quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Bauman: "As guerras religiosas? Apenas uma das ofertas do mercado"

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"As guerras religiosas? Apenas uma das ofertas do mercado." Encontramos em Assis, antes do seu discurso, Zygmunt Bauman, o mais importante estudioso da sociedade pós-moderna, que contou em páginas memoráveis a angústia do homem contemporâneo. E ele nos fala sobre o desafio do diálogo.

A reportagem é de Stefania Falasca, publicada no jornal Avvenire, 20-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Professor, a sua intuição sobre a pós-modernidade líquida continua oferecendo um olhar lúcido sobre o tempo presente. Mas, nessa liquidez, registra-se uma explosão de nacionalismos, identitarismos religiosos. Como podem ser explicados?

Comecemos pelo problema da guerra. O nosso mundo contemporâneo não vive uma guerra orgânica, mas fragmentada. Guerras de interesse, por dinheiro, por recursos, para governar as nações. Eu não a chamo de guerra religiosa. Existem outros que querem que seja uma guerra religiosa. Eu não pertenço àqueles que querem levar a acreditar que seja uma guerra entre religiões. É preciso estar atento para não seguir a mentalidade corrente. Especialmente a mentalidade introduzida pelo cientista político de plantão, pela mídia, por aqueles que querem obter consenso, dizendo aquilo que eles queriam ouvir. Você sabe muito bem que, em um mundo permeado pelo medo, este penetra a sociedade. O medo tem as suas raízes na ansiedade das pessoas, e, embora tenhamos situações de grande bem-estar, vivemos em um grande medo, o medo de perder posições. As pessoas têm medo de ter medo, mesmo sem se darem uma explicação do motivo. E esse medo tão móvel, inexpressivo, que não explica a sua origem, é um ótimo capital para todos aqueles que querem utilizá-lo por motivos políticos ou comerciais. Assim, falar de guerras e de guerras religiosas é apenas uma das ofertas do mercado.

Ao pânico das guerras religiosas, soma-se o das migrações. Ainda há alguns anos, Umberto Eco dizia que, para aqueles que queriam capitalizar sobre o medo das pessoas, o problema da emigração tinha chegado como um presente do céu...

Sim, é verdade. Guerras religiosas e imigração são nomes diferentes dados hoje para explorar esse medo vago e incerto, mal expressado e mal compreendido. No entanto, estamos aqui cometendo um erro existencial, confundindo dois fenômenos diferentes: um é o fenômeno das migrações, e o outro é o fenômeno da imigração, como observou Umberto Eco. Não são um fenômeno, são dois fenômenos diferentes. A imigração é a companheira da história moderna. O Estado moderno, a formação do Estado é também uma história de imigração. O capital precisa do trabalho, o trabalho precisa do capital. As migrações, ao contrário, são algo diferente, são um processo natural que não pode ser controlado, que segue o seu próprio caminho.

Como o senhor acha que podemos encontrar um equilíbrio para esses fenômenos?

A solução oferecida pelos governos é a de estreitar cada vez mais a corda das possibilidades de imigração. Mas a nossa sociedade já é irreversivelmente cosmopolita, multicultural e multirreligiosa. O sociólogo Ulrich Beck diz que vivemos em uma condição cosmopolita de interdependência e de troca em nível planetário, mas sequer começamos a desenvolver a consciência disso. E gerimos esse momento com os instrumentos dos nossos antepassados... É uma armadilha, um desafio a ser enfrentado. Nós não podemos voltar atrás e escapar de viver juntos.

Como nos integrarmos sem aumentar a hostilidade, sem separar os povos?

É a pergunta fundamental da nossa época. Também não podemos negar que estamos em um estado de guerra, e, provavelmente, essa guerra também será longa. Mas o nosso futuro não é construído por aqueles que se apresentam como "homens fortes", que oferecem e sugerem aparentes soluções instantâneas, como construir muros, por exemplo, desembainhando a arma milagrosa que resolve todos os problemas, enquanto o problema permanece. A única personalidade contemporânea que leva adiante essas questões com realismo e que as faz chegar a cada pessoa é o Papa Francisco. No seu discurso à Europa, ele fala de diálogo para reconstruir a tessitura da sociedade, da justa distribuição dos frutos da terra e do trabalho que não representam mera caridade, mas uma obrigação moral. Passar da economia líquida para uma posição que permita o acesso à terra com o trabalho. De uma cultura que privilegie o diálogo como parte da educação. Mas, atenção, ele repete: diálogo-educação.

Por que, na sua opinião, o papa está convencido de que essa é a palavra que não devemos nos cansar de repetir? Afinal, o que é o diálogo?

Ensinar a aprender. O oposto das conversas comuns que dividem as pessoas: umas certas, outras erradas. Entrar em diálogo significa superar o limiar do espelho, ensinar a aprender a se enriquecer com a diversidade do outro. Ao contrário dos seminários acadêmicos, dos debates públicos ou das discussões partidárias, no diálogo não há perdedores, mas apenas vencedores. Trata-se de uma revolução cultural em relação ao mundo em que se envelhece e se morre antes de crescer. É a verdadeira revolução cultural em relação àquilo que estamos acostumados a fazer e é o que permite repensar a nossa época. A aquisição dessa cultura não permite receitas ou escapatórias fáceis, ela exige e passa pela educação que requer investimentos de longo prazo. Nós devemos nos concentrar nos objetivos de longo prazo. E esse é o pensamento do Papa Francisco. O diálogo não é um café instantâneo, não dá efeitos imediatos, porque é a paciência, a perseverança, a profundidade. Ao caminho que ele indica, eu acrescentaria uma única palavra: assim seja, amém.
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Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/560269-bauman-as-guerras-religiosas-apenas-uma-das-ofertas-do-mercado 21/09/2016
Imagem da Internet

NUNO COSTA SANTOS: "Sem cultura estamos perdidos".

 Arturo Pérez-Reverte

Nuno Costa Santos entrevistou Arturo Pérez-Reverte. O autor espanhol esteve em Portugal para apresentar "Homens Bons", um romance que quer "salvar a parte salvável do ser humano".
Arturo Pérez-Reverte é o autor espanhol mais lido no mundo mas não é isso que faz com que tenha opiniões consensuais. Numa altura em que é editado em Portugal o romance Homens Bons (ASA), sobre o idealismo iluminista, o escritor falou com o Observador sobre o livro mas também sobre o seu pessimismo sobre a natureza humana e a batalha que tem com o politicamente correcto.

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“Homens Bons”, de Arturo Pérez-Reverte (Asa)

Assistiu a várias tragédias do mundo enquanto repórter de guerra. Ainda se assume como pessimista?
A vida que tive não me ajuda a ser optimista. Em todo o caso, este romance que agora publico em Portugal é optimista. Vi coisas muito desagradáveis na guerra e fiquei muito mal impressionado com o ser humano. Já tirei a maiúscula a muitas palavras, como deus, pátria e bandeira. Mas desta vez edito um romance de esperança, que visa, digamos, salvar a parte salvável do ser humano. A amizade, a lealdade, a cultura. A cultura como salvação possível. Este é um livro sobre as palavras que ficaram com maiúsculas.

Um homem que assistiu a tantas guerras tem necessidade de nomear a bondade?
No trabalho não vi o lado melhor do ser humano e por isso faço uma compensação escrevendo romances. Estes são uma espécie de analgésico para mim. Não atacam a causa da dor mas ajudam a suportar a dor. Guardo muitas imagens e recordações que não são cómodas e agradáveis. Escrever ajuda a serenar-me e a ir buscar a parte boa.

Qual a melhor história de bondade que viveu na guerra?
Vivi histórias atrozes mas também histórias muito nobres e dignas. Vi muita gente que se sacrificava por outros. Um velho, em Sarajevo, que saía todos os dias com uma mochila às costas para ir buscar comida para os netos e para os vizinhos. Na guerra vi muita gente má e muita gente boa.

Pois, na guerra o ser humano revela-se nos seus extremos.
O ser humano é um filho da puta por natureza. Nasce filho da puta, guerreiro e predador. A sociedade educa-o e assim suaviza essa natureza. Quando há uma catástrofe, uma crise ou uma guerra rompe-se a casca de civilização e o homem volta a ser um animal e um filho da puta. Mas, ao mesmo tempo, aparece o homem bom. E vemos também que o mesmo homem pode ser filho da puta e bom ao mesmo tempo. Vi homens que mataram e torturaram a ter gestos muito bonitos.

"Vi muita gente que se sacrificava por outros. 
Um velho, em Sarajevo, que saía todos 
os dias com uma mochila às costas para 
ir buscar comida para os netos
 e para os vizinhos." 
 
Sendo este livro sobre o Iluminismo, vê-o como um livro de civilização numa altura em que está a ser desmantelada?
Sim e isso é particularmente importante agora. Este é um livro que trata do século XVIII mas que também fala ao mundo de hoje. Os valores não mudam, são os mesmos. A lealdade, a dignidade, a amizade e a cultura como salvação continuam a ser necessárias. O mundo é um caos de internet e de informações dispersas, onde não há possibilidade de separar o útil do inútil e onde o bem e o mal estão misturados. A internet é uma ferramenta muito potente mas não hierarquiza a informação. O receptor de informação não distingue o útil do inútil. Só há cultura se houver preparação. A cultura ajuda a seleccionar e sem cultura estamos perdidos. O meu romance pretende ser uma homenagem aos livros como mecanismo de salvação.

As novas gerações, com poucas referências culturais e históricas, podem encontrar algumas nesse livro?
Este não é um livro didático. Tem o objectivo de prestar homenagem a uns homens que tentaram mudar o mundo através dos livros, o que aconteceu no século XVIII.

Mas o Iluminismo também acabou por dar origem a cabeças cortadas, ou seja, a barbárie.
Esse ponto é interessante e importante. O Iluminismo abriu a porta à Luz mas os homens sequestraram o Iluminismo, convertendo-o em matanças e guilhotinas. Com frequência, as boas causas, as boas ideias e as boas razões são contaminadas pela infame e perversa condição humana. A Revolução Russa, por exemplo, era originalmente um acto necessário e bom mas foi sequestrada por Estaline e acabou numa ditadura. Todas as boas causas terminam mal por causa dos homens. Em Portugal, o 25 de Abril, que começou por ser uma ideia boa, acabou sequestrado pelo dinheiro. Isso não lhe retira o valor. Os Capitães de Abril continuam a ser os Capitães de Abril, homens que acreditavam na possibilidade de um mundo.

 "Os livros são ou solução ou consolo. 
Quando o mundo exterior não te agrada, 
quando é tudo ruído mediático ou confusão, 
a biblioteca ajuda a fazer-te compreender 
porque é que a realidade é como é."

Este é um romance, como é habitual nas suas ficções, de personagens, a começar pelas principais: o bibliotecário don Hermógenes Molina e o almirante don Pedro Zárate, ambos membros da Real Academia Espanhola. Continua a perseguir o objectivo de ter boas personagens para contar uma história?
Posso dizer que este é um livro de ideias e de personagens. E, claro, há acção, aventura, viagem, peripécias. Eu queria demonstrar que duas personagens muito diferentes, opostas mesmo — o científico e rigoroso e o humanista, católico e humano — podem, a propósito dos livros, ser irmãos. Esta é uma história de amizade. Uma história de livros e de amizade. Era esse o meu objectivo.

Dom Quixote e Sancho Pança são sempre uma referência nesse aspecto.
Sim, a dimensão de diálogo é central. Se os homens falassem mais, o mundo seria melhor. Há que falar. Os homens não falam. Em geral os homens esperam que os outros acabem de falar para dizer aquilo que têm na cabeça. Quando falamos com uma pessoa com sabedoria e a escutamos o mundo torna-se melhor.

“Homens Bons” parte muito da sua dimensão de escritor que pesquisa.
É verdade. Mas depois há a parte de ficção, que é fundamental. A certo momento achei que era importante introduzir a figura do narrador. Que sou eu, embora com uma dimensão ficcional importante. Neste romance as personagens reais dizem frases que nunca disseram. Há aqui a exploração de uma falsa realidade, por assim dizer.

"Há dias vi uma série de turistas a tirar 
fotografias na Brasileira, junto à estátua 
de Fernando Pessoa. Pensei: não sabem 
quem é Pessoa mas é muito importante 
para eles tirar a foto. Alguém que ame 
 verdadeiramente o poeta não se pode 
aproximar por causa dessa multidão
 que o desconhece." 
 
Interessam-no as fronteiras perdidas entre a realidade e a ficção.
Todos os meus livros passam por aí. Invento títulos de obras, misturo personagens reais com as que não o são. Esse tipo de jogo narrativo diverte-me muito. Falsifico a realidade na hora de escrever.

É possível encontrar hoje novas formas literárias de contar uma história?
O que é possível é adaptar a literatura. Os grandes temas estão nos clássicos – em Sófocles, Eurípedes e Aristófanes, por exemplo. A traição, o crime, o matrimónio, a vingança. O escritor, ao longo dos séculos, tem ido buscar os temas eternos, actualizando-os. “O Primo Basílio”, de Eça de Queirós, é uma tragédia de Sófocles situada no século XIX português. Não há nada que descobrir de essencial. Apenas existem formas novas de contar os velhos temas de sempre.

Encontra no mundo de hoje alguns homens bons no sentido em que os trata no seu livro?
Hoje em dia não há nenhum homem verdadeiramente bom. Estamos todos demasiado contaminados. O mundo actual é demasiado global e a miséria e a vileza também são globais. Não poria a mão no fogo por ninguém.

 "Estamos a criar gerações sem memória 
e sem cultura. Com planos de estudos iguais, 
em que não se premeia a excelência 
mas sim a mediocridade. Quando se é brilhante 
é preciso ocultar isso para 
não se ofender quem não o é."


Mantém-se muito crítico do humanismo cristão? Não lhe reconhece virtudes?
Eu não sou anti-religioso. Mas tenho muitas reservas em relação ao papel histórico da Igreja Católica. Países como Portugal, Espanha e Itália ficaram presos em calabouços obscuros durante muitos séculos por causa da Igreja Católica. Impediu-nos de ler livros, de foder, de rir, de viajar. E isso traumatizou-nos historicamente. Em Portugal e Espanha, muito mesmo. E o nosso atraso cultural e intelectual deve-se ao peso que a Igreja Católica teve em nós. Respeito quem é católico. Não posso é perdoar o papel histórico e político da Igreja.

O que acha do Papa Francisco?
É-me indiferente. Porque a vontade politicamente correcta não é prática. Tanto me causa desconfiança um malvado como quem quer agradar a todos. Quem quer agradar a todos não é fiável.

Uma das suas batalhas é contra o que se convencionou chamar “politicamente correcto”. Como é que, no seu entender, este se manifesta?
Quero escrever com liberdade o que quero e o que me parece, não me deixando guiar por condicionamentos. A língua é sábia – a portuguesa e a espanhola são-no. Línguas nobres, antigas, latinas. São línguas de uma eficácia perfeita. Não aceito que me digam que não posso utilizar a língua porque posso ofender. No outro dia escrevi que o presidente Rajoy é um “estúpido autista” e os pais dos autistas vieram reclamar. Quando se escreve não se pode estar sempre a pensar que se pode ofender o pequeno colectivo. É preciso assumir que as línguas são flexíveis e que a questão não está nas palavras mas nas interpretações que se fazem delas. Tenho assumido esta posição no plano público.

Acha que vai ganhar essa batalha?
Não. É uma batalha perdida mas vou lutar até ao fim. Temos sempre medo e estamos a criminalizar o que é natural. Acho que é terrível e não tem solução.

"No outro dia escrevi que o presidente Rajoy 
é um “estúpido autista” e os pais dos autistas 
vieram reclamar. Quando se escreve não 
se pode estar sempre a pensar que 
se pode ofender o pequeno colectivo." 
 
Que batalhas é que, no seu entender, se vai ganhar então?
Sou um pessimista, como disse. Acho mesmo que a única solução é a cultura, a biblioteca. Os livros são ou solução ou consolo. Quando o mundo exterior não te agrada, quando é tudo ruído mediático ou confusão, a biblioteca ajuda a fazer-te compreender porque é que a realidade é como é. Estamos a criar gerações sem memória e sem cultura. Com planos de estudos iguais, em que não se premeia a excelência mas sim a mediocridade. Quando se é brilhante é preciso ocultar isso para não se ofender quem não o é. Os homens não são todos iguais. Há homens cultos e inteligentes, há homens de elites que abrem caminhos novos. Portugal era um país de elite. Abriu caminhos para outros. Como é que se pode dizer que um português do século XV é igual a um pirata anglo-saxónico do mesmo período? Fazem falta homens justos, cultos e educados , não canalhas.

Como é que têm corrido estes dias em Portugal?
Têm sido bons. Vir a Portugal não é vir ao estrangeiro. Estou em casa. Reconheço as gentes pelos costumes, pela forma de estar, pela fisionomia. É como quando um português vai a Espanha. Agora, é certo, Lisboa está muito mais turística.

O que pensa disso?
Acontece o mesmo em Espanha. Por um lado é bom porque traz dinheiro para a economia. Mas por outro é negativo. O Portugal que eu amo, elegante, sereno, senhorial, tradicional, das gentes humildes, está mais apagado. Lembro-me de vir cá e encontrar as gentes do Alentejo, pobres mas com uma dignidade e uma educação raras. Há dias vi uma série de turistas a tirar fotografias na Brasileira, junto à estátua de Fernando Pessoa. Pensei: não sabem quem é Pessoa mas é muito importante para eles tirar a foto. Alguém que ame verdadeiramente o poeta não se pode aproximar por causa dessa multidão que o desconhece.

Hoje ainda há lugar para homens bons?
Sim. Escrevi este livro para demonstrá-lo.
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Nuno Costa Santos, 41 anos, escreveu livros como “Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco” ou o romance “Céu Nublado com Boas Abertas”. É autor de, entre outros trabalhos audiovisuais, “Ruy Belo, Era Uma Vez” e de várias peças de teatro.
Fonte:  http://observador.pt/especiais/entrevista-arturo-perez-reverte/

terça-feira, 20 de setembro de 2016

É preciso viver tristeza para ter alegria, diz palhaço que atua em hospitais


Fundador de uma organização que tem alegria no nome, Wellington Nogueira estava triste na última sexta (16), quando recebeu a Folha

No dia anterior, havia morrido o ator Domingos Montagner, palhaço por ofício assim como ele, que conhecia há mais de duas décadas. 

Mais presentes naquele dia, as lágrimas e o luto fazem parte da vida de Nogueira da mesma forma que o riso, conta. E entender isso foi um aprendizado obtido nos 25 anos desde que idealizou os Doutores da Alegria.

A organização fundada por ele, que já trabalhava como palhaço em centros de saúde nos EUA, atua em hospitais de São Paulo, Rio e Recife. 

Na entrevista a seguir, Nogueira lembra histórias marcantes do contato com pacientes e fala sobre o que se pode levar da experiência no hospital para a vida fora dele. 

*
Folha - Como foi entrar pela primeira vez vestido de palhaço em um hospital no Brasil?
Wellington Nogueira - Em 1990, eu trabalhava nos Estados Unidos e vim para o Brasil visitar o meu pai na UTI do Incor. Ele pediu para eu fazer algo com as crianças de lá e combinei com uma enfermeira de ir na manhã seguinte.

À tarde, meu pai entrou em coma. Varamos a noite e, às 8h, liguei para a enfermeira e disse que não estava com cabeça. Ela falou: "Falei para as crianças que vem um palhaço, você não vai me dar esse cano agora". Fui e foi muito legal. Quando terminei, meu pai tinha saído do coma. Depois, ele saiu do hospital –e eu tinha vindo para acompanhar sua morte. Estava com um sentimento de gratidão. No ano seguinte, voltei para o Brasil e comecei o trabalho. 

Se tivesse que escolher algum momento ou paciente muito marcante, qual seria?
São muitos, mas o caso do Mateus [adolescente internado há 12 anos no Conjunto Hospitalar do Mandaqui, na zona norte], é exemplar. Tudo começa quando alguém do hospital comenta com uma dupla de palhaças, a Val e a Juliana, que o Mateus e a companheira de UTI dele queriam ver a Lua pela primeira vez. Elas se disponibilizaram e fizeram um lual.

Depois, à medida que o Mateus passou para a adolescência, elas sugeriram pintura, levaram livros. Ele pintou todos os palhaços –todos passaram pelo Mateus [os profissionais se revezam]. Fazer parte da vida de um paciente por 12 anos faz a gente se perguntar todo dia: como vou me renovar, o que vou trazer hoje?

É uma relação duradoura. E como é, por outro lado, lidar tão frequentemente com a perda?
No começo, tínhamos um processo chamado higiene emocional. Uma vez por mês nos reuníamos para conversar. Não me esqueço do caso do Ariel, que tinha 5 ou 6 anos. Todo mundo tinha trabalhado com ele, porque ele estava internado havia muito tempo. Um dia, ele morreu. E, na reunião, todos lembraram de algum momento com o Ariel, que era muito danado, esperto, adorava pegar a gente no pulo. Cada história acabava numa gargalhada, porque era alguma coisa que ele tinha aprontado para a gente. E me dei conta de como esse ritual de viver a experiência e compartilhar era fortalecedor. Depois, a gente viu que, em alguns casos, esse processo não dava conta. E aí os artistas começaram a fazer canções, cenas e textos para elaborar as experiências. 

Hoje você está triste. Se tivesse que visitar um hospital, o que faria?
Não iria cancelar. Ofereceria o dia para ele [Domingos Montagner], porque tem uma coisa de palhaço: o show tem que continuar, porque a vida continua. Mas é claro que, se fosse alguém muito próximo, talvez eu precisasse parar. Quando a minha mãe morreu, eu vivi uma tristeza de verdade e fiquei sete meses como se estivesse nadando numa piscina de gelatina. Meu 100% era mais lento, chorava, não me furtei. Foi importante. Hoje, todo mundo fala de alegria, felicidade, prozac. É claro que uma depressão é algo a ser tratado, mas a gente precisa sentir como o luto nos afeta. Para celebrar a alegria, é preciso se colocar a serviço também da tristeza. Quanto mais conheço um, melhor fico no outro. 

O desafio da alegria na adversidade não se restringe ao hospital. Como levar para fora?
Lembro de um senhor que, no final da interação, falou: "Se eu sair daqui, vou viver a vida de outra forma". Pensei: Por que não posso fazer essa escolha na plenitude da minha saúde? O hospital é uma tremenda oportunidade de ver as coisas em perspectiva. Vi quanta energia e tempo eu desperdiçava em coisa que não valia a pena. O hospital é uma grande oportunidade de mirar um espelho para você. A gente hoje vive uma era de cultura muito barulhenta, por isso está se fazendo tanta meditação. A gente vive numa grande anestesia, e isso parece muito bom: as pessoas estão correndo para um futuro que não aconteceu e atrás do prejuízo de um passado que já foi. Mas estar o tempo todo em pleno movimento é alienante. Para ter o seu poder de volta para suas mãos, você tem que parar, respirar, ficar inteiro no momento. O que levou a gente à insustentabilidade foi buscar tudo fora. Isso não sacia. 

Como é pensar assim para um palhaço, que é quem faz o espetáculo?
O hospital foi me mostrando. Uma vez, em Nova York, passei por um adolescente que estava tomando quimioterapia. Ele me olhou com expressão de enfado, mas achei que conseguiria alegrá-lo. Fiz uma cena que costumava ter 100% de retorno de gargalhada. Ele me olhou e disse: "Sabe o que é mais triste? Você não é nem engraçado".

Fiquei com tanta vergonha, tão humilhado pela minha arrogância, que olhei para baixo para chorar. Foi quando vi minha roupa de palhaço, e comecei a chorar e falar como um palhaço: "Mais uma trapalhada, mais um emprego que eu vou perder porque eu só faço bobagem..." O menino achou engraçado. A palhaça –que era minha supervisora– entrou no jogo e, quanto mais me massacravam, mais ele ia gostando. Me deixou voltar. Saí com a sensação de que tinha sido atropelado, minha supervisora falou: "O que você acha que é ter câncer aos 14 anos? Ele queria saber se você queria mesmo entrar na vida dele, porque, para isso, você precisa saber como ele está se sentindo." Esse moleque foi uma tremenda de uma porrada maravilhosa.

Wellington Nogueira

Profissão Coordenador da ONG Doutores da Alegria, ator e palhaço
Formação Ensino médio no Colégio Bandeirantes. Ator pela American Musical and Dramatic Academy e palhaço pelo Big Apple Circus Clown Care Unit, ambos de NY
Curiosidades Foi professor de inglês e atuou nos musicais "Família Adams" (2012/2013) e "Jesus Cristo Superstar" (2014) 
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Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/09/1814956-e-preciso-viver-tristeza-para-ter-alegria-diz-palhaco-que-atua-em-hospitais.shtml

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

As escolhas feitas pelo prazer são propriamente malvinistas

 Contardo calligaris*
Ilustração Contardo Calligaris de 15.set.2016

À força de ler e ouvir os que criticam nossos tempos, acabamos nos convencendo de que somos hedonistas –aliás, vergonhosamente hedonistas. Zygmunt Bauman, por exemplo, convenceu a muitos de seus leitores de que, por causa do hedonismo, nossa liberdade seria feita de escolhas risíveis e fúteis. 

Tipo, você não gosta do programa? É só zapear. Você cansou de encontrar o mesmo parceiro na cama a cada noite? Basta se separar. O romance que você está lendo fica chato pela página 20? Deixe de ler e, se tiver folheado o volume com cuidado, ainda vai dar para trocá-lo na livraria. 

Nossa busca pelo prazer imediato nos impediria de saborear as coisas com calma e ponderação. Será? E quais são as coisas que deveríamos saborear com calma –programa chato, livro chato e casamento chato? É isso que estamos perdendo por causa de nossa busca "desenfreada" pelo prazer?

O extraordinário não é que a gente possa zapear porque acha chato, mas é que esse ato tão sensato (zapear contra o tédio) nos envergonhe e que a gente se sinta culpado por isso. As escolhas feitas pelo prazer, que deveriam ser facilmente justificáveis, são propriamente malvistas –pelo homem da rua, por nós mesmos, pela administração da coisa pública, pelas religiões (nem se fala), pela medicina que gere nossas vidas etc. 

Alguns exemplos, ao acaso, da resistência ao prazer e do menosprezo que ele encontra: 

1) Existe um antiviral que, tomado a cada dia, torna quase impossível a contaminação pelo vírus da Aids. É um remédio indigesto, com possíveis efeitos colaterais, mas é um bênção para quem só encontra prazer numa sexualidade promíscua. Se for o seu caso, tente explicar isso ao generalista médio, na hora de pedir a receita"¦ 

2) Existe há anos um teste de HIV pela saliva, com resultados em 20 minutos. O teste detecta os anticorpos, o que significa que não detecta as infecções que aconteceram nas últimas semanas. Mesmo assim, ele oferece uma extraordinária diminuição das chances de contaminação para as pessoas cujas fantasias sexuais são incompatíveis com o sexo "protegido". Ou seja, para quem a camisinha é incompatível com o prazer, é possível encontrar alguém, testar-se, esperar 20 minutos e logo transar com uma certa liberdade. Mas"¦ o teste, embora aprovado pela Anvisa, não é vendido em farmácia. 

3) Engraçado, aliás, que, desde os anos 1980, a campanha de prevenção da Aids nunca tenha conseguido levar em conta as exigências do prazer, mesmo quando elas poderiam ser parcialmente satisfeitas. 

Por exemplo, ao longo dos anos 1980 (e mesmo 1990), nenhuma campanha admitia que o sexo oral contaminava infinitamente menos do que o sexo anal; queria-se proibir ou emborrachar tudo, sempre. Conclusão: as políticas sanitaristas fracassaram por pedir frustrações impraticáveis. 

São apenas pequenos exemplos do fato de que o prazer, para nós, nunca é respeitável. Se no prédio da frente tem uma festa que impede você de dormir, entendo seu ódio; nessa situação, eu já pensei em invocar as sete pragas do Egito contra os festeiros. 

Agora, o ódio sempre é maior quando se trata de uma festa. Se o mesmo barulho fosse devido a um luto repentino com desespero e choros coletivos, aí você aguentaria firme. Você acha lógico? Talvez seja, mas só numa perspectiva em que a dor do outro merece nosso respeito, mas seu prazer, não. Em suma, o prazer como razão de nossas ações é envergonhado e culpado, porque ele nos parece mesquinho. E o prazer do outro é tão desprezível quanto o meu. 

Não pretendo ter convencido você. Mas me daria por satisfeito se, no futuro, ao ler ou ouvir que seríamos "hedonistas", você se der o tempo de duvidar. Afinal, como podemos ser hedonistas, se nossa cultura, sistematicamente, despreza o prazer como causa possível de nossas escolhas? 

Uma velha piada conta que um papa insistia para que a irmã que se ocupasse dele tivesse um seio avantajado. Os cardeais mais próximos tentavam satisfazer esse pedido, o que não era fácil. Até que um dia um deles perguntou a Sua Santidade: "Mas por quê?". E o papa respondeu "Perché mi piace" (porque eu gosto). 

Bem contada, juro que a piada ainda é engraçada. Mas o que nos faz rir nela, qual é o escândalo? O escândalo não é o papa querer uma irmã com seios grandes. O escândalo é o papa trazer como argumento o simples prazer do que ele gosta. 
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* Italiano, é psicanalista, doutor em psicologia clínica e escritor. Reflete sobre cultura, modernidade e as aventuras do espírito contemporâneo (patológicas e ordinárias). Escreve às quintas.
Foto:  Mariza Dias Costa/Editoria de Arte/Folhapress
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2016/09/1813289-as-escolhas-feitas-pelo-prazer-sao-propriamente-malvinistas.shtml

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Liberdade conectada: quais os limites do direito de livre expressão?

 

Em estudo enciclopédico e atual, historiador britânico explora os limites e o significado dos direitos de livre expressão na era da internet

Eduardo Wolf

O que há em comum entre um pregador radical muçulmano incentivando os jovens a aderirem ao Estado Islâmico nas ruas de Londres, uma mulher sendo forçada a remover seu “burkini” (roupa de banho para muçulmanas) em uma praia na França e jovens brasileiros detidos em São Paulo sob a acusação de que depredariam a cidade em um ato político? Vejamos: no primeiro caso, temos uma pregação religiosa radical incitando à violência física sob a forma de atos terroristas; no segundo, uma ação policial estatal regulando uma prática privada na esfera dos costumes; no terceiro, um conflito político em que manifestantes são detidos previamente por supostamente terem confessado à polícia que sua ação política, na verdade, resultaria em quebra-quebra e arruaça pela cidade. 

Londres, Marselha, São Paulo; terrorismo religioso, conflito de costumes e violência política – pode parecer que não há nada interligando todos esses casos (verídicos), mas eles estão, sim, muito conectados. Em todos eles, um princípio fundamental de nossa identidade como sociedade liberal, democrática e moderna está em questão. Trata-se do princípio da liberdade de expressão, garantido formalmente pelo Bill of Rights inglês de 1689, parteiro e companheiro da jovem república americana de 1776 e tema de controvérsias várias em todas as partes do mundo. Tanto é assim que o assunto mobilizou o professor de Oxford e pesquisador Timothy Garton Ash. 

Desde 2011, Ash está à frente do projeto freespeechdebate.com, com base na universidade inglesa, mas com alcance global. O projeto reúne análises, documentos e relatos sobre a liberdade de expressão em um portal completo e multilíngue (está disponível em 13 idiomas). Após anos de pesquisa, incluindo uma experiência com o orwelliano Estado chinês e seu aparato de censura e repressão, Garton Ash publicou em maio o livro Free Speech: Ten Principles for a Connected World (“Liberdade de Expressão: Dez Princípios para um Mundo Conectado”, Yale University Press, ainda sem tradução brasileira), um alentado volume em que seu autor apresenta uma vigorosa defesa de um liberalismo esclarecido, humanista e cosmopolita para o qual a liberdade de expressão é tão fundamental quanto qualquer outra das garantias individuais mais básicas que as democracias modernas lograram estender a seus cidadãos. 

Uma conquista desde sempre frágil e cuja sobrevivência, em tempos de comunicação instantânea global, é sempre precária. Vejam-se os exemplos acima apresentados. Anjen Choudary, o radical pregador religioso, aliciou jovens ingleses durante décadas para as fileiras do extremismo muçulmano, culminando em apoio ao terrorismo do Estado Islâmico. Seu direito à liberdade de expressão foi violado ao ser sentenciado essa semana a mais de cinco anos de prisão, seguido de vigilância estrita? Ou terá Choudary apenas abusado dos valores democráticos da sociedade britânica para pregar o ódio armado com efetivas consequências inaceitáveis para uma sociedade civilizada? Os princípios seculares franceses devem ser impostos sobre a parcela da população muçulmana, regulando até mesmo como as pessoas se vestem na praia, ou será isso flagrante abuso de autoridade – ainda que em nome de princípios ditos progressistas? A alegação policial de que um grupo de jovens, dirigindo-se a uma manifestação contra o governo brasileiro recém-empossado, confessou que iria depredar a cidade é razão para a detenção prévia dessas pessoas? Ou será esse um caso de violação da liberdade de expressão política dos indivíduos?
Foto: PAULO ERMANTINO | PAGOS

Ash discute em detalhe e com farta documentação casos limites, semelhantes a esses. Não são radicalmente diferentes de outros tantos episódios que têm chegado a nós com preocupante frequência: cartunistas dinamarqueses publicam um desenho do profeta Maomé, ao que se segue uma radical onda de violência muçulmana em protesto a tal “agressão” – eis uma versão simplificada dos sensíveis conflitos do Ocidente laico com o mundo islâmico há anos; regimes autoritários bloqueiam o acesso à internet, impedem a reunião de pessoas em torno de causas comuns e sua livre manifestação, seja nas ruas, seja por escrito – eis a realidade chinesa; indivíduos decidem exercer seu poder de veto à palavra alheia: “você não tem o direito de expressar essas ideias, pois elas nos ofendem” – eis a realidade de muitas universidades americanas e inglesas de ponta. 

Como é possível, no entanto, que justamente em um momento em que a humanidade vive a expansão da ferramenta mais propícia à livre difusão do conhecimento e das convicções individuais, a internet, problemas como a censura explícita de ideias ou a violência contra os que exercem seu direito de expressão sejam tão evidentes? 

Precisamente porque agora vivemos mais conectados do que nunca, velhas formas de preconceito que poderiam ficar restritas a práticas regionais ingressam na corrente do debate público internacional. Da mesma forma, conflitos que jamais teriam emergido em um mundo de “cortinas de ferro” fazem parte da dieta diária de informação que consumimos em nossos computadores, tablets e celulares. Em 1989, quando o Aiatolá Khomeini decretou uma fatwa contra o escritor Salman Rushdie por causa da publicação de seu livro Versos Satânicos, o editor americano de Rushdie podia perguntar: “o que é uma fatwa?”. Hoje, quando as transmissões das decapitações realizadas pelo Estado Islâmico são transmitidas no YouTube e milhões de pessoas podem vê-las instantaneamente, não há inocência possível quanto ao tema – todas as vozes devem ter esse direito de se fazer ouvir na arena pública? 

Em parte, a elegante e complexa resposta de Garton Ash consiste em reconhecer que nunca conseguiremos dirimir todas as nossas disputas ideológicas, nacionais, partidárias ou religiosas, o que não quer dizer que não devamos buscar um modo de convivência civilizada, “concordando que discordamos”. É a voz iluminista liberal de Garton Ash, herdeiro de grandes pensadores como Erasmo de Roterdã e Isaiah Berlin. É por isso que o autor deste formidável livro não tem dúvidas: nosso compromisso com as liberdades individuais – e a liberdade de expressão merece todo esse destaque entre elas – deve estar acima de qualquer ameaça, por mais perigosa que possa parecer, especialmente nesses tempos de conexão total e instantânea dos indivíduos e das sociedades. Governos ou corporações, militantes acadêmicos ou fanáticos religiosos – ninguém deve se arrogar o direito de nos calar. Mas falemos com civilidade, é claro.
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Fonte:http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,liberdade-conectada-quais-os-limites-do-direito-de-livre-expressao,10000075159  - 10/09/2016

A santa e a bruxa: Madre Teresa e a 'primeira-dama do reacionarismo americano'

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No dia seguinte à canonização de Madre Teresa de Calcutá, morreu Phyllis Schlafly, expoente do conservadorismo americano; apesar de católica e carola, não 
leva chance de ser beatificada

Em menos de 24 horas, o mundo ganhou uma santa e perdeu uma bruxa. A santa, como sói acontecer com os santos, já havia morrido quando o Vaticano a canonizou, no domingo passado. Nasceu Anjeze Gouxhi Bojaxhiu, viveu e ganhou fama como Madre Teresa de Calcutá, e tornou-se, como esperado, a primeira Santa Teresa do milênio. Phyllis Schlafly, a bruxa, morreu no dia seguinte, aos 92 anos, cinco anos mais idosa que a madre ao deixar esta vida, em 1997. Apesar de católica e beata, Schlafy não leva a menor chance de ser canonizada. 

Pouco conhecida no Brasil, a “primeira-dama do movimento conservador americano”, penhor e flecha do retorno dos republicanos à Casa Branca com Ronald Reagan, na década de 1980, foi uma figura fascinante. O populismo de direita nunca teve missionária com tamanha estâmina e comparável presença em todos os meios de difusão. Os liberais, os progressistas, os democratas e, especialmente, as feministas, a execravam. Rica, alinhada, sempre adornada por um colar de pérolas, era a própria imagem da americana quatrocentona, aristocrática, demasiado fidalga para voar numa vassoura. Se necessitasse de um caldeirão para fazer mandingas, provavelmente encomendaria o seu à fábrica de panelas Le Creuset. 

Seus admiradores repudiavam tais maledicências. Donald Trump, cuja candidatura ela endossou seis meses atrás com o mesmo entusiasmo dedicado à fracassada campanha do reaça Barry Goldwater em 1964, chamou-a de “paladina das mulheres”, o que na certa horrorizou Hillary Clinton e milhões de americanas, vítimas diretas e indiretas das pias e misóginas diatribes da elegante senhora. Schlafly liderou ferozes cruzadas contra o aborto, a igualdade de direitos entre homens e mulheres, a homossexualidade (apesar de um de seus filho ser gay), o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a entrega da presidência do país a uma mulher. 

Outros, uma vez mais contrariando o milenar aforismo de que dos mortos só dizemos coisas boas (Shakespeare discordava: “Aos homens sobrevive o mal que fizeram”), malharam madame sem dó nem piedade nas redes sociais. A rainha da Branca de Neve teria levado menos bordoadas no Twitter e no Facebook. “Ela deve estar feliz porque foi enfim reunir-se a Satã”, tripudiou um internauta. 

A mais dinâmica e influente ativista de direita da América desde que as “Filhas da América” aposentaram os machados com os quais arrebentavam barris durante a Lei Seca, Schlafly foi uma William F. Buckley Jr. de tailleur. Montou do nada uma coalizão nacional que, antes mesmo de ganhar nome (“Eagle Forum”) e alvará, já convertera uma massa considerável de “velhinhas de tênis”, sua mais fiel base de apoio. 

Com frases do tipo “assédio sexual não é problema para moças virtuosas”, “aula de educação sexual equivale a um bazar para coletar doações para abortos”, “a bomba atômica foi um presente de Deus à América”, deixou no chinelo suas contemporâneas e, de certo modo, herdeiras Anita Bryant, Suzanne Venker, Ann Coulter e Michele Bachmann. 

Nas pegadas de Ayn Rand, o ogro mais graduado do conservadorismo americano, e Midge Decter, decana da intelectualidade republicana (ainda viva, rondando os 90), Schlafly adestrou sua belicosidade na trincheira anticomunista, nos anos 1950. Fez o jogo do senador Joe McCarthy, mas jamais lhe deu apoio em público, concentrando sua energia no combate ao feminismo e suas conquistas. Até com tortas de maçã tentou seduzir congressistas a votarem contra a emenda pela igualdade de direitos. Ao final de um debate, em Nova York, levou uma (não cozida por ela, claro) na cara.
Foto: REPRODUCAO
 

Embora fosse tão ou mais conservadora do que Schlafly, uma humilde mas inflexível pregadora contra o divórcio, o controle de natalidade e o aborto (a seu ver, a maior ameaça à paz mundial), Madre Teresa enfrentou menos reparos à imaculabilidade do seu trabalho do que talvez merecesse. Sua imagem de missionária caridosa e humanitária ficou um bocado arranhada depois que o escritor e jornalista britânico Christopher Hitchens (1949-2011) a denunciou como mentirosa, amiga de ditadores, hipócrita (combatia o divórcio, mas defendeu publicamente o de sua amiga Lady Di), e por lavagem de dinheiro. 

O cientista político nova-iorquino Michael Parenti, o antropólogo inglês Robin Fox, o médico indiano Aroup Chatterjee e o Conselho Mundial Hindu também questionaram a hagiolatria que em torno dela a mídia internacional – e até Woody Allen, através da personagem de Mia Farrow em Simplesmente Alice – ajudaram a consolidar. Criticaram a baixa qualidade dos serviços assistenciais e hospitalares patrocinados por ela, acusaram-na de empregar sua organização religiosa (Missionárias da Caridade) para, prioritariamente, converter pobres à beira da morte ao catolicismo. 

Nem a jornalista inglesa Anne Sebba, autora do respeitoso relato biográfico Madre Teresa: A Imagem e os Fatos (traduzido em 1998 pela Vozes, esgotado), a poupou de algumas estocadas. Revelou, por exemplo, que a madre não usava analgésicos eficazes e, ao utilizar remédios contra tuberculose sem monitoramento dos pacientes, muito contribuiu para agravar a doença e torná-la epidêmica. 

Hitchens foi o primeiro a jogar lama no burel da madre. Num artigo para o semanário The Nation, publicado em 1994, chamou-a de “demônio de Calcutá”, praticante de “um culto baseado na morte, no sofrimento e na submissão”, na “indulgência para os ricos e sacrifício e resignação para os pobres”. Dessa embaraçosa invectiva sairia, três anos depois, o livro maldosamente intitulado The Missionary Position (“A posição de missionário”), cuja conotação sexual não impediu que o autor fosse convidado pelo Vaticano para apresentar provas contra a beatificação de Madre Teresa. 

O que mais incomodava Hitchens era o desembaraço com que ela se relacionava com déspotas e bilionários da pior espécie. Condecorada no Haiti pelo sanguinário Duvalier, dele tornou-se amiga e propagandista. Depois de lavar US$1,25 milhão que o banqueiro Charles Keating roubara a milhares de modestos poupadores, tentou abrandar sua pena, alegando ser ele “amigo dos pobres”. Quando o promotor sugeriu que a madre primeiro devolvesse a grana doada por Keating, ela se fechou em copas. 

Se Hitchens atendeu ao convite do Vaticano, suas críticas não foram suficientes para sustar a beatificação de Madre Teresa e sua posterior canonização. Desde o último dia 4, ela é santa. Já Phyllis Schlafly não precisou morrer para virar bruxa.
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Texto de Sérgio Augusto,
O Estado de S.Paulo
10 Setembro 2016 
Fonte: http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,a-santa-e-a-bruxa-madre-teresa-e-a-primeira-dama-do-reacionarismo-americano,10000075157
Imagem da Sta. Teresa de Calcutá da internet

GILLES-GASTON GRANGER: mestre da razão: uma homenagem ao filósofo.

José Arthur Giannotti*

 
Um dos principais nomes da epistemologia 
do século 20, o professor francês ajudou 
a criar a faculdade de filosofia da USP


No início de 1950, fui assistir à minha primeira aula lá na Rua Maria Antônia. Entra na sala um professor de altura mediana, rosto redondo e sorridente e logo começa falando francês. Fazia parte daquela missão estrangeira de várias nacionalidades, que viera ao Brasil para fazer funcionar a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, espécie de espelho de todo o saber, que haveria de ajudar velhos e novos institutos paulistas a se integrar numa verdadeira Universidade. 

Éramos 10 alunos no primeiro ano, e quatro se entusiasmaram de tal forma com as aulas do professor Gilles-Gaston Granger que terminaram lhe pedindo que continuasse suas lições por mais dois anos. Mais tarde ele me disse que foram as aulas mais prazerosas desta sua primeira estadia no Brasil – depois disso houve muitas outras. 

Foi assim que mergulhamos na epistemologia francesa, marcada por George Ganguilhem, Gaston Bachelard e Jéan Cavaillès, mas enriquecida com excursões na lógica matemática. Esta, naquela época, ainda estava encruada na França, depois da perda de seus maiores lógicos, Cavaillès e Lautman, fuzilados pelos alemães. 

Granger trabalhava na sua tese de doutoramento, “Pensée Formelle et Sciences de L’homme”, demarcando aquele terreno que haveria de cultivar toda a vida. Por certo, com grandes transformações. No entanto, como bom discípulo de Aristóteles e de Kant, se perguntava como as estruturas formais do pensamento haveriam de se mobilizar e se ampliar e se modificar até capturar finuras dos comportamentos humanos. Um de seus melhores livros é “Essai d’une Philosophie du Style”, de 1968. Entendia por estilo a maneira peculiar pela qual um conteúdo é pensado e informado, mas seguindo formas que sempre haveriam de ter como paradigma estruturas matemáticas. 

Para Granger, a razão é um processo humano objetivado, que só pode ser apreendido pela inspeção cuidadosa de seus produtos. Não é à toa que às vezes se dizia funcionário dela. Obviamente isso o leva ao Tractatus de Wittgenstein, que traduz em 1993. Particularmente interessava-lhe as relações entre este filósofo e as ciências, estando mais próximo do positivismo lógico do que dos wittgensteinianos de Oxford, que lhe pareciam ter sucumbido aos encantos do psicologismo. 

É nessa fissura que eu mesmo me encontrei. Voltando para a Europa, Granger foi substituído por Claude Lefort, cujo primeiro curso foi sobre História e Existência, lidando sobretudo com Weber, Marx e Merleau-Ponty. Até então, para mim, Marx era apenas uma referência política; tomá-lo como um filósofo desarrumava o espaço onde ainda pensava. E com Marx veio o interesse pela fenomenologia husserliana, que trazia as estruturas lógicas para o campo da consciência transcendental e para o mundo da vida. 

Em 1956, uma bolsa da Capes e do governo francês me permitiu estudar em Rennes, na Bretanha, onde Granger estava lecionando. Lá conheci Victor Goldschmidt que logo foi me dizendo, mas com a maior delicadeza possível, que meu tema de doutoramento, a definição, era demais abrangente, pois perpassava toda a história da filosofia. Afundei-me na lógica de Husserl e o próprio Granger me apresentou Jules Vuillemin, seu amigo íntimo, que, na Escola Normal, ministrava um curso sobre as Investigações Lógicas. E foi assim que fui para Paris, e foi assim que me tornei amigo daqueles filósofos franceses que fizeram minha cabeça. 

Granger era ciumento, não via com bons olhos minhas viagens pela fenomenologia e pelo marxismo. Uma vez, já em Aix-en-Provence, apresentou-me como um discípulo que o traíra. Traição que reforçou nossa amizade, que solidificou a necessidade de estarmos juntos trocando experiências diversificadas, que aumentou o cuidado de um com o outro para evitar que um arranhão criasse uma distância entre nós. 

A sólida formação que todos eles me deram me preveniu contra os deslumbres do pós-estruturalismo francês, que tentou, a meu ver, uma combinação impossível entre a “fenomenologia” heideggeriana e o estruturalismo de Ferdinand Saussure. Para Heidegger, o sentido se forma antes de linguagem, enquanto para Saussure unicamente pelas diferenças distintivas dos sinais constituindo-se em símbolos. Sem a garantia da diferença-identidade do ser e do ente, a formação da linguagem se dá sob a égide de um sistema de regras “previamente” dado. Granger pressentiu essa dificuldade e se agarrou à lógica formal, posicionando-se, assim, contra o novo estruturalismo. Visto que essa onda ainda está na moda, ele ficou fora dela – na França e no Brasil. Por ironia, ele sucedeu a Michel Foucault no Colégio de França. Não percebendo que Foucault foi maior que o pós-estruturalismo, pois, como afirmou o grande historiador Paul Veyne, ele revolucionou a própria história, Granger teve muita dificuldade em fazer, como é de praxe, o elogio de Foucault em sua aula inaugural no Colégio. 

Gilles-Gaston Granger morreu em 24 de agosto deste ano de 2016, aos 96 anos. Deixa marca profunda, embora hoje pouco visível nos estudos filosóficos brasileiros. Este artigo tenta atiçar a lembrança do que ele significou para todos nós. Já no meu caso, sua importância é ainda maior, pois também me legou sua família, da qual aprendi a participar.
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* Filósofo. Escritor.
Fonte: http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,um-mestre-da-razao,10000075162 -11/09/2016
Foto: Louis MONIER | PAGOS

Algodão entre cristais

 CÁRMEN LÚCIA ANTUNES ROCHA
Assume nesta segunda-feira, 12 de setembro de 2016, a Presidência do STF

Dora Kramer

Cármen Lúcia assume o Supremo Tribunal Federal
com apelo à “pacificação”, sem prejuízo do bom combate

A crise persiste, a turbulência resiste e os conflitos de natureza política ainda insistem em marcar presença no ambiente de maneira contundente. Ciente do cenário nacional ainda conturbado em que assumirá amanhã [12 de setembro] a presidência do Supremo Tribunal Federal, a ministra Cármen Lúcia Antunes Rocha – mineira de Montes Claros, onde nasceu há 62 anos sob o signo de Áries – fará um discurso de panos quentes, no sentido da união do País, do fim da ideia da divisão entre “nós” e “eles”.

Ela acredita que a fala estará em sintonia com o anseio da maioria da população e irá ao encontro da necessidade mais urgente do Brasil: a pacificação entre as forças políticas (sem prejuízo do exercício da oposição e da liberdade de expressão) e a harmonia entre os Poderes. Notadamente no âmbito do Judiciário – aqui entendido o destaque ao tribunal que presidirá pelos próximos dois anos.

A despeito das posições firmes e declarações de clareza indubitável – é da autoria dela o conceito expresso durante o julgamento do mensalão sobre o caráter criminoso do uso de caixa 2 nas campanhas eleitorais – a ministra no primeiro momento evitará alimentar polêmicas. O que não significa que não as “comprará” adiante, ao longo do mandato.

Quando chamada a se manifestar, em duas delas certamente enfrentará resistências entre magistrados:
1ª)aumento do teto salarial do Poder Judiciário (em tramitação no Congresso). Cármen Lúcia é contra o reajuste, pelo mesma razão que decidiu deixar de lado a tradicional festa de comemoração da posse de presidentes do Supremo. Não é hora de gastar, de reivindicar vantagens nem de simular prosperidade em momento de privação geral na economia.

2ª)A nova presidente do Supremo Tribunal Federal também contraria boa parte de seus pares ao se opor à concessão de auxílio-moradia, ao menos para a magistratura de instância superior. Para dar o exemplo, deixou o apartamento funcional e comprou uma casa em Brasília. Financiada. Tais características não fazem de Cármen Lúcia uma heroína: são convicções de uma mulher culta, mas comum, em universo de gente que se considera incomum. De onde, provocará estranheza. 
 

Desculpa esfarrapada

Para Eduardo Cunha melhor seria que o menor número de deputados comparecesse à sessão marcada amanhã, cuja pauta é a cassação de seu mandato. Ausências o favorecem.

Os aliados dele simplesmente não irão. Os adversários fazem campanha para assegurar presenças. No meio disso há os mais interessados nas eleições municipais. São instados a comparecer sob o argumento de que o eleitorado não lhes perdoará a ausência.
A isso respondem: em 2018, ninguém vai se lembrar de quem votou ou deixou de votar na cassação de Eduardo Cunha, mas em 2016 o prefeito, de quem depende a eleição futura do deputado, lhes cobrará presença imediata.

Com essa justificativa, muitos irão se ausentar dizendo que o motivo foi o atendimento às bases.


Terrenos na lua

Os primeiros movimentos pós-impeachment do PT indicam que o partido continua operando no campo da fantasia:

a) Pede que o Supremo anule o julgamento, a despeito das constantes negativas;
b)insiste na “denúncia” internacional do golpe, cuja tendência é cair no vazio diante da crescente recusa dos países de aceitar a tese;
c)propõe campanha por eleições diretas já sabendo da impossibilidade constitucional da empreitada.

Tais propostas animam o auditório, mas não prestam bom serviço à necessidade de o PT recuperar credibilidade junto à sociedade.

Fonte: O Estado de S. Paulo – Política / Colunistas – Domingo, 11 de setembro de 2016 – Pág. A6 – Internet: clique aqui.

domingo, 11 de setembro de 2016

A nova forma de revolução da Geração Y

A nova forma de revolução da Geração Y
Movimentos online podem ter um poder de alcance e eficiência 
maior do que os protestos tradicionais (Foto: Jisc)

O que antes era criticado e descrito como comportamento apático, hoje faz parte de uma poderosa arma para levantar questionamentos e mobilizar mudanças

O termo “slacktivism” – uma junção das palavras “slack” (lento, preguiçoso), e “activism” (ativismo) era popular há alguns anos, quando a nova geração de adultos era acusada de dividir suas convicções e crenças nas redes sociais, mas nunca fazer nada a respeito.

Isso foi antes de a Geração Y dar início a uma série de movimentos centrados em problemas incluindo raça – #BlackLivesMatter -, orientação sexual – #LoveWins -, gênero – #YesAllWomen – e igualdade salarial – #FightFor15.

Mas esta geração tem um modelo diferente de ativismo do que as gerações anteriores. E, no fim das contas, o método pode ser tão eficiente quanto os mais tradicionais, talvez até mais.

Um exemplo é o “Diversify My Emoji”, um movimento que evoluiu de diálogo online para petição para resultados concretos. Em resposta ao fato de que quase todos os “emojis” (ícones gráficos ilustrativos de mensagens de texto) em um programa popular tinham rostos brancos, a organização ativista DoSomething.org lançou uma campanha criada nas redes sociais que convenceu uma grande empresa da indústria de telefones celulares a adicionar mais diversidade em seu produto.

O movimento “demonstra como uma ação online, com o alvo apropriado, métodos, escala e plataforma conseguem atingir resultados offline, reais”, diz Michaela Bethune, líder de campanhas para o site. Bethune chama a atenção para o fato de que a Geração Y não é limitada às formas tradicionais de compromisso cívico. “As oportunidades de dividir visões políticas e sociais são mais diversas e, por isso, a Geração Y tem amplas formas de dividir suas opiniões, se unir com pessoas de convicções similares, independentemente da geografia e fazer uma diferença em questões que são importantes para eles.”
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Fonte:  http://opiniaoenoticia.com.br/internacional/nova-forma-de-revolucao-da-geracao-y/

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Madre Teresa, a santa que não encontrava Deus

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Aqueles que ainda sonham com os santos como pessoas perfeitas em admirável diálogo com Deus ficarão perplexos. Porque o Papa Francisco, convidando todos os fiéis na Praça de São Pedro a imitarem a Madre Teresa de Calcutá, fazendo "aquela revolução da ternura iniciada por Jesus Cristo com o Seu amor de predileção pelos pequenos", proclamou santa uma mulher albanesa, que, durante 50 anos da sua vida – e não antes da sua "conversão", mas exatamente no último meio século da sua existência – não acreditou em Deus, não O encontrou, deparando-se apenas com uma enorme escuridão. As suas últimas palavras no seu leito de morte não foram uma invocação piedosa qualquer, mas um suspiro muito terrestre: "Não consigo respirar".

A reportagem é de Marco Politi, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 04-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A Madre Teresa de Calcutá, "mão estendida de Cristo", de acordo com a eficaz expressão do Papa Bergoglio, válida para ela e para todos os voluntários que se consomem pelo próximo, é uma personagem muito mais interessante do que o ícone que ela já se tornou, manchada em parte pela opinião pública laica de ter se envolvido, nos anos 1990, na violenta luta ideológica da Igreja Católica contra o direito de escolha das mulheres de abortar.

Karol Wojtyla, durante as inúmeras beatificações e canonizações do seu pontificado, fez uma virada na imagem de "santo" do passado. Não mais apenas padres, bispos e papas e algumas freiras excepcionais, além de mártires individuais. Da fábrica de santos wojtyliana, saíram personagens de extrações mais variadas, de todas as culturas, de todos os países, incluindo leigos e leigas, simples pais e mães de família.

Na visão de Wojtyla, não deviam ser necessariamente figuras extraordinárias, mas testemunhas reais da mensagem cristã na normalidade da vida cotidiana. Santos não mais em uma acepção clerical, mas modelos de comportamento inseridos em uma sociedade de massa, no mundo globalizado. Nesse sentido, João Paulo II foi muito moderno.

A Madre Teresa de Calcutá, venerada por Wojtyla pelo seu estrênuo compromisso em favor dos miseráveis e, não por acaso, escolhida por Francisco para marcar a fase culminante do seu Jubileu da Misericórdia, é um passo ainda mais à frente.

Um salto. Justamente por causa da sua relação problemática com Deus.

Anjezë Gonxhe Bojaxhiu, nascida em Skopje em 1910 e falecida aos 87 anos de idade, atravessou todo o século XX, um século nada curto, e hoje, a 20 anos do seu falecimento – com a justa distância dada pelo tempo –, torna-se um estímulo de reflexão muito bergogliano: uma personagem, pelo calibre da sua existência, de significativa relevância para o mundo contemporâneo e – para aqueles que querem refletir – não só para a área dos crentes, mas também para a dos não crentes pensantes.

O primeiro elemento de absoluta realidade é a sua escolha radical de deixar um trabalho tranquilo como professora em uma escola frequentada por alunos de classe média para se comprometer irrevogavelmente ao lado dos "mais pobres dos pobres". Os condenados da Terra, se diria na linguagem política dos anos 1960-1970. E a essa escolha de campo deve ser adicionada a decisão de se dedicar aos destituídos "morrentes".

Não são mais questões do Terceiro Mundo, não são em nada problemas do século passado. Hoje, a miséria – no próprio coração das sociedades aparentemente opulentes do Primeiro Mundo – e a morte no abandono da solidão se tornaram questões centrais da sociedade contemporânea.

A personagem histórica de Teresa representa, com a sua escolha, um indicador precioso dos dramas que as elites políticas e econômicas contemporâneas preferem remover e diante do qual cada contemporâneo é chamado a tomar posição: comprometer-se para superá-los ou fechar-se na esfera individualista. Tema sobre o qual o Papa Francisco recorda com obstinação os homens e as mulheres do nosso tempo, para além das fronteiras confessionais ou filosóficas.

O segundo aspecto de atualidade na vida de Teresa é, justamente, o fato de não encontrar Deus. Na sua correspondência privada, encontram-se frases chocantes para uma futura santa: "Sinto que Deus não é Deus (…) que Ele realmente não existe (…) Eu chamo, eu me agarro, eu quero, mas há Alguém que responda. Ninguém, ninguém... Eu não tenho fé alguma. Nenhuma fé".

Interrogações radicais mantidas às escondidas durante décadas. Porque aqui não se trata simplesmente, como os apologetas preferem dizer, daquele fenômeno que os teólogos católicos chamam de "noite da fé". Fenômeno que afetou mais de um santo. Não foi uma noite de escurecimento temporário, uma crise passageira.

Ao contrário, foi uma condição que marcou toda a segunda parte da vida de Madre Teresa até a sua morte. O padre Brian Kolodiejchuk, postulador oficial da sua causa de canonização, escreveu: "Ela não sentia a presença de Deus, nem no seu coração, nem na eucaristia".

Se um santo (para a Igreja Católica) é um modelo que tem algo a dizer para a sociedade, Teresa é um aguilhão à reflexão sobre o problema-Deus na era contemporânea. Agora que Deus não é mais pensável como o Onipotente com a barba grande, que decide os destinos da humanidade, que pune com os terremotos, que premia evitando o granizo, agora que Deus – depois de Auschwitz – não é sequer imaginável como portador de uma Providência que tem uma finalidade benéfica própria através dos infortúnios, a escuridão sentida sistematicamente por Teresa toca qualquer um (crente ou não crente) que se faça a pergunta sobre a existência ou não de um princípio, que vá além do transitório.

O silêncio de Deus, a inimaginabilidade de Deus e a pergunta por Deus estão inextrincavelmente imbricados na era contemporânea para qualquer homem ou mulher que se faça filosoficamente perguntas de fundo sobre a existência – até mesmo para rejeitar a ideia de uma divindade.

Assim, Teresa, a mulher que escolheu como hábito o sari indiano com a cor azul dos párias, a casta dos intocáveis desterrados, a cristã que não encontra Deus, mas se entrega pela humanidade abandonada, acaba se tornando um ponto de interrogação para muitos.

Por outro lado, o Papa Wojtyla proclamou "Doutora da Igreja", isto é, grande mestra dos fiéis, Santa Teresa de Lysieux, que morreu não acreditando na vida após a morte.

Os caminhos da história são infinitos.
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Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/559833-madre-teresa-a-santa-que-nao-encontrava-deus
Imagem da Internet