Martín Caparrós*
FOI UM dos inventos mais extraordinários que os manuais não
registram: isso costuma acontecer com os inventos mais extraordinários.
Antes dele, aqueles homens e mulheres viviam mais ou menos felizes. Ou
preocupados, irritados, apavorados, mas sem o peso da culpa. Naqueles
dias as coisas aconteciam e ninguém sabia por quê: a vida era assim ou,
no máximo, eram assim caprichosos esses deusinhos que pululavam na
árvore, na água, na lua distante ou no poderoso sol.
E
então aconteceu. Não se sabe quando, quem, como, mas em algum momento,
há quatro ou cinco mil anos, alguns homens e mulheres no Iraque, no Irã ou na Síria
começaram a acreditar que a culpa era deles. Que se a sua colheita
estava ferrada ou o quinto filho morresse ou o jumento estivesse
mancando, não era por causa desses acasos da vida, mas porque tinham
feito algo para merecer isso. E tudo, então, começou a mudar: tinha
surgido, escreveu Bottéro, a ideia do pecado.
(Jean Bottéro nasceu pobre e provençal em 1914, estudou com os
padres, foi ordenado dominicano, se dedicou a ensinar e foi demitido por
não querer dizer que o Gênesis era um fato histórico. Então, dedicou-se
à Mesopotâmia, aprendeu seus idiomas, casou-se, traduziu o Código de
Hamurabi, foi sábio e, ainda assim, publicou vários livros).
Quando apareceu, disse Bottéro, o pecado não era uma transgressão que
o pecador cometia em sua vida cotidiana. Não era um conceito moral, era
administrativo. Um sacerdote errava a invocação a um deusinho e o
deusinho se zangava. Uma família sacrificava a cabra errada para uma
pequena deusa, e a deusa se vingava. O sacerdote e a família talvez não
soubessem: acreditavam que haviam feito tudo certo e, de repente, aquela
seca ou aquela tempestade ou aquela guerra lhes provavam que não. As
desgraças chegavam como castigos a erros que seu autor ignorava. Assim, a
vida se tornou uma contínua ansiedade por não saberem se tinham agido
bem ou mal. E a prova de que se tinha feito algo errado —não algo ruim,
algo errado— era que algo ruim estava acontecendo com você.
A culpa era sua, claro. A invenção mesopotâmica do pecado foi a forma
de transferir a culpa do poder para o impotente: eram os homens —cada
homem— que estavam enganados, eram eles que causavam as desgraças e
deviam saber como e por quê. Os deuses eram como aqueles pais que batem
no filho enquanto dizem que ele já sabe por quê.
O cristianismo foi um avanço: quando recorreu à ideia de pecado para
impor um código de conduta, devolveu a seus fiéis uma certa autonomia.
Pelo menos poderiam escolher quando e como quebrar as regras, pelo menos
te castigavam por algo que você sabia que não deveria ter feito, mesmo
que você não soubesse por que não deveria ter feito. Ou se você
soubesse: não deveria porque o padre dizia que o deus era quem dizia —e
isso bastava.
E a culpa continuava sendo sua. A culpa foi inventada para que fosse
sua: de uma forma ou de outra, sua, e que você batesse no peito e grite minha culpa, minha máxima culpa
e todas essas asneiras. Funcionava: tudo de ruim acontecia por causa
dos seus erros, pelos sues desvios, porque o poder —o deus ou o que
fosse— era justo, infinitamente justo.
Até que, com o fim da cultura verdadeiramente religiosa,
esse grande truque de poder foi desarmado. Aprendemos a pensar o
contrário: que a culpa não é nossa, que é dos grupos, das sociedades,
das estruturas. Que o inferno são sempre os outros. É curioso: para se
livrar da forma mais brutal de opressão, daqueles escritas ou não
escritas que nos mantinham no terror, tivemos que começar a assumir que
não somos responsáveis por aquilo que nos acontece. Mas agora o mal
sempre é culpa deles: os políticos, os economistas, os ricos, os
imigrantes, os infiéis, os outros.
Agora somos tão pobres que nem sequer temos a culpa.
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* Jornalista. Escritor. Argentino.
Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/01/07/cultura/1546863563_564035.html
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