segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Desejo de pintar, dançar e cantar é parte evoluída da mente humana, aponta estudo

 
 Fotomontagem de Jornal da USP com imagens de Freepik e Pixabay

Qual é a estrutura psicológica da motivação artística humana? Pesquisa da área de Psicologia Evolucionista analisa respostas de vestibulandos sobre o tema e mostra que somos animais evolutivamente artísticos

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Das pinturas rupestres aos espetáculos na Broadway, o fazer artístico acompanha a humanidade. Mas por que compartilhamos do desejo de pintar, dançar e cantar? Com o objetivo de explorar a estrutura psicológica da motivação artística humana, o pesquisador Marco Antonio Correa Varella, do Instituto de Psicologia (IP) da USP, testou a hipótese de que o engajamento humano com as artes é resultado da evolução da espécie. Para isso, analisou respostas de vestibulandos para ingresso em cursos artísticos. A pesquisa mostrou que as motivações artísticas têm aspectos como especificidade, autorreforçamento e estabilidade — indicativos de uma característica evolutiva da nossa espécie —, ou seja, somos animais natural e evolutivamente artísticos. “O estudo vai ajudar a nos fazer levar as atividades artísticas a sério, como parte integral da natureza humana”, afirma o pesquisador. 

O artigo com os detalhes do estudo foi publicado na Frontiers in Psychology, em 21 de dezembro de 2021, com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) por meio de bolsa de pós-doutorado no Departamento de Psicologia Experimental do IP da USP. 

O material faz parte de um número especial de 2021 que celebra os 150 anos do livro publicado em 1871 A descendência do Homem e a Seleção em relação ao sexo, de autoria de Charles Darwin (1809-1882), no qual o naturalista inglês — um dos cientistas a reunir evidências das raízes evolutivas da musicalidade humana — ressalta a universalidade da mente, referindo-se aos prazeres que várias populações sentem dançando, engajando-se em música, atuando, pintando, se tatuando e se autodecorando. 

A motivação para usar capacidades artísticas — aquelas voltadas às habilidades na produção e apreciação das artes — é alvo de estudos há muitas décadas. Contrariando as ideias evolutivas de Darwin, o psicólogo Steven Pinker, pesquisador da Universidade de Harvard, Estados Unidos, diz que se trata de uma característica recente, gerada pela busca por status e prestígio social. Varella explica que, desse ponto de vista não evolutivo, a motivação para as artes seria extrínseca, isto é, quando se realiza uma atividade para obter reforços externos, como trabalhar para ganhar salário e se divertir com compras. Para essa motivação ser evoluída, dentre outras características como universalidade e antiguidade, ela deve ser intrínseca (autorreforçamento), aquilo que se faz pelo próprio prazer em fazer, além de específica e relativamente estável ao longo da trajetória humana.

Para analisar as motivações, Marco Varella pesquisou o questionário socioeconômico do vestibular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), realizado pela Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (Comvest), que pergunta aos vestibulandos sobre o motivo de escolha do curso de Artes (música, dança, artes cênicas, artes visuais e estudos literários). O artigo contém dois estudos: um com 403.832 pessoas (48,8% mulheres) e o segundo com 1.703.916 participantes (51% mulheres), de 1987 até 2020, intervalo amplo para avaliar a estabilidade temporal da tendência. “As perguntas tinham alternativas mais intrínsecas, como ‘gosto pessoal’, ‘aptidão pessoal’, ‘satisfação pessoal’, e alternativas mais extrínsecas, como ‘influência da mídia, do professor, da família’, ‘salário’, ‘contribuição social’ e ‘prestígio social’. Agreguei num fator motivação intrínseca e outro de motivação extrínseca o conjunto de respostas correspondente”, afirma o pesquisador.

Os dados (de até 35 cidades de até seis Estados diferentes do Brasil) foram comparados com alguns cursos de não humanas, como Odontologia, e com cursos de humanas não artísticos, como Pedagogia, para saber se há um padrão geral motivacional para todos os cursos ou se há especificidade artística.

De acordo com o pesquisador, no geral de todos os cursos, os inscritos reportaram de duas a seis vezes mais fatores intrínsecos do que extrínsecos; já no conjunto de cursos artísticos os vestibulandos reportaram de 10 a 28 vezes mais fatores intrínsecos do que extrínsecos, o que sugere um perfil mais intrínseco e específico daqueles prestando Artes. Os fatores intrínsecos se mantiveram constantes ao longo dos anos nos dois estudos para todos os grupos, mas no grupo dos cursos artísticos ficaram mais constantes ainda.  

“Os resultados dos dois estudos convergiram, não corroboraram a hipótese de Pinker e corroboraram a hipótese evolutiva, de que exista um sistema motivacional evoluído, que é intrínseco, específico e estável temporalmente, voltado para nos encorajar a usar nossas capacidades artísticas para nos engajarmos em atividades esteticamente orientadas”, completa.

Foto: Freepik

Dizer que somos animais natural e evolutivamente artísticos significa, para o pesquisador, dizer que, assim como com a linguagem ou a brincadeira, é bem possível que tenhamos uma propensão evoluída para desenvolver, ao longo de nossa primeira infância, um sistema motivacional que nos leva a gostar de arte por si só, a nos interessar por ela e querer repetir atividades — bem como de desenvolver capacidades específicas que nos permitem perceber, aprender, acompanhar, nos engajar, produzir, imitar e criar atividades e produtos esteticamente trabalhados. “Seríamos naturalmente equipados para fácil e intuitivamente processar informações artísticas”, completa. 

Mas isso não quer dizer que nascemos grandes artistas. De acordo com Marco, atividades mais modernas como andar de bicicleta, dirigir carro, ler, digitar ao computador ou resolver equações de segundo grau são muito mais difíceis de se aprender do que atividades mais ancestrais como, andar, cantar, falar e brincar, mas todas são, em certo grau, aprendidas. “Esta facilidade precoce para lidar com essas atividades mais ancestrais indica uma preparação cognitiva preexistente para aprender e gostar de se aprimorar em tais atividades”, afirma.

Quais as vantagens evolutivas da propensão artística universal?

De acordo com o pesquisador, a literatura científica indica que a artisticidade poderia ter melhorado o desenvolvimento da cognição em geral, a coordenação motora e a criatividade, através de brincadeiras ou simulação de situações possíveis —  o que pode ser uma vantagem, em termos de sobrevivência. A utilização de símbolos e ornamentações em mensagens pode também ser adaptativa, promovendo cooperação e coesão social, pelos rituais em grupo, o que também é uma vantagem para sobreviver. Além disso, os fazeres artísticos podem ter aumentado as oportunidades de acasalamento e desejabilidade de indivíduos, forma de manter e competir por parceiros, com efeito positivo direto na reprodução da espécie. Esta última linha de pesquisa com foco na seleção sexual foi iniciada por Darwin há 151 anos. 

“A contribuição deste estudo se alinha ainda com a universalidade da atividade artística, com a antiguidade paleolítica das pinturas e gravuras rupestres, com a precocidade do interesse a engajamento artístico nas crianças, com a herdabilidade da variação individual nas capacidades artísticas, com a convergência adaptativa de comportamentos esteticamente orientados em outras espécies, entre outras fontes de evidência, apontando para o status evoluído da nossa artisticalidade”, afirma o autor do estudo.

O autor ressalta que não sugere que a tendência artística seja fixa, imutável, geneticamente determinada, puramente instintiva ou que não exista espaço para o aprendizado, fatores extrínsecos ou para a cultura. Ele está propondo que a facilidade de aprendizado artístico, o gosto e interesse genuíno para atividades esteticamente orientadas e a desenvoltura e fluência cultural que exibimos para as variadas modalidades artísticas indicam – junto com sua universalidade, antiguidade, precocidade, herdabilidade e convergência adaptativa – a existência de uma maquinaria psicológica evoluída, uma cognição específica e ancestral voltada para o domínio artístico. 

Fonte: https://jornal.usp.br/ciencias/desejo-de-pintar-dancar-e-cantar-e-parte-evoluida-da-mente-humana-aponta-estudo/

Ana Suy: ‘A gente sofre de um excesso de adultismo, que é a tendência de achar que o mundo já está pronto’

Por Talitha Haia*

A psicanalista Ana Suy (Foto: Divulgação)

A psicanalista Ana Suy (Foto: Divulgação)

Para encarar sua realidade, defende a psicanalista, o Brasil precisa urgentemente falar sobre as infâncias – no plural.

O infantil está no mais essencial em nós: na forma como construímos laços sociais e afetivos, nas criações artísticas, na solidão (já que nascemos de uma separação), nas inseguranças… Para Sigmund Freud, o pai da psicanálise, no divã, independentemente da idade do paciente, há sempre uma criança.

“Na teoria freudiana o amor, mesmo na vida adulta, é sempre de repetição”, explica a psicanalista, escritora, pesquisadora e professora universitária Ana Suy. “Isso porque aprendemos a amar na infância, com nossos primeiros cuidadores, e será ao modo infantil que amaremos na vida adulta”.

Embora a infância ocupe um lugar fundamental em nossas reflexões sobre a sociedade, os adultos, não raro usam o termo “infantil” como um adjetivo pejorativo. Para Suy, a sociedade padece de um ‘excesso de ‘adultismo’: a tendência de achar que o mundo já está pronto, definido. “A vida adulta é uma batalha entre o conservadorismo e o infantil, e isso está em cada um de nós.”

Para encarar sua realidade, defende, o Brasil precisa urgentemente falar sobre as infâncias — no plural, reconhecendo e denunciando as diferenças. Em entrevista a CartaCapital, ela reflete ainda sobre a relação entre os impactos provocados pela pandemia na relação entre adultos e crianças – com a interrupção das aulas presenciais, o convívio familiar intensificado e, mais recentemente, com a vacinação infantil transformada em cavalo de batalha na guerra entre o bolsonarismo e a ciência.

“Muitas crianças estão apresentando no retorno, e apresentarão ainda atrasos na fala, inibição social, episódios de ansiedade. É preciso que tenhamos cautela para acolher esses efeitos da pandemia e do isolamento nelas. Do contrário disso, as entupiremos de diagnósticos e de transtornos — e assim, seguiremos roubando a infância delas.”

Confira os destaques a seguir.

CartaCapital: Porque é tão urgente falarmos de infâncias?

Ana Suy:  Primeiramente acho que vale destacar que a palavra “infância” vem do latim “infãns”, que significa “aquele que não fala”. Inicialmente o bebê realmente não fala, e por isso precisa ser acolhido e interpretado pelo outro. Para os humanos, a presença deste outro é uma questão de vida ou morte. Mas, se tudo corre bem, muito rapidamente as crianças passam a fala. E elas falam, primordialmente, a partir daquilo que ouvem. Nesse sentido, as crianças dão feedbacks aos adultos daquilo que eles falam e não escutam.

Mais do que isso, as crianças fazem perguntas aos adultos essencialmente sobre coisas que eles não sabem responder. As perguntas infantis são riquíssimas por apontarem para o caráter “em construção” que é o mundo. Mas a gente sofre de um excesso de adultismo, que é a tendência a achar que o mundo já está pronto, definido e as coisas são o que são. Esta é uma tentativa neurótica de nos defenderemos da vida. É que viver dá trabalho, todos os dias há batalhas, há louça na pia...

CC: Voltando às crianças, quais são os impactos do distanciamento, em decorrência da pandemia, sobre o desenvolvimento infantil ?

AS: Certamente vamos verificar os impactos nas crianças na medida em que formos retornando às atividades. No entanto, de modo geral, o que sabemos das nossas crianças de hoje é que a escola é o espaço privilegiado de vivência da infância. Cada vez mais as crianças convivem com menos crianças fora da escola, já que se tem menos filhos e menos contato com a família ampliada. Isso sem contar com a violência que assola nosso país, que inevitavelmente acaba levando as crianças a trocar o espaço de brincadeiras nas ruas com outras crianças pelo consumo de telas, sozinhas em casa. Então, nesse sentido, muitas crianças tiveram suas infâncias roubadas, não podendo vivê-las. Muitas crianças estão apresentando no retorno, e apresentarão ainda atrasos na fala, inibição social, episódios de ansiedade. É preciso que tenhamos cautela para acolher esses efeitos da pandemia e do isolamento nelas. Do contrário disso, as entupiremos de diagnósticos e de transtornos — e assim, seguiremos roubando a infância delas.

CC: O que o confinamento nos revelou sobre a infância em termos de educação e sobre a função dos pais (ou cuidadores)?

AS: Há um provérbio africano bastante conhecido, que diz que é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança. Uma criança não é propriedade dos pais, então, toda a sociedade, em certa medida, é responsável pela educação de uma criança. Embora seja terrível para os adultos conviver com uma, duas, três pessoas apenas, ao longo de meses a fio, ao menos os adultos têm a função da linguagem desenvolvida o suficiente para fazer uso da tecnologia para manter laços com as pessoas. Mas as crianças não têm essa sofisticação, e por isso precisam de outras vozes, cheiros, texturas para além dos providos pelos pais. Nesse sentido há uma grande perda em termos de vivência, para além do que já apontei.

Além disso, o confinamento, com o fechamento das escolas e a continuidade do trabalho dos pais em casa com a mesma demanda de produtividade, revelou o quanto nossa sociedade deixa os pais desamparados. Em grande parte das famílias, os pais se fecharam trabalhando em um cômodo da casa, numa bela simulação do escritório habitual na empresa, enquanto coube às mulheres dar conta dos cuidados com as crianças e com a casa, além do trabalho delas. Não por acaso o número de divórcios aumentou. O distanciamento social escancarou a péssima distribuição das tarefas em cada casa.

CC: Quais as consequências deste excesso de adultismo?

AS: O excesso de adultismo leva à rigidez, na tentativa de estabilizar o mundo. Falar de infâncias, então, é fazer furos nisso que supostamente estaria pronto. É fazer perguntas infantis, questionar. É dar notícias da falta. Sabemos que é daí que nasce a criatividade, da falta, né? Por isso temos horror à falta, porque ela nos convoca a por a mão na massa. Inventar é o oposto de consumir, uma vez que inventar é uma posição ativa, diferente da posição passiva da lógica do consumidor pela qual tendemos a ser engolidos. A vida adulta é uma batalha entre o conservadorismo e o infantil, e isso está em cada um de nós.

CC: No Brasil, como podemos fantasiar e sonhar diante de problemas como a fome, o trabalho infantil e a violência?

AS: É sempre preciso que apostemos na vida, porque essa é a única opção, se a desejamos. Assim, é claro que é importante nos sensibilizarmos e nos deixarmos doer por todo o desamparo que a maioria maciça das pessoas que moram no Brasil sofrem, mas é preciso que essas mazelas não nos paralisem. A possibilidade de fantasiar e sonhar é tudo o que alguns de nós tem, é essencial dar dignidade a isso.

Se ficamos reduzidos a uma condição de objeto, a uma condição de passividade, a uma condição de meros consumidores de algo, não atravessamos as tragédias, somos engolidos por ela. E é preciso que as atravessemos.

Talitha Haia - Médica, escritora e mestranda em psicanálise na Sorbonne em Paris

Fonte: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/ana-suy-a-gente-sofre-de-um-excesso-de-adultismo-que-e-a-tendencia-de-achar-que-o-mundo-ja-esta-pronto/?utm_campaign=novo_layout_newsletter_-_2401_-_segunda-feira&utm_medium=email&utm_source=RD+Station

Por que é importante educar para as redes sociais

 Januária Cristina Alves*

Redes sociais na educação: entenda como utilizar de maneira assertiva -  Wakke

Ser protagonista nas plataformas tem a ver com muito mais do que produzir conteúdos e interagir por meio de comentários, memes e likes

Você que lê esse artigo conhece alguém que esteja fora das redes sociais? Que não tenha conta em nenhuma delas, que não curta, comente, poste ou compartilhe algum conteúdo que ali circula? Duvido que tenhamos muitos “sim, conheço”. Para o bem e para o mal, trafegar pelas redes sociais tornou-se sinônimo de estar por dentro do que acontece no mundo, estar informado (ou desinformado, infelizmente), ou mesmo de conseguir ampliar os contatos pessoais e de trabalho. Dados recentes dão conta de que hoje em dia (talvez esses números já tenham crescido exponencialmente enquanto escrevo esse texto) o YouTube tem perto de 2,3 bilhões de usuários registrados, o Instagram 1,22 bilhão, o TikTok 800 milhões e o Twitter 350 milhões. Aqui nem incluí o Facebook, que também possui um número impressionante de pessoas que lá circulam mas já não está mais no topo do ranking.

Mesmo que muitos de nós estejamos fora das redes sociais, a maior parte da humanidade é impactada por elas, seja economicamente, socialmente, culturalmente e/ou pessoalmente, claro. Portanto, como ninguém nasce sabendo como se comportar diante das inúmeras situações que a vida e a convivência nesse mundo nos impõem, precisamos falar sobre a importância da educação para as redes. Por conta desse fato e do pedido de muitos pais e educadores para que esse tema seja abordado de maneira mais estruturada, o Instituto Emília me convidou para ministrar o curso “Educação para as redes: como construir contranarrativas na internet”. Aceitei a tarefa e o desafio porque creio que, quando as comunidades educativas se mobilizam diante de um tema, algo de produtivo e evolutivo surge desse movimento. O propósito é refletir sobre como nos portamos nas redes sociais e mais especialmente como podemos educar as crianças e jovens que já estão nascendo nesse ambiente tão complexo e cheio de questões pungentes.

Nas redes sociais encontramos “tudo junto e misturado”, como dizem os jovens internautas. As fronteiras antes tão claras nos meios de comunicação com os quais estávamos acostumados como a TV, os jornais, o rádio, se liquefizeram com o advento da internet. O mundo passou a caber na tela do computador e, mais recentemente, nos nossos celulares. O público e o privado se fundiram, o negócio e a opinião se misturaram e os usuários tornaram-se também produtores, dando origem ao que se chama atualmente de “produsers” (junção das palavras produtores com utilizadores). As crianças e jovens foram classificados como tais, para o entusiasmo de uns, que entendem que, dessa maneira, estão se tornando pessoas com um maior potencial de participação e protagonismo democrático, e ceticismo de outros, que questionam que tipo de participação seria essa, e em que medida ela garantiria o exercício da cidadania por parte desse público.

As fronteiras antes tão claras nos meios de comunicação com os quais estávamos acostumados como a TV, os jornais, o rádio, se liquefizeram com o advento da internet

Esse papel duplo e simultâneo nas redes tem rendido muitos debates. Recentemente, em sua coluna para a Folha de S.Paulo, Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro,propõe a criação de um outro termo: “um neologismo em inglês como “usered”, mistura de “user” com “used”. Ou, em português, “usuado”, para se referir a quem usa, mas também é usado”. Isso porque, como bem observa: “O termo usuário dá a impressão de alguém que usa alguma coisa. No sentido original e romântico da palavra, é quem se senta na frente do computador para fazer algo. Só que no mundo de hoje não é o usuário que usa a tecnologia, mas é utilizado por ela (...) no mundo de hoje, em que a tecnologia, sensores e câmeras estão em toda parte coletando dados, é muito mais fácil ser utilizado do que utilizar. Não importa mais se você está logado ou não. Você não é só usuário do seu smartphone, mas está sendo utilizado por ele”, conclui. A questão da educação para as redes tem tudo a ver com a necessidade de percebermos o nosso papel nelas, como “produsers” ou se achar melhor, como “usuados”. Que tipo de participação estamos tendo? E qual queremos ter?

Responder a essa questão está longe de ser simples e nem permite uma resposta imediata. É necessário refletirmos com a atenção e a profundidade que o assunto exige, levando em consideração algumas questões que definem a nossa postura nas redes sociais. A primeira delas é que é fundamental que compreendamos o que o professor e escritor inglês David Buckingham, especialista em mídias, chama de “capitalismo digital”, ou seja, o modelo de negócios das plataformas está longe de ser inclusivo e democrático, e como qualquer outro negócio, prevê apenas lucro. Nesse caso, o lucro vem de nós mesmos, “usuados”, nossos dados são o grande capital dessas mídias, o que a escritora Shoshana Zuboff denominou mais especificamente de "capitalismo de vigilância". Compreender esse modus operandi já nos garantirá, logo de cara, que não tenhamos grandes ilusões de que teremos uma participação criativa e verdadeiramente protagonista nas mídias sociais. Os meios são a mensagem, já dizia Marshall McLuhan, o que faz com que nossa comunicação ali se paute pelo que as redes esperam (e ganham) de nós.

Isto posto, a outra importante reflexão que devemos fazer é sobre a diferença entre interatividade e participação. Ao contrário do que muitos pensam, elas não são sinônimos. Como bem define o estudioso de mídias americano Henry Jerkins, “a interatividade é propriedade da tecnologia, enquanto a participação é propriedade da cultura”. O que quer dizer que a participação deve ser um projeto educativo, de construção de cidadãos conscientes de seus direitos, possibilidades de atuação social, de seus deveres e compromissos consigo mesmos e com o seu entorno. Os cliques, likes e comentários não passam do que os pesquisadores de mídias chamam de “pequenos atos de envolvimento” que, como diz o próprio termo, dispensa maiores comentários.

A meu ver, a educação para as redes deve focar na formação dos educadores para serem mediadores dessa participação das crianças e jovens nas redes sociais, entendendo que ser protagonista nelas tem a ver com muito mais do que produzir narrativas e interagir nas plataformas por meio de comentários, memes e que tais, mas sobretudo, com ser capaz de produzir conteúdos relevantes, criativos e principalmente que façam sentido para quem os produz e para a comunidade no qual se está inserido. É fundamental que essas temáticas sejam a expressão de quem as produz e seu contexto. Participar das redes sociais deve incluir especialmente, o exercício de ouvir e respeitar o outro, sem o qual não se pratica o diálogo, algo tão fora de prumo nesse ambiente. A construção das contranarrativas nesses meios é um dos pilares da educação midiática e fará com que possamos avançar da mera esfera do consumo para o desenvolvimento de competências e habilidades que nos permitam viver com mais justiça, ética e sustentabilidade na era digital.

Januária Cristina Alves é mestre em comunicação social pela ECA/USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira, coautora do livro “Como não ser enganado pelas fake news” (editora Moderna) e autora de “#XôFakeNews - Uma história de verdades e mentiras”. É membro da Associação Brasileira de pesquisadores e Profissionais em Educomunicação - ABPEducom e da Mil Alliance, a Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco.

Fonte: https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2022/Por-que-%C3%A9-importante-educar-para-as-redes-sociais  - Imagem da Internet

Antonio Risério e o falso fundamentalismo identitário

Maria Letícia Puglisi Munhoz*

https://www.nexojornal.com.br/incoming/imagens/protesto.jpg14/alternates/TOPO_ENSAIO_1920/protesto.jpg

A busca por uma sociedade mais igualitária pelas vias democráticas jamais pode ser associada ao fundamentalismo

O artigo de Antonio Risério publicado na Folha de S.Paulo, em 15 de janeiro, tem trazido muita indignação porque aborda temas sérios e importantes que merecem debates éticos e profundos, e ao tratá-los maneira superficial, inconsequente e com interpretação distorcida dos fatos, chega a conclusões bastante questionáveis, quando não reforçam a violência sistêmica — a que somos submetidos e que proporcionamos — que o próprio texto diz querer evitar.

Com efeito, o autor do artigo escreve: “ao afirmar uma identidade, não podemos deixar de distinguir, dividir, separar. Não existe identitarismo que não traga em si alguma espécie de fundamentalismo”. É verdade que ao afirmar uma identidade está se trazendo à baila a ideia de que há diferentes formas de identidade social. E que o grande número de pessoas que vivem em nossa sociedade se identifica mais com uma forma ou outra de vivenciar a experiência social. A diferenciação em si não gera necessariamente uma violência, e não podemos negar que essencialmente somos iguais e diferentes; baseando-se em Caetano Veloso, de perto, não somos iguais.

Mas essas diferentes identidades sociais não foram criadas pelos movimentos identitários. Muito pelo contrário. São fruto de uma longa história de poder e dominação de uns grupos sobre outros que, já há muito tempo, foram distinguidos, divididos e separados, e que vivem em uma guerra quase silenciada até os dias atuais. Alguém acertaria dizer que os europeus colonizadores da América não se distinguiram dos indígenas e, com base nessa diferenciação, os elegeram para serem assassinados na dominação de suas terras e culturas? Tem alguma sensatez dizer que um grupo de indígenas que vem hoje denunciar as consequências danosas dessa violência e reivindicar seus direitos estaria dividindo, separando e beirando o fundamentalismo? Se há fundamentalismo identitário nesse caso, o mais radical seria o dos europeus brancos, não? Não foram eles que severamente distinguiram-se dos africanos negros para escravizá-los? Os homens, ao proibirem as mulheres de entrar em escolas e as considerarem incapazes de votar, não estariam já as diferenciando, separando? As instituições que proíbem a entrada de homossexuais e que os assassinaram durante a história não são os primeiros a estarem distinguindo, dividindo, separando?

Definitivamente, o movimento identitário não vem distinguir, dividir, separar. Ao contrário, vem juntar, vem querer juntar-se a todos, para que vivamos juntos com dignidade.

Os protestos identitários e as políticas identitárias não ocorrem por mero deleite daqueles que os alertam. Não são meramente exercícios de exaltação ao ego, carência afetiva ou necessidades emocionais de aparecer. São formas democráticas de buscar a igualdade de acesso às riquezas da humanidade e ao exercício dos direitos fundamentais, a partir do reconhecimento pela sociedade e suas instituições da relação entre a desigualdade social e as características específicas daquele grupo. Não se está falando do reconhecimento da diferença de identidade social em si, mas do grau de desigualdade social que esse grupo vivencia na dinâmica das relações sociais, em razão dessa diferença.

As diferentes identidades sociais são fruto de uma longa história de poder e dominação de uns grupos sobre outros que, já há muito tempo, foram distinguidos, divididos e separados

Atualmente, é difícil imaginar que um grupo de homens baixinhos consiga convencer a sociedade de que essa sua característica é o fator que determina um menor nível econômico desse grupo, porque não há essa relação. Mas grupos de pessoas como mulheres, negros, negras, indígenas, LGBTI+, idosos, pessoas com deficiências, imigrantes, etc. apontam essa relação, corroborada com as estatísticas que conhecemos. É essa relação que dá fundamento aos direitos especiais e políticas afirmativas, dentro de um sistema de direitos em que todas as pessoas, independente do grupo identitário a que pertença, têm obrigações e direitos. A busca por uma sociedade mais igualitária pelas vias democráticas jamais pode ser associada ao fundamentalismo.

O autor quer nos chamar a atenção para atos violentos isoladamente praticados por indivíduos negros(as) contra a população branca, judaica e asiática. Veja, a política identitária não é um salvo-conduto para que as pessoas possam violar as normas que regulam as relações de todos os indivíduos em sociedade. Ou seja, não é porque uma pessoa é transsexual que tem impunidade para agredir um homem branco, com base no fato de que esse homem representa para ele o grupo identitário que pratica a violência sistemática que sofre. Assim, toda vez que julgamos um único indivíduo pelas características que lhes são atribuídas pela sociedade ao grupo de seu pertencimento identitário, estamos atuando com preconceito. E se agimos com esse indivíduo a partir desse julgamento estamos atuando de maneira discriminatória, violenta, produzindo danos psicológicos tanto a ele quanto aos membros de seu grupo, atos esses passíveis de punição pelo sistema legal brasileiro.

Mas isso não é racismo. Racismo não é o ato discriminatório praticado na relação entre duas pessoas ou entre pessoas e um coletivo. E também não é neorracismo. Racismo – relacionado com a raça – e neorracismo (ou racismo cultural, definido pela dominação de um grupo sobre o outro pela motivação da cultura, origem e traços identitários) – são ideologias que têm como consequência a prática sistemática de protocolos institucionais e condutas que, de tão naturalizadas pela cultura, tornam-se quase desapercebidas àqueles que as praticam; e necessariamente geram a desigualdade social entre grupos de uma mesma sociedade. Há uma nítida diferença entre uma agressão contra a população branca e um sistema de dominação de um grupo sobre outro, e, mais ainda, entre as denúncias fundamentadas do movimento negro a respeito da violência racista praticada pela branquitude contra a população negra. Negar-lhes a oportunidade de apontar com veemência essa situação é negar-lhes o direito de voz, previsto na nossa democracia.

Portanto, a questão não é discutir se a população negra tem poder ou não para promover transformações sociais – esperamos mesmo que tenha e venha a ter. O que se leva em conta são os aspectos desse racismo estrutural. É por tudo isso que não faz sentido falar em racismo de negros(as) contra brancos(as). E nem a questão levantada pelo autor: “O neorracismo é norma?” Diz ele: “É norma (...) quando passamos da política da busca da igualdade para a política da afirmação da diferença”.

O problema da desigualdade não são nossas diferenças em si, mas aquilo que se atribui de valor e hierarquia entre essas diferenças. Uma política de busca pela igualdade jamais será bem-sucedida se não se atentar às diversidades, na medida exata para que alcancemos a igualdade. Isso porque a norma hoje é esta: da forma como nos comportamos, nossas instituições e nossas políticas, criando padrões generalizados, estamos perpetuando o racismo, o neorracismo e gerando desigualdade. Se publicamos um edital de convocação para uma atividade profissional a ser realizada no centro de São Paulo e o requisito para a seleção for “morar perto”, não estaremos realizando um processo seletivo justo, igualitário, cujo critério é somente o mérito, pois se excluem nessa chamada todas as pessoas que moram em locais mais periféricos, que, em sua maioria, são negras, enquanto que a maioria das pessoas que moram próximo ao centro é branca. Ora, aquilo que pareceu um critério neutro, não racializado, na verdade carrega em si o poder de gerar um grande efeito discriminatório. O padrão discrimina.

Maria Letícia Puglisi Munhoz é formada em psicanálise e direito pela PUC-SP (Pontífica Universidade Católica de São Paulo), tem mestrado e doutorado pela USP (Universidade de São Paulo) na área de branquitude e diversidade. Atua como advogada na área de discriminação, treinamentos e políticas de diversidade e é professora na Sociedade Paulista de Psicanálise. É autora do livro “Racismo na interpretação das leis – uma análise sobre a influência branquitude na aplicação da legislação relativa à discriminação racial” (Lumen Juris) Fonte: https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2022/Antonio-Ris%C3%A9rio-e-o-falso-fundamentalismo-identit%C3%A1rio?utm_source=NexoNL&utm_medium=Email&utm_campaign=anexo

domingo, 23 de janeiro de 2022

Neuralink, de Elon Musk, se prepara para implantar chips em cérebros humanos

  Por Redação Link - O Estado de S. Paulo

Fundada por Musk, Neuralink está contratando diretor de testes clínicos 
Fundada por Musk, Neuralink está contratando diretor de testes clínicos

Startup anunciou que está contratando um diretor de testes clínicos

Neuralink, empresa criada em 2016 pelo bilionário Elon Musk dedicada a chips cerebrais, está se preparando para realizar os primeiros implantes em seres humanos. No ano passado, a startup revelou os primeiros resultados de pesquisas realizadas com macacos - em um vídeo, é possível ver o macaco Pager jogando Pong sem precisar de um joystick, executando os comandos apenas com o poder da mente.  

Recentemente, a empresa postou um anúncio classificado no qual busca um "diretor de testes clínicos". Na descrição do cargo, a empresa diz que o contratado "trabalhará de perto com alguns dos médicos e engenheiros mais inovadores, além de trabalhar com os primeiros participantes de teste clínico da Neuralink". Conhecido por exagerar em suas promessas, Musk já afirmou que espera que seus implantes possam voltar a fazer tetraplégicos voltarem a andar. 

"Temos a chance de restaurar a funcionalidade integral do corpo de alguém que teve uma lesão na coluna. A Neuralink está trabalhando bem com macacos e estamos fazendo muitos testes e confirmando de que é muito seguro e confiável. E o dispositivo da Neuralink também pode ser removido com segurança", disse ele em evento do Wall Street Journal

A maior aposta da Neuralink é no uso médico. Segundo a empresa, a tecnologia poderia proporcionar uma "simbiose" entre máquina e mente humana, permitir armazenamento e reprodução memórias, curar paralisia, cegueira, perda de memória e outras doenças nervosas — ou fazer coisas simples, como trazer até você um Tesla por meio de telepatia ou fazer tocar uma playlist direto no seu cérebro.

Antes dos testes em macacos, a companhia havia também revelado uma demonstração que previu as ações de uma porca, chamada Gertrude, que carregava um implante no crânio. Cientistas independentes, porém, já alertaram que os sucessos em animais de laboratório podem não se traduzir em humanos e que testes em humanos seriam necessários para determinar a promessa da tecnologia.

O anúncio da Neuralink não dá datas para que os primeiros testes em humanos tenham início. Além do diretor, a empresa está contratando um coordenador de testes clínicos. Os cargos serão ocupados no laboratório da startup em Fremont, na Califórnia. 

Técnica diferenciada

Uma das técnicas que diferencia a Neuralink é que ela coloca linhas flexíveis de eletrodos nas proximidades dos neurônios, as minúsculas células que são os pilares básicos do cérebro.

Os fios são colocados com o uso de finas agulhas, e um sistema de visão computacional ajuda a evitar os vasos sanguíneos na superfície do cérebro. A técnica envolve a inserção de um feixe de fios, cada um com cerca de um quarto do diâmetro de um fio de cabelo humano.

Os fios flexíveis são, na verdade, sanduíches finos de um material parecido com celofane que isola fios condutores que ligam uma série de minúsculos eletrodos, ou sensores, muito semelhantes a um fio de pérolas.

Eles podem ser inseridos em diferentes locais e em diferentes profundidades, dependendo do experimento ou aplicação. Pesquisas médicas e terapia podem se concentrar em diferentes partes do cérebro, como centros de fala, visão, audição ou movimento. /COM INFORMAÇÕES DO NEW YORK TIMES 

Fonte: https://link.estadao.com.br/noticias/empresas,neuralink-de-elon-musk-se-prepara-para-implantar-chips-em-cerebros-humanos,70003958922

O que é ser homem hoje?

 Por Amália Safatle — Para o Valor, de São Paulo

Maria Homem diz que estamos no ápice de um movimento de desconstrução do patriarcalismo  — Foto: Silvia Zamboni/Valor 

Maria Homem diz que estamos no ápice de um movimento de desconstrução do patriarcalismo — Foto: Silvia Zamboni/Valor

Discussões sobre equidade, rejeição à dominação do homem branco e hétero ganham força em diversos segmentos da sociedade

21/01/2022

A pauta conservadora de costumes ganhou muitos porta-vozes nos últimos anos, mas, ao mesmo tempo, uma parte da sociedade tem se movido na direção contrária, impulsionada por movimentos refratários à chamada masculinidade hegemônica, ou seja, a dominação do homem branco, hétero e sem deficiência nas instâncias de poder da sociedade.

A discussão sobre equidade e diversidade ganhou contornos mais firmes e passou a ocupar ambientes empresariais notadamente nos últimos dois anos - o período da pandemia. Para alguns dos especialistas ouvidos nesta reportagem, isso significa mais que uma coincidência: vê-se clara correlação com o contexto da covid-19, que acelerou transformações já em curso, ao evidenciar a necessidade do cuidado com os mais vulneráveis e desvelar dados sobre o aumento explosivo da violência contra as mulheres, acometidas também pela sobrecarga de trabalhos - o que colocou os homens na berlinda.

“Estamos no ápice de um movimento global que explodiu nos últimos 50 anos, de desconstrução do patriarcalismo e de diluição da sociedade binária, dividida entre homem e mulher. Cada vez mais usamos expressões como fluxo, gênero fluido, modernidade líquida. E, com a pandemia, tudo o que estava oculto, recalcado, vem à tona de maneira mais clara”, observa a psicanalista Maria Homem, que lecionou no fim de 2021 o curso Masculinidades.

Fábio Mariano da Silva diz que a pandemia expôs a importância da política do cuidado — Foto: Divulgação

Fábio Mariano da Silva diz que a pandemia expôs a importância da política do cuidado — Foto: Divulgação

“A política do cuidado, exposta na pandemia, é uma questão fundamental para alterar a relação de equidade e a relação com o outro”, explica Fábio Mariano da Silva, doutor em ciências sociais e professor do curso Masculinidades Contemporâneas da PUC-SP. Ele pretende lançar no primeiro semestre de 2022 um livro também intitulado “Masculinidades”, como parte da coleção Femininos Plurais, coordenada pela filósofa Djamila Ribeiro. Segundo os especialistas, a expressão no plural é definidora desse debate.

Para o fundador e diretor de pesquisa e desenvolvimento no Instituto Papo de Homem, Guilherme Valadares, não há discussão séria sobre o tema sem envolver uma perspectiva múltipla, capaz de levar em conta não apenas gênero, mas também raça, orientação sexual e classe. “Deixar isso de lado significa manter uma imensa maioria de líderes brancos nas organizações, trazendo mais mulheres, mas deixando os demais grupos minorizados para trás”, diz.

O clipe do compositor pop Tiago Iorc “Masculinidade” (no singular), lançado em novembro e com mais de 2 milhões de visualizações no YouTube, suscitou elogios mas também críticas nas redes sociais, entre as quais usar clichês do tal homem desconstruído, que se coloca como vítima de uma situação, e por falar apenas da perspectiva do homem branco hétero. “Homens discutem a si mesmos sempre do seu lugar. Mas, no momento em que o vídeo foi lançado, diversas pessoas me perguntaram o que eu tinha achado. São pessoas que não vejo nos meus grupos usuais, então isso mostra o lado positivo da repercussão, de colocar o tema em pauta”, conta Silva.

“Mais importante do que ser um homem desconstruído é sustentar uma prática antimachista”, diz afirma Pedro Ambra, da PUC-SP

Diante da pergunta se surge um “novo homem”, Maria Homem diz que o que existe são novas possibilidades de ser. “Entre um homem biologicamente homem até um sinteticamente homem, que usa hormônios, existem todas as gradações possíveis. Isso mostra que todos os grandes conceitos em ética e em estética estão se desmontando. Não existe mais resposta para o que é ser homem, ser mulher, ser branco, rico, negro, bonito, legal e assim por diante.”

Mas a ideia de que se pode ser o que quiser não é tão simples e tampouco isenta de sofrimento. Segundo a psicanalista, na medida em que o mundo estruturado em hierarquias de poder e definições de papéis derrete, a reação conservadora é de angústia, por vezes seguida de violência. “Por isso chamamos esse movimento de reacionário. Os conservadores não precisavam ser tão conservadores quando o mundo estava com eles. Agora, precisam”, afirma ela.

O embate entre as forças conservadoras e progressistas ocorre hoje, segundo a filósofa, poeta e psicanalista Viviane Mosé, porque a diversidade vai no fulcro na estrutura de poder da sociedade, ou seja, desafia aquele que manda, o patrão, o de cima, o pai. “As mulheres, por exemplo, não aceitam mais o papel que lhes foi conferido. Isso é ponto e não tem mais retorno.”

Guilherme Valadares diz que ainda são as mulheres que contratam seu instituto  — Foto: Claudio Belli/Valor

Guilherme Valadares diz que ainda são as mulheres que contratam seu instituto — Foto: Claudio Belli/Valor

Segundo ela, isso ocorre porque, diante das diversas crises fabricadas por quem esteve historicamente no comando - a ambiental, a social, a econômica, a sanitária -, o poder vigente se enfraqueceu, começou a desabar, e quem estava oprimido passou a crescer. Ao mesmo tempo, o mundo, incluindo o setor produtivo, precisa de inovação para lidar com todas essas crises. “Se a empresa não inova, não avança. Quem faz inovação é quem cria. E quem cria é bicho solto, que tem a cabeça ‘fora da caixinha’. As pessoas que ainda vivem de PowerPoint não têm mais o que fazer neste novo mundo e reagem”, explica.

No campo do contra-ataque, surgem cursos de esposas submissas em grupos evangélicos brasileiros, movimentos nas redes sociais como o TradWives e a Darling Academy, que ensinam as mulheres a se comportarem como nos anos 1950, e até a proposta de ensino de masculinidade na China, onde o governo pretende estimular a educação física para formar lideranças másculas e evitar trocas de gênero. Uma busca no Google Trends mostra a clara  reação de grupos conservadores, a exemplo do MGTOW, sigla para Men Going Their Own Way (homens seguindo o próprio caminho). Em uma comparação traçada desde 2008, é possível notar que o interesse pelo termo MGTOW no YouTube americano ultrapassa a expressão “feminismo” a partir do fim de 2018. No Brasil, a busca pela sigla misógina explode a partir de 2019, seguida por uma competição acirrada com “feminismo”.

“Outro exemplo é aquela figura com cornos que representou a invasão do Capitólio [em 6 de janeiro], nos Estados Unidos, trazendo a ideia de que uma masculinidade quase pré-moderna precisaria voltar e se impor, articulada a discursos misóginos que são extremamente perigosos”, diz Pedro Ambra, professor de psicologia da PUC-SP e autor do livro “O que é ser homem? Psicanálise e história da masculinidade no Ocidente” (Annablume, 2015).

Mirian Goldenberg diz que o machismo não é vantajoso para o homem como se pensa — Foto: Divulgação

Mirian Goldenberg diz que o machismo não é vantajoso para o homem como se pensa — Foto: Divulgação

O livro de Ambra resulta de sua dissertação de mestrado motivada, segundo ele, pela constatação de que havia parcos estudos sobre masculinidade na psicanálise, o que lhe pareceu um problema e deu uma pista: talvez tivesse pouca coisa escrita a respeito do assunto por ainda acharem que o homem é algo universal - e o universal não precisa ser explicado, enquanto o diferente é a mulher, é o louco, é a criança.

Na sua pesquisa, que remonta à modernidade dos séculos XV e XVI, Ambra conclui que a crise da masculinidade não é prerrogativa do mundo contemporâneo, e sim permeia toda a História. Toda vez que há algum tipo de modificação social, com ampliação de direitos às custas da ameaça a determinado privilégio masculino, as explosões dos homens ficam mais evidentes, a fim de resgatar uma masculinidade supostamente perdida - o que o estudioso chama de “mito viril”. E, na medida em que esse discurso conservador é chancelado pela sociedade, sua radicalidade diminui e ele se difunde, dando a aparência de uma maior normalidade. “É um pouco o lugar em que o Brasil se encontra hoje”, diz. “Ao mesmo tempo que o discurso da masculinidade está em xeque, ele mostra toda a sua força, com sinais de que não vai sair de cena tão facilmente.”

A antropóloga Mirian Goldenberg, professora titular da UFRJ, não vê uma crise da masculinidade em si, mas sim dos modelos que associam o homem à superioridade, à violência, à agressividade e à competição. Não que esse questionamento vá trazer transformações para já. “Os discursos e comportamentos estão mudando, mas valores culturais não se alteram tão rapidamente. Por isso, ainda vemos a reprodução e até mesmo o fortalecimento de um modelo de masculinidade já superado”, explica.

“Estamos em plena guerra cultural, na qual se pretende tirar a subjetividade de cidadãos e estipular papéis. Isso é fortalecido por uma ministra [Damares Alves] que reproduz um pensamento fundamentalista e bíblico”, diz Fábio Mariano da Silva. O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos foi procurado pela reportagem, mas não respondeu até o fechamento da edição.

Se os estudos acadêmicos sobre masculinidade se mostraram escassos, como observou Ambra, os consultórios psicanalíticos ficaram cheios. Pesquisa nacional com mais de 40 mil pessoas, realizada em 2019 pelo Instituto PdH com a Zooma Inc., que deu origem ao documentário “O Silêncio dos Homens”, mostra que sete em cada dez homens dizem que foram ensinados na infância e adolescência a não demonstrar fragilidade. E também sete em cada dez declaram lidar com algum distúrbio emocional hoje.

“Na medida em que o conservadorismo avança, os homens passam a se movimentar: ou para reforçar esse padrão conservador, ou para questionar o lugar do qual não querem mais fazer parte”, diz Silva. É neste segundo campo que os chamados grupos reflexivos, que se valem de metodologias terapêuticas, passaram a pipocar pelo Brasil, com a finalidade de debater angústias e dilemas masculinos, e para cumprir judicialmente penas determinadas pela Lei Maria da Penha. Neste caso, foram mapeados 312 programas, iniciativas ou grupos voltados para homens autores de violência contra mulheres, segundo pesquisa de 2020 desenvolvida por Adriano Beiras e demais autores. Beiras é um dos criadores da Metodologia de Grupos Reflexivos de Gênero.

As iniciativas de caráter judicial se somam àquelas que surgem espontaneamente na sociedade. Foram listadas 129 no último levantamento do Instituto Papo de Homem, realizado em 2018 - número que, segundo Valadares, já mudou muito, pois toda semana ele diz receber mensagens de pessoas interessadas em montar um novo grupo reflexivo. Uma das movimentações mais significativas que ele observa hoje parte do ambiente corporativo.

O instituto - um desdobramento do portal Papo de Homem, com 1 milhão de acessos únicos por mês - realiza anualmente cerca de 100 palestras e treinamentos em organizações e atende por volta de 30 empresas, entre as quais Google, Unilever, Diageo, Gerdau, Bradesco, Ambev, Cargill e iFood. O tema em comum é o papel e a responsabilidade dos homens na equidade. Valadares informa que a maioria dos pedidos hoje é voltada para a gerência, diretoria e alta liderança. “Quem geralmente nos contrata nas empresas ainda são as mulheres. Fomos contratados por homens apenas duas vezes”, diz.

No entanto, mais de 80% dos homens atendidos afirmaram que gostariam de ser mais capacitados para dialogar sobre o tema em suas organizações. Se há cinco anos os pedidos mais comuns eram de palestras de sensibilização para o público aberto da empresa, de dois anos pra cá o quadro mudou: houve aumentos nos pedidos para realizar ações de aprofundamento e continuidade, com treinamentos mais intensos e ação de longo prazo. Além disso, agora há mais grupos de homens interessados em equidade que já nascem dentro das empresas, o que Valadares vê como um ótimo sinal.

No Memoh, negócio social que também promove grupos reflexivos em ambientes corporativos, cerca de 600 homens já foram atendidos desde 2017, segundo estimativa do fundador Pedro de Figueiredo. Hoje são três grupos por semestre, mais diversificado que no início graças à mudança tecnológica forçada pela pandemia, ao permitir a participação on-line de gente fora do círculo social de Figueiredo - “um cara branco, de classe média, que estudou”, como se descreve.

Foi ao participar do Carnaval de rua que Figueiredo, então funcionário do marketing de uma multinacional, acabou se engajando na causa de movimentos feministas. Daí a montar o Memoh foi um pulo. “Comecei a me tornar um ‘homem incomodado’, como a gente costuma dizer, quando me dei conta de como contribuía para perpetuar a violência baseada em gênero. Nunca me considerei um babaca ‘more’, mas mesmo eu e meus amigos queridos apresentamos comportamentos que não são legais, para dizer de uma maneira ‘soft’. Como todo homem, comecei errando muito. Estava mais preocupado com o que as mulheres tinham ou não de fazer do que olhar para o meu umbigo”, conta.

Ele brinca que participar dos grupos e atividades do Memoh não confere um “selo do Inmetro de cara legal”, de Rodrigo Hilbert, de Lázaro Ramos. “Não existe fórmula mágica para você ser o ‘homem desconstruído’. Muita gente começa a olhar para esse debate de masculinidade como uma possibilidade de adotar um ‘lifestyle’. Assim como tem o do surfista, o cara do mercado financeiro, e agora o do homem sensível. Mas o ponto não é sobre um estilo de vida, é sobre um compromisso ético com essa pauta há mais de meio século debatida e confrontada pelas mulheres”, diz.

“Mais importante do que ser um homem desconstruído”, afirma Pedro Ambra, “é sustentar uma prática antimachista que vai desde passar o rodinho na pia até apoiar movimento de mulheres sem necessariamente buscar um protagonismo”. Em seu entendimento, rever conceitos de masculinidade é algo que fará bem aos próprios homens, na medida em que abandonar o mito viril pode ser libertador.

 

No entanto, ele diz acreditar que a transformação nas relações de gênero não deve passar apenas por uma modificação de postura pessoal. “Isso é importante para cada indivíduo, mas o mais necessário é mudar a estrutura. Como se eu pudesse de fato me desconstruir e me transformar totalmente, a despeito da sociedade [que mantém uma estrutura patriarcal]. A coisa me parece um pouco mais complexa”, diz.

Um dos incômodos de Figueiredo, do Memoh, é o fato de que até hoje as mulheres, além de trabalhar e muitas vezes chefiar a família, dão o suporte para que a sociedade funcione, fazendo o cuidado das casas, das crianças e dos idosos - enquanto os homens estão na rua criando suas redes de networking e com mais tempo de se desenvolverem profissionalmente.

Mirian Goldenberg se surpreende que os homens brasileiros ainda usem a expressão “ajudar” nas tarefas domésticas, enquanto em outras sociedades, como a alemã, a sueca e a espanhola, objeto de suas pesquisas, eles naturalmente fazem compras, cozinham, lavam e buscam os filhos, sem que a mulher tenha que ficar dizendo o que precisam fazer. “Lá existe um acordo entre cada casal. As mulheres estudam, trabalham e querem um parceiro, um companheiro para a vida. E não um ajudante.”

Mas é um engano, na visão da antropóloga, pensar que o machismo pode ser bastante vantajoso para o homem ao cultivar condições privilegiadas como essas. No livro “A invenção de uma bela velhice” (Record, 2020), ela explora as diferenças entre homens e mulheres e mostra como o modelo de masculinidade também produz sofrimento nos homens, levando-os ao alcoolismo e à depressão, principalmente quando envelhecem. “Quando eles saem do mercado de trabalho, o grande pânico não é o de perder o trabalho: é perder os colegas, o prestígio e a posição social. Quando saem, eles vão para onde? Vão para casa, um espaço que nunca dominaram.”

Mas Goldenberg também vê casos de homens que, com o envelhecimento, tornam-se capazes de descobrir um mundo que não conseguiram viver enquanto jovens: o do afeto, da família e do cuidado. “No entanto, são pouquíssimos os que conseguem fazer disso um projeto de vida, porque, na cultura brasileira, o homem que não está ativo no mercado de trabalho é como se não existisse.”

Mosé, que diz já ter sido criticada por mostrar os homens como vítimas do próprio patriarcado, reafirma que de fato eles sofrem de uma opressão que individualmente não criaram, e que resulta de um profundo processo histórico. Além dos indivíduos, a sociedade também padece ao assumir características masculinas. Segundo ela, é o mundo competitivo que não levou vacinas para a África, assim como é o mundo agressivo que faz girar a economia às custas da destruição ambiental. “A visão machista não vai encontrar o caminho para esses problemas. E nem a feminista. A que vai encontrar soluções é a da diversidade”, diz.

Fonte: https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2022/01/21/o-que-e-ser-homem-hoje.ghtml