamentos.

- Ah, bom!

- Sim, Juremir, estou lendo. O mais importante na vida é não deixar passar a hora de botar a bunda de fora.

- Não deixar o cavalo passar encilhado.

- Isso é ditado de velho, meu caro cronista. Os tempos são outros. Pensa bem no que eu estou te dizendo...
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* Sociólogo. Prof. universitário. Escritor. Tradutor. Cronista do Correio do Povo.
  juremir@correiodopovo.com.br

 Crédito: ARTE JOÃO LUIS XAVIER
Fonte:  http://www.correiodopovo.com.br/Impresso/?Ano=117&Numero=339&Caderno=0&Noticia=460379

Marketing social

Luiz Felipe Pondé*
 

Esse papo furado contemporâneo vende mentiras como verdades e serve a agendas ideológicas 

1. Ser gay está na moda.
2. Ter filha solteira é legal. Mulher não precisa de homem.
3. Não dou valor a dinheiro.
4. Não tenho preconceito.
5. Os homens hoje lidam bem com mulheres que ganham mais do que eles.
6. Minha tia é muito bem resolvida.
7. Vivemos uma crise de valores. Meus valores não são materiais.
8. Existem pessoas que não se vendem.
9. Meu pai me ensinou a ser digno.
10. Não tenho religião, tenho espiritualidade.
Eis alguns exemplos de papo-furado contemporâneo. Trata-se de marketing social. Filho do politicamente correto, grande exercício de lixo cultural.
O marketing social vende mentiras como verdades porque serve a agendas ideológicas de quem as produz. As outras pessoas apenas as repetem para aliviar seus fracassos pessoais ou para vender uma boa imagem social de si mesmas.
Como sempre, a mentira rege o mundo. Não somos mais pecadores, mas continuamos mentirosos. Eliminou-se da agenda moral a consciência do mal como parte de nós mesmos, ficou apenas o hábito contumaz da mentira. 

Eis dez teses contra o marketing social:
1. Ser gay não está na moda. A maioria esmagadora do mundo é indiferente ao tema. Isso não significa nada "contra". Se não fosse o fato de grande parte das pessoas que trabalha com cultura (mídia, arte, universidade) ser gay, ninguém daria bola para o assunto. A própria "teoria de gênero" que afirma que você pode ser sexualmente o que quiser é uma invenção de militantes gays e feministas.
Além, é claro, da grana que grande parte da população gay tem por ser constituída de profissionais altamente qualificados que não têm filhos, até "ontem". Agora, ficarão pobres como os héteros. 

2. Mãe solteira é péssimo. E, sim, mulher precisa de homem. Sem homem, a maioria revira no vazio da cama. E vice-versa. Mãe solteira é opção para quem não tem mais opção afetiva ou é coisa de gente altamente narcisista. E para a criança é péssimo. Gente que abraça o marketing social, além de mentirosa, é muito egoísta. O mundo inteligentinho está cheio de gente ressentida que prega essa bobagem. 

3. Todo mundo dá valor a dinheiro, principalmente quando não tem. Quem mais diz que não dá valor a dinheiro, é justamente quem mais dá. Dizer "não dou valor a dinheiro" prepara o terreno para se pedir dinheiro emprestado ou justificar dívidas não pagas. 

4. Todo mundo tem preconceito. Quem diz que não tem, normalmente acha meninas virgens doentes, mulheres que cuidam dos filhos umas idiotas, religiosos burros, os EUA uma nação do mal e Obama um santo. A maioria continua tendo preconceito contra gay, mulher que transa muito e homem chorão. Eu, por exemplo, tenho preconceito contra gente bem resolvida e que diz que não tem preconceito. 

5. Nenhum homem lida bem com mulheres que ganham mais do que ele. A menos que ele tenha problema de caráter. É sempre um sofrimento que se enfrenta dia a dia, sonhando com seu fim. Nem as mulheres bem-sucedidas lidam bem com homens fracassados. Muitas "rezam" para que seus maridos falidos ganhem mais ou, pelo menos, o mesmo que elas. 

6. Ninguém é bem resolvido, somente os mentirosos, principalmente tias solitárias que fingem ser donas de seus afetos. 

7. Valores são sempre materiais, ligados a poder, patrimônio, sucesso, reconhecimento. Não existe "crise de valores" porque nunca existiram valores sólidos, a moral pública sempre foi fundada na hipocrisia e na superficialidade de julgamento do comportamento alheio. 

8. Todo mundo tem um preço, sempre menor do que se imagina. Às vezes as pessoas se vendem por muito menos do que dinheiro, se vendem por afetos baratos, promessas falsas e deuses vagabundos. 

9. Aprende-se muito pouco com os pais, na maior parte do tempo, o que nos define é o temperamento e as circunstâncias da vida. Aristóteles mesmo dizia que ética é uma ciência imprecisa dominada pela contingência. Quem elogia demais os pais, está ocultando suas vergonhas. 

10. Esse negócio de "espiritualidade" é religião sem compromisso. Produto de butique. Pessoas "espiritualizadas" são normalmente as piores e mais indiferentes. 
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* Filósofo. Prof. Universitário.
ponde.folha@uol.com.br
Fonte: Folha on line, 03/09/2012
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Ozymandias

L. F. Verissimo*

No filme do Woody Allen Para Roma, Com Amor, dois personagens dizem estar sofrendo de Melancolia Ozymandias. O termo foi inventado pelo próprio Woody Allen para seu personagem num dos seus filmes mais subestimados, Stardust Memories, sua versão do 8 e Meio do Fellini. A referência é a um famoso poema de Percy Shelley, escrito no século 19, que fala da descoberta de uma estátua colossal com a seguinte inscrição na base: “Meu nome é Ozymandias, Rei dos Reis. Contemplem a minha obra, ó poderosos, e desesperem”. Mas em torno da estátua não há vestígio de obra alguma, há só um deserto até o horizonte.

O Ozymandias de Shelley adverte contra a vaidade e a soberba e lembra que tudo no mundo é transitório, incluindo o poder e a glória. A melancolia que leva seu nome vem da constatação da precariedade da vida, do amor e das nossas obras, que mesmo não sendo ozymândicas mereceriam – pelo menos na nossa opinião – resistir aos séculos. Tudo passa, nos diz o poema. No fim, de um jeito ou de outro, sempre vence o deserto.

Com sua preocupação constante com a morte, o Woody Allen não deve estar brincando quando se atribui a tal melancolia. Sua obra talvez dure mais do que a de Ozymandias, de cujo império nunca mais de ouviu falar – apesar da especulação de que “Ozymandias” seria o nome grego do faraó Ramsés II –, principalmente agora que a estocagem digitalizada de filmes e fitas os tornou praticamente eternos.

Mas Allen não deve encontrar consolo na ideia de que daqui a mil anos sua obra ainda estará sendo vista. Ele preferiria estar lá para explicá-la. Ele mesmo já disse que não teme a própria morte, desde que não esteja presente na ocasião.

Mas é curiosa a evocação de Ozymandias no filme. Roma é o melhor exemplo mundial de uma civilização vivendo nas ruínas das muitas civilizações que a precederam. De certa maneira, Roma é um antídoto para a melancolia Ozymandias. Nela, tudo que já passou continua lá, como paisagem, e a vida que continua entre as ruínas é bela e ensolarada – nos filmes, ao menos – e não dá o menor sinal de ceder ao deserto.
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* Jornalista. Cronista. Escritor. 
Fonte: ZH on line, 03/09/2012
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Todorov contra os coveiros da democracia

ENTREVISTA

Tzvetan Todorov, linguista e filósofo

“Intelectual múltiplo” é uma expressão banalizada, mas que ainda serve para o filósofo, historiador e linguista búlgaro, nacionalizado francês, Tzvetan Todorov. Pensador que já escreveu sobre romance policial, história das Américas, pintura do Renascimento, guerra do Iraque e a busca romântica da beleza, entre tantos temas, Todorov é o convidado de hoje do Fronteiras do Pensamento.

O Fronteiras é apresentado pela Braskem e tem o patrocínio de Unimed Porto Alegre, Natura, Gerdau e Grupo RBS. O projeto conta com parceria da UFRGS, apoio da Petrobras no módulo educacional e parceria cultural de Unisinos, prefeitura de Porto Alegre e governo do Estado do Rio Grande do Sul.

ZH – O senhor pode antecipar os tópicos gerais de sua conferência em Porto Alegre?
Tzvetan Todorov – O tema de minha conferência é uma característica da cultura ocidental que chamo de “messianismo político”, herança de um messianismo cristão mais antigo. É um postulado segundo o qual podemos alcançar todos os objetivos políticos e culturais, sejam eles quais forem, desde que tenhamos os meios apropriados à disposição. Essa atitude profana estava lá no fim do século 18, no contexto do Iluminismo, e foi levada pela Revolução Francesa. Distingo três grandes fases desse messianismo. A primeira consiste em declarar guerras para impôr os benefícios da Revolução (na Europa) e em guerras coloniais para exportar a civilização europeia (no resto do mundo). A segunda é o projeto comunista. Por fim, a terceira, a que estamos testemunhando hoje, é exportar a ideia de democracia e de direitos humanos por meio da dominação de países estrangeiros e implementação de governos dóceis (como no Iraque, no Afeganistão, na Costa do Marfim, na Líbia).

ZH – O senhor escreve em seu livro mais recente, Os Inimigos Íntimos da Democracia, que a democracia está em perigo, ameaçada pelo cinismo e pelas pressões populistas. Como a sociedade pode resgatá-la?
Todorov – Nos países dos quais falo em meu livro, na Europa e na América do Norte, a democracia hoje é ameaçada por inimigos externos, como o fascismo ou o comunismo do século 20, e por inimigos que vêm do próprio interior da democracia, que são de algum modo suas perversões. Eu me concentro particularmente sobre o messianismo, e, em seguida, sobre o que se tem chamado de neo(ultra)liberalismo e, por fim, sobre o populismo xenófobo. O combate contra estes “inimigos íntimos” não será travado em um campo de batalha, será principalmente ideológico: precisamos mostrar que esses perigos, que se apresentam como prolongamentos naturais da democracia, são na verdade seus coveiros.

ZH – No mesmo livro, o senhor recorda o episódio da invasão do Iraque, sustentada em falsas evidências de armas de destruição em massa no país. Mesmo amparado em mentiras, Bush declarou guerra e foi reeleito para um segundo mandato. A desfaçatez tornou-se mérito político?
Todorov – A população não avalia a política estrangeira de um país em termos de um código moral, mas sim na medida em que essa política é ou não bem-sucedida. Enquanto os generais argentinos estavam vencendo a Guerra das Malvinas, o povo os apoiava; quando começaram a perder, a população os rejeitou. Os Estados Unidos ganharam a guerra no Iraque, eles provaram que seu exército era o mais poderoso do mundo, portanto a população reelegeu o presidente.

ZH – Há uma ideia generalizada de que os jovens não estão interessados na política atualmente, paralisados pelo discurso corrente da “impossibilidade de mudar o mundo”. O senhor concorda? E como seria possível atrair os jovens para a política?
Todorov – A gestão dos assuntos internacionais é cada vez mais impessoal hoje em dia e, por essa razão, é difícil resistir a ela. Mesmo o homem mais poderoso do planeta, o presidente dos Estados Unidos, não pode ter certeza de obter o que quer. As corporações multinacionais exercem uma forte pressão, ou não têm um rosto. No entanto, o destino da humanidade não está escrito nas estrelas nem nas divinas escrituras, ele depende das vontades humanas. Temos de defender a ação política, que está tentando hoje submeter os interesses econômicos, temos que defender o Estado contra a tirania dos indivíduos.

ZH – O senhor é um teórico fundamental para a Semiótica e o Formalismo. Hoje, parece procurar na cultura a chave para o aperfeiçoamento da experiência humana. O que levou a essa guinada? O senhor concluiu, para usar um título de um livro seu, que “a beleza salvará o mundo”?
Todorov – Eu vim para a França ao fim de meus estudos universitários na Bulgária, em 1963. Não é de estranhar que ao longo de 50 anos de trabalho meus interesses tenham mudado! Estudei literatura e, por viver em um país comunista, onde o poder exercia um controle rigoroso sobre todos os assuntos relativos à ideologia, me refugiei no estudo dos aspectos materiais, formais, não-ideológicos da literatura. Meu primeiro trabalho na França foi a tradução dos formalistas russos, e foi como um especialista em formalismo que estive pela primeira vez no Brasil, na década de 60. Mas desde que progressivamente me deixei integrar à vida de um país democrático, a França, eu estou mais interessado em questões de história e da sociedade. “A beleza salvará o mundo”, sim, mas essa beleza não é puramente artística, é aquela de nossa existência cotidiana.

ZH – Em A Literatura em Perigo, o senhor comenta que os métodos de ensino apelam com frequência para fórmulas teóricas por não saberem como despertar a paixão pela leitura nos leitores indo diretamente às obras, aos romance. O ensino de literatura deve ser mais focado no leitor como indivíduo e menos em grandes súmulas teóricas? E como isso seria possível?
Todorov – Nesse pequeno livro, falo sobre o lugar da literatura na vida pública na França - e não sei se minhas observações podem ser aplicadas ao Brasil. O fato é que esse lugar tem diminuído, pois se considera que a literatura é uma atividade separada do resto do mundo, é uma espécie de jogo formal ou um local para exposição dos problemas pessoais do autor. No que diz respeito ao ensino de literatura, eu recomendo concentrar-se principalmente no sentido dos textos que se referem a nós como seres humanos. Se ainda hoje lemos as obras da antiguidade ou de outros países do mundo, não é por causa da engenhosidade formal de seus autores, mas porque sentimos que eles nos ajudam a viver melhor.
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Fonte:  
http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a3872723.xml&template=3898.dwt&edition=20328&section=999

Alunos do século 21

MARIANGELA LENZ ZIEDE*

 

Tem se falado inúmeras vezes do baixo rendimento dos alunos no índice do Ideb, da falta de vontade dos estudantes que frequentam as aulas, da formação de professores e da infraestrutura das escolas. Será que realmente os municípios e o Estado querem mudar isto? Há anos trabalho com educação e vejo um comodismo por parte de alguns. Atualmente, os alunos participam de redes sociais, têm celulares com os quais produzem vídeos, fotos e, por vezes, publicam em sites. Escrevem mensagens, jogam e se comunicam com seus pares. Estes, diga-se de passagem, são os mesmos alunos que pelo índice do Ideb não sabem português, matemática... e por aí afora.

O papel do professor é fundamental 
para a inovação, pois não adianta usar a tecnologia 
sem uma mudança na metodologia.

O que será que está acontecendo? Por que não aproveitar todo esse potencial para a educação? Tenho ministrado aulas na Pedagogia e escuto de muitas alunas “para que aprender a usar o computador se na maioria das escolas o laboratório de informática está fechado há anos e as máquinas estão ficando sucateadas, não podendo ser utilizadas, pois as diretoras não deixam”. Será que a administração pública não sabe disso? De que adianta, no período eleitoral, os candidatos dizerem que vão melhorar o ensino público, se os anos passam e nada acontece?

 O Nome da Rosa, de Umberto Eco, no qual só alguns monges tinham acesso ao grande acervo da biblioteca devido às relíquias que os livros continham. Do mesmo modo, estamos com os computadores guardados nos laboratórios impedindo o acesso à informação, ao conhecimento e às novas aprendizagens.

Se houvesse um maior número de professores que trabalhassem com os alunos nos laboratórios, com ambientes virtuais de aprendizagem (blogs, wikis e outros), com simulações e com projetos de aprendizagem, nos quais os alunos desenvolvem inúmeras competências, certamente teríamos melhores resultados. O que é bem diferente de ter um estagiário ligando e desligando os computadores e colocando jogos para “distrair os alunos”. Os jogos são importantes, mas quando associados à proposta que o professor está desenvolvendo com seus alunos. O papel do professor é fundamental para a inovação, pois não adianta usar a tecnologia sem uma mudança na metodologia. É difícil trabalhar inovação na formação de futuros professores quando eles sabem que o futuro não acontecerá de forma inovadora, que a escola vive no passado repetindo ano após ano a mesma coisa.

Estamos no tempo do romance O Nome da Rosa, de Umberto Eco, no qual só alguns monges tinham acesso ao grande acervo da biblioteca devido às relíquias que os livros continham. Do mesmo modo, estamos com os computadores guardados nos laboratórios impedindo o acesso à informação, ao conhecimento e às novas aprendizagens.

Afinal, vivemos em qual século?
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*Pedagoga, doutoranda em Educação pela UFRGS
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a3873020.xml&template=3898.dwt&edition=20328&section=1012
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“A pesquisa não dita a última palavra”

Márcia Cavallari Nunes, diretora executiva do Ibope

Formada em Estatística pela USP, a diretora executiva do Ibope, Márcia Cavallari Nunes, 53 anos, é uma veterana das pesquisas eleitorais e conhece seus limites como ninguém. Em três décadas de trabalho no instituto, perdeu as contas de quantos levantamentos comandou.
– A pesquisa é um diagnóstico, não um prognóstico. A gente não obriga o entrevistado a assinar um papel dizendo que não vai mudar de opinião – brinca.

A seguir, confira os principais trechos da entrevista concedida a Zero Hora na última sexta-feira.

Zero Hora – Qual é a metodologia utilizada pelo Ibope nas pesquisas eleitorais?
Márcia Cavallari Nunes – A única metodologia que assegura que você de fato atinge o eleitorado é aquela que envolve entrevistas face a face. Existem duas formas de fazer isso: nos domicílios ou em pontos de fluxo. O Ibope coleta as informações nos domicílios. Selecionamos os setores censitários para aplicar as entrevistas, e nossos entrevistadores abordam apenas os moradores que têm título eleitoral e que votam na cidade.

ZH – Os entrevistados representam a totalidade dos eleitores?

Márcia – Sim. Quando a gente faz uma amostra, o objetivo é esse. Se você faz um exame de sangue, não precisa tirar o sangue inteiro. Basta tirar uma amostra. A ideia é que você consiga uma amostra tão representativa que, através dela, seja possível estimar o que todos fariam se você pudesse entrevistar todos. O segredo, para isso, é assegurar que a totalidade dos grupos sociais e que todas as regiões geográficas da cidade estejam representados na amostra, em proporção semelhante à existente no universo.

ZH – Quais são os limites da pesquisa eleitoral?

Márcia – A pesquisa é um diagnóstico e não um prognóstico. Deve ser lida no contexto no qual foi realizada, porque a opinião pública é dinâmica e responde aos estímulos que recebe durante a campanha. A gente não obriga o entrevistado a assinar um papel dizendo que não vai mudar de opinião até o dia da eleição. Por isso, a pesquisa não é infalível e não dita a última palavra. Serve apenas para apontar tendências. Não deve ser usada para projetar o futuro.

ZH – Pesquisa influencia voto?

Márcia – No mundo inteiro, não existe nenhum estudo que confirme que o eleitor é influenciado diretamente pelo resultado de pesquisa. Se existisse mesmo essa influência maléfica, no sentido de que todo mundo vota de acordo com ela, nunca haveria viradas. E não é isso que a prática mostra. A pesquisa acaba sendo uma informação a mais para o eleitor. E faz parte do processo democrático o eleitor ter o maior número possível de informações.

ZH – Por que o Ibope não apresenta aos entrevistados o candidato junto com o partido?

Márcia – Porque a gente acredita que essa é uma informação que o eleitor aprende ao longo da campanha. Quando você começa as pesquisas, o eleitor ainda não está no clima da eleição. Se você coloca isso, você está dando uma informação privilegiada apenas para a sua amostra. Se o objetivo da amostra é representar a população como um todo, acredito que não temos de dar essa informação.

ZH – O Ibope realiza pesquisa para candidatos e partidos?

Márcia – Sim. A gente faz para todos. Não damos exclusividade para nenhum. E tem uma diferença grande entre as pesquisas feitas para os candidatos e partidos e para os veículos de comunicação. No caso dos veículos, o objetivo é informar o cidadão. Então, as pesquisas são bem mais objetivas, curtas. Para candidatos, o objetivo é mais estratégico. Não visa só a auferir a intenção de voto.
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Reportagem POR JULIANA BUBLITZ
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a3872987.xml&template=3898.dwt&edition=20328&section=1007

“O sentido de pertencimento da comunidade em relação à escola é essencial”

ENTREVISTA

Tarso Genro, governador

Lançada na terça-feira passada, a campanha institucional do Grupo RBS sobre educação apresenta seis perguntas sobre a situação do ensino no país que servirão de mote para reportagens, avaliações de especialistas – e considerações de gestores como o governador do Estado, Tarso Genro.

Convidado a expressar sua visão sobre temas como o mau desempenho nacional, o desinteresse dos jovens pela carreira do magistério e a participação das famílias no ambiente escolar, ele sustenta que avanços vêm sendo feitos. Confira, a seguir, as opiniões do governador sobre alguns dos principais dilemas da educação brasileira, resumidos nas seis questões que norteiam a campanha A Educação Precisa de Respostas, encaminhadas por e-mail para Zero Hora.

Por que, mesmo sendo a sexta economia do mundo, o Brasil ainda está no 88º lugar no ranking mundial da educação?

Desde os anos 70, o Brasil se posiciona entre as 10 primeiras economias mundiais. No entanto, somente a partir desta década há um incremento das políticas de democratização do acesso à educação pública, como a universalização do Ensino Fundamental, a expansão das escolas técnicas federais, a Universidade Aberta do Brasil, o ProUni e o Fundeb.

É importante lembrar que o Brasil faz, hoje, o que países como Chile, Argentina e Uruguai fizeram no início do século passado. A primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação brasileira é de 1961. Enquanto alguns países da América Latina tiveram suas primeiras universidades criadas nos séculos 16 e 17, no Brasil, só na década de 30 do século 20 tivemos a criação da primeira. Apenas a partir da primeira década do século 21 ocorre de forma ostensiva a democratização do ensino e a articulação da política de distribuição de renda com a expansão da educação pública. Exemplos são o Bolsa Família, o ProUni. Se o Ensino Fundamental foi universalizado, este é um desafio ainda não respondido em relação ao Ensino Médio e à Educação Infantil.

Ao contrário de países latino-americanos, que têm jornada escolar média de sete horas diárias, somente a partir dos últimos anos acompanhamos a adoção de implementação de políticas que visam à melhoria da educação e à ampliação gradativa da jornada escolar. Tais medidas trarão resultados positivos em médio e longo prazo.

Por que 34,5% dos alunos do Ensino Médio não estão na série correspondente à sua idade?
Esse é um fator que está relacionado à ampliação da democratização do acesso, que colocou nas redes públicas as crianças que compõem os setores sociais mais vulneráveis. Nas redes públicas, todos são admitidos, independentemente de sua condição social, cultural ou física. Muitas dessas crianças que chegam à escola não passaram pela Educação Infantil, e as dificuldades pedagógicas, como a não adequação do currículo às necessidades dos estudantes, acabam por acarretar em alto índice de reprovação e abandono escolar. Por outro lado, muitas crianças e adolescentes deixam a escola por necessidade de sobrevivência, e alguns retornam quando resolvida a questão da subsistência. A Educação de Jovens e Adultos (EJA) está aí para atendê-los.

Por que é importante os pais participarem da vida escolar dos seus filhos?
A escola está inserida em um contexto social, não pode ser vista de forma isolada. Todos os atores dessa comunidade, que inclui escola, família e sociedade, precisam agir de forma integrada, visando ao acompanhamento tanto da gestão escolar quanto do processo de ensino-aprendizagem. Muitas famílias dos alunos de escola pública também não tiveram acesso à escola e, portanto, devem ser acolhidos no ambiente escolar. O sistema escolar precisa produzir mecanismos que aproximem das escolas as comunidades. Manter a escola aberta à comunidade, com bibliotecas comunitárias, atividades esportivas e culturais, entre outras ações, contribuirá tanto para uma gestão mais qualificada da escola quanto para o processo de aprendizagem das crianças e sua permanência na escola. O sentido de pertencimento da comunidade em relação à escola é essencial para a garantia de educação de qualidade. O incentivo à atuação dos conselhos escolares também é essencial para que o controle social se efetive.

Por que apenas 2% dos estudantes querem seguir a carreira de professor?

Independentemente do índice, constata-se que todos os concursos públicos de professores têm enorme procura. Exemplo é o que foi realizado em 2012 pela rede estadual, que atraiu 69 mil candidatos para 10 mil vagas. Mas cabe às políticas públicas estimular a atividade docente com ações que busquem a valorização da carreira. No Estado há um avanço: hoje, ninguém recebe, em termos remuneratórios, menos do que o piso salarial nacional. O debate é sobre os reflexos que o pagamento do benefício têm na carreira.

Por que 89% dos estudantes chegam ao final do Ensino Médio sem aprender o esperado em matemática?
Os resultados da Prova Brasil colocam o Rio Grande do Sul em primeiro lugar em matemática no Ensino Médio e em segundo lugar nos anos finais do Ensino Fundamental. Em geral, a matemática vem sendo tratada de forma abstrata, não considerando a realidade dos sujeitos. É preciso reestruturar a matriz curricular, vincular as áreas do conhecimento por meio da interdisciplinaridade, adequar a didática às formas de avaliação. Enquanto as provas avaliativas trabalham com a resolução de problemas, a didática trabalha com questões desconectadas de suas tecnologias. Esta fragmentação precisa ser rompida por meio da reestruturação curricular. A matemática, nas práticas pedagógicas do cotidiano, em geral, é trabalhada como a área do conhecimento mais distante da realidade.

Por que a maioria dos alunos matriculados no último ano do Ensino Fundamental não aprende o mínimo considerado adequado?
Como citado no item anterior, os alunos dos anos finais do Ensino Fundamental da rede estadual gaúcha obtiveram o segundo lugar na Prova Brasil tanto em matemática quanto em língua portuguesa. No entanto, a maioria dos alunos da rede pública não teve Educação Infantil e, portanto, esses estudantes têm necessidades que a escola precisa adequar para garantir o processo de aprendizagem. A reestruturação curricular do Ensino Fundamental, com a adoção da organização do ensino estruturada nas áreas do conhecimento, vinculada às necessidades reais de aprendizagem dos nossos alunos, certamente induzirá a melhoria da qualidade do ensino (como já evidenciado em relação ao Ideb dos anos iniciais do Ensino Fundamental na rede estadual, onde já iniciamos a implantação da reestruturação curricular e cujo índice demonstra a superação da meta prevista para 2011). A reestruturação também envolve um trabalho e uma oferta permanente de formação continuada aos professores e educadores, o que tem acontecido de forma efetiva no país a partir da segunda metade da última década, com a definição de políticas públicas do governo federal.
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Reportagem por MARCELO GONZATTO
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a3873014.xml&template=3898.dwt&edition=20328&section=1003

A comovente narrativa de Diogo Mainardi sobre o filho que nasceu com paralisia cerebral

A comovente narrativa de Diogo Mainardi sobre o filho que nasceu com paralisia cerebral Camilla Maia/Agência O Globo

Jornalista narra em "A Queda" a emocionante jornada ao lado do filho Tito, hoje com 11 anos

Diogo Mainardi passou boa parte da vida, a sua e a do filho, fazendo contas. Dias, rotinas e trajetos foram medidos em passos a partir do momento em que Tito, o primogênito, começou a se arriscar na complexa arte de se locomover. Vítima de um erro médico grosseiro que levou a uma paralisia cerebral, o menino, que completa 12 anos este mês, tem sérias restrições motoras, que comprometem os movimentos das mãos e das pernas e também a fala. Eu conto seus passos, um por um, narra o pai em A Queda - As Memórias de um Pai em 424 Passos, lançamento da editora Record.
Colunista político controverso, semeador de paixões e discórdias, Mainardi interrompe seu autoimposto exílio literário com um livro soberbo. Há dois anos, abdicou do posto de cronista mais lido - e comentado, e criticado, e odiado, e exaltado - da revista Veja para retornar à Itália natal de sua mulher, a historiadora Anna, 48 anos, e do filho mais velho. Nico, o caçula de sete anos, nasceu no Rio de Janeiro, onde a família morou por quase uma década, seguindo recomendações médicas - o calor e a areia fofa da beira-mar eram a combinação ideal para que Tito aprendesse a colocar um pé na frente do outro. "Ele sempre cai. Ele sempre cai gargalhando", escreve.
Tito deu 16 passos seguidos em 2005. Batia seus próprios recordes a intervalos de meses, sempre seguido pelo pai, atento a qualquer movimento em falso: após os 16 passos, alcançou 27, e então 44, 71, depois 118. Em 11 de janeiro de 2008, foram 359 passos. "Saber cair tem muito mais valor do que saber caminhar", reflete o pai-escritor à página 66.
A Queda não é um álbum de recortes sentimentalistas. Nem poderia ser. Mainardi, dono de um texto inquieto e insolente, por vezes até ofensivo, pariu um diário enxuto, preciso - e, talvez por isso mesmo, desconcertante. São 424 pequenos ou microcapítulos com lembranças envoltas em referências literárias, artísticas e históricas. A trajetória de Tito, sustenta o autor, é circular, desvendando e reencontrando coincidências, nomes, datas. Todas as citações - a obra de Rembrandt, o programa de extermínio de Adolf Hitler, a exuberância arquitetônica da cidade italiana que a família elegeu como lar - têm um propósito, tudo se relaciona ao personagem principal.
Antecipar aqui o desfecho de A Queda seria privar o leitor da emoção do primeiro contato com um trecho encantado. Se não valesse pelo conjunto, o título mais importante da carreira de Mainardi se justificaria pelas páginas finais. Sem prejudicar o deleite da leitura, pode-se resumir pouco mais do que o óbvio. Assim: Tito atingiu a marca mais incrível de sua ainda curta caminhada - 424 passos. O número inspirou um livro. E Mainardi parou de contar.
O paulistano, que faz 50 anos no próximo dia 22, conversou com um grupo restrito de jornalistas brasileiros. A Queda é tão valioso e tão íntimo, justifica ele, que teme desgastá-lo. De passagem pelo Rio, Mainardi concedeu, por telefone, a entrevista a seguir.

Donna - Você classifica o amor pelo seu filho como "avassalador" e diz que A Queda é uma manifestação desse sentimento. Você escreveu o livro que gostaria de ter escrito?
Diogo Mainardi - É uma declaração de amor, uma declaração do jeito que eu sei declarar. É a minha serenata para o meu filho. Não sou uma pessoa particularmente sentimental. Para compreender esse amor avassalador, quase inexplicável, novo para mim, tive de recorrer aos meus instrumentos, que eram todos de natureza intelectual, estética. Foi assim que eu consegui resumi-lo, explicá-lo para mim e tirar dele o máximo que podia. O livro saiu exatamente da maneira que eu poderia escrevê-lo. É um livro verdadeiro, uma história verdadeira. Não poderia tê-lo feito de outra maneira porque é a minha história, ela está toda ali. Não fui catar referências eruditas porque elas podiam acrescentar alguma coisa ao texto. Catei o que havia à disposição, na minha cabeça, na história familiar, no arquivo fotográfico. Fui recolhendo o que havia em torno de mim. Nesse sentido, é o livro possível, o livro que eu podia fazer. É o máximo do meu amor, na expressão mais verdadeira desse amor.

Donna - Quem é o Tito?
Mainardi - Tenho dois filhos e não vejo nenhuma diferença entre eles. Filho é filho. Tito é igual ao meu outro filho. Eles se dão muitíssimo bem. Tito tem um amor absoluto pelo irmão. Ele, como criança, é igual a todas as outras. Tive por ele algo que não é igual ao que eu teria de outra maneira. Sei que todos os pais amam os filhos, mas no meu caso esse processo foi muito rápido, surgiu de uma hora para outra. Por isso mesmo foi avassalador. Com meu outro filho, houve um período em que pude conhecê-lo, reconhecer nele as características que me pertencem também. Você vê no seu filho o que é parecido com você. São os velhos chavões da paternidade. No caso do Tito, aprendi a ver também o que era diferente. Foi um aprendizado sentimental muito violento. Comemorei, depois de três dias de vida, o fato de que ele estava vivo. Ele era um morto até então. Foi o único momento de verdadeira comoção que tive desde que ele nasceu. Na verdade, foi o único momento de comoção da minha vida. Eu nunca tinha tido uma comoção, de fato, e nunca tive outra depois disso. No livro, busquei o equivalente intelectual para exprimir um sentimento. O (Marcel) Proust tem essa frase maravilhosa que diz que para exprimir um sentimento tem de buscar um equivalente intelectual, porque você não pode só ficar ali tocando um violãozinho. Fica empobrecido. Tem que buscar uma linguagem capaz de exprimir esse amor de maneira mais elaborada.

Donna - Você repete que não foi um choque ou uma dor profunda ter um filho com paralisia cerebral, em nenhum momento. No Roda Viva (Mainardi foi o convidado do programa do dia 20 de agosto), da TV Cultura, alguns dos seus entrevistadores insistiram nesse ponto, parecendo bastante surpresos com o fato de não ter havido desespero. As pessoas geralmente deixam transparecer essa incredulidade em relação a isso?
Mainardi - É sempre assim. As pessoas acham que é um drama aquilo que não é um drama e não foi um drama. Parte do prazer de escrever esse livro é que é um relato prazeroso, de gozo absoluto, de prazer absoluto. Tive um pequeno encontro com os vendedores da Livraria da Travessa. Quando eles disseram que o meu livro vendeu mais do que Cinquenta Tons de Cinza, eu disse que tem mais gozo, mais prazer sensual no meu livro do que no outro (risos). O livro é fruto desse prazer, desse transbordamento de amor.

Donna - Há pais com muita dificuldade para ver e aceitar as limitações de um filho com necessidades especiais, traçando metas inatingíveis para a criança. Como você adapta suas expectativas?
Mainardi - Nunca tive expectativa em relação a ninguém, nem a mim mesmo. Isso facilitou o período de aceitação, que foi natural, imediato. Depois de alguns anos, em relação aos médicos, passei a saber exatamente o que podia esperar, e não só pela barbeiragem que causou o dano cerebral. Nós, hoje em dia, fazemos pequenas escolhas funcionais para o nosso filho, como o fato de voltar a Veneza, por exemplo, que garante a ele um tipo de autonomia que ele não poderia ter no Rio de Janeiro, onde estávamos muito bem. Mas na Itália ele tem independência, que para nós é prioritário hoje. Para ele, um menino de 11 anos, nada é mais importante do que passear sem mim, passear sozinho, não ser protegido. Se dou um beijo, ele limpa a minha baba por 20 minutos. Tem nojo de mim, vergonha. Para mim, é ótimo que ele não se sinta dependente a ponto de precisar esconder esse nojo. Ele se sente perfeitamente à vontade em exprimir seus desejos. A grande ambição da vida dele é morar sozinho, já aos 11 anos. E eu mudei para a Itália também porque os filhos ficam até os 40 anos na casa dos pais (risos). Quero mantê-los perto de mim o máximo possível. Mas o pivete quer se separar cedo demais, o que é saudável, no caso dele mais ainda. Obviamente, a independência dele não vai ser totalmente conquistada, ele vai depender de nós.


Donna - Que nível de independência Tito tem hoje? Você relata o período em que ele usava um comunicador, apertando botões com figuras para expressar pensamentos e necessidades.
Mainardi - Hoje ele fala e usa um andador fora de casa. Em casa, ele tem uma muleta com quatro rodas porque os espaços são mais estreitos. Na rua, ele corre, atravessa a cidade todos os dias. Seria capaz até de dar passos independentes dentro de casa se não tivesse tanto medo. Quando tem medo, os músculos se contraem, e ele cai. Mas hoje ele cai bem, e isso é um conforto.

Donna - A reação dos outros o incomoda? Existe preconceito? Você observa que as pessoas se habituaram a Tito: o jornaleiro, o barbeiro, o quitandeiro. Você acha que essa é a reação mais comum em relação a pessoas com necessidades especiais, a maioria tem o choque inicial e depois se habitua?
Mainardi - As pessoas se habituam, mas continuam excessivamente complacentes em relação à criança, com um excesso de comiseração, e isso é inevitável. A gente se acostumou. Você não pode dizer a todos: "Olha, meu filho é inteligente, ele entende o que você está dizendo". Alguns falam: "Puxa, ele sabe o meu nome!". Ele, por sorte, acha a maior graça disso. Meu filho acha que é um privilégio ser deficiente. Fura a fila no aeroporto e acha a maior graça. O irmão dele diz: "Que bom ter um irmão deficiente". Essa é a frase padrão no aeroporto. Nós aproveitamos as vantagens, é claro, porque precisamos, temos duas mãos cada um. Passamos na frente. Mas ele gosta do banheiro para deficientes, do elevador para deficientes, ele acha que faz parte de um mundo melhor, privilegiado, em relação ao nosso. Acho muita graça disso, minha mulher também. E o irmão tem uma ponta de inveja e de orgulho também.

Donna - Foi difícil tomar a decisão de ter o segundo filho? Surgiu algum receio com a proximidade do parto?
Mainardi - Nenhum receio, zero. Nico foi parido em um outro hospital, a única precaução foi essa. Eu não teria feito o mesmo erro duas vezes, isso não. O parto dele foi cercado de cuidados aqui no Rio de Janeiro. Nem isso, já que ele nasceu algumas horas antes da programação, mas foi tudo tranquilo. A gente não tinha medo nenhum com o Tito também. Foi uma barbeiragem grosseira, mas não havia nenhum temor. Meu, zero. A minha mulher, como eu digo no livro, tinha medo do hospital, mas não da gestação. Fizemos os exames de praxe e só.

Donna - Escrever um livro como este é se mostrar bastante e também se oferecer a múltiplas interpretações. A revelação dos seus pensamentos e sentimentos mais íntimos pode ser recebida com elogios, críticas, julgamentos apressados. Você teve que se preparar emocionalmente para essa ampla exposição?
Mainardi - Nada, nada. Esse livro faz parte do meu universo intelectual. Tem uma exposição brutal do que sou, completa. É óbvio que eu fico de cuecas, mas a visão, toda ela, é intelectual. Não vou me comparar ao Montaigne, mas, quando contava as histórias dele, ele tentava ir mais longe. O meu livro tenta ir um pouquinho mais longe.

Donna - O que o Tito achou de um livro sobre ele?
Mainardi - Ele acha muita graça. Acabei de receber um comentário muito lisonjeiro da Lya Luft, sua conterrânea, e ela nota que, em todas as fotos em que o Tito aparece, ele está sempre rindo. Ele ri, acha graça, acha graça dele mesmo. Tem um sentido de autodepreciação que o protege também contra o preconceito. Ele ajudou a coletar as fotos, conhece todas as histórias, obviamente. Não tem um interesse particular por ele mesmo, não é excessivamente vaidoso, mas acha muita graça sobretudo do que aconteceu quando era recém-nascido e nos primeiros anos. Quando não tem uma memória própria, ele tem curiosidade de saber a minha memória. A partir do momento em que o livro entra na memória mais recente, aí ele não tem muito interesse porque tem a versão dele, que é melhor do que a minha, provavelmente (risos).

Donna - Algumas das passagens mais tocantes se referem aos momentos em que você acompanha o Tito caminhando e vai contando os passos, recomeçando do zero a cada vez que ele pisa em falso ou cai. Depois da marca de 424 passos, registrada no subtítulo, você abandona essa prática.
Mainardi - Esse livro não tem uma linha sequer inventada. Parei de contar no final do livro e parei de contar na vida real. Nossas expectativas são para amanhã de manhã, no máximo. Não tenho a ideia fantasiosa de que vamos triunfar sobre a deficiência. Não é um livro de superação. A nossa história não é uma história de superação. A gente não superou coisa nenhuma. Meu filho tem uma paralisia cerebral debilitante. Vivemos muito tranquilamente com isso, mas sem a ilusão de que ela foi vencida. Detesto essas histórias de superação, não acredito nelas. Sou realista, vejo as coisas como elas são.

Donna - Ainda que não faça projeções para muito adiante, o que você imagina para o futuro dele?
Mainardi - É melhor nem repetir porque é tudo bobagem alucinada de menino de 11 anos.

Donna - Ele quer ser astronauta?
Mainardi - Não, não (risos). Ele sabe que astronauta não vai ser, não. Até os nove, 10 anos, ele queria ser vagabundo, não fazer nada. E achava muita graça quando dizia isso. Na época, eu trabalhava muito, mas talvez fosse o meu plano e ele tivesse incorporado isso (Mainardi parou de trabalhar e diz que adora ser "vagabundo"). Não tenho ideia. Hoje em dia, ele diz que quer ter uma temakeria com o irmão, mas não é nada muito sério. A avó disse que ele tinha que ser tabelião. Isso é muito italiano. É uma daquelas funções burocráticas que sobrevivem na Itália. Aí ele diz: "Serei tabelião".

Donna - O idioma que vocês usam em casa é o português ou o italiano?
Mainardi - Italiano. Eles estão perdendo o português. Quando estou sozinho com eles, falo português. Minha mulher é veneziana. Eu a conheci em italiano, então a nossa língua afetiva sempre foi o italiano. Logo que o Tito nasceu, nos transferimos para o Rio e não imaginamos que pudéssemos voltar para Veneza. Então, não queríamos que os nossos filhos perdessem o italiano. A gente falava italiano em casa. Acabou que voltamos, e a língua familiar continuou a mesma, é impossível mudar. Eles entendem tudo em português, falam um pouquinho, se viram - o Tito melhor do que o Nico. O Nico saiu daqui pequenininho, tem muita inibição de falar em português. O Tito se vira, e o Nico, pessimamente.

Donna - Sua família ganhou uma indenização (mais de 3,1 milhões de euros, cerca de R$ 7,9 milhões) no processo contra o hospital, o que representou um alívio grande em relação ao futuro do menino - você comemorou, à época, a tranquilidade de, enfim, poder morrer. Ainda assim, você teme o momento em que o Tito não tiver mais o apoio e a segurança dos pais? Vocês pensam que o irmão menor pode acabar assumindo essa grande responsabilidade?
Mainardi - Não. Se ele, por ventura, se dispuser a fazer alguma coisa, a gente vai ficar muito feliz, mas não será uma imposição. Como o irmão é rico, é bem possível que o canalha se aproxime dele (risos). Um é milionário, o outro é duro, então é bem possível que um seja obrigado a tutelar o outro. Mas o Nico não vai ter acesso ao dinheiro do irmão, a gente vai deixar tudo certinho para que eles possam usar o dinheiro mês a mês. Estou brincando, claro. Espero que eles tenham uma boa relação. Não quero que o menor seja enfermeiro do maior, mas se ele puder ajudar quando for necessário, e a gente nem sabe quanto vai ser necessário... Aceitei com naturalidade toda a questão. Se surge uma oportunidade, a gente colhe, se surge uma dificuldade, a gente tenta resolver da melhor maneira. Quando não é possível resolver, paciência. É assim que tem sido. Aos 11 anos, ainda é cedo. Onze anos eram o suficiente para arrematar toda essa primeira fase da vida e fazer um livro? Isso, sim. Já dava para tirar a soma sentimental e intelectual da história. Não tenho mais o que dizer nessa área. Agora é tocar.
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Reportagem Por Larissa Roso
Foto: Camilla Maia / Agência O Globo
Fonte: ZH on line, 02/09/2012

Como serão as carreiras do futuro

Como serão as carreiras do futuro  Fernando Gomes/Agencia RBS
Michel Costa cursou técnico em meio ambiente Foto: Fernando Gomes / 
Agencia RBS

Os novos ofícios irão mesclar diversas atividades para suprir demandas cada vez mais complexas

Quando se imaginava, até bem pouco tempo, que as empresas necessitariam de alguém que cuidasse exclusivamente da comunicação com o consumidor por meio de redes sociais? Ou que o modesto setor de ambiente, antes composto apenas por um coordenador e um estagiário, hoje teria uma equipe consistente e de forte influência no negócio?
Com a mesma velocidade dos avanços tecnológicos, dos estreitamentos de fronteiras e das mudanças na sociedade, as carreiras deverão sofrer constantes reestruturações para atender a novas demandas. Estudo feito pelo Ministério do Trabalho dos Estados Unidos mostram que 65% dos estudantes do Ensino Fundamental deverão ingressar no mercado em atividades que ainda não foram criadas.
A tendência é de que novas ocupações sejam mais híbridas, mesclando conhecimentos técnicos e incorporando competências. Como explica Júlio Xandro Heck, vice-diretor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Estado (IFRS/Porto Alegre), as carreiras do futuro envolverão, entre outras, informática, administração, automação, vendas, marketing, ambiente e química.
— Hoje em dia, por exemplo, um dos profissionais mais requisitados é o de segurança em TI. Quem tiver essa capacitação pode atuar em diversas frentes: na área de e-commerce, no Direito especializado em crimes virtuais. Ou seja, de um ofício que já existe, outros irão derivar — analisa Heck.
Pesquisa da Michael Page,realizada em cinco países — Brasil, Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha e França— destacou novas carreiras que estão em alta e que devem se desdobrar em outras ocupações. De acordo com Murillo Lima, gerente em Porto Alegre da consultoria britânica de recrutamento, as adequações das carreiras estão alinhadas às necessidades da empresa:
— A globalização expôs as diferenças e sofisticou as exigências dos clientes. Não se vende mais o mesmo produto para todo mundo, precisa-se customizar de acordo com o local, a plataforma e a necessidade daquela população. Para isso, se faz necessário alguém capaz de lidar com pessoas diferentes para atingir diversos públicos.
Além das capacidades técnicas, serão cobrados mais complementos comportamentais dos profissionais do futuro, afirma Juliano Ballarotti, gerente da Hays Recruiting Experts Worldwide. O especialista aconselha jovens e adolescentes a fazer intercâmbio, realizar trabalho voluntário ou cursar capacitações em áreas diversificadas.
Prevendo que as carreiras relacionadas à sustentabilidade seriam cada vez mais valorizadas, Michel Costa, 27 anos, ingressou há cinco anos no curso técnico em meio ambiente. Quando estava no segundo ano, começou o estágio na Vonpar. Em menos de um ano de trabalho, foi efetivado e, após a contratação, recebeu mais uma promoção. Michel cursa Engenharia de Minas.

Algumas novas carreiras

— Comercializador de energia: profissional surgiu a partir do mercado livre de energia, que começou a funcionar para valer no Brasil em 2002 e permite que grandes empresas escolham a sua concessionária de eletricidade independentemente do local.

— Gerente de treinamento do varejo: profissional que elabora programas específicos conforme as características dos consumidores.

— Gestor de reestruturação: nos bancos, gerencia a carteira de clientes endividados. Há profissionais também em companhias para colocar a situação financeira da empresa nos eixos.

— Gerente de comunidade: atua na comunicação com o consumidor por meio de redes sociais, blogs e fóruns online. 

— Engenheiro de petróleo: trabalha na descoberta de poços e jazidas, no desenvolvimento de projetos de exploração, produção e venda de petróleo e gás natural sem prejuízo ao ambiente.

— Engenheiro de mobilidade: trabalhador que atua na construção, monitoramento e manutenção da infraestrutura ferroviária, portuária e aeroportuária, supervisionando se as obras em andamento respeitam as normas legais da legislação. Em ambientes urbanos, gerencia a sinalização viária e do planejamento de transporte urbano.

— Biotecnologistas: estuda a criação, o aperfeiçoamento e o gerenciamento de novos produtos nas áreas de saúde, química, ambiental e alimentícia. Na área da microbiologia, avalia os efeitos e utilidades de fungos, bactérias, vírus e protozoários na produção vacinas, medicamentos, alimentos e bebidas. 

— Engenheiro ambiental e sanitário: responsável pelo desenvolvimento econômico sustentável, que respeita os limites dos recursos naturais, monitorando projetos e sistemas de água e esgoto. 

— Desenhista técnico em eletricidade, eletrônica e eletromecânica: elabora representações de máquinas e equipamentos eletroeletrônicos e de instalações, utilizando ferramentas específicas, tais como CAD e CIM. Suas atribuições englobam, ainda, o levantamento de materiais necessários aos processos de montagem e instalação.

Fonte: Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, Michael Page e Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel)

Profissões que podem surgir
— Técnico de telemedicina: por meio de vídeos, irá ajudar a tratar pessoas em locais remotos onde não há equipe médica local. 

— Provedor de longevidade: consultor, que depois de analisar o genoma da pessoa, fornece conselhos sobre as melhores maneiras de prolongar a vida.

— Consultor de uso de recursos: com aumento da consciência ambiental, surgirão consultores que ajudarão a medir o impacto ambiental de cada ação. 

— Organizador de desordem virtual: especialista que ajudará a organizar as vidas eletrônicas. Inclue tratamento eficaz de e-mail, por exemplo.

— Policial virtual: profissionais para monitorar comportamentos, cumprimentos de leis e proteções aos cidadãos no mundo virtual. 

— Analista de consumo de energia: como melhores ferramentas de monitoramento de energia, o analista estudará o uso de energia do consumidor em tempo real.

— Guia turístico espacial: novo papel pode surgir para os especialistas em astronomia, que poderão guiar turistas na exploração do universo nas férias.

— Designer de roupas inteligentes: estilista que criará trajes com novas tecnologias que permitam o vestuário se ajustar às condições meteorológicas e de luminosidade. 

Fonte: pesquisa The Shape of Jobs to Come ("A Forma dos Empregos que Virão"), feita pelo Grupo Fast Future
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Reportagem por Maria Amélia Vargas
maria.amelia@zerohora.com.br
Fonte: ZH on line, 02/09/2012

O BIQUINHO FRANCÊS: UM PATRIMÔNIO ESCONDIDO

José Ribamar Bessa Freire*


(Enviado de Paris) - De onde vem aquele biquinho que os franceses fazem quando pronunciam o som da letra "u"? Do latim não é, embora Cesar, ao conquistar o mundo, por estar em todas, se achasse o "u" do burugudu. Mas estava equivocado, pois os exércitos romanos jamais chegaram ao Amazonas, que se encontrava fortemente protegido pelas gloto-muralhas de Urucurituba. Não que fosse difícil conquistá-la militarmente. Não! Mas o general seria derrotado na hora em que, depois de escrever "De bello Urucuritubensis", fosse ler a palavraUrucurituba com o biquinho francês. Ele entortaria caras e bocas até o "u" fazer bico.
Isso se os romanos fizessem biquinho, mas o biquinho do "u", definitivamente, não pertence ao latim e, por isso, Cesar não precisava chamar urubu de meu louro. Talvez o biquinho seja herança do idioma gaulês, uma língua céltica já extinta, que deixou marcas presentes ainda hoje no francês moderno: nomes de plantas, toponímias, denominações de armas de guerra, como lança, e de alguns instrumentos agrícolas, além de traços fonéticos. O gaulês está para o francês assim como o tupi para o português. Ainda se sabe muito pouco sobre a história dessas línguas, cujas memórias foram, em grande parte, apagadas. Trata-se de um patrimônio invisível.
Por isso, achei que essa questão, tão intrigante, seria finalmente esclarecida, agora, nos dias 15 e 16 de setembro. É que o tema central da 29ª edição das Jornadas Europeias do Patrimônio, que se realizam nesta data, na França, será justamente o patrimônio escondido. No entanto, me enganei, ninguém vai discutir nem o biquinho do "u", nem qualquer substrato da língua francesa, mesmo considerando que não existe nada mais camuflado do que o patrimônio linguístico.
Acontece que a definição que os organizadores das Jornadas estão dando para patrimônio escondido encobre outras realidades, relacionadas aos tesouros patrimoniais ignorados detrás das portas, no fundo dos corredores, debaixo da terra ou até quando nossos olhos se voltam para o céu. Envolve o patrimônio arqueológico e pré-histórico de objetos enterrados, o patrimônio militar como as baionetas dos campos de batalha de Verdun ou as baterias da Normandia, as catacumbas, a rede de esgotos e o patrimônio astronômico.
Patrimônio escondido seria, então, tudo aquilo que fica longe dos olhos da nossa prática cotidiana. Além dos já citados, são mencionados os campanários das igrejas, os vitrais, os relógios, as galerias, inclusive as peças de museus que ficam guardadas nas reservas técnicas e nunca são mostradas, ou os livros antigos e as fotografias que normalmente ninguém vê. Agora, durante as Jornadas, os arquivos e bibliotecas da França abrem suas portas, para quem quiser ver o que não é exposto e nunca aparece.
A avaliação da ministra da Cultura e da Comunicação da França, Aurélie Filippetti, chama a atenção para o patrimônio no dia-a-dia, no feijão-com-arroz:
- As Jornadas Europeias do Patrimônio dão continuidade a essa bela missão que, mais do que uma lição histórica, é uma lição de vida: aprender a olhar, de outra forma, apaixonadamente, inteligentemente, o quadro da nossa vida cotidiana.
As Jornadas, criadas em 1984 no governo Mitterrand, são realizadas sempre na terceira semana de setembro. Elas renovaram a vida cultural da França, permitindo que esse país discuta questões centrais relacionadas ao patrimônio. Na Jornada do ano passado, em apenas dois dias, 12 milhões de visitantes percorreram museus, bibliotecas, arquivos, centros culturais, exposições, auditórios, debates, quase tudo com entrada gratuita.
Na próxima semana, os franceses vão até mesmo discutir o patrimônio imaterial: as formas de fazer as coisas, as técnicas, as práticas, as experiências, as profissões. Mas lamentavelmente, a língua ficou de fora como objeto desse olhar. A língua é um patrimônio tão escondido, mas tão escondido, que não foi focada nem pelo próprio patrimônio escondido. Não será ainda desta vez que o biquinho do "u" merecerá uma explicação.
Mas em outro evento na França, a língua será, pelo menos, lembrada. Logo após as Jornadasvai se realizar um seminário internacional, em Avignon, no sul da França, com pesquisadores franceses e brasileiros da Université d'Avignon e do Programa de Pós-Graduação em Memória Social da UNIRIO - Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, que estão vinculados ao Projeto Saint Hilaire.
Desse evento, sairá um livro bilíngue "Memória e Novos Patrimônios", coordenado por Cécile Tardy (França) e Vera Dodebei (Brasil) que contará, entre outros, com artigo sobre o uso da internet pelos índios no Brasil. E aí sim, haverá um pequeno espaço para as línguas indígenas e sua influência sobre o português.
O interesse dos franceses pelas línguas indígenas, especialmente por aquelas do tronco tupi, pode ser medido também através da documentação de Jean Ferdinand Denis, que viveu quinze anos no Brasil, de 1816 a 1831 e deixou muitos registros escritos que se encontram na Biblioteca Saint-Geneviève, em Paris. É essa papelada que agora estamos buscando. Quem sabe, ela poderá nos ajudar a entender um outro "u", amazônico, presente na expressão "cabuco da pupa da canua"? 
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*José Ribamar Bessa Freire: Doutor em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2003). É professor da Pós-Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNI-Rio), onde orienta pesquisas de mestrado e doutorado, e professor da UERJ, onde coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas da Faculdade de Educação. Ministra cursos de formação de professores indígenas em diferentes regiões do Brasil, assessorando a produção de material didático. Assina coluna no Diário do Amazonas e mantém o blog Taqui Pra TiColabora com esta nosssa Agência Assaz Atroz.

domingo, 2 de setembro de 2012

'O alemão fez sinal. Pegou uma foto e me mostrou. Eram ele, a mulher e duas crianças'

Segunda Guerra Mundial

João Gonzales - Evelson de Freitas/AE

Depoimento: João Gonzales

Meu nome completo é João Gonzales. Tenho 91 anos e fui da 1ª Companhia de Petrechos Pesados do 1º Batalhão do 6º Regimento de Infantaria. Fui designado e embarquei com o primeiro escalão da FEB. Nossa unidade foi a primeira a participar da guerra. Eu percebi na primeira noite que nós entramos em combate porque nós estávamos ali naquele afã de se acomodar durante a noite, porque o frio ali é meio forte, e aí já ouvimos uns tiros. Ficamos meio assustados... a gente não estava habituado. Depois ouvimos umas rajadas de metralhadora. Naturalmente isso era com intuito de nos assustar, porque não acertou nenhum de nós.
Quando eu fui ferido a nossa linha telefônica com a terceira companhia havia sido interrompida por tiros de artilharia. O comandante da companhia me disse: "Como é que nós vamos fazer?" Isso eram onze horas da noite. Mas como ele insistiu, eu falei pra ele: "Eu vou, capitão, mesmo que vá sozinho". Aí ele falou: "Mas sozinho você não tem condições". Aí consegui convencer três soldados, que se dispuseram a ir comigo e fomos consertar a linha.
Entretanto chegou um ponto que caía muita bomba, bomba em cima da outra, muita bomba. Eu comuniquei ao capitão: "É praticamente impossível prosseguir". E ele disse: "Ô rapaz, você nunca demonstrou medo, agora você está com medo?". Eu falei: "Medo eu não tenho, mas tô colocando em risco a minha vida e a dos demais companheiros". "Vê o que você pode fazer", ele respondeu.
E eu, para não retroceder, prossegui, né. Aí andei mais cem, 200 metros e caiu uma bomba na minha frente, como daqui até a porta da cozinha e aí escureceu tudo e eu caí.
Quando cai a bomba, é aquela luminosidade, a gente fica cego, não enxerga nada. Caí no chão, comecei a me debater. Estava sozinho, pois meus colegas tinha recuado para salvar a pele. E eu fiquei ali com hemorragia tremenda, sem poder me levantar, fazia um esforço, mas não conseguia, não conseguia.
Eu tenho estilhaço ainda no pulmão até hoje, eu tirei dois, extraíram dois, mas um permanece até hoje. Quando eu fui ferido eu achei que era meu fim. Eu percebia três furos no capote e o sangue escorria abundantemente uma hemorragia muito forte, então eu logo deduzi o seguinte: a hemorragia que vai me acabar. E nessa hora, aqui pra nós, o único que você se lembra é da sua mãe... uma hora difícil, viu, é difícil, mas felizmente eu fui pro hospital, me socorreram, me safei dessa.
A guerra é o pior que pode acontecer, não existe nada pior.
Quem devia fazer a guerra são os chefes, as duas cabeças, eles é que deviam se enfrentar e poupar o resto do mundo.
Um dos fatos que me marcou foi a morte do tenente chamado José Maria Pinto Duarte. Estavam eu, o Atratino, o capitão Tavares, primeiro-tenente e um soldado corneteiro. Começou a escurecer e nós avançamos até um determinado ponto e ficamos. E nisso avistamos a casa a uns cem metros, 200 metros a frente e o capitão Atratino me falou: vai dar uma olhada na casa e vê se tem condição de a gente se acomodar lá. Nos alojamos ali.
Tinha um monte de milho debulhado, eu esparramei o milho e deitei em cima.
Durante a madrugada, ouvi vozes. Não julgávamos que fossem os alemães. Mas eram. Durante a noite, eles retomaram as posições que tinham. Ficaram pertinho da gente. O nosso pessoal percebeu e recuou, mas nós na casa não percebemos. A gente via os soldados alemães passando com munição.
O capitão Atratino estava excitado demais. Ele apontou e atirou no soldado. Lógico que matou o pobre infeliz, mas eles perceberam e aí viraram a metralhadora para nossa casa. Aí começou aquele salve-se quem puder. E o Atratino: corre, foge, foge.
Eu fui o primeiro a pular pela janela. Aí pulou o Atratino e, nisso, pulou o José Maria Pinto Duarte, ele foi tão infeliz que o atingiram com uma rajada.
Nós tentamos puxá-lo, mas naquele fogo intenso, naquele sufoco. O Atratino: corre, corre se esconde.
Eu deixei os dois e saí correndo. O Atratino tentava arrastá-lo, mas ele era um homem muito alto, pesado, era difícil.
Eu me lembro quando ele falou: "Cuide bem da minha filha", como uma súplica, uma verdadeira súplica. Aquilo calou muito, me marcou. Eu nunca esqueço disso.
Praticamente engatinhando, fui saindo até que cheguei na minha companhia. Eram oito horas. O capitão Atratino, quando me viu, me abraçou, quase que chorando viu. Falou: "Rapaz, eu pensei que você tinha morrido também. Já não contava mais contigo". Eu falei: "E o Zé Maria?" "Esse já foi", respondeu o capitão.
Olha, coisa boa a guerra não é. Não existe coisa pior. A guerra é uma destruição de tudo. Caráter, vidas. Eu me lembro de uma senhora com uma criança de nove anos que veio correndo pro meu lado pedindo comida. Nós não podíamos. A alimentação era toda em lata.
Tinha a F9, que era um feijão grosso. Aquilo era intragável. Eu não comia então ia juntando aquelas latas. Tinha sete, oito latas daquela. Quando a mulher veio eu peguei, fui procurar as latas escondidas e dei pra ela. Mas ela devorou aquilo de um modo espantoso, espantoso.
Ela abria a lata, botava assim e comia, sem mastigar sem nada e a criança agarrada, clamando... ela nem lembrava da criança, quando ela comeu três ou quatro latas que ela foi lembrar da criança, mas olha, comia com uma avidez que assustava a gente. Como é que essa mulher engole desse jeito.
Até hoje tenho pesadelos. Volta e meio tenho um sonho e relembro fatos. Na hora me ocorre a lembrança de certas passagens lá. Ainda hoje. Sessenta e tantos anos após o conflito. Que a pessoa fica marcada.
Eu me lembro de um soldado chamado Guilherme. Uma vez a gente estava numa tarde de um tiroteio tremendo e a gente engatinhando para não ser atingido, pois oferecia menos volume como alvo e, naquele dia, ele levantou e saiu correndo e eles com aquela metralhadora. Falei: "Vai morrer". Ninguém se atrevia a levantar e sair correndo. Eu peguei nas pernas dele e o derrubei. Ele era franzino. Minha sorte era essa. Ele estava transtornado completamente. Nunca me esqueço... um rapaz novo ainda, era mais novo do que eu.
Atirei muitas vezes na guerra. Não posso dizer se matei ou não. Por que ali, não é assim. Eu aqui. É a 200, 300 metros e como não é um só que atira, a gente as vezes até via o cara tombar, mas não posso precisar se foi o meu tiro que o atingiu ou não e não quero nem pensar que fui eu.
No fim, me lembro de uns prisioneiros que nós pegamos lá. Um sargento alemão chegou perto de mim... Quem tinha apanhado foi um tal de Nascimento, um sargento, que os tinha aprisionados. E esse Nascimento era um tanto agressivo. Eu disse: "Nascimento, pera aí, vamos devagar, os moços já estão presos. Não têm como reagir mais. Vamos tratar eles como seres humanos". Eu quis amenizar a situação. E não sei se o sargento, esse alemão, ele entendeu o que eu quis dizer, que imediatamente ele ajoelhou aos meus pés, como que pedindo perdão. Eu tentei levantá-lo. Aí ele enfiou a mão numa blusa até pensei que ele ia puxar uma arma e me preveni com minha pistola. O alemão fez sinal que não. Pegou e tirou uma fotografia e me mostrou ele, a mulher e duas crianças. Aquilo comove viu... pra entender que ele também tinha filhos... a guerra é ruim pra todo mundo. A guerra é o pior que pode acontecer.
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Reportagem por EDISON VEIGA E MARCELO GODOY
Fonte: Estadão on line, 02/09/2012

Novo e austero estilo de vida

Doou toda sua fortuna há dois anos e agora 
diz ter encontrado a felicidade.

Karl Rabeder, um empresário austríaco, declarou que se sente mais feliz depois que doou toda sua fortuna do que quando era um multimilionário.
"Agora sou realmente feliz", confessou Rabeder, de 49 anos. Ele vendeu sua empresa, sua luxuosa mansão nos Alpes, suas limusines e seu avião particular, e transferiu todos o dinheiro de suas contas para organizações do Terceiro Mundo que fazem empréstimos a pessoas que montam pequenos empreendimentos.
Rabeder vive agora com cerca de 1.500 dólares mensais, recebidos com as palestras que dá a empresários sobre o seu novo e austero estilo de vida.
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Fonte:  http://www.noticiaslocas.com/EFkEZEyAAE.shtml