sexta-feira, 18 de agosto de 2017

REVOLUÇÃO SEM AMANHÃ


 Divulgação
 A pesquisadora Zeynep Tufekci com capacete para se proteger de latas de gás lacrimogêneo 
durante protesto em 2013 no parque Taksim Gezi, em Istambul

Conversas sobre como a internet influencia movimentos sociais muitas vezes ocorrem em dois campos opostos. Há o otimismo de quem destaca que as redes sociais permitem a organização e o surgimento de protestos mais rapidamente. Do outro lado, o pessimismo de que os movimentos que começam on-line não passam de "ativismo de sofá" sem efeito além da rede.

Com trajetórias e impactos variados, movimentos como as jornadas de junho de 2013 no Brasil, a Primavera Árabe no Oriente Médio e o Black Lives Matter nos EUA mostram que a resposta é mais complexa. Embora hoje não faltem protestos que rapidamente alcançam enorme influência e resultados diretos, muitos movimentos também sofrem para dar os próximos passos na direção de mudanças mais duradouras.

Os desafios que separam esses dois pontos é o tema de estudo da pesquisadora Zeynep Tufekci, professora da Universidade da Carolina do Norte e do Centro para Internet e Sociedade Berkman Klein, de Harvard. Zeynep, que não diz sua idade por questões de segurança, nasceu na Turquia, onde teve seu primeiro contato com a internet quando era programadora na IBM na década de 90, período em que o país passou por uma ditadura militar. Recentemente, lançou o livro "Twitter and Tear Gas: The Power and Fragility of Networked Protests" (Twitter e Gás Lacrimogêneo: O Poder e a Fragilidade dos Protestos em Rede), pela Yale University Press, que reúne pesquisas com ativistas de países como Egito, Turquia e EUA, além da sua própria experiência em protestos.

Na sua visão, a mesma conectividade que dá poder a grupos se torna um obstáculo quando o assunto é evoluir para um próximo estágio. Se no passado os movimentos investiam meses de organização para espalhar a mensagem e reunir milhares de pessoas - como ocorreu com a marcha em que Martin Luther King (1929-1968) proferiu seu mais famoso discurso, em 1963 –, hoje atingir milhões é facilmente conseguido com as redes.

O tempo gasto com a organização, no entanto, era essencial para fortalecer os "músculos" do movimento e gerar uma estrutura coletiva capaz de tomar decisões. A fragilidade é exemplificada com uma analogia: assim como com alpinistas que só conseguem escalar o Everest por causa dos ajudantes chamados "sherpas", essa falta de preparo eventualmente pode ser fatal. "Muitos movimentos se reúnem para dizer 'não' a algo - não a Mubarak, não a Trump, não ao presidente -, mas têm muita dificuldade de dar um próximo passo construtivo e criar consenso que também seja participativo", diz a socióloga, que escreve regularmente para o "The New York Times".

Enquanto movimentos lidam com tensões internas no ambiente altamente visível das redes sociais, governos autoritários também entraram no jogo e usam as mesmas ferramentas. É um novo tipo de censura, que deixou de tentar impedir o fluxo de informações, como Hosni Mubarak fez ao cortar a internet do Egito em 2011 - algo facilmente contornado por ativistas. O objetivo agora é enfraquecer a autonomia que o acesso a informações gera, e a estratégia é o excesso. Com campanhas para bombardear cidadãos com informações falsas, a intenção é criar um sentimento de dúvida que resulta na perda de credibilidade de movimentos sociais e na inação.

Valor: Os movimentos ainda precisam da mídia de massa para legitimar sua voz? 
Zeynep Tufekci: Ela não tem mais esse poder definitivo, mas ela ainda tem muito poder porque é importante para espalhar a mensagem. O que há, hoje, é uma ecologia em que pessoas normais têm muito poder, mas não só elas, como mostram as recentes tentativas de desinformação [por governos]. A atenção é uma mercadoria muito valiosa. Antes, a mídia de massa era o "gatekeeper" [guardião] da atenção. Agora, receber atenção é o resultado de uma interação complexa entre as ações das pessoas, os algoritmos das redes sociais, a reação da mídia e o governo. É um espaço muito mais caótico.

Valor: É possível ter um movimento verdadeiramente sem líder, como muitos desejam? 
Zeynep: Isso acaba fazendo com que o movimento se desintegre porque se torna muito difícil dar os próximos passos. Mesmo se não há um líder no papel, com muita frequência algumas pessoas acabam agindo como lideranças, mas sem ter que prestar contas. Isso gera mais tensão, porque o resultado é um movimento que não é verdadeiramente sem líder, mas um com líderes que não legítimos e responsabilizáveis.

Valor: A senhora escreve que uma das razões das pessoas protestarem é a vontade de fazer parte de uma comunidade. Você acha que a esquerda tem tido mais dificuldade de produzir esse tipo de comunidade em seus movimentos?
Zeynep: Não, mas a questão é como se tornar uma comunidade mais inclusiva. Comunidades costumam excluir pessoas, e você vê isso na esquerda e na direita. Há uma tendência de querer se manter pequeno e puro, para se manter coeso. Mas se você realmente quiser crescer, precisa ser flexível. Para essa atração inicial, as redes sociais são muito poderosas, pois há uma "participatividade" que torna mais fácil para elas se acharem. Mas isso também impede essa comunidade de crescer de forma construtiva. Um milhão de pessoas não vão sempre querer as mesmas coisas - mas se você quer mudança política, você precisa de milhões. Se você diz "tire esse presidente", você não precisa concordar com dez coisas diferentes. Mas depois que isso acontece, você precisa chegar a um consenso com 10 milhões de pessoas, quando todas elas têm uma conta no Twitter e uma voz.

Valor: A principal contribuição da internet para movimentos é essa capacidade de reunir pessoas que já têm visões parecidas em determinado assunto? E quanto a mudar opiniões?
Zeynep: Lógico que é mais fácil achar pessoas que pensam como você, pois mudar opiniões é um trabalho difícil. Mesmo se você não mudar opiniões, no entanto, você pode trabalhar junto. Mas as redes sociais não são muito boas para isso. O modelo de negócios do Facebook é manter você nele o maior tempo possível. Então os algoritmos elevam o que todo mundo gosta e o que todo mundo odeia, o que faz com que a indignação receba muita atenção. Não é uma plataforma adequada para o trabalho persuasivo.

Valor: O Twitter também está se movendo para uma "timeline" definida por algoritmos. Se as principais plataformas tiverem esse modelo, o que isso significa para os movimentos?
Zeynep: Significa que você perde o controle da sua mensagem. E também há o que vimos na última eleição [americana], em que o Facebook foi uma plataforma muito propícia para a desinformação, porque não importa para eles se você está recebendo informação boa ou ruim, contanto que eles faturem com anúncios. Isso permite que haja muitas pessoas ganhando dinheiro com notícias falsas e governos fazendo campanhas de desinformação.

Valor: O Brasil usa muito o WhatsApp para se informar. O que muda quando essas conversas ocorrem em redes fechadas?
Zeynep: Por um lado, permite mais controle, porque as informações não são ordenadas por algoritmo. Há uma combinação de ser um meio privado e criptografado, ter um alcance grande e uma microvisibilidade. Em Mianmar, o discurso de ódio contra uma minoria que está gerando casos de limpeza étnica estava sendo espalhado no Facebook, e agora migrou para para o WhatsApp, onde não se consegue vê-lo. Não há consequências fáceis. Normalmente essas tecnologias trazem efeitos positivos e perigosos, todos ao mesmo tempo.
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Reportagem por Leticia Arcoverde/ De São Paulo 18/08/2017
Fonte: http://www.valor.com.br/cultura/5084560/revolucao-sem-amanha

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

VOTE BRASIL 2018

 Frei Betto*
 Resultado de imagem para votar 2018
Já que tudo indica que Temer permanece à frente do governo até dezembro de 2018, dado que a sua base aliada no Congresso decidiu obstruir a Justiça, fica a pergunta: 
a quem eleger para sucedê-lo?

       Pesquisas eleitorais que já tiveram início destacam uma dúzia de prováveis candidatos. E os eleitores reagem de diferentes formas. Há os que já decidiram não votar. É a turma do Partido Ninguém Presta. Atitude meramente emocional. Quem tem nojo de política é governado por quem não tem. E tudo que os maus políticos querem é que viremos as costas à política para dar a eles carta branca.

       Há os que votarão no próprio umbigo em defesa de seus interesses corporativos, como os eleitores da bancada do B: boi, bala, bola, bancos e Bíblia. Esses escolherão candidatos afinados com o latifúndio, o desmatamento da Amazônia, o extermínio dos indígenas, o mercado financeiro, a homofobia, a privatização do patrimônio público e o Estado mínimo.

       Um contingente de eleitores votará em quem seu mestre mandar. É o rebanho eleitoral, versão pós-moderna do coronelismo, agora substituído por padres e pastores, figuras midiáticas e chefes de organizações criminosas.

       Há ainda o eleitor que se deixará levar pela propaganda eleitoral. Votará em quem lhe parecer mais simpático, sem sequer conhecer os projetos políticos do candidato.

       E há os que votarão em candidatos progressistas, ou naqueles que assim se apresentarão nos palanques, na esperança de resgatar os direitos cassados pela atual reforma trabalhista e corrigir os desmandos do governo Temer, para que o país volte a crescer e ampliar seus programas sociais.

       Ora, devemos votar no Brasil que sonhamos para as futuras gerações. Isso significa priorizar programas e projetos, e não candidatos. Um país no qual coincidam democracia política e democracia econômica. De que vale o sufrágio universal se não repartimos o pão?

       Votar no Brasil que requer profundas reformas estruturais, como a tributária, com impostos progressivos; a agrária, com o fim do latifúndio e do trabalho escravo; a política e a judiciária. Brasil que promova os direitos das populações indígenas, quilombolas e ribeirinhas. Brasil de democracia participativa e no qual o Estado seja o principal indutor do desenvolvimento, com distribuição de riqueza e preservação ambiental. 

       Votar é importante, mas não suficiente. Porque no Brasil tradicionalmente nós votamos e o poder econômico elege. Em 2018, porém, será a primeira eleição para o Congresso e a presidência da República na qual as empresas não poderão financiar campanhas políticas, como faziam as que estão denunciadas pela Lava Jato. Isso não significa que o caixa dois será extinto.

       Por isso, é um erro jogar nas eleições todas as fichas da nossa esperança em um Brasil melhor. O mais importante é investir no empoderamento popular. Reforçar os movimentos sociais e sindicais, intensificar o trabalho de formação política e consciência crítica, dilatar os espaços de pressão, reivindicação e mobilização. Só conseguiremos mudanças significativas se vierem de baixo para cima.
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* Religioso dominicano.  Autor de 58 livros,no Brasil e exterior,estudou jornalismo, antropologia, filosofia e teologia.
Fonte:  http://hojeemdia.com.br/opini%C3%A3o/colunas/frei-betto-1.334186/vote-brasil-2018-1.550977
Imagem da Internet

O problema da revolução na Venezuela é que ela não foi longe o suficiente

 Slavoj  Žižek*


No início da década de 1970, em uma nota à CIA que os informava sobre como prejudicar o governo chileno democraticamente eleito de Salvador Allende, Henry Kissinger escreveu de maneira sucinta: “Faça a economia gritar”.

Os altos representantes dos EUA admitem abertamente que hoje a mesma estratégia é aplicada na Venezuela: o ex-secretário de Estado dos EUA, Lawrence Eagleburger, disse na Fox News que o apelo de Chávez ao povo venezuelano “só funciona enquanto a população da Venezuela ver alguma capacidade de um melhor padrão de vida. Se, em algum momento, a economia realmente ficar ruim, a popularidade de Chávez dentro do país certamente diminuirá e essa é a única arma que temos contra ele para começo de conversa e a que devemos usar, ou seja, as ferramentas econômicas para tentar piorar a economia para que o seu apelo no país e na região diminua… Tudo o que podemos fazer para tornar a economia deles mais difícil para eles, é no momento uma coisa boa, mas faremos de formas que não nos levem a um conflito direto com a Venezuela, caso possamos fugir disto”.

O menor que se pode dizer é que tais afirmações dão credibilidade à ideia de que as dificuldades econômicas enfrentadas pelo governo de Chávez (a enorme escassez de produtos e eletricidade em todo o país, por exemplo) não são apenas o resultado da inaptidão de suas próprias políticas econômicas. Aqui chegamos ao ponto político chave, difícil de engolir para alguns liberais: claramente não estamos lidando aqui com processos e reações cegas do mercado (por exemplo, donos de lojas tentando obter um lucro maior mantendo alguns produtos fora das prateleiras), mas com um estratégia completamente planejada.

No entanto, mesmo que seja verdade que a catástrofe econômica na Venezuela é, em grande medida, o resultado da ação conjunta do grande capital venezuelano e das intervenções dos EUA, e que o núcleo da oposição ao regime de Maduro vem das corporações de extrema direita e não das forças democráticas populares, este insight levanta mais questões. Em vista dessas censuras, por que não havia uma esquerda venezuelana para fornecer uma autêntica alternativa radical a Chavez e Maduro? Por que a iniciativa da oposição a Chavez deixou a extrema direita triunfantemente hegemonizada na luta de oposição, impondo-se como a voz das pessoas comuns que sofrem as conseqüências da má gestão da economia chavista?

Chavez não era apenas um populista desperdiçando o dinheiro do petróleo; o que é amplamente ignorado na mídia internacional são os esforços complexos e muitas vezes inconsistentes para superar a economia capitalista através da experimentação de novas formas de organização de produção, formas que se esforçaram para se mover para além da alternativa de propriedade privada e estatal: cooperativas de agricultores e trabalhadores, participação dos trabalhadores, controle e organização da produção, diferentes formas híbridas entre propriedade privada e controle social e organizacional, e etc… (digamos, as fábricas que não são usadas pelos proprietários são dadas aos trabalhadores para que seja utilizada).

Existem muitos “bater e correr” [1] nesse percurso – por exemplo, depois de algumas tentativas, dar origem a fábricas nacionalizadas para os trabalhadores possuí-las, distribuindo estoques entre eles, foram abandonadas. Embora estejamos lidando aqui com tentativas genuínas em que as iniciativas de base interagem com as propostas estatais, é preciso também notar muitas falhas econômicas, ineficiências, corrupção generalizada e etc…. A história habitual é a de que, após (metade) de um ano de trabalho entusiasmado, as coisas vão desfiladeiro abaixo.

Nos primeiros anos do Chavismo, assistimos claramente a uma ampla mobilização popular. No entanto, a grande questão permanece: como essa dependência da auto-organização popular pode ou poderia afetar um governo em andamento? Poderíamos imaginar hoje um autêntico poder comunista? O que temos é desastre (Venezuela), capitulação (Grécia), ou um retorno completo ao capitalismo (China, Vietnã). Como afirmou Julia Buxton, a Revolução Bolivariana “transformou as relações sociais na Venezuela e teve um impacto enorme no continente como um todo. Mas a tragédia é que nunca foi devidamente institucionalizada e, portanto, provou-se insustentável”. É muito fácil dizer que as políticas emancipadoras autênticas devem permanecer à distância do estado: o grande problema que perdura por trás é o que fazer com o estado. Podemos imaginar uma sociedade fora do estado? Devemos lidar com esses problemas no aqui e agora.

Para realmente mudar as coisas, é preciso aceitar que nada pode realmente ser alterado (dentro do sistema existente). JeanLuc Godard propôs o lema: “Ne change rien pour que tout soit différent” (não mude nada para que tudo seja diferente), uma inversão de “algumas coisas devem mudar para que tudo permaneça o mesmo”. Em nossa dinâmica consumista capitalista tardia, estamos sempre bombardeados por novos produtos, mas essa mesma mudança constante é cada vez mais monótona. Quando somente a auto-revolução constante pode manter o sistema, aqueles que se recusam a mudar qualquer coisa são efetivamente os agentes da verdadeira mudança.

Ou, para colocar de forma diferente, a verdadeira mudança não é apenas a superação da ordem antiga, mas, acima de tudo, o estabelecimento de uma nova ordem. Louis Althusser improvisou uma tipologia de líderes revolucionários dignos da classificação de Kierkegaard de humanos em oficiais, empregadas domésticas e varredores de chaminé: aqueles que citam provérbios, aqueles que não citam provérbios e aqueles que inventam (novos) provérbios. Os primeiros são canalhas (Althusser pensou em Stalin), o segundo são grandes revolucionários condenados a falhar (Robespierre) e apenas a terceira, compreende a verdadeira natureza de uma revolução e sucedem (Lenin e Mao).

Esta tríade registra três formas diferentes de se relacionar com o grande Outro (a substância simbólica, o domínio dos costumes não escritos e da sabedoria melhor expressa pela estupidez dos provérbios). Os canalhas simplesmente reinscrevem a revolução na tradição ideológica de sua nação (para Stalin, a União Soviética foi a última etapa do desenvolvimento progressivo da Rússia). Os revolucionários radicais, como Robespierre, falham porque eles somente causam uma ruptura com o passado sem terem conquistado em seus esforços a imposição de um novo conjunto de costumes (recordamos aqui o grande fracasso da ideia de Robespierre em substituir a religião pelo novo culto de um Ser Supremo). Os líderes como Lenin e Mao conseguiram (por algum tempo, pelo menos) porque inventaram novos provérbios, o que significa que eles impuseram novos costumes que regulavam a vida cotidiana. Um dos melhores Goldwynismos diz como, depois de ter sido informado de que os críticos se queixaram de como existiam muitos clichês antigos em seus filmes, Sam Goldwyn escreveu um memorando para o seu departamento de cenários: “Precisamos de mais clichês novos!” Ele estava certo, e isso é a tarefa mais difícil da revolução – criar “novos clichês” para a vida comum cotidiana.

Deve-se dar um passo a mais diante disto. A tarefa da esquerda não é apenas propor uma nova ordem, mas também mudar o próprio horizonte do que parece ser o possível. O paradoxo do nosso dilema é que, enquanto as resistências contra o capitalismo global parecem fracassar e uma e mais outra vez para minar seus avanços, elas permanecem estranhamente fora de contato com muitas tendências que claramente sinalizam a desintegração progressiva do capitalismo – é como se as duas tendências (resistência e auto-desintegração) se movessem em níveis diferentes e não pudessem se encontrar, e então o que temos são protestos inúteis em paralelo com a decadência imanente e nenhuma maneira de reunir os dois em um ato coordenado da superação emancipatória do capitalismo.

Como chegamos a isso? Enquanto a (maior parte da) esquerda tenta desesperadamente proteger os direitos dos antigos trabalhadores contra o ataque do capitalismo global, são quase exclusivamente os próprios capitalistas “progressistas” (de Elon Musk e Mark Zuckerberg) que falam do pós-capitalismo como se o próprio tema da passagem do capitalismo tal como conhecemos para uma nova ordem pós-capitalista fosse apropriada pelo capitalismo.

Na Ninotchka de Ernst Lubitch, o herói visita uma cafeteria e pede um café sem creme; o garçom responde: “Desculpe, mas estamos sem creme. Posso lhe trazer café sem leite?” Em ambos os casos, o cliente receberá café puro, mas em cada uma das vezes, este café é acompanhado por uma negação diferente, primeiro o café-com-mas-sem-creme, depois o café-com-mas-sem-leite. A diferença entre “café puro” e “café sem leite” é puramente virtual, não há diferença na realidade da xícara de café – a própria falta funciona enquanto uma característica positiva.

Este paradoxo também é muito bem sucedido em uma velha piada Iugoslava sobre os montenegrinos (pessoas do Montenegro eram estigmatizadas como preguiçosas na antiga Iugoslávia): “Por que um rapaz montenegrino, quando vai dormir, coloca dois copos, um cheio e um vazio, ao lado de sua cama? Porque ele é preguiçoso demais para pensar antecipadamente se ele terá sede durante a noite”. O ponto desta piada é que a própria ausência deve ser registrada positivamente: não basta ter um copo cheio de água, já que, se o montenegrino não tiver sede, ele simplesmente irá ignorá-lo – esse fato negativo em si deve ser registrado, a-não-necessidade-de-água deve ser materializada no vazio do copo vazio.

Um equivalente político pode ser encontrado em uma piada bem conhecida da era socialista da Polônia. Um cliente entra em uma loja e pergunta: “Você provavelmente não tem manteiga, ou você tem?” A resposta: “Desculpe, mas somos a loja que não tem papel higiênico; a do outro lado da rua é a que não tem manteiga!”

Ou considere o Brasil atualmente onde, durante o carnaval, pessoas de todas as classes vão dançar juntas na rua, esquecendo momentaneamente suas diferenças de raça e de classe mas que obviamente não é o mesmo caso um trabalhador desempregado juntar-se à dança, esquecendo de suas preocupações sobre como cuidar de sua família, ou se um banqueiro rico se soltar e sentir-se bem em ser um com as pessoas, esquecendo que acabou de recusar um empréstimo ao pobre trabalhador. Ambos são os mesmos na rua, mas o trabalhador dança sem leite, enquanto o banqueiro dança sem creme. De forma semelhante, os europeus do leste em 1990, não queriam apenas a democracia-sem-comunismo, mas também a democracia-sem-capitalismo.

E isso é o que a esquerda deve aprender a fazer: oferecer o mesmo café, com a esperança de que um café sem leite tenha de repente se transformado em um café sem creme. Só então, a luta pelo creme começará.

[1] Da expressão em Inglês “ hit and run ” (Nota do tradutor).
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*Slavoj Žižek é um sociólogo, teórico crítico e cientista social esloveno. É professor da European Graduate School e pesquisador sênior no Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana.
 Por  via Independent, traduzido por Rodrigo Gonsalves.
Fonte:  https://lavrapalavra.com/2017/08/14/o-problema-da-revolucao-na-venezuela-e-que-ela-nao-foi-longe-o-suficiente/#more-8717

Jovens, Deus, a fé e o insano medo do amor


http://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/2017/08/14_08_sol_foto_pixabay.jpg

Estamos contentes com nós mesmos, não acreditamos em nada e adoramos apenas alimentos veganos? Não. Não temos nada contra Deus. Somente o medo do amor.

O comentário é do jornalista alemão Hannes Schrader, em artigo publicado no jornal Die Zeit, 09-08-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Olá, Deus,

Precisamos conversar. Sobre sexo com as cabras. E o que isso tem a ver com o amor por Ti. Na minha geração, ama-se apaixonadamente e também se fala disso: de amor livre, de homens que amam homens, de mulheres que amam mulheres, daqueles que amam a ambos, talvez até mesmo simultaneamente. Amamos passar a noite dançando, amamo-nos de forma espontânea, de forma planejada, por diversão, em relações sem compromisso, amamos o nosso trabalho, a nossa nova casa, os nossos amigos, os nossos colegas de quarto.

E se alguém, à mesa, começasse a contar que, recentemente, fez sexo com as cabras, provavelmente receberia um aceno de apreço e ouviria pelo menos um “interessante” sussurrado.

Só do amor por Ti é que ninguém fala.

É isso que eu gostaria de mudar com este texto. Gostaria de começar com um exemplo e escrever como Tu és importante para mim. E explicar por que eu te amo, publicamente. Gostaria de escrever uma confissão de fé, que fosse um pouco patética, divertida, espirituosa, que desse arrepios e que, no fim, levasse a dizer: que bonito.

Mas não posso.

Porque, nos últimos anos, eu quase nunca pensei em Ti. Tenho 26 anos, sou batizado, crismado, fiz o meu exame de religião na universidade, estava prestes a estudar teologia e creio em Deus. Assim eu pensava. Mas eu nunca falo sobre a minha fé, assim como quatro quintos dos jovens, de acordo com uma pesquisa da Igreja Evangélica. E nem rezo, como quase três quartos dos jovens.

A última vez que eu fui à missa foi na Páscoa. Como a maioria das pessoas da minha idade, eu não tenho nem ideia de como se chama o meu pároco, e eu tive que ir buscar no Google o texto da profissão de fé. Só um quarto da minha geração acredita em Ti. Outro quarto é incerto, como eu. Outro quarto acredita em um poder superior, que, no entanto, não pode ser definido com precisão.

Nas conversas à mesa na Alemanha, Tu apareces somente quando alguém diz orgulhosamente que está cansado de pagar os impostos à Igreja e que, finalmente, a deixou. O que talvez tenha menos a ver contigo do que com a Igreja: 83% dos jovens alemães têm pouca confiança na Igreja ou até mesmo nenhuma confiança. Quase um quinto dos protestantes entre 14 e 29 anos pensam firmemente em abandonar a Igreja. Outro quarto está refletindo sobre isso.

Eu também já estive sentado à mesa enquanto se falava mal da Igreja. Fiquei em silêncio, não disse nada, nada, nem mesmo sobre o meu amor por Ti.

No entanto, uma vez estávamos tão perto, Tu e eu, pouco antes do vestibular, graças ao Sr. S. O Sr. S. era o meu professor de religião, fumava constantemente, tinha longos cabelos grisalhos, não andava de moto, mas tinha o aspecto de alguém que andava. [...] E, quando lhe perguntávamos porque ele acreditava em Ti, ele nos contava uma história, sobre si mesmo, a sua esposa e Tu. Ela queria ir fazer uma caminhada com ele, mas ele odiava a caminhar. Então, ele rezou a Ti: “Senhor, faz com que chova amanhã!”. E depois? “Choveu. E eu louvei a Deus porque não tive que ir caminhar, mas pude ficar com ela no carro.” Esse era o Sr. S., amava a vida e amava a Ti. Essa combinação, então, era nova para mim.

No Ensino Fundamental, eu me lembro de ter pintado a arca de Noé, eu estava em um grupo bíblico para crianças. A lembrança mais viva que eu tenho disso é de como eu atacava a minha mãe, porque eu não tinha nenhuma vontade de ir lá. Para a crisma, eu só fiquei contente porque, finalmente, pude me comprar um iPod, mas, do que significava a fé cristã, eu não entendia nada.

Uma tarde, o Sr. S. chegou para a aula moderadamente de bom humor e gritou para nós: “Levante as mãos quem crê na ressurreição!”. Quando duas ou três mãos se levantaram titubeantes, como acontece entre os estudantes quando eles não têm certeza de qual é a resposta certa, ele disse: “Se vocês não acreditam na ressurreição, podem ir para casa”. Ficamos todos sentados, embora mais por medo do que por convicção. Então, ele jogou a sua pasta sobre a mesa, sentou-se e nos explicou o que significa ressurreição.

“A ressurreição é o que nos faz cristãos!”, gritou. “Com ela, fica evidente que o Deus de quem Jesus falou existe. Jesus, antes da sua morte, tinha falado de um Deus que não pune, mas que, ao contrário, é misericordioso. De um Deus que ama as pessoas e pede-lhes para viver uma vida no amor, para amar ao próximo como a si mesmos, até mesmo para amar os próprios inimigos. De um Deus que sabia, porém, que era difícil, porque as pessoas são falíveis. E que, apesar disso, perdoa.”

“Os homens – continuou – mataram o Filho de Deus, que pregava vida e amor. E o que esse Deus fez? Ressuscitou Jesus, demonstrou o seu poder sobre a vida e sobre a morte, mostrou que existia. Mas não usou o seu poder para se vingar, embora tivesse todos os motivos para isso. Ao contrário, perdoou os homens, nos perdoou.”

Então, eu compreendi pela primeira vez o que tinham a ver comigo a crucificação de um homem há 2.000 anos e a fé na sua ressurreição: compreendi que, na fé, não se trata de seguir os Dez Mandamentos e, nesse caso, não conseguir se sentir culpado. Mas sim que ser cristão significa reconhecer-se fraco, falível. Saber que, mesmo que eu beba demais, fume, diga mentiras, está tudo bem. Que Tu dizes: “Você não deve beber, mentir, fumar, faltar aula. Mas eu entendo por que você faz isso. Porque você é um homem. Mesmo assim, eu estou perto de ti”.

Isso me libertou. Saber que Tu estás, mesmo que eu faça besteira. Tu me dás regras segundo as quais eu deverei viver, mas não devo temer a tua ira se eu as infrinjo. Posso me arrepender e sei que Tu me perdoas.

Quando eu tive que escolher uma faculdade, graças ao Sr. S. eu refleti sobre a possibilidade de escolher teologia. Imaginava tranquilamente que podia comunicar a Tua mensagem precisamente como o Sr. S. tinha me falado de Ti. Mas, depois, tudo se tornou mais mundano.

Depois do vestibular, saí de casa, para longe da minha cidade. A minha fé em Ti também foi embora. Era superficial, leve, talvez um pouco leve demais. Como uma pena. A tal ponto que nem sequer percebi como ela desapareceu. As coisas iam bem. O estudo, o trabalho, os amigos, a namorada, não faltava nada. No verão, o mar não está longe, no inverno posso me aquecer, vou para o trabalho de metrô. Claro, às vezes, ele chega tarde demais. Mas começar a rezar por causa disso? Imagina! Eu te esqueci, assim como se esquecem velhos amigos, não porque não os amamos mais, mas simplesmente porque não pensamos mais neles.

Algumas vezes, Tu foste convidado para uma festa. Foi bom rever-te. Por ocasião de um nascimento, um casamento, uma morte, Tu também estás entre os convidados. Caso contrário, não. Tu estás porque deve ser assim, porque nos acostumamos com isso, porque, senão, talvez, alguém perguntaria: “Onde ele está? Você sabe quem...”.

Tu és como um parente que é convidado porque sempre foi convidado. Mas, se as coisas não ocorrem da forma esperada, dirigimo-nos a uma amiga, não a Ti.

Por isso, há duas histórias que são contadas sobre nós, jovens. Uma é a história da Igreja antiquada, que precisa de missas-rock e de pelo menos uma referência à série de TV House of Cards no sermão, enfim, algo como WhatsApp e WLAN na missa, para nos atrair às igrejas.

A outra é a história da geração contente consigo mesma, que adora comida vegana e que, às 10h do domingo, talvez faça ioga, mas certamente não está na missa.

Eu acho que ambas as histórias não correspondem à verdade. É claro, são muito poucos os jovens que vão à missa. Mas não é porque ela comece cedo ou porque seja chata. A ioga também não é um show de rock, e, na universidade, conseguimos chegar até antes das 10h. Contentes com nós mesmos: alguém acha isso a sério? A geração que está em busca de sentido até mesmo no bebedouro, no escritório open space, que gostaria de comer, viver e até transar (somos aqueles que usam camisinhas veganas e o comércio justo) conscientemente e de forma ecossustentável, embora todos zombem de nós por causa disso? Fala sério!

Não te amamos porque temos um medo insano do amor. Não só do amor por ti, mas em geral. Tu és a primeira vítima. Porque amar-te significa vincular-se, realmente, ao máximo. Não se trata só de clicar em “curtir”, não, é preciso realmente fazer o que se diz. Não se brinca com Deus, Tu és muito grande para isso. E é disso que temos medo.

Porque pensávamos que tínhamos libertado o amor, mas só aqui e agora, para beijos de madrugada banhados em suor e sobre os quais poderíamos rir relaxados, “foi bom”, “sim, muito”. Sobre o amor do Eterno, fazemos silêncio.

Porque o amor por Ti não é precisamente um “vamos ver se funciona”, não é cômodo, não é relaxado, nem mesmo sexy ou lascivo. É íntimo demais para ser assim. Como em um contato, às vezes tudo vibra, e se sente tudo tão profundamente, debaixo da pele... e sabemos que não pode ser a aventura de uma noite. Porque aí há muita coisa em jogo. Porque é preciso se abrir. E ser vulnerável. E esperar. É assim contigo.

E, como isso nos dá medo, preferimos a ioga ou as noites de dança, porque lá não devemos nos culpar de nada; se nos desculpamos por não poder ir, os outros também tinham outra coisa para fazer, não importa, fica para a semana que vem. Somos aqueles do botão “talvez” para a vida depois da morte, porque temos muito medo de nos envolver em algo que poderia ser para sempre.

Acho errado que se repreendam as gerações atuais por algo com aquele “ah, os jovens de hoje...”. Eu não quero me justificar diante de Ti, busco apenas entender como estão as coisas para mim, para nós, o que produz em nós a grande liberdade.

Analisa-se criticamente, tanto quanto possível, pode-se fazer, andar, correr, mas a liberdade sem nada ao redor, em certo sentido, é vazia, tudo é frouxo. Nós a tornamos malditamente simples. Quem não espera não pode ficar decepcionado.

Mas, por mais que sejamos livres, continuamos tendo medos. Vou me dar bem no trabalho como eu tinha imaginado? No fundo, o que queremos da vida? Qual é a situação com a morte? Devo telefonar mais vezes para a minha mãe ou para os meus avós que fizeram tanto por mim? Como será quando eles não estiverem mais? Apaixonamo-nos infelizes, quebramos corações, decepcionamos amigos, perdemos parentes, choramos como fontes.

Acho que há muitos como nós: jovens cristãos que são batizados, mas que não sabem se as suas dúvidas e os seus medos são banais demais, insignificantes demais diante de toda a dor do mundo, se há lugar perto de Ti para as suas dores de amor. Se é certo estar perto de Ti. Que não sabem bem por onde começar, em que devem acreditam, o que devem aprender sobre Ti.

O que devemos fazer, nem eu sei. Mas falar a respeito é um grande começo. Também com aqueles que têm problemas contigo, com aqueles que falam mal de Ti à mesa, com os ateus, os agnósticos. Com aqueles que te chamam de Javé ou que te chamam de Alá. Sobre a fé, a esperança, a dúvida. Sobre a vida, a morte, o amor. Sobre Ti e sobre nós.

Mande notícias!
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Sobre Jacarandás e ipês

 Juremir Machado da Silva*
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Um especialista diz que a educação deve servir não para acumular conhecimentos, mas para melhorar o mundo. Eu faço parte de uma categoria de pessoas que tem vivido para acumular conhecimentos e para sonhar com um mundo melhor. Desanimo quando vejo o conhecimento aumentar e o mundo permanecer o mesmo ou até piorar. De repente, olhei para cima e uma visão majestosa me fez pensar: o que eu sei? Claro que sei muito pouco. Esse pouco que eu sei, no entanto, pode ser muito em relação a pessoas que não tiveram e não terão oportunidade de conhecer mais. O Brasil continua a ser o país da ignorância programada. O importante, contudo, não é o que sei, mas o que eu não sei.

O que eu sei?

Sei que Pedro Alvarez Cabral não foi o primeiro europeu a pisar no Brasil.

Sei que Dona Maria era louca. Sei que César atravessou o Rubicão.

Sei que José do Patrocínio foi o maior jornalista brasileiro de todos os tempos e que Garrincha foi o herói da Copa do Mundo de 1962. Eu sei estes versos do grande peruano Cesar Vallejo:  “Hay golpes en la vida, tan fuertes… ¡Yo no sé!” Ainda sei o valor do Pi e a fórmula de Bhaskara. Sei que em qualquer triângulo retângulo o quadrado do comprimento da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos comprimentos dos catetos. Sei que a melhor defesa pode ser o ataque e que Capitu não traiu. Sei que os quadros de Claude Monet me tocam tanto quanto certos poemas de Charles Baudelaire.

Sei que minha vida se enche de sentidos quando te aproximas e que minha alma padece quando te sente distante. Sei que meu olhar te segue na rua ou mesmo em casa quando regas as plantas e isso me enche de uma súbita e incomensurável alegria que me renova a vontade de ser eterno. Sei que Sócrates teria dito esta sábia frase: “Só sei que nada sei”. Sei que me comovo com certos crepúsculos e que me levanto às vezes para comemorar o alvorecer enchendo os pulmões de brisa e os olhos de luz.

Sei que O IDH dos negros no Brasil é inferior ao dos brancos. Sei que mal dissimulamos nosso racismo e nossa homofobia. Sei que me sinto como todos tão pequeno diante do universo e tão grande quando sonho que me transformo em borboleta e voo até me findar.

Sei ler números romanos, sei quem foram os gregos clássicos e os invasores bárbaros da Europa, sei quem eram os incas, os maias e os astecas. Sei quem foram Dom Quixote, Jean Valjean e Policarpo Quaresma. Sei que os negros foram traídos em Porongos. Nem tudo o que sei é o mesmo que outros sabem. Sei que há controvérsias. Sei que me demoro olhando o horizonte em busco do meu Norte.
O que, porém, neste meu oceânico desconhecimento, descobri não saber quando, faz alguns dias, caminhando pelas ruas ensolaradas de Porto Alegre, ergui a cabeça para contemplar as árvores maravilhosa e precocemente floridas? Descobri que sei coisas importantes e outras nem tanto. Soube que eu não sei o essencial: não sei a diferença entre um jacarandá e um ipê.

Sei apenas que se expressam como primaveras impressionistas colorindo o cinza do concreto.
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* Sociólogo. Escritor. Prof. Universitário.
Fonte:http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/2017/08/10134/sobre-jacarandas-e-ipes/
Imagem da Internet

Não há meio que dê conta de uma 'narrativa' tão vasta como a humana

Luiz Felipe Pondé*




Ilustração Luiz Felipe Pondé de 14.ago.2017
"O mercado é, antes de tudo, uma realidade moral: o modo com que os seres humanos, sem saber precisamente como, chegaram a viver e colaborar de forma não consciente, mas razoavelmente eficaz."

Dito de forma direta: não temos a mínima ideia de como a ordem social se dá. Uma das maiores falácias do nosso debate é a tentativa de dar uma fundamentação à ordem social que seja "clara e evidente". Quantas horas perdidas dos alunos fazendo com que eles acreditem em ideias cozidas nos gabinetes dos intelectuais, fruto de teorias tão "metafísicas" (ou mais, até) do que a do pecado original.

Alguns dizem que foi a corrupção de uma natureza humana que vivia em eterno equilíbrio no campo. Outros dizem que foi uma guerra geral de todos contra todos. Outros ainda que são os afetos que fundamentam a sociedade. Tampouco foi uma luta de classes, nem os desígnios de um Deus misericordioso (todas hipóteses metafísicas, igualmente).

Pode-se dizer o que quiser: a verdade é que numa sociedade distante dos bandos paleolíticos (nos quais a solidariedade interna ao bando parecia ser o modo de vida na época) como a nossa, gigantesca e permeada por "parcerias sem empatias pessoais", complexa e caótica, nada se sabe sobre um "fundamento" a ser descoberto que iluminaria o modo de criar uma "engenharia social ou política" capaz de mudar tudo. Não temos aparelho cognitivo que dê conta de uma tão vasta "narrativa".

Ninguém sabe como se organiza a sociedade de modo profundo. Nosso modo de viver evoluiu de forma espontânea até chegarmos a essa "ordem expandida" que é a sociedade histórica humana. Por espontânea aqui não quero dizer que não existiram modos de constrangimento, violência, parcerias não conscientes, medos, crenças espirituais e avanços técnicos racionais. Quero dizer que a soma total desses tópicos não produz um mapa suficiente para entendermos o que se passou ou o que se passa na humanidade. Não há uma chave mestra que abra essa caixa de Pandora.

É aqui que se encontra a pedra de toque daqueles que, como eu, entendem a noção de mercado como essencial para nos ajudar a entender essa ordem espontânea, justamente porque ela é dispersa, concreta, ambivalente, imprecisa, sem ter sido criada de modo "racional" por ninguém especificamente, mas empiricamente compreensível na prática cotidiana de todos nós, mesmo daqueles que mentem sobre isso.

O comércio parece ser uma rota rica para entendermos o modo das pessoas de se relacionarem de forma espontânea e generalizada. O mercado é um conceito moral, além de político ou econômico. Cheio de sombras, fantasmas e riscos –só mal informados acham o mercado um papai bondoso–, ninguém "criou o mercado", como pensa a nossa vã filosofia. Ele brotou do comportamento caótico humano, buscando estabelecer relações de sobrevivência, e, portanto, morais.

O erro crasso da ignorância sobre esse assunto é facilmente detectável: quem pensa que o mercado é um conceito prioritariamente econômico erra. O mercado é, antes de tudo, uma realidade moral: o modo com que os seres humanos, sem saber precisamente como, chegaram a viver e colaborar de forma não consciente, mas razoavelmente eficaz.

O mercado é, também, uma estrutura de coleta e disponibilização de informação. As mídias sociais representam essa realidade no plano imediato da acessibilidade da informação, por isso estão nos ensinando mais sobre nós do que anos de especulação das ciências humanas engajadas.

Uma das marcas essenciais desse mercado é o modo como a informação dispersa se organiza para produzir riqueza, regras, instituições. Gera com isso, também, sofrimentos de todos os tipos, devido a ambivalências dos atores envolvidos. Num certo sentido, somos incapazes de saber exatamente como tudo isso funciona porque não temos recursos cognitivos ou epistêmicos (isto é, recursos imediatos ou organizados de conhecimento) para mapear esse gigantesco processo que nos une e, ao mesmo tempo, nos afasta, mas que garante o funcionamento de um nível de riqueza e liberdade individual jamais visto no mundo.

Para saber mais sobre isso, leia "Os Erros Fatais do Socialismo" (Faro Editorial, 2017) de F.A. Hayek (1899-1992). Segundo Roger Scruton, um dos maiores pensadores da nossa época.
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*  Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência.
Foto: Ricardo Cammarota/Folhapress
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2017/08/1909596-nao-ha-meio-que-de-conta-de-uma-narrativa-tao-vasta-como-a-humana.shtml

domingo, 13 de agosto de 2017

O HOMEM SÓ

Cristovão Tezza* 
 Vânia Medeiros 13.ago.2017
Pensando nas misteriosas influências que nos fazem ser o que somos, da loteria do DNA à escolha dos caminhos, dos afetos e dos empregos, passando pelos vizinhos, namoradas, família, heróis da infância e da vida adulta, azares e acasos, olho para trás tentando localizar alguns pontos de impacto –os instantes realmente marcantes que parecem mudar o nosso rumo. É uma tarefa impossível, porque somos parte interessada demais. Mas, afinal, somos mesmo feitos de tarefas impossíveis, e aí é que está a graça. 

A primeira sensação é a de que fui feito de leituras, o que é obviamente uma mentira, se fosse para dar um peso moral a este primeiro erro de avaliação. A leitura é uma duplicação de um confuso mundo pré-existente, o qual, quando se lê e se escreve, tenta-se retificar e ratificar –chegamos à palavra escrita já cheios de vontades e escolhas, mais como um engenheiro curioso numa quadra de entulhos do que como uma vítima ingênua na escuridão. 

O momento histórico é especialmente importante, a barulhada em torno, e isso independe de nós. E a idade pesa –gostamos tanto de ordenação que nos imaginamos formatados em décadas, pessoas de proveta, um ser diferente por decanato. Não se reage do mesmo modo em tempos diferentes (embora muitas pessoas se jactem de ser sempre as mesmas, como quem faz praça da própria estátua). E há, ainda, a insídia da emoção, que nos cega e justifica. 

"É cousa demais", como se dizia antigamente. Baixando a bola, fiquemos nas leituras. Como um bom sessentão, tive formação iluminista, o otimismo pós-Segunda Guerra. Tudo pode ser racionalizado, a inteligência é o valor supremo, a clareza e a nitidez são entidades éticas e o mundo só anda para a frente. 

Uma mistura de Sherlock Holmes, o herói de Conan Doyle –os sinais do crime estão à vista, basta cabeça fria para revelá-los–, e de Júlio Verne, com a boa crença na ciência e a desconfiança do mal, que existe e deve ser combatido; e os finais são felizes. Cresci na atmosfera laica de um mundo que, enquanto arrastava seu passado sinistro e glorioso, tentava inventar um novo futuro, o que realmente aconteceu, na fratura geral dos anos 1960. 

Cria daquele tempo, exatamente ali me reconheço. Como diz a célebre citação de William Faulkner (1897-1962), o passado não está morto; aliás, nem mesmo é passado. Como um louco circular, retorno sempre àquele ponto cego, atrás de uma chave-mestra. 

Porque havia duas, incompatíveis: "Cem Anos de Solidão", a "Ilíada" da América Latina inventada por Gabriel García Márquez (1927-2014), nos dizia que a história era um ser vivo, fatal e inexorável como os deuses gregos, e que homens, árvores, nuvens e borboletas giram sob leis poéticas e transcendentes inacessíveis ao gesto humano, e é nesta entrega ao tempo que reside a surda beleza que nos cabe. 

A outra chave surgiu inteira deslocada e contraditória, e no entanto me pegou, no instante exato, as variáveis todas conjuminadas num belo e irresistível eclipse total: adolescente, anos 1960, contra os grilhões da família e a hipocrisia da sociedade, e sob influência de um guru barbudo, W. Rio Apa (1925-2016), que, num projeto mais emocional que intelectual, passou boa parte da vida tentando conciliar Nietzsche com Rousseau (o que, pensando bem, é um retrato do presente), mais a sombra do teatro como o caminho possível da libertação pessoal –e eis que me caem nas mãos as peças do norueguês Henrik Ibsen (1828-1906). 

Ibsen é um monstro que inventou a dramaturgia moderna. Dos confins da Noruega, criou uma obra que empalideceu automaticamente todo o teatro que se fazia no século 19. Para mim, uma peça foi especial: "Um Inimigo do Povo". Resumindo: um homem descobre que as águas da cidade estão poluídas, mas a cidade depende comercialmente delas para sobreviver. 

Na luta por denunciar o crime, acaba ficando contra todos. Ele resiste, e uma frase me bateu na cabeça: o homem mais forte é o homem mais só. Naquele momento, isso era tudo que eu queria ouvir. Até hoje gosto de acreditar que ela me livrou, com um toque quase aristocrático, do rebanho. O que é engraçado para alguém que, como eu, vê numa roda de amigos bebendo cerveja uma das faces mais concretas da felicidade.
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* É crítico literário e um dos principais ficcionistas em atividade no país. Já venceu alguns prêmios literários brasileiros com o livro 'O Filho Eterno' (Record).
Imagem por  Vânia Medeiros/Editoria de Arte
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/cristovao-tezza/2017/08/1909148-o-homem-so.shtml

SAUDADES DO MEU PAI

 J.J. Camargo*
 Saudade do meu pai /
Mas mesmo aquelas que queremos preservar como nosso patrimônio de raiz não são estáveis, e periodicamente precisamos sacudi-las, como forma de trazer à tona aquilo que o tempo, presunçoso e descuidado, foi desbotando. Outras vezes, quando a lembrança é assim revisitada, parece diferente, seja porque perdemos pelo caminho um pedaço do ocorrido, ou porque percebemos agora um sentido que lá atrás tinha escapado.

Neste inverno, completaram-se 10 anos da morte do meu pai, bem velhinho, com um último semestre de sensório comprometido, e todas as condições de dependência e fragilidade que, os ingênuos imaginam, deveriam servir para atenuar a sensação de perda. 

Certamente, cada filho administrou a saudade do seu jeito com características próprias, alimentadas por relacionamentos díspares, em proximidade, carência, afinidade, ciúme, semelhança, afeto e proteção. Retrospectivamente, gostaria muito de ter vivido mais perto do meu pai, e esta percepção, como quase sempre acontece, só ficou muito clara depois que ele se foi, deixando este rastro de saudade e remorso, pontudos como uma acusação.

Passado este tempo, aceitei me perdoar porque não poderia mesmo ser de outra forma, pela distância e diversidade do que fazíamos. E ele sempre deixou claro que entendia que, sendo como éramos, com tarefas tão diversas, tínhamos que aceitar as diferenças. Lembro-me de um telefonema na quase manhã do dia em que seu neto fazia 20 anos, em que ele começou assim: "Meu filho, estou te ligando assim tão cedo para dizer que você tem muita sorte por ter um filho como o Fábio, e que sou feliz porque um velho como eu, que ama esta terra como eu amo, ter um neto que ama da mesma maneira, é uma coisa que..." Então fez uma pausa, suspirou, e concluiu: "Mas isso, talvez não entendas... deixa prá lá... E a minha nora, como vai?". A brusca mudança de assunto era o jeito de dizer que não me considerava o melhor interlocutor para falar do amor que ele tinha pela fazenda, que adorava de paixão. E então falávamos de outros assuntos, e tenho muita saudade do seu jeito sério de contar coisas engraçadas. Por fim, comentávamos das minhas conquistas profissionais, e destas, de longe, a que mais lhe encantou foi o transplante de pulmão com doadores vivos, que ele acompanhava na mídia com entusiasmo.

Sistematicamente perguntava pelo Henrique, o primeiro paciente, a quem se referia como se tivesse se transformado em um parente muito querido. E sempre terminava com uma observação entusiasmada: "Essa foi muito boa!".

"Sabe, pai, eu também acho que foi, e muita gente repete que sim, mas depois de todo esse tempo, preciso te fazer uma confissão: nenhuma placa, troféu ou homenagem teve a força do teu olho brilhando. Afinal, na busca da tua admiração, aprendi que todo filho procura desesperadamente ser visto pelo pai como alguém melhor do que de fato é. E, neste domingo, no teu dia, nada vai me entristecer mais do que a consciência de que nunca mais vou poder fazer alguma coisa, qualquer coisa, para te impressionar. E eu queria tanto." Porque o pai da gente só morre com a gente. Nunca antes. Afinal, não é esta a função mais generosa da memória?
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* Médico. Cirurgião torácico e diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre
Fonte: http://zh.clicrbs.com.br/rs/opiniao/colunistas/jj-camargo/noticia/2017/08/saudade-do-meu-pai-9867528.html

Medo e preconceito

Lya Luft*

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O preconceito tem raiz no medo. Não - ou nem sempre -  um receio explícito, mas alguma inquietação -  o medo do diferente. Acredito muito nessa carga genética, psíquica, ancestral: qualquer animal diferente podia ser o predador, então a gente arrepiava os pelos, curvava o lombo, botava pra trás as orelhas e, qualquer coisa, atacava ou se defendia. Isso no tempo da Pedra Lascada.
No mundo atual, em que ser magro é ideal inalcançável da maioria, os gordinhos são objeto de apelidos, gracinhas sem graça, às vezes ofensas. Aos poucos, parece que as mulheres começam a se libertar, não sendo felizes com 200 quilos mortais, mas aceitando-se e gostando de si (portanto, sendo gostadas) estando acima do "ideal".
Claro que aqui escreve uma não ideal. Quando pré-adolescente, antes da interminável série de dietas ou reeducações alimentares, fui chamada de gorda, e de baleia. Em grupos de meninos e meninas  "brasileiros", como se consideravam, eu e vários de sobrenomes alemães éramos brindados com "alemão batata/come queijo com barata", o que certa vez, ainda criança, me arrancou lágrimas por não conseguir explicar que, primeiro, eu era brasileira há várias gerações e, segundo, não comíamos baratas em casa. Xingamentos como "nazista" não eram incomuns na hora de uma briga, não importava se meu pai tinha ajudado inúmeros refugiados judeus a serem acolhidos e respeitados em nossa cidade.
Já escrevi que tenho na minha família gente de sangue negro, pessoas muito próximas e queridas, e disso falei há alguns anos num seminário sobre "multiculturalidade" em Berlim, quando fui interpelada por alguém da plateia (todos respeitados sociólogos, antropólogos etc) dizendo que eu não podia falar, pois afinal era "uma europeia". Expus minha realidade brasileira e acho que pensaram que eu estava mentindo. Para "me fazer de interessante", diria minha mãe.
O preconceito difundido não atinge só os gordos, os negros, talvez árabes e libaneses chamados "turcos" como se isso não fosse honroso, os muito altos e baixinhos, mas também os menos inteligentes ou hábeis, com alguma lesão mental ou física. Entra em cena aí a (inconsciente?) crueldade de crianças e adolescentes, que não medem o quanto é funda a dor que causam.
Inclusão, por outro lado, é difícil de realizar. Criança autista ou Down em classes de "normais"? Fácil, difícil, complicado e para quem? Não há receita, mas a própria criança pode sofrer. Conheci uma mãe que, contrariando a própria família, passou sua filhinha Down, já adolescente, de uma escola "normal" para uma especial: a menina floresceu, ficou feliz onde ninguém a tratava como diferente nem dela esperava o impossível, o difícil demais. Cada ser humano é especialíssimo, também nas questões de gênero, em que gays, lésbicas e transgêneros ainda sofrem, aqui e no mundo, de uma abordagem obtusa, ignorante e cruel.
O avesso disso é o protecionismo: não podermos chamar alguém segundo sua origem ou raça estimula o preconceito, e é humilhante: exagero de eufemismos aumenta a exclusão. Um dos remédios para essa ferida social talvez consista em sermos mais educados, mais amorosos, mais humildes e -  por favor -  muito mais informados.
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* Escritora. Colunista da ZH
lya.luft@zerohora.com.br
Fonte:  http://zh.clicrbs.com.br/rs/opiniao/colunistas/lya-luft/noticia/2017/08/medo-e-preconceito-9868375.html

O FUTURO DO EMPREGO

  Hélio Schwartsman*
 Clientes usam posto de auto-atendimento em McDonald's de Miami
 Clientes usam posto de auto-atendimento em McDonald's de Miami

SÃO PAULO - Estudo da consultoria McKinsey estima que, até 2055, com margem de erro de 20 anos para mais ou para menos, 51% dos postos de trabalho no mundo deixarão de existir devido à automação. Devemos lamentar ou celebrar isso? 

A questão não é nova e já ocupou a atenção de economistas do calibre de David Ricardo (1772-1823), Karl Marx (1818-1883) e John Maynard Keynes (1883-1946). Destes, apenas Ricardo via o problema com pessimismo. Para ele, o maquinário tornaria "a população redundante e deterioraria as condições do trabalhador". 

Já Marx via na automação uma contradição fundamental do capitalismo. Nos "Grundrisse" ele diz que, quanto mais as máquinas evoluem, mais substituem trabalhadores. Só que, para Marx, o trabalho, mais especificamente a mais-valia que o capitalista extrai do trabalhador, é a fonte e a medida da riqueza. Isso significa que, ao promover a automação, o capitalismo golpeia a si mesmo. E o que acontece com o trabalhador? Quando toda a produção estiver a cargo de robôs, as pessoas terão mais tempo livre, o que é, ao mesmo tempo, causa e condição da emancipação do trabalho –sinônimo de libertação do homem. 

Keynes segue numa linha próxima à de Marx. Num texto de 1930 intitulado "Possibilidades Econômicas para os Nossos Netos", ele afirma que dentro de cem anos (em 2030) as sociedades já produziriam o suficiente para satisfazer as necessidades básicas de todos. As pessoas não teriam de trabalhar mais do que poucas horas por semana e isso levaria a uma espécie de emancipação moral do homem: a acumulação de riquezas deixaria de ser percebida como importante e estaríamos livres para desfrutar a vida e retornar a uma ética que condena a avareza e a usura. 

Até vislumbro a realização das previsões de Marx e Keynes no plano material, mas, por mais que procure, não vejo muitos sinais da tal da emancipação moral do homem.
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* É bacharel em filosofia, publicou 'Pensando Bem...' (Editora Contexto) em 2016. 
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2017/08/1909443-o-futuro-do-emprego.shtml

sábado, 12 de agosto de 2017

A ciência é sexista

 

A britânica Angela Saini diz que cientistas, a começar por Darwin, erraram ao decretar a inferioridade feminina sem considerar o contexto social

Jornalista especializada em ciência, a britânica Angela Saini, de 36 anos, surpreendeu-se mais de uma vez ao deparar com teses científicas que ainda hoje sugerem algum tipo de inferioridade feminina em relação ao gênero masculino. Para questionar esse entendimento, ela reuniu um calhamaço de teses que atribuem às mulheres características — biológicas ou comportamentais — desfavoráveis em relação aos homens e as confrontou com pesquisas científicas que dizem justamente o contrário. O resultado foi o livro Inferior: How Science Got Women Wrong (Inferior: como a ciência se enganou com as mulheres, em tradução literal), ainda sem previsão de lançamento no Brasil. A formação de Angela lhe garante credenciais para a empreitada. Egressa de um mestrado em engenharia na Universidade de Oxford e de outro em ciência pelo King’s College, ela atuou no jornalismo científico em veículos como a New Scientist, The Guardian e BBC. Seus achados não poupam nem Charles Darwin — para ela, causador de um “dano irreparável” à reputação do gênero feminino. Angela falou a VEJA por telefone, de Londres. A seguir, sua entrevista.

O engenheiro do Google James Damore foi demitido depois de divulgar um memorando no qual sugeria que as mulheres são biologicamente menos aptas que os homens para trabalhar na área de tecnologia. Ele está errado? Ele usa evidências científicas (James Damore é mestre em ciência pela Harvard) para defender a ideia de que as mulheres são, em média, biologicamente diferentes dos homens, de uma forma que as torna menos capacitadas para determinado tipo de trabalho — nesse caso, o trabalho no campo tecnológico. Há uma vertente da neurociência que tenta popularizar a noção de que o cérebro das mulheres e o dos homens são diferentes. Um teria mais facilidade em exercitar a empatia, enquanto o outro teria mais aptidão para analisar sistemas, por exemplo. Damore se valeu dessa tese em seu memorando.
 
Mas ele está errado? Estudos recentes mostram que, no campo cerebral, há diferenças mínimas entre os sexos — e elas ocorrem em habilidades muito específicas, como o raciocínio matemático e a fluência verbal. Individualmente, os seres humanos são muito diferentes entre si. Se alguém escolher um grupo de pessoas e buscar diferenças por sexo, vai encontrá-­las. Mas, estatisticamente, elas não existem. Pesquisas sobre isso têm sido feitas continuamente e podem ter resultados diversos no futuro. Mas, hoje, este é o entendimento preponderante: não há evidência que valide a tese de que o cérebro de homens e o de mulheres sejam diferentes.

Damore afirma também que as políticas de estímulo à diversidade do Google têm um viés de esquerda. A di­versidade virou uma bandeira da esquerda? A igualdade é um valor universal, é um direito humano. O que é certo, nesse caso específico do Google, é que a entrada das mulheres num território essencialmente masculino, como o da tecnologia, parece estar ameaçando os homens. Alguns temem perder espaço para mulheres que ascendem, e isso faz com que busquem justificativas para impedir esse movimento.

O que a senhora pretendeu provar ao confrontar em seu livro teses que sugerem a inferioridade da mulher com outras que dizem o contrário? Há um estudo no mundo para justificar qualquer ideia. Eugenistas tiveram amplo apoio de instituições renomadas dos Estados Unidos quando afirmaram que havia tipos distintos de raça humana — algo que se provou moral e tecnicamente errado. Hoje ainda é possível achar teses que afirmam que uma determinada etnia é inferior a outra. Mas o fato de algo estar publicado significa que é verdade? Para chegar à verdade, é preciso um conjunto de pesquisas, é preciso questionar essas pesquisas e levar em conta o contexto em que elas foram feitas.

O que a fez concluir que a ciência é sexista? A ciência nasceu dentro de um contexto cultural em que a mulher era vista de forma diferente do homem. “Homens são promíscuos, mulheres, monogâmicas; homens são fortes, mulheres, frágeis; homens são provedores, mulheres, dependentes.” Esse viés sexista conduziu a sociedade até poucas décadas atrás. Então, não é surpreendente que a ciência tenha seguido o mesmo caminho, reproduzindo estereótipos e baseando seus estudos em suposições herdadas da sociedade.

A forma como a religião retrata a mulher também influenciou a ciência? Sim, pois a religião faz parte desse arcabouço cultural. Adão e Eva foram a fonte primária de informação sobre a relação entre homem e mulher para o mundo cristão. E outras religiões, ainda que não tenham os mesmos personagens, reproduzem o estereótipo da mulher como segundo elemento, com importância secundária.

Por que a senhora diz que Darwin foi o cientista que causou mais dano para a percepção da ciência sobre a mulher? Darwin foi crucial para a imagem que a ciência teve por muito tempo sobre as mulheres. Causou dano irreparável. Quando, no século XIX, ele disse que elas eram naturalmente inferiores, estava fazendo uma leitura biológica baseada na cultura em que foi criado — uma cultura inserida num contexto de classe média alta, cristã e vitoriana. Ele reiterou, até as vésperas de sua morte, em 1882, que as mulheres estavam atrás dos homens na escala evolutiva, e que, apesar de serem superiores no quesito moral, o mesmo não acontecia do ponto de vista intelectual. Trata-se de um equívoco enorme porque, naquela época, as mulheres não tinham acesso à educação, à informação, não podiam desenvolver uma carreira nem participar do mundo efervescente da ciência ou das artes. Ou seja, Darwin decretou a inferioridade intelectual das mulheres sem considerar o contexto social e cultural em que elas estavam inseridas. O poder de suas ideias e seu status fizeram com que suas teses embasassem muitos trabalhos de cientistas nos séculos seguintes.

Quando essa tese passou a ser revista? O dano só começou a ser revertido nos anos 1970, quando as primeiras mulheres cientistas se dedicaram a refazer pesquisas que atestavam sua inferioridade. Em um trabalho específico, de 1948, o cientista A.J. Bateman afirmou, com base em uma pesquisa feita com moscas, que homens eram mais promíscuos e mulheres, mais seletivas na hora de copular. Isso indicaria que a “castidade” feminina era um fenômeno biológico. A mesma pesquisa, com conclusão similar, foi feita com chimpanzés algumas décadas depois. Mas, pouco mais tarde, a cientista Sarah Blaffer Hrdy, que observou o comportamento de primatas indianos, verificou que eles faziam justamente o oposto. Para protegerem os filhotes de ser apanhados por machos de outros grupos, as fêmeas copulavam com a maior quantidade possível de macacos, já que os machos daquela espécie jamais se arriscariam a matar um filhote da própria família.

Há alguma teoria recente que ainda dissemine a ideia da inferioridade biológica feminina? Em 2013, apenas quatro anos atrás, um grupo de cientistas da Universidade McMaster publicou um artigo sobre a origem da menopausa em que o argumento-base era que as mulheres deixavam de menstruar na meia-idade porque os homens deixavam de achá-las atraentes. A menopausa, portanto, seria um efeito evolutivo da falta de atração do homem por uma mulher mais velha. O lastro científico era zero e refutava uma pesquisa amplamente embasada do biólogo evolucionista George Williams. Essa pesquisa revela que a menopausa surgiu na nossa espécie como um mecanismo para proteger as mulheres mais velhas dos riscos do parto, fazendo-as viver mais e garantir a segurança da espécie, tendo em vista que os humanos dependem por mais tempo da família do que as outras espécies.

Quais são os equívocos sobre a inferioridade feminina mais consolidados hoje? O mito de que os homens são mais fortes que as mulheres. Quando se diz isso, o pressuposto é que só o tamanho do corpo e dos músculos está relacionado à força. Ocorre que a força pode ser medida de várias formas. A imunidade e a capacidade de sobreviver a doenças, por exemplo, são duas delas. Nesses aspectos, as mulheres são mais fortes que os homens. A Universidade do Alabama tem uma base de dados de mais de vinte anos de pesquisa em envelhecimento que mostra que as mulheres vivem de cinco a seis anos mais que os homens pela robustez de suas características imunológicas. Fala-se ainda que as mulheres são mais emotivas porque entendem melhor suas emoções. Assim, elas seriam menos racionais que os homens. Não há evidências que comprovem isso. Trata-se muito mais provavelmente de uma questão cultural. Às mulheres foi permitido, ao longo da história, demonstrar emoções. Aos homens, não.

Em seu livro, a senhora menciona tribos nômades em que mulheres e homens eram vistos de forma igualitária e tinham tarefas idênticas. Quando isso começou a mudar ao longo da história? Antropólogos não conseguiram precisar com exatidão, mas acreditam que foi há cerca de 10 000 anos, antes de o homem se estabelecer em comunidade ao redor de uma atividade agrícola. Nesse momento surgiram inovações sociais, como o acúmulo de território e riqueza, o matrimônio e a criação de uma hierarquia patriarcal, que nos trouxe ao que temos hoje.

Os avanços em igualdade de gênero, até hoje, estão aquém do que a sociedade pode executar? Não é que estejam aquém, mas surpreende o fato de tanta gente educada e com acesso à informação ainda acreditar que, em certos aspectos, as mulheres não são boas o suficiente. No fim, a ciência avançou tanto em tantas coisas, mas tão pouco em conhecer as similaridades e as diferenças entre os seres humanos. Atualmente existem culturas que ainda perpetuam a ideia de que as mulheres podem menos e de que essa é a ordem natural das coisas. Há países onde elas puderam votar faz poucos anos. Há países onde mulheres não podem votar. Estudei na Universidade de Oxford, e só no início do século XX foi concedido um diploma a uma mulher. O que a sociedade pode fazer melhor hoje é dar às meninas uma criação mais igualitária, que as ensine a pensar criticamente sobre as diferenças.

O feminismo na ciência não pode criar um viés equivocado, tornando a discussão sobre gênero menos racional? O que o feminismo está fazendo com a ciência é melhorá-la, confrontá-la. O feminismo tem ajudado a questionar estereótipos que são, justamente, irracionalidades que faziam parte da ciência.

Publicado em VEJA de 16 de agosto de 2017, edição nº 2543
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Reportagem Por Ana Clara Costa - 12 ago 2017,
Fonte:  http://veja.abril.com.br/revista-veja/a-ciencia-e-sexista-2/