sexta-feira, 15 de outubro de 2021

‘Algoritmos da opressão’: a exclusão dos sites de busca

Safiya Umoja Noble

Capa do livro "Algoritmos da opressão", com fundo em tons alaranjados, detalhes em formas geométricas e logos de redes sociais em seus vértices

O ‘Nexo’ publica trecho de livro que analisa como a filtragem seletiva das ferramentas de pesquisa incentivam o preconceito a pessoas negras, sobretudo entre as mulheres. Por trás desse problema social estão o monopólio desses mecanismos e os seus interesses privados

Meu primeiro encontro com o racismo em resultados de busca veio através de uma experiência que me levou, como pesquisadora, a explorar os mecanismos – tanto tecnológicos quanto sociais — que poderiam fazer da pornificação de mulheres negras um dos primeiros resultados de uma busca, naturalizando tão facilmente mulheres negras como um objeto sexual. Esse encontro aconteceu em 2009, quando eu estava conversando com um amigo, André Brock, da Universidade de Michigan, que um dia mencionou casualmente: “Você deveria ver o que acontece quando se procura ‘meninas negras’ no Google”. Eu assim fiz, e fiquei aturdida. Presumi que era um erro absurdo que potencialmente mudaria com o tempo. Continuei pensando sobre o assunto. A segunda vez aconteceu em uma manhã na primavera de 2011, quando busquei por atividades que poderiam entreter minha enteada pré-adolescente e suas primas da mesma idade, todas elas fazendo uma visita de final de semana em minha casa, prontas para passarmos o dia juntas, e que uma hora inevitavelmente incluiria ficar algum tempo mexendo em nossos respectivos notebooks. Para evitar que ficassem como zumbis diante da televisão ou com os olhos pregados no celular, eu queria envolvê-las em conversas sobre o que era importante para elas e o que se passava em suas cabeças, a partir de suas perspectivas como jovens mulheres crescendo no interior de Illinois, uma área predominantemente conservadora no centro da América. Eu achei que deveria existir um material de apoio ótimo para jovens pessoas não brancas da idade delas, se ao menos eu pudesse achá-lo. Rapidamente liguei o computador que usava para minha pesquisa (eu estava fazendo doutorado na época), mas não deixei que as garotas ficassem à minha volta. Abri o Google para inserir termos de busca que refletissem seus interesses, demografia e necessidades de informação, mas eu gosto de me antecipar e pré-avaliar o que pode ser encontrado na internet, de forma a me preparar para o que quer que dê as caras. O que recebi de volta após aquela simples, aparentemente inócua, busca foi mais uma vez nada menos que chocante: com as meninas apenas alguns poucos metros de distância, rindo e gargalhando das próprias piadas, eu mais uma vez me deparei com uma página de resultados de pesquisa do Google repleto de pornografia ao buscar por “meninas negras”. A essa altura, eu pensava que meu próprio histórico de buscas e engajamento com vários textos, vídeos e livrosfeministas negros acessados naquele notebook teria mudado os tipos de resultados que eu obtinha. Não foi o caso. Com o intento de ajudar as meninas a buscar informação sobre si mesmas, eu quase as expus inadvertidamente a uma das mais gráficas e explícitas ilustrações do que os anunciantes já pensavam sobre elas: meninas negras ainda são o recheio barato dos sites pornôs, desumanizadas como bens de consumo, produtos e objetos de gratificação sexual. Fechei o notebook e redirecionei a atenção delas para coisas divertidas que podíamos fazer juntas, como assistir a um filme no cinema da esquina. A melhor informação, como apresentada em um ranqueamento nos resultados da busca, certamente não era a melhor informação para mim ou para as crianças que amo. Para quem, então, era essa melhor informação, e quem decide isso? O que havia para se lucrar e quais outros motivos levavam essa informação para o topo da lista de resultados? Como a noção de neutralidade no ranqueamento e busca de informação tinha entornado tanto que talvez um dos piores exemplos de classificação racista e sexista de mulheres negras na era digital podia permanecer sem ser examinado ou submetido à análise crítica pública? Naquele momento, iniciei uma série de interrogações que são centrais a este livro.

Claro, após reflexão, percebi que já vinha utilizando as ferramentas de pesquisa e de internet longe da vista dos membros da minha família desde antes das descobertas que vivenciei. Não foi menos preocupante perceber que eu sem dúvida já tinha sido confrontada com o mesmo tipo de resultados antes, mas tinha aprendido, ou sido treinada, a de alguma forma me habituar a isso, a aceitar como algo inevitável que qualquer busca que eu fizesse usando palavras-chave relacionadas aos meus traços físicos ou identidade poderia devolver resultados pornográficos ou perturbadores de outra maneira. Por que esta era a barganha que firmei tacitamente com as ferramentas de informação digital? Como uma mulher negra crescendo no fim do século XX, eu sabia que a representação de mulheres e meninas negras que eu tinha descoberto em meus resultados de pesquisa não era um desenvolvimento novo da era digital. Eu podia ver a conexão entre os resultados das pesquisas e estereótipos sobre afro-americanos que são tão velhos e endêmicos nos Estados Unidos quanto a história do próprio país. Minha formação como estudante e estudiosa da história e sociologia negra, combinada com meus estudos de doutorado sobre a política econômica da informação digital, se alinhou com minha indignação justificada em nome de meninas negras de todo lugar. Pesquisei mais.

O que essas pesquisas representam são conceitos formulados pelos algoritmos do Google sobre uma variedade de pessoas e ideias. Seja buscando por autossugestões, ou respostas para várias questões, ou buscando por noções sobre o que é bonito, ou como um professor se parece (que não leva em conta pessoas que parecem comigo e fazem parte do “professorato” — bela “personalização”), as narrativas dominantes do Google refletem os tipos de noções e arcabouços hegemônicos que com frequência resistem às pessoas não brancas e às mulheres. Interrogar o que empresas de publicidade oferecem como informação fiável é algo que precisa ser feito, em vez de termos um público sendo gratificado instantaneamente com estereótipos em três centésimos de segundo ou menos.

Na realidade, monopólios de informação como o Google têm a capacidade de priorizar resultados de buscas na internet com base em uma variedade de tópicos, como promover seus próprios interesses mercadológicos sobre os de competidores ou empresas menores que são clientes de publicidade menos lucrativos do que as grandes corporações multinacionais. Nesse caso, os cliques dos usuários, combinados com os processos comerciais que permitem que propaganda paga seja priorizada nos resultados de pesquisa, resultam em representações de mulheres sendo ranqueadas em uma página do mecanismo de pesquisa de maneira que destacam a falta de status histórico e contemporâneo que as mulheres têm na sociedade — um mapeamento direto de velhas tradições da mídia em uma nova arquitetura de mídia. Representações problemáticas e vieses de classificação não são novidade. Estudiosos que realizaram análises críticas de biblioteconomia e ciências da informação bem documentaram as formas pelas quais alguns grupos são mais vulneráveis do que outros a serem mal representados e mal classificados. Eles conduziram críticas extensas e importantes sobre sistemas de catalogação de bibliotecas e padrões de organização de informação que demonstraram como mulheres, pessoas negras, descendentes de asiáticos, judeus, ou os romas, como “os outros”, sofreram todos os insultos da má representação e do desdém nos Cabeçalhos de Assuntos da Biblioteca do Congresso (LCSH – Library of Congress Subject Headings) ou através da Classificação Decimal de Dewey.

Ao mesmo tempo, outros estudiosos destacam a miríade de formas que valores sociais como raça e gênero são diretamente refletidos no design tecnológico. Suas contribuições tornaram possível para mim pensar sobre as maneiras que raça e gênero estão entranhados no mecanismo de busca do Google e ter a coragem de levantar críticas a uma das mais amadas e reverenciadas marcas contemporâneas.

Safiya Umoja Noble é professora associada da UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles) e cofundadora e codiretora do UCLA Center for Critical Internet Inquiry. Pesquisadora associada do Oxford Internet Institute, ela foi nomeada Comissária da Comissão de Inteligência Artificial e Governança da Universidade de Oxford. Em 2020, a autora foi indicada para o Conselho do Futuro Global de Inteligência Artificial para a Humanidade do Fórum Econômico Mundial.

Algoritmos da opressão: Como os mecanismos de busca reforçam o racismo

Safiya Umoja Noble

Trad. Felipe Damorim

Rua do Sabão

308 páginas

Fonte:  https://www.nexojornal.com.br/estante/trechos/2021/10/15/%E2%80%98Algoritmos-da-opress%C3%A3o%E2%80%99-a-exclus%C3%A3o-dos-sites-de-busca?utm_medium=Email&utm_campaign=NLDurmaComEssa&utm_source=nexoassinantes 

MAIS.....

por Bárbara Paes, originalmente publicado em: http://minasprogramam.com/algorithms-of-oppression/

No fim do ano passado começamos a ler o livro Algorithms of oppression (em português, algoritmos da opressão), da Safiya Umoja Noble, professora da UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles). A obra fala sobre como os mecanismos de busca que usamos todos os dias perpetuam narrativas que refletem distribuição de poder desiguais na sociedade. A autora analisa os significados implícitos e explícitos dos resultados de busca feitas no Google sobre meninas e mulheres negras.

Uma das grandes constatações feitas durante a época da pesquisa é que ao buscar o termo ‘black girls’ (meninas negras), o grande volume de conteúdo gerado pelo Google era de cunho pornográfico, machista e sexista. Ou seja, ao buscar mais informações sobre as vidas de meninas negras nos EUA, as pessoas não encontravam conteúdo confiável e informativo – isto é, estatísticas, contato de organizações respeitadas, artigos acadêmicos, textos jornalísticos, livros de autoras e autores especialistas nos temas. Os resultados eram uma sucessão de conteúdos que perpetuam estereótipos terríveis sobre meninas negras.

Ao longo do livro, Safiya Noble mostra como a maneira que buscamos informação importa dentro da nossa sociedade. Ferramentas de busca são uma forma de mídia e moldam nossos discursos, nossas opiniões e nossas percepções sobre o mundo em que vivemos. E hoje, vivemos em um mundo em que grande parte das pessoas com acesso à internet se apoia em ferramentas comerciais para encontrar informações de interesse público.

Nesse texto, vamos reunir algumas coisas que aprendemos com essa leitura e entender como o tema do acesso à informação na internet tem a ver com gênero e raça.

  • a tecnologia nunca é neutra. 
  • o Google não é uma fonte de informações isenta ou neutra. o Google é uma empresa com interesses corporativos. os resultados exibidos são pautados por esses interesses.
  • achar que os resultados de busca estão listados de forma neutra ou imparcial é um equívoco. segundo a autora, os resultados são listados a partir daquilo que gera mais lucro.

 

  • acesso à informação é um direito. e busca por informações é um assunto político. 
  • a seleção do que aparece primeiro nos resultados de busca é também uma seleção do que importa e do que não importa. é uma classificação de que informações são mais relevantes. e esse é um processo que molda discursos políticos.
  • a prática de classificar informação é histórica. o jeito que a gente determina que informações são mais cruciais, as decisões sobre o que aparece primeiro, e a escolha sobre o que deve receber mais atenção dos usuários. tudo isso é uma questão de narrativas. as instituições que criam os sistemas que organizam e ranqueiam informações têm a habilidade de determinar o que é prioridade.
  • assim, mecanismos de busca e os resultados que eles produzem têm significado simbólico e concreto, e influenciam áreas como cultura e educação.

 

  • o que achamos é significativo
  • resultados do google são uma forma de representação midiática. e representações midiáticas têm um papel importante em como entendemos as diferenças sociais, culturais, étnicas, raciais.

 

  • há pesquisas que mostram que aquilo que encontramos no google gera impacto no nosso comportamento. e aquilo que encontramos é informado por interesses comerciais.
  • por exemplo, a autora mostra como meninas e mulheres negras viram commodities em mecanismos de busca. historicamente, meninas e mulheres negras são vistas como hipersexualizadas. e ao priorizar determinados tipos de resultados (porque eles são rentáveis para a empresa), essas plataformas perpetuam estruturas sociais de opressão.

 

  • empresas precisam se responsabilizar pelo tipo de tecnologia que elas produzem. e isso precisa ser feito já.
  • a narrativa de que nada pode ser feito hoje é falha. muitas empresas de tecnologia ainda insistem no discurso de que a mudança só virá “um dia no futuro, quando mais mulheres negras aprenderem a programar”. elas insinuam que o dever de mudar essas práticas racistas e misóginas na tecnologia é apenas de mulheres negras e demais pessoas racializadas.
  • mas as empresas precisam abandonar a lógica racista e machista HOJE!!! elas têm que se esforçar e melhorar seus códigos e seus algoritmos agora.

 

  • cursos superiores de áreas relacionadas a tecnologia deveriam incluir estudos de gênero e raça nos seus currículos.
  • é preciso que pessoas que compreendem questões sociais relacionadas à opressões de gênero e raça estejam  dentro de empresas, monitorando e contribuindo para criação de tecnologias que não tenham impacto negativo nas vidas de meninas e mulheres negras.

 

  • do quê precisamos? como melhorar esse cenário?
  • a autora conta que precisamos de políticas públicas que regularizem como a informação é classificada e ranqueada. assim, precisamos de regulações que nos protejam de práticas antiéticas na tecnologia.
  • precisamos também de alternativas não-comerciais para buscar informação na internet.  para garantir que o público possa acessar informações verdadeiras, confiáveis e de qualidade, precisamos de iniciativas que não sejam guiadas inteiramente pela vontade de lucrar.

 

As tecnologias digitais reproduzem relações sociais. A principal lição que tiramos desse livro é que não podemos ignorar as disparidades raciais que aparecem na internet porque elas refletem e influenciam o nosso contexto. Se queremos combater o racismo e o machismo, é preciso fazer isso dentro da tecnologia também.

Bárbara Paes é co-fundadora do @MinasProgramam. Mestra em Gênero e Desenvolvimento pelo Institute of Development Studies (@ids_uk).

Fonte:  https://ciencianarua.net/coisas-que-aprendemos-com-o-livro-algorithms-of-oppression-da-safiya-umoja-noble/

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Livro investiga qual é o papel da música na democracia

Democracy  Ativista vestido de Putin manipula um boneco de Trump num protesto realizado em frente ao hotel do ex-presidente em Washington, para criticar o autoritarismo de ambos Foto: Carlos Barria/Reuters

'A música como meio de expressão e prática coletiva permite,em alguns contextos, inventar formas específicas de representar e viver a democracia', afirma Esteban Buch, editor do livro, ao Estadão 

João Marcos Coelho*, Especial para o Estadão

09 de outubro de 2021 | 15h00

Esteban Buch tinha 20 anos, em 1983, quando a Argentina voltou a ser uma democracia. A adolescência vivida em plena ditadura em sua Buenos Aires natal o levou a dedicar a vida ao estudo da música do ponto de vista social e, sobretudo, político. Isso o transformou num autor tão decisivo quanto outros estudiosos da crise por que passa a democracia no planeta, às voltas com a ascensão do populismo autoritário e os flertes, alguns escandalosamente escancarados, com a ditadura.

“A democracia está ameaçada em nível global, não há dúvida”, afirma Buch em entrevista exclusiva ao Aliás. “Trump e Bolsonaro foram e são pesadelos para a democracia, assim como a ultradireita em muitos países democráticos como a França, onde vivo, sem falar do crescente poderio global do regime chinês, ou tantas outras situações inquietantes. A violência de gênero e as discriminações raciais também são ofensas ao princípio de igualdade, sem o qual não há democracia. Para mim, é um motivo de angústia. Meus 20 anos coincidiram com a volta da democracia na Argentina, por isso toda a minha vida e o meu trabalho são norteados pela ideia de que esta é a base ética e o horizonte necessário da ação política e da criação artística”. 

Musicólogo, hoje radicado em Paris, Buch é diretor de estudos do Centro de Pesquisas sobre as Artes e a Linguagem da prestigiada Escola de Altos Estudos em Ciências Ciências Sociais. 

Todos os seus livros – e eles são muitos, e essenciais – dedicam-se ao estudo e pesquisa da música em relação à política nos séculos 20/21. Como A Nona de Beethoven – Uma História Política (1999) e Música. Ditadura. Resistência - A Orquestra de Paris em Buenos Aires (2016). Além dos livros autorais, Buch editou, ao lado de Igor Contreras Zubillaga e Manuel Deniz Silva, o volume coletivo Composing for the State – Music in Twentieth-Century Dicatorships (Compondo para o Estado – Música em Ditaduras do século 20, Routledge, 2016). Dez estudos enfocam músicas escritas por compositores especialmente para dez ditadores. Mimos de Shostakovich para Stalin; e também de Villa-Lobos para Getúlio Vargas, no 7 de setembro de 1943.

Buch acaba de publicar um livro coletivo em que ele e Robert Adlington (outro especialista no tema música & política) são os editores de Finding Democracy in Music, uma rica coletânea de nove ensaios que, como indica o título, procura pela democracia na música (Routledge,2021). E foca sobretudo no último século. Indo além de fazer música militante, ou seja, contribuir para causas políticas específicas, houve músicos que utilizaram princípios democráticos em sua prática. Por exemplo, o compositor pode, de modo “democrático”, dispor os materiais de uma obra. E mesmo adotar a prática democrática no ato da execução musical. Aqui o exemplo mais notório é o do jazz, em que cada músico tem a liberdade de criar seu solo improvisado, mas observando regras comuns, no caso do jazz tradicional. O free jazz, de improviso coletivo sem temas ou regras previamente combinadas, corresponderia aos espasmos anarquistas das revoluções, um domínio necessariamente transitório. Mas também se pode estabelecer relações democráticas com o público; e modos de disseminação e distribuição mais democráticos. Uma observação lateral: a democratização digital da música via serviços de streaming é hoje cruel realidade; de um lado, é o nirvana para o público, só falta combinar com os músicos como sobreviver com as ridículas remunerações. 

Diversificados, os ensaios exploram vários gêneros, incluindo a música sinfônica, o jazz, a vanguarda do pós-guerra, as performances online e as músicas populares contemporâneas.

Ampliando o escopo de modo certeiro, seu maior mérito não é apenas oferecer uma ampla investigação sobre as maneiras pelas quais a democracia pode ser encontrada na música. Além da aplicação do conceito de democracia ao fazer musical, há uma questão mais fundamental, que é a da ideia mesmo de democracia, um debate atualíssimo. De qual democracia cada um de nós fala? 

“Cada um pode ter sua visão de democracia”, esclarece Buch, “mas a democracia como sistema político e princípio moral supõe um consenso mínimo em torno da legitimidade da própria existência das diferenças e de como tratá-las coletivamente: a renúncia à violência, o reconhecimento da igualdade de pessoas, a deliberação racional”. 

A cena política internacional mudou radicalmente nos últimos sete anos, período que nos separa da gestação do livro em dois encontros internacionais, um em Paris em 2015, outro em 2017 em Huddersfield, na Inglaterra. Para usar um grotesco verbo na moda, precarizaram-se cada vez mais os valores democráticos, principalmente nos últimos três anos, metade deles com o planeta convivendo com o flagelo da pandemia. A democracia transformou-se como nunca antes em tema de debates públicos. “Especialistas em teoria política começaram a lamentar o declínio na participação política”, escrevem Buch e Adlington. “Ao menos do ponto de vista de uma cidade europeia cosmopolita, pode-se refletir com segurança sobre autoritarismo e ditadura como fenômenos aberrantes, exóticos e anacrônicos – percepção bastante reforçada pelos promissores (ainda que breves) sinais emitidos pela Primavera Árabe, poucos anos antes”.

Eles são incisivos e claros ao apontarem a eleição de Trump e o Brexit britânico como sintomas da aceleração das forças antidemocráticas nos anos recentes, afetando Europa, Estados Unidos, América Latina e outras regiões do planeta. “Putin, Salvini, Orban, Erdogan, Maduro e Bolsonaro , entre outros, contribuíram para a sensação de assistirmos ao renascimento de políticas de homens-fortes nas quais o voto é encarado como delegação para colocar em prática políticas que ameaçam os valores-chaves de igualdade e liberdade”. E arrematam focando no Brasil: “O caso de Bolsonaro é o mais preocupante, devido ao risco físico direto que seu governo representa para vários grupos, como LGBTQI e as minorias indígenas, assim como para regiões ecologicamente cruciais como a Amazônia”.

De modo salutar, os ensaios procuram fugir de utopias e detectar as lacunas que com frequência surgem entre a aspiração utópica – em si sempre louváveis e elogiáveis – e a realidade. Preferem interrogar as maneiras pelas quais a música pode ajudar a articular e moldar nossas vidas sociais e políticas. Utopias até podem – e devem – nos embalar, mas precisamos ter os pés bem fincados em terreno prático para ultrapassarmos o nível do sonho e começarmos a alterar a realidade que nos cerca. 

Não sei qual o próximo projeto editorial de Esteban Buch e Robert Adlington, mas seria razoável esperarmos um livro coletivo resultante de um encontro de pesquisadores dos cinco continentes examinando como músicos, compositores e instituições como as orquestras sinfônicas, por exemplo, se comportaram durante a pandemia. Como se legitimaram junto às populações dos países em que estão inseridas. 

Aí têm lugar certo iniciativas como a do maestro Gil Jardim, da Orquestra de Câmara da ECA-USP: em parceria com o poeta Bráulio Bessa e Chico César, eles produziram o audiovisual Inumeráveis, de 2020, chamando a atenção para o fato de que, àquela altura, setembro, os cerca de 140 mil mortos – hoje são quase 600 mil -- pelo coronavírus não são números, são pessoas, gente de carne e osso, com família, amigos, nossos semelhantes. Um documento impactante que pratica princípios democráticos por excelência, como a solidariedade, a denúncia, ouvir o outro (comportamento praticamente inexistente hoje em dia não só no Brasil, mas no mundo). Outras iniciativas-chaves aqui concebidas e concretizadas no último ano e meio merecem ser lembradas. 

Neste quesito, a Orquestra de Santo André, dirigida pelo maestro Abel Rocha, foi tão certeira quanto o trio Bráulio Bessa-Chico César-Gil Jardim. Em maio de 2020, quando a pandemia parecia uma dor sem fim, estreou Microestreias da Quarentena: oito obras foram encomendadas a jovens compositores brasileiros, pensadas para as redes sociais. Três meses depois, lançou Trilogia Trancafiada: três curta-metragens pensados para as redes sociais, entre 6 e 8 minutos cada, assinados por Luísa Almeida e realizados com a participação dos músicos da orquestra de Santo André: Ansiedade, Adaptação e Acolhimento. Conceito: expressar os sentimentos vividos pelos músicos, iguais aos que vivia naquele momento a população brasileira inteira desde março, provocados pelo súbito isolamento social.

“Não acredito que a música tenha em si uma afinidade particular com a democracia, nem com seu oposto”, diz Buch ao Aliás. “Mas em nosso livro tentamos explorar como a música como meio de expressão e prática coletiva permite, sim, em alguns contextos, inventar formas específicas de representar e viver a democracia.” 

CRÍTICO MUSICAL E AUTOR DE ‘PENSANDO AS MÚSICAS NO SÉCULO XXI’ (EDITORA PERSPECTIVA)

Fonte: https://alias.estadao.com.br/noticias/geral,livro-investiga-qual-e-o-papel-da-musica-na-democracia,70003861962

¿Qué ocurre con la serie «El juego del calamar» (Squid Game)?

squid game

DANIEL CONSTANTE - Shutterstock

Dolors Massot - publicado el 14/10/21

Docentes y padres alertan sobre el contenido violento de la serie que triunfa entre los niños en Netflix

«El juego del calamar» (Squid Game) es una serie coreana que llegó hace muy pocos días a la pantalla en la plataforma Netflix y está arrasando. La ven millones de personas pero, a pesar de que está recomendada solo para mayores de 16 años, se ha detectado que los niños y adolescentes son un público que la sigue y la adora.

Sin embargo, ya han saltado las alertas. El planteamiento es muy sencillo: se trata de un concurso en el que 456 personas que se han quedado sin dinero son convocadas a competir a través de juegos populares y sencillos para hacerse con un jugoso premio. Pero en la trama se esconde una serie violenta y de contenido peligroso para los menores.

En «El juego del calamar» hay disparos en la cara y hay muertes, porque lo que los concursantes no saben es que si pierden, se les matará. Por cada concursante «eliminado», hay una cantidad de dinero que va al premio final.

¿Cada persona tiene un precio?

Cada persona «vale» 100 millones de wones surcoreanos, es decir; en traducción a otras monedas:

son 38.480.586 dólares estadounidenses

33.120.452 euros.

Y traducido al lenguaje universal: cada persona tiene un precio. El concurso empuja a querer eliminar al resto de los competidores si uno quiere alzarse con el premio.

Tráiler promocional de «El juego del calamar».

¿Por qué han saltado las alarmas? En Reino Unido ocurrió cuando desde las redes sociales varias cuentas proponían juegos en los que si fallas, te disparan con una escopeta de aire comprimido en la cara.

SQUID GAME
Imagen de una de las primeras escenas.

En España, varios colegios han detectado que los niños de Primaria juegan en el recreo imitando acciones y escenas de «El juego del calamar». Televisión Española se hizo eco de esta problemática en su informativo. En Bélgica ha ocurrido lo mismo y los padres ya se han movilizado. A través de un mensaje viral en Facebook, el pasado 5 de octubre, las familias hicieron saltar las alarmas al ver que sus hijos juegan al popular «1,2,3… Soleil», pero con actitudes violentas imitando lo que han visto en la serie.

Volviendo a España, en San Sebastián de los Reyes (Madrid), un colegio comunicó a los padres que se había detectado esta conducta peligrosa en el patio. Varios padres agradecieron que se les informara para que se puedan tomar medidas al respecto, comenzando por casa.

SQUID GAME
En «El juego del calamar» aparecen juegos infantiles conocidos, que atraen a los niños.

Consejos de los expertos

Los psicólogos alertan de que el peligro de que los niños vean la serie «El juego del calamar» reside en que a temprana edad, el menor está todavía formándose la idea de bien y de mal, y no distingue con claridad entre ficción y realidad. Asumir que lo que ocurre en «El juego del calamar» puede trasladarse sin más problemas a su vida real, puede ocasionar graves daños.

Para los padres que quieran saber qué hacer, pueden ver la orientación que da el experto en educación infantil y juvenil José Martín Aguado sobre la serie «El juego del calamar» : 

1) https://twitter.com/i/status/1448154646372143106 

2) https://twitter.com/i/status/1448154950933024769 

3) https://twitter.com/i/status/1448155173134774273

Fonte: https://es.aleteia.org/2021/10/14/que-ocurre-con-la-serie-el-juego-del-calamar-squid-game/?utm_campaign=NL_es&utm_content=NL_es&utm_medium=mail&utm_source=daily_newsletter

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Evanildo Bechara, da ABL: "A língua portuguesa não mudou, quem mudou foi a roupa

Evanildo Bechara — Foto: Fernando Lemos/Agência O Globo  

Evanildo Bechara — Foto: Fernando Lemos/Agência O Globo

Para o gramático e acadêmico, as mudanças no português são superficiais e não modificam sua estrutura

Por Rubem Barros, para o Valor — São Paulo

12/10/2021

Aos 93 anos, o professor, gramático e escritor Evanildo Bechara, ocupante da cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras (ABL), está sempre disponível quando o assunto é língua portuguesa. Questionado pelo Valor sobre mudanças observadas no português nos últimos anos, foi enfático ao considerá-las apenas alterações superficiais que não atingem a essência da língua, que é a gramática. E recorre a uma analogia para dizer: a língua é o corpo, que continua o mesmo — a mudança está na roupa que veste o corpo.

Autor de diversos livros, entre os quais o mais recente é “Fatos e dúvidas de linguagem” (Nova Fronteira, 2021), primeiro de uma série de três intitulada “Uma vida entre palavras”, Bechara credita à pouca leitura e ao mau ensino da língua portuguesa, o domínio precário que a maioria da população tem da norma culta. “A escola, infelizmente, não está preocupada em produzir a língua.”

Valor: Do ponto de vista do sr., a língua portuguesa está sendo muito modificada em razão de fenômenos contemporâneos?

Evanildo Bechara: A língua não muda, nós é que mudamos a língua. A falta de cultura, o desinteresse pela maneira de falar e quase sempre o excesso de popularismos em seu uso, tudo isso faz com que a língua vá perdendo uma série de características. E acaba se transformando naquilo que os franceses chamam de “patois” (patoá), que é pior do que dialeto [Segundo o Houaiss, em sua origem, “patois”, do francês, queria dizer “língua grosseira, incompreensível”. Mais tarde, adquiriu o sentido de “falar local”, ou “dialeto ou jargão oral”]. É um patoá, uma linguagem a serviço de uma comunidade pouco culta e pouco interessada em falar bem. E não há o exercício da leitura, pois a língua entra não só pelo ouvido, mas também pelos olhos, na língua escrita. Você vê a palavra escrita e se corrige. Na língua falada, nem sempre se tem a capacidade de perceber como a pessoa pronunciou, e o resultado é que a língua escrita é mais fiel à tradição. E como hoje pouca gente utiliza a língua escrita, e a maioria se contenta quase que exclusivamente com a língua oral, ela vai se fragmentando. E até mesmo pessoas que têm uma educação razoável, como, por exemplo, os locutores de televisão e de rádio, cometem enganos muito facilmente.

Hoje, infelizmente, na escola, em vez de estudar a língua, a pessoa estuda a ciência que estuda a língua. Em vez de saber empregar bem os substantivos, os adjetivos, os verbos, a preocupação da escola é ensinar ao aluno o que é verbo, o que é adjetivo, quer dizer, a teoria da língua. A língua espontânea, então, vai perdendo o cuidado que merecia e que deve merecer — e o resultado é esse patoá que corre até entre pessoas de certa cultura, que fizeram o curso colegial, quer na vertente literária, quer na vertente científica [correspondente ao atual ensino médio, antes dividido entre clássico e científico]. A pessoa vai perdendo não somente o interesse, mas a preocupação de falar corretamente.

Valor: O sr. acha então que a forma como é proposto o ensino da língua portuguesa afasta o interesse dos estudantes pela língua?

Bechara: A escola, infelizmente, não está preocupada em produzir a língua. Por exemplo, faça uma redação sobre isso, escreva o que você sabe sobre aquilo, fale o que você sabe sobre determinado fato. Em vez de você estudar o uso da língua, a escola se preocupa em ensinar a linguística, ou a teoria linguística, e isso não interessa ao falante. A não ser que o falante se destine, na faculdade, a um curso de língua portuguesa. Mas, quando ele chega à sala de aula, em vez de ensinar o aluno a falar e escrever corretamente, ele se preocupa em exigir do aluno a teoria gramatical — o que é um verbo, o que é um adjetivo, um substantivo etc. —, isso só interessa a quem estuda a língua de maneira científica.

Valor: Hoje temos três vertentes mais fortes que agem sobre a língua: a influência das redes sociais e suas formas próprias de escrita, a incorporação de estrangeirismos diversos e as lutas identitárias, com a briga principalmente pelo uso do gênero neutro. Como o senhor vê isso?

Bechara: Veja, na história da língua, o gênero neutro que havia em latim e no grego praticamente ficou reduzido em língua portuguesa. Mas acontece que o pessoal dá uma importância capital a isso, e o resultado é que em vez de falar e escrever corretamente, a preocupação da escola é ensinar ao aluno a definir corretamente.

Valor: Mas, na questão identitária, essa parece ser uma questão social que transcende a língua, que se quer ver observada também por meio da língua...

Bechara: Pois é, exatamente, quando a língua não está preocupada com essa diferenciação, não é?

Valor: Isso pode prosperar e ser incorporado pela língua escrita?

Bechara: É difícil prever o futuro. No futuro, isso pode ser substituído por uma necessidade maior de a pessoa se expressar corretamente, e isso leva a pessoa a se preocupar com a realidade falada e escrita das pessoas de cultura, que hoje está representada numa pequena porção da sociedade. Então é difícil a pessoa entrar no conhecimento da língua culta, a língua padrão, das pessoas escolarizadas. Hoje em dia é mais comum que as pessoas escolarizadas se dobrem à língua popular, do que a língua popular ascenda a uma gradação da língua das pessoas cultas.

Valor: Até porque essa porção popular está em maior número e agora tem acesso a tudo (escolas, meios de comunicação e consumo etc.)

Bechara: Exatamente. E os órgãos condutores de língua culta vão se dobrando às realidades da língua falada popular.

Valor: No caso dos estrangeirismos, o senhor acha que eles têm sido mais presentes, ou apenas trocamos de influência do francês, que vigorou até meados do século passado, para o inglês atualmente?

Bechara: O estrangeirismo pertence a uma realidade da língua falada. O estrangeirismo pode mudar a norma da língua, mas não muda a gramática da língua. Essas preocupações com gênero neutro, traduzir o neutro etc., essas coisas não se refletem na língua. Então se criam regras que parecem atender à realidade, mas regras que não têm um fundamento científico. Acontece o seguinte: o vocabulário não define uma língua. Se o vocabulário definisse uma língua, o inglês não seria uma língua do ramo germânico, seria uma língua do ramo neolatino. O vocabulário não faz a gramática, o vocabulário é um problema de cultura, e não um problema linguístico. Você pode ter um vocabulário muito rico de estrangeirismos, mas isso não muda a língua. O vocabulário está para a língua assim como a roupa está para o indivíduo. Você muda de roupa quando vai à praia, quando vai a um casamento ou vai trabalhar, mas você continua sendo você mesmo. A gramática é a pessoa; o vocabulário é a vestimenta da pessoa. O fato de usarmos muitos estrangeirismos não modifica a língua, modifica a expressão do vocabulário. É como a pessoa que só tem um terno para as situações sociais; já outra pessoa tem diversos ternos para as variadas situações sociais. Mas tanto num caso como no outro, só existe uma pessoa.

Valor: Mas, nos casos em que a estrutura das frases começa a mudar, como, por exemplo, ao perguntarmos se tal horário “funciona para você” (do inglês “does it work for you”), no lugar de “está bom para você”, não estamos decalcando uma tatuagem nesse corpo?

Bechara: Não, o que há é o seguinte: de acordo com a cultura, o vocabulário ou se estende ou se reduz. Na linguagem de hoje, uma frase como essa, esse verbo, funcionar, não interfere em outras situações linguísticas. A língua é traduzida pela sua gramática, o vocabulário é uma parte externa, cultural, que depende da cultura do falante. Como há pessoas que às vezes usam mais a língua estrangeira que a língua materna, esses estrangeirismos vão sendo introduzidos nesta última.

Valor: Como o sr. vê, mais de uma década depois de sua implementação, os níveis de incorporação do acordo ortográfico no Brasil e em Portugal, onde eles têm se mostrados mais resistentes às novas regras?

Bechara: Portugal, como é o “dono da língua”, está menos afeito às novidades. E no Brasil, como é uma língua nova, uma modalidade nova daquela língua tradicional que é a língua padrão portuguesa, o brasileiro fica mais liberado. E essas liberações dão a impressão a quem não conhece a língua cientificamente que a língua mudou. A língua não mudou, quem mudou foi a roupa. O indivíduo continua sendo o mesmo.

Fonte: https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2021/10/12/evanildo-bechara-da-abl-a-lingua-portuguesa-nao-mudou-quem-mudou-foi-a-roupa.ghtml

Byung-Chul Han: “O celular é um instrumento de dominação. Age como um rosário”

O pensador sul-coreano Byung-Chul Han, fotografado em Barcelona em fevereiro de 2018.

O pensador sul-coreano Byung-Chul Han, fotografado em Barcelona em fevereiro de 2018.Massimiliano Minocri (EL PAÍS)

Filósofo sul-coreano, uma das estrelas do pensamento atual, se aprofunda em sua cruzada contra os ‘smartphones’. Acredita que se transformaram em uma ferramenta de subjugação digital que cria viciados. Em uma entrevista exclusiva ao EL PAÍS, Han afirma que é preciso domar o capitalismo, humanizá-lo

om certa vertigem, o mundo material, feito de átomos e moléculas, de coisas que podemos tocar e cheirar, está se dissolvendo em um mundo de informação, de não-coisas, como observa o filósofo alemão de origem coreana Byung-Chul Han. Não-coisas que, ainda assim, continuamos desejando, comprando e vendendo, que continuam nos influenciando. O mundo digital cada vez se hibridiza de modo mais notório com o que ainda consideramos mundo real, ao ponto de confundirem-se entre si, fazendo a existência cada vez mais intangível e fugaz. O último livro do pensador, Não-coisas. Quebras no mundo de hoje, se une a uma série de pequenos ensaios em que o pensador sucesso de vendas (o chamaram de rockstar da filosofia) disseca minuciosamente as ansiedades que o capitalismo neoliberal nos produz.

Unindo citações frequentes aos grandes filósofos e elementos da cultura popular, os textos de Han transitam do que chamou de “a sociedade do cansaço”, em que vivemos esgotados e deprimidos pelas inapeláveis exigências da existência, à análise das novas formas de entretenimento que nos oferecem. Da psicopolítica, que faz com que as pessoas aceitem se render mansamente à sedução do sistema, ao desaparecimento do erotismo que Han credita ao narcisismo e exibicionismo atual, que proliferam, por exemplo, nas redes sociais: a obsessão por si mesmo faz com que os outros desapareçam e o mundo seja um reflexo de nossa pessoa. O pensador reivindica a recuperação do contato íntimo com a cotidianidade – de fato, é sabido que ele gosta de cultivar lentamente um jardim, trabalhos manuais, o silêncio. E se rebela contra “o desaparecimento dos rituais” que faz com que a comunidade desapareça e que nos transformemos em indivíduos perdidos em sociedades doentes e cruéis. 

Byung-Chul Han em imagem do documentário de Isabella Gresser ‘A sociedade do cansaço: Byung-Chul Han em Seul e Berlim’, de 2015.

Byung-Chul Han em imagem do documentário de Isabella Gresser ‘A sociedade do cansaço: Byung-Chul Han em Seul e Berlim’, de 2015.

Byung-Chul Han aceitou esta entrevista como EL PAÍS, mas somente mediante um questionário por e-mail que foi respondido em alemão pelo filósofo e posteriormente traduzido e editado.

PERGUNTA. Como é possível que em um mundo obcecado pela hiperprodução eo hiperconsumo, ao mesmo tempo os objetos vão se dissolvendo e vamos rumo a um mundo de não-coisas?

RESPOSTA. Há, sem dúvida, uma hiperinflação de objetos que conduz a sua proliferação explosiva. Mas se trata de objetos descartáveis com os quais não estabelecemos laços afetivos. Hoje estamos obcecados não com as coisas, e sim com informações e dados, ou seja, não-coisas. Hoje somos todos infômanos. Chegou a se falar de datasexuais [pessoas que compilam e compartilham obsessivamente informação sobre sua vida pessoal].

P. Nesse mundo que o senhor descreve, de hiperconsumo e perda de laços, por que é importante ter “coisas queridas” e estabelecer rituais?

R. As coisas são os apoios que dão tranquilidade na vida. Hoje em dia estão em conjunto obscurecidas pelas informações. O smartphone não é uma coisa. Eu o caracterizo como o infômata que produz e processa informações. As informações são todo o contrário aos apoios que dão tranquilidade à vida. Vivem do estímulo da surpresa. Elas nos submergem em um turbilhão de atualidade. Também os rituais, como arquiteturas temporais, dão estabilidade à vida. A pandemia destruiu essas estruturas temporais. Pense no teletrabalho. Quando o tempo perde sua estrutura, a depressão começa a nos afetar.

P. Em seu livro se estabelece que, pela digitalização, nos transformaremos em homo ludens, focados mais no lazer do que no trabalho. Mas, com a precarização e a destruição do emprego, todos poderemos ter acesso a essa condição?

R. Falei de um desemprego digital que não é determinado pela conjuntura. A digitalização levará a um desemprego maciço. Esse desemprego representará um problema muito sério no futuro. O futuro humano consistirá na renda básica e nos jogos de computador? Um panorama desalentador. Com panem et circenses (pão e circo) Juvenal se refere à sociedade romana em que a ação política não é possível. As pessoas se mantêm contentes com alimentos gratuitos e jogos espetaculares. A dominação total é aquela em que as pessoas só se dedicam a jogar. A recente e hiperbólica série coreana da Netflix, Round 6, em que todo mundo só se dedica ao jogo, aponta nessa direção.

P. Em que sentido?

R. Essas pessoas estão totalmente endividadas e se entregam a esse jogo mortal que promete ganhos enormes. Round 6 representa um aspecto central do capitalismo em um formato extremo. Walter Benjamin já disse que o capitalismo representa o primeiro caso de um culto que não é expiatório, e sim nos endivida. No começo da digitalização se sonhava que ela substituiria o trabalho pelo jogo. Na verdade, o capitalismo digital explora impiedosamente a pulsão humana pelo jogo. Pense nas redes sociais, que incorporam elementos lúdicos para provocar o vício nos usuários.

P. De fato, o smatphone nos prometia certa liberdade... Não se transformou em uma longa corrente que nos aprisiona onde quer que estejamos?

R. O smartphone é hoje um lugar de trabalho digital e um confessionário digital. Todo dispositivo, toda técnica de dominação gera artigos cultuados que são utilizados à subjugação. É assim que a dominação se consolida. O smartphone é o artigo de culto da dominação digital. Como aparelho de subjugação age como um rosário e suas contas; é assim que mantemos o celular constantemente nas mãos. O like é o amém digital. Continuamos nos confessando. Por decisão própria, nos desnudamos. Mas não pedimos perdão, e sim que prestem atenção em nós.

P. Há quem tema que a internet das coisas possa significar algo assim como a rebelião dos objetos contra o ser humano.

R. Não exatamente. A smarthome [casa inteligente] com coisas interconectadas representa uma prisão digital. A smartbed [cama inteligente] com sensores prolonga a vigilância também durante as horas de sono. A vigilância vai se impondo de maneira crescente e sub-reptícia na vida cotidiana como se fosse o conveniente. As coisas informatizadas, ou seja, os infômatas, se revelam como informadores eficientes que nos controlam e dirigem constantemente.

P. O senhor descreveu como o trabalho vai ganhando caráter de jogo, as redes sociais, paradoxalmente, nos fazem sentir mais livres, o capitalismo nos seduz. O sistema conseguiu se meter dentro de nós para nos dominar de uma maneira até prazerosa para nós mesmos?

R. Somente um regime repressivo provoca a resistência. Pelo contrário, o regime neoliberal, que não oprime a liberdade, e sim a explora, não enfrenta nenhuma resistência. Não é repressor, e sim sedutor. A dominação se torna completa no momento em que se apresenta como a liberdade.

P. Por que, apesar da precariedade e da desigualdade crescentes, dos riscos existenciais etc., o mundo cotidiano nos países ocidentais parece tão bonito, hiperplanejado, e otimista? Por que não parece um filme distópico e cyberpunk?

R. O romance 1984 de George Orwell se transformou há pouco tempo em um sucesso de vendas mundial. As pessoas têm a sensação de que algo não anda bem com nossa zona de conforto digital. Mas nossa sociedade se parece mais a Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. Em 1984 as pessoas são controladas pela ameaça de machucá-las. Em Admirável Mundo Novo são controladas pela administração de prazer. O Estado distribui uma droga chamada “soma” para que todo mundo se sinta feliz. Esse é nosso futuro.

P. O senhor sugere que a Inteligência Artificial e o big data não são formas de conhecimento tão espantosas como nos fazem crer, e sim mais “rudimentares”. Por que?

R. O big data dispõe somente de uma forma muito primitiva de conhecimento, a saber, a correlação: acontece A, então ocorre B. Não há nenhuma compreensão. A Inteligência Artificial não pensa. A Inteligência Artificial não sente medo.

P. Blaise Pascal disse que a grande tragédia do ser humano é que não pode ficar quieto sem fazer nada. Vivemos em um culto à produtividade, até mesmo nesse tempo que chamamos “livre”. O senhor o chamou, com grande sucesso, de a sociedade do cansaço. Nós deveríamos nos fixar na recuperação do próprio tempo como um objetivo político?

R. A existência humana hoje está totalmente absorvida pela atividade. Com isso se faz completamente explorável. A inatividade volta a aparecer no sistema capitalista de dominação com incorporação de algo externo. É chamado tempo de ócio. Como serve para se recuperar do trabalho, permanece vinculado ao mesmo. Como derivada do trabalho constitui um elemento funcional dentro da produção. Precisamos de uma política da inatividade. Isso poderia servir para liberar o tempo das obrigações da produção e tornar possível um tempo de ócio verdadeiro.

P. Como se combina uma sociedade que tenta nos homogeneizar e eliminar as diferenças, com a crescente vontade das pessoas em ser diferentes dos outros, de certo modo, únicas?

R. Todo mundo hoje quer ser autêntico, ou seja, diferente dos outros. Dessa forma, estamos nos comparando o tempo todo com os outros. É justamente essa comparação que nos faz todos iguais. Ou seja: a obrigação de ser autênticos leva ao inferno dos iguais.

P. Precisamos de mais silêncio? Ficar mais dispostos a escutar o outro?

R. Precisamos que a informação se cale. Caso contrário, explorará nosso cérebro. Hoje entendemos o mundo através das informações. Assim a vivência presencial se perde. Nós nos desconectamos do mundo de modo crescente. Vamos perdendo o mundo. O mundo é mais do que a informação. A tela é uma representação pobre do mundo. Giramos em círculo ao redor de nós mesmos. O smartphone contribui decisivamente a essa percepção pobre de mundo. Um sintoma fundamental da depressão é a ausência de mundo.

P. A depressão é um dos mais alarmantes problemas de saúde contemporâneos. Como essa ausência do mundo opera?

R. Na depressão perdemos a relação com o mundo, com o outro. E nos afundamos em um ego difuso. Penso que a digitalização, e com ela o smartphone, nos transformam em depressivos. Há histórias de dentistas que contam que seus pacientes se aferram aos seus telefones quando o tratamento é doloroso. Por que o fazem? Graças ao celular sou consciente de mim mesmo. O celular me ajuda a ter a certeza de que vivo, de que existo. Dessa forma nos aferramos ao celular em situações críticas, como o tratamento dental. Eu lembro que quando era criança apertava a mão de minha mãe no dentista. Hoje a mãe não dá a mão à criança, e sim o celular para que se agarre a ele. A sustentação não vem dos outros, e sim de si mesmo. Isso nos adoece. Temos que recuperar o outro.

P. Segundo o filósofo Fredric Jameson é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. O senhor imaginou algum modo de pós-capitalismo agora que o sistema parece em decadência?

R. O capitalismo corresponde realmente às estruturas instintivas do homem. Mas o homem não é só um ser instintivo. Temos que domar, civilizar e humanizar o capitalismo. Isso também é possível. A economia social de mercado é uma demonstração. Mas nossa economia está entrando em uma nova época, a época da sustentabilidade.

P. O senhor se doutorou com uma tese sobre Heidegger, que explorou as formas mais abstratas de pensamento e cujos textos são muito obscuros até o profano. O senhor, entretanto, consegue aplicar esse pensamento abstrato a assuntos que qualquer um pode experimentar. A filosofia deve se ocupar mais do mundo em que a maior parte da população vive?

R. Michel Foucault define a filosofia como uma espécie de jornalismo radical, e se considera a si mesmo jornalista. Os filósofos deveriam se ocupar sem rodeios do hoje, da atualidade. Nisso sigo Foucault. Eu tento interpretar o hoje em pensamentos. Esses pensamentos são justamente o que nos fazem livres.

Fonte:  https://brasil.elpais.com/cultura/2021-10-09/byung-chul-han-o-celular-e-um-instrumento-de-dominacao-age-como-um-rosario.html?sma=newsletter_brasil_diaria20211013&mid=DM84673&bid=761934369

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Boaventura: A urgência e a poética do abraço

por *

Ao retomar, após 525 dias isolado, o gesto de abraçar, sociólogo reflete sobre seu significado, em diferentes culturas e épocas. Também tenta (em vão) descrever a emoção que o tomou. E indaga: “deixar de abraçar será viver como se morre”?

No passado dia 28 de Agosto de 2021 às 16h30 dei o primeiro abraço a alguém fora do círculo das poucas pessoas íntimas que convivem comigo diariamente, quinhentos e vinte cinco dias depois de me ter isolado na minha aldeia a 30km de Coimbra devido à pandemia. O que senti não tem descrição possível. Foi um ato incondicional, uma presença demasiado forte para poder ser objeto de planejamento ou representação. Sentir as minhas mãos deslizar e apertar outro corpo contra o meu, era algo tão familiar quanto estranho. O prazer de outro corpo contra o meu era mais que erótico. Era a verdade carnal da existência, uma prova de ser. Depois veio medo, mas seria medo ou punição pelo prazer? Terá sido um ato impensado e desnecessariamente arriscado? Seria preciso retreinar os sentidos e reaprender a lidar com as emoções do contato físico e com o conforto desafiador que delas deriva? Teria eu estado sujeito a uma prolongada privação do toque e do tato de outros seres vivos que não os estritamente familiares, entre humanos, gatos e cães? Porque não me ocorrera durante a longa privação pandêmica abraçar árvores, como fazem muitos ecologistas para sentirem a energia desses maravilhosos seres vivos que ligam de modo tão natural a profundeza da terra e a altura do céu, algo que é tão difícil para os humanos treinados na cultura ocidental? Por que é que abraçar as árvores (e tantas tenho no meu quintal), que eu poderia abraçar sem ter medo de ser por elas contaminado pelo coronavírus, não me daria a mesma indescritível emoção que me invadiu ao abraçar e sentir o corpo quente de um ser humano amigo? Por que é que esta verdade carnal da vibração incontida de um abraço escapa à reflexão e só como surpresa invade a consciência como uma avalanche solta e “irracional”, de modo menos previsível que um tsunami ou um terremoto? Sendo certo que em certas culturas há quem não possa ser tocado, quer por ser demasiado superior quer por ser demasiado inferior, como funcionará a vibração dos corpos sem toque?

Esta verdade carnal dos corpos e das relações humanas é o dia-a-dia de todos os seres humanos que não fazem do corpo (próprio ou alheio) e das relações humanas um instrumento de diagnóstico científico, um objeto de lucro ou um motivo de especulação filosófica, mas raramente ocorre ou se impõe a intelectuais e filósofos. Quando isso ocorre, o que é muito raro, faz deles seres muito especiais. Lembro-me de Michel de Montaigne que, nos seus Essais, escritos por volta de 1570, escreve sobre o que verdadeiramente conhece, o seu corpo e as surpresas e contradições das relações humanas. Por isso, dedica um ensaio à arte de conversar e da confrontação orale discorre sobre o prazer de comer ostras, mesmo tendo de sofrer as cólicas que elas podem vir a causar. Mas o caso mais notável é o de Albert Camus e a sua incessante luta contra as ideias abstratas, a que contrapõe a verdade carnal da morte e do sofrimento concretos. Numa sessão na Universidade de Estocolmo, por ocasião da entrega do Prêmio Nobel da Literatura em 1957, quando interpelado agressivamente por um ativista islâmico sobre a independência de Argélia e a questão da violência, Camus respondeu: “terrorismo nas ruas de Argel… poderia matar a minha mãe ou a minha família. Eu creio na justiça, mas defenderei a minha mãe acima da justiça”. A sua mãe valia mais para ele do que qualquer ideia abstrata.

O abraço e a cultura

A verdade carnal do abraço depois de tanto desuso e a emoção com que me abalou fez-me refletir sobre o abraço. Os poetas desde sempre contemplaram as ambiguidades do abraço. Florbela Espanca canta, num dos sonetos, o “lânguido e doce” abraço de “Dona Morte”. Pablo Neruda dedica-lhe um poema de amor: “Em teu abraço eu abraço o que existe / a areia, o tempo, a árvore da chuva / E tudo vive para que eu viva: / sem ir tão longe posso vê-lo todo: / veio em tua vida todo o vivente.” António Ramos Rosa recusa-se a adiá-lo, e ao amor: “Não posso adiar este abraço / que é uma arma de dois gumes / amor e ódio”. E Ana Luísa Amaral canta rupestres saudades de “fresco e doloroso abraço”. Já Shakespeare tinha mostrado um derrotado Henrique VI a não ter escolha senão “abraçar o amargo infortúnio”. Por sua vez, o grande poeta, matemático, astrônomo e filósofo persa do século XI, Omar Khayyam, ousou perguntar-se pelo maternal, derradeiro abraço que tudo apazigua. Muitos séculos mais tarde, o grande poeta turco, Nâzim Hakmet, haveria de cantar o desejo do seu povo – “honesto, trabalhador, valente, meio saciado, meio faminto, meio escravo…” – de abraçar tudo o que fosse “moderno, belo e bom”.

Entretanto, descobri que psicólogos, etólogos, antropólogos e estudiosos da cultura têm dedicado longas páginas ao estudo de tão simples fenómeno, tão comum entre humanos como entre animais, mas com tantas variações e tão diferentes significados. O termo vem do latim, “bracchia collo circundare”, pôr os braços à volta do pescoço. É um ato que transmite afabilidade, simpatia, ausência de hostilidade, um gesto que entre humanos tanto ocorre no início de um encontro como na despedida. Os animais também se abraçam mas, ao contrário dos humanos, abraçam-se de frente e de costas, e, pelo menos os animais domésticos, não parecem abraçar-se nunca à despedida. A fenomenologia do abraço é muito complexa e tem sido objeto de minucioso estudo: os movimentos de aproximação, as expressões corporais, a fixação do olhar, a duração, a maior ou menor pressão dos corpos apertados no abraço, o contato ou não de zonas tabu no encontro de corpos de sexo diferente, o toque na cabeça ou na cara, o âmbito do deslizar das mãos nas costas ou nos ombros do parceiro sem causar desconforto. O contacto corporal é fundamental para os recém-nascidos e o abraço da mãe é rapidamente identificado com sentimentos de alegria, conforto e confiança, que são depois reproduzidos quando abraçam bonecos ou brinquedos. Por outro lado, há um ramo do conhecimento, a proxêmica, dedicado a estudar a relativa distância que as pessoas em diferentes culturas ou com diferentes características psicológicas consideram ser necessário manter entre si e outra pessoa, numa interação normal, sem sentirem desconforto. Por exemplo, pessoas extrovertidas exigem menos distância que as introvertidas ou com distúrbios psicológicos. A zona de distância entre os corpos no abraço é considerada a zona íntima, entre 0 e 15 cm. Considera-se hoje que essa distância está relacionada com fatores genéticos, ambientais, práticas culturais, papéis sociais, infância, religião. No mundo ocidental (sobretudo anglo-saxônico), os homens tendem a preferir o aperto de mão ao abraço, enquanto as mulheres entre si preferem o abraço. Tudo isto me parece fascinante, embora nada me diga sobre o que senti quando abracei o visitante bem-vindo e de quem tinha tantas saudades. E também não me explica por que razão, nesse preciso momento, um simples aperto de mão (sobretudo se seguido de desinfecção), longe de ser um ato afetivo, significaria distância, desconforto e até hostilidade. A ciência do abraço não ensina a abraçar, nem é esse o seu propósito. Mas não deixa de ser interessante conhecer os diferentes significados culturais que esse ato tão vulgar pode ter. Afinal, o abraço só deixou de ser vulgar quando a pandemia o tornou problemático, e foi então que, perante a sua perda, passamos a apreciá-lo verdadeiramente.

O significado do abraço está inscrito em muitas culturas. Na Bíblia, é pelo abraço que se dá a reconciliação entre Esaú e Jacó: “Então Esaú correu-lhe ao encontro, e abraçou-o, e lançou-se sobre o seu pescoço e beijou-o; e choraram”. É sabido que os povos latinos e africanos têm uma maior necessidade ou uma maior disponibilidade para se abraçar e de o fazer mais efusivamente, ainda que nos países africanos de cultura islâmica, os abraços ocorram apenas entre humanos do mesmo sexo. A duração do abraço está sempre relacionada com a intensidade da emoção, que tanto pode estar relacionada com felicitações como com condolências. Enquanto na Rússia, na França e em certas regiões da Europa de Leste o abraço entre homens seguido de beijo na face é comum, tal não acontece noutros países. Mas enquanto na Europa do Sul o abraço é uma saudação comum, na Europa do Norte a saudação comum é o aperto de mão. Nas diferentes culturas islâmicas, o contacto corporal entre homens e mulheres no espaço público é mais raro, a distância na interação tende a ser maior, e o abraço pode mesmo ser proscrito.

A população branca dos EUA é tão pouco atreita a abraçar-se, pelo menos em público, que Kevin Zaborney propôs em 1989 que o dia 21 de Janeiro passasse a ser dia nacional do abraço para desenvolver sentimentos de confiança e de segurança entre familiares e entre amigos. Não surpreende que os sessenta milhões de latinos que vivem nos EUA, que tão gostosamente mostram a sua diferença em relação à população branca ao abraçar-se profusamente entre si, tenham sofrido tanta privação psicológica durante a pandemia. Segundo alguns relatos, a propagação da infecção entre latinos esteve relacionada, entre muitos outros fatores, com os abraços e a proximidade corporal, de tal modo entranhados na cultura, que não puderam ser dispensados, apesar dos riscos.

O abraço e a saúde

São hoje conhecidos os benefícios do abraço para a saúde. Já referi atrás que Kevin Zaborney propôs o dia nacional do abraço para melhorar a comunicação humana e diminuir os níveis de stress e de hostilidade. Curiosamente, o Brasil também celebra o dia anual do abraço, mas a 22 de Maio, e não é porque faltem abraços nas relações entre os brasileiros e as brasileiras. É apenas para celebrar a magia do contato corporal da amizade e da afetividade e do apoio mútuo, tão necessária nos momentos que correm. Os mais conhecidos efeitos físicos do abraço são a produção da ocitocina, considerada o hormônio do amor pelo seu papel na diminuição da ansiedade, na melhoria do humor e no aumento da afetividade. Também diminui a agressividade do humano masculino, tornando-o mais amável, generoso e social. O abraço baixa a tensão arterial e, segundo alguns especialistas, aumenta a imunidade do corpo, o que não deixa de ser irônico e mesmo cruel em tempos de pandemia: quanto mais necessidade teríamos de nos abraçar, mais perigoso isso se torna em razão da possibilidade de contágio. O ser humano em pleno labirinto da sua potência e limitação. A inconformidade prometeica com tal contradição levou à engenharia do abraço a nós próprios como se fôssemos outrem. Refiro-me à invenção do Sense Roid, o manequim coberto de sensores tácteis, vestuário táctil com motores de vibração e músculos artificiais que recriam a sensação do abraço. O Sense-Roid foi criado pela Universidade de Electrocomunicações do Japão e pode ser comprado na Amazon. À primeira vista, parece estarmos na fronteira da distopia pós-humana. Mas, afinal, a estranheza que nos causa será diferente da que causaram no início da sua comercialização os vibradores sexuais, considerados hoje um acessório comum? Contra este fix tecnológico, que torna o solitário em espelho perverso do solidário, parece crescer entre os jovens o hábito de se abraçarem para se sentirem mais apoiados, mais íntimos e mais afetuosos. Em tempos de pandemia, talvez corram riscos, mas o risco maior não será viver como se morre? Só.

* Doutorado em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale e Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa.

Fonte: https://outraspalavras.net/poeticas/urgencia-epoetica-do-abraco-segundo-boaventura/