segunda-feira, 27 de março de 2017

“Cuidar do cérebro devia ser uma prioridade dos mais novos”

Já escovou os dentes hoje? E cuidou do cérebro também? Álvaro Bilbao, autor do livro "Cuide do Seu Cérebro", garante que, seguindo alguns passos, é possível ter uma mente 
ágil em qualquer idade.
Exercitar o cérebro é preciso. E melhor do que fazer 
quebra-cabeças é ir caminhar.

  • Ana Cristina Marques
Cuidar do cérebro é mais importante do que cuidar da pele — a indústria da beleza que nos perdoe — e devia ser um hábito tão comum como escovar os dentes depois de cada refeição. A mensagem, talvez um pouco atípica, é do psicólogo espanhol Álvaro Bilbao, conhecido pelo livro “O Cérebro da Criança Explicado aos Pais”, mas agora o foco é outro. Sobretudo desde que foi lançado em Portugal, terça-feira passada, o livro “Cuide do Seu Cérebro… E Melhore a Sua Vida”, do mesmo autor.

“Cuidar do cérebro não devia ser uma prioridade das pessoas mais velhas, mas sim das mais novas, por vários motivos. As pessoas que cuidam dos seus cérebros desde jovens têm menor risco de ter doenças quando são mais velhas”, diz Álvaro Bilbao em entrevista exclusiva ao Observador.

No livro em destaque, o neuropsicólogo e psicoterapeuta apresenta seis áreas-chave a que devemos prestar atenção, pela saúde do nosso cérebro: desde a boa alimentação às devidas horas de sono, passando ainda pelo exercício físico. Já os exercícios mentais, como quebra-cabeças ou “sudokus”, são bons, mas nada bate “sair à rua, caminhar, falar com pessoas e comprar peixe e verduras”.
O livro foi publicado pela Planeta e custa 14,95€.

Recordemos os leitores: porque é que o cérebro é tão especial?
O cérebro é um órgão muito especial por dois motivos. Em primeiro lugar, é um órgão que não pode ser transplantado e não pode ser tratado, como acontece com os pulmões. É um órgão que temos desde que nascemos, com os mesmos neurónios. Em segundo lugar, é no cérebro que residem as nossas emoções, a nossa inteligência e a nossa capacidade para tomar decisões. É a parte do corpo que nos distingue, à nossa natureza e à nossa maneira de ser. É o que faz com que cada um de nós seja a pessoa que é.

No livro escreve que a longevidade que temos vindo a adquirir é, ao mesmo tempo, uma oportunidade e um desafio para o cérebro. Porquê?
Sabemos que o nosso cérebro está programado para viver uma série de anos. Cada vez mais vivemos mais anos e isso é uma oportunidade no sentido em que podemos aprender mais coisas e podemos desfrutar da vida durante mais tempo, coisa que antes não acontecia, numa altura em que ter 60 ou 70 anos era sermos anciães. No entanto, também é um desafio porque, a cada cinco anos que ficamos mais velhos, a cada cinco velas a mais que colocamos no nosso bolo de aniversário, duplicam as probabilidades de termos algumas doenças, pelo que é muito importante que sejamos responsáveis pelo nosso próprio cérebro. Ele é um órgão do qual temos de cuidar com muito carinho, com muito mimo, porque se não tomamos bem conta dele, estes anos a mais podem ser anos com pouca qualidade de vida. Se, ao contrário, cuidarmos bem dele, esses mesmos anos podem vir a ser anos de muita desfrute.
É no cuidado do cérebro que está a possibilidade de desfrutar da sua memória, da sua alegria ou do seu bem-estar físico, agora e durante mais tempo. A importância do cuidado do cérebro é tal que alguns países iniciaram campanhas nacionais de saúde cerebral ou planos estratégicos para prevenir o Alzheimer e a demência entre a terceira-idade.
(“Cuide do Seu Cérebro”, pág. 17)
A que tipo de perigos está, então, o cérebro sujeito?
Cuidar do cérebro não devia ser uma prioridade das pessoas mais velhas, mas sim das mais novas, por vários motivos. Em primeiro lugar, as pessoas que cuidam dos seus cérebros desde jovens têm menor risco de ter doenças quando são mais velhas, mas também porque se cuidamos do nosso cérebro enquanto somos jovens, desfrutamos de uma melhor memória, concentração e humor durante a vida. O principal inimigo que as pessoas jovens têm hoje em dia é o stress e a pressa. Sabemos que quando vivemos em stress, com demasiadas exigências e pressas, isso diminui a nossa capacidade de nos sentirmos bem e, além disso, erramos mais vezes na hora de pensar. As pessoas acreditam que quanto mais stress, melhor pensam sobre as coisas. O stress, as preocupações que vivemos quando temos 30 ou 40 anos, aumentam a nossa probabilidade de virmos a sofrer de doenças como o AVC e o Alzheimer. Entre as primeiras causas de morte nos países ocidentais, no ano passado, estava o AVC, os enfartes cerebrais. O curioso é que 80% dos enfartes cerebrais podem ser prevenidos se tivermos em conta algumas normas de saúde cerebral. É um tema que preocupa muitas pessoas, porque são muitas as que tiveram um pai ou um avô que morreu na sequência de um AVC. E também sabemos, no caso do Alzheimer, que uma boa saúde cerebral e bons cuidados podem atrasar a doença e, em alguns casos, esse atraso pode evitar que a doença apareça — pode atrasar durante tantos anos que morremos antes que alguma coisa aconteça. Cuidar do cérebro enquanto jovens ajuda a prevenir doenças relacionadas com a memória, e não só.
Entre os pacientes que têm um AVC encontramos pessoas de todas as classes sociais, profissões e idades. Abundam as que fumam e têm um elevado nível de stress, excesso de peso, colesterol ou açúcar no sangue. De facto, se tiver dois destes fatores de risco antes dos 40, a probabilidade de ter um AVC antes dos 80 anos é de 50 por cento.
(“Cuide do seu cérebro”, pág. 23)
Mas à partida pode parecer estranha a ideia de cuidarmos do nosso cérebro. As pessoas estão conscientes de que este é um ritual tão importante como escovar os dentes todos os dias?
Não, a verdade é que as pessoas não se preocupam com o cérebro porque este parece um órgão que resiste a tudo e que nos serve durante a vida toda. O cérebro cuida-se através da alimentação e do exercício físico, o que, por sua vez, ajuda a promover a descontração e a concentração. O cérebro cuida-se também através do sono. A verdade é que até há poucos anos os cientistas não sabiam como é que se cuidava de um cérebro. Sabíamos como cuidar dos dentes e da pele, mas sabíamos muito pouco sobre isso em relação ao cérebro.
Álvaro Bilbao é doutorado em Psicologia, é ainda neuropsicólogo e psicoterapeuta. © Divulgação

A “reserva cognitiva”, tal como escreve no livro, é uma das formas de cuidar do cérebro. Em que consiste e como é que esta pode ser trabalhada?
A reserva cognitiva é a acumulação de conexões neurológicas que fazem com que o nosso cérebro pense melhor, além de o protegerem do envelhecimento. O exemplo que dou sempre é o seguinte: imaginemos que temos dinheiro guardado no banco, se tivermos muito dinheiro — e aqui o dinheiro são os neurónios no nosso cérebro, as muitas conexões que criámos à base de estudos e de aprendizagens —, quando temos um problema económico podemos utilizar esse dinheiro para não passarmos mal, para não passarmos fome e para não termos de dormir na rua. Da mesma maneira, quando aprendemos muitas coisas, vamos guardando essa informação na forma de conexões neuronais, pelo que o nosso cérebro fica maior (à semelhança da nossa conta bancária). Essa reserva cognitiva permite-nos pensar mais rápido e de uma maneira mais eficiente. As muitas conexões que criamos podem ajudar-nos a proteger ou a atrasar certas doenças.

Sermos pessoas mais educadas, no sentido da cultura, é uma solução?
Sim, aprendermos mais coisas é uma solução. Há muitos anos que sabemos que ter mais níveis de estudos, como por exemplo ter passado pela universidade, é algo que nos protege face ao envelhecimento cerebral, mas hoje em dia também sabemos que outro tipo de atividades podem ajudar a construir a reserva cognitiva, como falar vários idiomas, ler livros e aprender coisas novas ou viajar. Não é preciso ser-se um académico ou ter estudos universitários, o mais importante é que sejamos pessoas curiosas, que estejamos sempre dispostas a aprender coisas novas.

E estamos sempre a tempo disso?
Sim, durante toda a vida podemos criar novas conexões neurológicas. Todos os dias criamos novas conexões, portanto qualquer pessoa, em qualquer idade, pode aumentar a sua reserva cognitiva.

E o que devemos e podemos comer para promover a saúde mental?
Essa é outra área muito importante. A nutrição “neurossaudável” compreende os alimentos que pensamos serem os mais saudáveis para o cérebro. Nesse sentido sabemos que 60% do cérebro é composto por matéria gorda e, por isso, é muito importante introduzir gorduras “neurossaudáveis”, que não sejam saturadas ou hidrogenadas. O melhor são as gorduras do tipo ómega 3, que estão contidas em frutos secos ou no peixe azul. Também é muito importante ter os níveis de energia estáveis, para que tenhamos um estado mental equilibrado durante todo o dia. Para estarmos concentrados durante um largo período de tempo convém introduzir hidratos de carbono complexos em vez de açúcares refinados. As vitaminas e os minerais também são muito importantes — nesse sentido, as frutas e as verduras são essenciais (graças às vitaminas e aos minerais construímos, por exemplo, os neurotransmissores que são a principal fonte de bem-estar emocional). É ainda importante reduzir as proteínas que vêm acompanhadas de gorduras pouco saudáveis, como as carnes vermelhas, sendo preferível consumir proteínas provenientes do pescado e de carnes com pouca gordura ou de carnes brancas.

Há algo que não possamos comer ou beber?
Sim, sabemos que há certos alimentos que são prejudiciais ao cérebro e, nesse sentido, tudo o que são alimentos com grandes quantidades de açúcar podem favorecer a aparição de diabetes, mas também fazem com que o cérebro funcione de uma forma mais irregular. Dito isto, os doces são muito prejudiciais, bem como os alimentos com muita gordura (ou com gorduras de má qualidade, incluindo gordura animal ou saturada). Eu defendo que as pessoas podem comer um pouco de tudo, mas sempre com moderação. Sabemos que um copo de vinho pode contribuir para favorecer a circulação do sangue, mas também sabemos que muito álcool pode ser prejudicial e pode contribuir para o aparecimento de cancro. O mesmo para o café e para o chocolate, que têm antioxidantes, mas não convém ingeri-los em grandes quantidades. Outros alimentos prejudiciais são aqueles que têm corantes ou conservantes. É sempre melhor comer produtos frescos.

Outro tópico mencionado no livro é a questão do sono. Há pouco tempo entrevistámos Arianna Huffington, fundadora do jornal Huffington Post e autora do livro “A Revolução do Sono”. Ao Observador, Huffington disse que a “a privação de sono é uma epidemia global”. Concorda?
Totalmente. Sabemos que o sono é um dos fatores de proteção do cérebro, um dos mais importantes — o exercício físico é ainda mais importante. Mas o sono é, muito provavelmente, o fator onde mais nos descuidamos. Desde que apareceu a luz elétrica, no século XIX, temos vindo a roubar horas ao sono, de tal maneira que o ser humano dorme cada vez menos horas (e as crianças também). Estamos a ver adolescentes de 16 anos que, em vez de dormirem nove ou 10 horas todos os dias, estão a dormir cinco ou seis. Isto é muito prejudicial para o cérebro porque, quando dormimos, ocorrem duas coisas muito importantes. A primeira coisa é que armazenamos informação na memória de longo prazo — o ato de dormir é uma forma de armazenar informação, pelo que se quisermos ter uma boa memória, é fundamental dormir muito. Outra coisa é que, quando dormimos, o nosso cérebro ativa o nosso sistema imunológico, que tem como missão reparar o cérebro e eliminar todas as toxinas que se acumularam durante o dia — devido à poluição, aos corantes e aos conservantes na comida –, mas também elimina as substâncias que produzem o próprio stress. O ato de dormir tem a função de reparação.
Socializar é uma atividade essencial na proteção do cérebro face à passagem do tempo, bem como no atraso do aparecimento de doenças neurodegenerativas como o Alzheimer. Sabemos que as pessoas mais longevas do mundo vivem rodeadas de seres queridos e costumam proceder de comunidades onde a relação entre os seus membros é próxima.
(“Cuide do seu cérebro”, pág. 147)
Escreve ainda que a relação com outras pessoas é também fundamental para cuidar do cérebro.
Sim, sabemos que as sociedades no sul da Europa têm um fator de proteção face ao envelhecimento cerebral, que são as relações sociais. Quando estamos a conversar com outras pessoas, quando nos sentimos unidos à nossa família, aos nossos amigos e aos companheiros de trabalho, isso reduz os níveis de stress e os níveis de ansiedade, e permite-nos exercitar a mente. Quando conversamos com outras pessoas estamos a realizar uma ação cerebral muito complexa.

Outra ideia interessante no livro é o facto de existirem diferenças entre o cérebro masculino e feminino. Isso pode ajudar a explicar o motivo por que, por vezes, homens e mulheres não se entendem?
Os cérebros do homem e da mulher não são assim tão diferentes, mas ao nível científico há diferenças claras, apesar de não serem assim tão grandes. Sabemos que as mulheres têm mais 200 milhões de neurónios na área da linguagem, isso implica que as mulheres têm mais vocabulário e melhor memória verbal. As mulheres também têm tendência a comunicar mais com os dois hemisférios [direito e esquerdo], de tal maneira que podem relacionar mais vezes o mundo racional com o emocional. É por isso que, quando uma mulher tem um problema, muitas vezes tende a ligar a uma amiga, à mãe ou à irmã, uma vez que as mulheres tendem a resolver os problemas em sociedade, de uma maneira mais social. Já os homens quando têm um problema, racionalizam as coisas de forma solitária. Quando uma mulher tem um problema e o conta ao marido, o marido pensa e dá uma solução, e a mulher sente-se sozinha porque acha que o marido não a escutou. Mais, as mulheres vivem em média mais cinco anos do que os homens e isso faz com que o seu cérebro seja mais vulnerável a algumas doenças.

Que tipo de perguntas ouve mais vezes?
Muitas pessoas perguntam que tipo de exercícios podem fazer para cuidar do cérebro. Perguntam sempre pelos “sudokus” e pelos quebra-cabeças. Na verdade sabemos que estes exercícios não são os mais importantes para o cérebro. Sabemos, sim, que fazer exercício é muito importante, provavelmente o mais importante que podemos fazer: quando caminhamos estamos a oxigenar o cérebro e estamos a fortalecer a relação entre o cérebro e o coração. Em vez dos quebra-cabeças, o melhor é sair à rua, caminhar, falar com pessoas e comprar peixe e verduras. Os exercícios mentais que ajudam o cérebro, que ajudam a criar uma reserva cognitiva, são aqueles que são interessantes, difíceis e novos.
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Fonte:  https://www.publico.pt/2017/03/27/sociedade/noticia/o-nosso-cerebro-nao-esta-preparado-para-mentirninguem-se-gosta-de-ver-a-mentir-1766268

Delicadeza é a virtude necessária para a percepção do amor no mundo

Luiz Felipe Pondé* 
 Pondé de 27.mar

Muitos duvidam da existência do amor. Muitos afirmam ser ele uma invenção da literatura. Outros, que se trata de uma projeção neurótica imaginária. Uma patologia da família das manias. Há quem suspeite de que seja uma doença da alma. Estão errados. 

Quem conhece o amor sabe que ele habita entre nós. E sua presença nos faz sentir vivos. Por isso, o ressentimento é cego ao amor. Pode ser raro, randômico, frágil muitas vezes, mas nem por isso menos marcante quando percebido. 

Este é o tema do filme sueco "Um Homem Chamado Ove", de Hannes Holm, que foi indicado para melhor filme estrangeiro no Oscar deste ano. O cinema escandinavo está sempre entre os melhores do mundo. Poucos lidam com temas do afeto de forma tão elegante, do desespero à beleza, mas sempre elegante. 

A história é um clássico: a morte de uma esposa amada e a solidão decorrente. O filme narra a "cura" do homem chamado Ove, principalmente, pelas mãos de sua vizinha grávida iraniana, e suas filhas, além de todos os vizinhos em volta, lembrando, em muitas cenas, uma máxima rabínica: Deus está nos detalhes. 

E o Messias entra pela fresta da porta. O amor também, como diz o livro bíblico "Cântico dos Cânticos". A falta de atenção para com os detalhes torna qualquer pessoa obcecada pela falta de sentido das coisas. A delicadeza é a virtude cognitiva necessária para a percepção do amor no mundo.
Só quem conhece o amor sabe o desespero que pode ser perder a quem se ama. O amor é incomum. 

Claro, nada tem a ver necessariamente com o casamento. Pode, inclusive, morrer pelas mãos do casamento. Casa-se com quem se ama porque o amor pede o convívio. A presença viva de que ele existe. 

Estar longe de quem se ama implica numa falta que beira a asfixia. Na verdade, o amor está entre as formas mais poderosas de significado na vida. E vai muito além do amor romântico propriamente dito. 

A percepção repentina do amor pode dar a quem o vê a sensação de estar diante de um milagre, dado a sua leveza, humildade e generosidade. 

A falta de amor na vida produz um certo ceticismo em relação ao mundo. Ou pior: o sentimento de inexistência. O mundo fica escuro, e você, vazio. A falta de amor beira a descrença. Perde-se a confiança nas coisas. Mesmo nas árvores e nos pássaros. 

Um dos pecados maiores da inteligência é chegar à conclusão de que o amor é uma ficção. Mas não é a inteligência que aí fala, mas a tristeza de um coração em agonia.

Muitas vezes, pessoas supostamente inteligentes consideram o amor algo ingênuo e pueril. E quem ama, um equivocado. 

Não há razões pra amar, uma vez que o mundo parece provar a cada minuto que ele é o terreno da raiva, do rancor e do ressentimento. A ciência do mundo parece mesmo ser um tratado sobre a desconfiança.

Søren Kierkegaard (1813-1855), em seu "As Obras do Amor", da editora Vozes, alerta aos inteligentes que não confundam o amor com alguma forma de ignorância da mentira e dos riscos. 

A desconfiança se acha a mais completa das virtudes morais ou cognitivas. A armadilha de quem desconfia sempre é que ele mesmo se sente inexistente para o mundo porque este é sempre visto com desprezo. É da natureza do amor olhar para fora e não para dentro. O amor não é apaixonado por si mesmo. 

Outra suposta arma contra o amor é o fato de a hipocrisia reinar no mundo. A hipótese de a hipocrisia ser a substância da moral pública parece inviabilizar o amor por conta de sua cegueira para com esta hipocrisia mesma. 

É verdade: o amor não vê a hipocrisia. Kierkegaard diz que há um "abismo escancarado" entre eles. Este abismo é de natureza, isto é, a diferença de postura entre os dois torna o amor tão distante da hipocrisia, que sua pantomima, fruto do desprezo pelas coisas, é invisível aos olhos do amor que une as coisas. 

O amor é concreto como o dia a dia. Engana-se quem o considera abstrato e fantasioso. Kierkegaard nos lembra em seu primeiro ensaio como o amor só se conhece pelos frutos. Isso implica que não há propriamente uma percepção do amor que não seja prática. O gosto do amor é a confiança nas coisas que ele dá a quem o experimenta. 
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 * Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência. Escreve às segundas.
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2017/03/1869990-delicadeza-e-a-virtude-necessaria-para-a-percepcao-do-amor-no-mundo.shtml

Carne Fraca’: quando a falta de ética agride a integridade humana

 Samuel Sabino*
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O ser humano é uma criatura dotada de dignidade. Uma vez que ele se torna consciente dela, faz de tudo para que esta se mantenha intacta. É por isso que na última sexta-feira (17/03) houve uma comoção tão grande de desconforto e revolta envolvendo a megaoperação da Polícia Federal, nomeada como Carne Fraca. 

O trabalho da polícia revelou e desmontou um esquema envolvendo propina e funcionários do Ministério da Agricultura, que teriam liberado carnes para venda sem passar pela devida fiscalização. O esquema também envolveria funcionários de alguns frigoríficos, que possuiriam irregularidades ligadas ao uso de produtos químicos para mascarar carnes vencidas e de água para aumentar o peso dos produtos comercializados.

A possibilidade de que produtos adulterados, e acima de tudo impróprios para consumo, terem ido parar na mesa da população deixou o país em revolta e alerta, mesmo que ainda não haja explicações detalhadas de todo o ocorrido. Ainda não houve pronunciamento oficial envolvendo marcas que devem ser evitadas, porém, vários países pararam as exportações temporariamente, indicando o mesmo medo dos brasileiros, o de ter sua dignidade ferida através do consumo de um alimento que pode ser prejudicial à saúde.

Independente das investigações, dadas às irregularidades como possíveis fraudes, propinas e corrupção, denunciadas pela operação, o que precisamos colocar em debate é a falta de ética praticada pelas empresas e órgãos denunciados. Quando há irresponsabilidade ética nas corporações, nasce uma conduta institucional irregular cujo resultado é a perda da confiança, credibilidade, respeito, ou até mesmo comprometendo a saúde e dignidade do cliente.

O modelo mental deste tipo de corporativo envolvido está ligado ao que chamamos na filosofia de Maquiavélico Negativo. Nesse modelo o fim último, ou seja, o propósito da organização, é o lucro e somente o lucro – e não o bem estar de seus clientes. Isso era algo aparentemente aceitável no século XX, mas vem mudando junto com diversas posturas e novos paradigmas do século XXI.

Nem sempre a ferida na dignidade é notada, porém, quando a mídia esclarece a população através da divulgação dos fatos, é possível notar que não apenas leis foram quebradas, mas acima delas, a conduta moral foi ignorada. Mesmo que haja grande competitividade no meio corporativo, o ideal para as empresas seriam um pensamento a médio e a longo prazo envolvendo as melhores práticas, isto é, a ética.

Não é o bastante que a lei seja atendida. O problema é moral, e não apenas legal. Um exemplo disso é a escravidão. Na época em que ela foi vigente, era legalizada. Entretanto, a moral continuava a ser quebrada, considerando-se o ser humano sempre como fim último, pois é detentor de dignidade. A lei só se modificou depois que o princípio moral atingiu um nível de esclarecimento dentro da população de o quanto tais condutas eram erradas.

Todos os envolvidos na “Carne Fraca” sabiam do ocorrido e tinham consciência de que quebravam a lei, no entanto, isso prova que apenas saber das leis não será impecílio para que a barbárie predomine no comportamento humano. É preciso que haja investimento profissional no nível de esclarecimento das questões éticas para a humanidade, é o que chamamos de Inner Compliance.

Somente através da luz da ética sobre as práticas corporativas é que será possível evitar situações como essa. A esfera da moral, que é anterior à lei, é a que verdadeiramente precisa ser mudada. Apenas com a real interiorização de valores éticos positivos que alcançaremos mudanças em nossa cultura corporativa. O verdadeiro problema não está no sintoma, a “Carne Podre”, está na moral distorcida de quem atua no dia a dia das empresas que se deixam corromper em busca de benefícios em curto prazo.
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* Samuel Sabino é professor na Escola de Gestão da Anhembi Morumbi, filósofo e mestre em bioética. Ele é fundador da Éticas Consultoria e ministra o curso de Inner Compliance, com foco em ética no meio corporativo.
Imagem da Internet
Fonte:  https://www.ecodebate.com.br/2017/03/27/carne-fraca-quando-falta-de-etica-agride-integridade-humana-artigo-de-samuel-sabino/

sábado, 25 de março de 2017

Ah... família

 Lya Luft*
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 Existe algo nos laços de família que é muito mais 
do que genes e sangue

Quantas vezes se discute o tema "família" durante uma vida inteira! Em grupos de mesa de bar, entre amigas (sobretudo mulheres, porque homens comentam menos questões afetivas)! Quanto de queixas em salas de terapeutas e psicanalistas, quanto ressentimento secreto ou evidente contra pai, mãe, irmãos... Mas também: quanta segurança, conforto, alegria e emoção. Quanta descoberta através dos anos.

Lembro desde muito pequena de certa ansiedade em relação a isso. Às vezes corria para a mãe perguntando: "Você gosta da vovó?". E a resposta vinha sempre: "Claro, ela é a mãe do meu marido". E perguntando à avó, a resposta era quase igual: "Claro, ela é a mulher do meu filho". Aquilo não me tranquilizava muito, mas por algum tempo valia. Devo dizer que não havia brigas sérias em minha família, não éramos anjos, apenas pessoas: algum conflito sempre existia e existirá em qualquer desses grupos humanos meio estranhos chamados família, dos quais a gente não pediu para participar, e às vezes gostaria de escapar, raramente conseguindo... E onde tantas vezes se bebe a água fresca e vital de um aconchego que nada mais pode nos dar.

Não realizo com muita frequência o sonho de toda mãe galinha choca, como já me definiram: ter seus pintos perto, à sua volta ou ao alcance de um voo direto e breve. Parte de minha família mora longe, digo looonge mesmo: um filho com mulher na África remota e dois de meus netos, seus filhos, cursando faculdade na Nova Zelândia. Às vezes brinco que, na próxima mudança, quem sabe se transfiram para o Polo Norte e o Polo Sul. E apesar disso, graças aos milagres do cyberspace e do afeto, de alguma forma estamos sempre juntos, eles e nós, a família que por sorte minha ficou aqui.

Por isso mesmo, talvez, as reuniões são tão importantes, e fazem transbordar este coração: os que antes foram meus bebês, minhas crianças, meus adolescentes, agora são mãe e pais, um de barbas brancas, com suas famílias. Suas profissões. Perto ou longe, abrindo caminho neste vasto mundo onde há muito já não posso nem devo protegê-los como quando eram crianças, e eu talvez ainda sonhasse que eram "minhas".

Isso de ser família tem alguns clarões gloriosos, como quando finalmente todos se reúnem, e muita risada, muita brincadeira, muito abraço, foto, carinho, memória de velhas aventuras: "Lembram de quando alguém nos deu um macaquinho de presente e ele queria morder todo mundo? Lembram daquele cachorrinho? Daquela pescaria na praia? Daquela vez em que torci o pé na escola? Daqueles jogos de vôlei na piscina? De quando o diretor te chamou, mãe, porque eu tinha tirado a peruca de um professor que implicava com a gente? De quando a gente se casou? De quando nossas crianças por sua vez nasceram?". E assim se gastam noites, e dias, e churrascos, e almoços, e felicidades. Não é paraíso, mas é realidade, é chão, raiz, emoção tantas vezes mal disfarçada.

Ando tendo uma dessas dádivas da vida. E me faz acreditar que existe algo nos laços de família que é muito mais do que genes e sangue: é alma e afeto. E que, por mais louco ou chato que ande este grande mundo, talvez este país, uma família amorosa mostra que algumas coisas permanecem, belas e firmes. E que tudo valeu a pena.
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* Escritora. Cronista da ZH
Fonte: http://zh.clicrbs.com.br/rs/opiniao/colunistas/lya-luft/ultimas-noticias/ 25/03/2017
Imagem da Internet

Transhumanismo: ¿se puede eliminar la muerte?

Salvador Aragonés 


De la naturaleza biológica a la naturaleza de base tecnológica, ¿qué hay detrás de este movimiento?

El transhumanismo o H+ (Humanidad Plus) es un movimiento cultural e intelectual que afirma la posibilidad y necesidad de mejorar la condición humana, basándose solo en el uso de la ciencia y las tecnologías más avanzadas. Estas tecnologías conseguirían  aumentar las capacidades físicas, intelectuales y psicológicas de los seres humanos y alargar la vida de modo indeterminado o, incluso para algunos, hacer al hombre inmortal en la Tierra.

Estas tecnologías son la ingeniería genética, las tecnologías de la información, la farmacología, así como tecnologías que se encuentran en fase experimental como la nanotecnología, la inteligencia artificial y la colonización espacial.

El transhumanista Nick Bostrom afirma que “será posible utilizar terapias del tipo genético y otros métodos biológicos para bloquear el proceso del envejecimiento y estimular el rejuvenecimiento y la reparación de los tejidos en forma indefinida y es posible que una tarea de este tipo solo pueda ser llevada a cabo por la nanotecnología. Mientras tanto solo existen tratamientos en base a hormonas”, que son muy caras.

El transhumanismo quiere cambiar la naturaleza biológica del hombre para hacer una naturaleza de base tecnológica. El hombre no envejecerá, pues la tecnología mantendrá una lucha contra la muerte y tal vez vencerla, según dicen.

Inspirándose en la Ilustración del Siglo XVIII, eliminan a Dios y ponen en su lugar la ciencia, el conocimiento. Pero cabe preguntarnos: ¿las tecnologías de futuro harán que los hombres sean más iguales? ¿Y más felices?  ¿Y más libres? Esto es una discusión filosófica y científica en que se basó una jornada titulada “Inteligencia artificial y transhumanismo” organizada por la Federación Internacional de Médicos Católicos (FIAMC) en Barcelona (España) con la participación de expertos europeos de diversas disciplinas.

La conferencia magistral inaugural fue a cargo del profesor de Teología y Bioética de la Universidad Católica de Milán, Dr. Michele Aramini. Con él nos sentamos para hablar e informar a los lectores de Aleteia sobre este fenómeno mundial, muy extendido en América Latina, que es el Transhumanismo.

Preguntamos al profesor Aramini si las transformaciones del hombre y del género humano que pretenden los transhumanistas llevarán a una mayor igualdad entre los hombreds: “no es posible, responde, porque habrá que aplicar al hombre una tecnología muy cara y pocos hombres estarán en condiciones económicas para comprarla. Tampoco será una sociedad democrática porque solo una élite de habitantes del mundo occidental podrá pagarse la tecnología y esto lleva a una discriminación fuertísima entre los hombres, entre los que se pueden pagar las tecnologías y los que no”. Y los que pueden, dominarán al resto condenándolos a formar una clase social baja y oprimida.

¿Y la felicidad? ¿Serán más felices? El profesor Aramini afirma que una cuestión preliminar es preguntarse “sobre el sentido de la vida”. Esto se lo preguntan teólogos y filósofos, creyentes y ateos (el ideario transhumanista es ateo). “El ateísmo moderno –dice el profesor– se ha lanzado desesperadamente a los brazos del dios ciencia (cientifismo) pidiendo a la ciencia un significado de la propia vida”. Y añade: “sería contradictorio que una vida privada de sentido y fruto de la casualidad” llegara a ser deseable hasta el punto de hacerla inmortal.

El profesor Ermanno Pavesi, secretario general de la FIAMC, dijo en esta jornada que el hombre no puede prescindir de Dios y citó al papa Francisco en su encíclica “Laudato sí´” (n. 221) donde dice que “Dios ha creado el mundo inscribiendo en él un orden y un dinamismo que el ser humano no tiene derecho a ignorar”. O sea que la intervención humana debe estar en el orden de la creación, sin manipulaciones.

El transhumanismo cree que puede construir una vida muy larga, y hasta algunos aseguran que el hombre llegará tener una vida inmortal en la Tierra. Esta teoría se confronta con el cristianismo que predica también la inmortalidad del hombre. “Ciertamente –dice el profesor Aramini—el hombre quiere una vida verdadera, plena, una vida que valga la pena, que sea alegre y gozosa”, lo que conseguirá en la visión beatifica de Dios. La vida eterna predicada por Jesucristo no es la inmortalidad de la vida terrena, sino la “existencia en una nueva dimensión”, la comunión con Dios, que necesita la muerte del cuerpo.

Jesucristo resucita a Lázaro, no para que viva eternamente, sino para que siga viviendo y muera y pueda acceder a la eternidad en comunión con Dios. Los transhumanistas, sin embargo, no creen en la trascendencia de una vida cuya meta es estar junto a Dios. No quieren la muerte, la rechazan. Por eso creen que la ciencia les hará “como dioses”.

El hombre nuevo que proponen los transhumanistas ¿será más libre? Ellos creen que sí, pero “es una libertad falsa”, dice el profesor Aramini. ¿Quién va a preservar la dignidad del hombre, el amor, el cariño, la amistad y la capacidad auténtica de elegir entre una cosa u otra?

A lo largo de los siglos, quien ha liberado al hombre es Dios, desde la liberación de su Pueblo en Egipto, hasta Jesucristo que ocupa el ápice de esta liberación. “Él es el fundador de la libertad del hombre, dice Aramini, porque consiente al hombre tomar la decisión más alta, en relación con Dios mismo, cuando dice (Jn, 6, 67): “¿también queréis iros vosotros?” (Muchos le abandonan al anunciar la Eucaristía).

Y añade Aramini: “El hombre contemporáneo, curiosamente, ha entrado en una situación paradoxal: reivindica la libertad pero teme usarla, porque la libertad comporta un riesgo que es decidirse por una causa y ser fiel a la misma con coherencia dándose una identidad. La elección de esta causa (ser o no ser tal cosa, hacer o no hacer tal otra) no puede basarse en garantías científicas”. Es imposible. La decisión del hombre estará basada en el sentido de la vida y elegirá sobre lo que conoce con certeza, esto es la fe que le da una identidad.

El transhumanismo hoy “se mueve en el terreno más hipotético que realista”, dice Michele Armanini. En la nanotecnología se quiere construir una especie de “robot” permanente dentro de nuestro organismo y monitorizarlo y llegar a la “digitalización del yo”. ¿El hombre transformado en un robot, con tanta inteligencia artificial y tanta manipulación genética? En muchas cosas el transhumanismo está instalado en la ciencia ficción y en el ateísmo.
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 * És un periodista català que fou corresponsal a Roma i director de l'agència de notícies Europa Press de Catalunya entre el 1977 i el 2007, impulsant el primer servei de notícies en català d'una agència de notícies.
Fonte:  http://es.aleteia.org/author/salvador-aragones/ 24/03/2017

Bons ateus ou maus católicos?

P. Gonçalo Portocarrero de Almada*

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Há quem diga que “Francisco prefere bons ateus a maus católicos”, dando a entender que os católicos são maus 
por serem católicos e que, portanto, se deixassem 
de o ser, seriam bons, ou seja ateus…

Há muito boa gente que gosta muito de Francisco… apesar de ser Papa! Tão amigos são do Papa Francisco que até lhe fazem o favor de o pôr a dizer o que ele nunca disse, nem pode dizer, mas que eles, “bons ateus” ou “maus católicos”, muito gostariam que dissesse. Ou seja, para justificarem a sua particular devoção por Francisco, não obstante a solene embirração que têm pela Igreja Católica, convertem Francisco num antipapa, coisa que, obviamente, Francisco nunca foi nem, com a graça de Deus, será. Senão, vejamos.

Num texto de Bárbara Reis sobre “Oito razões a favor do Papa” (Público, 10-3-2017), é dito que Francisco “abriu a possibilidade de os católicos divorciados e recasados poderem receber a comunhão”. Na realidade não abriu, porque essa possibilidade sempre existiu e já tinha sido reconhecida explicitamente pelos papas Bento XVI e São João Paulo II. Francisco apenas acrescentou “um convite à misericórdia e ao discernimento pastoral perante situações que não correspondem ao que o Senhor nos propõe” (Amoris Laetitia, 2). Nada de novo, portanto e, por isso, nessa sua segunda Exortação Apostólica, o Papa Francisco criticou os que têm “o desejo desenfreado de mudar tudo” (AL, 2).

Tendo em conta que a indissolubilidade matrimonial é um ensinamento explícito de Cristo, como também o é a impossibilidade da comunhão eucarística para quem não reúna as condições necessárias para o efeito, nenhum papa pode permitir que algum fiel possa comungar em situação de pecado mortal, seja este o de adultério ou qualquer outro. Porém, nem tudo o que parece, é: “não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada ‘irregular’ vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante” (AL, 301). Muito excepcionalmente, “é possível que uma pessoa, no meio de uma situação objectiva de pecado – mas de que subjectivamente não é culpável, ou não o é plenamente – possa viver na graça de Deus” (AL, 305).

Há quem não entenda isto e, por isso, conclua: “É caso para dizer: viva a confusão”. Mas não há lugar a nenhuma confusão porque, como “se não devia esperar do sínodo, ou desta exortação, uma nova normativa geral de tipo canónico, aplicável a todos os casos” (AL, 300), a Amoris Laetitia deve ser interpretada no sentido do anterior magistério eclesial e da tradição, como aliás fez o Cardeal Patriarca de Lisboa, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa.

É verdade que “Francisco defende os refugiados muçulmanos todos os dias”, como também os seus antecessores na cátedra de Pedro foram defensores da paz e da liberdade religiosa em todo o mundo. Mas o Papa Francisco não ignora o carácter ofensivo de um sector radical do islamismo e tem apelado, repetidas vezes, a todos os responsáveis religiosos – cristãos incluídos! – para que não permitam que o nome de Deus seja invocado como fundamento da guerra, ou do terrorismo.

Apesar de o Papa Francisco ter sido o primeiro vigário de Cristo que subscreveu uma encíclica sobre a temática ecológica, a verdade é que a questão tinha sido já repetidas vezes referida pelos seus antecessores, nomeadamente São João Paulo II, que era um declarado amante da natureza. A paixão ecológica do Cristianismo não é recente: já São Francisco de Assis – de quem o actual pontífice romano tomou o nome – tinha cultivado esse mesmo amor religioso pelo mundo e por todas as suas criaturas.

Quando o Papa Francisco afirmou “Se uma pessoa procura Deus de boa vontade e é gay, quem sou eu para a julgar?” causou um tremendo sururu, como se a frase, tida por gay friendly, revogasse toda a doutrina moral sobre a matéria. É óbvio que este Papa é gay friendly, como foram os seus antecessores e são todos os bispos e fiéis dignos desse nome, porque a tanto obriga o mandamento novo da caridade. Mas essa exigência não contradiz o princípio da moral católica que exige reprovar o acto pecaminoso, mas sem condenar o sujeito, que só Deus pode julgar. Por isso, o Papa Francisco não se contradisse quando, não obstante o que afirmou sobre as pessoas com tendência homossexual, realçou que as uniões entre pessoas do mesmo sexo não podem ser equiparadas ao matrimónio (AL, 52).

É verdade que Francisco tem um estilo muito próprio e muito diferente da precisão teológica de Bento XVI. O Papa actual é, sobretudo, um pastor e, por isso, a sua linguagem é mais “do século”, ou do mundo, sem ser mundana. O Papa Francisco privilegia uma abordagem mais informal, que não é menos ortodoxa, embora escandalize os fundamentalistas e os que, de tão apegados à letra da lei, não compreendem o seu espírito.

É de um grande simplismo afirmar que “Francisco não acredita em muros e é o mais radical político anti-Trump”. As fronteiras, que outra coisa não são do que muros mais ou menos intransponíveis, são necessárias para definir o âmbito da soberania dos Estados: o Vaticano também as tem, por sinal muradas. Sugerir que o Papa Francisco é contra o presidente eleito de uma das maiores democracias do mundo poderia levar a crer que não é democrata, ou que é ‘político’ e, como tal, pretende intervir na política interna de um Estado, ignorando a separação evangélica entre o que é de Deus e o que é de César.

Há quem diga que “Francisco prefere bons ateus a maus católicos”, dando a entender que os católicos são maus, por serem católicos, e que portanto, se deixassem de o ser, converter-se-iam em bons, ou seja em ateus… O Papa Francisco reconhece que há ateus que, por excepção, são bons, como também não ignora que há católicos que, por excepção, são maus; mas também sabe que são meras excepções. A regra é que os católicos sejam bons, não por mérito próprio, mas pela graça dessa sua condição; quem a não tem pode ter alguma bondade, mas não tanta quanto teria se a tivesse. Caso contrário, para que serviria ser cristão?!

De facto, os maus católicos são melhores do que os bons ateus, não porque humanamente sejam mais perfeitos, mas porque, pela sua fé, não só alcançam a graça que os perdoa e liberta dos seus pecados, como também a alegria do amor de Deus.
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 * Colunista do jornal português Observador.
Fonte: http://observador.pt/opiniao/bons-ateus-ou-maus-catolicos/ 25/03/2017
Foto da Internet

sexta-feira, 24 de março de 2017

Os “Intelectuais” Homologados

Fran Alavina*

O "historiador" Marco Antonio Villa: suas falas podem ser confundidas com apresentações de stand-up comedy. Os intelectuais homologados sabem animar auditórios como poucos. São o produto mais recente da indústria cultural
O “historiador” Marco Antonio Villa: suas falas podem ser confundidas com apresentações de stand-up comedy. 


Os intelectuais homologados são o produto mais recente da indústria cultural Villas, Pondés e afins são produtos de uma época sombria. Nunca criticam estruturas. Diluem, em favor da rapidez e do simplismo, o tempo e esforço exigidos pelo trabalho do pensamento


Não é de hoje que os intelectuais passaram a exercer uma função midiática para além das antigas aparições públicas, nas quais a fala do acadêmico se apresentava como um diferenciador no âmbito do debate público. Entre a tagarelice das opiniões de pouca solidez, porém repetidas como se certezas fossem, a figura do conhecedor, do estudioso, ou mesmo do especialista surgia como um tipo de freio às vulgarizações e distorções do cotidiano. Não que isso representasse uma alta consideração e respeito da mídia hegemônica em relação ao conhecimento acadêmico, uma vez que a fala do intelectual ao se inserir em um debate cujas regras lhes são alheias facilitava a distorção de suas falas, todavia mantinha-se a diferença explícita entre o conhecimento e a simples informação.

Ademais, a identificação dos intelectuais com certas causas os afastavam do centro do poder e de seus bajuladores: os donos da mídia. Tal representava um entreve por princípio. Era melhor não chamá-los a ocupar um espaço voltado para um público amplo. Entre uma fala e outra surgiria a criticidade que a mídia hegemônica procurava “amansar”. Quando era inevitável ceder-lhes espaço, suas falas nunca poderiam ser identificadas com a informação, nem apresentada na forma da informação. Isto era o signo divisor, como que dizendo: “não liguem muito, é coisa de intelectual (…)”. Nos últimos anos, contudo, essa diferença (entre conhecimento e informação, entre o papel do intelectual e a função midiática) não apenas se esgarçou, como se tornou quase nula. Por isso, hoje estamos diante de um novo tipo de intelectual: o intelectual homologado.

Este tipo de intelectual surge nos espaços da mídia hegemônica como uma espécie de adendo à informação, um plus, pois o saber, representado pela sua presença, que supostamente emprestaria prestigio às notícias é dado sempre na forma da informação, portanto descaracterizando os elementos que constituem qualquer tipo de conhecimento. Ou seja, sobre critérios que fazem do saber um não saber. Dilui-se na torrente informacional midiática o tempo demandado e o esforço necessário exigidos pelo trabalho do pensamento, em favor da rapidez e do simplismo. Porém, tais aspectos, embora importantes, não configuram o fator determinante da homologação.

Estes intelectuais são homologados na medida em que suas falas públicas têm aparente criticidade e profundidade. Em verdade, nunca dizem algo que seja contra os interesses dos meios midiáticos que lhes dão guarida, nunca fazem um crítica profunda que mexa com as estruturas mais acomodadas do seu público, pois este já não é mais uma plateia que dá ouvidos às palavras do homem de saber, mas um grande fã-clube que ele não pode jamais desapontar. A formação deste fã-clube impede a autonomia que caracteriza o sujeito de saber. Desse modo, não se estabelece, de fato, uma relação que enseja conhecimento, mas uma relação de poder, na qual o liame é a dependência entre os ditos e gestos e a obediência na forma do consentimento Tanto é assim que nos raros momentos em que o fã-clube do intelectual homologado se volta contra ele, o objeto da “revolta” não é de cunho teórico, ou seja, não é um debate sobre suas obras ou suas ideias, porém diz respeito a um fato de sua vida privada. Seus fãs exercem uma vigilância policialesca, como os fãs de qualquer astro pop, pois a relação se, por um lado, exige o consentimento, por outro lado, faculta a vigilância aos que consentem. A figura do intelectual homologado traz consigo uma legião de homologados intelectuais. Ora, não foi isto que ocorreu nos últimos dias, com a pantomima em torno de uma foto postada nas redes sociais pelo nosso mais bem acabado exemplo de intelectual homologado?

Como a celebridade pop que depois de flagrada fazendo algo que desagradou aos seus fãs, foi obrigado a redigir um pedido de desculpas. Na “prestação de contas” ao seu fã-clube deixou-se escapar toda a vaidade e o exibicionismo. Ele dividiu o mundo entre aqueles que o amam e aqueles que o odeiam. Crença típica das celebridades midiáticas, segundo a qual uma vez alcançado o posto de famoso, as pessoas ou o invejam, ou lhes prestam deferência. Qualquer coisa fora desse script é visto como algo sem sentido. Em alguns casos são críticos das religiões, mas agem como os pastores que criticam, formando um rebanho não pequeno. O que atesta que se trata de uma relação de poder, e de um poder sedutor, pois travestido de saber.

O grande fã-clube reforça a secular vaidade dos intelectuais, que hoje já não medem mais o êxito de suas carreiras pela qualidade de suas publicações, ou por terem se tornado referência em suas áreas, ou mesmo pelo número de citações de seus trabalhos em outros estudos. O produtivismo do currículo lattes não lhe sacia mais. O êxito e a qualidade são confundidos com o sucesso de público, a qualidade mede-se pela quantidade de curtidas que suas páginas virtuais possuem, pelos vídeos postados que se tornam virais e pelo maior número de palestras pagas que podem amealhar. Embora, na maioria dos casos, suas formações e carreiras sejam devidas ao sistema público e gratuito de ensino superior, ao venderem palestras e workshops pagos e fora das universidades públicas, além de distorcerem a função social do saber, tornam-se um tipo de mercadoria. Por conseguinte, expressam a ideologia neoliberal segundo a qual todo indivíduo é um empreendedor de si mesmo. Como empreendedores, eles se vendem para um público determinado, cujo nicho de mercado descortinaram. Tal é o caráter mercadológico que perpassa a atividade do intelectual homologado.

Em alguns casos, seus discursos públicos e “intervenções” parecem ter uma singular acidez crítica. Porém, se trata de uma semelhança aparente, o intelectual homologado tem um efeito placebo sobre o grande público, sua crítica nunca visa a raiz das coisas, mas alguns aspectos modísticos, oportunistas. Aceitando a homologação, seu papel é entreter, desviando a atenção do público com base no conhecimento e na posição que lograram.

Dessa maneira, suas falas podem ser confundidas com apresentações de stand-up comedy. Sabem animar auditórios como poucos. O intelectual homologado, com efeito, é o produto mais recente da indústria cultural. Tal figura, típica do farsesco debate público contemporâneo, contudo não surgiu do nada. Embora seja uma figura recente, o intelectual homologado é precedido por uma história própria da intelectualidade e suas determinações de classe. Ainda que, muitas vezes, ele queira se apresentar como alguém que fala de fora e acima do corpo social, assim observa sem sujar as mãos, supondo uma posição privilegiada e imparcial, quase sempre tende a repetir, sob o manto do discurso abalizado, a visão parcial de sua classe social.

O intelectual homologado é precedido pela figura do intelectual orgânico que outrora se comprometia com um projeto nacional-popular; este, um pouco depois, deu lugar ao intelectual engajado. Já nos anos 1990, verificou-se o silêncio dos intelectuais após o fim das utopias e a derrota histórica das formas alternativas de organização social até então constituídas. Esta derrota histórica e este silêncio, que apareciam como um gesto de mea culpa, formaram um interdito que reduziu os objetos do discurso público do intelectual, objetos que à medida que diminuíam de dimensão propiciaram a identificação do intelectual com o especialista. Tal se configurou, primordialmente, na figura do economista. Todavia, depois da crise mais recente do capital, a fala pública do economista perdeu crédito, surgindo em seu lugar o intelectual homologado que na maioria dos casos são homens saídos das ciências humanas, mais particularmente da filosofia, da história e da educação. Por enquanto, os geógrafos, antropólogos, e parte dos cientistas sociais, parecem resistir à homologação, ainda que ela seja extremamente sedutora.

Pasolini, em seus textos corsários e luteranos, que tinham como objeto a Itália dos anos 1970, já diagnosticava a figura do intelectual homologado como um produto que perduraria por longo tempo no espaço público, pois sua vitalidade se alimenta justamente de um crescente anti-intelectualismo. Enquanto a postura do intelectual requer algo contrário do que aí se apresenta, aceita-se o simulacro como se fosse a própria coisa. A tagarelice do intelectual homologado, que discursa sobre tudo por medo de ser esquecido, não é o fim do silêncio dos intelectuais, mas sua confirmação. Quanto mais falam, mais se mostra sobre o que silenciam.

Entre nós, não faltam casos ilustrativos. Como vivem da imagem midiática que construíram, os intelectuais homologados apresentam-se com certo aspecto caricatural, como o personagem que se identifica pelo bordão. O historiador da UFSCar, por exemplo, quase sempre se apresenta em tom elevado, dedo em riste, e no auge de suas “intervenções” mais acaloradas não fica com um fio de cabelo fora do lugar. Bate-boca e indisposição com políticos de esquerda, como se isto fosse sinal do bom debate, é o diferencial de seu produto. Já o filósofo do politicamente incorreto ressuscitou o cachimbo como secular excentricidade do intelectual. Perfazendo uma imagem que beira o kitsch, com frequência posta vídeos em que aparece fumando (talvez seja este o signo do politicamente incorreto?!) e cercado de livros que lhe emprestam a áurea de sabichão.

Seria apenas cômico, se não configurassem a expressão trágica do pensamento fácil. O intelectual homologado é o último estágio da miséria dos intelectuais. Indica a perda de dignidade do pensamento crítico, na verdadeira acepção do termo, e, talvez, o vislumbre de sua derrota.
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* Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da USP. Mestre em Estética e Filosofia da Arte pela Universidade Federal de Ouro Preto, UFOP.
Fonte:  http://outraspalavras.net/brasil/os-intelectuais-homologados/ 23/03/2017

quinta-feira, 23 de março de 2017

Nike incorpora o hijab à moda esportiva

Cortesia Nike

Por acaso a empresa esconde algo detrás dessa peça de vestuário islâmico?

Enquanto no âmbito político uma lacuna entre Oriente e Ocidente parece intensificar-se, no mundo fashion as fronteiras estão se abrindo para as mulheres muçulmanas.
Há quase dois anos, Dolce & Gabbana lançou uma linha de hijabs e abayas de luxo. No fim do ano passado, H&M tornou-se a primeira grande marca internacional a colocar uma modelo com hijab em uma de suas campanhas publicitárias. E poucas semanas atrás, Halima Aden se tornou a estrela da passarela de Kanye West na Semana de Moda de Nova York, também usando esta tradicional peça islâmica.

Mas agora é a Nike que quer fazer toda uma “declaração social” ao criar o Pro Hijab para as atletas muçulmanas. O produto levou um ano para ser elaborado, foi feito com um material leve, estará disponível em três cores neutras (preto, cinza e obsidiana) e tem pequenos furos que permitem uma melhor transpiração, mas sem revelar nada da pele ou cabelo.

Embora sua venda comece a partir do próximo ano, na véspera do Dia Internacional da Mulher, a patinadora profissional dos Emirados Árabes Unidos, Zahra Lari, revelou a notícia em sua conta no Instagram, pois ela e outras atletas muçulmanas fizeram parte de todo o processo criativo e serão imagem da campanha publicitária.

Devemos esclarecer que não é a primeira vez que uma marca esportiva faz hijabs, mas é a primeira vez que uma empresa mundialmente famosa e americana faz isso. Além disso, é interessante porque justamente no esporte permanecem barreiras em relação a sua utilização, como é o polêmico caso do basquete, onde a Fiba (Federação Internacional de Basquete) proíbe o uso de hijabs “por segurança”, porque, segundo os membros da Federação, poderiam enroscar em outra jogadora ou cair.

Nas redes sociais, como de costume, as opiniões são variadas. Por um lado, há aqueles que comemoram este novo lançamento, não só por promover uma atmosfera de inclusão mas também por permitir que as muçulmanas em geral (não apenas as atletas profissionais) tenham uma peça que respeite a sua religião que lhes dá as comodidades necessárias para fazer exercício. Mas por outro lado, há aqueles que acreditam que se trata de um movimento bastante comercial e oportunista dado o atual momento histórico que estamos vivendo.

Com relação a este segundo ponto, é preciso dizer que a Nike abriu várias lojas nos últimos anos no Oriente Médio e é um mercado extremamente atrativo para qualquer empresa, já que estima-se que seu valor supere três trilhões de dólares em 2020, o mesmo ano que serão realizados os Jogos Olímpicos em Tóquio. Coincidência? O tempo e os números dirão.
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Reportagem por Aleteia Espanha | Mar 22, 2017 
Fonte:  http://pt.aleteia.org/2017/03/22/nike-incorpora-o-hijab-a-moda-esportiva/?utm_campaign=NL_pt&utm_source=daily_newsletter&utm_medium=mail&utm_content=NL_pt

quarta-feira, 22 de março de 2017

Na Justiça, a carne não pode ser fraca

Conrado Corrêa Gontijo, Gustavo Mascarenhas e Marcela Greggo*

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"Muitos países tornam pública apenas a decisão dos juízes de última instância, como a Alemanha e os Estados Unidos, pois entendem, desde a década de 1960, que a divulgação ostensiva de um caso afeta o processo."

Não é de agora que a advocacia alerta para o perigo da espetacularização de investigações e processos. Este espaço já foi palco de diversas manifestações nesse sentido. 

O fenômeno da superexposição das acusações teve início, por ironia do destino, com a chegada ao poder do Partido dos Trabalhadores, um dos maiores alvos das últimas operações. 

Não se ignora a necessidade de investigações que contribuam para o necessário "jogo limpo" no Brasil, mas a falta de técnica e cuidado pode causar graves prejuízos econômicos ao país. 

Passada a espalhafatosa operação da Polícia Federal na última sexta-feira (17), ficam os fatos e as consequências. O anúncio dos possíveis delitos principia pelo apontamento do delegado responsável pela operação acerca do uso de "ácidos" para "maquiar" a carne. 

Basta ler o que já está disponível na investigação para concluir que o ácido é o ascórbico, ou seja, vitamina C, que, como se sabe, nada tem de cancerígeno. 

O problema maior, contudo, é colocar, num único balaio, todas as empresas envolvidas. A atitude pode até facilitar a propagação de uma única operação de combate aos desvios, com um nome midiático e a utilização de mais de mil agentes da Polícia Federal num único dia, mas é perigosíssima para o país. 

A JBS não teve nenhuma fábrica interditada; a BRF teve uma, que responde por porção ínfima de sua produção. Contra ambas não pesam acusações graves. 

Mesmo assim, mercados internacionais de grande relevância, como União Europeia e China, já anunciaram restrições às exportações de carne brasileira. 

JBS e BRF já perderam bilhões em valor de mercado e, no cenário de crise em que o país se encontra, podem ter de demitir milhares de trabalhadores. A quem interessa a divulgação prematura das investigações? Não ao Brasil, certamente. 

A própria liberação (ilegal) de áudios que levaram a tudo isso evidencia o equívoco. A suposta mistura de papelão com carne de frango pode não passar de discussão informal a respeito da embalagem da carne por parte de funcionário de uma das empresas. O exagero é evidente. 

Não é de hoje que se alerta para os perigos do policial hermeneuta, que interpreta os áudios captados e os leva diretamente, segundo sua própria interpretação, para julgamento numa coletiva de imprensa.

É preciso lembrar que o direito ao devido processo legal tem envergadura constitucional tanto quanto o princípio da publicidade -não pode, portanto, ser mitigado. 


Muitos países tornam pública apenas a decisão dos juízes de última instância, como a Alemanha e os Estados Unidos, pois entendem, desde a década de 1960, que a divulgação ostensiva de um caso afeta o processo. 

A Europa mantém leis que regulam a divulgação de casos criminais. A corte de Justiça do continente ponderou que mesmo casos de grande exposição têm direito à privacidade de seus julgamentos, para que estes sejam justos. 

No Brasil, os casos de pré-julgamento são cada vez mais vastos. Na Operação Lava Jato, um diretor de uma grande empreiteira foi absolvido de todas as acusações, inclusive da de distribuir propina, depois de passar meses preso. 

No caso das carnes, a divulgação precoce e o julgamento antecipado por parte da opinião pública podem acarretar reflexos catastróficos sobre toda a economia do país. Operações não podem acontecer apenas para sanar a vontade de aprovação popular por parte de alguns agentes da polícia. 

Há quem diga que a data da deflagração não foi coincidência: os federais, após dois anos de investigação, escolheram justamente o dia 17 de março para ofuscar o aniversário da Lava Jato, de cujo sucesso certos setores da PF se sentem excluídos. 

Situações como essa evidenciam que fraca no Brasil não é a carne, mas a preocupação de quem conduz as investigações. É preciso ser forte diante da tentação dos microfones e holofotes. 
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CONRADO CORRÊA GONTIJO é advogado criminalista. Doutorando em direito pela USP, é autor do livro "O Crime de Corrupção no Setor Privado"
GUSTAVO MASCARENHAS é advogado criminalista. Foi pesquisador de direito penal e democracia na Utrecht University (Holanda)
MARCELA GREGGO é advogada criminalista e pós-graduanda em direito penal econômico pela Fundação Getúlio Vargas 
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2017/03/1868578-na-justica-a-carne-nao-pode-ser-fraca.shtml
Imagem da Internet

terça-feira, 21 de março de 2017

Cérebro de adeptos de futebol mostra sinais de “amor romântico”

A claque da Académica, Mancha Negra


Cientistas da Universidade de Coimbra estudaram o cérebro de adeptos das claques oficiais da Académica e do Futebol Clube do Porto. Quando vêem o seu clube, os adeptos activam circuitos cerebrais semelhantes aos do amor.

Se olharmos para um adepto de futebol que vê o seu clube em campo, podemos ver comportamentos excessivos, gritos, choro, explosões de alegria, uma mistura entre amor tribal e fanatismo. Se, por outro lado, olharmos para os circuitos do cérebro desse mesmo adepto, comprovamos que não estamos longe da verdade. Um estudo baseado em imagens cerebrais realizado por uma equipa de cientistas da Universidade de Coimbra concluiu que alguns dos circuitos cerebrais activados em elementos das claques de futebol da Académica (os Mancha Negra) e do Futebol Clube do Porto (os Super Dragões) são semelhantes aos que o “amor romântico” desperta.
Ao longo de três anos, os investigadores do Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde da Universidade de Coimbra (UC) “estudaram o cérebro de 56 adeptos, na sua maioria das claques oficiais da Académica e Futebol Clube do Porto, cujo nível de paixão foi avaliado através de scores de avaliação psicológica”, refere um comunicado da UC divulgado esta segunda-feira sobre o estudo publicado na revista Social Cognitive and Affective Neuroscience. Os participantes na investigação – 54 homens e duas mulheres, com idades entre 21 e 60 anos – foram “expostos a vídeos emocionalmente intensos, quer positivos (por exemplo o golo de Kelvin contra o Benfica no caso dos adeptos do FCP) quer negativos ou neutros”.
“Foi observada a activação de circuitos cerebrais de recompensa que são semelhantes aos que são activados na experiência do amor romântico”, afirma Miguel Castelo Branco, coordenador deste estudo sobre o “amor tribal” no futebol. Na investigação, explica ao PÚBLICO, foram usadas escalas validadas por psicólogos para estudar o grau do que se chama “fanatismo”. Mas, sabendo que esta palavra tem uma conotação negativa, Miguel Castelo Branco prefere chamar-lhes simplesmente “escalas de paixão pelo futebol”. Basicamente, há zonas do cérebro – como a amígdala, o núcleo accumbens e outras zonas que libertam dopamina, uma substância química do cérebro – que têm a ver com os circuitos da memória emocional e da recompensa. “São zonas que se activam tanto mais quanto mais fervoroso é o adepto”, diz Miguel Castelo Branco.
PÚBLICO - 
Zonas cerebrais significativamente activas nos adeptos de futebol marcadas a laranja DR
 
Algumas destas regiões são as mesmas que o amor romântico activa, mas não todas. “A amígdala, por exemplo, é uma das regiões que têm um padrão ligeiramente diferente. Conseguimos ver uma correlação da actividade da amígdala com a paixão clubística, mas não há achados semelhantes no amor romântico”, nota o investigador, que adianta ainda que esta área “se activa muito mais” com o estímulo do futebol. “Isto pode até, perigosamente, sugerir que estes adeptos sentem mais pelo clube do que numa situação de amor romântico”, comenta. Já no que o que se refere às regiões que libertam dopamina (como a área tegmental ventral, o putâmen e a substância negra), os sinais cerebrais são muito semelhantes aos que encontramos no “amor romântico". 
 
Os cientistas perceberam também que os circuitos de memória emocionais são mais recrutados pelas experiências positivas do que pelas negativas. O que quer dizer que um golo da nossa equipa desperta mais estas regiões no cérebro do que um golo do adversário. “O cérebro está feito para dar mais valor às emoções positivas e esquecer as negativas. Mesmo nestes adeptos fervorosos. E isso acaba por ser uma boa notícia, porque sugere que o nosso cérebro está, de alguma forma, protegido”, constata Miguel Castelo Branco. Há, assim, um lado positivo neste “amor tribal” (já descrito do ponto de vista antropológico pelo britânico Desmond Morris) que nos mostra que o cérebro terá mecanismos de apagar as más memórias que podem conduzir ao “ódio tribal”.“
 
Guerra dos Sexos
 
E será que há diferenças entre o fervor de um elemento da Mancha Negra e dos Super Dragões? “Neste estudo não encontrámos diferenças. Estamos a tentar perceber se o estatuto sócio-económico, o grau de expectativa e o número de anos de sócio são variáveis que têm influência”, adianta ao PÚBLICO. E, tendo em conta que entre os participantes no estudo há duas mulheres, foram detectadas diferenças entre géneros? “Não podemos tirar grandes conclusões sobre o género porque são só duas mulheres. Nesta fase, procurámos olhar para o que é comum nestes adeptos e observámos que as mulheres têm um padrão similar ao dos homens.
 
E, por falar em participantes nesta investigação, note-se que houve “dois cartões vermelhos” neste trabalho. Duas pessoas que inicialmente estavam incluídas no grupo de adeptos acabaram por ser excluídas. Um era um treinador de futebol e outro um jogador e o argumento para a “expulsão” foi o facto de serem demasiado racionais e terem uma visão demasiado técnica do jogo.

Miguel Castelo Branco não pertence a nenhuma claque que futebol, mas gosta deste desporto. “Devo-lhe confessar que sou adepto de futebol”, diz, admitindo uma “motivação extracientífica”. E torce por quem? “Pelo Académica e pelo Porto, pelos dois”, revela, adiantando que chegou a sentir-se tentado a “espreitar” os circuitos do seu cérebro que, quem sabe, poderiam revelar imagens interessantes perante um confronto entre as duas equipas. Mas mais do que qualquer motivação pessoal, os cientistas procuraram perceber melhor os mecanismos do amor tribal.

Miguel Castelo Branco avisa que a investigação que olhou para os circuitos cerebrais de elementos de claques de futebol é só um primeiro passo de um projecto mais abrangente que tem a ver com o processo de tomada de decisão. “Temos um projecto a que chamamos de ‘Guerra dos Sexos’ que é mais abrangente e este é só o primeiro estudo. Queremos estudar o processo de tomada de decisão”, diz o coordenador do estudo. “As emoções em excesso muitas vezes levam à perda de racionalidade e isso é algo que nos interessa.” E se há actividade humana em que as emoções são muito fortes, o futebol é seguramente uma delas.

Os adeptos foram estudados enquanto viam jogadas positivas e negativas. Esse foi um simples primeiro passo. Agora, terão pela frente desafios mais complicados. Vem aí a etapa dos “dilemas”, anuncia o investigador. É hora de tomar decisões quando forem confrontados com a questão: “Prefere ir assistir a um jogo de futebol ou ir ao cinema com a sua mulher?” E não vale dizer que se escolhe os dois programas em horários diferentes. 
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 Reportagem por

segunda-feira, 20 de março de 2017

As almas se dividem entre as próximas de Tolstói ou de Dostoiévski

 Luiz Felipe Pondé*
 Ilsutração para a coluna do Luiz Felipe Pondé de 20/03/2017
Existem dois tipos de alma: ou você está próximo de Dostoiévski (1821-1881) ou de Tolstói (1828-1910). Talvez pareça excessivamente chique uma divisão dessas, mas, ao fim dessa coluna, espero que fique menos obscuro esse critério. 

Essa é a tese do crítico George Steiner em seu maravilhoso livro "Tolstói ou Dostoiésvki", da editora Perspectiva. Um dos livros mais belos que já li na vida. Próximo ao "Obras do Amor" de Kierkegaard (1813-1855), que é de longe o livro mais belo escrito em filosofia ou teologia que conheço. 

A beleza e o amor suspendem a vida acima da banalidade do cotidiano. Despertá-los talvez seja a missão mais sublime que alguém pode ter na vida com relação aos seus semelhantes. 

Uma das forças da literatura clássica é nos fazer conhecer a nós mesmos. Sei que está na moda dizer que não existe literatura clássica, mas deixemos de lado essa discussão entediante. 

A tipologia que nos propõe Steiner deita raízes nos dois estilos gregos: o épico e o trágico. Tolstói estaria no primeiro, Dostoiévski no segundo. E, por consequência, são dois modos distintos de viver a vida. Ambos carregando a grandiosidade de espíritos avassaladores, como os dois escritores russos. 

O épico seria o estilo em que a vida está envolvida pela presença do mito ou da religião, fundando uma ação fincada na esperança prática do transcendente (mundo dos deuses) e, por consequência, na esperança da redenção do mundo. Salvar o mundo é sua marca. Pessoas épicas sentiriam que suas vidas são acompanhadas por forças que as tornam capazes de redimir o mundo de suas misérias. Sua virtude central é a esperança. 

Por "prática" aqui, quero dizer que não se trata de um espírito religioso meramente teórico ou alienado do mundo, mas profundamente enraizado nas agonias e demandas do mundo. 

Para Steiner, Tolstói tem esse espírito de modo bem evidente, entre outros momentos, no período em que escreve "Ressurreição", que começou a ser publicado na Rússia em fascículos em 1899. O Conde Tolstói nessa época estava bastante envolvido na luta contra as injustiças da Rússia czarista, e abraçou, no final da vida, uma forma de anarquismo cristão pietista bastante radical. 

O trágico seria o estilo em que o olhar para a vida se mantém fincado na fragilidade dela. 

A precariedade é a estrutura dinâmica da vida. Nas palavras do escritor americano Henry James (1843-1916), uma vida tomada pela "imaginação do desastre". Aqui não há redenção, há coragem de enfrentar esse "desastre" que é a existência humana. Para Steiner, esse é a alma dostoievskiana. Sua virtude central é a coragem. 

Aqui, mesmo que haja o divino, como há em Dostoiévski, o peso do drama cai sobre as costas do homem que caminha sozinho pelo chão do mundo. A beleza de Deus, na forma de "taborização" de seus místicos, como se fala na teologia russa, em referência à transfiguração do Cristo no Monte Tabor, aparece sempre como iluminação da agonia humana a sua volta (basta ver o Príncipe Mishkin do romance "O Idiota"). 

O místico em Dostoiévski ilumina por contraste. Sua luz divina faz a doçura do perdão brotar na consciência atormentada do pecador. 

Uma alma tolstoiana é uma alma iluminada pela esperança e pela vitalidade que Deus a empresta. Seu elemento é a força de atuar no mundo social e político. 

Uma alma dostoievskiana é iluminada pela dor e pela coragem que a mantém de pé. Seu elemento é a misericórdia como substância de sua psicologia espiritual. 

E como passamos dessa alta teologia para o chão do cotidiano de nós mortais? 

Almas tolstoianas lutam a cada dia contra a miséria do mundo, fazendo deste um campo de batalha contra o mal, movidas por uma certeza que parece alucinada. 

Almas dostoievskianas, um tanto mais delicadas, suportam o sofrimento encantando o mundo a sua volta com piedade e sinceridade avassaladoras. 

Felizes são aqueles que convivem com pessoas assim. A vida se transfigura em esperança e coragem. Duas faces da graça que sustenta o caminho dos homens. Mas, sem humildade, como sempre, seremos cegos a essas virtudes de Deus. 
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*  Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência.
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@lf_ponde 
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2017/03/1867950-as-almas-se-dividem-entre-as-proximas-de-tolstoi-ou-de-dostoievski.shtml