quarta-feira, 21 de junho de 2017

Inesperados

Roberto DaMatta*

 Resultado de imagem para morte

Pode-se matar por engano ou boçalmente, como na guerra e nos radicalismos, mas na morte não há erro. Sem ter retorno ou reparo — ela simplesmente é

A semana passada me surpreendeu com inesperados. O inesperado é o latente. Aquilo que se cobre com a capa das coisas claras e planejadas mas resulta no seu oposto. A sovinice que arquiteta riqueza, a dificuldade legal manifesta para promover a propina latente da facilidade, o sublime socialismo que tem como alvo distribuir riqueza, mas que detesta opiniões divergentes.

A morte visitou-me atingindo pessoas que eu admirava. É curioso constatar que, apesar de a morte ser o mais óbvio axioma da vida — pois só morre quem vivo está —, ela continuamente nos surpreenda.

Seu incômodo poder decorre de incontáveis latências. A maior delas sendo talvez o modo como a morte inapelavelmente demonstra a nossa finitude. Esse bonito nome para a brutal concretude com a qual os nossos esbirros de onipotência e as nossas fantasias de permanência são negadas.

Haja, pois, espanto quando ela aparece. Vivê-la como algo inesperado é, suspeito, um modo de acolhê-la, porque são raros os que aceitam o seu convívio e milagrosos os que não são por ela contaminados.

Representada como um esqueleto coberto por uma mortalha — uma entidade descarnada, absolutamente impessoal e dona de uma igualdade objetiva, pois os ossos canibalizam caras e bocas, a morte é prova da separação entre o aquilo que possui a mais profunda significação (é o fim de tudo o que almejamos), ao mesmo tempo em que desfruta do nosso mais integral desconhecimento. Sentimos a morte, mas não a experimentamos ou conhecemos. Não sabemos como e o que ela é. Dela temos a experiência exterior, pois para conhecê-la por dentro teríamos que morrer e, neste gesto sem retorno, renegaríamos a vida: esse engenho inesgotável do saber e do conhecimento. Por isso, os mortos queridos nos espantam na sua imobilidade de pedra. Como não reagem aos nossos soluços? Como não ouvem o que ainda temos para pedir ou contar? A morte rompe relações.

Na minha vida, que já vai longa, vi muitas mortes e vivi o absurdo de enterrar quem — pela frágil lógica humana — eu esperava que fosse me sepultar.

Mas haveria alguma morte fora de hora, quando sabemos ela é o sinal de que “chegou a nossa hora?.” Pode-se matar por engano ou boçalmente, como na guerra e nos radicalismos, mas na morte não há erro. Sem ter retorno ou reparo — ela simplesmente é.

Mesmo esperada, a morte surge como um inesperado, como foi o caso do tio de amigos queridos, falecido no mesmo dia em que o laureado jornalista Jorge Bastos Moreno — para quem, envolvido pela sua conhecida simpatia, escrevi o prefácio do seu livro “A história de Mora; a saga de Ulysses Guimarães” — também partia. Neste pequeno texto eu enfatizo o modo com o qual ele recontava fatos públicos do ponto de vista de uma mulher, a dona Mora, que, como Penélope, esperava e via com mais clareza as peripécias do herói.

Como os dois sepultamentos ocorreram no mesmo dia, fui obrigado a uma cruel escolha. E certamente por causa disso, relembrei no velório do qual participei que tudo na vida social tem um lado manifesto e um outro latente. O morto é explicita e ritualmente pranteado, mas alguém tem que providenciar o cemitério, a sepultura, o caixão e a vestimenta. O triste adeus de uma despedida, entretanto, promove encontros benfazejos com velhos e novos amigos.

O escritor inglês G. K. Chesterton chamava isso de “trabalho do morto”; um outro inglês, o antropólogo A. R. Radcliffe-Brown dizia que o sepultamento era o inicio da recomposição da teia social ocupada pelo morto. Robert K. Merton, um brilhante sociólogo americano hoje esquecido, sugeriu, inspirado em Max Weber, que toda instituição social tem uma “função manifesta”, geralmente expressa nos seus estatutos (a ética protestante) e uma “função latente” (o espirito do capitalismo), a qual surge como um inesperado e muitas vezes como ironia ou paradoxo de dentro dos seus contornos sociais.

A morte fez apreciar o Moreno, como um jornalista-profeta. Não o que advinha, mas o que diz o que os poderosos não gostam de ouvir porque foi escrito num tom inesperadamente latente — no limite da ironia e do politicamente correto. A função manifesta do jornalismo é estampar fatos. A latente, é comentá-los. O modo como isso é feito separa o fofoqueiro do profeta que, ao lado do palácio real, prega uma jeremiada nos barões-ladrões.

Tal como acontece na morte, os políticos se elegem manifestamente para governar, mas o seu objetivo latente é roubar ou arrumar-se. Eis uma tese, mas sua demonstração, como diria um outro inglês, é uma outra história...
---------------------  
* Roberto DaMatta é antropólogo

O ódio

Marcus Faustini*

 Resultado de imagem para ódio

Talvez a resposta para um mundo mais diverso e conectado esteja offline

Uma recente matéria do site The Outline mostra o crescimento de perfis nazistas na web a partir de uma pesquisa feita no Twitter. Esses perfis possuem mais adesões do que a militância virtual do Estado Islâmico. É mais uma das faces da cultura de ódio pelo outro, influenciando o cotidiano da vida e da política. Como o ódio vem prevalecendo como estética num ambiente que era a promessa de um mundo diverso e conectado? É possível uma mudança de rumo? Talvez a resposta esteja fora da rede.

As redes sociais, que já foram festejadas como um ambiente que promoveria o interesse pelo outro, portador de alternativas para o bem comum e aumento da presença da diversidade no mundo, num oposto, sustenta e multiplica a existência de comunidades odiosas e abusivas, que não se contentam apenas com seus círculos de adeptos e perseguem aqueles que querem destruir — não são poucos os casos de hordas de homens misóginos que atacam sistematicamente mulheres online, desconstroem reputações, promovem fake news, racismo, fascismo, linchamentos etc. Para isso, essa indústria do ódio cria robôs, comunidades e perfis fakes de propagação.

Trump foi a expressão máxima no mundo da política dessa estética do ódio. Surfou nessa onda, deixando robusta sua candidatura, canalizando rancores, recalques e preconceitos potencializados pela situação de rebaixamento da classe média branca do meio-oeste norte-americano. Trump, em entrevistas e debates, para reforçar o laço emocional com a estética do ódio, performou com agressividade. Para essa estética, o debate ou qualquer possibilidade de fala é apenas um lugar de exaltação raivosa das suas visões. Vale dizer que esse fenômeno revela muito sobre outras esferas do tempo em que vivemos, em que até mesmo a música pop tem como base letras que sempre falam de alguém que usa de jactância e autoglorificação para se afirmar.

O Twitter já sofreu pressões e mudou aspectos da experiência da navegação para frear a presença de grupos de ódio. Mas esbarra em reclamações de que a contundência com que fecha perfis adeptos do Estado Islâmico não é a mesma com que fecha perfis nazi ou fascistas ligados a uma cultura branca. No Brasil, a presença do ódio como motor de engajamento nas redes sociais já foi experimentada em diversas situações: de incentivo a formas de linchamento de quem comete delitos até a polarização agressiva na política que embalou o processo de impeachment, envolvendo uma parte significativa da sociedade na crença de que o único demônio da política era Dilma — taí, deu no que deu!

A presença desse ódio é um dos componentes da bipolaridade que marca os embates atuais. Fábio Malini, professor da Universidade Federal do Espirito Santo (Ufes), um dos poucos pesquisadores profícuos de comportamentos das redes sociais, aponta que o próximo pleito eleitoral tende a ter um componente de ódio como motor da polarização. “O continente americano, em sua maioria, é muito alicerçado num poder central, o que beneficia a polarização.” Quanto mais centralizadora a forma de governo, mais espaço às polarizações e para a estética do ódio prevalecer como núcleo duro de mobilização da atenção de eleitores. Essa polarização ganha como alvo as minorias que foram beneficiadas por programas de inclusão, enfatiza Malini, em breve conversa que tivemos online.

Não será uma outra estética nas redes que irá desconstruir o ódio, apenas. É preciso que o online não seja a única centralidade da expressão política e da vida. Para tanto, um outro ambiente de ação política se faz necessário. E, talvez, deva ter um peso offline maior do que o online. Nestes dias passados aqui em Londres para mais uma jornada de trabalho, foi possível ver que, além de uma militância em redes sociais, a campanha de Corbyn e dos outros candidatos do Partido Trabalhista foi se reinventando a partir de ações bairro a bairro, porta a porta. Muitos candidatos ao parlamento cresceram nos distritos por terem priorizado a relação comunitária. O Podemos, na Espanha, também conseguiu se projetar com uma vasta rede em bairros, com seus círculos e confluências. Malini afirma que a Europa, já tendo experimentado o gosto amargo da austeridade, começa a produzir saídas. O vínculo entre as políticas de austeridade e a cultura do ódio começa a mostrar que não é um bom caminho para a sociedade. Mas foi necessário falar das questões reais da vida, de porta em porta, para essa mudança aparecer.

A vigilância e a denúncia ao comportamento de ódio nas redes são parte importante para forçar as empresas a atuar contra esses perfis. Porém, as ações de convivência comunitária, precisam voltar à agenda prioritária daqueles que imaginam uma sociedade mais solidária e onde o interesse pela diferença seja uma das maiores expressões. Existem caminhos no horizonte para barrar a cultura do ódio.
--------------------
* É diretor teatral, documentarista e escritor que destaca-se na cena teatral desde 1998.
Leia mais: https://oglobo.globo.com/cultura/o-odio-21495474#ixzz4kgMyPmtZ

O valor do pensar

Fred Coelho*

Resultado de imagem para pensar pinturas

Não serão partidos, empresas, bancos ou tribunais que, sozinhos, irão mudar o país

Vou falar nesta coluna de um tema tão claro em sua importância que soa trágico ter que trazê-lo como assunto. Me refiro ao baixíssimo valor que as áreas do ensino e da pesquisa detêm em nossa sociedade. E digo isso referente não apenas a governos, mas principalmente à população em geral. Cada vez menos, me parece, damos valor à educação como espaço de saberes. Passamos a exigir dela uma resposta prática: dinheiro.

Atualmente, um país que sempre desprezou o trabalho manual também não tem em grande conta o trabalho intelectual. Creio que o perfil massivo do profissional que deve ser admirado é fruto do que se convencionou chamar de “meritocracia”. Empreender individualmente, acumular, ter posses, são atributos que transcendem valores intrínsecos dos fazeres. Capacidades de reflexão crítica tornam-se meros ornamentos que nunca atingirão o perfil do empresário de si mesmo, do maximizador de oportunidades. Afinal, para que “aprender a pescar” se podemos ser donos da vara, do lago, do barco e do peixe?

Talvez essa desqualificação social dos que trabalham nas bordas “inúteis” do regime acumulador de capital e bens materiais (com raízes bem mais profundas do que cabe nesta coluna) explique por que não vemos com a gravidade necessária descalabros que só alimentam nossa sensação de falência completa. Achamos normal a educação pública do país ser em sua amplíssima maioria relegada às parcelas mais pobres. Naturalizamos a ideia de impostos financiarem justamente as instituições formadores da mão de obra manual e sem escolaridade desprezada pela maioria.

Como se a arrecadação pública fosse um investimento para a formação do precariado, contingente que perpetua os traços mais profundos de um país escravocrata. São cidadãos que, depois de abandonada a escola ou a tentativa de universidade, irão trabalhar por péssimos salários para os que tem as posses e, claro, os estudos completos. Esses, são a outra face amarga do professor, tão frágeis em suas carreiras e tão mal pagos quanto os futuros de seus alunos da rede pública — e escrevo isso sabendo que temos exceções.

Achamos compreensível as universidades públicas serem inviabilizadas por orçamentos deficitários em um momento complexo de reformulações por conta da entrada de novos perfis socioculturais. Julgamos grevistas como vagabundos sem nem saber ao certo o que faz um professor escolar ou universitário, trabalho tanto intelectual quanto braçal na preparação das aulas, no preenchimento de relatórios, na ocupação de cargos administrativos, que zelam por toda uma comunidade de alunos, funcionários e pares.

Achamos, por fim, justificável termos redução de investimentos públicos em níveis municipais, estaduais e federais para promoverem ajustes fiscais em tempos de merendas desviadas, espaços escolares conflagrados pela violência, déficit de escolaridade etc. Todas as pesquisas recentes mostram que o jovem que vive fora da escola é o mais vulnerável nas estatísticas brutais ligadas a homicídios no Brasil. Mais uma vez (isso é tão óbvio!), os que morrem são os mesmos que abandonam escolas para ajudar famílias em condições precárias de vida. O ciclo nunca se quebra, pois, quando a escola ou a universidade são largadas, arraiga-se a ideia de que os estudos são para poucos que podem viver seu privilégio de classe — e no Brasil sabemos que esse privilégio não é apenas de quem é muito rico. Ter pouco já é muito perto dos muitos que não têm nada.

Nesse quadro, como incentivar os estudos apenas como um caminho para a obtenção de um fazer ligado ao mercado de trabalho? A reflexão crítica, a empatia, o desejo de inovação, a compreensão da alteridade, a cura das feridas históricas, a construção de éticas comuns, a transformação do ódio social em energia criadora, tudo isso passa pela escola e pela universidade. Não serão partidos, empresas, bancos ou tribunais que, sozinhos, irão mudar o país. Aliás, até mudam, mas para um quadro que neste momento não parece o melhor para se viver. O ensino e a pesquisa, com os seus imensos efeitos permanentes (um indivíduo que aprende a pensar ganha isso para sempre), podem colaborar para uma mudança qualitativa em cenários como o que atravessamos. Cada centavo investido em programas educacionais bem executados retorna de forma perene para o Estado e para toda a comunidade.

Lembro que este é um tempo que, em países como Japão ou os Estados Unidos de Donald Trump, falam do fim das Humanidades como conjunto de saberes financiados pelo Estado. O argumento, em geral, é que são áreas que “não geram lucro” como aquelas envolvidas com tecnologia, patentes e mercados. Pensar, escrever, experimentar, criar ideias, são ações que tornam-se aos poucos espécie de “luxos” dispensáveis quando se almeja o sucesso material. A lógica do lucro se impõe. Assim, especular deixa de ser um verbo intelectual para ser apenas financeiro. Penso, logo invisto. Boa sorte para todos nós.
----------------------
* Professor Assistente do Departamento de Letras. Possui graduação em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1994-1999), ...
Fonte:  https://oglobo.globo.com/cultura/o-valor-do-pensar-21498999

terça-feira, 20 de junho de 2017

Gilmar Mendes: Cassação lançaria o país em quadro de incógnita.

ao centro,o presidente do TSe,gilmar mendes,em sessão que julgou a chapa Dilma-Temer

Gilmar Mendes, ao centro, em sessão do julgamento da chapa Dilma-Temer






(Tribunal Superior Eleitoral) que, na semana passada, absolveu Dilma Rousseff e Michel Temer da acusação de abuso de poder econômico, mantendo o atual presidente no cargo. 
 
Presidente da corte eleitoral, Mendes afirma que o papel dos juízes é "muitas vezes decidir de forma contramajoritária e desagradar tanto a chamada 'vox populi' quanto a voz da mídia". 

Caso contrário, diz, seria melhor acabar com a Justiça "e criar um sistema 'Big Brother'" para ouvir o povo e a imprensa. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
*
O TSE está sofrendo críticas porque teria tomado uma decisão eminentemente política. O tribunal desprezou provas?
Gilmar Mendes - Não se tratou de nada disso. O debate se cingiu à discussão sobre o que foi pedido na inicial [da ação do PSDB contra a chapa de Dilma Rousseff e Michel Temer por ter supostamente recebido, em 2014, dinheiro de propina da Petrobras].

A maioria do tribunal entendeu que o relator, Herman Benjamin, que fez um belíssimo trabalho, teria extrapolado, ido além do próprio pedido feito pelo PSDB. A Constituição prevê prazo de 15 dias a partir da eleição para a impugnação de um mandato. Se houver o alargamento dos fundamentos à disposição do relator, estaremos burlando esse prazo.

E por que há prazo estrito? Porque há o valor do mandato, conferido pelo povo. Não se pode banalizar a intervenção judicial.

Para o leigo é difícil entender: só porque o dinheiro ilegal destinado à campanha não tinha origem na Petrobras, mas em outros negócios, vamos desprezar provas?
Esta é a questão técnica que se coloca. E por isso esse tema não é entregue a leigos.

Na maioria dos países, resolvidas as eleições, não se impugna mais mandatos.No TSE, inclusive, somos muito seletivos. Não cabe ao juiz ficar banalizando a impugnação de mandatos. Mas estamos vivendo em um ambiente conturbado. E o que se queria? Que o TSE resolvesse uma questão política delicada [a crise do governo, afastando Temer].

Olvidou-se inclusive que os malfeitos atribuídos [à campanha de 2014] seriam debitados à candidata Dilma. O relator não falava nomes. Teve esse constrangimento.

Por que constrangimento?
Talvez porque ele tenha sido nomeado pelo PT e não queria falar disto. E é até uma pergunta válida, né? Qual teria sido o posicionamento desses ministros [Herman e Rosa Weber, também indicada na gestão do PT] se estivesse presente ali [a possibilidade de se cassar] a Dilma?

Neste caso, qual teria sido o posicionamento do ministro Gilmar Mendes?
Da mesma forma. Eu absolveria a Dilma. Como a absolvi, pois se ação fosse julgada procedente, ela ficaria inelegível por oito anos. Recentemente eu fui voto minerva na 2ª Turma [do Supremo Tribunal Federal] decidindo um habeas corpus em favor de José Dirceu [para que ele fosse libertado]. E também sofri críticas imensas, de todos os lados. Podem me imputar vários problemas, mas não vão me imputar simpatia por José Dirceu, não é?

Uma crítica constante é a de que o senhor tem lado.
Essa é uma lenda urbana. Eu tenho relacionamento com todos os partidos. Dialoguei muito, e tranquilamente, com o então presidente Lula. A despeito das diferenças, tínhamos até uma relação de frequência, de amizade.

Dizem "ah, esteve cinco ou seis vezes com o Temer". Eu recebi outro dia o pessoal do PC do B. E perguntei "como vai o nosso partido"? Eu sou um comensal do PC do B, toda hora me reúno com eles.

Depois de atritos com o ex-presidente Lula, é inegável que o senhor virou um crítico contundente do PT. Chegou a falar que o partido instalou uma cleptocracia no Brasil.
E falei de novo agora, no julgamento do TSE. De fato se instalou esse sistema. Se fala que todos os contratos da Petrobras tinham que verter 1% ou 2% para caixas de partidos.

Nunca se havia visto algo assim. Se estabeleceu essa confusão entre partido e Estado, que vem do marxismo-leninismo, que permite ao partido lançar mão de patrimônio do Estado.

Mas o PMDB e o PSDB, que não são marxistas-leninistas, também sofrem acusações.
Com certeza. Todos usam sistema de financiamento com base em obras públicas, em serviços. Mas essa sistematização, que ficou bem explicitada no julgamento, ninguém tira do lulo-petismo.

Mas, enfim, o fato de eu ser crítico do PT nunca me levou a julgar de maneira diferente. Tanto é que nunca questionaram minha imparcialidade no TSE. Em 2015, ao contrário do que esperavam, votei pela aprovação das contas de Dilma Rousseff.

A preocupação com o mandato popular não foi demonstrada pelo Judiciário, nem pelo senhor, no impeachment da Dilma. Qual é a diferença?
O problema da Dilma, como o do [Fernando] Collor [que sofreu impeachment em 1992] não era jurídico. E sim de apoio no Congresso.

O impeachment é um mecanismo que a Constituição prevê para a derrubada do presidente. Ela precisava de votos para barrar o impeachment. Liminares não salvariam o mandato. Se quiserem, igualmente, afastar o Temer, que o façam pelo Congresso. Ou que comprovem que ele já não tem mais condições de governar e ele opte pela renúncia.

O que havia desta vez, por parte de grupos de mídia, de setores da própria política, era o propósito de usar o TSE para solucionar a crise, cassando o mandato do Temer. E jogando o país numa outra crise.

O senhor acha que grupos de mídia atuaram politicamente?
A mim me parece que houve uma mudança bastante radical e que parte da mídia passou a entender que aqui [no TSE] estava a solução para o problema político, que se divisava como grande. Houve o engajamento de parte de grupos de mídia.

Infelizmente cabe a nós [juízes] muitas vezes decidir de forma contramajoritária e desagradar tanto a chamada "vox populi" quanto a voz da mídia. Caso contrário, seria melhor extinguir a Justiça. E criar um sistema "Big Brother" para ouvir o povo e setores da imprensa.

Como uma eventual pressão repercute na vida dos magistrados?
Nós ouvimos lá [no julgamento do TSE] ministros dizendo que decidiam de olho na opinião pública. É uma situação muito delicada.

Certamente [a pressão] traz desconforto. Os vazamentos de informação para quebrantar o ânimo das pessoas, o moral, isso a gente vê. Não há mãos a medir nesse caso, usam de todos os instrumentos, envolvem familiares, atacam a honra. Alguns certamente ficam com medo.

Há outras pressões. A presidente do STF, Cármen Lúcia, publicou neste sábado uma nota contra devassa que o governo estaria fazendo na vida do ministro Edson Fachin.
Certamente temos que nos preocupar com isso e dar toda a proteção ao ministro Fachin, que está realizando um excelente trabalho.

Agora, eu chamei a atenção da ministra Cármen: ela precisa assumir a defesa do tribunal em todos os ataques.

O ministro [Dias] Toffoli já sofreu ataque, ligado a vazamento da Lava Jato. Já houve ataques ao [Luiz] Fux, ao [Ricardo] Lewandowski. A revista "Veja" noticiou que a PGR queria me envolver no caso [do senador] Aécio [Neves]. E houve silêncio [de Cármen Lúcia]. É preciso que ela assuma a defesa institucional do tribunal e de todo o Judiciário. E não só de um ou de outro. Essa é a missão dela, como presidente.

O próprio STF precisaria de proteção institucional?
Claro. Recentemente uma jornalista escreveu um belíssimo artigo dizendo que hoje o tribunal está como refém da procuradoria. Não sei se isso é verdade ou não. Mas, se o for, temos que reagir. Nós não somos autômatos da procuradoria. Não temos que ficar chancelando atos. Nós somos órgão de controle. O ministro Fachin tem que ter consciência dessa função. E isso vale para todos nós.

O fato de o ministro Fachin ter recebido apoio de executivo da JBS quando era candidato a ministro do STF o compromete para julgar?
Não, não, não. Eu acompanhei esse processo. Quando ele foi candidato, o governo já estava debilitado e ele se sentia muito isolado. Eu mesmo tomei a iniciativa de acolhê-lo no meu gabinete e de telefonar para senadores amigos meus, como José Serra, [José] Sarney, para que o recebessem. Certamente outras pessoas conhecidas ofereceram ajuda e ele aceitou.

Não havia nenhuma imputação a elas naquele momento. Portanto ele não cometeu nenhum ilícito e não há que imputar nada. Agora, como estamos lidando com temas muito delicados do ponto de vista político-jurídico, as pessoas lançam mão desses questionamentos.Eu sei que é fácil nadar a favor da corrente. E sei quão é difícil nadar contra a corrente.

No caso do julgamento do TSE, nós decidimos bem ao não envolver a Justiça num processo de natureza estritamente política. Na Alemanha, no modelo parlamentar, há o voto de desconfiança construtivo: só se derruba um governo para colocar outro no lugar. Isso que é uma lei da política também é um critério de análise de consequência no âmbito jurídico-político. Queriam que o tribunal decidisse essa questão política, lançando o país em um quadro de incógnita.
 ----------------------------------
Reportagem por  MÔNICA BERGAMO COLUNISTA DA FOLHA
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/06/1892133-cassacao-lancaria-o-pais-em-quadro-de-incognita-afirma-gilmar-mendes.shtml

Editoria de Arte/Folhapress
Como cada um votou - TSE - Tribunal Superior Eleitoral - Cassação chapa Dilma-Temer
Como cada um votou no processo de cassação da chapa Dilma-Temer         

INTELIGÊNCIA COLABORATIVA: O que é e para que serve a inteligência colaborativa?


É preciso ouvir mutuamente, valorizar o que os outros 
dizem, concordar ou discordar, expressar-se, 
 criar novos focos, avançar juntos.

Sozinhos não chegamos a lugar nenhum. Um grupo de pessoas das áreas de tecnologia, humanidades e empresarial começaram a trabalhar com a chamada “inteligência coletiva”. Dela deriva a “inteligência colaborativa”. A especialista no assunto, Leticia Soberón, que durante anos esteve no Vaticano como oficial da área de comunicação, acredita que temos que lutar contra a “estupidez coletiva”. Agora, ela aplica a técnica a partir do Innovative Center for Collaborative Intelligence e do Collaboratorium (plataformas para ajudar líderes na tomada de decisão diante dos desafios).
Veja o que ela diz sobre a inteligência colaborativa nesta entrevista:

 O que é inteligência colaborativa?
É um novo modo de realizar o trabalho em equipe potencializado pela tecnologia digital, a conectividade proporcionada pela internet e as vantagens dos smartphones, que se tornaram imprescindíveis na vida cotidiana.

Em 1994, Pierre Lévy sonhou com a “inteligência coletiva”, uma espécie de “supra córtex cerebral” da humanidade, formada por milhões de indivíduos conectados e pensando juntos sobre temas importantes. O saber está distribuído. Como ele mesmo destaca, “ninguém sabe tudo; todos sabem algo; é necessário mobilizar as competências de todos”. Mas nem todo intercâmbio é inteligente, nem a inteligência das equipes dependem somente da inteligência individual de seus membros. Suas dinâmicas precisam ser inteligentes. É preciso ouvir mutuamente, valorizar o que os outros dizem, concordar ou discordar, expressar-se, criar novos focos, avançar juntos.

A inteligência colaborativa é uma forma de “inteligência coletiva”, que ocorre em equipes de trabalho de qualquer área, orientadas à ação e à tomada de decisão. Trata-se, justamente, de co-laborar. Por isso, a discussão deve ter foco, um tema concreto e duração específica; não é indefinida nem genérica. Tampouco é aplicável a um grande número de pessoas: é utilizada necessariamente por “clusters” ou grupos que possam pensar juntos.

Nós definimos a inteligência colaborativa como uma deliberação ordenada, facilitada por tecnologias sociais, que permite a um conjunto de pessoas compartilhar, criar, depurar conhecimento e tomar decisões com maiores possibilidades de superar os desafios que deixam os ambientes cada vez mais complexos e vulneráveis.

São necessárias humildade e honradez intelectuais suficientes para aceitar quando os outros contribuem com algo que eu não saiba, a fim de criar algo que tem alguma coisa de mim, mas não é meu.

 Por que precisamos deste tipo de processo nas organizações?
 A maioria das organizações nasceu antes da internet e trabalha com departamentos ilhados. Elas possuem estruturas rígidas e formais e, inclusive, seus suportes tecnológicos estão desenhados para perpetuar estas ilhas e para uma comunicação pulverizada; em outras palavras, para uma sociedade que já não existe. Se não quisermos ficar obsoletos em pouco tempo, temos de gerenciar novas formas de trabalhar, muito mais colaborativas e em rede.

Mas a colaboração nem sempre é espontânea ou inteligente; tem de ser impulsionada para uma equipe por uma liderança que compreenda a necessidade de ouvir a todos, cada um de seu ponto de vista, e propiciar o trabalho transversal. É necessário favorecer as discussões adequadas para coletar e filtrar o conhecimento de cada pessoa.

 Posso aplicar a inteligência colaborativa em casa, no trabalho…?
 Com certeza! E deveria aplicar em várias áreas. Nós, com o Collaboratorium, aplicamos um modo mais ordenado de debate para ir deliberando juntos e tomando decisões mais consensuais, criando conhecimento novo a partir de cada um. O trabalho é o local onde mais deveria ser promovida a inteligência colaborativa.

Por que você se envolveu com este assunto?
Porque há anos estou estudando as redes de conhecimento: como pensamos juntos, como podemos chegar a um acordo, o que nos faz mais inteligentes juntos e onde nasce a estupidez coletiva. Mas estudo isso com o foco nas pessoas, não na tecnologia. Olhando a pessoa e os grupos como eixos de todo esta rede tecnológica. Entendo isso como uma forma de trabalhar pela paz e pela comunhão.

O mundo não funciona? Estamos propondo a inteligência colaborativa para o mundo?
Sim, proporia mais colaboração inteligente para o mundo. Fornecemos para o mundo técnicas e infraestrutura que funcionam, pretendendo que funcionem ainda melhor, para eliminar a estupidez que provoca tanto sofrimento inútil.
---------------
Reportagem  Miriam Diez Bosch | Jun 19, 2017 
Fonte:  https://pt.aleteia.org/2017/06/19/o-que-e-e-para-que-serve-a-inteligencia-colaborativa/?utm_campaign=NL_pt&utm_source=daily_newsletter&utm_medium=mail&utm_content=NL_pt

O susto de cada dia

 Lya Luft*
 Resultado de imagem para xingamento em simbolos
Com ingênua arrogância, eu muitas vezes disse que a esta altura pouca coisa me assusta. Mas é da boca para fora: na verdade, fico assombrada com parte do que vejo, assisto, leio ou me contam. Uma delas é o desplante com que as coisas se passam neste país no terreno da chamada coisa pública (a res publica). Mas não quero falar aqui em política, assunto em que gastei ou desperdicei as teclas deste computador anos a fio.

Vamos falar na educação, ou nos bons modos, cuja falta me impressiona: há poucos dias, minha amiga Miriam Leitão foi assediada, insultada, xingada e quase fisicamente agredida durante todo um voo de Brasília ao Rio, por um grupo que não vale a pena nomear. Conversei com ela mais vezes depois disso e contei que um de meus filhos comentou comigo no almoço: “Mãe, se fosse contigo, o que farias?”. Respondi, mais de gaiatice do que convencida: “Ou eu ia chorar, ou me levantar, mandar todos se ferrarem, e, velha, grandona e de bengala como sou, quem sabe ficariam quietos”. A resposta de Miriam foi bem dela: “Lya, só você pra me fazer rir agora”. Ideias não se divulgam com violência e baixaria. Mas, dizia meu velho pai, “cada um dá o que tem”.

Me intriga muitas vezes a “naturalidade” com que queremos impingir, em algumas escolas e lugares, a chamada educação sexual para crianças e adolescentezinhos. Em alguns casos, só falta uma aulinha prática na frente dos alunos e alunas. Em lugar dessa ênfase um pouco frenética e fanática num assunto que deveria ser levado com naturalidade e discrição, seria bom prevenirmos todos contra excessos, bebida, drogas, experimentos em bares ou festinhas “inocentes”. Desinformados do que é importante, correm graves riscos em idade precoce. Mas insistimos em sexualizar nossas crianças, inclusive vestindo algumas meninas como sadomasoquistas ou garotas de programa, quando mal conseguem caminhar com suas perninhas magras em sapatos de salto que mais conviriam à mãe.

Por que essa obsessão pelo corpo, muito além do sensato e saudável, como se só os magros fossem sucesso, enquanto os inteligentes, brilhantes, boa gente, esforçados, legais e amigos não tivessem vez, como se a vida e a beleza se resumissem a uma competição de músculos e ossos? Por que não abrimos as cabeças de nossa meninada, os jovens, para o bom, o belo, o interessante, o intrigante que há neste mundo de Deus (ou dos deuses, como queiram)? Ou os deixaremos abobalhados, monopensantes e, segundo um excelente livro que estou terminando, Antifrágil, de Nassim Taleb, dominados pelo que ele chama de neomania: isto é, sempre o novo, o mais novo, o novíssimo. O celular do mês, a moda da semana, o filme do dia, a comida chique, a ansiedade da experiência do minuto.

Um celular normal pode ser perfeito, sem comprar aparelho novo a cada tantas semanas; o filme que me agrada pode ser melhor do que aquele que a turma viu sem entender; o jeito de andar, de vestir, de namorar ou de ficar sozinho é ótimo como cada um gosta e pratica. Triste é viver apenas segundo as receitas que nos são apresentadas todo dia em letreiros garrafais ou luminosos cintilantes.

Eu me entristeço com a perda de tempo, de energia, de alegria, de parceria, de amor, de beleza e de sonho, que vem de viver com óculos de visão torta e pensamento de manada.
---------------------
* Escritora.
Fonte: http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a9818502.xml&template=3916.dwt&edition=31356&section=70http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp%3fuf=1&local=1&source=a9818502.xml&template=3916.dwt&edition=31356&section=70 16/06/2017
Imagem da Internet

segunda-feira, 19 de junho de 2017

O cinismo é uma forma de racionalidade

 http://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/banco/abstrato/abstrato_confusao_keoni_cabral_flickr.jpg
"Cinismo não é apenas um julgamento moral, mas uma certa forma de racionalidade. Cínicas são as ações nas quais repetimos a aparência de legitimidade, mesmo sabendo que todos compreendem que se trata apenas de aparência. Um pouco como vimos na semana passada, com uma verdadeira aula de cinismo ilustrado dada pelo pilar do desgoverno atual, a saber, o grão-tucanato. O mesmo tucanato que entrou como uma ação de cassação de chapa Dilma-Temer, que insuflou o presidente do TSE, homem de relações orgânicas com o partido, a não levar adiante a cassação, para no final afirmar que iria recorrer da decisão tomada "por si próprio", mesmo que seu partido continue a prometer juras de amor e a sustentar o governo", 

escreve Vladimir Safatle, professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo), em artigo publicado por Folha de S. Paulo, 16-06-2017.

Segundo ele, "em seus momentos de desagregação o Brasil não leva sua casta dirigente à guilhotina, não invade o Ministério da Fazenda ou seus palácios. Ele encontra alguma forma de alívio em submeter-se a um poder que não exige mais crença alguma. Como se fosse possível continuar a viver esquecendo, por um momento, que o poder existe".

Eis o artigo.

Freud nos traz um relato no qual um homem, depois de cuidar por meses de seu pai doente que acabara de morrer, começa a sonhar que ele estava novamente em vida e que lhe falava normalmente. Esse sonho era vivenciado de forma extremamente dolorosa, já que o pai agia de maneira natural, mas a condição de não saber que estava morto. Ao produzir um sonho dessa natureza, o sujeito demonstrava estar preso em um tempo assombrado por mortos que não estavam enterrados, mortos que ocupavam o lugar dos vivos, repetindo cenas e rituais que não tinham mais sentido algum, pois cenas e rituais de um morto que luta por não querer saber.

Podemos dizer que não apenas sujeitos mas sociedades podem entrar neste tempo paralisado e em apodrecimento. Elas serão submetidas a um espetáculo miserável de mortos que agem como se estivessem vivos, que ocupam o espaço dos vivos, que continuam a fazer discursos que já não têm realidade alguma, que julgam a partir de uma autoridade que eles já não têm.

Essas sociedades acreditam poder se estabilizar sobre uma profunda ausência de legitimidade, um pouco como esses personagens de desenho animado que continuam a correr mesmo que não estejam mais em solo firme, mas no abismo. Essas são sociedades cuja paixão central é o desejo de não querer saber.

O Brasil das últimas semanas demonstrou claramente o que isso significa. Comandado por uma casta política de pessoas mortas, em grau profundo de corrupção e desagregação, ele parece querer continuar sem saber que já não existe mais sequer como democracia mínima de fachada. O Brasil assumiu de vez sua face de oligarquia cujos governantes e juízes permanecem no poder a despeito de qualquer consideração pela vontade popular.

Pouco importa se seu governo foi indicado pela imprensa internacional como um dos cinco mais impopulares do mundo, se as manifestações contra ele se espalham pelo país. Isso não irá influenciar as decisões governamentais, não irá modificar seus discursos.

Pouco importa se seu "presidente" foi gravado em caso explícito de formação de quadrilha, prevaricação e cumplicidade com banditismo. Os juízes agirão como se as gravações não existissem e utilizarão, ainda, os mais rasteiros sofismas para se justificarem.

Mas, quando os mortos sobem à cena, uma explicitação importante ocorre no nível dos discursos. Vemos então uma forma de conservação de discursos desprovidos de legitimidade, de práticas discursivas repetidas tendo em vista certa "estabilização na anomia" que poderíamos chamar de "cinismo".

Cinismo não é apenas um julgamento moral, mas uma certa forma de racionalidade. Cínicas são as ações nas quais repetimos a aparência de legitimidade, mesmo sabendo que todos compreendem que se trata apenas de aparência. Um pouco como vimos na semana passada, com uma verdadeira aula de cinismo ilustrado dada pelo pilar do desgoverno atual, a saber, o grão-tucanato. O mesmo tucanato que entrou como uma ação de cassação de chapa Dilma-Temer, que insuflou o presidente do TSE, homem de relações orgânicas com o partido, a não levar adiante a cassação, para no final afirmar que iria recorrer da decisão tomada "por si próprio", mesmo que seu partido continue a prometer juras de amor e a sustentar o governo.

Essa racionalidade cínica exige que a repetição da aparência deva ser feita como se estivéssemos diante da exigência de continuar a jogar um jogo sem sentido, a ter uma crença desprovida de crença, a fingir que democracia ainda há.

Há uma função "terapêutica" nisso tudo. Pois assim poderemos ridicularizar o poder ao mesmo tempo que a ele nos submetemos.

De fato, em seus momentos de desagregação o Brasil não leva sua casta dirigente à guilhotina, não invade o Ministério da Fazenda ou seus palácios. Ele encontra alguma forma de alívio em submeter-se a um poder que não exige mais crença alguma. Como se fosse possível continuar a viver esquecendo, por um momento, que o poder existe.

No entanto países que um dia levaram seus dirigentes à guilhotina e à forca (como a França e a Inglaterra) conseguiram civilizar minimamente sua classe dirigente. Eles a civilizaram através de certo medo pelo povo que se inscreve no imaginário do poder. Com guilhotina ou não (pois isso pode ser visto apenas como metáfora), uma coisa é certa; no Brasil, falta ao poder temer o povo.
-----------------
Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/568756-o-cinismo-e-uma-forma-de-racionalidade

sábado, 17 de junho de 2017

Trump e a era da política sem ideia alguma

Efeitos visuais em show de Roger Walters, em outubro de 2016
Efeitos visuais em show de Roger Walters, em outubro de 2016

Paspalho e bruto, presidente dos EUA 
tem um único objetivo: manter-se no poder. 
A tragédia é que os “representantes do povo”, 
no mundo todo, pensam quase sempre
 do mesmo modo

Nos círculos familiares e de amigos pelos quais me movo, não acredito que haja alguém que votou em Donald Trump. Isso provavelmente também ocorre com a maior parte dos profissionais de classe média nos Estados Unidos. Além disso, um enorme percentual, entre estes gurupos, está obcecado com Trump e muito ansioso para que ele deixe de ser seu presidente.

Pedem-me com frequência que preveja por quanto tempo ele pode sobreviver no posto. Minha resposta padrão é: de dois dias a oito anos. Isso nunca satisfaz os interlocutores. Não podem acreditar que seja uma sentença séria. Os que fazem a pergunta veem Trump como uma pessoa “má” e acham difícil acreditar que esta visão não seja compartilhada, larga e crescentemente, pela maioria da população, incluindo os que votaram em Trump.

Para os que me questionam, parece ser uma questão de ideologia e ou moralidade. Se os outros não veem a realidade assim (pelo menos ainda), deve ser porque são mal ou insuficientemente informados sobre aquilo em que Trump acredita e como ele age. Pode-se tirar disso duas possíveis conclusões. A otimista é que a luz, ao final, iluminará os ignorantes e Trump será derrubado. A pessimita é que nada mais pode mudar as atitudes da maioria, e portanto não há esperanças.

Acredito que esta forma de enxergar o tema está muito errada. Trump não é um ideólogo. Sim, ele tem uma agenda que perseguirá com o máximo de sua habilidade. Mas a agenda é absolutamente secundária em relação a sua maior prioridade, que é permancer presidente dos Estados Unidos – uma posição que, para ele, equivale a ser o indivíduo mais poderoso do mundo. Ele fará qualquer coisa para permancer neste lugar – inclusive sacrificar qualquer parte de sua agenda, temporária ou permanentemente.


Ele tem extremo orgulho de ser presidente dos EUA. Como disse a um repóter, ele deve estar fazendo algo correto, já que é o presidente e o repórter, não. Ele considera-se validado por estar no posto. Busca aplausos nos outros e esbanja aplausos em si mesmo. Diz que é o melhor presidente que os Estados Unidos tiveram e provavelmente terão.

Mas por que digo que Trump permanecerá no posto de dois dias a oito anos? Porque ele não é o único cuja prioridade é manter-se no posto. Esta opção é partilhada por quase todos os membros do Congresso dos EUA. Há ao menos duas meneiras de remover um presidente: promover o impeachment ou invocar a 25ª emenda à Constituição, que trata da incapacidade de responder às tarefas da presidência.

O que levaria os membros do Congresso, e especialmente os do Partido Republicano, a buscar a remoção de Trump? Eles precisariam acreditar que manter-se no posto depende, em larga medida, de manter o mandato de Trump ou derrubá-lo.

A escolha é clara. O que não lhes parece claro até o momento é que opção os favorece mais. Por isso, oscilam e continuarão a fazê-lo por algum tempo. No momento, não veem vantagem em apoiar as pessoas (quase todas ligadas ao Partido Democrata) que exigem um processo para remover Trump.
Calcular a vantagem relativa das duas opções não é tarefa fácil. É, em grande medida, fazer uma leitura da opinião pública cambiante, algo de dificuldade notória. Os parlamentares leem as pesquisas (mas quais?). Encontram-se, em suas bases, com eleitores (mas quais?). Falam com seus financiadores (mas quais?).


Como em todas as situações relativamente bloqueadas, o bloqueio pode cair com um pequeno acontecimento, inteiramente inesperado, capaz de desencadear outros fatos e provocar, subitamente, uma corrida momentânea a surfar em nova maré. Isso pode ocorrer em dois dias ou nunca, até que Trump termine dois mandatos. É imprevisível. Não tem a ver com ideologia ou agenda. Tem a ver com permanecer no posto, em nome de permancer no posto.
---------------------
* Immanuel Wallerstein é um dos intelectuais de maior projeção internacional na atualidade. Seus estudos e análises abrangem temas sociólogicos, históricos, políticos, econômicos e das relações internacionais. É professor na Universidade de Yale e autor de dezenas de livros. Mantém um site onde publica seus textos (http://www.iwallerstein.com/).
Fonte: http://outraspalavras.net/capa/trump-e-a-era-da-politica-sem-ideia-alguma/17/06/2017

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A LETRA NEGRA

José de Souza Martins*
Carvall

Ele tem apenas 17 anos de idade. É franzino: parece ter 13. Não chora, não grita, não implora compaixão. Está conformado. Adivinha o que querem seus algozes, um tatuador e um pedreiro, ambos com menos de 30 anos de idade. Seus olhos dizem-no desamparado. É evidente que está assustado. Sabe qual é a pena para quem atravessa o limite de uma sociedade de donos de gado e gente. Caiu no laço. Vai ser ferrado para que saiba e todos saibam que tem quem manda nele.

Antes, implorara que o marcassem no braço, não na testa. Mas o script da tortura era outro. Os torturadores queriam marcá-lo para o resto da vida. Não se tratava apenas de nele inscrever o nome do crime que teria cometido, a suposta tentativa de roubar a bicicleta de um aleijado, coisa que a polícia não confirmou.

Tratava-se de iniciar ali o seu linchamento. Na tradição do justiçamento popular, com aquela marca, será trucidado na rua mais adiante. É pouco provável que sobreviva. Aqueles criminosos inovaram na técnica de linchar. É um dos primeiros linchamentos brasileiros a que os linchadores deram a forma de encenação e performance. Televisão e cinema já não são instrumentos de obras de ficção. O acontecimento da semana passada em São Bernardo do Campo é um precioso documento sobre uma sociedade retrógrada que já não distingue ficção de realidade. A força de um imaginário perverso tomou conta de nossa consciência.

Era parte da crueldade o fingimento dos autores de que a vítima ingressara no estabelecimento como cliente, para fazer uma tatuagem. Como se ela mesma encomendasse o teor da marca que levará. Perguntada, diz: "Ladrão". "Tem que ser uma frase inteira", esclarece o tatuador e diretor da encenação. O pedreiro filma. Ressalta os olhos aterrorizados do garoto, esmera no detalhe da frase cruel: "Eu sou ladrão e vacilão". A tatuagem ironiza a fragilidade da vítima, que se deixou capturar. Além de supostamente tentar cometer um crime, fora incompetente no desempenho criminoso.

O filme foi colocado na internet. Em apenas uma hora teve meio milhão de visualizações, sem contar muitas replicações, uma das quais de um suposto programa noticioso em que o locutor baba de prazer e ódio contra o adolescente justiçado e recomenda aos espectadores que vejam o espetáculo. Um programa de grande sucesso.

Nada disso, porém, tem a relevância de um detalhe assustador e revelador: a passividade e o conformismo da vítima. Ele não é o diferente. Age com a compreensão da mesma lógica de quem o machuca, conhece o roteiro, sabe quais são as palavras que dele se espera. As letras negras que o marcam, como em "A Letra Escarlate", de Nathaniel Hawthorne, é o signo do que é a sociedade em que vive, uma sociedade que estigmatiza para existir. O garoto é usuário de droga, havia vários dias fora de casa. Foi na internet que a família o reconheceu e avisou a polícia, que, em pouco tempo, prendeu os dois criminosos e os indiciou pela prática de tortura.

Um aspecto essencial de toda essa violência é o de que ocorreu no ABC operário e, nele, no mais próspero de seus municípios. O ABC das emblemáticas assembleias operárias do estádio de Vila Euclides. A ocorrência de agora nos fala de uma cultura fascista e neonazista que se difunde no proletariado da sociedade que, supostamente, fazia em seu tempo o discurso de esquerda.


O cineasta Carlos Reichenbach (1945-2012), em 2003, com o filme "Garotas do ABC", inspirado em ocorrências racistas e neonazistas na região, já havia mostrado a metamorfose: os filhos de operários de esquerda tornavam-se ativistas de extrema direita. Em 2009, uma jovem de 20 anos, filha de um operário metalúrgico de Diadema começou a ser assediada e apupada, estigmatizada, por seus colegas de escola numa universidade da região. Corria o risco de linchamento porque usava saia curta e colorida.

O episódio de agora não é estranho à tendência de radicalização direitista no próprio meio operário. O ABC teve hegemonia política petista durante largos anos e foi ali o laboratório da irresistível ascensão do partido. O PT administrou o país durante 13 anos e São Bernardo durante oito anos. Não conseguiu desenvolver políticas sociais e culturais de emancipação da classe trabalhadora, ressocializando-a para valores propriamente sociais e humanistas. Limitou-se às demandas econômicas, sindicais e corporativas. Gerou uma baixa classe média partidarizada, mas não politizada.


O garoto foi encontrado pela família. O coletivo Afroguerrilha lançou uma campanha pela internet para arrecadar R$ 15 mil para custear a remoção da tatuagem e o tratamento de recuperação do garoto. No fim da tarde de domingo a quantia já havia sido conseguida. Ainda há luz no fundo da escuridão.
-----------------------------------------
*José de Souza Martins é sociólogo, membro da Academia Paulista de Letras e autor de Linchamentos - A Justiça Popular no Brasil” (Contexto), dentre outros. Escreve neste espaço semanalmente
Fonte: http://www.valor.com.br/cultura/5006024/letra-negra 16/06/2017

Leandro Karnal, o pensador que virou celebridade

Leandro Karnal, o pensador que virou celebridade Lauro Alves/Agencia RBS
Karnal, 54 anos, em palestra realizada em Porto Alegre no dia 8 de junho 
Foto: Lauro Alves / Agencia RBS  

Com 1 milhão de seguidores no Facebook, historiador gaúcho aparece diariamente na TV e viaja pelo país 
inteiro para fazer palestras

Assim como usa ideias do romancista e ensaísta Elias Canetti, do filósofo José Ortega Y Gasset e do teórico da comunicação Marshall McLuhan para tentar explicar sua popularidade, Leandro Karnal pode lembrar de uma cena da comédia dos anos 1980 Corra Que A Polícia Vem Aí e usá-la como referência no instante seguinte. É incessante a cadeia de associações produzida pela mente do professor, escondida sob a aparadíssima careca que se tornou sua marca registrada. E é dela (a mente, não a careca) que o gaúcho de São Leopoldo se vale para organizar suas palestras, que se tornaram hits nas redes sociais e em teatros por todo o Brasil.

No dia 8 de junho, Karnal, 54 anos, apresentou em Porto Alegre a conferência A Vida que Vale a Pena Ser Vivida. Falou para cerca de 1,5 mil pessoas, no Teatro do Sesi, sobre a busca pela felicidade, as angústias da vida contemporânea e a relação das pessoas com o tempo. Durante uma hora e meia, à frente de um telão que projetava imagens de uma apresentação em PowerPoint, pincelou com bom humor temas que aborda em seus livros – nesse período, foi filmado por dezenas de smartphones e interrompido por aplausos oito vezes, sete delas depois de uma piada e uma ao final da palestra, quando ouviu 26 segundos de palmas. Com o público de pé.

Na manhã seguinte, uma gravação de TV na Band o levaria ao Rio.

– Durmo cada noite em um lugar – diz Karnal, para logo em seguida fazer uma brincadeira com fundo de verdade, outra coisa que faz com certa frequência: – Mas a fama me agrada, principalmente porque atende ao fenômeno mais universal da espécie humana, que se chama vaidade.



De fato, a vida de Karnal não é a típica de um professor universitário – dá aulas na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Sua agenda inclui uma coluna semanal e um blog no jornal O Estado de S. Paulo, entradas ao vivo duas vezes por semana na rádio BandNews e o quadro diário Careca de Saber, na BandNewsTV. Está frequentemente em aeroportos e posando para fotos com desconhecidos. É uma rotina que mais parece com a de um popstar da música sertaneja do que a de um historiador especializado no desenvolvimento das nações.

– Converso muito com pessoas que vivem isso há mais tempo. Gosto de falar com atores da Globo, por exemplo – revela. – Segundo eles, é inevitável criar uma persona pública para lidar com a fama.


O professor estima que ficou famoso há mais ou menos três anos. Lembra de, repentinamente, observar o crescimento exponencial da popularidade de seus vídeos, a invasão de suas redes sociais por milhares de pessoas que ele nunca havia visto na vida e a demanda quase diária por entrevistas. O cenário já era um Brasil em crise existencial, sob a sombra da Operação Lava-Jato e polarizado após as eleições de 2014. Até ali, radicado em São Paulo havia três décadas, Karnal circulava basicamente em ambientes acadêmicos e era "alguém" em circuitos específicos, principalmente por conta de livros como História dos Estados Unidos: Das Origens ao Século XXI (2007).

– Notei que havia algo de diferente quando as pessoas começaram a dar muito valor às fotos que tiravam comigo – brinca, antes de aprofundar: – A espetacularização da vida e o ingresso das massas no sistema de consumo cultural, conceitos trabalhados por Elias Canetti em Massa e Poder, Ortega y Gasset em Rebelião das Massas, começaram a ficar cada vez mais evidentes. Não só professores se tornaram populares, o que é notável, mas também pessoas sem grande bagagem de erudição, como youtubers, que têm 3 milhões de seguidores porque possuem grande capacidade de comunicação. McLuhan, que morreu antes de tudo isso, dizia que o meio era a mensagem. Hoje, o meio certamente é a própria mensagem. Acima de tudo, o surgimento da internet e a popularização das redes sociais fizeram com que ideias que eram restritas a um grupo atingissem mais pessoas. 

Atualmente, um milhão de pessoas curtem Leandro Karnal no Facebook – há um ano, eram 400 mil. No YouTube, seu vídeo de maior popularidade chama-se "Minha felicidade depende de mim", de 2016, com 1,6 milhão de visualizações (suas recentes entrevistas ao Programa do Jô e ao Roda Viva também ultrapassam o milhão). Seu livro Pecar e Perdoar: Deus e o Homem na História, de 2014, acumula nove semanas consecutivas na lista de mais vendidos da revista Veja. Felicidade ou Morte, escrito com Clóvis de Barros Filho, terminou 2016 na sexta posição da mesma lista. O gaúcho faz parte do grupo de "filósofos pop", que abrange nomes como Mário Sergio Cortella, Marcia Tiburi, Luiz Felipe Pondé e Barros Filho. A semelhança entre eles: todos tentam refletir sobre questões da vida contemporânea e discutir aspectos específicos da política nacional com base em referências bibliográficas, linhas de pensamento históricas e argumentos de lados distintos. 
Se as redes sociais explicam o fenômeno sob o ponto de vista do meio e do contexto social, Karnal também procura pensá-lo sob a ótica da mensagem:

– Eu e muitas pessoas, até mais do que eu, temos a capacidade comunicativa de transformar coisas complexas em coisas simples e fazer as pessoas pensarem coisas das quais elas não tinham se dado conta – diz, citando Cortella e Barros Filho, "todos ligados a universidades, com títulos de doutor, formação no Exterior, área de especialidade e livros publicados". – Temos as redes, a mensagem e um momento específico no Brasil, em que as pessoas começaram a querer ter acesso ao conhecimento. Houve, em vários sentidos, uma ascensão de classe, uma busca por conhecimento, e acho que isso favoreceu. Tudo isso é uma explicação racional, equilibrada, cartesiana, mas não tenho uma certeza exata sobre todas as variáveis. Parece que essas coisas acontecem.

Karnal não trata sua celebridade como algo sagrado. Nem ele é "sagrado". Recentemente, foi surpreendido com uma avalanche de críticas e xingamentos após publicar no Facebook uma foto jantando ao lado do juiz Sergio Moro. Até então, o professor era tido pela maioria de seus admiradores como um pensador identificado com ideias de esquerda – para seus depreciadores, um "petralha", portanto. A foto com o juiz símbolo da Lava-Jato causou confusão em quem tem visão dicotômica. A polêmica foi tanta que Karnal precisou apagar a foto e ir a público se explicar:

– Há palavras que são detonadoras de bloqueios mentais: Cuba, Che Guevara, Bolsonaro, Olavo de Carvalho, PT, Lula. Você não pode pensar, a única atitude aceitável depois de usar uma dessas palavras é insultar. Se você matizar, é agredido. Quando você está em um jantar com juízes e algum daqueles juízes não é do agrado da pessoa, essa pessoa me classifica como "petralha" ou "coxinha".
O mundo emburreceu muito.

Ainda sobre o sucesso, Karnal gosta de lembrar que, da mesma forma como é parado em aeroportos para tirar fotos, o goleiro Bruno, preso por assassinar a ex-mulher, também é. Tem plena certeza de que o produto que está sendo consumido é a fama em si, e não as ideias. Essa percepção faz eco ao que diz o canadense Mathieu Deflem, professor da Universidade da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, e especialista em sociologia da fama:

– Fama pode ser baseada em qualquer coisa, seja um mérito, como fazer boa música ou ter ideias poderosas, ou não, como um escândalo ou um caso de sensacionalismo. Talvez Karnal seja famoso por causa da força de suas ideias, mas talvez seja por causa de sua careca. Eu não sei, e ele também não.

A herança paterna: "Foi em casa que conheci Homero, Machado, Eça"

Em março deste ano, Karnal foi a São Leopoldo participar de uma cerimônia na Câmara de Vereadores que marcou a mudança do nome da Avenida das Indústrias para Avenida Renato Karnal – nome de seu pai, morto em 2010. Da vida na cidade gaúcha, o professor se recorda das visitas à Biblioteca Pública Municipal Olavo Bilac (desde 2007 rebatizada como Biblioteca Vianna Moog), das aulas de piano e do incentivo à leitura que recebia em casa. Conta que, desde os primeiros estudos, no Colégio São José, sempre foi estimulado a ler clássicos e formar senso crítico. Em casa, recebeu uma formação "tradicional, que se voltava à erudição e ao domínio de fontes".

– Sempre foi muito forte essa vontade de ler. Tive um pai que me ajudou muito com sua biblioteca e seu preparo. Foi em casa que conheci Homero, Machado de Assis, Eça de Queirós – conta.

Da mesma época, tirou a capacidade de apresentar-se em público com destemor:

– Nunca fiquei nervoso com plateia. Nem quando tocava piano em São Leopoldo.

Professor de latim e advogado, o pai de Karnal atuou fortemente na política local. Em tempos de ditadura, chegou à presidência da Câmara de Vereadores de São Leopoldo. Rocy Ferreira, presidente da Apae da cidade, conviveu com Renato em dois momentos: na década de 1950, como aluno de latim do respeitado professor do Colégio São Luís, e depois, já a partir da década de 1970, como amigo pessoal do político influente. Conta que vê em Leandro a capacidade de oratória e a cultura vasta do pai – usa como exemplo um concurso de oratória realizado no Nordeste em 1956 e vencido pelo então professor. Lembra também de um Renato ainda mais popular do que Leandro.

– Procurava se interessar pelo aluno, era querido por todos. Como ser humano, sempre foi um exemplo, respeitou seus semelhantes, nunca ouvi ele falar nada de ninguém. Em questão de conduta, Renato e Leandro são muito parecidos. Mas o Renato era mais popular, simplesmente chegava. O Leandro tem que pedir licença – lembra Rocy, para em seguida recordar de outra habilidade notável do Karnal pai: – Ele era uma pessoa inteligentíssima, muito culto e um exímio jogador de pingue-pongue. Acompanhei-o em diversas cidades jogando pingue-pongue. Ele juntou uma turma e viajava com eles jogando. Chegou a vencer campeonato estadual.

Nos últimos tempos, Karnal vem contando a Odisseia para seu sobrinho de sete anos. Ele não gosta da ideia de missão, vê como algo religioso, mas sabe que tem capacidade ímpar de transmitir conhecimento:

– Uma palestra ou um livro não mudam tudo, mas são como uma estalactite pingando. Leiam, estudem, se desenvolvam. Alguns vão ter mais dificuldade, outros menos. Quanto mais acumularmos capacitação, menos a onda do futuro vai nos pegar desprevenido.

O metódico palestrante se prepara para entrar no palco do Teatro do Sesi, na Capital 
Foto: Lauro Alves / Agencia RBS

Suas palestras tratam bem do assunto: manter a vida sob rédeas curtas, planejar ações a curto e a longo prazo, não terceirizar escolhas – todos são conceitos tratados sob diversos prismas e os mais variados tons em seus textos. Nesses eventos, costuma arrancar gargalhadas da plateia com esta tirada: 

– Perguntam muito como eu consigo dormir só quatro horas. Ora, ao deitar eu coloco o despertador para dali a quatro horas e, quando ele toca, eu levanto. "Mas, Karnal, eu não consigo!". Então, morra!
É uma verdade contada como piada. O professor é metódico. Tem hora para dormir e hora para acordar (meia-noite e 4h). De quatro em quatro meses, tira férias. Para as próximas, marcadas para janeiro, viajará à Inglaterra, onde estudará a obra de William Shakespeare, um de seus favoritos, durante 12 horas diárias. Enquanto janeiro não chega, aproveita salas de embarque, poltronas de aviões e quartos de hotéis para estudar – ou simplesmente ler, turbinado pelo que chama de "uma grande capacidade de concentração e uma excelente memória".

– Tenho a necessidade psíquica de obter o equilíbrio de vida lendo. Terminei ontem o Prisioneiras, do Dráuzio Varela, que remeteu a outra coisa: preciso reler, como comecei hoje, Cesare Beccaria, o grande iluminista jurídico do século 18, falando sobre direitos e penas. Lendo Beccaria, pensei: faz tempo que não leio o Código de Hamurabi, que estabelece a Lei do Talião, um progresso jurídico. As coisas vão se encadeando para mim num sistema de interesse muito grande. Ler não é um peso, é uma alegria.

Até por isso, a rotina de popstar não o incomoda (a ponto de responder individualmente, em seu smartphone, aos comentários de seus seguidores) e não o deslumbra. Enxerga as palestras lotadas, os livros best-sellers e as milhões de visualizações no YouTube como uma expansão virtual de sua sala de aula:

– Uma coisa boa de ter mais de 50 anos é que você separa significado e significante. Eu sou Leandro Karnal, era Leandro Karnal dando aula na Unicamp, quando ninguém me chamava para palestras, e continuarei sendo Leandro Karnal dando aula na Unicamp em 2024. A fama traz coisas positivas, mas eu existia antes dela. Sei distinguir quem eu sou e os momentos – diz, para depois fazer algo incomum a historiadores, falar do futuro: – Não tenho o dom da profecia, então talvez este momento termine logo. Mercado cansa, as pessoas cansam, isso tudo pode passar. E aí, provavelmente terei tempo de ler mais, de escrever mais, de fazer mais as coisas de que eu gosto.
------------------
Texto Por: Gustavo Foster
Fonte: http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/noticia/2017/06/leandro-karnal-o-pensador-que-virou-celebridade-9816950.html 16/06/2017

Carlos Alberto Gianotti: "Estamos sofrendo o cansaço das demandas"

Carlos Alberto Gianotti: "Estamos sofrendo o cansaço das demandas" Jefferson Botega/Agencia RBS

A sociedade do desempenho cobra que o indivíduo tem de ser ligeiro e produtivo. Sem o sossego espiritual, não produzimos algo original como é demandado     

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han (1959), que ensina na Universidade de Berlim, é autor de um ensaio intitulado Sociedade do Cansaço (editora Vozes) em que configura a sociedade do século 21 como a do desempenho, na qual os indivíduos têm como desígnio a execução, a produção, a fazedura, o processo. É uma injunção que permeia o inconsciente social de tal maneira, que a ideia de dever é trocada pela de poder, embora este não proscreva aquele. O indivíduo do desempenho tem de ser ligeiro e produtivo, como já disse alguém, tem de "produzir a produtividade". Radica aí o cansaço do fazer e do poder, numa sociedade em que se acredita que nada é impossível, segundo Han.

Demanda, termo derivado regressivamente do verbo demandar, tanto pode significar pedido, solicitação, exigência, necessidade, como pode designar o atendimento ao pedido, à solicitação, à exigência, à necessidade. Ter uma demanda significa ter um problema para outrem resolver; ou ter que resolver um problema. Expressão, portanto, de duas vias.



Demanda é expressão usada na modernidade sem parcimônia ou recato, mas, sim, incontida e impensadamente – assim como o são as divertidas sustentabilidade, transparência, inovação. No passado, demanda era vocábulo reservado a raras elocuções. Hoje, não; hoje, você pode lascar "Minha fome demanda um pratarraz de comida" ou "Estarei encaminhando essa demanda" (sic) que pegará bem entre os circunstantes. Num registro mais inusitado, poder-se-ia considerar a afirmativa "Pelo que indica o marcador, o tanque está demandando por gasolina". De qualquer modo, demandas traspassam todo o ambiente da sociedade do desempenho.

O que seria precisamente o cansaço das demandas? Tratar-se-ia dum cansaço gerado pela profusão de demandas individuais dos dias de hoje, entretanto, não obrigatória ou propriamente um cansaço físico; sua característica essencial é a de enfartação psíquica em que o enfartado, por se sentir continuamente sobrecarregado de incontáveis requerimentos de alto desempenho que se lhe dirigem, constata-se exaurido, derreado, ansioso, psicologicamente estilhaçado: o cansaço das demandas tem a feição de um agravo intrapsíquico.

Na acepção pragmática dos fazeres, os demandantes, ou seja, os exatos indutores desse enfarte, também eles enfartados, sequer suspeitam de que causam aqueles cansaços, pois enxergam demandas como uma naturalidade da sociedade do desempenho, pertencente ao dia a dia daquele tipo de indivíduo que procura "desafios" a serem vencidos, segundo o argumento utilitarista que uma vida sem desafios está fadada à anemia existencial. Isso, no dizer de Ibsen, seria uma das "mentiras da vida". 
Claro que demandantes ou demandados não pertencem às categorias socioeconômicas mais desvalidas, porque estas já são "desafiadas" pelo trabalho duro, de sentar tijolos ou limpar latrinas, que começa cedinho da manhã e vai até a noite, para depois pôr as crianças para dormir. Quer dizer, o cansaço da demanda não se instala no padeiro, na balconista, no gari, na faxineira – que, sim, sofrem do cansaço físico –, mas em criaturas que executam tarefas imaginavelmente mais elevadas, sob ar-refrigerado, entre computadores, escâneres, telefones, redes sociais, aplicativos, viagens, odiosas reuniões. Isso sem se falar dos afazeres inerentes à vida familiar e social, estes na verdade micro demandas, quiçá mais aporrinhantes, maiormente porque não remunerados.

Componentes dessa sociedade do desempenho sequer gozam momentos de contemplação indispensáveis ao sossego espiritual e à elaboração: o desassossego impede que o indivíduo produza algo original, limitando-o apenas a perfazer sempre o mesmo, e assim, ao contrário do que é propalado, não há inovação. Então, a sociedade do desempenho, de que nos fala Han, é produtora dessas criaturas repetitivas, aplastadas pelas demandas, acometidas por zumbidos nos ouvidos, obesidades, tempestades de angústia, opressões no peito, vertigens, inchaço nos tornozelos, enfim, pacientes das psicossomatizações demandadas pelo cansaço das demandas.
---------------------
Texto Por: Carlos Alberto Gianotti
Foto: Jefferson Botega / Agencia RBS
Fonte: http://zh.clicrbs.com.br/rs/vida-e-estilo/noticia/2017/06/carlos-alberto-gianotti-estamos-sofrendo-o-cansaco-das-demandas-9817056.html 15/06/2017

Mia Couto sugere que cientistas estejam abertos a outras sabedorias

Em evento na Capital, Mia Couto sugere que cientistas estejam abertos a outras sabedorias André Ávila/Agencia RBS

Escritor moçambicano esteve à frente da conferência magna do 14º Brain Congress, evento de neurociência que segue até sábado em Porto Alegre

Com a incumbência de apresentar o convidado mais aguardado da 14ª edição do Brain Congress, evento sobre neurociência e emoções que segue até este sábado em Porto Alegre, o diretor do Instituto do Cérebro (Inscer/RS) e vice-reitor da PUCRS, Jaderson Costa da Costa, revelou a uma plateia ansiosa por ouvir Mia Couto que o escritor moçambicano estava ali, sim, por ser um autor celebrado da literatura. 


Mas se, porventura, alguém não considerasse isso suficiente para credenciá-lo a palestrante de um evento científico sobre cérebro e doenças neuropsiquiátricas — algo improvável diante da lotação do Teatro do Sesi nesta quinta-feira—, o neurocirurgião adiantou que, além de escritor aclamado e biólogo por formação, Mia tem um curso incompleto de Medicina em seu currículo e inclinou-se à psiquiatria em seus dias de quase médico.

O próprio escritor, ao despontar no palco para a conferência magna do evento, revelou que o convite havia causado estranheza a amigos e a ele próprio. Em tom de brincadeira, refletiu, em voz alta, que seria mais adequado estar ali para ilustrar alguma anomalia ou como peça de um estudo de caso sobre a criança hiperinativa que diz ter sido. 

Mia fez graça, retomou momentos e impressões de sua infância em Moçambique para falar sobre visões da vida e do ser, à luz da ciência, do cosmos ou da natureza, das presenças e das ausências. Como se esperava, contou histórias, entremeadas com observações sobre o que leva e não entende da existência e das relações que estabelecemos ou deixamos de estabelecer entre mente, corpo e aquilo que por aí chamam de alma. Para tanto, recordou da figura de um xamã caçador que conheceu em um parque de Moçambique e da amizade enriquecedora que o privilegiou de uma forma diversa da que temos de nos compreender, inclusive nas enfermidades.

— Não somos só entidades biológicas — ponderou.

Humanidade sob uma visão diversificada

Como convidado de um evento científico, Mia enalteceu as explicações da ciência para nossa condição humana, emotiva e material, mas confessou que prefere pensar na humanidade sob uma visão diversificada e com a esperança de que nunca se saiba de tudo a ponto de se perder a magia. O moçambicano criticou a humanização das máquinas e a "maquinização" das pessoas e as tentações de um mundo regido pelo mercado, em que há um farto cardápio de milagres.

— As seitas de pseudocientistas estão para a ciência como os livros de autoajuda estão para a literatura. As curas terapêuticas não virão de novos produtos, mas de um mundo mais humano — disse o escritor.

Recompondo as sutilezas, Mia Couto sugeriu aos cientistas, assim como àqueles que pressupõem a explicação científica como superior e suprema, que não abdiquem do rigor em seus propósitos, mas que estejam abertos a outras sabedorias. Ainda lançando mão da cordialidade e do humor, o escritor moçambicano ressaltou a necessidade vital de nos maravilharmos e de estarmos frente ao inexplicável. Antes de encerrar, fez um pedido:

— Por favor, não expliquem tudo.
-------------------------
Texto Por: Bruna Porciúncula
Foto: André Ávila / Agencia RBS
Fonte: http://zh.clicrbs.com.br/rs/vida-e-estilo/noticia/2017/06/em-evento-na-capital-mia-couto-sugere-que-cientistas-estejam-abertos-a-outras-sabedorias-9817526.html

OS DIÁRIOS DE ADÃO E EVA

Eliana Cardoso*
Cris Bierrenbach
Ao contrário do que você pensa, coração, Deus não criou o mundo a partir do nada. Quatro palavras-chave no versículo dois do primeiro capítulo do "Gênesis" simbolizam o caos antes da criação: "No princípio, a terra era sem forma e vazia e havia escuridão sobre a face do abismo". Essas palavras indicam a pré-existência de algo ruim, matéria ou buraco negro. Então Deus introduziu a ordem. Disse: "Haja luz". E houve luz. "E Deus viu que a luz era boa e Deus separou a luz da escuridão".

O tema geral do primeiro capítulo, a criação da ordem e de um mundo bom, se desenvolve de acordo com o princípio literário de que a forma deve seguir o conteúdo. Os seis dias da criação 
obedecem o padrão: 1-4, 2-5, 3-6. A luz no primeiro dia corresponde às luzes no quarto. As águas e o céu no segundo, correspondem aos peixes e às aves no quinto. Os dois estágios da criação no terceiro dia (a terra seca e a vegetação) correspondem a dois estágios no sexto: a criação dos animais terrestres e dos seres humanos que habitam a Terra e se alimentam da vegetação.


No meio do versículo 4 do capítulo 2 começa outra versão da origem do mundo. Enquanto na primeira história, homens e mulheres são criados de uma só vez - "E Deus criou o homem à Sua imagem [...]; macho e fêmea criou-os" -, na segunda história, o homem é criado primeiro, e a mulher depois. Tendo colocado o homem no jardim, Deus o fez dormir, lhe tomou uma costela e "fez da costela que tinha tomado do homem, uma mulher".

Há mais diferenças importantes entre os dois relatos, segundo Gary A. Rendsburg, professor de estudos judaicos na Universidade Rutgers nos EUA e co-autor de "The Bible and the Ancient Near East" (Norton). Enumero: (1) diferentes nomes para Deus: Elohim ou Deus na primeira história e Yahweh Elohim ou Senhor Deus na segunda; (2) diferentes métodos de criação: pela palavra na primeira história e por meios físicos na segunda, na qual Deus forma o homem do pó da terra e planta um jardim; (3) diferentes ordenações dos eventos: a primeira história avança da vegetação aos animais até aos seres humanos, enquanto a segunda começa com o homem e depois vem o jardim e os animais. Tudo isso, porque enquanto o ponto de vista da primeira história é cosmocêntrica - incluindo o céu, o Sol, a Lua e as estrelas - o ponto de vista da segunda história é antropocêntrica, com ênfase no homem e suas atividades.


Para esclarecer o problema do mal no mundo, o primeiro capítulo mostra o caos preexistente à criação do Éden. O problema - que não existia para o politeísmo com deuses bons e maus - perturba o monoteísmo, cujo único Deus é bom. Para que Deus não seja responsável por nossos sofrimentos, era preciso que o mal existisse antes da criação da Terra.


A segunda história oferece uma explicação alternativa: o homem violou o mandamento de Deus e inaugurou a existência do mal. A trama se desenrola a partir da advertência de que se o homem comer da árvore do conhecimento ele morrerá. Por que Deus cria uma árvore, apenas para dizer às pessoas que não a toquem?

Claude Lévy-Starauss disse que o propósito de um mito é criar um arcabouço lógico capaz de superar uma contradição. Façanha impossível no caso de uma contradição real, ele observa. Acredito que existe uma contradição insuperável na proposição que afirma a existência de um deus onipotente, onisciente e bondoso ao mesmo tempo.


Não importa. A história se refere ao desejo humano de superar suas limitações. A serpente pergunta a Eva se Deus realmente lhe disse para não comer de nenhuma árvore no jardim. A mulher repete a advertência de Deus. A serpente constrói o suspense com suas meias-verdades e para aumentar a tensão, o narrador observa que a mulher já pode ver que o fruto é bom. Se ela já sabe o que é bom, então o que mais ela deseja? Aprender o que é mau?
A resposta está nos "Diários de Adão e Eva" de Mark Twain (tradução de Hanna Betina Gotz e Sérgio Romanelli, Editora Hedra).
Twain cria narradores em primeira pessoa, aparentemente sem arte e de uma ingenuidade totalmente convincente. Ele tira partido de situações artificiais nas quais seu gênio insere autenticidade. Ilumina a rotina com percepções inesperadas. Torna o impossível, plausível. O humor, irresistível. O autor dá um piparote na criação do mundo e reorienta a hierarquia entre os gêneros dando mais inteligência a Eva do que a Adão. Ambos dão donos da autoridade que lhes permite contar a própria versão dos eventos bíblicos e da vida cotidiana na pré-história. O leitor aprecia as duas personalidades que refletem o melhor da condição humana, e o par amadurece junto.

Adão aparece como um caladão que gostava de ficar à toa, mas cuja curiosidade, uma vez despertada por Eva, o carrega. Eva, bisbilhoteira incansável, quer entender tudo ao seu redor e compartilhar sua experiência. Enquanto Adão exprime irritação quando Eva não para de dar nomes a tudo o que vê e chama o Jardim do Éden de "o parque de Niagara Falls", Eva inventa os pronomes pessoais, as diferenças de gênero e ensina a Adão a palavra "nós". Você já pensou, coração, quando foi que "nós" se tornou um conceito claro para você e eu e o resto da humanidade?

Twain faz uma paródia do estilo alegórico e questiona com sutileza a veracidade do relato bíblico. Em Eva, Twain descobre como expressar sutilmente seu ceticismo sobre a religião. Eva, perspicaz, se pergunta por que os leões comem grama quando seus dentes indicam que eles tinham sido "projetados" para comer outros animais. Adão observa que Eva lhe disse que ela foi enganada pela serpente por causa de uma falta de comunicação sobre um termo figurativo que significa uma velha piada. O motivo da queda não passou de uma piada ruim e Adão comeu a maçã porque estava morto de fome. "Era contra os meus princípios, mas quando a gente está com fome os princípios não contam muito".


Não falta lirismo à mulher que nasceu adulta, mas que Twain descreve como uma criança descobrindo o mundo, louca para agarrar tudo que achava bonito naquele cenário quase perfeito, apesar de concluído em tão poucos dias. "Há estrelas demais em algumas partes e de menos em outras [...]. A lua se soltou ontem, e caiu fora do esquema - uma grande perda: me corta o coração pensar nisso". Ela se alegra quando a Lua reaparece e, depois de tentar alcançar as estrelas com um bambu, confessa que chorou um pouco, "o que é natural, suponho, para alguém da minha idade, e depois de descansar acabei pegando uma cesta e fui caminhando em direção à borda do círculo, lá onde as estrelas ficam perto do solo.


Eva se considera um experimento e Adão outro experimento, como se Deus fosse um cientista louco. Na parte intitulada "Depois da Queda", Eva se pergunta por que é que ela adora Adão. Não é por causa de sua inteligência (ele não é culpado de sua pouca inteligência e sim Deus que a criou). Não é por causa de seu modo atencioso e delicado (nesses quesitos). Não é por causa de seu modo atencioso e delicado (ele é pobre nesses quesitos). Não é por causa de sua educação (ele é autodidata). "Então por que é que o amo? Acho que é só porque ele é masculino". E cada um deles se admira do amor que o outro sente por ele. Não é sempre um espanto, coração, ser amado de volta?

O amor de Eva por Adão nunca vacila e se expande à medida que a família cresce: a prole inclui além de Caim e Abel, outros sete filhos e filhas, entre elas, Gladys e Edwina. Eva adora as crianças, admirando os talentos de cada uma.

Twain inventa a noção da queda afortunada. Tanto Adão quanto Eva percebem que perder o Éden - "sua propriedade", como Adam o chama - não foi uma perda tão grande à luz do que ganharam. Ainda assim, a qualidade trágica da vida se manifesta quando Eva chora a perda de Abel, o que torna a morte - até então uma palavra vazia - real, e ela percebe o significado da mortalidade. Adão, também, sofre sua própria tristeza quando Eva morre. Ele escreve no túmulo da amada: "Onde quer que ela estivesse, lá estava o Éden".

* Eliana Cardoso, economista e escritora, escreve neste espaço quinzenalmente E-mail: eliana.anastasia@gmail.com

Fonte: