segunda-feira, 16 de outubro de 2017

A epidemia da inovação

Luiz Felipe Pondé


Ricardo Camadura /Folhapress
"A epidemia da inovação no plano psicológico corrói a capacidade, principalmente dos mais jovens, de lidar com o tédio, o fracasso e a as frustrações "normais" da vida, impondo-nos o imperativo do sucesso crescente, que nos assola das nossas camas, a vida profissional, a lida com filhos até o esgotamento de nossas capacidades intelectuais e afetivas."

O mundo corporativo é a distopia perfeita. De um lado, um modo inequívoco de produção de riqueza que elevou a condição material de vida dos seres humanos a um nível jamais imaginável, do outro lado, um sistema que esmaga o sujeito obrigando-o a competir cotidianamente, sem descansar nunca. Se a perfeição da vida material é uma utopia contínua no mundo contemporâneo, essa mesma perfeição produz níveis elevadíssimos de mal estar, provavelmente garantindo um futuro de mais riqueza regada a desespero a cada dia. Ninguém aguenta mais, mas ninguém pode parar.

Dentro desse quadro, chama atenção a obsessão pela ideia de "inovação". Ela aparece em todos os níveis da vida, do corporativo as pressões psicológicas sobre os mais velhos e mais jovens, num nível epidêmico.

A ideia, profundamente inscrita no "DNA" (como gosta de dizer o mundo corporativo quando "reflete sobre identidades") da modernidade, tem raízes filosóficas claras em obras como a do inglês Francis Bacon (1561-1626), entre outros. Seu projeto de "atar a natureza" a fim de conseguir as respostas necessárias para a melhoria das condições materiais de vida "na natureza" numa futura "Nova Atlântida", associado aos avanços do saneamento básico de Londres ao longo do século 19, são fundamentos básicos dos ganhos técnicos e de gestão de problemas na modernidade. Da natureza ao esgoto, o projeto é o mesmo.

Na vida pessoal, essa epidemia da inovação aparece no modo nefasto como as pessoas buscam "se reinventar" a todo momento. Ela obriga as pessoas a se vem como start ups contínuas num mercado infinito de demandas que vão da saúde física permanente, a beleza sustentável as custas de obsessões, a espiritualidade a serviço da commoditização da alma, enfim, a uma insatisfação existencial contínua como "motivação" para o imperativo da inovação.

É evidente que a proposta é patológica no nível humano, inclusive porque, apesar dos reais avanços tecnológicos na engenharia médica, marchamos para o envelhecimento e a morte, e isso tem impactos definitivos, mesmo que a indústria da inovação, regada a moda da Singularity University, a bola da vez, venda a ideia de que seremos imortais.

A epidemia da inovação no plano psicológico corrói a capacidade, principalmente dos mais jovens, de lidar com o tédio, o fracasso e a as frustrações "normais" da vida, impondo-nos o imperativo do sucesso crescente, que nos assola das nossas camas, a vida profissional, a lida com filhos até o esgotamento de nossas capacidades intelectuais e afetivas.

Um fato evidente nesse processo é o que muitos chamariam de "pressão do capital". Essa pressão nos obriga a pensar em nós mesmos como uma commodity buscando "investimento" no mercado de um mundo em "movimento", em direção a multiplicação do próprio capital que se expande a medida em que habita a inovação como condição sine qua non de adaptação a ele.

No mundo corporativo, que gasta dinheiro com palestras circenses, a fim de fazer seus "colaboradores riem", assim como uma sessão de meditação em meio ao massacre cotidiano, a epidemia da inovação é um mercado em si mesma.

Neste mundo, o futuro é uma commodity em si mesmo, vendido pelas consultorias de futuro. Citando casos conhecidos como a implantação de fake memories (diante destas, fake news é conversa de crianças), esse mercado da inovação vende a ideia de que num mundo próximo, a indústria de implantação no cérebro de memórias falsas, mas "felizes", eliminará a depressão e toda uma série de quadros clínicos indesejáveis.

Para além do absurdo da ideia, de um ponto de vista meramente médico, a própria noção de uma humanidade vivendo continuamente num parque temático "cognitivo" assusta não pelo suposto avanço médico em si, mas pelo modo como as consultorias do futuro vendem a ideia como o máximo da felicidade e da saúde. É a condição definitiva de idiotas cognitivos, sonâmbulos que caminham pela vida como um pós-humano em processo de extinção. Os neandertais, do alto de sua sabedoria de espécie já extinta, chorariam de pena de nós.
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 * Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência.
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2017/10/1927325-a-epidemia-da-inovacao.shtml

sábado, 14 de outubro de 2017

Os iconoclastas e um vaga-lume

Lya Luft*

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Na última semana, escrevi, quinta-feira (como interina do Verissimo, que está de férias), que andamos demasiadamente parecidos com aquele burro falante que meu pai gostava de mencionar: fala alto, muitas palavras, grande convicção, feliz da vida..., sobre assuntos de que pouco ou nada sabe. Ou "para se fazer de interessante!", dizia minha mãe, já que hoje dei pra citar os pais. 

Mais se entusiasma ainda essa criatura quando, achando-se original, segue uma parte da manada derrubando conceitos sem analisar, dando pontapés em filosofias sem entender, fazendo suas necessidades 1 e 2 em cima de coisas que nem consegue avaliar. Algumas manifestações de leigos ou artistas nesses dias me impressionaram, como alguém comendo (espero que de mentirinha) um absorvente de onde escorria sangue (espero que falso). A que levaria isso? Por que estamos tão agressivos, dispostos a decepar cabeças e cuspir nos outros? Por que assumimos essas brigas e cruzadas hiperbólicas? Inquietação, medo, indignação, decepção - confusão mesmo? 

Falando com um filósofo (de verdade...) outro dia, ele me lembrou de que estamos mais para iconoclastas do que para criadores de boas coisas. Tanto se desfez o conceito de arte, tanto se destruiu, tanto bancamos os moderninhos e seguimos - sem informação e humildade, essenciais - o que nos pareciam novidades luminosas, que aos poucos tudo foi-se esboroando. Cada um fala o que quer, apresenta o que bem entende, e ai de quem não considerar arte panela de fezes ferventes, pingolim cortado e outras belezas. 

Se estranhamos, vêm os que vociferam: então vocês defendem a censura? Então vamos quebrar o David de Michelangelo, cobrir teto e paredes da Capela Sistina... e outros delírios mais. Um momento, gente! Um pouco de bom senso e humildade faz bem! Ninguém pensa em censurar arte. Por outro lado, nem todo mundo quereria suas criancinhas induzidas a manipular uma pessoa nua (que não é uma escultura...). Em muitas casas, nudez é natural. Não em todas. Então a primeira lei seria respeitar as diferenças de costumes, assunto do dia - o que acho muito bom! Mas não precisamos exagerar. Logo, quem não é gay nem trans nem bi ou poli será objeto de preconceito e terá de sair às ruas para se defender. Que cansaço. 

Melhor prestar atenção no que acontece aqui neste pobre país, onde até no Supremo reina confusão, onde está quase decretado que raposas serão julgadas por raposas, e as galinhas vão se ferrar de maneira fenomenal. Onde a miséria reina, gente morre de falta de higiene, mulheres dão à luz no chão, velhos morrem em macas, crianças estão sem escola, e corremos nas ruas como ratazanas caçadas. 

Mas fiquei feliz na última semana com a conversa, na Federasul, no Tá na Mesa: carinho, respeito, cumplicidade, ótimas perguntas, e a sensação de que, sem romantismo algum - como é meu caso em relação ao país -, sempre há uma luz logo ali. Pode ser só um vaga-lume... mas é luz.
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* Escritora.
Fonte: http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=58dcf38e3941ea8a0e4bd27dca3326a4 - 13/10/2017
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O QUE SE PASSA NA CABEÇA DESSES JOVENS

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"A minha geração se ferrou", diz Dado Schneider a uma plateia predominantemente jovem, em uma das tantas campus parties de que já participou. "Quando eu era criança, no século 20, o melhor bife na mesa ficava com os adultos. E agora que sou adulto, no século 21, e tenho filhos pequenos, o melhor bife fica com as crianças. Ou seja, eu nunca comi o melhor bife. O mundo mudou bem na minha vez. Quando eu era jovem, tive de me adaptar aos velhos. Agora, para ser um velho aceitável, eu tenho de me adaptar aos jovens."

Nesses jovens aos quais tenta se adaptar, Schneider, 56 anos, mestre e doutor em comunicação pela PUCRS, enxerga seres humanos de um novo tipo. Eles são a geração Z, a primeira a nascer em um mundo já dominado pela internet, na virada dos anos 2000, com todas as vantagens e desvantagens que isso acarreta.

Para adaptar-se a eles, é preciso entendê-los, e esse tem sido o foco das pesquisas do professor e palestrante nos últimos anos.

COMO DEFINIR OS JOVENS QUE NASCERAM NO ANO 2000?
Eles são da geração Z. O conceito é um pouco flexível, mas se diz que a Z começou com a chegada da internet para valer. Eles são diferentes. Por exemplo, nós lembramos de quando o computador entrou na nossa vida, da primeira compra que fizemos na internet, da primeira vez que acessamos o Google. Eles, não. São nativos digitais, e nós somos imigrantes digitais. Nós fazemos um distinção entre mundo online e mundo offline. Eles não fazem diferenciação alguma. Para eles, mundo é mundo. Realmente batem numa frequência diferente.

O QUE ISSO SIGNIFICA EM TERMOS COMPORTAMENTAIS?
Em vez do contato físico, eles preferem o contato digital. Inúmeras pesquisas comprovam. Inclusive com a pessoa que está na frente deles, eles falam pela interface digital. Obviamente, essa característica vai mudar a forma de trabalhar, de comprar, de se relacionar.

ESSA RELAÇÃO COM A TECNOLOGIA ACABA SENDO CENTRAL NA VIDA DELES?
Acho que sim. Quem não está entendendo nada somos nós. Eles estão vivendo o tempo deles, com os equipamentos que estão disponíveis a eles. Quem faz um esforço para se ajustar, uns mais, outros menos, somos nós. É por isso que digo que somos imigrantes digitais, porque vida de imigrante não é fácil. Eles estão vivendo a vida normal. Ali é a praça onde todo mundo se reunia para bater papo.

DE QUE FORMA ISSO REPERCUTIRÁ NO FUTURO?
Muita gente está fazendo previsões. Eu estou mais curioso do que fazendo previsão. Por exemplo, acho que isso efetivamente afeta a capacidade de focar em um assunto só. O grau de dispersão é muito maior. Eles vão ter maiores dificuldades de trabalhar, porque nosso trabalho está estruturado ainda do jeito do século 20. Abandonei o e-mail em 31 de dezembro de 2012, quando detectei que essa geração não usa e-mail, porque é uma conversação estanque, você envia e não sabe quando a outra pessoa vai abrir. Eles usam plataformas de conversação permanente, Messenger, grupos de WhatsApp, Snapchat, Twitter. É em tempo real. Vai ser difícil trabalhar com a gente. Já vi isso. O rapaz chegou numa empresa em que dei consultoria e ficou um turno no estágio, não ficou nem um dia. Foi embora na hora do almoço e não voltou mais, porque tudo que deram para ele fazer tinha de usar o e-mail. E ele disse: "Mas eu não uso e-mail". E foi embora.

O QUE ELES ESPERAM EXATAMENTE DO TRABALHO?
Querem trabalhos que sejam estimulantes, divertidos, em que o convívio não seja necessariamente físico. E que tenham uma causa. Essa, para mim, é a grande boa notícia dessa geração. Eles estão mais preocupados em salvar as pessoas da fome, em consertar o esgoto da cidade, em fazer uma aplicativo para que as pessoas leiam em todos os idiomas. Sou da geração hippie, que queria mudar o mundo, só que chegou uma hora em que nos atrapalhamos. Eles não querem mudar o mundo. Querem melhorar o mundo.

É REALÍSTICO IMAGINAR QUE TODOS CONSEGUIRÃO ESSE TIPO DE TRABALHO?
Não. Vai ter ter aquela menina lá que resolveu o problema tal. Mas o nosso mundo não está estruturado para isso. Muitos vão se frustrar. Duas previsões: se a rotatividade no emprego hoje já está alta, pode botar aí umas duas ou três vezes mais com eles. A outra é: se eles não conseguirem mudar o Brasil, eles se mudam do Brasil.

COMO ESSES JOVENS LIDAM COM A HIERARQUIA?
Respeitam a autoridade quando ela é conquistada, não quando é imposta. Mas não se rebelam. A minha geração engoliu a autoridade, foi educada assim. A geração seguinte se rebelou contra a autoridade. Acho que essa nova geração vai fazer memes e chacotas e simplesmente dar as costas, ir embora. Nós respeitávamos a autoridade por temor. Eles vão seguir autoridades que se façam respeitar por amor e humor.

A EDUCAÇÃO É IMPORTANTE?
Está começando a diminuir a importância do diploma. O que mais ouço os RHs falarem é sobre competências e habilidades. Aumentou a quantidade de pessoas fazendo curso superior. Mas eles vão ter habilidades em que serão autodidatas, está tudo na internet, há cursos de todas as especialidades possíveis, reconhecidos ou não pelo MEC (Ministério da Educação), isso não interessa para eles, eles nem sabem o que é o MEC. Se tiver um curso universitário, beleza, mas acho que eles dificilmente vão completar os cursos com a duração que têm hoje. São capazes de começar três, quatros cursos e não completar nenhum. Porque um ciclo de quatro anos é uma coisa impensável para eles, é como 30 anos para mim.

HÁ UMA PROPENSÃO MAIOR AO EMPREENDEDORISMO?
Com certeza. De dois tipos: o verdadeiro, gente com brilho no olho que cava financiadores ou levanta o negócio ralando mesmo; ou o empreendedorismo de paitrocínio, que é aumentar o tempo durante o qual ele vai ser sustentado.

ESSAS QUESTÕES PERPASSAM TODAS AS CLASSES SOCIAIS?
Sim. Quando entrevisto gente de favela, vejo que as mães, porque muitos não têm pai, estão focando em educação. Elas estão criando os futuro chefes, porque esses jovens vêm com uma gana de vencer na vida e com a educação sendo posta em primeiro lugar dentro de casa. Vejo muita gente das classes mais elevadas sem garra. Vão ter o acesso a educação, vão fazer cursos fora, mas provavelmente terão como chefes esses digitalizados das classes mais baixas, com garra para subir na vida.

COMO É A RELAÇÃO DESSES JOVENS COM A POLÍTICA?
Pouca, quase nula. São totalmente descrentes. Se por um lado sou otimista por achar que os bons vão se rebelar, por outro lado acho que haverá um grupo tão alienado que não quer nem saber de política, que será facilmente manipulável. Vejo duas tendências: gente que vai mudar a cara do Brasil por não aceitar essa política podre e uma massa que vai fazer "kkkk" e memes e votar em aberrações.

É POSSÍVEL POSICIONÁ-LOS MAIS À DIREITA OU MAIS À ESQUERDA?
Tirando o grupo que está sendo verdadeiramente forjado, o que em geral é mais estruturado na esquerda, eu não vejo eles de lado nenhum. Acho inclusive que, por rejeitar tantos as coisas antigas do século 20, eles também vão rejeitar os rótulos de direita ou esquerda.

É UMA GERAÇÃO MAIS ABERTA EM SEXUALIDADE E GÊNERO?
Cem por cento. Até estranham nossos preconceitos. Se apaixonam pela pessoa. Não são definidos e não são definitivos.

HÁ PERFIS BASTANTE DIFERENTES DENTRO DESSA MESMA GERAÇÃO, NÃO?
Sim, eles têm mais nichos do que as gerações anteriores. Tem muita diversidade. E tem uma coisa muito forte. Essa é a primeira geração que não tem nos pais o modelo de trabalho a ser seguido. Muitos me dizem: "Eu não sei o que quero ser na vida, mas de uma coisa tenho certeza, não quero ser nem o que o meu pai faz, nem o que a minha mãe faz, porque eles estão muito estressados e não têm prazer onde trabalham".

QUE CARACTERÍSTICAS PREOCUPAM MAIS NESSES JOVENS DO ANO 2000?
Um aspecto preocupante é se sustentarem. Porque se você só vai fazer o que gosta, a capacidade de aguentar pressão diminui, a capacidade de ser resiliente é quase inexistente, a capacidade de persistir é zero. Então quando é que começa o período em que você vai se sustentar? Se a geração Y está ficando na casa dos pais até 30 e poucos anos, eles vão passar dos 40.

CONVERSANDO COM ELES, ÀS VEZES HÁ A IMPRESSÃO DE QUE O MUNDO PARA ELES COMEÇOU DEPOIS DO ANO 2000. TÊM POUCAS REFERÊNCIAS SOBRE O QUE VEIO ANTES. ISSO ASSUSTA?
Eles não sabem de Beatles. Roberto Carlos é aquele velho de que a avó gosta. Não sabem quem foi o Tancredo. Eu brincava em aula: "Não precisa fazer a prova quem me disser o que veio primeiro, Napoleão Bonaparte ou a Revolução Francesa". Ele não sabiam o que eram essas coisas, o que dizer a cronologia.

POR QUE SÃO ASSIM, TENDO TANTA INFORMAÇÃO DISPONÍVEL?
Justamente porque está disponível. Então não precisam se aprofundar. Só gruda na cabeça deles o que dá para ver.
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Fonte:  http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=e056e52c8dcd019a63e6a3f169892cc9
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sexta-feira, 13 de outubro de 2017

O burro falante

 Lya Luft*
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Talvez a gente esteja precisando olhar no espelho ou para dentro de nós mesmos

Quando alguém menos informado se punha a falar, a discorrer e, se possível, doutrinar para os pobres presentes, às vezes, meu pai – discretamente ou depois do ocorrido – comentava: “Uma das piores coisas numa reunião é o burro entusiástico falante. Aquele que não entende direito, mas se acha doutor no assunto”.
“Somos muitos”, bradava o diabo que tinha possuído um pobre sujeito, depois libertado por Cristo, segundo os Evangelhos. Pois atualmente parece que nos multiplicamos, nunca vi tanta gente entendendo de arte, ética, moralidade (não falo em moralismo, que detesto), política, economia e o resto que anda nos atormentando.
Existirá mesmo um conceito universalmente adotado ou adotável de arte? Ou dezenas deles por este mundo conforme a cultura, as crenças, as filosofias e o conhecimento  ou arrogância?
No fundo mais fundo, confesso que não me interessa muito, estou cada vez mais individualista. Me perdoem os politicamente corretos, mas sempre detestei o politicamente correto, que acho falso, hipócrita, pobre e dispensável. Prefiro a vida, a coisa vital, espontânea, viva, até para admitir que não sabemos muito, e que é melhor não opinar (ou zurrar).
As mais loucas opiniões sobre arte vêm sendo expressas, igualmente as mais confusas noções de censura, por exemplo. Se havia conceitos gerais sobre ela, foram sendo desfeitos nas últimas décadas, e também isso não vou comentar: cabe aos filósofos e teóricos do assunto. Não me atrevo a dar mais um pio sobre o assunto de certa exposição ou exposições que levantaram grande alarido pelo país inteiro (estou apenas rodeando a Coisa), até porque me considero dos que pouquíssimo sabem. Dos que aproveitam esta fase mais calma da vida para aprender mais e melhor, eu que nunca fui boa aluna, embora as escolas que frequentei hoje afirmem o contrário: mil assuntos a recuperar antes do último suspiro.
Estamos falando demais, escrevendo demais, berrando demais, acusando demais, nos achando, demasiadamente, o máximo. Outro dia, relendo uma biografia da atriz Katharine Hepburn, a quem muito admirei e admiro, encontrei a deliciosa passagem em que, no seu primeiro encontro com Spencer Tracy, grande ator que seria seu parceiro em muitos filmes e na vida, ela lhe disse: “Mr. Tracy, lamento, mas acho que sou um pouco alta para você”. E ele, curto e simples, respondeu: “Não se preocupe, Miss Hepburn, eu vou reduzi-la ao tamanho exato”.
Talvez a gente esteja precisando olhar no espelho, ou para dentro de nós mesmos, e ver se nosso tamanho não está inadequado para outra pessoa, outras pessoas, ou as realidades deste momento conflitado e confuso. Do qual, esperemos, há de surgir alguma luz, uma paisagem com menos burros zurrando alegremente seus discutíveis conceitos. A vida já está difícil sem isso.
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* Escritora
Fonte:  https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/lya-luft/noticia/2017/10/o-burro-falante-cj8nfidul021501mqk76xz715.html
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QUE ENSINA OU QUE EDUCA?

LEANDRO DE ARAÚJO*

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O papel educador da escola passa, essencialmente, pelo professor. Toda vez que ele pede ao estudante que espere sua vez, sente direito ou "tire o lápis da boca, seu relaxado", está indo além do seu papel de ensinar e tratando de devolver à sociedade uma pessoa melhor do que recebeu de nós, pais.

Esta característica formadora de caráter está cada vez mais nas mãos dos educadores, pois se foi o tempo em que o pai trabalhava e a mamãe ficava em casa tomando conta dos pimpolhos. Hoje os pais muitas vezes trabalham até em casa, durante o jantar. Os preciosos minutos com seus filhos acabam não sendo "desperdiçados" com algo tão desinteressante quanto torná-los pessoas melhores. Sobra para quem, então?

O professor assume o papel de pai, mãe e, por vezes, até de avós de seus alunos. Aconselha, acolhe e exige. Muitas vezes, passa mais tempo com nossos filhos do que nós mesmos, se considerarmos o tempo em que, mesmo estando em casa, não podemos atendê-los como merecem. Ele conhece nossas crianças reais, aquelas que elas exibem próximo de seus iguais e longe dos nossos olhos apaixonadamente cegos. O professor sabe que seus alunos são humanos e, consequentemente, sabem persuadir e dissimular. Nós preferimos não ver isto, porque o defeito do filho reflete diretamente no pai, que o imagina (e deseja) a sua imagem e semelhança. Ao mestre, corriqueiramente, cabe o fardo de ser defesa, acusação e juiz. E carrasco, se for o caso. Isto não o deixa feliz, mas faz parte de sua missão.

Aos professores, o agradecimento por serem um pai para meu filho, melhor do que eu tenho tido tempo para ser. Por ensiná-lo muito além do bê-á-bá e dos números. Por terem que encarar cerca de trinta desafios diários, quando eu me atrapalho com apenas um. Muito obrigado a todos os mestres que, mais do que ensinar, vão educar, pois, além de todo o conhecimento que vão transmitir, ainda vão fazer de nossos filhos pessoas melhores.
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* Fotógrafo e educador da Rede Marista aquecimento@aquecimentocenico.com.br
Fonte:  http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=9b2325e0e39703a0f619db7032e9d279
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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

“Foi duro dar a ordem para eliminar o Che”

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O agente da CIA que participou da captura de Guevara diz que os EUA o queriam vivo para interrogá-lo

Ele lhe comunicou que o executariam: "Melhor assim", respondeu o guerrilheiro


O agente cubano da CIA que participou da captura de Ernesto Che Guevara na Bolívia, Félix Rodríguez, recebe a reportagem aos seus 76 anos em sua casa de Miami, nos EUA, rodeado de recordações de sua carreira de soldado da Guerra Fria. Pistolas, punhais, granadas e fotografias suas com presidentes dos Estados Unidos e espiões que já não existem. A produtora espanhola Scenic Rights prepara um documentário sobre sua vida. Veterano do Vietnã e envolvido no combate à insurgência na América Central, Rodríguez afirma que a CIA queria o guerrilheiro vivo para interrogá-lo, mas o Governo da Bolívia ordenou a sua execução. “Tentei salvá-lo, sem sucesso”, diz, apesar de considerar Ernesto Guevara de la Serna “um assassino”. Ao lado, em uma mesinha, tem uma velha pistola Star de fabricação espanhola. “Cuidado se pegar, está carregada. Eu sempre tenho algo por perto, caso necessário”, diz o homem que aparece com ares de satisfação à direita de Che em sua última foto – esfarrapado, de pé – antes de ser executado por um sargento boliviano.
50 anos da morte de Che Guevara
Félix Rodríguez, no último sábado em sua casa em Miami.
–Essa é sua última imagem vivo.
–Sim –responde–. A última tirada antes de ele morrer.

Rodríguez, codinome El Gato em seus tempos de operações especiais, precisa entrar em detalhes para responder a esta pergunta. Retornar em sua memória à Bolívia no ano de 1967 e contar aquilo detalhadamente. “Me deixe contar a história”, diz.

Durante 20 minutos, pega o fio e o estende do momento em que o avisam da captura de Che Guevara até uma câmera retratar seu último olhar.

O monólogo –abreviado– diz assim:

“Nós recebemos a informação da captura do Che no domingo, oito de outubro, pela manhã. Um grupo de jovens soldadinhos que falavam quéchua, aymara e guarani foi treinado para ir na vanguarda do batalhão para recolher informações e inteligência em roupas civis, porque assim era mais fácil falar com os camponeses. E essas pessoas em roupas civis retornam às sete da noite, no sábado, e dão a informação ao capitão Gary Prado de que um camponês lhes mostrou uma área chamada La Quebrada del Yuro onde estavam escondidos os guerrilheiros; porque esse camponês tinha uma plantação bem perto dali e os viu.

Então, com essa informação o capitão Gary Prado cerca a Quebrada del Yuro às sete da noite. E no domingo, oito de outubro, começa a avançar de manhã e aí começa o tiroteio. Nessa operação o Che é ferido na perna esquerda, um tiro entre o joelho e o tornozelo, mas nada muito sério. Lá morre a maior parte dos guerrilheiros e morrem alguns soldados, e é onde cai preso Che Guevara, que estava sendo auxiliado para tentar escapar por Simeón Cuba Sarabia, codinome Willy, um guerrilheiro boliviano baixinho, moreninho, com uma barba enorme, acho que uma barba maior do que a dos próprios cubanos, e esse não tinha um arranhão. Che é preso com ele. E no momento em que vão prendê-lo, os soldadinhos me contam, Che diz: “Não atirem que sou o Che. Eu valho mais vivo do que morto para vocês”. E então o levam e o mandam à escolinha de La Higuera e o colocam – olhando a escolinha de frente – na sala da esquerda, e atrás dele, no mesmo quartinho, colocam os cadáveres dos cubanos.

Aí então eles me mandam a informação de manhã em código, que dizia: “Papai cansado”, o que significava que o líder da guerrilha estava preso e vivo. Mas não sabíamos se “Papai” era Che Guevara ou se era Inti Peredo, que era o líder da guerrilha do lado boliviano. De modo que voamos à área de operações e verificamos que “Papai cansado” era Che Guevara.

O estrangeiro. Não disseram o Che, disseram “o estrangeiro".

Essa noite tivemos uma recepção em um hotelzinho de Vallegrande, com velas porque não havia eletricidade, e eu peguei duas garrafas de scotch que havia comprado havia tempos para um evento como este, para comemorar. Isso era na noite de domingo, o dia em que ele foi preso.

No dia seguinte, nove de outubro, às sete da manhã decolamos em um pequeno helicóptero pilotado por Niño de Guzmán. Aterrissamos ao lado da escolinha onde Che estava preso e estavam nos esperando todos os oficiais do batalhão, entre eles o tenente coronel Selich que estava com toda sua documentação. Che usava uma bolsa de couro como as que as mulheres carregam, grande, de cor clara, e dentro tinha um livro grande que era um diário com os meses escritos em alemão, de 67, mas claro, escrito por ele em espanhol. Dentro tinha uma série de fotografias da família, medicamentos para a asma, livrinhos para mensagens em código numérico de uma só via, que são impossíveis de se decifrar. Tinha alguns caderninhos negros de espiral escritos à máquina de escrever e assinados por um tal Ariel, que eram as mensagens que ele recebia de Cuba. Mas ele não podia transmitir a Cuba porque Cuba lhe deu para isso um transmissor quebrado, porque ele foi enviado para lá para ser morto. Porque Che era pró-China e Cuba dependida da URSS. Ou seja, os soviéticos não tinham nenhum interesse no sucesso de Che Guevara na Bolívia. Foi deixado só, para que o matassem ali, definitivamente.
Ernesto Che Guevara ver fotogalería
A última fotografia de Che Guevara na Bolívia antes de sua execução. Ao lado direito dele,
 o agente cubano da CIA Félix Rodríguez.
Então entramos na escolinha e em uma sala estava o Che jogado no chão, com as mãos e os pés amarrados embaixo de uma janela que havia ao lado da porta, e atrás os dois cadáveres. O único que falou foi o coronel Centeno Anaya. Fazia perguntas, mas o Che olhava para ele e não respondia nada. Nem falou com ele. A tal ponto que o coronel disse: “Escuta, você é um estrangeiro, invadiu meu país. Pelo menos poderia ter a cortesia de responder”. Nada.

Aí pergunto ao coronel se pode me fornecer a documentação do Che para fotografá-la para meu Governo e ele dá ordem ao tenente-coronel Selich que entregue tudo para mim. Ele me entrega aquela carteira de couro e vou trabalhar com a documentação em outro lugar. Ia fotografando o diário e voltava para falar com o Che. Entrava e saía constantemente, de manhã até a uma da tarde. Quando estava fazendo isso toca o telefone e um dos soldados me diz: “Meu capitão, uma ligação”. Vou até o telefone e me dão “ordens superiores: 500–600”. 

Era um código muito simples que tínhamos estipulado.

500 era o Che Guevara.
600, morto.
700, mantê-lo vivo.
Peço que repitam. Voltam a confirmar.
“Ordens do Alto Comando: 500–600”.

Quando Centeno Anaya chega, eu o chamo de lado e digo: “Coronel, chegaram instruções do seu Governo para eliminar o prisioneiro. As do meu Governo são de tentar salvar a vida dele e temos helicópteros e aviões para levá-lo ao Panamá para um interrogatório”. Ele responde: “Olha, Félix, as ordens são do Presidente e do Comandante das Forças Armadas”. Olhou para o relógio e disse: “Você tem até as duas da tarde para interrogá-lo. E às duas horas você pode executá-lo da maneira que quiser porque sabemos o dano que fez para seu país. Mas eu quero que você, às duas da tarde, me traga o cadáver do Che Guevara”. Eu respondi: “Coronel, tentei que o senhor mudasse de ideia, mas se não chegar uma contraordem dou minha palavra de homem que vou entregar o cadáver do Che”.

Mais tarde, ao falar com o Che, vem o piloto Niño de Guzmán com uma câmera Pentax do chefe de Inteligência. “Meu capitão, o major Saucedo quer uma foto com o prisioneiro”. Olho para o Che e digo: “Comandante, você se importa?”. Ele disse: “Não me importo”. Então caminhamos. Ele andava com dificuldade pela bala na perna esquerda. Saímos da escolinha e foi aí que paramos para fazer aquela foto. Eu dou minha própria câmera ao piloto e digo ao Che: “Comandante, olhe o passarinho”. Ele começou a rir, porque é o que falamos em Cuba para as crianças.

“Criança, olhe o passarinho”.

“Se puder, diga para a minha mulher se casar de novo e tentar ser feliz”. Essas foram suas últimas palavras

Na verdade, acho que ele estava rindo no momento em que a foto foi batida. Mas, obviamente, mudou para esta expressão que você vê agora. Eu usava o uniforme das tropas especiais dos EUA, mas sem nenhuma insígnia. Eu tinha aí 26 anos. Ele, 39. Parecia um mendigo. As roupas estavam surradas, sujas. Não tinha botas, eram uns pedaços de couro amarrados nos pés. O cabelo ensebado. Realmente, às vezes eu estava falando com ele e não prestava atenção ao que estava dizendo, porque nunca o tinha visto pessoalmente, mas me lembrava das imagens do Che quando visitou Moscou, quando estava com os russos ou quando visitou Mao Tsé-Tung em Pequim. Aquele homem arrogante, com aqueles casacos bonitos. E ver este homem agora como um cara que estava pedindo esmola. Dava pena.

- Qual foi para você o maior defeito e a maior virtude do Che?
- Virtude acho que não tinha nenhuma. O que posso dizer é que o homem era dedicado aos seus ideais, que obviamente estavam errados e foram um desastre total. E que nos próprios treinamentos, me disse gente que treinou com ele, era muito persistente. Estava cansado, morto e tentava continuar. Não desistia. Mas, por outro lado, foi um assassino que gostava de matar pessoas e estava cheio de ódio pelo inimigo. Uma pessoa que mandou fuzilar milhares de cubanos.

- A captura dele foi a maior conquista de sua carreira?
- Uma das principais, embora seja a que ficou mais famosa.

- Existe alguma operação que não gosta de se lembrar?
- Possivelmente o episódio mais duro foi precisamente quando tive que comunicar a ordem, de parte do Governo boliviano, para que eliminassem o Che. Embora também tenha pensado no desastre causado em minha pátria no momento em que deixaram Fidel Castro em liberdade.

- Comunicou a ordem na frente de Guevara?
- Não, eu recebo a comunicação e depois entro na sala, paro na frente dele e digo: “Comandante, sinto muito, é uma ordem superior”. E ele entendeu perfeitamente o que eu estava dizendo.

- O que ele disse?
- “É melhor assim. Eu nunca deveria ter caído prisioneiro vivo”. Então tirou o cachimbo e disse: “Quero dar este cachimbo a um soldado boliviano que se portou bem comigo”. Guardei o cachimbo e perguntei: “Quer algo para sua família?”. E ele me respondeu, diria que de forma sarcástica: “Bem, se puder diga a Fidel que logo verá uma revolução triunfante na América”. Eu interpreto como se tivesse dito a Fidel: “Você me abandonou, mas isso vai triunfar de qualquer maneira”. Depois mudou de expressão e disse: “Se puder, diga para a minha mulher se casar de novo e tentar ser feliz”. Essas foram suas últimas palavras. Ele se aproximou de mim, apertamos as mãos, demos um abraço, ele deu uns passos para trás e ficou parado pensando que era eu que ia matá-lo.
- O que aconteceu com o cachimbo?
Félix Rodríguez, em sua casa de Miami.
Félix Rodríguez, em sua casa de Miami.
- Olha, foi uma das coisas que me arrependo. Tirei o tabaco e guardei. Inclusive na culatra de um dos revólveres que uso tenho parte do fumo da última vez que ele usou, enfiada em um vidrinho. Depois veio o sargento Mario Terán dizendo: “Meu capitão, quero o cachimbo! Eu o matei, eu mereço!”. E eu, que por dentro, não queria ter que cumprir um desejo dele, sabendo tudo que tinha feito com a minha pátria, peguei o cachimbo e dei ao sargento: “Tome, para que se lembre do seu feito” [diz com tom de rechaço]. Pegou o cachimbo, abaixou a cabeça e foi embora.

- O que mais chamou sua atenção quando viu o Che?
- Ver um homem tão destruído.

- O que sentiu ao falar com ele?
- Naquele momento, honestamente, não tinha percepção do que estava acontecendo, a magnitude que tinha aquela operação. Para mim, era mais uma operação. Para mim, o Che Guevara não era grande coisa, não era a figura que Cuba depois fabricou.

- Ficou surpreso com algo que ele disse?
- Toda vez que eu fazia perguntas de interesse tático para nós, ele respondia: “Você sabe que não posso responder isso”. Por outro lado, houve um momento em que começamos a falar sobre a economia cubana, e ele começou a culpar o embargo americano por tudo. Disse a ele: “Comandante, você foi presidente do Banco da Nação e nem era economista” Então, ele respondeu: “Você sabe como cheguei a presidente do Banco?”. E me conta: “Um dia entendi que Fidel estava pedindo um comunista dedicado e levantei minha mão. Mas estava pedindo um economista dedicado”.

- Presenciou a execução dele?
- Não. Não tinha nenhum interesse em ver aquilo. Fui para outro lugar e me sentei em um banquinho a uns cem metros para tomar notas. Ouvi uma rajada curta e anotei: uma e quinze da tarde. A hora exata em que foi executado.
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Reportagem por  Corresponsal en Miami Miami

Religião, ética, moral

Luiz Ruffato*
ensino religioso nas escolas 
Fiel segura uma vela em uma cerimônia religiosa pela paz. AFP

A religião deveria ser ensinada em casa, pelos pais, e praticada no seio das comunidades confessionais. Nas escolas públicas, deveria prevalecer a discussão de princípios éticos

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de autorizar o ensino religioso vinculado a uma crença específica em escolas públicas é mais um indício de que caminhamos velozmente para trás. O Brasil é um Estado laico e, portanto, deveria incentivar o diálogo entre as mais diferentes confissões, no intuito de formar cidadãos tolerantes com as opiniões divergentes. Optando pelo ensino doutrinário de uma religião exclusivista, afundamos ainda mais no pântano do sectarismo em que estamos estacionados.

O que a sociedade deveria exigir do Estado é a implantação de um sistema público de ensino de qualidade que privilegiasse a educação para a cidadania. E isso se obtém com discussões sobre ética, que encontra-se no domínio da filosofia, e não sobre moral, submetida a preceitos religiosos. Embora alicerce as religiões, a ética as suplanta, pois seus princípios são universais, ou seja, valem em qualquer tempo e em qualquer lugar – enquanto a moral muda conforme os hábitos e costumes e interesses característicos do tempo e do lugar.

Um exemplo: a inviolabilidade da vida humana, “não matar”, é um conceito ético, que independente da época e do país em que se vive e que está presente, acredito, na base de todas as religiões do mundo. No entanto, como as religiões defendem princípios morais e não éticos, em nome de Deus cristãos matam judeus, muçulmanos matam cristãos, budistas matam muçulmanos... Deveríamos lutar para que nas escolas públicas se ensinasse o princípio ético “não matar” em geral, ou seja, o respeito à vida de todos igualmente, e não sua derivação moral, de que a ideia de “não matar” não serve para aqueles que pensam ou agem diferente de nós.

Recente pesquisa do departamento de Psicologia da Universidade de Chicago (EUA) concluiu que crianças educadas em lares não religiosos são mais tolerantes e generosas que as criadas segundo princípios religiosos. Os investigadores recrutaram 1.170 crianças de diferentes crenças em seis países (Canadá, China Jordânia, Turquia, EUA e África do Sul) e demonstraram que há maior coesão entre os membros de grupos religiosos e maior nível de intolerância com quem está de fora. As pessoas que não têm religião tendem a ser mais solidárias, exatamente por não fazerem distinção entre as diversas crenças religiosas.

Nos últimos tempos, a sociedade brasileira, imersa em denúncias de corrupção e acuada pela incompetência generalizada da gestão do Poder Público, vem ancorando seu desencanto na falsa segurança do moralismo. Falsa segurança porque o moralismo – diferente da ética – funda-se em interesses momentâneos de alianças espúrias. Em geral, o moralismo é uma cortina que esconde a hipocrisia e o cinismo. O moralismo censura obras de arte, persegue confissões divergentes, reprime opiniões contrárias, e, pior, mata homens e mulheres.

Em nome de moralismo, quatro mulheres morrem por dia devido a complicações provocadas por abortos clandestinos – mulheres pobres, diga-se de passagem. Em nome do moralismo, todo dia uma pessoa LGBT é assassinada. Em nome do moralismo, as religiões afro-brasileiras (umbanda e candomblé) são cada vez mais hostilizadas, principalmente pela militância fundamentalista evangélica, a ponto de praticamente desaparecerem em alguns nichos tradicionais, como as comunidades do Rio de Janeiro. Em nome do moralismo, julgam-se e proíbem-se obras de arte...

A religião deveria ser ensinada em casa, pelos pais, e praticada no seio das comunidades confessionais. Nas escolas públicas, deveria prevalecer a discussão de princípios éticos, comuns a todas as pessoas, sejam elas ligadas ou não a crenças religiosas. Só assim poderíamos pleitear uma sociedade mais justa e tolerante. Infelizmente, parece que estamos optando por trilhar o caminho contrário, de repressão, do obscurantismo, da intransigência.
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* Luiz Ruffato é um escritor brasileiro. Seu romance Eles eram muitos cavalos, de 2001, ganhou o Troféu APCA oferecido pela Associação Paulista de Críticos de Arte e o Prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional.
Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/10/09/opinion/1507561856_745482.html

"A violência é o pecado original da religião"

 http://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/banco/abstrato/abstrato_verlmelho_fonte_pixabay.jpg
Os textos sagrados das grandes religiões há milhares de anos estão encharcados de sangue. É um clichê, mas é verdade. Contudo, a inspiração pela violência é frequentemente abandonada e, outras vezes, ao contrário, tragicamente explorada. A pergunta que se repete é: como e por que isso acontece. Vamos apresentá-la a José Casanova, espanhol de Zaragoza, mas residente em Washington (Georgetown University), um dos principais especialistas no mundo em sociologia da religião, traduzido em várias línguas (em italiano conhecemos a sua obra Oltre la secolarizzazione, Il Mulino, 2000).

A intoxicação originária não é incurável, diz ele, as fases violentas ocorrem em ciclos. Sites na web em todo lugar contabilizam com fanatismo a violência "dos outro": mãos cortadas e matança de infiéis invocados no Alcorão ou extermínios realizados ou propiciado pelo Deus da Bíblia ou mesmo as cabeças cortadas das escrituras hindus, o tridente de Shiva. Nenhuma religião é inocente.

"A violência está nas origens da sociedade, ou como diria Durkheim no sagrado social, mais que na religião em si. E isso sem dúvida alguma se reflete nas Escrituras, mas com o tempo as coisas mudam. Na Bíblia, por exemplo, é necessário distinguir entre textos anteriores ao exílio babilônico e os sucessivos. O Deus de Israel sacraliza a violência contra os outros povos, era um Deus monolátrico, não monoteísta, um Deus de Israel não de toda a humanidade. Depois do exílio na Babilônia, naquela que chamamos de era axial (Casanova usa a expressão de Jaspers para indicar a época entre o oitavo e o terceiro século a.C., ndr), os profetas não sacralizam mais a violência, ao contrário, o Deus da história usa o Império romano para punir o seu povo".

A entrevista é de Giancarlo Boselli, publicada por Repubblica, 10-10-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.


Eis a entrevista.

Isso vale para todas as religiões?
Todas as culturas tribais das origens sacralizam a violência do "nosso grupo" contra os outros. A novidade das religiões axiais é que a dessacralizam: chegam assim à crítica profética da violência e ao fim dos sacrifícios sangrentos.

A violência, no entanto, permanece para sempre inscrita nos textos sagrados.

Encontramos nas Escrituras uma mistura de textos da sacralização da violência e de outros que expõem a crítica da violência. Isto levanta a questão de como os textos foram e são interpretados e utilizados na história.

E nenhuma religião é exceção, embora cada confissão seja tentada a acusar as outras.

Nós poderíamos usar as palavras do Papa Francisco: ‘Diante das atrocidades cometidas em nome de Deus ou da religião, nenhuma religião é imune a formas de decepção pessoal e extremismo ideológico’, nenhuma, incluindo o Cristianismo e o Catolicismo. Eu venho de Espanha católica, onde a religião e a violência estão intimamente ligadas: as Cruzadas, a Inquisição, a expulsão dos judeus e dos muçulmanos, a Conquista e a evangelização forçada, as guerras civis.

Também os ateus militantes contabilizam a lista das violências a cargo das religiões. Os religiosos respondem lembrando a lista dos massacres do século XX e as páginas negras do ateísmo.

A religião não é a única fonte de violência. Entre o final do século XIX e início do século XX, vimos a sacralização da violência anarquista; com a Primeira Guerra Mundial o Estado moderno, que reivindica o monopólio da violência, a sacraliza no do nacionalismo; tem o genocídio armênio; tem a violência comunista dos anos 1930, o Gulag, Hitler e o Holocausto; da década de 1960 temos o IRA, o ETA, as Brigadas Vermelhas, os padres guerrilheiros na Colômbia, os católicos Montoneros na Argentina. O século XX foi o mais violento na história da humanidade e a maior parte da sua violência não era religiosa.

Mas hoje temos uma onda de terrorismo religioso, o terrorismo islâmico.

Mais uma vez, devemos nos perguntar quais os fatores que desencadeiam o fenômeno do terrorismo jihadista e por que esta religião se torna fonte de violência. Seu crescimento ocorre durante uma globalização para a qual determinados setores do Islã legitimam a violência contra o que eles consideram uma ordem mundial que usa de violência contra ele.

O próprio Catolicismo no passado considerava a modernidade um assalto aos seus princípios morais.

Claro, contudo sofreu ao longo do tempo uma grande transformação. Junto com os protestantes, os católicos criaram na Alemanha, a Democracia cristã. Diante dos sangrentos conflitos entre xiitas e sunitas dos nossos dias, acredito que se a transformação ocorreu para os cristãos, pode acontecer também com os muçulmanos, quando as vozes em favor da pacificação vierem a superar aquelas que sacralizam a violência.

O budismo é candidato ao papel de primeiro da classe, por que é mais pacífico? O imperador Ashoka no século III a.C. converteu-se do hinduísmo ao budismo e deixou gravados na rocha seus editais sobre a tolerância. Mas agora sobe ao palco o terror budista.

Os monges budistas são uma ordem armada como todas as outras que se associaram a um poder estatal e aconteceu a eles o que aconteceu com todos quando uma religião se torna sacralização do Estado. Mas há sempre a possibilidade de que as religiões axiais façam prevalecer o rosto pacífico e a parte de sua tradição que as leva a dizer Salam, Shalom ou Paz.

Mas o Islã com a Sharia não apresenta problemas maiores do que as outras religiões no caminho para a modernidade?

A Sharia não era um problema no nascimento das primeiras constituições no Irã ou no Paquistão, na virada do século entre 1800 e 1900. Tornou-se mais tarde. A própria tradição pode ser lida de outras maneiras. A violência jihadista não será diferente das outras do passado, daquela anarquista ou marxista.

A tentação iluminista é de imaginar na história um processo de redução da violência. Mas a realidade nos diz o contrário.

Não é possível fazer generalizações. A combinação de religião e estruturas de poder é a chave explicativa tanto no bem como no mal. Na Espanha, houve a época da convivência entre cristãos, judeus e muçulmanos, e o mesmo aconteceu em outros lugares, mas com o surgimento do Estado moderno, das monarquias católicas, afirmou-se o impulso para a limpeza étnico-religiosa. Sempre que o modelo westfaliano - cuius régio eius religio – foi afirmado, o fenômeno se repetiu. No fim dos impérios, daquele otomano e do britânico. Não há nisso uma única trajetória, mas ciclos. Mas também existem boas notícias e ciclos de paz. A América Latina em uma única geração passou do monopólio católico à perda de hegemonia da Igreja e a um pluralismo compartilhado com os protestantes. Sem violência.
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Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/572559-a-violencia-e-o-pecado-original-da-religiao 

O sabor do saber

Tom Coelho* 

sabor do saber
(Imagem: Reprodução/Pixabay)
A educação perdeu o sabor. E é curioso constatar isso quando desvendamos pela etimologia que as palavras sabor 
e saber têm a mesma origem no verbo latino sapare.

Apagão de mão de obra, vagas de estágio que não conseguem ser preenchidas, desqualificação profissional. Tudo isso é reflexo da crise de nosso modelo educacional, indicando um abismo entre o que as escolas entregam e o que as empresas demandam. A academia está distante e desalinhada do mundo corporativo.

É indiscutível que devemos promover uma “cruzada pela educação”. Vender a ideia da educação para o Brasil, colocando-a como prioridade, ao lado da saúde e da ciência e tecnologia, nas discussões orçamentárias e de planejamento estratégico nacional. Criar o conceito de responsabilidade educacional e infligir com a perda do mandato prefeitos que desviam recursos das salas de aulas para a construção de estradas e outras finalidades que lhes conferem capital político mais imediato. E investir no docente, sua formação e sua remuneração, pois a chave da boa escola é o professor.

Todavia, mesmo diante de toda esta breve argumentação, minha conclusão mais precisa é que o problema da educação está na escola que ficou chata, perdeu a graça, não acompanhou a evolução do mundo moderno. O aluno não vê aula, quando vê não presta atenção, não se aplica nos deveres de casa e vai mal nas provas. Lembra-me aquela máxima marxista: uns fingem que ensinam, outros fingem que aprendem. Esqueceram-se apenas de avisar ao mercado desta combinação.

São estes alunos que serão reprovados num simples processo seletivo. E serão eles que, gerenciando companhias ou decidindo empreender um negócio próprio, engordarão as já elevadas estatísticas de insucessos empresariais.

A educação perdeu o sabor. E é curioso constatar isso quando desvendamos pela etimologia que as palavras sabor e saber têm a mesma origem no verbo latino sapare. O conhecimento é para ser provado, degustado. É como se a cabeça (o estudar) estivesse em plena consonância com o coração (o gostar).

Cozinhando palavras

O que me faz avançar madrugada adentro postado diante de uma tela, digitando em um teclado, com música ao fundo e pensamento ao longe, produzindo artigos como este? A resposta está no desejo de escrever um texto que traga prazer ao leitor tal qual o banquete preparado por um cozinheiro a seus convidados.

Todo escritor tem duas fontes de inspiração: uma musa e outros escritores. Minha musa é o próprio mundo, uma obra de arte, um livro dos mais belos para quem o sabe ler. Já meus “padrinhos” são tantos que não posso colocar-me a relacioná-los. Acabariam as laudas, faltaria paciência ao leitor e eu incorreria invariavelmente no pecado capital da negligência, deixando de citar nomes por traição da memória.

Rubem Alves é um destes nomes. Vem dele a inspiração desta metáfora que envolve escritores e cozinheiros. Minha cozinha fica numa sala. Minha bancada é uma mesa. Meu fogão é um computador. Minhas panelas são minha cabeça. Meus ingredientes são as palavras. Vou selecionando-as, misturando-as e provando de seu resultado. Saboreio com os olhos e cuido para que temperos em excesso não comprometam outros sabores.

Há dias em que estou tomado pela culinária italiana. Então produzo textos encorpados que alimentam a consciência e que pedem uma taça de vinho tinto, cor de sangue, de contestação. Corpo e sangue. São os momentos de questionamento da ordem, este prazer da razão, banhado pela desordem, esta delícia da emoção.

Em outros dias, sinto-me inspirado pela cozinha francesa. É quando me torno econômico no uso dos ingredientes, mas extravagante no uso dos temperos. É quando surgem os textos mais leves na forma e mais profundos em seu conteúdo, convidando todos a uma demorada reflexão.

Assim sucedem as semanas, sucedem os artigos. A cada semana um prato novo. Alguns nascem naturalmente, demandam pouco tempo de cozimento. Outros, por sua vez, ficam dias no forno. Consomem quantidade incrível de palavras. Letras que vêm e que vão. Chegam mesmo a queimar os dedos, mas finalizá-los tem seu propósito ao imaginar a satisfação de quem os lerá estampada no brilho dos olhos, no sorriso de canto de boca.

Assim entrego-me a este ofício, marchando pitagoricamente com o pé direito para as minhas obrigações e com o pé esquerdo para os meus prazeres, tendo a certeza de que o escrito com esforço será lido com apreciação.

Paul Valéry dizia que um homem feliz é aquele que, ao despertar, reencontra-se com prazer, reconhecendo-se como aquele que gosta de ser. Saber o que se é e o que se deseja ser: quanto sabor há nisso!
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* Educador, palestrante em gestão de pessoas e negócios, escritor com artigos publicados em 17 países e autor de nove livros. 
Fonte:  https://portal.comunique-se.com.br/o-sabor-do-saber-por-tom-coelho/ acesso 11/10/2017

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Muitos russos enxergam o Ocidente como legião de fracos, sem valores

Luiz Felipe Ponde*
 Ilustração Coluna Pondé - Edição de Segunda-feira, dia 09/10/2017 - 9.out.17
"Muitos russos olham para o Ocidente como uma legião de fracos, sem valores, sem identidade, sem coragem. 
Os EUA e a Europa ocidental 
representam essa legião."

A Rússia é uma potência. E somos muito ignorantes em relação à sua história e identidade. Ainda a vemos com os olhos da "derrotada na Guerra Fria", derrota esta devido à inapetência da economia socialista em dar conta da vida das pessoas reais. Se o comunismo tardou a quebrar a União Soviética, se deveu, justamente, à riqueza gigantesca da Rússia. Veja que nos demais lugares onde o socialismo se instalou, ele quebrou o país em pouco mais de duas semanas. 

Mas a ideia de que os russos se vejam como uns derrotados na Guerra Fria é uma percepção distorcida, ainda fruto da "propaganda americana" das últimas décadas. Não. Muitos russos veem o Ocidente como uma legião de fracos. Voltaremos a esse "olhar russo". 

Suspeito de que logo a história enxergará a Revolução Russa como "apenas" um capítulo na história do "messianismo russo da terceira Roma" (Roma, Constantinopla, Moscou). 

Recentemente, dois lançamentos editorais nos ajudam a entender essa revolução russa para além dos debates ideológicos, que quase sempre dominaram as tentativas de entender o fenômeno bolchevique.
O primeiro é "História da Guerra Civil Russa 1917-1922", de Jean-Jacques Marie, da editora Contexto. A obra descreve de forma empírica (partindo de uma multiplicidade de fontes) a guerra civil que se instalou na Rússia após a revolução bolchevique. Milhões de mortos. Um dos maiores méritos do trabalho de Marie é nos dar indicações do que "deu errado" no projeto bolchevique entre as mãos de Lênin e Stálin. 

A paranoia que destruiu a revolução foi, em muito, fruto dessa guerra civil fratricida. Ela, de certa forma, "nunca acabou", e o regime de terror de Lênin e Stálin (muitos querem salvar a pele do Lênin e pôr a conta toda na mão do Stálin, mas isso é manobra ideológica) foi continuação dessa guerra civil, contra objetivos já não mais propriamente "militares". 

O segundo é "Do Czarismo ao Comunismo, as Revoluções Russas do início do século XX", de Marcel Novaes, da editora Três Estrelas. Entre os diversos méritos dessa obra, como a escrita simples e direta sem "afetações acadêmicas", está em nos apresentar o processo que nos levou da Rússia dos Romanov (uma potência das maiores na Europa de então) às revoluções russas do início do século 20. É exatamente nesse caráter "plural" do processo revolucionário russo do período que reside um fato essencial que, de certa forma, dialoga com a obra de Marie. 

O próprio período dos Romanov, identificado com a criação de São Petersburgo (a grande capital europeia da Rússia dos Romanov) em 1703 pelo czar Pedro, o Grande, é, em si, uma revolução, e, penso eu, mais definitiva para a identidade "moderna" da Rússia do que a revolução bolchevique enquanto tal. 

A famosa divisão da alma russa, marcante no século 19, representada na literatura do período entre ocidentalizantes e eslavófilos tem raiz segura na revolução europeizante dos Romanov. 

Muitos debates políticos e intelectuais do século 19 russo têm essa oposição como chave importante de leitura. Para uns, a Rússia deveria se tornar uma nação europeia (portanto, ocidental); para outros, reativos ao que representava São Petersburgo, a Rússia deveria oferecer uma resistência à "degeneração" ocidental niilista (classicamente identificados com a quase milenar Moscou). 

Essa tensão permanece até hoje. Muitos russos olham para o Ocidente como uma legião de fracos, sem valores, sem identidade, sem coragem. Os EUA e a Europa ocidental representam essa legião. 

A posição eslavófila, marcadamente religiosa, influencia em muito o chamado euroasianismo de Putin, sem o caráter essencialmente teológico dos eslavófilos. 

No euroasianismo, a Rússia é vista como uma "parede" contra as modas ocidentais, sejam elas a crença "excessiva" na democracia, o sócio-construtivismo das ciências humanas, a pós-modernidade e suas obsessões identitárias ou a "revolução gay". Há um quase desprezo pela crença do Ocidente em si mesmo. Neste olhar reside, também, uma quase piedade dos russos para com as fraquezas ocidentais.
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* Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência. Escreve às segundas.
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/09/10/2017
Foto:  Ricardo Cammarota/Folhapres

domingo, 8 de outubro de 2017

Nilton Bonder: Proselitismo, não

Rabino Nilton Bonder

Rabino Nilton Bonder acha que uma aula de religião bem dada pode até abrir a cabeça do aluno, mas que escola pública não é lugar para profissões de fé

Autor renomado e um dos religiosos mais influentes do país, o rabino Nilton Bonder, de 59 anos, evoca a própria experiência ao falar sobre a recente e ruidosa decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que permite aulas de religião nas escolas públicas. Na infância, Bonder foi dispensado da matéria, ensinada em sua escola por uma freira. Lembra-se até hoje de seu constrangimento quando era o único garoto que se levantava e saía da sala. “Era um horror”, diz. Nascido em Porto Alegre e radicado no Rio de Janeiro, Bonder discorda da decisão do STF e acha que o ensino religioso não pode privilegiar nenhuma confissão. Mas, feita a ressalva, é a favor da aula de religião como meio de transmitir às crianças valores e tradições que ultrapassam fatos, locais e datas. “É um espaço para mostrar que a vida pode ser vista além da racionalidade”, diz nesta entrevista a VEJA.

O que representa a liberação pelo STF do ensino confessional religioso nas escolas públicas? Vejo nas aulas dadas por padres, pastores ou rabinos uma brecha para que a religião vire proselitismo. Colocado na base do pode ou não pode, de se é constitucional ou não, o debate acaba restrito ao plano mais rasteiro. A pergunta que deveria ser martelada o tempo todo é: o que se espera que a religião acrescente à tão combalida educação brasileira? Faltou uma reflexão sobre conteúdo. As aulas de religião deveriam abrir aos alunos uma nova dimensão de conhecimento. Mas, se divulgam uma fé, fecham o espectro do pensamento, o que é nocivo.

O senhor quer dizer então que ensinar uma religião específica faz mais mal do que bem? Pode fazer mal, sim. A identificação com um grupo tem um lado tóxico, porque há o risco de levar à cegueira. Isso acontece, por exemplo, com as torcidas de futebol, quando descambam para a irracionalidade. Não se constrói a diversidade apresentando uma única narrativa. E um professor que siga uma determinada fé provavelmente encaminhará a aula na direção que lhe pareça mais condizente com ela.

O fato de o ensino religioso ser facultativo não resolve o problema? Ocorre que, na prática, as coisas são diferentes. Quando eu era pequeno, frequentei durante dois anos uma escola pública em que havia aula opcional de religião católica, dada por uma freira. Meus pais pediram à direção que eu não participasse e foram atendidos. Mas, para mim, era um horror. Quando chegava a hora da aula, eu tremia. Sair da sala era um constrangimento. Cheguei a pedir a meus pais que me deixassem ficar, só para não ser o excluído da turma. Como não permitiram, eu me juntava a outros dois meninos judeus e ficávamos lá à toa, esperando a aula acabar.

Na escola particular, a situação é diferente? Sim, ali se pode ensinar uma religião específica, até porque muitas delas estão ligadas a igrejas. Ao matricularem os filhos, os pais sabem que tipo de ensino esperar.

A existência de aulas de religião na escola pública fere o princípio do Estado laico? Não vejo assim. Acho até que abrir esse espaço engrandece a educação. O Estado laico não é justificativa para banir toda e qualquer manifestação religiosa. Pelo contrário, ele é uma proteção que a própria Constituição criou para prevenir imposições de natureza religiosa — uma espécie de cláusula de barreira muito sadia. Até pouco tempo atrás, quando o Brasil era um país essencialmente católico, era justamente essa cláusula que protegia minorias como a minha.

Na dúvida sobre como a religião deveria ser ensinada, é preferível banir essa disciplina? Não. A presença da religião é positiva, desde que conduzida de maneira crítica pelos educadores. É por isso que rabino, padre ou pastor não podem dar aula em escola pública. A razão é simples: além do preparo para lecionar, falta-lhes o distanciamento necessário.

Quem deveria então se encarregar da tarefa? Antes de entrar no currículo, o ensino religioso precisa ser rigorosamente avaliado por educadores que tenham em mente aonde se quer chegar. Enfatizo isso porque o debate atual parece ignorar esse ponto essencial. Fica a impressão de que as decisões sobre o ensino de religião nas escolas atendem principalmente a interesses dos próprios religiosos, em detrimento da educação e da qualidade. É um erro de prioridades.

A decisão tomada pelo STF favorece grupos religiosos específicos? É óbvio que sim. O que mais me preocupa, no debate atual, é saber se o foco é mesmo a melhoria da educação ou se por trás de tudo estão grupos religiosos tentando se infiltrar na escola. Existem disputas religiosas no país, que na maioria das vezes se disseminam de forma silenciosa. Aliás, na cultura brasileira muitos problemas se mantêm assim, latentes — o racismo, a intolerância.

E aonde se deveria chegar com aulas de religião? Levar religião às escolas pode ser uma preciosa janela para a cultura, para as tradições, para a construção de valores e para a noção de identidade. As religiões têm outra virtude escassa no mundo de hoje, que são as utopias. A esperança de um futuro melhor está presente em todas elas, ainda que expressa de maneiras diferentes.

Mas esses valores não podem ser ensinados em outras matérias? Podem. Eles se encaixam nas aulas de história ou de geografia, por exemplo. Mas vejo seu ensino no universo das religiões como uma espécie de contraponto poético, um espaço para mostrar às crianças que a vida pode ser vista para além da racionalidade. As religiões são ricas em narrativas pouco discutidas, mas que marcaram um grupo ou a humanidade inteira em todos os tempos. Eu adoraria, como brasileiro, aprender sobre aquilo em que os índios acreditavam, como entendiam a passagem do tempo.

No Brasil, a religião também se faz presente nos crucifixos em espaços públicos e na frase “Deus seja louvado” na nota de real. É condenável? Depende do contexto. A frase na nota representa muito mais do que uma preferência religiosa. Trata-se da noção coletiva de que há algo superior que guarda nosso trabalho, nosso dinheiro. O que dá valor àquele pedaço de papel é justamente a crença que as pessoas têm de que estão construindo algo bom. Da mesma forma, acredito que a presença da cruz em repartições públicas funciona como um símbolo de grandiosidade — como a águia para os Estados Unidos. Não estou dizendo que os dois símbolos não possam ser debatidos. Aliás, se dependesse de mim, não haveria símbolo algum. Mas percebo que, se a frase e o crucifixo representam uma identidade nacional, eles são válidos.

A legislação define Israel como um Estado laico, mas, como se sabe, a religião se pronuncia ali nas mais diversas áreas. Isso não compromete a laicidade? Compromete, sem dúvida nenhuma, e esse é um assunto extremamente problemático, que remete às origens do país. A própria criação de um Estado judeu que almeja ser laico já é uma contradição em si. E Israel paga um preço alto por não conseguir demarcar a fronteira entre Estado e religião. Para se ter uma ideia, lá não existe nem casamento civil. É sempre civil e religioso. Tudo é dominado pela religião.

Inclusive a sala de aula? Na educação, essa também é uma questão bastante delicada. Israel tem uma rede pública que é relativamente protegida da religião. Por outro lado, gasta muito dinheiro concedendo benefícios a grupos religiosos, que dominam todas as outras áreas e acabam por influenciar também o ensino. Vale lembrar que estamos falando de um país em guerra e de um povo que passou por um genocídio. Como a história da religião está muito atrelada à história sangrenta dos judeus, os dois departamentos facilmente se misturam. O Brasil, por suas raízes e pluralidade, teve muito mais facilidade em delimitar onde termina a religião e começa o Estado. E deve assegurar isso como uma conquista sagrada.

O senhor considera o Brasil um país tolerante? Não é uma resposta fácil. Uma coisa é a letra fria da lei, a outra é sua aplicação. Quando o Brasil reúne à mesa boas cabeças para refletir sobre conceitos universais, coloca-se muitas vezes entre os países mais avançados do mundo. Há uma lei contra o antissemitismo aqui que, até onde sei, não tem igual em outra parte. Assim como existem boas leis contra o racismo e a homofobia. O problema, portanto, não está na teoria, mas, de novo, no modo como ela se expressa. É nesse ponto que, apesar do verniz legal, podemos ser extremamente intolerantes em relação a toda e qualquer diferença.

Censurar obras de arte em nome da moral — como ocorreu com as da Queermuseu, em Porto Alegre, e com a performance no Museu de Arte Moderna de São Paulo — é expressão de intolerância? Sim. Desde que haja definição de faixa etária e avisos bem claros do que vai ser visto, tudo bem, a obra pode ser exibida livremente. Agora, é preciso distinguir o espaço público do privado. Se algum símbolo judaico fosse dessacralizado em lugar público, um outdoor ou um muro, eu reclamaria. Se um monumento macula a figura de Jesus Cristo e ofende os cristãos, não pode estar em uma praça. Já dentro de um museu, aonde vai quem quer, deve ser permitida toda forma de manifestação artística.

Há grupos exagerando no moralismo? É leviano achar tudo um exagero, mas não se pode dar poder de censura às pessoas que se sentem agredidas. Deve haver um limite aí. Até acho que algumas vezes levar um bom processo na cabeça não faz mal ao artista, para que ele aprenda que ser ousado requer qualidade. É importante existir ao mesmo tempo um Estado liberal em relação às artes e um Judiciário sensível o suficiente para analisar caso a caso e coibir discursos de intolerância e ódio.

O senhor já foi alvo de preconceito religioso? Há poucos anos, voltava da sinagoga usando um solidéu quando um rapaz passou por mim de bicicleta e gritou “sai daí, seu judeuzinho”. Nunca tinha experimentado nada parecido, mas não é a regra no Brasil.

Como vê a ascensão de grupos neonazistas nos tempos atuais? Dá medo. O Holocausto é muito recente. Há ainda gente viva que presenciou aquele horror. Outro dia ouvi o depoimento de um judeu americano que dizia, aos prantos: “Nunca imaginei ver essa semente nascendo no mundo outra vez”. Em nome desse pavor ainda evidente, consequência de uma marca que não se apaga, uma parcela da comunidade judaica no mundo acaba se apegando a líderes apenas pelo fato de inspirarem proteção.
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Publicado em VEJA de 11 de outubro de 2017, edição nº 2551
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