sábado, 2 de junho de 2012

A resistência artística no País

Valores: uma cédula de dólar carimbada por Cildo Meireles (Rio, 1948) com frase ‘anti-EUA’ (1970) - Wilton Montenegro/Cortesia do artista
Wilton Montenegro/Cortesia do artista
Valores: uma cédula de dólar carimbada por Cildo Meireles (Rio, 1948) com frase ‘anti-EUA’ (1970)

Professora de história da arte, Claudia Calirman analisa em livro que será lançado este mês nos EUA os caminhos da produção de três artistas durante os anos de repressão no Brasil

NOVA YORK - A curadora e historiadora de arte carioca Claudia Calirman acaba de se tornar vizinha do dissidente cego chinês Chen Guangcheng, que se instalou no mesmo complexo de edifícios do bairro nova-iorquino do Greenwich Village, onde ela mora. Se forem apresentados, é fácil prever um tema da conversa: como resistir com integridade a uma ditadura? A resistência que interessa à carioca é a dos artistas plásticos atuantes no Brasil, especificamente três nomes que seguiram carreiras consagradas; eles são o foco de Brazilian Art Under Dictatorship - Antonio Manuel, Artur Barrio, and Cildo Meireles (Arte Brasileira sob a Ditadura: Antonio Manuel, Artur Barrio e Cildo Meireles), livro que sai no dia 29 pela Duke University Press. Claudia Calirman é professora de História da Arte do John Jay College of Criminal Justice, em Manhattan. A ideia da obra veio de uma série de conversas com o crítico Frederico Morais, um curador que não se ausentou do País durante a ditadura. “Foi ele que me chamou a atenção para a narrativa individual dos três”, lembra a autora.

Claudia não romanceia a trajetória dos artistas, que analisa no período entre 1968 (AI-5) e 1975. As ações dos três, escreve, eram mais mundanas do que heroicas. O heroísmo, diz, reside na distância que eles percorreram com a arte e do que realizaram com ela. “Eles partiram de um começo que incluía nomes como Hélio Oiticica e Lígia Clark e atravessaram o pior momento da ditadura”, comenta.

Leia a seguir a entrevista exclusiva de Claudia Calirman ao Sabático.

Você destaca, no livro, a escassez de documentação jornalística sobre as ações dos artistas plásticos da época, por causa da censura.

Sim, é um ponto importante porque você vê muita gente perguntar “então, já viu uma Coca-Cola do Cildo Meireles? Viu o trabalho do Antonio Manuel nas bancas de jornal?” Não havia cobertura convencional. E os próprios artistas viam o que faziam como ações rápidas. Não é como hoje, quando há tanto trabalho performático, consciente da câmera, com a expectativa do registro.

Sua tese é que a resistência representada por este grupo de artistas plásticos se situava longe do dogma ideológico e do nacionalismo?


Não havia um movimento organizado. Esses artistas não se agruparam. Faziam sua arte e, de vez em quando, expunham juntos. E eram censurados juntos. Mas não há um rótulo, como “geração AI-5”. Acho que o teatro foi mais organizado, até ser violentamente perseguido no período do AI-5. Tivemos a Tropicália na música. Acho que as artes visuais foram menos perseguidas porque eram menos expostas.

Você cita outro marco, o boicote à Bienal de São Paulo, em 1969, que nem foi muito percebido pelo público por causa da censura. Por que acha que o boicote teve outro efeito?

O boicote internacional começou em Paris, com o critico e curador Pierre Restany, se espalhou pela Europa e chegou aos Estados Unidos. Foi um esvaziamento, que ficou conhecido com a Bienal do Boicote. Por isso mesmo, outros eventos locais, como o Salão da Bússola, começaram a ter mais importância, já que, até então, a Bienal dominava como vitrine do que acontecia na arte.

Coloque em perspectiva o trabalho do Antonio Manuel, que fez a performance em abril de 1970, no MAM-Rio, quando estava nascendo a body art.

Vejo mais o ato do Antonio Manuel de tirar a roupa no MAM naquele dia como um gesto espontâneo e não como uma estratégia de expressão. Ele - seu corpo - havia sido recusado pelo Salão de Arte Moderna. O fato de que ele apresentou o próprio corpo como obra de arte é mais importante do que o gesto de tirar a roupa. Como ficar nu provocou escândalo, ficamos com a memória de ser o fato relevante. Por ele ter tentado se inserir na exposição como uma obra, este momento é que se relaciona com a body art.

Em 2010, causou grande repercussão aqui a instalação da Marina Abramovic, em que ela passava o dia sentada no MoMA e convidava o visitante a se sentar à sua frente e fixar o olhar no seu. Qual a diferença que o contexto político faz para o artista quando a ousadia estética encontra o estado policial?

É um aspecto importante. Em momentos de repressão, a arte acaba por reinventar formas de expressão. É de novo a frase do Oiticica, “da adversidade vivemos”. E a produção artística enfrenta um obstáculo maior na autocensura, quando a criatividade do artista entra em conflito com sua autopreservação. Você vê exemplos de arte mais efêmera em situações de restrição à liberdade, como na União Soviética e China. Mas quero notar que a Marina teve que lidar com a questão institucional, corporativista do museu e fez várias concessões para fazer a exposição. E esta forma de restrição tende a ser mais branda no Brasil.

E como você vê a trajetória do Antonio Manuel saindo dos anos da ditadura?

Não quis, intencionalmente, fazer a ponte com os dias de hoje; espero que outros sigam com essa narrativa. É um ótimo pintor que se interessa pelas questões da pintura. Livre da repressão política, ele evolui para a abstração geométrica que vemos hoje.

O aspecto efêmero da obra do Artur Barrio é um desafio maior ainda para a memória do trabalho dele naquele período?

Vamos lembrar que, além de ter representado o Brasil na última Bienal de Veneza, ele ganhou, em 2011, o prêmio Velázquez de Artes na Espanha, que mostra que passou a ter reconhecimento internacional. O desafio para quem pesquisa é o fato de o Barrio não ter interesse em preservar o trabalho. Faz questão de destruir e não acredita em reprodução da obra. Acha que uma foto da obra deve ser identificada como “registro” do trabalho. Não quer que seu trabalho seja distorcido por certas formas de representação.

Um ponto em comum entre os três artistas é a juventude deles, quando é decretado o AI-5. Barrio com 23 anos, Manuel, 21, Meireles, 20. Há algo em comum na memória que eles têm daquele tempo?


São três personalidades muito distintas, que passaram por processos de evolução diferentes. Mas todos olham para aquele momento, inequivocamente, como o passado. O artista sempre quer se firmar no presente. Na verdade, foi um pouco difícil trazer a conversa para aqueles anos que, em parte, gostariam de esquecer.

E não têm uma ideia romântica do período.

Não, veem como um momento que tiveram que atravessar, fazendo uma arte tão marginal. Não era pintura, escultura, não se vende. Como sobreviver? Senti que precisam manter certa distância daquele tempo.

Entre os três, o Cildo Meireles é o que articula mais intelectualmente a questão da história e da identidade do Brasil, certo?

Com certeza. Acho que o Cildo se preocupa com a questão da trajetória narrativa da arte brasileira. Ele valoriza artistas como Oiticica, Ligia Clark, o neoconcretismo, mesmo não fazendo parte de movimentos, porque morava em Brasília. E ele veio para Nova York no fim dos anos 60. Cildo acha importante criar uma genealogia contínua da arte brasileira. Acho que o Manuel e o Barrio são mais interessados em rupturas. O Manuel era muito amigo do Hélio Oiticica e teve uma relação de trabalho com ele, que vem mais da arte construtivista, do Dada.

Você lembra no livro como a arte conceitual criou uma resposta à ditadura.


Sim, mas havia uma diferença de expressão conceitual. Nos Estados Unidos, era uma arte mais ligada à linguagem, a palavras. No Brasil, você toma como exemplo a Coca-Cola do Cildo Meireles, é mais uma estratégia, como também era a distribuição dos dólares. Os artistas tiveram que procurar estratégias conceituais para se opor ao regime, evadindo a censura. Aquela nota de 1 cruzeiro com a inscrição “quem matou o Herzog?”. Todo mundo sabia que o Vladimir Herzog tinha sido assassinado na prisão. A pergunta é pura retórica, para espalhar uma dupla consciência.

Há uma tendência nos Estados Unidos de romantizar a experiência do perseguido por um regime autoritário. De exacerbar a condição de vítima. E você afirma que a criatividade desses artistas não existia por causa da ditadura.


Achei importante dizer isso. Não se pode elevar um artista por causa do contexto político. Lembro do samba do Chico Buarque, Apesar de Você. A arte efêmera estava acontecendo em outros países. No Brasil, ela adotou um caráter mais político, mas havia a emergência de uma linguagem internacional, na performance, na body art, no conceitualismo. E sim, apesar da ditadura, eles continuavam a produzir, mas não por causa dela.

BRAZILIAN ART UNDER DICTATORSHIP

Autor: Claudia Calirman
Editora: Duke University Press (Importado, 264 págs., R$ 312,20)

Leituras afins

BRUTALITY GARDEN: TROPICÁLIA AND THE EMERGENCE OF A BRAZILIAN COUNTERCULTURE,
de Christopher Dunn (Importado, University of North Carolina Press, 276 págs., R$ 86,80). Uma história da Tropicália.

CONCEPTUALISM IN LATIN AMERICAN ART: DIDACTICS OF LIBERATION, de Luiz Camnitzer
(Importado, University of Texas Press, 364 págs., R$ 80,80). O artista conceitual alemão mostra como a arte conceitual latina se distinguiu daquela feita na Europa e dos EUA.
ARTE&POLÍTICA, org. de Annateresa Fabris (C/Arte, 198 págs., R$ 36).

CULTURA POSTA EM QUESTÃO/VANGUARDA E SUBDESENVOLVIMENTO, de Ferreira Gullar (José Olympio, 304 págs., R$ 43).
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Reportagem por Lúcia Guimarães - O Estado de S.Paulo, 01/06/2012

Nós na família

                                              Luiz Fernando Dias Duarte*

Nós na famíliaFoto de família. A despeito do vigor da ideologia do individualismo na nossa cultura, a experiência analítica antropológica demonstra que o pertencimento familiar continua sendo uma dimensão crucial da experiência social. (foto: Francisco Cunha)  

Por mais que o valor do ‘indivíduo’ em nossa cultura nos aponte um caminho de afastamento das redes originais de parentesco, o pertencimento familiar prevalece. O antropólogo Luiz Fernando Dias Duarte analisa a questão em sua coluna de junho.


Um dos desafios mais sutis e constantes do saber antropológico é o de relativizar a representação de pessoa reinante em nossa cultura. Constituída historicamente sob a forma ideológica do ‘indivíduo’, a pessoa ocidental porta qualidades ontológicas, simbólicas e pragmáticas muito peculiares quando comparada com as demais culturas. Essas qualidades são fundamentalmente as de ‘liberdade’, ‘igualdade’ e ‘autonomia’, essenciais na configuração dos valores que prezamos hegemonicamente como os melhores e os mais legítimos.
Ocorre-me tratar aqui – até por estar ministrando no Museu Nacional neste semestre um curso sobre a matéria – das implicações desse tema no estudo e compreensão do fenômeno da família. Entre as múltiplas ordens de englobamento das pessoas socialmente situadas, a família tem uma posição privilegiada, uma vez que não há reprodução humana sem o concurso de diversas pessoas num círculo relacional mínimo em que a concepção, o parto e os cuidados às crianças se processam.
A forma de fazê-lo pode variar enormemente – e já tratei da complexidade dos ‘sistemas de parentesco’ humanos em outra coluna recente. A essa trama que envolve os sujeitos na sua socialização primária costuma-se chamar de ‘família’. O termo pode abarcar círculos e tipos de relações muito variados, confundindo-se na nossa cultura com a forma nuclear que passou a prevalecer no Ocidente desde o final do século 18.
Essa família reduzida a um casal e seus filhos é, assim, um ideal recente e nem sempre completamente atingido na prática. Sua instituição foi concomitante com a do próprio individualismo como princípio estruturante da representação ocidental da pessoa. Essa nova família deveria ser a mais enxuta possível, justamente para poder se desincumbir da emergente tarefa de produzir ‘indivíduos’, ou seja, pessoas que se vissem e se sentissem como livres, iguais e autônomas. 
Autorretrato do pintor alemão Johann Friedrich Overbeck
Autorretrato do pintor alemão Johann Friedrich Overbeck com a esposa e o filho (dec. de 1820). A forma nuclear de família, reduzida a um casal e seus filhos, passou a prevalecer no Ocidente a partir do final do século 18, junto com a instituição do individualismo como princípio estruturante da representação ocidental da pessoa.
Uma parte fundamental dessa produção ideal passou a ser a percepção de que a sociedade e seus múltiplos círculos e dimensões não passavam de um acréscimo conjuntural à realidade básica dos indivíduos. O modelo da cidadania moderna, concebida como um ‘contrato social’, é uma das raízes mitológicas dessa representação desde o século 17.
Com isso, a família, por mais que continuasse essencial, também passou a ser concebida como uma ordem exterior aos indivíduos, sendo necessário dela se afastar exemplarmente para construir a vida pessoal própria, a carreira afirmativa no mundo característica de um ser autônomo. Pelo menos até o momento de constituir uma nova família, com casamento e procriação; desencadeando outro lance dessa contraditória condição, com os desafios complexos de preservação da autonomia numa trama sempre fortemente relacional.

Sacrário original e permanente

A experiência analítica antropológica demonstra, no entanto, que a relacionalidade intrínseca da família se afirma na vasta maioria das culturas, prevalecendo sobre as trajetórias e identidades pessoais – nunca imaginadas como ‘individuais’. E, mais do que isso, demonstra que, mesmo em nossas sociedades, e a despeito do vigor da ideologia do individualismo, o pertencimento familiar continua sendo uma dimensão crucial da experiência social. 
A despeito do vigor da ideologia do individualismo, o pertencimento familiar continua sendo uma dimensão crucial da experiência social
As palavras para descrever essas afirmações são muito traiçoeiras. Falar de pertencimento, de englobamento, de relacionalidade transmite uma imagem fraca da ideia central em jogo. Parecem sugerir apenas que os indivíduos, autônomos como são, não podem prescindir dessas outras relações e integrações e que o fazem por força de circunstâncias relativamente fortuitas e frequentemente abusivas. E, por isso mesmo, algumas obras antropológicas importantes insistem numa demonstração mais exata do processo que se encontra aí em jogo.
Em artigo recente, o importante antropólogo estadunidense Marshall Sahlins reaviva a consciência dessa condição relacional profunda da vida familiar, revisando uma ampla gama de testemunhos etnográficos, de estudos sobre outras sociedades. Propõe ou retoma de outros autores diversas expressões que podem trazer à luz a importância dessa relativização da condição de ‘indivíduos’ na trama familiar. Fala de ‘mutualidade de existência’, de ‘pertencimento intersubjetivo’ e de ‘participação intersubjetiva’, buscando assim sublinhar o fato de que as pessoas encontram-se sempre imersas em uma dimensão identitária, experiencial, que ultrapassa de muito sua eventual condição de ‘indivíduos’: a da família ou parentesco.
O ponto também é explorado pelo antropólogo português João de Pina-Cabral, a partir de sua rica trama de estudos diretos em Portugal, Macau, Brasil e na África meridional. A locução que nos propõe é a de ‘identidades continuadas’, que encontra e descreve, não em longínquas sociedades tribais, mas no coração mesmo da vida urbana metropolitana moderna. Ele sublinha com mais nitidez a dimensão temporal, de comum pertencimento entre diversas gerações.
Sahlins faz bem em evocar um personagem fundamental da história do pensamento antropológico, o filósofo e sociólogo francês Lucien Lévy-Bruhl, que, nas primeiras décadas do século 20, investiu um grande esforço reflexivo na demonstração de que o pensamento humano não opera apenas de acordo com os preceitos da lógica formal da tradição ocidental, mas que, na verdade, se funda em princípios de construção das identidades e dos valores altamente integrados, englobantes, a que chamou de ‘princípio da participação’.
Mesmo onde reina hegemônica a visão de mundo moderna, racionalizada e individualizada, uma relacionalidade institutiva, principial, sempre está em ação
Enfatizava com isso que, mesmo onde reina hegemônica a visão de mundo moderna, racionalizada e individualizada, uma relacionalidade institutiva, principial, sempre está em ação. Cada ente, ação ou valor se encontra sempre entranhado em ordens de significado que os ultrapassam e que não obedecem à delimitação dos conceitos nítidos e unívocos.
‘Nós’ constituímos os ‘nós’ dessa intensa trama de papéis, experiências e significados que constituem as famílias. Por mais que nos representemos autônomos ou autonomizados em relação a elas, sempre portamos uma dimensão de participação, pertencimento, englobamento e entranhamento que nos mantêm no interior daquela configuração.
Em outro texto, cheguei mesmo a explorar as conotações religiosas de que o pertencimento pode frequentemente se cercar, na referência a esse sacrário original de onde nunca saímos inteiramente. Essa característica não é apenas um efeito sentimental entre outros; é uma força fundamental que deve ser analisada e compreendida em seus permanentes efeitos sobre a vida social como um todo.
Sugestões para leitura 

Carsten, Janet (org.) Cultures of relatedness: New approaches to the study of kinship. Cambridge: Cambridge University Press, 2000.

Duarte, Luiz F. D. ‘O sacrário original - Pessoa, família e religiosidade’. Religião & Sociedade, vol. 26, n.2, p.11-40, 2006.

Duarte, Luiz F. D. ‘Horizontes do indivíduo e da ética no crepúsculo da família’. In: Ribeiro, Ivete e Ribeiro, Ana Clara (orgs.). Família e sociedade brasileira: Desafios nos processos contemporâneos. São Paulo: Loyola, 1995.

Pina-Cabral, João de. O homem na família: Cinco ensaios de antropologia. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2003.

Sahlins, Marshall. ‘What kinship is (part one)’. Journal of the Royal Anthropological Institute, vol.17, n.1, p.2-19, 2011.
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* Antropólogo. Museu Nacional. Universidade Federal do Rio de Janeiro
Fonte:  http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/sentidos-do-mundo/nos-na-familia, 01/06/2012

Travessia

Marta Suplicy*
Escreveu Fernando Pessoa: 
"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, 
que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos,
 que nos levam sempre aos mesmos lugares.
 É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, 
para sempre, à margem de 
nós mesmos".
Travessias são sempre difíceis e revestidas de peculiaridades. Por isso há os ritos de passagem. Seja para celebrar com um bom choro a saída do útero materno para a vida, para tolerar os primeiros dias de um luto com cerimônias religiosas e presença da família e amigos, as festas de saída da adolescência para a vida adulta, a celebração do casamento, o trote na universidade...
Essas são as travessias mais visíveis e que tomam formas diferentes dependendo das culturas. Sempre existiram no decorrer dos séculos.
Mas existem outras. As que estão acontecendo nos costumes, nas regras de comportamento, nas leis que se aprimoram para acompanhar as mudanças das novas exigências, nas aspirações dos povos, nos sistemas de governo que conhecemos e no direito pleno de cidadania. Agora, com a rapidez desencadeada pela modernidade da comunicação digital globalizada.
Influencia para o bem ou para o mal, com todas as notícias ou reflexões que mal temos tempo de digerir. Mas a mente vai se acostumando com as pérolas e o lixo, e o trator da vida segue seu caminho.
São interessantes as contradições que brotam desses processos. Não se chega à outra margem do rio sem respingos. Há risco de afogamento. O difícil é fazer o percurso, mas, se vislumbrada a chegada, não há força que segure a mudança e o crescimento.
Temos visto isso na exigência de transparência nos governos, na busca da ética nos políticos, no respeito, na tolerância, na sustentabilidade para o nosso planeta, no direito de os seres humanos se unirem de acordo com seus desejos, nas famílias se constituírem por amor. E com todas as contradições de interesses e crenças caminhando em luta feroz. Entretanto o avanço para um processo civilizatório com mais justiça e dignidade para todos é inexorável. Assim caminha a humanidade.
Os movimentos de massa, que chegam na outra margem, começam com pessoas que percebem o novo, algumas que se inquietam, outras que não se conformam, com os milhares que sonham e que são visionários e com os poucos que captam o futuro e lançam fagulhas que, de tão fortes, incendeiam milhares de mentes e suscitam ações. Pessoas que fizeram suas travessias. Outras que pegam carona.
As certezas e os sonhos a serem descartados são o mais difícil na travessia. A isto se refere Fernando Pessoa em poucas linhas. Largar as roupas que nos levam aos mesmos lugares. 
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* Psicóloga. Política. Colunista da Folha
Fonte: Folha on line, 02/06/2012
Imagem da Internet

O café e a longevidade

Drauzio Varella*
O efeito protetor foi diretamente proporcional 
ao número de xícaras ingeridas diariamente
Antes do primeiro café da manhã, 
sou um arremedo de mim mesmo. 

Assim que acordo, sou capaz de executar tarefas mecânicas e de correr duas horas seguidas, mas qualquer esforço intelectual antes da xícara de café com leite é um fardo insuportável. Meu cérebro permanece em modo contemplativo até a cafeína cair na circulação.
No meio da manhã, já em plena atividade, sinto uma necessidade louca de repetir a dose; pouco mais tarde, a vontade retorna, irresistível. Se não soubesse que a cafeína tem vida longa no organismo, a ponto de o cafezinho das cinco da tarde interferir no sono da noite, seria daqueles que só vão para a cama depois de tomar o último.
Por culpa desse efeito estimulante, tomar café não faz parte do assim chamado estilo de vida saudável. Como a cafeína está ligada a aumentos do LDL (o "mau" colesterol) e a elevações transitórias da pressão arterial, sempre houve suspeita de que pudesse aumentar a incidência de doenças cardiovasculares, como os infartos e os derrames cerebrais.
Os resultados dos estudos já realizados, no entanto, foram heterogêneos e inconsistentes com essa hipótese. Pelo contrário, alguns mostraram existir relação inversa entre o consumo de café e o aparecimento de doenças inflamatórias, diabetes, derrames, infartos e ferimentos acidentais. Mas, até aqui, nenhum inquérito populacional havia conseguido relacionar os níveis de consumo diário com a mortalidade.
Para responder se quem toma café vive menos tempo, um grupo americano dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) acaba de publicar o estudo mais completo sobre o tema.
Por meio de um questionário, foram incluídos na pesquisa 229.119 homens e 173.141 mulheres saudáveis de ambos os sexos, com idades entre 50 e 71 anos. A avaliação inicial compreendia 124 itens relacionados com o estilo de vida e a dieta: consumo de vegetais, frutas, gordura saturada, carne vermelha ou branca e o total de calorias ingeridas.
Dos participantes, 79% tomavam café de coador, 19% café instantâneo, 1% expresso e 1% não especificou o modo de preparo. De acordo com o número de xícaras tomadas diariamente, o grupo foi dividido em dez categorias.
Comparados com os que não tomavam café, entre os consumidores havia mais fumantes, mais gente que tomava três drinques ou mais por dia e ingeria quantidades maiores de carne vermelha. Também tendiam a apresentar nível educacional mais baixo, a praticar menos exercícios extenuantes e a comer menos frutas, vegetais e carne branca. Por outro lado, havia menos casos de diabetes entre eles.
Durante os 14 anos de seguimento dessa população, foram a óbito 33.731 homens e 18.784 mulheres.
De início, os dados pareciam mostrar que o consumo de café estaria associado ao aumento da mortalidade. Depois de eliminar fatores como cigarro (especialmente), sedentarismo e obesidade, entretanto, ficou claro haver uma relação inversa: quanto mais café, menor o número de mortes.
Além de diminuir a mortalidade geral, tomar café reduziu a mortalidade por diabetes, doenças cardiorrespiratórias, derrames cerebrais, ferimentos, acidentes e infecções. As mortes por câncer não foram afetadas.
O efeito protetor foi diretamente proporcional ao número de xícaras ingeridas diariamente. A diminuição mais acentuada da mortalidade aconteceu no grupo de seis xícaras ou mais por dia: redução de 10% nos homens e de 15% nas mulheres. Essa associação foi independente da preferência por café descafeinado ou não, sugerindo que a proteção não ocorre por conta da cafeína.
Caro leitor, você deve estar cansado de ler artigos pseudocientíficos que apregoam as vantagens de determinados alimentos. A internet está abarrotada de sites e de mensagens que se propagam feito vírus, exaltando os benefícios do alho, do limão, da alface, do tomate orgânico, da berinjela, e por aí vai.
O estudo que acabei de apresentar foi aceito para publicação na "The New England Journal of Medicine", a revista médica de maior circulação, porque é o mais completo já realizado sobre o assunto.
Na manhã em que recebi a revista, fazia frio. Quando terminei a leitura do artigo, tomei o segundo café. Uma hora mais tarde, enquanto escrevia a coluna, tomei o terceiro. No final, o quarto, só para comemorar. 
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* Médico. Cientista e escritor.
Fonte: Folha on line, 02/06/2012
Imagem da Internet

O homem, filho do cachorro

Paulo Ghiraldelli Jr*

O Pitoko é uma criança, ele é uma criança, mas só com a parte boa 

Francielle Maria Chies

“Pelo cão, o deus dos egípcios!” – era assim que Sócrates exclamava. Ele sabia o quanto soava engraçado essa formulação em uma sociedade como a dele, cujo antropocentrismo nós herdamos e conhecemos muito bem. Mas ele também sabia que os egípcios, mais antigos que os gregos, não eram nada tolos e a adoração do cão remetia a tradições inteligentes que vinham de um passado mais que distante. O cão e o homem estão juntos faz tempo, e pesquisas recentes indicam que esse encontro é muito mais velho do que até poucos anos se supunha. Admite-se agora que o homem e o cão passaram a se entender quando ainda estavam na superfície da terra o neandertais, aqueles que diferiam muito pouco dos humanos, mas que foram brindados com a extinção.
Os neandertais chegaram a acasalar com os humanos e tiveram filhos. Os pesquisadores consideravam esses filhos como híbridos, aos menos até pouco tempo atrás. Mas agora, admite-se claramente que esses rebentos não eram híbridos e que a carga genética de ao menos 1/3 da população mundial tem a forte presença dos neandertais. Não somos todos iguais perante Deus, apenas tentamos isso, nas democracias liberais, perante a lei. Essa diferença inclui, também, nossa relação com o cão. Neandertais comiam carne, e só carne, e não aceitaram os cães entre eles. O homem humano diversificou a sua alimentação e, assim, teve mais condições adaptativas que o seu concorrente, e o ensino escolar da evolução, até pouco tempo, dizia que este foi o elemento decisivo para que o homem tivesse escapado do tempo de escassez que fez com que os neandertais desaparecessem. No entanto, as pesquisa mais recentes – e fortemente embasadas em dados empíricos e na pluralidade de grupos de pesquisas – indicam que o que realmente salvou o homem foi sua amizade com o cão (e com o lobo). (Veja Scientist)
Os olhares que trocamos com os cães, atualmente, e que mostram cumplicidade e entendimento (uma humanização do cão ou, talvez, o inverso), e o comportamento do cão, que efetivamente ganhou merecidamente o título de “o melhor amigo do homem”, denota uma relação extremamente antiga. Essa relação salvou o homem e determinou o rumo da evolução quanto à existência da humanidade como ela é hoje. O cão pode muito bem ter chefiado a vida do homem, conseguindo comida, caçando, farejando água, protegendo seus filhos e os filhos dos humanos em uma época dificílima na Terra. Além disso, o cão, quanto mais próximo do lobo, tende a comportamentos monogâmicos e de clã, dando ao homem um feedback positivo quanto ao comportamento que estaria sendo já adotado pelo homem. Os neandertais não tiveram a sorte de serem amigos dos cães. O cão ficou como o “amigo do homem” – seu melhor amigo. Melhor em um sentido muito mais intenso e decisivo que aquele que até pouco tempo louvávamos.
As pesquisas atuais mostram que o homem primitivo não sacrificava os cães nem os comia. Além disso, o punha em condições especiais. Crânios de cães dessa época mostram apetrechos incrustados, postos neles após sua morte, em um claro sinal de devoção. O cão foi um deus muito antes do que imaginávamos, e não sem razão. Diante dessas descobertas, também inscrições e desenhos em cavernas, ganharam outra dimensão. Neles, não raro, os cães são mostrados acompanhando o homem em caçadas e outras atividades. Ou, talvez, o contrário: o homem esteve acompanhando o cão nisso tudo.
Falamos muito em humanização dos cães, hoje em dia. Mas o trabalho todo para nos conhecermos – o “conhece-te a ti mesmo” ainda continua sua saga – talvez devesse ser posto de ponta cabeça. Deveríamos ler em nós o quanto temos dos cães, e não o quanto eles têm de nós. Pois a interação primitiva não deve ter sido unidirecional. Nietzsche chamou o homem de “animal de rebanho”, talvez fosse interessante pensarmos em nós mesmos como “animais de matilha”. Mogly, o menino lobo, e os fundadores de Roma, Rômulo e Remo, deveriam ser símbolos de nossa antropologia e, de certo modo, da filosofia. Talvez não tenhamos sido só salvos pelos cães, ganhando destino diferente dos neandertais. Talvez tenhamos recebido dos cães uma educação muito especial, que nós fez trabalhar coletivamente, e que nos deu a parte bondosa de nossa natureza.
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*Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor e professor da UFRRJ
Fonte:  http://ghiraldelli.pro.br/2012/06/01

sexta-feira, 1 de junho de 2012

'É preciso ter cuidado para não pintar a besta de verde', diz ativista



 A ativista indiana Vandana Shiva, 59, que veio ao Brasil para fazer palestras sobre temas da Rio+20

A física e ativista indiana Vandana Shiva, uma das grandes vozes da atualidade sobre desenvolvimento sustentável, crê que a Rio+20 não será um fracasso, contrariando as previsões pessimistas.
A conferência se salvará não pelos acordos que serão firmados --que devem ser menos impactantes do que aqueles feitos na Eco-92-- mas pela força de pressão da sociedade e dos movimentos sociais, na visão dela.
"Conectadas como nunca, as pessoas farão a diferença no sentido de propor a construção de novos caminhos para o mundo", diz a ativista, que veio ao Brasil para participar do ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento.
Crítica feroz da globalização e da biotecnologia, Shiva ressalta que os governos estão apáticos nas principais convenções ambientais (clima, biodiversidade) por causa do avanços dos grandes grupos transnacionais e seus lobbies poderosos, os quais, mais do que nunca, influenciam as decisões dos governos. Aqui, ela fala dos riscos do conceito de "economia verde", foco da conferência. 



Mas a agenda da Rio+20 está difusa por um motivo claro: a ascensão, nos últimos anos, do poder das grandes corporações multinacionais. 

Folha - A sra. virá à Rio+20?
Vandana Shiva - Sim, chego no dia 17 de junho para os painéis que estão sendo preparados pelo governo brasileiro. Um deles é sobre segurança alimentar e energética. Uma das grandes mudanças da Rio+20, em relação à Eco-92, da qual também participei, é que agora a agricultura está no centro das discussões. Especialmente a agricultura tradicional, que ganha importância como uma questão ecológica. Também farei parte de várias atividades na Cúpula dos Povos, com o objetivo de acordar os líderes. 

Os líderes mundiais precisam acordar para o desenvolvimento sustentável? Há críticas sobre a agenda difusa da Rio+20.
Em 1992, a agenda era bem clara: incluir a proteção da natureza entre as obrigações da comunidade internacional. Daí surgiram as principais convenções, como a do clima e da biodiversidade, e também os Princípios do Rio, que foram um balizador das leis ambientais no mundo todo. Mas a agenda da Rio+20 está difusa por um motivo claro: a ascensão, nos últimos anos, do poder das grandes corporações multinacionais. 

As empresas estão influenciando as decisões globais sobre ambiente?
Sem dúvida, e não para o bem. A ascensão do poder das grandes empresas se deu em razão dos acordos de livre comércio da OMC (Organização Mundial do Comércio). Esses acordos permitiram amplo acesso das empresas aos recursos naturais e estão ajudando a desregulamentar o que foi duramente regulamentado durante a Eco-92. Desde então, as multinacionais estão destruindo o futuro da humanidade. Foi por causa delas que não há avanços nas negociações de clima, por exemplo. 

E mudanças climáticas não estão na agenda da Rio+20.
Não há progressos nessa área desde a conferência de Copenhague. Depois vieram os encontros de Cancún e Durban, sem resultados efetivos. Por causa do lobby das grandes corporações, os países estão 'desregulamentando' o que havia sido regulamentado antes. 

A sra. poderia dar exemplos dessa 'desregulamentação'?
O Brasil é um exemplo, veja o que ocorreu com os transgênicos. Quando eu vim pela primeira vez ao Rio Grande do Sul, a convite do José Lutzenberger [ex-ministro do Meio Ambiente], havia um forte movimento dos agricultores contra as sementes geneticamente modificadas.
Agora os campos estão cobertos de soja transgênica. Isso é parte da mudança trazida pela globalização, da tomada do poder pelas multinacionais que são contrárias a qualquer acordo ambiental.
Os setores mais nocivos são as empresas de combustíveis fósseis, os gigantes do agronegócio e da biotecnologia. O Canadá era um país progressista na Eco-92 e agora está paralisado nas negociações ambientais por causa das empresas que exploram óleo nas areias betuminosas. 

Como tornar a conferência relevante?
A resposta está nas pessoas. É por isso que a Cúpula dos Povos é tão importante. Serão as pessoas e os movimentos sociais que vão impor uma nova agenda para a humanidade. Conectados como nunca, as pessoas farão a diferença no sentido de propor a construção de novos caminhos. Veja o movimento "Occupy", por exemplo. 

Outra discussão da Rio+20 será a formulação de novos indicadores econômicos. A sra. acompanha esse debate?
Sim, e fico feliz que muitos economistas 'mainstream', como Joseph Stiglitz, estejam empenhados nesse debate. Mas o que não podemos é transformar a natureza em commodity. Devemos valorar a natureza, mas não transformar o ar, a água, as florestas em mercadorias.
Esse é um dos riscos do conceito de economia verde. Ele não é ruim em essência, mas o que me preocupa é se essa não será mais uma manobra para os poderosos saquearem os recursos naturais em nome dessa "nova economia". Temos de ter cuidado para não pintar a besta de verde. 

RAIO-X
 
QUEM É
Ambientalista e feminista, ficou famosa nos anos 1970 ao se amarrar em árvores para impedir seu corte, criando o movimento Chipko. 

NASCIMENTO
Dehradum, na Índia, em 1952. 

ATUAÇÃO
Diretora da Fundação de Pesquisa em Ciência, Tecnologia e Ecologia, em Nova Déli, na Índia. 
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Reportagem por ANDREA VIALLI COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Fonte:  Folha on line, 01/06/2012

"Gostaria que nos tornássemos o Japão"

Lula / Lula
Entro no restaurante Landmarc, no Time Warner Center do Columbus Circle, Nova York, onde agendei um almoço com Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de economia de 2008, professor de economia e assuntos internacionais em Princeton, e colunista liberal do "New York Times". Não sei nada a respeito do restaurante estilo bistrô, que meu convidado escolheu por sua conveniência - acabara de dar uma entrevista à TV, ali perto. O restaurante é impessoal e às 14 horas, por ser um pouco tarde para o almoço, começa a ficar vazio.
Krugman, 59 anos, o colunista mais odiado e mais admirado dos Estados Unidos, roupa amarrotada e ar professoral, está sentado em uma pequena mesa no meio do restaurante, trabalhando em seu laptop. É quinta-feira e ele está escrevendo sua coluna. Qual é o assunto?, pergunto. "Será sobre a Europa", responde. "Em parte, porque a situação está se agravando e em parte, porque estou um pouco sobrecarregado e para este assunto estou pronto. Portanto, vou ficar com ele." Entendo a sensação de estar sobrecarregado: Krugman escreve duas colunas por semana, alimenta regularmente seu blog, escreve livros populares e leciona.
O argumento da coluna será "está tudo acabado para a zona do euro?" "Não. Não acho que eles conseguirão salvar a Grécia, mas ainda poderão salvar o resto se estiverem dispostos a oferecer financiamento ilimitado e expansão macroeconômica." Mas isso significaria convencer os alemães a mudar sua filosofia de vida econômica. "Bem, a possibilidade de perder a cabeça dá um sentido de maior urgência a nossas decisões; a possibilidade de um colapso do euro poderá fazer com que eles se esforcem mais."
Mudo de assunto e pergunto como vem lidando com o fato de deixar de ser predominantemente um economista acadêmico para se transformar no principal porta-voz da causa liberal. Como isso aconteceu? "Foi engraçado. Estava escrevendo uma coluna para a [revista] 'Slate' e um pouco para a 'Fortune', e então o 'New York Times' apareceu com essa proposta. Isso foi em 1999. Achamos que iria escrever sobre as tolices das empresas pontocom e coisas do tipo, mas aquilo acabou se revelando uma responsabilidade muito maior e mesmo assustadora. Não foi nada do que planejei. O período mais difícil foi o primeiro mandato de [George W.] Bush, quando parecia que o mundo inteiro tinha enlouquecido, exceto eu, ou vice-versa, mas depois ficou mais fácil. Mas preciso dizer que a crise econômica tocou em coisas que me preocupavam há cerca de 15 anos. Tem sido, de uma forma quase alarmante, muito fácil encontrar sobre o que escrever. Mas é uma coisa muito estranha: não é de maneira nenhuma o que imaginei que estaria fazendo com a minha vida."

É triste ver que o Fed lavou as mãos da responsabilidade de nos tirar da recessão. O que você realmente precisa fazer é sinalizar que vai manter o pé no acelerador

A conversa se volta para a crise japonesa de década de 1990. Digo que os japoneses parecem ter administrado muito bem as consequências de sua crise. Krugman concorda. "Achávamos que o Japão era um alerta. Mas o Japão acabou se mostrando quase um modelo. Eles nunca tiveram um tombo tão grade quanto o que nós tivemos. Conseguiram continuar tendo um crescimento do PIB per capita ao longo da maior parte do que nós chamamos de sua 'década perdida'. Brinco sempre que nós, que nos preocupávamos com o Japão 12 anos atrás, deveríamos ir a Tóquio e pedir desculpas ao imperador. Nos saímos pior do que eles. Quando perguntam se podemos nos transformar no Japão, eu digo: gostaria que nos tornássemos o Japão."
Fazemos nossos pedidos: salada niçoise para Krugman; terrine de "foie gras" para mim; e uma garrafa de água com gás. Estas certamente não são escolhas à altura do padrão gourmet de alguns almoços com o "Financial Times".
Volto à nossa conversa. Pergunto se ele não está sendo injusto com Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve (Fed) e seu ex-colega em Princeton. Afinal, Bernanke evitou a deflação nos Estados Unidos. Krugman responde rapidamente: "Não ligamos para deflação por que ter um pequeno menos, em vez de um pequeno mais, faz uma enorme diferença para o mundo. Nos preocupamos com a deflação porque achamos que é por causa dela que se tem uma economia persistentemente deprimida. Embora possamos não ter deflação, temos uma economia persistentemente deprimida. Então, qual é a diferença?"
Mas é claro, afirmo, que o Fed conseguiu proporcionar taxas de juros reais negativas, cortando rapidamente as taxas e evitando a deflação. Isso leva Krugman a fazer um raro elogio: "Na verdade, temos pouquíssimas queixas sobre a política monetária aqui, até algum ponto de 2009. Acho que Ben [Bernanke] respondeu agressivamente e energicamente, o que foi a coisa certa a ser feita. Ele interferiu com o afrouxamento quantitativo original e estabilizou a economia".
"A questão é: o que ele fez quando começamos a ficar mais e mais parecidos com o Japão? A essa altura, a lógica diz que você precisa encontrar uma maneira de conseguir uma certa tração. A política fiscal pode ser uma maravilha. Mas se você não está conseguindo, deve fazer alguma coisa no âmbito do Fed e eu acho que essa lógica tem ficado cada vez mais evidente com o passar dos anos. E é triste ver que o Fed, em grande parte, lavou as mãos da responsabilidade de nos tirar da recessão."
 
Krugman acrescentaria US$ 2 trilhões no balanço do Fed, com aquisição de variedade maior de ativos
 
"Espero que algum dia Bernanke e Janet Yellen [a vice-presidente do Fed] pensem que fiz um favor a eles. Há todas essas críticas dos entusiastas da moeda forte e alguém precisa dizer: na verdade, se pensarmos nisso de maneira realista, vocês não estão fazendo muita coisa."
Fico imaginando o que ele faria se fosse colocado no comando. Diz que acrescentaria outros US$ 2 trilhões ao balanço do Fed, com aquisição de uma variedade mais ampla de ativos, incluindo obrigações do setor privado. "Mas, principalmente", continua ele, "você trabalha com as expectativas. Acredito que o que você realmente precisa fazer é sinalizar que vai manter o pé no acelerador."
Não importa, ele acredita, se as pessoas não estão certas de que o Fed vai persistir em seu objetivo. Simplesmente, precisam acreditar que vai chegar lá. "Portanto, se Ben Bernanke fizer um comunicado, ou o 'board' fizer um comunicado, dizendo que estão reconsiderando seus pontos de vista sobre a meta de inflação, mesmo que não tenhamos um compromisso confiável de que eles vão conseguir chegar a uma inflação anual de 3,7% em cinco anos, isso ainda será uma ajuda."
Em seu novo livro. "End this Depression Now!", Krugman despreza a teoria macroeconômica contemporânea. Também critica a ideia de que a credibilidade das políticas é importante. Sobre isso, diz: "A credibilidade soa uma maravilha, mas as evidências de que a credibilidade anti-inflacionária é de fato uma coisa importante no mundo real são basicamente nulas".
Inevitavelmente, voltamos ao tópico da hora. Ele conclui que a união cambial europeia foi um erro? "Sim, acho que estamos perguntando de quem é a culpa por esta crise. E acho que ela estava fadada a acontecer desde o dia em que o principal tratado foi assinado. Acho que o sistema poderia ser salvo com metas mais altas de inflação, o que seria uma segunda melhor opção, pobre, a uma união fiscal. Mas não, o arranjo é fundamentalmente impraticável."

Metas maiores de inflação poderiam ser uma opção para o euro, em vez de uma união fiscal, mas não, o arranjo é fundamentalmente impraticável

"O interessante é que o próprio euro criou os choques assimétricos que agora o estão destruindo [via fluxos de capital que produziu]. Eles não só criaram algo incapaz de lidar com choques, como também a criação produziu os choques que a estão destruindo."
A esta altura, há muito terminei minha terrine. Sempre como rapidamente. Mas Krugman come sua salada muito lentamente, enquanto fala. Ele precisa dispensar os garçons várias vezes. O restaurante agora está bem vazio. Quando terminamos a refeição, peço um café expresso duplo. Ele pede um café comum.
Discutimos brevemente o futuro da macroeconomia: suas esperanças estão depositadas nos trabalhos empíricos de economistas mais jovens. "Há jovens fazendo pesquisas realmente excelentes. Há algumas exceções, mas o que realmente está conduzindo as inovações é o trabalho empírico." Krugman observa que a prestigiosa medalha Bates Clark, concedida a economistas com menos de 40 anos (que ele ganhou em 1991) "tem sido decisiva para as pessoas que estão fazendo um trabalho bastante empírico. E acho que isso será a salvação da economia no longo prazo. Se houver um longo prazo, já que as coisas estão indo muito mal".
Voltamos a conversa para a visão que ele tem sobre a política americana. Como explica o que está acontecendo?
Krugman responde que "algumas coisas parecem estar influindo aqui. Uma delas é o dinheiro. Há centros de estudos que, na verdade, não produzem muitas ideias, mas são prodigamente financiados... Você pode se divertir muito se voltar para trás e observar o que eles diziam - e isso é hilário - sobre a Islândia ser um modelo, e as maravilhas do sistema irlandês.
"E há algo sobre o apelo dessa coisa envolvendo as moedas fortes, o padrão-ouro. Isso sempre teve um apelo, que parece estar ainda mais forte agora. Eu poderia pensar que o fato de pessoas como eu terem ficado tão perto de estar certas sobre a inflação e as taxas de juros poderia levar um número substancial de pessoas a pensar que talvez suas pressuposições não estivessem corretas. Mas não."
Pergunto se está desanimado com a incapacidade das pessoas que pensam como ele sobre a política, de se mobilizar e lutar pelo que acreditam. Afinal de contas, digo, você deve estar desapontado com a inclinação para se aceitar a necessidade de reduzir os gastos com programas de merecimento - em vez de aumentar os impostos -, quando as alíquotas de impostos federais estão excepcionalmente baixas e está havendo mudanças extraordinárias na distribuição de renda. Krugman pensa que isso tudo diz respeito apenas a dinheiro?
"Essas coisas são sempre complicadas, mas parte delas diz respeito a dinheiro. Veja só, mesmo com apenas algumas palavras suaves de reprovação, Obama perdeu uma enorme fonte de financiamento de Wall Street. E você precisa dar o crédito a quem merece: eles jogam um jogo prolongado. Passaram mais de 40 anos dedicados a mostrar que "o governo é ruim" ou "os impostos são ruins".
Mas, "há agora uma estrutura progressista organizada de uma maneira que não existia. É pequena e mal financiada, em comparação ao outro lado, mas é também mais sagaz do que o outro lado. Sinto pessoalmente que, embora não esteja tendo as políticas que queria, sou ouvido de uma forma que não acontecia até mesmo dois anos atrás".
Brendan McDermid/Reuters / Brendan McDermid/Reuters 
Krugman: "A possibilidade de um colapso do euro poderá fazer com que eles se esforcem mais"
 
Então, como Krugman lida com o ódio que desperta? "O período entre 2002 e 2004 foi de longe o pior, e não envolveu principalmente a economia, mas o fato de que eu estava basicamente sozinho ao afirmar que mentíamos ao ir para a guerra. Mas você precisa desenvolver uma pele grossa. Desenvolvi, de certo modo, a convicção de que, se não consigo despertar muita resistência histérica, então provavelmente perdi o espaço da coluna."
"Estou nisso há muito tempo e foi realmente chocante no começo. Mas você acaba se acostumando. Acho que muita gente fica assustada. Muitos jornalistas, na primeira vez em que publicam algo que contenha até mesmo uma crítica branda à ortodoxia da direita, dão de frente com essa tempestade de fogo e nunca mais voltam. Eles fogem correndo depois disso. Mas já passei desse ponto há muito tempo."
Pergunto sobre seu estilo enérgico e provocador. Até que ponto é consciente? "Eu já fazia algo assim na 'Slate', de modo que fui aprendendo, mas a maneira de escrever para o 'New York Times' exige ainda mais. Há um lado artesanal em fazer isso funcionar, de modo que alguém - cuja tendência normal é considerar a economia um assunto chato - vai ler seu texto."
O que me fascina, digo eu, é como ele administra a produção, especialmente a quantidade de blogging que está fazendo. Obviamente, Krugman é mais ágil do que a maioria das pessoas, mas como ele consegue tempo para as outras coisas?
"Ainda estou lecionando. Provavelmente, trabalho 70 horas por semana, mas não 100 horas. Mas sou muito rápido. Escrevo mais rápido do que qualquer jornalista, o que acaba sendo interessante."
Krugman é conhecido por resistir às explicações estruturais para os níveis elevados de desemprego. Mas o que ele pensa da visão de que nossas economias estão perigosamente viciadas nas 'bolhas' financeiras e dos preços dos ativos? Ele responde perguntando se eu já vi a publicação satírica "The Onion". "Bem no começo, eles apareceram com a manchete perfeita: 'Nação destruída pela recessão exige nova bolha para investir'".
E então, como está indo seu novo livro? "Vai bem, é engraçado. Estamos nas listas dos best-sellers nos EUA. Mas está vendendo como pão quente na Europa. Estamos na quarta edição na Espanha e eles vão colocar anúncios nas laterais dos ônibus em Madri, ao que parece."
Isso nos leva de volta à crise da zona do euro. Observo que os alemães estão agora na posição de ter de escolher entre ajudar permanentemente aqueles que consideram como aproveitadores, ou romper com tudo, provocando uma imensa bagunça econômica e política. Estou condoído com a situação deles.
Ele responde: "Lembro de uma coluna espirituosa publicada pelo 'Independent', por volta de 1992, sobre a decisão de concedor o Booker Prize ao Tratado de Maastricht - um romance pós-moderno na forma estrita de um tratado. E ao longo de todo o romance, pode-se perceber, ao fundo, forças poderosas com motivos desconhecidos. Quem são essas forças e o que elas querem? Nunca ficamos sabendo. Foi uma sátira maravilhosa".
Terminamos o café e saímos do restaurante vazio. Krugman volta para Princeton e sua coluna e eu retorno à redação do "Financial Times" em Nova York. A crise prossegue. Ele é o crítico que os conservadores detestam e os liberais elogiam. Nos EUA, qualquer um pode se tornar qualquer coisa. Um economista teórico vencedor do Nobel pode até mesmo se tornar o colunista mais controvertido do país.  
(Tradução de Mário Zamarian)
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Reportagem Por Martin Wolf | Do Financial Times
Fonte: Valor Econômico on line, 01/06/2012

Às vezes, quanto mais leitura, pior fica?

 Paulo Ghiraldelli Jr.*
 http://ghiraldelli.pro.br/wp-content/uploads/2012/05/meninolendo.jpg

Nossa imprensa é mais ideológica que informativa, se comparada com a imprensa de outras democracias ocidentais. A razão disso é que, por questões culturais e educacionais, carecemos de um grande público leitor de jornais e revistas. Um grande público naturalmente busca informações sobre negócios, serviços, oportunidades e entretenimento, mas não temos isso e, então, nossa mídia fica refém de um público menor, mais escolarizado e muito preocupado em se mostrar para si mesmo como “crítico”. A maneira que esse grupo busca se diferenciar do que chama de “o povo” ou “o povão” (“a patuléia”, dizia-se no passado), é exatamente por meio da detenção de uma visão politizada de quase tudo, identificando as visões dos que seriam os não leitores como “ingênua”. Esse público divide-se facilmente em esquerda e direita.
Como a questão não é ser filosoficamente crítico e, sim, dar a impressão para outros e para si mesmo que se é crítico, então, o caminho é ampliar ao máximo a politização, de modo a marcar posição para tudo, antecipadamente, o que é facilmente confundido com “inteligência” e “crítica”. Isso é feito à esquerda e à direita. Jornalistas saem na frente fazendo isso, produzindo notícias com clara tendência ideológica. Depois, alguns professores universitários aderem, produzindo comentários ideológicos. Enfim, a população leitora se divide em esquerda e direita, realimentado sempre as mesmas posições e interpretações do que ocorre, independente da mudança de rumos da vida social e política.
Isso explica bem nossas revistas, em especial a Veja e a Carta Capital ou a Isto é. Os partidos e governos não precisaram cooptá-las, bastou que eles existissem para que elas mesmas se oferecessem para cumprir funções partidárias de tal modo exageradas que, às vezes, até mesmo os políticos que são beneficiados se envergonham das manchetes. E isso explica, também, os comentaristas políticos que nunca emitem opinião que não seja sempre a mesma. Por exemplo, nunca se vê o jornalista Neumanne Pinto conseguir tirar algo de bom de qualquer governo do PT ou das esquerdas. Nunca se vê o professor Emir Sader fazer outra coisa senão a apologia de um esquerdismo que beira o fanatismo. Poderia citar aqui uma lista de outros que agem assim, de lado a lado. E poderia citar os casos em que isso se dá por vínculos financeiros. Há jornalista na Veja que é “de direita”, mas que é mais de direita à medida que o PSDB lhe dá chances na vida que outros não lhe dariam. Na esquerda, há o caso descabelado do Nassif, que é empregado do governo (com uma empresa que ganha contratos de serviços a preço altíssimo, sem licitação!), e que produz jornalismo marrom, ou seja, cria fatos a favor do governo, contra a oposição, e defende o governo do PT mesmo em projetos malucos. O público leitor segue essas visões, de um lado e de outro, cegamente, e aderem à politização extremada.
Ora, um público assim, obviamente, não chega a lugar algum. Tudo que um lado faz, eu aplaudo, sem nunca questionar algo simples: como podem as pessoas desse lado político estar sempre certas, e o outro lado sempre errado? Essa pergunta fácil, simples, é evitada. Porque se sou esse tipo de crítico, nesse caso, meu papel é sempre mostrar que o outro está escondendo algo, mentindo, fazendo “algo por trás”, e que, estando eu do lado que estou, posso facilmente ver tudo que o outro não mostra – e o mais importante, ver tudo que o “ingênuo”, o “povão”, não consegue ver. É uma posição extremamente infantil esta, e decorre do excesso de politização, cuja conseqüência é o partidarismo exacerbado. Lê-se, portanto, não para saber o que ocorre, mas para saber o que ocorre já segundo uma visão (não raro mentirosa) que se deve endossar e, então, propagandear. Pois aquele que se quer mostrar crítico, inteligente, também acha importante levar “a boa nova” para o outro, tirando o outro da ingenuidade, ou então, “dando pau” no adversário, que está “equivocado” ou porque é “de direita” ou “de esquerda” – sempre o lado contrário do qual o  “crítico” está.
Por essa razão, nossa classe média, que é para quem as revistas e os jornais são feitos, às vezes disserta sobre o Brasil de um modo que, se pensarmos um pouco, não é nada melhor do que poderiam fazer os que nada lêem. Surge entre nós algo impossível de encontrarmos em outros países no grau aqui manifestado: quanto mais encontramos leitores que acompanham a mídia, menos temos chances de encontrar gente com opinião efetivamente útil, capaz de nos dar parâmetros para as contingências da vida.
Isso leva a uma terceira posição radical, que também peca por excesso de politização. São a daqueles que se recusam a acompanhar a mídia. A mídia é “totalmente vendida”, quando o lado oposto do meu está falando mais e mais alto. E nesse caso, viro urso, ou seja, vou para a minha caverna para entrar em mais um inverno de hibernação. Condeno a TV, as revistas, os jornais e até mesmo a Internet (Marilena Chauí chegou a dizer isso, que ela não ia mais ler jornais!). Acabo tendo aquela vontade que Voltaire dizia sentir quando ele lia Rousseau: cair sobre quatro patas. Inicia-se a idolatria e a apologia do “homem ingênuo”, “popular” etc. Essa terceira posição, que às vezes cai à direita e às vezes à esquerda (fascistas e comunistas precisam de “massa”), não ganhada nada em relação às outras duas. Ela também é assumida por um grupo pequeno, e não por reais “populares”.
A democracia precisa de educação. Mas, em grande escala e de forma plural e livre. Livre quer dizer o seguinte: o modelo chinês e o cubano ou coreano, não nos servem. É isso, a educação em larga escala, plural e livre, que faz com que o leitor possa diminuir seu grau de politização e, então, desligar-se dessa necessidade de avaliar a priori tudo, para se achar ”crítico” e para parecer “crítico”. Quando a leitura aumenta em um povo democrático e sua qualidade se diversifica, rapidamente a política deixa de ser o foco principal pela qual se compram jornais e revistas. A politização ganha o seu lugar devido, sem inflacionar nada. É certo que a política na mídia é ampliada em épocas de mudanças sociais ou políticas bruscas, com um fato ou outro, mas retira-se do campo da conversação cotidiana em épocas corriqueiras. Futebol, mulheres que irão posar nuas, cantores abusados etc., são os assuntos que ocupam de novo o interesse de todos, e logo em seguida aparecem também os filmes, os livros da semana, as grandes questões internacionais, as histórias particulares dramáticas e edificantes etc. O jornalismo, então, passa a ser aquilo que Gramsci dizia que ele era mesmo quando ruim, a “escola dos adultos”. Mas, na falta de leitores bons, surgem os leitores “críticos”, e estes, por sua vez, são essa lástima que vemos entre nós, alimentados justamente por aqueles jornalistas que também são uma lástima.
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*Paulo Ghiraldelli, filósofo, escritor e professor da UFRRJ
Fonte:  http://ghiraldelli.pro.br/2012/05/30/as-vezes-quanto-mais-leitura-pior-fica/

Celso Furtado - Evolução do pensamento

 Nelson Perez/Valor / Nelson Perez/Valor

 A evolução do pensamento de Furtado sobre economia e cultura, da década de 1970 até sua morte, em 2004, é explicitada no livro "Ensaios sobre Cultura e o Ministério da Cultura", editado por Rosa. O livro acompanha sua trajetória desde o exílio parisiense, passando pelo cargo no governo Sarney e a participação na Comissão Mundial de Cultura e Desenvolvimento, da ONU (Organização das Nações Unidas), em 1994. Esse é o quinto volume de arquivos do economista lançado pela editora Contraponto, em parceria com o Centro Celso Furtado.

Trechos do livro

Além da economia
"Nunca pude compreender a existência de um problema estritamente econômico."

Política cultural
"Propiciar novos meios de acesso aos bens culturais melhora, sem dúvida, a qualidade de vida de uma coletividade. Mas se os encorajamos de modo indiscriminado, outras formas de criatividade correm o risco de desaparecer. É por isso que uma política cultural que se limita a estimular o consumo de bens culturais acaba por frear a criação, impondo obstáculos à inovação. O objetivo último de uma política cultural deve ser liberar todas as formas criativas da sociedade."

Criatividade
"A criatividade sendo, a um só tempo, um processo de ruptura e um processo que se alimenta de raízes do passado, é preciso tanto garantir os espaços para atividades de vanguarda e contestação quanto se preocupar com a defesa do patrimônio acumulado."

Literatura
"Queria inicialmente ser romancista, ficcionista. A minha grande leitura, até hoje, é literária. A descoberta que faço do homem é através da literatura, nunca pela ciência. As ciências sociais são métodos de reduzir, e o homem só se capta totalmente."

Década de 1980
"Nas fases históricas de robusto otimismo, o agir para pensar sobrepõe-se ao pensar para agir. (...) Hoje, vivemos uma fase que não é apenas de contestação, mas também de desilusão e ansiedade. A nova mansão construída na euforia da industrialização e da urbanização exibe gretas por todas as suas paredes. Já a ninguém escapa que nossa industrialização tardia foi conduzida no quadro de um desenvolvimento imitativo, que reforçou tendências atávicas de nossa sociedade ao elitismo e à opressão social."

Século XX
"A descoberta do país real pelas elites é certamente o traço mais saliente do processo cultural brasileiro no século atual. (...) Com a urbanização, a presença do povo faz-se mais visível, e sua criatividade cultural, mais difícil de ser escamoteada. A emergência, na segunda metade do século, de uma classe média de peso crescente introduz novos elementos na equação do processo cultural."
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Fonte: Valor Econômico on line, 31/05/2012

Hilda Hilst a poetisa transgressora

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A poesia doce e ácida, sagrada e profana de Hilda Hilst.

Hilda, sempre questionadora, em notas manuscritas, pergunta-se: “O que é obsceno? Obsceno? Ninguém sabe até hoje o que é obsceno. Obsceno para mim é a miséria, a fome, a crueldade, a nossa época é obscena.”

Hilda Hilst nasceu na cidade de Jaú, interior do Estado de São Paulo, no dia 21 de abril de 1930, formou-se em Direito pela USP e faleceu em 4 de fevereiro de 2004 na cidade de Campinas (SP), onde viveu o resto de seus dias em sua chácara chamada Casa do Sol. Foi poeta, ficcionista, cronista e dramaturga. É considerada pela crítica especializada como um dos maiores escritores em língua portuguesa do século XX. Filha única do fazendeiro, jornalista, poeta e ensaísta Apolônio de Almeida Prado Hilst e de Bedecilda Vaz Cardoso.

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Meus conhecimentos literários só me permitem me valer da emoção para falar de poesia, pois então posso dizer que a poesia de Hilda me emociona.
(Do amor)
Ama-me. Ainda é tempo. Interroga-me.
E eu te direi que nosso tempo é agora.
Esplêndida de avidez, vasta ternura
Porque é mais vasto o sonho que elabora
Há tanto tempo sua própria tessitura.
Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
É transitória se tu me repensas.
Se escrever é uma atividade viciante, escrever poesia é delirante e Hilda se alimentava das palavras, e com elas amava, brincava, protestava, morria e renascia, dizia tudo e não dizia nada. A mágica de transformar as palavras em puro lirismo, seus poemas têm ritmo de melodia e não por acaso Zeca Baleiro musicou alguns de seus versos, tendo sido ela também parceira de Adoniram Barbosa.
Hilda falava do amor, do amor físico, carnal, visceral e transcedente, porque não há como dissociar o corpo da alma, a vida da morte.
(Do desejo – 1992)
E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

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E novamente citando Plutarco: “A pintura deve ser uma poesia muda e a poesia uma pintura que fale”. Os poemas de Hilda são como “pinturas falantes”.

O escritor e seus múltiplos vem vos dizer adeus.
Tentou na palavra o extremo-tudo
E esboçou-se santo, prostituto e corifeu.
A infância foi velada: obscura na teia da poesia e da loucura.
A juventude apenas uma lauda de lascívia, de frêmito
Tempo-Nada na página.
Depois, transgressor metalescente de percursos
Colou-se à compaixão, abismos e à sua própria sombra.
Poupem-no o desperdício de explicar o ato de brincar.
A dádiva de antes (a obra) excedeu-se no luxo.
O Caderno Rosa é apenas resíduo de um “Potlatch”
E hoje, repetindo Bataille:
“Sinto-me livre para fracassar”

Poesias
 Presságio - SP: Revista dos Tribunais, 1950.
 Balada de Alzira - SP: Edições Alarico, 1951.
 Balada do festival - RJ: Jornal de Letras, 1955.
 Roteiro do Silêncio - SP: Anhambi, 1959.
 Trovas de muito amor para um amado senhor - SP: Anhambi, 1959. SP: Massao Ohno, 1961.
 Ode Fragmentária - SP: Anhambi, 1961.
 Sete cantos do poeta para o anjo - SP: Massao Ohno, 1962. (Prêmio PEN Clube de São Paulo)
 Poesia (1959/1967) - SP: Editora Sal, 1967.
 Júbilo, memória, noviciado da paixão - SP: Massao Ohno, 1974.
 Poesia (1959/1979) - SP: Quíron/INL, 1980.
 Da Morte. Odes mínimas - SP: Massao Ohno, Roswitha Kempf, 1980.
 Da Morte. Odes mínimas - SP: Nankin/Montréal: Noroît, 1998. (Edição bilíngüe, francês-português.)
 Cantares de perda e predileção - SP: Massao Ohno/Lídia Pires e Albuquerque Editores, 1980. (Prêmio Jabuti/Câmara Brasileira do Livro. Prêmio Cassiano Ricardo/Clube de Poesia de São Paulo.)
 Poemas malditos, gozosos e devotos - SP: Massao Ohno/Ismael Guarnelli Editores, 1984.
 Sobre a tua grande face - SP: Massao Ohno, 1986.
 Alcoólicas - SP: Maison de vins, 1990.
 Amavisse - SP: Massao Ohno, 1989.
 Bufólicas - SP: Massao Ohno, 1992.
 Do Desejo - Campinas, Pontes, 1992.
 Cantares do Sem Nome e de Partidas - SP: Massao Ohno, 1995.
 Do Amor - SP: Massao Ohno, 1999.
Notas:
Bataille – escritor francês falecido em 1962.
Potlatch - antiga cerimônia religiosa celebrada entre tribos do noroeste do pacífico.
Fontes: http://www.angelfire.com/ri/casadosol/pdesejo.html
http://www.jornaldepoesia.jor.br/hilda.htm
http://www.revista.agulha.nom.br/ag41hilst.htm
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Reportagem por por
Fonte: http://lounge.obviousmag.org/31/05/2012

Ignacy Sachs - Décadas de contribuição para o debate do desenvolvimento sustentável

Ignacy Sachs
O socioeconomista franco-polonês Ignacy Sachs, aos 85 anos, é um pensador em plena atividade. Sua longa e bela trajetória está marcada por participações em eventos importantes. Esteve presente na organização da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, em Estocolmo, realizada em 1972, e na Cúpula da Terra – Eco-92, no Rio de Janeiro. E já confirmou que deixará sua contribuição durante a Rio+20, participando de eventos paralelos no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Com uma carreira acadêmica dedicada, em grande parte, ao Centro de Pesquisas do Brasil Contemporâneo na Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais (Paris), do qual foi diretor, é reconhecido por ser um dos criadores do conceito do ecodesenvolvimento, que propõe o crescimento econômico no contexto do desenvolvimento social e proteção ambiental.
Em entrevista ao Mercado Ético, ele faz uma análise sobre economia verde e governança global e propõe alternativas possíveis de negociações para a Rio+20

Mercado Ético Após uma experiência de mais de quatro décadas, quais são os caminhos da governança global e da sustentabilidade que o senhor considera necessários, tendo em vista o contexto da crise econômica?
Ignacy Sachs Os mercados deixados a si mesmos têm a vista curta e a pele grossa. Por isso, devemos recolocar no centro das nossas preocupações a volta ao planejamento em longo prazo, visto que, os computadores tomaram o lugar dos "ábacos" (antigo instrumento de cálculo). Dispomos hoje de um vasto conjunto de experiências de planejamento, muitas delas fracassadas, assim mesmo, suscetíveis de um exame crítico de maneira a propor para o futuro paradigmas eficientes de planejamento democrático, baseado no diálogo entre todos os atores sociais e estruturado ao redor do tripé: objetivos de desenvolvimento sociais, condicionalidade ambiental e viabilidade econômica, esta última por construir.

ME A ecossocioeconomia tem compatibilidade com o que está se propondo como economia verde? Por quê?
IS A ecossocioeconomia deve se esforçar por utilizar, sempre que possível, recursos renováveis pertencentes à "economia verde", tomando o cuidado de respeitar as condições de sua renovabilidade e obedecendo a preceitos de justiça social na repartição do produto. Por isso, a minha preferência vai à bandeira portuguesa: "verde – vermelha". De qualquer modo, devemos evitar a criação de uma economia verde ao serviço de uma minoria privilegiada.

ME Quais são suas propostas e perspectivas para a Rio+20, agora, em junho? Qual será sua participação no evento?
IS Idealmente, deveríamos completar os fundos de desenvolvimento mobilizados internamente em cada país para a criação de um grande fundo de desenvolvimento internacional, alimentado por 1% do Produto Interno Bruto (PIB) dos países ricos (um tema várias vezes colocado no debate internacional e nunca implementado). Essa iniciativa somada à taxa Tobin (tributo proposto pelo economista norte-americano James Tobin, da Universidade de Yale) sobre as especulações financeiras, além de um imposto sobre o carbono emitido com o duplo propósito de frear as emissões e gerar recursos para o desenvolvimento. Por fim, considero importante haver pedágios sobre ares e mares sob a forma de um percentual acrescentado às passagens aéreas e aos fretes marítimos.
Penso que poderíamos, assim, chegar facilmente a 2% do PIB mundial, ou seja, aproximadamente um décimo de todos os investimentos, quantia suficiente para reorientar o rumo da economia mundial.
Para que recursos tão volumosos não se percam em investimentos duvidosos, as Nações Unidas deveriam reforçar simultaneamente os programas de cooperação científica e técnica voltados ao melhor aproveitamento dos recursos renováveis de cada bioma, privilegiando, portanto, na cooperação internacional, os paralelos e, não, os meridianos.
Quanto à minha participação na Rio+20, deverei tomar parte em vários eventos paralelos no Rio e em São Paulo, entre 13 e 23 de junho.
Reportagem por Sucena Shkrada Resk, do Mercado Ético 31/05/2012

A hipótese comunista

 Alain Boden*

 A “hipótese comunista”, conceito formulado pelo filósofo, dramaturgo e militante francês Alain Badiou, inspira uma obra homônima sobre a revitalização do comunismo e um novo programa para a esquerda, lançada agora pela Boitempo. Desde 2008, quando foi exposto pela primeira vez em um artigo da New Left Review, o termo vem sendo adotado e discutido por uma ampla gama de pensadores, como Slavoj Žižek, Jacques Rancière, Michael Hardt, Antonio Negri e Terry Eagleton.
Trecho do livro
“A história de uma vida é por si mesma, sem decisão nem escolha, uma parte da história do Estado, cujas mediações clássicas são a família, o trabalho, a pátria, a propriedade, a religião, os costumes... A projeção heroica, mas individual, de uma exceção a tudo isso – como é um processo de verdade – também quer estar em partilha com os outros, quer se mostrar não só como exceção, mas também como possibilidade agora comum a todos. E esta é uma das funções da Ideia: projetar a exceção no comum das existências, preencher o que só faz existir com uma dose de inaudito. Convencer meu entorno individual, esposo ou esposa, vizinhos, amigos e colegas, de que existe também a fabulosa exceção das verdades em devir, de que não estamos fadados à formatação de nossa existência pelas exigências do Estado. É claro que, em última instância, apenas a experiência nua, ou militante, do processo de verdade, forçará a entrada desse ou daquele no corpo de verdade. Mas para conduzi-lo ao ponto em que essa experiência ocorre, para torná-lo espectador e, portanto, já meio ator daquilo que importa para uma verdade, a mediação da Ideia, a partilha da Ideia são quase sempre necessárias”
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* Alain Badiou nasceu em 1937 na cidade marroquina de Rabat. Autor de vasta produção intelectual, é tido como um dos principais filósofos franceses da atualidade. Atualmente, é professor emérito da École Normale Supérieure de Paris, onde criou o Centre International d’Étude de la Philosophie Française Contemporaine. 
Fonte:  http://www.boitempoeditorial.com.br/