sábado, 16 de junho de 2018

Tema sem muita variação (1)

 Lya Luft*
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 Família, escrevi várias vezes, é aquele terreno onde começamos a nossa trajetória: se for bom e amoroso apesar das naturais discordâncias, teremos mais chance de caminhar com segurança e fazer escolhas não muito trágicas.

Na semana passada, falei em Gramado para um público de uns 800 advogados, advogadas e juízes, num congresso do Instituto Brasileiro de Direito de Família.

Tenho aceitado raros convites para palestras, mas geralmente me fazem bem, pelo carinho, pelo debate e a troca de ideias e valores, pela renovação que me proporcionam. O público do congresso era excepcionalmente preparado e participante. Qual o tema que propuseram, já que nada entendo de Direito? Obviamente, "família". Optei por "Família em transformação", de que tanto hoje se fala. 

O assunto "família" é um tema eterno, sobre o qual escrevi vários romances e artigos. Mesmo com as mudanças vertiginosas dos valores, usos e costumes da sociedade, a essência é sempre a mesma: afeto, respeito, dificuldade de convivência, autoridade e amor e derrubada de preconceitos - esta talvez a mais complicada, porque em nada ajuda sairmos feito iconoclastas, quebrando tudo. 

Tenho uma amiga, já escrevi, professora universitária nos Estados Unidos, professora Jenny Boylan, casada, dois filhos adultos, que há muitos anos era professor James Boylan. Figura que inspira respeito e afeto, editou alguns livros e criou, com sua amiga (ex-esposa), uma família como poucas em matéria de amor, camaradagem e solidariedade. 

É uma história longa e complicada, que deu certo no final. Mas não é o habitual, sobretudo entre nós, país do samba, do futebol e do preconceito. Eu poderia acrescentar da malandragem, do atraso, da miséria, mas também do combate atual contra a roubalheira institucionalizada. Levaremos anos, décadas, para podermos voltar a confiar em autoridades, líderes e em nós mesmos. 

Família, escrevi várias vezes, é aquele terreno onde começamos a nossa trajetória: se for bom e amoroso apesar das naturais discordâncias, teremos mais chance de caminhar com segurança e fazer escolhas não muito trágicas. Se for frágil, onde predominam a indiferença, o rancor, a violência, vamos tropeçar mais, com mais chance de quebrar a cara e a alma. 

 Nunca foi fácil viver numa família. (Sem ela, em geral, pior ainda.) A relação entre gerações 
sempre produziu conflito.

Nesse congresso sobre Direito de Família, o que me impressionou, além da organização e qualidade, foi o interesse, e a preocupação, daqueles especialistas por qualidade de vida, convívio, educação e, digamos, "felicidade" (sei que a palavra anda desmerecida) nas famílias. A dificuldade entre as gerações. A perplexidade e o sofrimento dos pais com relação a droga, bebida, precocidade sexual e diversidade de gênero (a mais complexa). 

Nunca foi fácil viver numa família. (Sem ela, em geral, pior ainda.) A relação entre gerações sempre produziu conflito. O que mais se percebe, agora, é a dramática invasão de sugestões, "ensinamentos", ordens quanto à "liberdade" da meninada. Começamos a parecer - mais do que pais ou professores - réus para quem às vezes pretensos especialistas apontam um dedo fulminante. Sendo o primeiro quesito a derrubar aquele sobre o qual escrevi na semana passada ou anterior - a autoridade. Porém, sem um elemento que sirva de apoio e estímulo, ombro, colo, escuta boa, isto é, sem limites, sem regras, sem confiança, nunca amadureceremos. Não seremos capazes de formar positivamente nossa vida, nossa mente, nossa saúde, nosso grupo, nosso país. Eternas crianças mal-educadas, confusas, queixosas, transformando em problema por vezes trágico esse núcleo chamado "família": em que nascemos e que um dia, talvez, vamos construir. 

Mas... como obter e exercer minimamente essa "autoridade"? Na semana que vem, a gente fala.
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* Escritora.
Imagem da Internet:  "A Família Soler" - Pablo Picasso Pintor e escultor espanhol (1881-1073)
Fonte:  http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=05e41bc57a80ca4bbef3c523cc0d40d9 16/06/2018

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Gianetti: “O ritmo de retomada desaponta, mas não sei onde estaríamos com Dilma”

Eduardo Giannetti
Eduardo Giannetti | Economista e Filósofo

Economista e filósofo assessora Marina Silva, a quem julga a mais comprometida com o país.

Para Eduardo Giannetti, Temer tinha um bom plano de Governo, mas só faz sobreviver desde 2017

Quando lançou em 2016 o livro Trópicos Utópicos (Companhia das Letras), Eduardo Giannetti da Fonseca (Belo Horizonte, 1957) idealizava um Brasil que se apresentasse como alternativa aos modelos já conhecidos e uma nação que, pautada por seus próprios valores, percorre seu próprio caminho rumo ao desenvolvimento. O economista e filósofo retoma e se aprofunda no tema ao lançar agora O elogio do vira-lata e outros ensaios, uma coletânea de textos escritos entre 1989 e 2018 que reflete as mudanças pessoais pelas quais passou: "Eu era um jovem pesquisador com a pretensão de contribuir com o debate de ideias para a modernização do Brasil. Achava que o país precisava de uma injeção de liberalismo clássico", diz ele. "Hoje, me preocupa mais a construção de um Brasil que não seja uma cópia piorada dos países do norte. Me instiga a construção de uma originalidade brasileira diante de um mundo ocidental que não oferece mais sonhos e promessas de mudança genuína".

Assim, a primeira parte do livro, intitulada Enredos Brasileiros, fala sobre aspectos da psicologia brasileira, grandes questões nacionais e suas preocupações com a cultura. Ele aborda, por exemplo, o conhecido complexo de vira-lata do brasileiro e faz uma defesa de sua "condição de vira-lata". Também aborda o que chama de paradoxo do brasileiro. "Cada brasileiro, quando olha para si, se sente muito diferente e acima de tudo isso que aí está. Mas todos nós juntos somos exatamente tudo isso que aí está. É como se o brasileiro fosse o outro, sempre, e ninguém se reconhece no coletivo que somos nós juntos", explica.

Giannetti é também, junto com o economista André Lara Resende, colaborador da pré-candidata Marina Silva (REDE). Ao EL PAÍS, argumenta que a greve dos caminhoneiros mostrou que "a sociedade brasileira não tolera mais um sistema de governo em que o Estado dá a entender que a sociedade existe para servi-lo, e não o contrário". Ele critica uma política de preços da Petrobras baseada em reajustes diários de acordo com a cotação do dólar e os preços internacionais do Petróleo, algo "tecnocrática e de desconhecimento da vida comum".

Pergunta. Um dos seus textos no livro que você acaba de lançar é uma resenha de um livro do Roberto Mangabeira Unger sobre o que a esquerda deveria fazer. O que acha que ela deveria fazer?
Resposta. A minha grande bandeira, aspiração, é um Brasil em que a condição social, a condição de gênero, a condição de etnia em que a pessoa nasce não a prejudique de nenhuma maneira. Que ela tenha absoluta igualdade de oportunidade para a formação de suas capacidades de modo que ela tenha uma vida a mais plena possível. Estamos muito longe disso no Brasil, mas o caminho é a igualdade de oportunidades. Não me incomoda que as pessoas tenham desigualdade na chegada, desde que a igualdade tenha existido na partida. As pessoas tem valores diferentes, tem sonhos diferentes... Nem todo mundo, felizmente, está disposto a sacrificar tanto a vida em nome de valores financeiros e econômicos. As pessoas são diferentes e é bom que assim seja.

P. Mas a desigualdade na chegada tem que ser tão grande como é hoje no Brasil?
R. A desigualdade na chegada brasileira é totalmente viciada e deturpada por uma obscena desigualdade na partida. E isso envenena as relações sociais no Brasil. Elas são tóxicas. A maneira de corrigir isso é buscado uma equalização da igualdade de oportunidades. E temos que concentrar tudo o que for possível para corrigir essa distorção que nos acompanha desde nossa origem como nação. Mas, hoje, o estado brasileiro é um grande concentrador de renda.

P. Você está assessorando outra vez a Marina Silva [pré-candidata a presidência pela REDE]? Que papel terá em sua campanha?
R. Eu me dispus a ajudar na formulação de propostas. Estou contribuindo com o que eu puder para que isso aconteça. Fiquei muito feliz de estar trabalhando nesse projeto com uma pessoa que admiro enormemente, o André Lara Resende. Ele também está se dispondo com a formulação de propostas e ideias que possam ser implementadas por um Governo Marina.

"A democracia racial é uma ideologia criada para encobrir uma realidade objetiva de descriminação e de racismo. Agora, 
como ideal e como valor, acho que é por aí"

P. No que diferencia a Marina Silva de outras candidaturas consideradas liberais, como a de Geraldo Alckmin (PSDB), Henrique Meirelles (MDB) ou João Amoêdo (NOVO)?
R. Estou acompanhando e colaborando com a Marina Silva desde 2010. Uma liderança como a dela é rara em qualquer lugar do mundo, porque é calcada em compromisso ético. Nenhum outro líder político brasileiro tem um grau de comprometimento com ética como a Marina Silva. Ela é a única capaz de trazer para o centro da agenda duas questões definidoras do nosso futuro: educação e meio ambiente. Economia é meio, não é fim. O importante é deixar nossa economia organizada para que nós possamos concentrar nossas atenções, como governo e como nação, naquilo que definirá nosso futuro. Não vejo ninguém mais apto e preparado a fazer esse projeto de estadista, de futuro, e com os valores corretos, do que Marina Silva.

P. Acabamos de sair de uma longa greve de caminhoneiros. Que balanço e que lições você faz dessa paralisação?
R. Me dei conta nesses últimos dias das semelhanças entre junho de 2013 e maio de 2018. São movimentos que começam localizados em torno de questões aparentemente muito setoriais: os 20 centavos, os 46 centavos. Transporte. São movimentos que rapidamente ganham a sociedade. A adesão é fortíssima e rápida, e acho que as novas tecnologias têm papel nisso. O sentimento todo da sociedade se mobiliza. E realmente toma conta do cenário. Não tem muita liderança centralizada, se espalha rapidamente e coloca o governo contra a parede. E depois tem uma dinâmica em que grupos minoritários radicais e violentos passam a tentar instrumentalizar o movimento. Os black blocs lá, e os pedidos por intervenção militar agora. A dinâmica é parecida. Por trás dos dois casos está um sentimento de que a sociedade brasileira não tolera mais um sistema de governo em que o Estado dá a entender que a sociedade existe para servi-lo, e não o contrário. Nós transferimos para os governantes, para o Estado brasileiro, uma fatia enorme do resultado do trabalho. A carga tributária é de 34% do PIB, o déficit nominal é 6% do PIB, o que significa que 40% de todo o valor criado pelo trabalho dos brasileiros transita pelo setor público. E a sociedade não vê contrapartida. Metade dos domicílios não tem nem sequer saneamento básico, a coisa mais elementar de uma vida digna. Como a educação fundamental, a saúde pública, a segurança, o transporte coletivo continuam tão precários? Tem alguma coisa profundamente errada nas finanças públicas brasileiras. A tentativa que vem sendo feita de 1988 pra cá, de acomodar a pressão para os gastos pelo aumento da carga tributaria, sistematicamente, esgotou. Acabou o ciclo de expansão fiscal. Então vamos ter que entrar em outro tipo de jogo. O que está por trás disso é uma demanda de mudar profundamente o modo como o Estado brasileiro direciona os recursos. Outro elemento fundamental desse sentimento de revolta hoje foram as revelações da Lava Jato, que mostrou como nunca antes o modo de se fazer política.
"A minha grande bandeira é um Brasil em que a condição social, a condição de gênero, a condição de etnia em que a pessoa nasce não a prejudique de nenhuma maneira"

P. Se você estivesse dentro do governo, como resolveria a questão? Que política de preços a Petrobras deve adotar?
R. Não sou um pessoa boa de formulação e execução. Não me meto no Executivo e não é meu perfil. Mas uma coisa bem especifica e técnica é que acho uma maluquice corrigir preço do derivado do petróleo todos os dias, de acordo com dois preços altamente voláteis como o preço do petróleo no mercado internacional e o regime de cambio flutuante. Isso é uma ideia tecnocrática e de total desconhecimento da vida comum. A governança das estatais melhorou dramaticamente, acho que eles estão fazendo um trabalho muito bem vindo de profissionalização da gestão. Mas no caso específico da metodologia de correção dos derivados do petróleo, eles foram tecnocráticos e equivocados. Nós vamos de um extremo ao outro, porque antes a Dilma era de um intervencionismo desastrado. De repente, vamos para um fundamentalismo de mercado que torna o preço do gás de cozinha, do diesel e da gasolina um ativo financeiro, que varia fortemente para cima e para baixo todos os dias. Precisamos ter realismo tarifário, mas também um suavizador.

P. A paralisação mostra algumas contradições e complexidades. As pessoas querem menos impostos e mais serviços públicos universais. Apoiam a greve dos caminhoneiros, mas não aceitam pagar a conta.
R. Já está pagando muito mais do que deveria. No caso do preço médio dos remédios, 36% é imposto. Na gasolina e no diesel chega a ser mais do que isso. Não dá mais para acomodar os conflitos aumentando a carga tributária, isso chegou no limite. Precisamos repensar agora por que um Estado pelo qual transitam 40% do valor criado pelos brasileiros não atende as necessidades mais elementares das políticas públicas. O Bolsa Família é meio por cento do PIB, é a migalha que cai da mesa. E olha o impacto que isso tem na vida de milhões de brasileiros.

Uma das questões que tem que ficar claro é o sistema de castas da previdência brasileira. O benefício médio de aposentadoria do INSS, para o cidadão comum, é de 1.300 reais comum. Esse valor sobe, no Executivo federal, para 7.000 reais por mês. No Legislativo, são 16.000 reais por mês. No Judiciário, são 27.000 reais por mês. De média. Isso aqui é o antigo regime. Não fizemos no Brasil o equivalente da revolução francesa e americana, que começa com o lema “no taxation without a representation”. A gente não virou esse jogo no Brasil. Os governantes ainda agem como se a sociedade existisse para servi-los.

P. E como você acha que essa questão tributária tem que se resolver? Qual é a reforma desejável?
"Nenhum outro líder político brasileiro tem um grau de comprometimento com ética como a Marina Silva"
R. O sistema tributário brasileiro cobra desproporcionalmente de quem menos pode pagar, porque ele está calcado em impostos indiretos. E quem mais poderia e deveria estar pagando impostos consegue driblar as tentativas do fisco de taxar. Temos que caminhar para um sistema tributário menos calcado em impostos indiretos, que incidem no bolso de quem ganha menos, e um sistema mais calcado em renda e, em alguma medida, patrimônio, riqueza. O Estado brasileiro é regressivo na tributação e em grande medida regressivo no gasto. Na Previdência, o déficit de 4,2 milhões de aposentados do setor público é do tamanho do déficit da Previdência dos 29 milhões do INSS. É o sistema de castas. O gasto público em educação no Brasil está em torno de 6%, isso é mais que a média dos países da OCDE e mais do que a média de nossos pares na América Latina. Como você explica um gasto tão alto e resultados educacionais tão ruins no Pisa? Porque uma fatia muito importante do gasto público é capturado pelos mais ricos no ensino superior. O sujeito faz o fundamental e médio na escola particular cara e, quando chega na parte mais cara de sua educação, ele passa a contar com subsídio tributário que financia sua educação.
Eduardo Giannetti, em sua casa.
Eduardo Giannetti, em sua casa.
P. É a favor então de mensalidades no ensino superior público?
R. Quem já pagava pelo ensino fundamental e médio deve continuar pagando. E quem não puder pagar pelo ensino superior, ganha uma bolsa de estudos.

P. Você costuma dizer, na área fiscal, que precisamos de menos Brasília e mais Brasil. O que isso significa?
R. Em 1988 se optou pelo modelo do Estado federativo. O regime militar era centralizado, e optamos por descentralizar. Princípio perfeito. Mas, na prática, transferiram para os estados e municípios as atribuições do setor público, mas mantiveram no governo central a autoridade para tributar. Dois terços da arrecadação está concentrada em Brasília. Então temos um sistema de transferências muito nocivo para a boa utilização dos recursos públicos. A regra num Estado federativo é: o dinheiro público deve ser gasto o mais perto possível de onde ele é arrecadado, para o cidadão fiscalizar e cobrar. Para Brasília deveria ir aquilo que somente a União deve cuidar, como a diplomacia, o Banco Central, os órgãos reguladores... Além das distribuições regionais. Num Brasil tão desigual e heterogêneo, é normal que as regiões mais prósperas transfiram para regiões menos favorecidas. Mas por que o resto do dinheiro precisa ir para Brasília para depois voltar? Brasília não pode ficar arrecadando e repassando ou não, com os prefeitos de pires na mão pedindo dinheiro. 80% dos municípios vivem de mesada. Vira um modo de fazer política. Perde-se transparência, critério, prioridade, capacidade de fiscalização... Precisamos construir no Brasil cidadania tributária, em que as pessoas saibam o quanto pagam de imposto, para onde ele vai e como está voltando. Ninguém pode ser contra isso.

P. Que outros tipos de ideias a candidatura Marina Silva poderia trazer na questão da desigualdade e mundo do trabalho, que hoje passa por uma série de transformações tecnológicas?

"Os governantes ainda agem como se a sociedade 
existisse para servi-los"

R. Não posso responder por ela. Mas penso que, no mercado de trabalho brasileiro, há dezenas de milhões de cidadãos sem uma situação regular de emprego. Não dá para tolerar isso. Não é normal isso na vida organizada de qualquer país. Ninguém os representa. Esses brasileiros não têm nenhuma proteção, nenhum direito, e ninguém fala deles. Nós precisamos repensar as instituições do mercado de trabalho brasileiro tendo como objetivo maior permitir que todo brasileiro tenha, na sua atividade laboral, uma situação que lhe dê a condição de cidadão pleno. Mas o que nós temos hoje com a economia informal é subcidadãos, sem nenhum direito garantido de nada.

P. Mas com as mudanças tecnológicas, como  elas vão ter um posto de trabalho formal? Devemos começar a falar em direitos sociais desvinculados do emprego, como por exemplo uma renda mínima universal?
R. Acho um caminho interessante, mas com muito critério. Os recursos são limitados, o orçamento é restrito, e tem que ter muita seriedade. Esse é um drama que teremos que necessariamente equacionar. As instituições ficam muito defasadas em relação a mudança da vida prática e da tecnologia. Atualizar as instituições e as demandas dessa nova economia será um processo de tentativa e erro.
Há um artigo da minha coletânea chamado 'O outro Hayek', um neoliberal austríaco que defende renda mínima garantida universal, independente da pessoa trabalhar ou não. Eu adoraria estar numa sociedade que propiciasse ao cidadão uma renda independente do fato de ele estar ou não trabalhando. É um sonho de liberdade. Mas precisamos construir o caminho para isso.

P. Que balanço você faz do Governo Temer?
R. É uma pergunta que eu me faço e não consigo responder. Onde nós estaríamos agora se o Governo Dilma tivesse continuado? O Brasil estava na UTI, com sinais vitais em queda livre, sem nenhum horizonte. Era uma situação sem a menor perspectiva. Então, do ponto de vista econômico, foi um alívio ter uma boa equipe econômica, uma mudança para melhor na governança das estatais e ter um programa de reformas, que no geral é bem correto, a Ponte para o Futuro, que coloca uma agenda de mudanças para que o país volte a recuperar o crescimento e a sustentabilidade das contas públicas. Lamentavelmente, o componente político do governo Temer é... Ele não tem a menor credibilidade e acabou sendo pilhado em 14 de maio de 2017 por aquela conversa de comparsas no subsolo do Palácio. A partir de então o governo entrou no modo de sobrevivência. A agenda de reformas que estava sendo encaminhada foi praticamente abortada, interrompida, e o governo consumiu o que lhe restava de capital político simplesmente para se manter vivo diante das denúncias e de sua enorme e precária fragilidade.

"Precisamos construir no Brasil cidadania tributaria, em que as pessoas saibam o que quanto pagam de imposto, 
para onde ele vai e como está voltando"

P. O brasileiro ainda não sente os efeitos da recuperação. O desemprego é alto e a greve dos caminhoneiros evidenciou o como é difícil viver. Por quê?
R. Primeiro porque o governo Temer perdeu totalmente a capacidade de iniciativa ao não fazer a mais importante das reformas, que era a da Previdência. As expectativas gerais da economia foram prejudicadas por essa falência do projeto reformista. Acho que o governo Temer errou no sequenciamento das reformas, porque ele deveria ter usado o capital político do início de seu governo para fazer primeiro o mais difícil, e depois fazer o menos conflituoso. E tem um fato também, normal em todo processo de recuperação, que o emprego é uma variável de resposta lenta. Assim como o desemprego demora para aumentar quando começa a recessão, porque as empresas querem se sentir seguras de que esse quadro é permanente antes de demitir, e porque é caro demitir, o desemprego demora a cair quando acaba a recessão. Porque tem muita ociosidade, o quadro não está totalmente definido... As empresas relutam em contratar. Agora, o Brasil saiu da pior recessão da sua história. É muito desapontador o ritmo, é muito incerta a continuidade desse movimento, principalmente depois da greve, mas não sei onde estaríamos com o Governo Dilma.

P. Em 'O elogio do vira-lata', título do seu livro, você aborda a questão do complexo de vira-lata do brasileiro. Qual é a origem desta personalidade?
R. O complexo de vira-lata foi cunhado como expressão pelo Nelson Rodrigues, num contexto inclusive futebolístico. Mas depois isso transcendeu muito e entrou no imaginário brasileiro a ideia do complexo de vira-lata. Na verdade, esse sentimento de inferioridade, esse narcisismo as avessas da psicologia brasileira, não surge no momento em que é nomeado. Ele nos acompanha desde nossa origem como colônia. O mazombo era como primeiro se chamou o brasileiro, que é o filho do português imigrante com negros e indígenas. Eram chamados de brasileiros aqueles que exploravam o pau-brasil, faziam fortuna e voltavam pra Portugal. E o mazombo era uma figura... O termo é de uma língua angolana que denota bruto, iletrado, rústico, uma pessoa sem classe e distinção. O mazombo tinha vergonha de ser quem era e seu sonho era voltar pra Portugal, estudar em Coimbra e virar um cidadão de primeira. Então, o complexo de vira-lata é um traço quase de nascença da vida brasileira. E continua muito forte. A preferência por produtos importados, a inveja dos “civilizados” que têm tudo, conforto, segurança, renda, coisas de primeiro mundo.

P. Ao mesmo tempo, você ressalta e elogia uma condição nossa de vira-lata...
"Eu adoraria estar numa sociedade que propiciasse ao cidadão uma renda independente do fato de ele estar ou não trabalhando. É um sonho de liberdade"
R. Me incomodava muito o uso do termo “vira-lata” para denotar a nossa condição inferior. O Nelson Rodrigues está coberto de razão quando ele fala que nós temos cronicamente um sentimento de inferioridade. Mas por que eleger o vira-lata do símbolo mor do que há de errado conosco? Por que vira-lata? Eu acho bela e acho digna de reconhecimento de orgulho a condição vira-lata. A síntese dessa força do ensaio é a seguinte: o verdadeiro complexo de vira-lata é a ideia de que há algo errado em ser vira-lata. E tem um subtexto aí que é o seguinte: o que é ser vira-lata? É a mistura. É não ter raça definida. E o Brasil é mestiço, tanto genética como principalmente culturalmente. Nós somos uma mestiçagens de elementos ameríndios, africanos e europeus de diversas procedências. E isso é o que nos dá força e esperança de ter uma contribuição original diante de um ocidente que está num beco sem saída.

P. Ao longo do século XX, sempre se falou que a mestiçagem tinha levado o Brasil a uma democracia racial. Mas hoje os movimentos negros estão apontando para o fato de que isso nunca existiu. De que o racismo sempre foi realidade e nunca se quis falar sobre isso. Esses mesmos movimentos negros denunciam que esse processo de mestiçagem do Brasil, sobretudo na época da escravidão, foi fruto de processos violentos, estupros... E também como um objetivo maior de embranquecer a população, como você bem aponta em seu texto. Como você se posiciona nesse debate?
R. A democracia racial foi usada como véu a encobrir uma realidade objetiva de discriminação e de racismo. É uma ideologia que encobre uma realidade que não pode ser negada. Agora, como ideal e como valor, acho que é por aí. Devemos perseguir uma igualdade de oportunidade de maneira muito mais agressiva e corajosa do que fizemos até hoje. Temos que reconhecer a existência da descriminação e combatê-la por todos os meios. Agora, nós não podemos negar, em nome disso, o que nos diferencia e o que nós temos de melhor, que é a mistura. A história é um processo muitas vezes tortuoso. A vinda dos africanos para a América é a coisa mais inominável em termos de violência e crueldade. Mas é um fato. Nós estamos aqui e estamos juntos. A minha tataravó era uma negra ex-escrava. Nós somos misturados, as pesquisas genéticas comprovam isso do ponto de vista biológico, mas o mais importante não é o biológico. É a integração cultural na música, na dança, na culinária, na literatura, no cinema... Os três gênios universais brasileiros são vira-latas: Aleijadinho, Machado de Assis e Pelé. São frutos dessa mistura, e é o que temos de melhor. E acho que temos que enaltecer e cultivar nossa condição vira-lata, que foi muito bem resumida num samba cantado pela Carmem Miranda, de um ator chamado Alberto Ribeiro, que chama-se “Cachorro Vira-Lata”. Ele enaltece a condição da liberdade do vira-lata sem coleira e sem patrão. Um belo sonho.
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Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/06/05/politica/1528235313_705168.html

Um texto de Francisco próximo de Marx?

Luiz Gonzaga Belluzzo vê, no documento do 
Vaticano sobre o sistema financeiro, 
a crítica radical ao capitalismo contemporâneo e uma proximidade às formulações do filósofo alemã

No IHU

O que está exposto no documento  Oeconomicae et pecuniariae quaestiones – Considerações para um discernimento ético sobre alguns aspectos do atual sistema econômico-financeiro, publicado pelo Vaticano, “é o descolamento do funcionamento da economia capitalista, comandada pela finança, da vida concreta das pessoas”, diz o economista Luiz Gonzaga Belluzzo. “Há no texto um tratamento muito interessante dessas relações entre o que podemos chamar de a ‘ética cristã’, particularmente católica, e o movimento da economia hoje, e as dificuldades que há na vida das pessoas por causa do funcionamento da economia. É uma combinação muito rica do ethos moral católico da igualdade e da fraternidade, que se retomou pelo Iluminismo”, frisa.

De acordo com o economista, o documento chama atenção, de um lado, para o fato de que “a despeito da ação dos bancos centrais para impedir que houvesse um colapso, a vida das pessoas, sobretudo das camadas mais baixas — aproximadamente 90% —, piorou muito, ou seja, se agravou a situação de penúria, de carência e insatisfação com as necessidades mais básicas”. E sugere, de outro lado, que sejam feitas taxações à economia financeira, de modo que se desenvolva uma economia que permita às pessoas viverem com mais liberdade e segurança, como foi possível com o modelo do estado de bem-estar social. “Depois de um período turbulento da Grande Depressão e da Guerra, os conservadores europeus e Roosevelt nos Estados Unidos pensaram em colocar a economia a serviço da vida, e isso é o estado de bem-estar: a criação de um sistema de coordenação da economia com aumento da carga tributária, com uma tributação progressiva, o controle do movimento de capitais, as políticas de previdência social, que estão sendo destruídas agora e não estão sendo reconstruídas, a segurança e o conforto do cidadão, os salários crescendo de acordo com a produtividade, o investimento público criando infraestrutura. Foi uma experiência tão bem-sucedida que é chamada de os ‘30 anos gloriosos’. O documento rememora um pouco dessa experiência”, explica.

Confira a entrevista:

Qual sua avaliação do documento Oeconomicae et pecuniariae questione – Considerações para um discernimento ético sobre alguns aspectos do atual sistema econômico-financeiro, publicado recentemente pelo Vaticano? Por que, na sua avaliação, o Vaticano volta a se pronunciar sobre esse tema neste momento?
Se lembrarmos do primeiro texto publicado pelo Papa Francisco – Evangelii Gaudium -, diria que as sementes desse texto mais crítico estão lá. O que está exposto ali é o descolamento do funcionamento da economia capitalista, comandada pela finança da vida concreta das pessoas; o documento trata da crise e da pós-crise recente. Nos últimos anos, a despeito da ação dos bancos centrais para impedir que houvesse um colapso, a vida das pessoas, sobretudo das camadas mais baixas — aproximadamente 90% —, piorou muito, ou seja, se agravou a situação de penúria, de carência e insatisfação com as necessidades mais básicas.

Acaba de ser publicado um estudo nos Estados Unidos mostrando que cerca de 43% das famílias americanas não têm o suficiente para pagar os aluguéis e para comer. Por outro lado, vejamos o que está acontecendo na Itália: vive-se um momento de crise econômica grave, de penúria e insatisfação, que se reflete em duas coisas e, sobretudo, está expresso na contradição de ter o Movimento 5 Estrelas (M5S – MoVimento 5 Stelle), que se considera um partido mais à esquerda, junto com a Liga Norte (Lega Nord) (extrema-direita) para enfrentar uma situação econômica difícil e também de oposição às regras da União Europeia.

Em suma, há no texto um tratamento muito interessante dessas relações entre o que podemos chamar de a “ética cristã”, particularmente católica, e o movimento da economia hoje, e as dificuldades que há na vida das pessoas por causa do funcionamento da economia. É uma combinação muito rica do ethos moral católico da igualdade e da fraternidade, que se retomou pelo Iluminismo. As pessoas não sabem que o Iluminismo tem uma base cristã do cristianismo primitivo, daquele que nasce da deterioração do mundo antigo, e que está muito ligado ao Mistério da Encarnação. O Mistério da Encarnação tem uma marca que é a do Deus que se fez homem e sofreu como os homens. Essa é uma mensagem muito importante, porque a religião do mundo ideal é transposta para o mundo da vida. Aliás, essa é a marca das várias manifestações do papa Francisco, as quais dizem “tudo bem a vida eterna, o paraíso” e até sobre o inferno ele diz que “é melhor não pensar muito nisso”, mas o que ele está dizendo é que precisamos realizar esse ideal da felicidade, da bondade, da esperança, na Terra, nas comunidades, ou seja, precisamos fazer com que os homens vivam comunitariamente.

O interessante do documento é que ele não sugere algo regressivo, no sentido de propor uma volta ao comunitarismo primitivo. Diz, ao contrário, que é até possível que nós tenhamos uma relação entre a economia e o mundo da vida de forma mais profícua, porque no fundo o documento reconhece que o capitalismo cria esse potencial, porém não o entrega; ele se entrega a um automatismo e a um movimento autorreferencial — aliás, essa palavra está no texto — que, na verdade, acaba desconhecendo ou ignorando ou passando por cima das necessidades concretas. Nesse sentido o capitalismo tem a capacidade de criar bens da vida pela evolução da indústria e da tecnologia, mas tudo isso é capturado pela apropriação desses benefícios pela finança; é isso que o documento diz. O texto é muito bonito e vale a pena lê-lo.

O senhor mencionou semelhanças deste documento com a Evangelii Gaudium. Que aproximações percebe entre o texto e outros discursos do Papa, como aquele feito em Santa Cruz de La Sierra, sobre a economia que mata?
O papa Francisco sempre fala que, quando o capital se transforma em um ídolo, ele começa a massacrar as pessoas – acredito que Francisco falou nisso em uma das reuniões com movimentos populares e foi nesta que ele disse que o dinheiro deve servir e não dominar. Em quase todo esse documento, que é da Congregação da Doutrina para a Fé, se segue e confirma a visão de Francisco a respeito das dificuldades do mundo moderno. Ele falou isso em Santa Cruz de La Sierra, e repetiu em outros momentos. Ele tem insistido sob vários ângulos nesta questão como uma questão central para o mundo moderno. Eu não tenho nenhuma dúvida de que ele é o estadista – porque afinal de contas ele é o soberano do Vaticano – mais importante do mundo, e faz isso com uma gentileza e uma delicadeza que são típicas de uma verdadeira moral cristã, que ele representa como poucos.

Além do ponto central do documento, que é essa crítica das finanças sobre a economia real, quais são os três pontos mais relevantes do documento?
O documento faz uma avaliação competente sobre a dinâmica da economia. Portanto, existe uma dinâmica autorreferencial que se afasta, desconhece e acaba abalando as necessidades concretas. O documento diz que, a despeito de todos os esforços para conter os efeitos da crise, a vida das pessoas piorou. E menciona várias dimensões dessa piora, entre elas, a dependência crescente de situações muito negativas.

O interessante do documento é que faz uma análise técnica muito competente das questões financeiras: mostra como é o processo de securitização, como funcionam os derivativos. É uma combinação — e é muito raro ver isso — entre uma visão cristã e ética e uma dimensão propriamente técnica, ou seja, o documento sabe o que está dizendo, e não desconhece que esses fenômenos são constitutivos e orgânicos desse capitalismo. O documento pede e sugere uma transformação muito mais profunda.

Quando o documento fala em “economia real”, não está falando no sentido que os economistas falam, que é a economia da produção, mas sim da “economia real” como a economia que deve reger a vida das pessoas, a vida real — nesse sentido a tradução para o português não ficou bem exata. De todo modo, não estão falando da economia real no sentido que os economistas falam. Temos no capitalismo uma contradição entre o real e o financeiro, e esse é um movimento interno da dinâmica capitalista atual, que tem contradição com a finança como forma de apropriação, e com o incrível avanço tecnológico e a situação das pessoas. Essa é, na minha avaliação, a questão central.

O documento também critica as operações offshore, porque, segundo o texto, esse tipo de operação favoreceu uma enorme saída de capitais de muitos países de baixa renda e agravou o débito público dos países pobres. Como vê esse tipo de crítica em relação às operações offshore? Que tipo de mudanças poderiam ser feitas nessas operações para agregar as críticas apontadas pelo documento?
Isso é algo que decorre da globalização financeira tal como ela está ocorrendo. Essas operações offshore significam a perda de recursos pelos sistemas fiscais. Esses recursos que escapam aos sistemas fiscais de todos os países poderiam ser utilizados para melhorar a vida das pessoas. Mais uma vez a questão das operações offshore aparece porque ela está ligada exatamente à globalização financeira: com a permissão absoluta do movimento de capitais, se facilitou muito essas operações de evasão fiscal, de fuga das responsabilidades fiscais, que esconde o dinheiro nos paraísos fiscais. Essa é uma dimensão importante do documento, porque isso está ligado à globalização financeira, que nada mais é do que um sistema de controle daqueles que operam esse sistema ou se beneficiam dele, sob a situação de vida concreta das pessoas. Um autor que tratou disso foi Marx, ao tratar da aceleração do tempo e da destruição do espaço. É disso que o documento trata. É isso que está acontecendo.

Que tipo de política os Estados poderiam adotar para evitar essa situação?
O documento recomenda fazer um tipo de taxação ao movimento de capitais, coisa que é proposta por Piketty e vários autores que sabem que se não fizermos um controle estrito, continuaremos assistindo a uma série de dados causados pelo movimento de capitais, que não são tratados de maneira adequada, porque as camadas dominantes, que são as que acabam decidindo as políticas, não chegam ao ponto central.

Veja o caso do Brasil recentemente: tivemos uma pressão sobre o câmbio e a política de metas acabou se mostrando irrelevante ou impotente para resolver o problema, e não se chega à questão central, que é a seguinte: temos um sistema financeiro e monetário — o documento trata lateralmente disso — que é assimétrico, porque a moeda reserva acaba determinando o destino de todas as outras e nunca se toca na questão da reestruturação e na imposição de limites da circulação de capitais.

Neste documento se vê implicitamente que o Vaticano admite que esse tipo de controle já aconteceu no imediato pós-guerra. Estava implícito nas regras de Bretton Woods que deveria haver um controle de capitais. No fundo, o documento mostra que já vivemos uma situação diferente, em que a economia estava mais colada na vida das pessoas e que a partir de um determinado momento isso passou a se deteriorar e se passou a essa hostilidade do capitalismo financeiro.

O documento também chama atenção para a responsabilização dos Estados, em particular para as situações de crise pelas quais passam seus países, os quais devem ser chamados a fazer gestões adequadas do sistema público e sábias reformas estruturais. É possível identificar que tipo de políticas esses países costumam desenvolver, as quais têm como implicações as suas crises e o déficit público?
O documento está tratando da submissão das políticas econômicas e estratégias nacionais a esse sistema de abstração real, como dizia Marx. Ou seja, você vai abstraindo o espaço em que as pessoas moram e há um enfraquecimento das políticas nacionais e do Estado nacional sem que se tenha uma capacidade de coordenação global que permita que os espaços nacionais sejam protegidos dessa turbulência. Nesse sentido, o que o documento sugere é que as políticas nacionais são capazes de responder a isso sem uma coordenação, sem uma mudança no regime internacional. Essa mudança depende muito do poder do país hegemônico ou que é mais poderoso. Então, o documento se refere ao fato de que há um enfraquecimento dos Estados nacionais, que estão sendo reduzidos à impotência.

Com esse sistema internacional, os países nacionais podem fazer políticas diferentes? É um pouco arriscado. O que acontece é que a globalização é exatamente isto: assimétrica, desigual e combinada. Então, alguns países têm mais poder do que outros. Vamos tomar o caso da China como exemplo. Você pode considerar que na verdade não é um sistema democrático à ocidental, porque tem um controle do Partido Comunista, que estabelece as estratégias do país, mas a China se ajustou a isso a partir da sua estratégia nacional. Mas estamos falando de um caso muito particular dado o tamanho, o peso e a organização política e social que tem lá, além de uma articulação entre o Estado e o setor privado; o caso da China é uma exceção.

Se olharmos para o resto dos países emergentes, veremos que estão — inclusive os países do leste europeu e os países periféricos como a Itália e a Espanha — sofrendo com isso, mas não conseguem desenvolver uma saída. Esse fenômeno da Itália que mencionei exprime essa tentativa de escapar dessas determinações, dessas imposições. As pessoas chamam isso de populismo, mas não é populismo; é a reação do povo que está sofrendo com este modo de funcionamento desta economia.

O documento reitera, como já apareceu na Laudato si’, que “hoje precisamos imperiosamente que a política e a economia, em diálogo, se coloquem decididamente a serviço da vida, especialmente da vida humana”. Como o senhor compreende essa noção de economia em serviço da vida?
É uma economia que permita às pessoas viver em liberdade e segurança; o estado de bem-estar social foi isso. Depois de um período turbulento da Grande Depressão e da Guerra, os conservadores europeus e Roosevelt nos Estados Unidos pensaram em colocar a economia a serviço da vida e isso é o estado de bem-estar: a criação de um sistema de coordenação da economia com aumento da carga tributária, com uma tributação progressiva, o controle do movimento de capitais, as políticas de previdência social, que estão sendo destruídas agora e não estão sendo reconstruídas, a segurança e o conforto do cidadão, os salários crescendo de acordo com a produtividade, o investimento público criando infraestrutura. Foi uma experiência tão bem-sucedida que é chamada de os “30 anos gloriosos”.

O documento rememora um pouco dessa experiência. Foi essa experiência que também suscitou a industrialização dos países da periferia, sobretudo do Brasil, que não cuidou com muito empenho das questões sociais a despeito da lei trabalhista. Mas se olharmos isso na Alemanha, com a economia social de mercado, na Itália e na França, veremos desempenho, emprego das pessoas, o emprego público segurando o emprego agregado. Portanto, esse é um modelo que funcionou maravilhosamente bem. Agora, a partir dos anos 1980 isso foi sendo dissolvido e mudado pela ideia de que há uma crise desse modelo, mas a resolução disso poderia ter tido outro encaminhamento. No entanto, partiram para estratégias neoliberais que estão aí.

O documento também fala da necessidade de se construir uma economia atenta aos princípios éticos. O que seria uma economia desse tipo?
O que é a ética cristã? É a ética do afeto com o outro — ame ao próximo como a ti mesmo. O documento também faz uma crítica, que é várias vezes mencionada, acerca do egoísmo exacerbado. Isso é a ética cristã. A ética cristã é da inclinação em relação ao outro, o amor ao próximo.

Como a visão católica sobre a economia é vista entre os economistas, de modo geral?
Essa visão vem desde Leão XIII, e tem vários momentos da história da Igreja em que isso é reiterado, mas a economia que os economistas aprendem é impermeável a isso, porque ela parte de pressupostos éticos ou de noções como “uma economia nacional que maximiza a sua utilidade”, “um verdadeiro desequilíbrio geral que costumam dizer que resulta no bem comum”. Essas noções são impermeáveis a isso porque são exatamente o contrário. Os economistas raciocinam, estão informados e pensam as questões sociais desse ponto de vista. Então, é antitético, são duas coisas que não se combinam, são visões completamente distintas.

O documento também sugere que as universidades compreendam a economia e as finanças à luz de uma visão completa e integral do homem. Para atender a essa demanda, que tipo de discussões deveriam ser acrescidas aos estudos de economia nas universidades?
Essa que estamos fazendo agora. Esse texto, que é riquíssimo na minha opinião, poderia ser levado às universidades para ser discutido, como muitos fazem ou devem fazer. Agora, eu fiquei impressionado com as pouquíssimas matérias que saíram na imprensa. Alguém viu a Juliana Rosa da Globo News falando sobre isso? Não.

Algum tipo de teoria econômica se aproxima das propostas do documento? Que teóricos econômicos sugerem visões aproximadas a essa sugerida pelo documento do Vaticano?
Podemos escolher, mas vou citar o que acredito que se aproxime mais, por incrível que pareça, apesar de as pessoas não concordarem, que é Marx. Keynes também se aproxima muito, porque tinha uma visão ética da economia, ele não era um economista convencional. Keynes se aproxima muito, a despeito de não parecer, mas ele tinha uma ligação muito grande com George Edward Moore, que foi professor dele, então, tinham uma visão muito parecida.

Além disso, ele tinha uma visão muito parecida quando discute — o que texto também discute — a questão das condições econômicas da liberdade e da igualdade. É engraçado porque o Keynes era um pouco desconfiado da sabedoria das massas, mas era a favor do bem-estar de todos. Keynes tem um texto chamado “As perspectivas econômicas dos nossos netos”, em que fala para sairmos dessa economia aquisitiva, para parar com a acumulação, e sugere vivermos a vida.

Marx também tinha uma preocupação com o homem, o homem concreto e com seu projeto de liberdade. Mesmo em relação à crítica à religião de Ludwig Feuerbach, ele dizia que “era preciso levar as questões para a vida concreta dos homens”, e dizia que Feuerbach estava circulando em um mundo ideal. É interessante que Francisco e esse documento procuram trazer para dentro da vida das pessoas essa ética, tirá-la um pouco das nuvens e trazê-la para a vida cotidiana.
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Fonte: https://outraspalavras.net/outrasmidias/capa-outras-midias/um-texto-de-francisco-proximo-de-marx/ 11/06/2018

Kim e Donald

Juremir Machado da Silva*
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 Eles nunca foram amados tanto quanto gostariam. Têm sido diabolizados por seus inimigos e por boa parte do mundo. Donald já chamou Kim de gordinho fogueteiro. Kim já rotulou Donald de paquiderme americano. Finalmente, em Cingapura, eles se encontraram, trocaram sorrisos, amabilidades e apertos de mão. Assinaram um documento. As imagens dos dois juntos dizem mais do que milhões de palavras, mas não dizem o essencial: qual é o jogo do ditador norte-coreano? Que carta ele esconde nas largas mangas daquelas suas roupas folgadas? Mistério.

Juntos eles poderão empalmar o Nobel da paz e virar série da Netflix. O negócio até aqui é ótimo para ambos. Kim saiu da clausura do seu país considerado anacrônico e tornou-se protagonista na cena diplomática mundial. Donald, depois de quebrar pratos por todo lado, surge como um homem de negociação e de estratégias ousadas. A jogada de Donald é óbvia como os seus discursos: fazer a paz, eliminar o arsenal nuclear de Kim e empurrar as duas Coreias para um abraço apertado. A questão é: o que Kim ganha com isso? Ele meteu o pé no acelerador e consolidou o seu projeto nuclear. Com isso, virou um player – essa palavra tem charme especial – capaz de atrair Donald para o seu tabuleiro. Dotou-se de armas nucleares para entregá-las no minuto seguinte? O que ele poderá ganhar abrindo mão do seu trunfo?

Estamos diante do duelo pós-moderno. O vencedor não será aquele que atirar ou piscar primeiro, mas o que tiver um objetivo realizável por trás das aparências. Kim está vivendo os seus momentos de glória. Se der tudo certo, entra para a história. Se der errado, poderá levar o seu país ao destino da Líbia, do Iraque ou do Irã, que cederam à tentação do diálogo, com poderios diferentes em contextos diferentes, e bateram de cara no muro. Estará o sinuoso Kim enrolando o truculento Donald em rede mundial? Entregará o bolo sabendo que tem a receita para produzir outros quando for necessário? Ou só produziu um fato para cair de pé? O homenzinho de preto surpreende o mundo todo dia.

Superou o irmão mais velho na luta pelo poder, mandou executar o tio, falou grosso com os Estados Unidos e, quando menos se esperava, acenou para o inimigo chamando-o para o diálogo. O roteiro é simples. A equipe de produção faz a pergunta que não pode ser esquecida: e agora? O que ele faz? Mais: como se desenvolve a relação? Qual o próximo passo? Possibilidades: Donald convida Kim para uma visita à Casa Branca. O norte-coreano vai e não comete uma só gafe à mesa. O anfitrião quer servir a desnuclearização da península coreana como sobremesa. Kim não tem pressa. Mastiga lentamente. Esconde o jogo.

Hipóteses não faltam para explicar os movimentos de Kim: ele está fazendo o que a China manda; ele quer obter o maior número possível de favores; ele pretende arrancar dos Estados Unidos um tíquete permanente para a Disney; ele só está ganhando tempo; ele nada tem a perder. Uma coisa fica clara: só ele conhece o jogo que joga.
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* Sociólogo. Escritor. Prof. Universitário.
Fonte:  https://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/2018/06/10938/dois-seres-bizarros/

A mesa dos adultos

Luis Fernando Veríssimo*
 http://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/2018/06/14_06_2018_fmi_foto_world_economic_forum.jpg

Vocês e eu somos as crianças no recinto, as que a Christine Lagarde despreza

O Woody Allen disse, certa vez, que quando fazia um filme “sério” era como sentar na mesa dos adultos. Christine Lagarde, a poderosa chefona do FMI, disse coisa parecida numa reunião para tratar da dívida da Grécia, em 2015: “A principal emergência do momento é restaurar o diálogo com os adultos no recinto”. As crianças no recinto eram os representantes do novo governo grego que tentavam, ingenuamente, salvar a Grécia das medidas impostas pelos grandes bancos europeus e pela elite financeira internacional. Entre as crianças banidas da mesa dos adultos pela dona Christine estava o ministro das finanças do recém-eleito partido Syriza, Yanis Varoufakis. Que acaba de lançar um livro sobre a crise grega e sua participação na frustrada tentativa de livrar seu país da prisão da dívida e tocar o coração dos credores. Título do livro: “Os adultos no recinto”. 

A Grécia recebeu o maior empréstimo concedido a um país na história do mundo e o usou para sanar a principal emergência do momento, pagar os bancos. O dinheiro não passou pela Grécia, nem como turista. Foi direto para acalmar os grandes instituições financeiras e o Banco Central da Europa, enquanto a Grécia era instruída, com o endosso do FMI, a adotar um programa de austeridade punitiva para um dia, quem sabe, merecer um lugar na mesa. Varoufakis e o partido Syriza não aguentaram a pressão e deixaram o poder depois de uma breve primavera de rebeldia. O próprio Varoufakis descreve seu livro como o relato de uma tentativa de fuga que não deu certo. A prisão administrada pela elite financeira do mundo é de segurança máxima. 

Vocês e eu somos as crianças no recinto, as que a Christine Lagarde despreza. Nossas vidas são decididas na mesa dos adultos, onde as conversas são sempre sérias e sempre concluem com a decisão de nos castigar de um jeito ou de outro, para o nosso bem. O governo Temer começou com o anúncio, pelo Meirelles, de que gastos sociais seriam cortados por 20 anos. O pior veio agora, no ocaso do governo Temer. Para dar dinheiro a empresários do transporte serão cortadas verbas para a saúde e a educação. Ponto de exclamação incrédulo! 
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* Jornalista. Escritor
Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/579911-a-mesa-dos-adultos 14/06/2018
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segunda-feira, 11 de junho de 2018

Fetichizando o povo


Luiz Felipe Pondé* 
 
Ilustração
O povo é confiável? Não. Se olharmos pra história, 
a resposta é ambivalente

O que é fetichizar o povo? É assumir que cada passo, cada escarro, cada suspiro, cada berro, cada loja quebrada, cada refrão cantado em jogral, cada polarização das mídias sociais significa algo de sublime.

O fetiche começa com a revolução francesa de 1789 (um “massacre sublime”) e passa pelos movimentos operários do século 19, que Marx (1818-1883) viu de perto.

Esses movimentos garantiram o estado de bem-estar social europeu, às custas, é claro, do resto do mundo, que os europeus exploram até hoje e que não se constitui, “ainda bem”, no mesmo parque temático de direitos que é a Europa ocidental —alguém já viu a Europa querer exportar seu modelo de parque temático para o mundo?

O mais ridículo é que os idiotas da política daqui olham para esse parque temático como algo possível sem homogeneidade étnica (olha só o pau que está rolando por conta dos imigrantes), sem riqueza sobrando (se a Europa ficar pobre vira África), sem imobilidade ascendente na estrutura social (ninguém ganha dinheiro, só os mesmos de sempre), sem portas fechadas aos desgraçados que queriam entrar.
 
Fetichizar o povo é uma forma de mentalidade hegeliano-marxista diluída. Uma espécie de gozo primitivo narcísico. Um tipo de sentimento oceânico, como diria o velho Freud (1856-1839).

Nesta forma degradada de concepção hegeliano-marxista, existem “forças democráticas” latentes no povo ou forças “isso” e “aquilo” prontas a agir a partir de intenções que tendem a uma organização cada vez mais imanente ao objetivo de justiça cósmico-política.

Nesse delírio, essas forças “querem x”, para isso se “organizam de forma y”. Quando, na verdade, o povo, ou “as massas”, age de modo confuso, impulsivo e, quando articulado, o faz a partir de grupos de comando com agendas próprias, movidas pelos interesses de grupos específicos que pretendem tomar o poder e pronto. E para isso usam da linguagem “o povo quer x”, as “forças democráticas amadurecem no combate” e por aí vai. Os canalhas da política adoram esse tipo de linguagem.

O povo, sim, é capaz de muito. De ficar puto e quebrar tudo a se manifestar de forma (des)organizada a partir das redes ou de grupos de liderança. As pessoas (unidades reais do povo) se movem pelos mais variados interesses, inclusive pela inércia diante dos conflitos que rasgam a sociedade.

O tempo desgasta todas as formas de organização. Era o povo na Bastilha, era o povo gozando com a guilhotina, era o povo nos comícios nazistas, fascistas e comunistas, era o povo na “noite dos cristais” esmagando judeus, era o povo esmagando gente na Guerra Civil americana, era o povo na Guerra Civil russa pós-Revolução Bolchevique, era o povo gozando nos autos de fé na Inquisição, era o povo nos linchamentos, era o povo pedindo intervenção militar na greve dos caminhoneiros.

O povo é um substantivo abstrato na violência qualitativa das teorias políticas e, ao mesmo tempo, um substantivo concreto na violência quantitativa nas ruas.

O povo é confiável? Não. Se olharmos pra história, a resposta é ambivalente. É confiável se você quiser gerar violência social. O sinal positivo ou negativo dessa violência é decidido por quem narrar essa violência.

Alguns setores mais à esquerda reclamaram que faltou ao Brasil a coragem política de usar a crise dos caminhoneiros para derrubar o governo e, quem sabe, instalar um regime de secessão que preparasse formas mais “democráticas” de participação popular, levando à frente o embrião de um regime mais civilizado, sustentado numa vontade popular (ou soberania popular, tratarei aqui como sinônimos).

Esses setores à esquerda são claramente defensores do que se chama “destruição criadora”. “Vontade popular” é outro fetiche nas teorias políticas que veem no povo uma entidade que carrega sobre o si o sinal da graça hegeliano-marxista de evolução política e social.

No meu entendimento primário dessa posição, não a vejo muito distante de meninos esquisitos brincando de Jedis com uma realidade potencialmente violenta, quando o mundo vai às vias do fato. O pecado maior é que são intelectuais públicos irresponsáveis.

Esses Jedis da política projetam sobre a sociedade sua vaidade intelectual.

No primeiro berro, correm para Paris com medo. Dizem que as rupturas políticas podem “ser levadas para o lado do bem”. O sentido verdadeiro dessa frase é “matar as pessoas certas”. Quem plantar violência colherá violência.
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Luiz Felipe Pondé é filósofo e ensaísta, autor de ‘Dez Mandamentos (+Um)’ e ‘Marketing Existencial’
Imagem por  RIcardo Cammarota/Folhapress
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2018/06/fetichizando-o-povo.shtml

domingo, 10 de junho de 2018

Ponha seu amor no sol


Martha Medeiros*
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A história foi a seguinte. Ele tinha uns 27 anos e estava em Berlim pela primeira vez. Solteiro, livre, desbundado. Passava as noites dançando em casas noturnas onde encontrava alemãs góticas, estranhas, caladas. Até que se encantou por uma delas. Encontravam-se na balada todas as noites, depois ela o acompanhava até o muquifo onde ele estava hospedado e, de lá, saía sorrateiramente no meio da noite, pois trabalhava cedo na manhã seguinte. Meu amigo ficava estrebuchado na cama até o meio-dia, já pensando em trocar seu nome para Hans e estudar filosofia. Até que as férias terminaram, e ele voltou para o Brasil. 

Com uma amiga se deu assim: ela era advogada de dia e tinha aulas de flamenco à noite, momento em que trocava a calça de linho por vestidos vermelhos e incendiava o salão com suas castanholas. Um belo dia, surgiu um projeto de espanhol no curso e não deu três dias para se tornarem o par mais caliente do tablado. Calça justa como a dos toureiros, camisa aberta no peito, pura testosterona em 1m87cm. Ela não resistiu: a dança evoluiu para os lençóis, mesmo sendo um caso proibido - ele dizia ser noivo. 

A paixão adora a noite e seus mistérios. Até que o dia amanhece. 

Não é que a alemoa inventou de conhecer o Brasil? Mandou uma carta para o meu amigo (perceba o tempo que faz isso), e ele na mesma hora se predispôs a hospedá-la. Ela desembarcou na tarde mais escaldante de fevereiro com seu capote preto, o mesmo que usava na balada berlinense, e com uma palidez de doente. Não se acostumou com a comida dos trópicos e logo seus olhos acinzentados saltaram de seu rosto esquelético. Meu amigo a levou para Garopaba, onde ela usou um biquíni que cobria o umbigo e um chapéu que mais parecia um ombrelone - mesmo assim, pegou uma insolação. Meu amigo fantasiou uma Nina Hagen e acordou com uma militante da Gestapo. Vida real, muito prazer. 

Minha amiga advogada estava em casa num sábado de manhã esquentando a água para o chimarrão quando bateram à porta. Era o projeto de espanhol, só que agora de calça de moletom, camiseta do Grêmio e um bebê no colo. Um bebê!! O homem era pai de uma criança de sete meses. E não parecia nem um pouco espanhol, nem um pouco alto e nem um pouco esbelto - camiseta de time de futebol é sempre traiçoeira com as barrigas dos torcedores. Que fim levou o mistério, o charme, a pulsão erótica? Ele a convidou para uma caminhada no parque, e ela lembrou que tinha hora no dentista - sim, no sábado de manhã - e sua adoração pelo flamenco foi subitamente trocada pela capoeira, ela até já procura no Face quem tenha um berimbau pra vender. 

Afora uns pequenos detalhes fictícios para dar sabor à trama (e livrar meus personagens da identificação), é tudo verdade. Do que se conclui: abram bem a janela, coloquem os travesseiros pra fora e tomem muitos cafés da manhã juntos antes de dizer um eu te amo no escuro.
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* Escritora. Jornalista
Fonte: http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=f065fe9f90c6f176adf5aca0b889d595
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O cotidiano pode ser sublime

Lya Luft*
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Não lembro quando ouvi ou percebi pela primeira vez a palavra "sublime", mas acho que nasci apaixonada por palavras, primeiro o som, mais tarde o que chamo "a carinha", as franjas das palavras e as nuvens ou trovões que as recobrem. Lembro que achei uma palavra fina, magrinha, com aquele seu "i", e me espantei quando disseram que era algo mais do que maravilhoso, quase divino. Não devo ter entendido bem, mas descobri logo que não era palavra para se usar seguidamente. Perdia a força, a graça, o significado. 

Lembro com gosto o que certa vez disse uma amiga querida, quando falei de algo sublime na natureza: "A natureza é bela e terrível. Sublime, só Mozart". Teremos, então, uns pequenos Mozarts no nosso cotidiano tantas vezes cansativo, chato, preocupante, desgastante e corrido? Sempre achei que sim, porque a quietude desde a infância me fascinou, simplérrima e difícil. "Menina preguiçosa, essa guria já nasceu cansada", dizia meu irmãozinho. Para mim, era felicidade: ficar quieta, ouvindo o mundo, sentindo o mundo, não entendendo o mundo. Possivelmente, toda criança tem isso em si, desde que lhe deem tempo - na sua agenda de pequena executiva, aulas disso, daquilo, deveres, festas - para esse silêncio dentro que é um tesouro de mil vozes. 

Então vamos descobrir: andar pela calçada molhada, a chuva para, no céu uma nesga de claridade se abre, e quase para nossa respiração, se não formos obtusos. Lindo. Sublime? Na janela, o céu tranquilo de repente se cobre de nuvens negras, espessas, ameaçadoras como um tornado, querendo devorar a luz. Nesse instante, algo sublime nos toca. Por que não? Música inesperada, saindo da janela de um apartamento, ou da televisão, do computador. Outro dia, escutamos Eric Clapton tocando e cantando Layla e quase choramos: sublime. Não precisa, então, ser Mozart, mas pode até ser esse raiozinho de sol tocando as buganvílias bem humildes no meu vasinho de vidro azul, barrigudo, aqui ao lado. 

Vamos deduzir que o sublime não precisam ser anjos com harpas, fanfarras de grandes tempestades, ou mesmo paixões humanas: pode ser simples, comum, mas, por alguma razão, abre aquilo que temos de melhor em nós - e a gente nem sabia. 

Não precisamos ser cultos, refinados, maduros. Outro dia, num vídeo, apareceu um bebê de uns oito meses que pela primeira vez, de óculos, enxergou realmente o rosto da mãe. Do pai. O quarto. O seu pedacinho de mundo. Certamente, essa criança, com ar maravilhado, teve seu primeiro - espero que não último - sentimento de sublimidade. 

Enfim, somos melhores do que pensamos. Muitas vezes, em aula na faculdade, eu disse a meus alunos: "Vocês são muito melhores, mais inteligentes e capazes, do que eu, a universidade, a família e a sociedade fazemos vocês pensar que são. Sintam isso, gente!". 

Nada sublime nas minhas palavras, mas talvez um ou outro tenha descoberto dentro de si, naquele dia ou no futuro imprevisível, a capacidade de sentir, sonhar, compreender ou não compreender nada, como algo sublime: bom demais, divino, sobre-humano, ou simplesmente muito humano. A gente é que complica.
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* Escritora. 
Fonte: http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=a81dfd623ba30e99dfbd6022899a66f0 09/06/2018
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La patología de la abundancia

¿Qué es más sano, llenar la vida de cosas, productos de moda, vestidos, bebidas, revistas y televisión o cuidar las necesidades más hondas y entrañables del ser humano en la relación de la pareja, en el hogar y en la convivencia social?
(José Antonio Pagola).- La cultura moderna exalta el valor de la salud física y mental, y dedica toda clase de esfuerzos para prevenir y combatir las enfermedades. Pero, al mismo tiempo, estamos construyendo entre todos una sociedad donde no es fácil vivir de modo sano.

Nunca ha estado la vida tan amenazada por el desequilibrio ecológico, la contaminación, el estrés o la depresión. Por otra parte, venimos fomentando un estilo de vida donde la falta de sentido, la carencia de valores, un cierto tipo de consumismo, la trivialización del sexo, la incomunicación y tantas otras frustraciones impiden a las personas crecer de manera sana.

Ya S. Freud, en su obra El malestar en la cultura, consideró la posibilidad de que una sociedad esté enferma en su conjunto y pueda padecer neurosis colectivas de las que tal vez pocos individuos sean conscientes. Puede incluso suceder que dentro de una sociedad enferma se considere precisamente enfermos a aquellos que están más sanos.

Algo de esto sucede con Jesús, de quien sus familiares piensan que "no está en sus cabales", mientras los letrados venidos de Jerusalén consideran que "tiene dentro a Belzebú".

En cualquier caso, hemos de afirmar que una sociedad es sana en la medida en que favorece el desarrollo sano de las personas. Cuando, por el contrario, las conduce a su vaciamiento interior, la fragmentación, la cosificación o disolución como seres humanos, hemos de decir que esa sociedad es, al menos en parte, patógena.

Por eso hemos de ser lo suficientemente lúcidos como para preguntarnos si no estamos cayendo en neurosis colectivas y conductas poco sanas sin apenas ser conscientes de ello.

¿Qué es más sano, dejarnos arrastrar por una vida de confort, comodidad y exceso que aletarga el espíritu y disminuye la creatividad de las personas o vivir de modo sobrio y moderado, sin caer en "la patología de la abundancia"?

¿Qué es más sano, seguir funcionando como "objetos" que giran por la vida sin sentido, reduciéndola a un "sistema de deseos y satisfacciones", o construir la existencia día a día dándole un sentido último desde la fe? No olvidemos que Carl G. Jung se atrevió a considerar la neurosis como "el sufrimiento del alma que no ha encontrado su sentido".

¿Qué es más sano, llenar la vida de cosas, productos de moda, vestidos, bebidas, revistas y televisión o cuidar las necesidades más hondas y entrañables del ser humano en la relación de la pareja, en el hogar y en la convivencia social?

¿Qué es más sano, reprimir la dimensión religiosa vaciando de trascendencia nuestra vida o vivir desde una actitud de confianza en ese Dios "amigo de la vida" que solo quiere y busca la plenitud del ser humano?

Domingo 10 Tiempo ordinario - B
(Marcos 3,20-35)
10 de junio de 2018
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* Teólogo español
Fonte:  http://www.periodistadigital.com/religion/opinion/2018/06/07/religion-iglesia-opinion-reflexion-dominical-pagola-sociedad-desequilibrio-vida-patologia-abundancia-fe-dios-jesucristo.shtml