sexta-feira, 12 de outubro de 2018

A MARGEM DE ERRO

José de Souza Martins*
 
A população em transição social, que vem perdendo 
a segurança de suas referências comunitárias 
e de classe, tem dificuldade para entender o mundo 
da sociedade de consumo, na sua versão de 
sociedade do espetáculo, pelo abismo que 
abre entre as gerações.

Nas pesquisas eleitorais, margem de erro indica que as tendências numéricas dominantes podem estar erradas e que há uma pequena proporção dos dados que sugere que o improvável é possível. Nas pesquisas quantitativas, é condicionada por aquilo que a própria população revela ao pesquisador, que é o que lhe perguntam. Por isso, de fato, essa população enquanto todo também esconde muito.

Na eleição de 7 de outubro, mais de um terço dos eleitores não expressou seu voto. A maioria porque se absteve. Significativamente, mais de 3 milhões de eleitores votaram em branco e mais de 7 milhões anularam o voto. Juntos, eles representam um quarto candidato invisível na classificação geral da votação.

É nessa perspectiva que se pode compreender o sentido político do resultado dessa eleição. O candidato que alcançou o primeiro lugar, Jair Bolsonaro, apresentou-se ao eleitorado com um programa político que é uma lista de propósitos que são apenas negação "do sistema partidário", especialmente, daquilo que o PT viabilizou ou realizou durante seus 13 anos de governo.

Ele apenas listou os antagonismos que formaram sua plataforma eleitoral. Não é, portanto, um candidato propositivo, mas apenas um candidato da negação. Ou seja, a função cumprida por sua candidatura é, na prática, a de uma extensão do voto nulo e do voto em branco. É um voto antipolítico. Ele inaugura, na lista das omissões, o voto negativo e inaugura a reivindicação de personificar a negatividade e transformá-la em presidente da República.

É, portanto, candidato de um outro Brasil político, que foi se constituindo lentamente, em silêncio, à margem do Brasil político que emergira com o fim do regime militar. O Brasil que foi silenciado e excluído, ao vir à luz do dia, também inventou silêncios e escuridões. Corporativo e excludente, limitou a democracia. Com razão ou sem, disso se queixam os agora eleitos, que chegarão ao poder no dia 1º de janeiro. Com a promessa clara de gerar novas invisibilidades e um novo silêncio, os de seus adversários das duas últimas décadas, o que inclui o PSDB.

O PT e o PSDB abatidos no pleito do dia 7, não o foram apenas porque a direita convenceu o eleitorado da legitimidade de seu clamor em favor de uma nova ordenação política. O Brasil desta eleição é muito diferente do Brasil da primeira eleição de Lula, em 2002. Muita coisa aconteceu. A economia sofreu profundas transformações.

Na região simbólica do petismo, a do ABC paulista, muitas indústrias foram fechadas. Outras passaram pela reestruturação produtiva, profissões desapareceram, empregos sumiram. Se o ferramenteiro Lula decidisse voltar à fábrica, não encontraria emprego. Sua profissão desapareceu. Os operários do antigo ABC são hoje gente de classe média, muitos deles pais e avós de pessoas que tiveram acesso à universidade.

No Brasil inteiro, houve mudanças de mentalidade, mudanças de aspirações, mudança de classe social. Não é, pois, estranho que em São Bernardo do Campo, pátria do PT, onde Lula tem sua casa, Bolsonaro tenha tido 46% dos votos locais e Haddad tenha tido apenas 23%, metade. Nas eleições municipais de 2016, o PT já fora derrotado em toda a região do ABC. Não elegeu um único prefeito nos sete municípios.

Muitos supõem que o país deu uma guinada para a direita. Na verdade, não houve guinada. Houve lenta transformação social e desgaste dos partidos, das ideologias partidárias e dos próprios políticos, que já não correspondem à nova realidade nem compreendem o Brasil de agora. A população adquiriu novas identidades e a nova identidade política, especialmente das novas gerações, é de direita até mesmo quando se dizem de esquerda. Foram consumidas pela sociedade de consumo.

A população em transição social, que vem perdendo a segurança de suas referências comunitárias e de classe, tem dificuldade para entender o mundo da sociedade de consumo, na sua versão de sociedade do espetáculo, pelo abismo que abre entre as gerações. É o da exibição pública de comportamentos e de identidades que em sua cultura de origem ficavam devidamente ocultados e protegidos no escurinho da vida íntima e privada. Para ela e para um número crescente de pessoas, a sociedade sem é inconcebível pois é um sinal de morte social.

Quando fala em violência, está falando em falta de ordem representada pelas violações de conduta que caracterizam a vida moderna. Sobretudo numa sociedade que chega a 13 milhões de desempregados, confinados em agrupamentos familiares e comunitários que se regem, ainda, pelos padrões da sociedade tradicional. O negativo do programa de Bolsonaro lhes parece a rude e necessária defesa da ordem, a segurança de que o mundo não deve mudar.

José de Souza Martins é sociólogo. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, autor de “A Sociologia como Aventura” (Contexto).
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