segunda-feira, 24 de setembro de 2018

A morte do amadurecimento

Luiz Felipe Pondé*
chapéu de formando com mickey

O mundo marcha para o retardamento mental como opção pedagógica

Um amigo de meu filho, de 35 anos, me contou que numa reunião com professores e pais, na escola de seu filho de sete anos (escola esta frequentada por ele, assim como pelos meus filhos até o vestibular), um pai cobrou que na nota fosse levado em conta o conteúdo “dentro das possibilidades do seu filho”. Há uma recusa ao amadurecimento no ar.

Na mesma escola, anos atrás, numa reunião dessas, ouvi uma mãe cobrar da escola que “heroínas femininas fossem usadas em sala de aula para que as meninas fossem empoderadas”, e, da mesma mãe, “que a escola deveria dar mais atenção à África do que à história romana, grega, hebraica e mesopotâmica”. 

Pensei como deveria ser um saco, para uma professora, depois de um dia inteiro de aulas, ter que aturar pais metendo o bedelho no que não entendem e, literalmente, enchendo o saco.

Sim, o mundo está bem chato. O sapiens está saturado de ruídos. Espécie pré-histórica, evoluída num cenário do alto do Paleolítico, em meio à preponderância do silêncio, agora, com iPhones na mão, assola o mundo com opiniões. Falam muito da destruição do ambiente; temo que o sapiens se destrua falando demais.

Exemplos dessa pedagogia contra o amadurecimento já estão na universidade. E logo estarão nas empresas. Pais e psicólogos atacarão o RH das empresas com ameaças de processos jurídicos, como já ensaiam nas escolas e universidades, porque essas empresas não estarão levando em conta a “economia da autoestima” de seus filhos estagiários. 

Exagero? Não exagero. O mundo marcha a passos largos para o retardamento mental como uma opção pedagógica. Frase insensível à vulnerabilidade das pessoas?

Há um culto da vulnerabilidade por aí. Pais e profissionais cada vez mais fazem pressão para que as instituições de ensino relativizem normas de avaliação em nome de ficar “dentro das possibilidades” de seus filhos.

Entre as várias hipóteses possíveis, julgo que a raiva reprimida de ter que perder tempo, dinheiro e saúde cuidando dos filhos faz com que muitos pais exagerem nas provas de “amor e cuidado” com eles, exigindo que o resto do mundo os ame, como eles mesmos não são capazes.

Exagero? Talvez um pouco, mas não muito. Lanço mão de uma tática argumentativa chamada hipérbole (quando você exagera num argumento para defender uma hipótese que está aquém da afirmação exagerada), por causa do desespero que dá ver os pais destruírem a vida dos filhos fazendo deles zumbis adictos de formas institucionais de distribuição de autoestima. 

Fala-se muito de educação, mas ela já foi para o saco há muito tempo. A fúria de fazer o mundo melhor nos destruirá a todos. O esvaziamento dos vínculos familiares pressiona o Estado e as escolas para cumprir o papel de pais narcisistas e de saco cheio. Aliás, todo mundo está de saco cheio, o Sapiens não se aguenta mais. Uma espécie pré-histórica perdida na redes.

Entre 1990 e 2010, o termo “estudantes vulneráveis” passou de 55 referências para 1.136. De 2015 a 2016 houve  1.407 referências ao mesmo termo. A fonte é LexisNexis Database. Quem a cita é o sociólogo Frank Furedi, no seu mais novo livro, “What’s Happened To The University? A Sociological Exploration of its Infantilisation” (o que aconteceu com a universidade? Uma exploração sociológica de sua infantilização, ed. Routledge, 214 págs.), sem tradução no Brasil. Proponho a leitura para pais, professores e pesquisadores do assunto.

A conclusão do autor, que se dedica a esse campo, no mínimo, desde 2004, quando publicou seu “Therapy Culture” (cultura da terapia), também sem tradução no Brasil, é que ao optarmos por uma narrativa da vulnerabilidade, optamos por estudantes infantis. 

Numa linguagem exagerada, estamos criando uma sociedade de inseguros afetivos e cognitivos. Os idiotas da tecnologia acham que porque existem crianças de três anos que mexem em iPads, elas são mais inteligentes. Numa espécie de lamarckismo para idiotas, pensam que, como os pais usam muito iPads, os filhos nascem sabendo mexer neles.

Furedi devia ser leitura obrigatória para quem pede para a escola levar em conta, na avaliação, as possibilidades do filho. E o pior é que esse pai se acha o máximo. Um dos efeitos colaterais da maior escolaridade é que a pessoa fica menos cuidadosa em assuntos que não domina. Fiéis às bobagens fragmentadas que leem, enviesadas por modinhas do Face, esses pais jogam o amadurecimento dos filhos no lixo.
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*Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP. 
Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2018/09/a-morte-do-amadurecimento.shtml

domingo, 23 de setembro de 2018

O PREÇO DA ALMA

Mário Corso*

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Altered Carbon é um seriado de ficção científica da Netflix. Fraco, mas com um mote ótimo: alcança- ríamos a imortalidade pela tecnologia. A ideia é simples, arquivaríamos todas as memórias do nosso cérebro e as descarregaríamos em outra "capa" que é assim que são chamados os corpos. Não conseguimos parar a decadência biológica, mas poderíamos trocar de "capas" infinitamente. 

Perde-se nos séculos nossa obsessão em no- mear um duplo - a alma - que serviria para driblar a finitude. Como constatamos a decadência física do corpo, criamos um ser em paralelo incorruptível. Assim nasceu o binômio corpo e alma, apropriado por quase todas as reli- giões. Está ideia é tão arraigada, que é difícil pensar desde fora dela, e nisso se embasa o seriado acima. 

Quando o mundo digital surgiu, começamos a usá-lo para mais uma metáfora dessa dualidade. Temos o hardware, a máquina, que é concreta, e as memórias e o sistema operacional, que, embora físicos, são sistemas impalpáveis e plásticos. Trocamos de computador levando os conteúdos. Logo, por que não poderíamos guardar nossas memórias e nosso "sistema operacional cerebral"? 

O problema é apenas um: em nós não existe essa duplicidade. O cérebro, como ele funciona, e nossas memórias são uma coisa só. Suporte e sistema são fusionados. Quando aprendemos algo, se produz uma mudança na arquitetura neuronal. Aliás, nossas memórias são guardadas de uma forma impensável. Arquivamos uma amostra e reconstruí- mos automaticamente o resto quando a evocamos. Por isso os relatos mudam com o tempo, além de os editarmos da maneira mais conveniente. Estranho sistema de compactação... Como fazer isso rodar em "outra máquina"? 

Antes que alguém fale em transplante de cérebro, lembre-se de que não há um suporte de conexão que o atarraxe à espinha dorsal. O cérebro é ligado a uma extensa rede de neurônios ramificada por todo o corpo. Por exemplo, nos intestinos estão milhões deles. Levaremos junto para o outro corpo? 

Pensamos desde e através de um corpo, que tem fome, sono, dores, medo, prazer, adoece, cansa, quer sexo, tem estranhos desejos, sofre de angústia e possui uma carga genética que nos faz ser tão diversos. Tantas vezes o corpo nos pesa, nos atrapalha; faz sentido o desejo de ser um pensamento incorpóreo, uma alma. Assim daria para desdenhar do corpo e até odiá-lo, maltratá-lo, quando o culpamos por nossas fraquezas, ou quando nos trai, envelhecendo. 

A ideia da alma é o triunfo da poética e da imaginação sobre todas as evidências. O recalque do corpo acalma nossa angústia de sermos mortais, mesmo que ao preço de um atrapalho cognitivo basilar sobre a condição humana. A ideia da alma serve para negar nossa insignificância e transitoriedade, mas turva a visão sobre como somos. O divórcio com o corpo pode custar caro. Faça sua escolha.
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* Psicanalista.
Fonte:  http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=655a17b8deca6746b08de68e71b463a8
Imagem da Internet  do seriado de TV Altered Carbon

A volta do diabinho

Lya Luft*

Imagem relacionada

Tenho no ombro, e às vezes se manifesta, um feio diabinho pousado. É meu lado descrente, talvez sarcástico, e triste. Quando me assaltam as notícias atuais, aqui e pelo mundo, ele enrola e desenrola seu rabo, e se inquieta. 
 
Assuntos como meninos criminosos tratados como crianças e cotas - mas estas são para outro dia. Drogados ou lúcidos, os meninos começam a roubar e a matar, às vezes com requintes de crueldade, aos 12 anos, pouco mais, pouco menos: se apanhados, nem todos poderão ser reintegrados à sociedade, frase aliás metafórica e vaga. Voltarão para novos crimes. 

Um menino de 15 anos confessou na maior frieza o assassinato de 17 pessoas. "Matei, sim." Talvez tenha acrescentado num dar de ombros: "E daí?". Quinze dos crimes foram comprovados. Por ser menor de idade, como tantos assassinos iguais a ele, foi para uma dessas instituições de ressocialização nas quais não acredito. Logo estará livre para reiniciar sua vida de psicopata. E, se perguntarem a razão, talvez diga como outro criminoso, quase uma criança, que assaltou um amigo meu e repetia: "Vou te matar". Meu amigo perguntou por que, e o menino respondeu com simplicidade: "Nada. Hoje saí a fim de matar alguém". 

Como nós, sociedade moderna, produzimos esse e outros dramas morais? Acusa-se pela criminalidade juvenil a família, que às vezes é apenas outra vítima, ou "a sociedade", conceito vago que isenta de uma ação enérgica, enquanto se multiplicam os dramas, aumentam as tragédias. 

Esperamos soluções ou progressos de parte dos políticos? Dos líderes, das autoridades? De momento, isso me parece mais uma imensa falácia, pois mesmo os bem-intencionados terão pouco poder numa sociedade adoecida. 

Sou mais crédula do que cética, o que nem sempre é bom. (O diabinho fica à espreita.) Quando menina, me disseram que, se a gente cavasse fundo no jardim, esse poço daria no Japão, onde as pessoas andavam de cabeça para baixo (para eles, de pernas para o ar estaríamos nós). Mas, adulta, descobri que a vida tem outros poços, nem todos divertidos. Um deles parece não ter fim: o dos escândalos nossos de cada dia, o da nossa desolação e dos nossos enganos. O poço tem água no fundo: o diabinho no meu ombro espia seu reflexo nela, para ver se não haverá alguma luz que o afugente. Mesmo que seja uma lamparina, será uma luz, e apesar de tudo acredito nela. Resta descobrir quanto tempo se leva para chegar nesse fundo e se, em lá chegando, boa parte das nossas aflições à espera de justiça será resolvida e haverá justiça. 

Enquanto escrevo isso, o diabinho rosna uma das melhores frases sobre o assunto: "A lei nem sempre garante a justiça".
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* Escritora.
Fonte:  http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=8210d5432e746010c3ef28f8d3178435
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DEUS: Fé sem doutrina


 ECLETISMO - As novas formas de se relacionar com o sagrado incluem meditação e movimentos esotéricos (Metropolitan Museum/Divulgação)

O futuro será marcado por pessoas que buscarão experiências transcendentais sem necessariamente seguir entidades divinas


“Para onde vai a Igreja?” Essa era a pergunta que resumia o grande embate da década de 60, que contrapunha bispos progressistas a conservadores. Os católicos haviam recém-saído de uma reviravolta interna, o Concílio Vaticano II (1962-1965), um marco na modernização litúrgica e doutrinal. A assembleia em Roma tinha proposto a participação do bispado nas decisões da Santa Sé, de maneira semelhante ao que acontecia nos primórdios eclesiásticos. Aposentou o latim e permitiu que a missa fosse celebrada no idioma de cada país, tirou a obrigação do uso da batina e abriu espaço para movimentos sociais. “Este não deverá ser um concílio para combater erros, mas para pôr a Igreja em dia”, disse o papa João XXIII, ao inaugurar o evento. Estar em dia para a Igreja era o mesmo que dizer reaproximar-­se do devoto.

Mas não foi bem o que ocorreu no Brasil, o país com a maior concentração de católicos do mundo. O número de fiéis só caiu nas décadas seguintes. Na época do concílio, 91,8% dos brasileiros declaravam-se seguidores da religião. Hoje, eles não chegam a 65%. Em contrapartida, os protestantes ocuparam um espaço fenomenal. Na década de 70 eram 5,2%, e hoje são 22%. A maior conquista aconteceu justamente nos lugares perdidos pelos católicos: as periferias das grandes cidades, as prisões. Foram os protestantes, portanto, que de fato conseguiram se comunicar com o fiel.

A dança demográfica impulsionará um fenômeno 
que é ainda incipiente mas já começa 
a crescer: o dos crentes sem religião

Um segundo revés para a maior religião do planeta foi o crescimento dos ateus que aderiram ao “novo ateísmo”, vertente surgida nos anos 2000. Os novos ateus não apenas descreem de Deus, mas também condenam o que consideram os males da crença. “A fé até pode ser benigna no nível pessoal, mas no plano coletivo, quando se trata de governos capazes de fazer guerras ou desenvolver políticas públicas, é um desastre absoluto”, diz o neurocientista Sam Harris, um dos maiores defensores do novo ateísmo e autor de A Morte da Fé (2004).

Deus será possível,
mas não necessário.

A eleição do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio como papa Francisco, o primeiro pontífice latino-americano da história, pode ser uma luz na tentativa católica de segurar a sangria de fiéis, por representar um aceno à simplicidade. Ainda assim, não há milagre no horizonte, e o catolicismo brasileiro dificilmente se manterá como antes nos próximos anos. Se a distribuição das crenças seguir no ritmo nas duas últimas décadas, em 2040 a fatia de protestantes será cerca de 5 pontos porcentuais superior à dos católicos, e os ateus chegarão a um total de 13%. A dança demográfica impulsionará um fenômeno hoje ainda incipiente, mas que começa a dar os primeiros sinais em boa parte do mundo: o dos crentes sem religião. São aqueles que se consideram abertos à questão religiosa, porém não estão vinculados a regras de um credo. “O ateísmo e a fé se revelam como os dois lados de uma mesma moeda”, disse Marco Rizzi, professor de literatura cristã da Universidade Católica do Sagrado Coração, de Milão, ao jornal italiano Corriere della Sera. As novas formas de se relacionar com o sagrado incluem práticas de meditação e os movimentos esotéricos. É como se as pessoas estivessem mais preocupadas em buscar algo que as ultrapasse, que lhes dê um sentido, do que com a ideia da existência ou inexistência de um deus. Deus será possível, mas não necessário.
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Reportagem  Por Adriana Dias Lopes
Publicado em VEJA de 26 de setembro de 2018, edição nº 2601 pg.183

sábado, 22 de setembro de 2018

Aristóteles, felicidade é ter êxito


Juremir Machado da Silva*
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A felicidade para os gregos tinha nome: eudaimonia. Não se pode filosofar sem alguma palavra em alemão e sem várias em grego. Faz parte de uma espécie de ritual de legitimação, que é a maneira pela qual normalmente alguém é aceito por outros já iniciados. A eudaimonia designa o sucesso ou a prosperidade. Talvez o termo mais adequado nos tempos atuais seja êxito. O que é ser feliz? Ter êxito. Alcançar o desejado. Cumprir a meta. Atingir o objetivo. Aristóteles (384-322 a.C.), discípulo de Platão, ocupou-se da eudaimonia. Ele foi o homem da ciência, da observação e da experiência. Inventou a biologia e destacou-se como poucos em múltiplas disciplinas. Mesmo assim, cometeu alguns equívocos: pensava que as mulheres possuíam menos dentes que os homens, os quais teriam oito costelas de cada lado; achava que um objeto mais pesado cairia mais rápido do que um mais leve; entendia que as crianças não podiam ser felizes por inexperiência.

Aristóteles interessou-se por quase tudo. Escreveu sobre ética, política, estética, biologia, astronomia e tudo mais. Sócrates era feio. Platão, bonito. Aristóteles, nem uma coisa nem outra. Platão criou a sua Academia. Aristóteles, o seu Liceu. Platão tentou influenciar reis da Sicília. Aristóteles foi preceptor de Alexandre, que se tornaria “o grande”. Se para Platão as ideias é que contavam, para Aristóteles o concreto era fascinante. Ele pensava em termos práticos. O que fazer para ser bem-sucedido, ter sucesso, alcançar a prosperidade? Para ter êxito?

A resposta de Aristóteles é de uma simplicidade assombrosa: preparar-se. De que maneira? Buscando o caráter propício, temperando a personalidade, domando os impulsos, aprendendo a não desejar muito nem pouco, treinando-se para o equilíbrio, tendo como norte o meio termo, o justo meio, a ponderação. Quem deseja demais, frustra-se ao não alcançar tudo que quer. Quem deseja de menos, não sai do lugar. Excessos são toleráveis e “naturais” na juventude. Depois, deve prevalecer a razão. A construção da felicidade é um trabalho permanente: “o bem dos homens é a alma trabalhar no caminho da excelência uma vida inteira”. A felicidade é aliada da amizade e da razão, não dos sentidos, volúveis e insaciáveis.

Como aplicar as ideias ponderadas de Aristóteles ao nosso tempo consumista no qual todo desejo deve ser satisfeito? O pensador peripatético (refletia e ensinava caminhando) entendia que a felicidade é uma questão interior, uma paz de espírito, uma harmonia que cada indivíduo pode alcançar por autoconhecimento e lapidação. Não se pode ser feliz realmente sem levar em consideração o outro, aqueles com quem convivemos. A felicidade tem valor em si. Não é meio. É fim. Buscar a felicidade no prazer e na glória são bons meios para se chegar à infelicidade. Ser feliz é estar bem consigo mesmo. Aristóteles gozava intelectualmente. A satisfação maior para ele estava uso da mente. O que é ser racional?

Do ponto de vista do êxito, ser racional é ser razoável. Aristóteles alertava para os perigos e ilusões de se procurar a felicidade, por exemplo, na política. Fica-se na dependência do povo, que é volúvel. Nada é mais importante do que a felicidade. Pensar a eudaimonia como êxito não pode significar que toda meta é legítima ou desejável. Ser razoável implica não se fixar objetivos insanos, incomensuráveis, inalcançáveis, impossíveis? O êxito depende das forças de quem o busca. Essas forças podem ser melhoradas, ampliadas, adaptadas. Não podem, contudo, tudo obter.

Na “Ética a Nicômaco”, Aristóteles precisa: “A felicidade tem, por conseguinte, as mesmas fronteiras que a contemplação, e os que estão na mais plena posse desta última são os mais genuinamente felizes, não como simples concomitante, mas em virtude da própria contemplação, pois que esta é preciosa em si mesma. E assim, a felicidade deve ser alguma forma de contemplação”. Não se assuste o leitor. O homem que precisa agir cotidianamente também pode ser feliz. Aristóteles sabe que cada um precisa trabalhar e comer. Ele rejeita é o excesso. Sustenta que a felicidade está no consumo comedido, “é suficiente que tenhamos o necessário para isso, pois a vida do homem que age de acordo com a virtude será feliz”.

Não cabe o espírito capitalista na filosofia de Aristóteles? Ou, ao contrário, apenas para refrear a ansiedade capitalista é fundamental uma boa pitada da racionalidade aristotélica? O mestre grego achava que a felicidade não podia ser confundida com lazer e recreação. Considerava “infantil” sofrer com o trabalho só para chegar ao prazer do divertimento. Já o contrário lhe parecia razoável: “Mas divertir-nos a fim de poder esforçar-nos, como se expressa Anacársis, parece certo; porque o divertimento é uma espécie de relaxação, e necessitamos de relaxação porque não podemos trabalhar constantemente”. Teria sido Aristóteles um moralista, no sentido hoje pejorativo da palavra, e um produtivista, que submetia o homo ludens (o homem que brinca) ao homo faber (o homem da produção)?

A felicidade é um mistério que nem os gregos decifraram.
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* Escritor. Jornalista. Prof. Universitário. Sociólogo.
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"Likai-vos" uns aos outros

Anselmo Borges*
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Quem nunca assistiu, num restaurante, por exemplo, a esta cena de estátuas: o pai a dedar num smartphone, a mãe a dedar noutro smartphone e cada um dos filhos pequenos a fazer o mesmo, eventualmente até a mandar mensagens uns aos outros? É nisto que estamos... Por isso, fiquei muito contente quando, há dias, num jantar em casa de um casal amigo, reparei que, à mesa, está proibido o dedar, porque aí não há telemóvel; às refeições, os miúdos adolescentes falam e contam histórias e estórias, e desabafam, e os pais riem-se com eles, e vão dizendo o que pode ser sumamente útil para a vida de todos... Se há visitas de outros miúdos, são avisados... de que ali os telemóveis ficam à distância...

Vou constatando que, na sociedade da comunicação, há imensa incomunicação. Porque uma coisa é a comunicação formal instrumental e outra coisa é a comunicação na presença, com as suas emoções: a emoção da palavra nas suas tonalidades, o sorriso, as lágrimas, o toque, os silêncios...

Na era da comunicação, tanta gente só! Só, naquele sentido de sozinho e abandonado, não tendo ninguém com quem conversar, desabafar, dando e ouvindo uma palavra de conforto, de dúvida, de afago. Ao contrário da outra solidão, a exigida para construir uma obra, preparar um discurso, ler textos clássicos, daqueles que fundam a humanidade e lhe dão futuro, esta é uma solidão mortal. Há médicos de família que me dizem que muitos, concretamente pessoas idosas, os procuram apenas para isso: para terem alguém com quem trocar umas palavras e poderem exorcizar a solidão.

Também por isso, se eu fosse pároco, havia de pôr em marcha uma experiência que tive numa paróquia de Paris, quando era lá estudante. Havia uma salle d'accueil (sala de acolhimento), onde voluntários (médicos, psicólogos, mães e pais de família... sempre com a indicação dos respectivos nomes e profissões) davam umas horas semanais de acolhimento às pessoas que vinham. A mim, que também constava, apareceu-me uma vez um senhor que me disse: "Só lhe peço o favor de me ouvir e que me não interrompa", o que eu fiz. No fim de uma hora e tal, ele acabou e disse-me: "Não sabe quanto me ajudou, nunca o esquecerei." E foi-se embora e eu não sei quem é, mas também me lembro dele.

A solidão pode até acontecer e acontece no meio do barulho ensurdecedor do tsunami da informação e das rajadas de opiniões e insultos e fake news, acoutados na cobardia da impunidade e do anonimato das redes sociais, que se tornaram frequentemente um campo de batalha de bárbaros, analfabetos e achistas...

A questão é, a um dado momento, a cisão entre a existência virtual e a existência real. Li, recentemente, num belo livro do jesuíta J. M. Rodríguez Olaizola, Bailar con la Soledad, a história de José Ángel, um homem de Vigo, que vivia no meio do lixo, vítima da síndrome de Diógenes, que o levou a isolar-se da família, dos vizinhos e dos conhecidos. Mesmo assim, tinha uma vida activa e popular no Facebook, onde contava com 3544 amigos e 361 seguidores, dando opiniões sobre a actualidade, desde a actualidade espanhola às questões do meio ambiente... Só passados vários dias é que uma mulher de Tenerife, a 1677 quilómetros de distância, estranhando um silêncio prolongado, deu pela sua falta e contactou a polícia, que, passado algum tempo, encontrou o corpo. Aí está o drama: a possibilidade de o mundo virtual se tornar o refúgio de gente só. Já Zygmunt Bauman, em Amor Líquido, tinha prevenido com razão: "Parece que o sucesso fundamental da proximidade virtual é ter feito a diferença entre as comunicações e as relações. "Estar conectado" é mais económico do que "estar relacionado", mas também menos proveitoso na construção de vínculos e na sua conservação".

Outra ameaça do virtual é a busca desenfreada da popularidade nas redes sociais, através da pressão de obter uma chusma de likes e seguidores.., com as consequentes ilusões e desilusões. Rodríguez Olaizola dá três exemplos.

Há pouco tempo, o cantor Ed Sheeran, um dos artistas com mais êxito dos últimos anos, anunciou que abandonava a rede social Twitter, porque não aguentava a quantidade de comentários negativos que recebia de pessoas que não o conheciam mas o odiavam. "Um só comentário é suficiente para me estragar o dia." Comenta o jesuíta: "A pressão amor-ódio nas redes é demasiado exigente para muitos, inclusive para quem é maioritariamente aceite."

No outro extremo, em Novembro de 2015, a modelo Essena O'Neill, famosa pelas suas fotografias no Instagram, com centenas de milhares de seguidores e fabulosos contratos publicitários, anunciou que abandonava a rede. Não porque era rejeitada, mas por causa do excesso de aceitação: isso exigia-lhe demasiado tempo na preparação das fotos, no estudo das imagens... Declarou que tinha tomado consciência de que esse escaparate não era a vida real, mas tão-só uma ficção orientada para a aprovação, para que chovessem os likes... O preço, chegou a dizer, é "a tua vida e a tua autoestima".
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A 20 de Setembro de 2017, uma conhecida influencer - assim se chama, como diz a palavra, quem, graças à sua relevância nas redes sociais, influencia, com as suas opiniões, imagens ou actividade, uma enorme quantidade de pessoas - suicidou-se. Chamava-se Celia Fuentes. Pergunta-se: como é que se explica que uma jovem tão popular, com futuro e com uma vida aparentemente perfeita, tenha posto fim à vida? O jesuíta resume: "A ficção de uma vida ideal enquanto na vida real havia solidão e sensação de fracasso. A solidão de uma vida construída apenas para aparentar. "Tudo é mentira", foram as últimas palavras da jovem no seu WhatsApp.

Por isso, digo, a partir de um título que recebo de empréstimo da revista Philosophie Magazine: "Likai-vos uns aos outros", ponde muitos likes (gostos) uns aos outros. Mas tende cuidado!
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* Padre e professor de Filosofia
Fonte:  https://www.dn.pt/edicao-do-dia/22-set-2018/interior/likai-vos-uns-aos-outros-9882684.html?utm_term=Presidente+da+Associacao+Sindical+de+Juizes+e+coautor+de+acordao+da+%22seducao+mutua%22&utm_campaign=Editorial&utm_source=e-goi&utm_medium=email

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

DEUS, ELEITOR

José de Souza Martins*

Deus está sendo arrastado pelo íngreme calvário das conveniências eleitorais dos ambiciosos 

No Brasil eleitoral, o próprio Deus foi raptado e instrumentalizado. Vários candidatos e partidos, hereticamente, converteram Deus em reles cabo eleitoral e patrono da antipolítica do fanatismo. Está pressuposto no gesto do dedo no gatilho e na afirmação daquilo que nega Deus, o justiçamento, a negação dos humanos direitos de todos. Pelotão de fuzilamento não é Justiça. Esfregar a Bíblia na cara dos outros é pedrada, não é argumento de fé.

Deus está sendo arrastado pelo íngreme calvário das conveniências eleitorais dos ambiciosos que se colocaram em seu lugar e lhe puseram nos ombros a pesada cruz em que será crucificado de novo e esquecido.

Deus é nisso "fake news" pós-moderno, um ser banal e descartável, feito para enganar, ludibriar os simples e crédulos. Os pobres, a classe média, os abonados e assustados. É que, na teologia popular brasileira, o verdadeiro Deus é negação da negação. Há que admitir e vencer antes a negação reveladora, Satanás e a função religiosa e política do mal que é própria dele.

Na concepção popular, a usurpação levará para as profundezas os atrevidos. A beira do caminho do nosso oportunismo político está cheia de descartes dos que usurparam o nome de Deus para enganar o povo. A tecnologia publicitária não tem como evitar o banimento, da memória coletiva, do nome e dos abusos daqueles que conspurcaram o território do sagrado. Fé autoindulgente não é fé. É coisa de outra coisa.

Na cultura popular, Satanás é o ente antagônico e desconstrutivo cuja malignidade e mediação nega, e nisso revela, a deidade de Deus e a importância do sagrado na vida humana. Não importa qual a confissão religiosa em torno da qual as pessoas se agrupam para comungar sua fé, para compartilhar o pão da esperança. O deus eleitoral não é o Deus que sacia, mas o deus que nega a diversidade emancipadora do homem, pune, açoita, segrega, confisca direitos e liberdades. Não é o Deus dos que têm fome e sede de Justiça.

O crônico oportunismo político daqui, não raro com a cumplicidade de igrejas, descobriu o tesouro diabólico da manipulação das religiões para angariar votos para os famintos de poder. Satanás gosta de poder e de dinheiro, especialmente quando o poder manipulado pode ser fonte de riqueza. Opõe-se ao Deus do povo que é o Deus dos profetas, não o deus de tronos e palácios, não o deus do poder.

Em nossa literatura de cordel o inferno é um grande mercado, onde tudo tem preço, até a alma e a consciência. Nessas crenças, Satã é o mercador que oferece o paraíso do poder e da riqueza em troca da alma dos ambiciosos. É bíblico.

Na região amazônica e no Centro-Oeste conheci sertanejos que, na soma dos diferentes valores numéricos da meia dúzia de cédulas do dinheiro de então, chegavam ao 666, o número apocalíptico da Besta-fera, o satanás do fim dos tempos. Especialistas que decodificaram o número enigmático concluíram que é o nome em código do imperador Nero, a figuração política do mal, assassino da própria mãe. O dinheiro popular não é esse da Casa da Moeda.

Estou, é claro, me referindo às disseminadas concepções populares polarizadas entre o bem e o mal. Tratam do pêndulo regulador de nossa consciência social, a matriz profunda de nossas concepções e das nossas decisões, seja na vida pessoal, seja na vida política. Os que raptaram Deus, portanto, trouxeram para a política brasileira o maligno que o nega. O cheiro de incenso impregnado do de enxofre.
É inacreditável a facilidade abusiva com que os oportunistas da política brasileira se apossam das crenças para nos enganar, para violar a própria lei neste país em que, desde a proclamação da República e desde antes da primeira Constituição republicana, o Estado se separou da igreja e assegurou a liberdade civil das diferentes confissões religiosas. Religião, no Brasil, em vez de ser praticada e respeitada como afirmação do direito à fé e do respeito aos direitos do outro, é praticada como instrumento de coerção e de dominação. De fato, o uso antidemocrático da religião é, no Brasil, um crime, uma violação dos direitos políticos dos cidadãos.

Aqui, diferentes grupos populares falam e compreendem a língua do espírito que humaniza, não a do que coisifica. Francisco Julião, líder das Ligas Camponesas, contou, certa vez, que quando começou sua militância política, ligada aos direitos dos trabalhadores rurais, descobriu que tinha que ler a Bíblia para poder conversar com eles. Era a chave do imaginário dos pobres da terra. Os direitos eram bíblicos, passavam pelo respeito ao sagrado. Hoje, aqui, é a violação dos direitos sociais e os de convicção que passa pela instrumentalização político-partidária do sagrado. O próprio Deus está em perigo.
-------------------------- * José de Souza Martins é sociólogo. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, autor de “A Sociologia como Aventura” (Contexto).
Fonte: https://www.valor.com.br/cultura/5866739/deus-eleitor 21/09/2018