sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Ismos

 Marcelo Rubens Paiva*

Itamar Franco 

Itamar Franco assumiu a Presidência em 1992, depois do impeachment de Fernando Collor. Separado desde 1971, ele estava solteiro quando assumiu o cargo. Foto: Estadão

O itamarismo uniu petistas e tucanos e estabilizou a moeda: o dólar foi a menos de R$ 1

Sufixo nominal ismo vem do grego. Agrega seguidores de um mesmo pensamento, ideal, vício (alcoolismo, tabagismo), condição física (nanismo, autismo).

No jornalismo e meio acadêmico, o achismo é das práticas mais criticadas. Abusa do chute. Alguém escreve: “Isso vai acontecer”. O jornalismo de dados contesta: “Prove”. O colunista se finge de morto.

Movimentos culturais ganharam classificação: romantismo, realismo, surrealismo, modernismo. Cada qual tem semelhanças para serem amalgamadas numa mesma estética. Um ideal gera outro. Depois do monarquismo veio iluminismo. Do marxismo veio leninismo, que punha em prática o que a teoria defendia. Os pessimistas se esconderam na sombra do niilismo. Anarquismo e socialismo passaram a ser correntes de esquerda influentes.

Porém, com disciplina, comunistas logo tacharam numa campanha de difamação os primeiros de desordeiros, denominação que predomina, e os segundos de frouxos. Trotskismo e stalinismo se digladiaram. Posadismo era uma linha trotskista que acreditava que ETs iriam nos trazer o socialismo.

Na direita, surgiram o fascismo e o nazismo, que desidrata o indivíduo - nada mais do que um soldado numa peça da engrenagem social. Individualismo é a doutrina em estado de graça com o capitalismo e o consumismo. O liberalismo enxuga o Estado e deixa o mercado governar via pactos sociais e Pms.

Li outro dia: “Com a filiação de Sergio Moro, lulistas e ciristas uniram-se a bolsonaristas nos ataques ao desafeto”.

É uma redundância: petistas, lulistas e lulopetistas. O PT sempre foi encabeçado por Lula. Ciristas apoiam Ciro Gomes. O que diferem de getulistas, brizolistas, pedetistas? Cirista é aquele trabalhista que não leva desaforo pra casa, cujo traquejo político é instável.

Morismo ainda não virou doutrina. Assemelha-se ao sebastianismo: alguém aparecerá com sua espada para prender injustos e provar que a lei é para todos. O que tentou ser o bolsonarismo, que virou o ideal da destruição de todos os ismos - ideologias, instituições, adversários, que chama de inimigos, leis, minorias -, e propôs a instauração de um governo negacionista, que não aceita o diferente.

Mas existe uma ideologia desprezada, que merecia mais atenção: itamarismo. Não deu golpe no antecessor, nem lutou pela reeleição como o sucessor. Montou um governo com petistas e tucanos. Estabilizou a moeda, diminui a inflação. O PIB cresceu 10%.

Combateu com Betinho a miséria. Pediu a fabricação de Fuscas e Kombis; hoje o Brasil as exporta reformatadas. Solteiro bon vivant, gostava de carnaval. Nem ligava se a acompanhante era recatada e do lar. E o dólar foi a menos de R$ 1. Fez bem ao Brasil. 

* Marcelo Rubens Paiva é escritor, dramaturgo, roteirista, há anos trabalha na imprensa como cronista do mundo contemporâneo, de olhos atentos à política, cultura, neuroses urbanas de hoje e do passado

Fonte:  https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,ismos,70003915028

O domínio cristão, segundo Tom Holland

 Rogério P. Severo*
 
.(Reprodução)

Algumas marcas do cristianismo em nossa cultura estão visíveis por toda a parte — em igrejas e templos, em procissões e festas populares, nos calendários e nos nomes próprios. Outras, no entanto, enraizaram-se e difundiram-se tão completamente que deixaram de ser discerníveis. Funcionam em nós como óculos por meio dos quais vemos a realidade, sem que eles próprios recebam o foco de nossa atenção. Nas últimas décadas, à medida que as águas do cristianismo recedem, algumas das estruturas mais arcaicas da nossa visão de mundo cristã reemergiram, mostrando seu aspecto particular e contingente, e ao mesmo tempo a importância inegável que têm para pessoas como nós, que vivemos em países como o Brasil. Esse é o tema principal do livro Dominion: the making of the Western mind (Londres: Little, Brown & Co., 2019), do historiador britânico Tom Holland. Ainda não traduzido para o português, o livro contém um panorama da evolução do cristianismo e seus desdobramentos nas culturas seculares contemporâneas. Os direitos humanos, a valorização da igualdade e da liberdade, a ideia de que os mais fracos e vulneráveis são intrinsecamente dignos e merecedores de proteção, o casamento consensual, a nossa moral sexual, a indignidade da escravidão e a ideia de progresso — tudo isso, segundo Holland, decorre de duas ideias cristãs: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós são um só em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28) e “Os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos” (Mateus 20:16).

Essas duas ideias arraigaram-se tão profundamente na nossa cultura que tendemos a não vê-las como especificamente cristãs. Em vez disso, a sua manifestação cristã tende a parecer-nos como uma encarnação particular de uma algo mais universal e culturalmente neutro. A tese central de Holland é que isso é falso. Trata-se de uma inversão gestada pelo iluminismo, e da qual somos herdeiros. Aquilo que era primariamente cristão foi descolado de sua base especificamente religiosa e metafísica e reapresentado em termos leigos, seculares, ou racionais. As manifestações religiosas dessas ideias foram então criticadas como estreitas e obscuras. Mas, argumenta Holland, essas críticas não fariam sentido se não tivessem sido formuladas num ambiente já saturado de cristianismo. A crítica à idolatria e à corrupção das instituições religiosas promovidas pelos iluministas apenas repetiu o padrão argumentativo e moral de protestantes contra católicos, que por sua vez repetiu o padrão manifesto por cristãos medievais contra pagãos. A ideia básica é a mesma: há uma ilusão obscura que está sendo cultuada (um falso deus, um ídolo) e uma instituição que explora os mais fracos. Contra a obscuridade e a exploração, busca-se a luz universal da razão e a dignidade intrínseca de todos os seres humanos. Gregos e romanos antigos não entenderiam essas ideias, como tampouco muçulmanos, hindus ou chineses. Nós não apenas as entendemos, mas as formulamos em uma miríade de doutrinas e ideologias que disputam a hegemonia cultural no interior de nossa tradição. Liberais e socialistas, ateus e religiosos, os movimentos feminista, negro e gay (mesmo nas suas versões “woke” dos últimos anos), tanto quanto os movimentos antiaborto e contra o casamento homossexual são todos herdeiros das ideias e valores básicos do cristianismo, diuturnamente celebrados em canções populares de amor e em histórias e filmes de heróis hollywoodianos. Boa parte das querelas que assolaram o ocidente nos últimos séculos, segundo Holland, são como disputas de seitas no interior do cristianismo. Um samba de uma nota só, por assim dizer; ou variações sobre um mesmo tema.

O autor relata que a ideia para o livro surgiu de seu crescente estranhamento daquilo que percebeu em culturas não cristãs antigas e medievais, sobre as quais escreveu diversos outros livros (dois deles, Fogo persa e Milênio, já traduzidos para o português). A mentalidade antiga ou islâmica, ele sustenta, é estranha e incompreensível para nós de um modo que a mentalidade cristã medieval não é. Não havia nas culturas não cristãs do mundo antigo e medieval nenhuma doutrina de direitos humanos, a escravidão era largamente aceita e praticada, os casamentos não eram monogâmicos, as mulheres não eram vistas como iguais aos homens em nenhum sentido relevante, não havia nenhuma ideia de progresso moral ou social, e o amor e a bondade, que hoje cantamos em prosa e verso, eram vistos como fraquezas. A democracia ateniense, diferentemente do que pode parecer, não se baseava em direitos individuais, como acontece nas democracias modernas. Os relatos históricos, a literatura e a mitologia da antiguidade consagram valores e práticas que hoje tomaríamos como francamente abomináveis. Holland descreve em detalhes o horror (para nós) das práticas de crucificação de criminosos, prisioneiros e escravos, a prática corriqueira de homens livres romanos de terem relações sexuais com quem quisessem e como quisessem (que hoje chamaríamos de estupro), a glorificação da morte de estrangeiros e inimigos como uma manifestação de poder e força (que hoje veríamos como genocídio). Heróis e deuses do mundo antigo destacavam-se pelos ardis e pela capacidade de se imporem, exatamente o oposto do padrão heroico que herdamos da cristandade medieval: o do herói que se sacrifica pelos mais fracos (o cavalheiro medieval, tanto quanto Robin Hood ou os super-heróis do cinema contemporâneo), o herói que encarna o amor sacrificial cristão, a capacidade de colocar-se a serviço do bem da pessoa amada, mesmo que isso implique autossacrifício. É o autossacrifício amoroso que dá sentido à vida do herói medieval e moderno, e não a sua excelência nas artes marciais ou suas conquistas materiais. Nada disso faria muito sentido a um grego ou romano antigo, ou a um muçulmano ou hindu. E no entanto, é tão natural para nós que chegamos a achar que não se trata de uma peculiaridade cristã.

Essa tese de Holland não é nova. Podemos encontrá-la em diversos outros historiadores recentes, que vêm apontando as origens cristãs de diversos aspectos da nossa mentalidade atual. Por exemplo, Rodney Stark argumentou (em For the glory of God) que a revolução científica moderna foi um produto dos desenvolvimentos internos ao cristianismo do final da idade média, do mesmo modo que os movimentos modernos pela abolição da escravidão tiveram sua origem em comunidades cristãs, especialmente a dos quacres. Brian Tierney (em The idea of natural rights) argumenta que nossa ideia contemporânea de direitos é um desenvolvimento do direito canônico do século XII. Kyle Harper sustentou (em From shame to sin) que a primeira revolução sexual não aconteceu na década de 1960, mas na idade média. Movimentos feministas recentes, como o “me too”, não fariam sentido a não ser num contexto em que a moral sexual é restritiva e em que se espera que as pessoas, sobretudo os homens, sejam capazes (e devam) conter os seus impulsos sexuais. A novidade do livro de Holland, e também o seu mérito, está em generalizar essas diversas análises particulares, mostrando que há uma espécie de visão de mundo ou imaginário cristão que molda o nosso modo de pensar e viver não apenas nos países onde a maioria da população é cristã, mas em todos os países nos quais houve ou está havendo um processo de secularização. O cristianismo, ele sustenta, alcançou seu incrível domíno primeiramente por meio de conversões (de povos pagãos) e, mais recentemente, pela secularização das sociedades. A ideia de que há um conjunto de leis humanas que são universais e às quais as diversas religiões particulares têm de se conformar, por exemplo, é uma ideia tipicamente cristã (à qual, aliás, os fundamentalistas islâmicos hoje em dia se opõem). O próprio conceito de religião, e as ideias a ele associadas de liberdade de prática e culto e de separação entre Estado e igreja, são criações do cristianismo. Aquilo que hoje chamamos de judaísmo não era na antiguidade uma religião, como tampouco o eram o que hoje chamamos de hinduísmo, budismo, taoísmo ou religiões africanas ou indígenas. Essas tradições e povos originalmente não se concebiam como tendo religiões. Mas nós, que vivemos em sociedades seculares contemporâneas, não hesitamos em usar a palavra “religião” para descrever isso que nos parece natural e universal: todos os povos têm as suas respectivas religiões e todos têm o direito de exercê-las! Para nós é difícil imaginar que as coisas possam ser diferentes.

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Tom Holland

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Mas elas podem ser diferentes. Um exemplo claro disso são as ideologias fascistas e nazistas do século vinte. Essas ideologias negam tanto a ideia de que “judeus e gregos” são iguais quanto a ideia de que os “últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos”. São ideologias que afirmam a identidade de um povo acima dos demais e que têm desprezo pelas manifestações de fraqueza ou vulnerabilidade. São, nesse sentido, a antítese daquilo que há de mais central ao cristianismo.

O livro de Holland mostra o caráter historicamente contingente (portanto não universal nem necessário) do cristianismo, mas ao mesmo tempo exibe a incrível atração que ele exerce sobre todos nós, mesmo em sociedades largamente seculares. Isso que hoje palpavelmente percebemos como um recesso e aparente enfraquecimento do cristianismo nas sociedades contemporâneas é largamente um produto do seu próprio desenvolvimento. Há um padrão que se repete nessa história e que agora experimentamos em escala global. Os cristão medievais criticaram a idolotria pagã. Os protestantes criticam a idolatria católica. Os iluministas e ateus criticaram a idolatria cristã. Nesses três movimentos, o mesmo ciclo se repete, induzindo uma concepção progressivamente mais rarefeita do sagrado. Até que, por fim, de tão rarefeita, a ideia do sagrado parece desmanchar-se no ar. Esses ciclos, no entanto, não são estranhos ao cristianismo, mas produtos de sua lógica interna, que desde o início anuncia o seu final apocalíptico. A história cristã assim descreve um arco que repete o da vida do Jesus histórico: nascimento, crescimento, morte e ressurreição. E do mesmo modo que foi traído por um discípulo por ele mesmo escolhido, assim também foi no interior das culturas cristãs que surgiram os movimentos mais fortemente ateus e seculares.

É difícil não experimentarmos hoje um certo sentimento apocalíptico, a sensação de que algo chegou ao fim. No entanto, quase ninguém se atreve a dizer o quê. Ficamos então sem saber em que se apoiar. Em épocas desse tipo a reflexão tende a voltar-se para os fundamentos. O belo livro de Tom Holland pode ser visto como uma contribuição para uma resposta ainda não encontrada para os anseios e preocupações mais profundos e básicos de nosso tempo. Um livro altamente recomendável para todos os que compartilham dessa mesma sensibilidade.

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San Martín compartiendo su manto por Blasco de Grañén, c. 1440

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[Gostaria de agradecer a Flavio Williges, Bárbara Vianna, Ricardo Mendes, Mariana Vasconcellos e Luis Fernando Barzotto pela leitura caridosa e pelos comentários críticos a uma versão anterior desta resenha.]

*Rogério P. Severo é Professor Adjunto no Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e PhD em Filosofia pela University of Illinois.

Fonte:  https://estadodaarte.estadao.com.br/dominion-tom-holland-rogerio-severo/

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Escutar, acompanhar, amar. Um percurso repleto de gratidão.

Alfredo Sampaio Costa SJ*

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Queremos com estas simples reflexões evocar nossa vida espiritual na sua riqueza e complexidade. Trazer de volta sentimentos vividos, memórias fortes de experiências marcantes de encontros e desencontros, saudades e esperanças. Apesar de defendermos que nossa vida espiritual é “nossa”, “pessoal”, se queremos ser sinceros temos que admitir que não vivemos nossa vida sozinhos. E que o que dá sabor, gosto, prazer à vida é que ela é vivida com muitas outras pessoas! Na nossa tradição cristã desde tempos longínquos encontramos a figura dos mestres das escolas filosóficas gregas, seguidos pelos “Padres e Madres do deserto”, pelos “staretz” russos, pelos “gurus” do Oriente, e que hoje conhecemos como acompanhantes ou orientadores espirituais. Eles se tornam companheiros e companheiras imprescindíveis no caminho.

Se quiséssemos escolher três palavras para evocar atitudes fundamentais básicas para nossa vida espiritual, poderíamos tomar estas: Escutar – Acompanhar – Amar. Poderíamos inclusive dizer que a última (ou seria a primeira?) – AMAR – engloba as outras duas? Só ama de verdade quem sabe escutar e está disposto(a) a acompanhar! E não pode acompanhar de verdade quem não escuta o outro autenticamente!

Essas reflexões terão um efeito diferenciado conforme o público que as vai ler. Para aqueles e aquelas que já provaram de uma orientação espiritual, seja como acompanhantes ou acompanhados, terá a marca de uma renovação nesta importante missão. E para quem ainda não teve essa oportunidade, quiçá seja um estímulo para abrir-se à importância que cada uma destas 3 palavras tem na vida de todos nós!

Comecemos pelo ESCUTAR.

Começando pelo “escutar” 

Creio que se há algo importante a ser levado a cabo por nós, é aprimorar nossa capacidade de escuta. Pode vir em nosso socorro o famoso texto de Rubem Alves intitulado “Escutatória”[1].  Sigamos alguns trechos e os comentemos oportunamente.

“Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil […]

Vivemos em um mundo onde todo mundo quer falar e não somente. Quer que a “sua” fala prevaleça sobre as demais. Já “aprender a escutar” não parece ter muita atração realmente num planeta onde a grande maioria já se considera “preparados e preparadas” para falar sobre tudo sem precisar ouvir ninguém.

Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.” Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor […]”

Quantas conversações transformam-se em disputas onde só um alcança a vitória! Não aguentamos ouvir o que a outra pessoa diz sem interpor imediatamente nossas ideias!

Estamos muito longe da “liberdade interior” e da “humildade de coração” do discípulo e da discípula que quer realmente aprender do outro um ensinamento para a vida!

É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades.

Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado”.

Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.” Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.

Uma das piores experiências que podemos ter na vida é nos abrirmos a alguém de corpo e alma e notar que a pessoa não está nos escutando em profundidade. As marcas ficarão gravadas para sempre, afetando negativamente futuras tentativas de abertura a um familiar, a um amigo e inclusive a Jesus e a Deus Pai.

“Quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. E música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar. A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem. No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós – como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Me veio agora a ideia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa – quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar. Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto…” (Rubem Alves, O amor que acende a lua, pág. 65.) 

Começar a ouvir coisas que não ouvíamos! Eis o desafio e a meta diante de nós na vida espiritual e no trato com as pessoas!

 

Ouvir, ouvir-se: as audições que dão sentido à existência

Só tomamos consciência de si através do sentir, experimentamos nossa existência pelas ressonâncias sensoriais e perceptivas que não cessam de nos atravessar.

Sentir é ao mesmo tempo desdobrar-se como sujeito e acolher a profusão do exterior.

Só aquilo que faz sentido, de maneira ínfima ou essencial, penetra o campo da consciência, suscitando assim um instante de atenção[2].

O homem abre uma passagem na sonoridade incessante do mundo ao emitir sons ou provocando-os por suas palavras, por seus feitos e gestos. Mesmo fechando os olhos, os sons circunstantes o desguarnecem quando ele pretende se defender deles, e eles superam os obstáculos fazendo-se ouvir, indiferentemente da intenção do indivíduo. Os ouvidos sempre se abrem ao mundo, “não respeitando nem porta nem clausura alguma, como de fato acontece com o olho, com a língua e com outras aberturas do corpo. Por isso me esforço para que sempre, todas as noites, continuamente, eu possa ouvir, e através do ouvir, perpetuamente aprender”[3].

Diante da palavra escutada, penetrado por ela não obstante a sua vontade, o homem está sempre em posição de acolhida ou de recusa. Ele entra ou não em ressonância. O som é mais enigmático que a imagem, já que ele se dá no tempo e no fugaz, aí onde a visão permanece impassível e explorável. Para identificá-lo é necessário permanecer na escuta, e ele não se renova permanentemente, e desaparece no exato instante em que é ouvido[4].

A sonoridade do mundo lembra sua contingência, lá onde os outros sentidos são dóceis a novas solicitações: rever uma paisagem de outono ou um pôr de sol sobre a colina, degustar hoje e amanhã o sabor de um prato ou de um vinho, recorrer ao mesmo perfume, acariciar novamente a face da pessoa amada. O som se perde e foge ao nosso controle bem como à vontade sua de ouvi-lo novamente, salvo através do recurso a instrumentos técnicos que o controlam e o difundem à vontade[5].

Ser ouvido significa ser compreendido. A audição penetra para além do olhar, ela imprime um relevo aos contornos dos acontecimentos, povoa o mundo com uma soma inesgotável de presenças, habita as existências defraudadas. Ela sinaliza o sussurro das coisas aí onde nada seria decifrável de outro modo. O som, assim como o odor, revela o que está para além das aparências, forçando as coisas a testemunharem suas presenças inacessíveis ao ouvido.

Ao escutar o relato da vida de alguém, na perspectiva de poder participar dessa vida oferecendo o ouvido e o coração, fazemos a experiência de comunhão e solidariedade com o outro. O que terá um impacto ainda maior quando se tratar de “dar ouvidos” aos clamores dos mais frágeis e descartados da nossa sociedade.

Querer ouvir o outro, desejar profundamente ouvir a si mesmo, sempre no intuito de penetrar ainda mais profundamente no sentido que reveste a nossa existência e as dos nossos irmãos e irmãs, faz-nos encarnar a atitude existencial fundamental do próprio Cristo, homem-para-os-demais, Encarnação do Amor inesgotável de Deus por toda a humanidade sofredora.

*Pe. Alfredo Sampaio Costa SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

[1] Fonte: http://rubemalves.locaweb.com.br/hall/wwpct3/newfiles/escutatoria.php . Acesso em 19/11/2021.

[2] Cf. David Le Breton, Antropologia dos Sentidos, Petrópolis: Vozes 2016, 27.

[3] F. Rabelais, «Le tiers livre », Ouvres Completes. Paris: Seuil 1979, 429.

[4] Cf. David Le Breton, Antropologia dos Sentidos, 129-130.

[5] Cf. David Le Breton, Antropologia dos Sentidos, 134.

Fonte: https://faculdadejesuita.edu.br/fajeonline/palavra-presenca/escutar-acompanhar-amar-um-percurso-repleto-de-gratidao/  - Imagem da Internet

As mil facetas de Joséphine Baker, a primeira mulher negra a entrar no Panteão francês

 

Joséphine Baker de férias na França com seus fihos, em 25 de agosto de 1964. REPORTERS ASSOCIES/Gamma-Rapho via Getty Images 

Símbolo da resistência francesa na Segunda Guerra Mundial, a artista e militante antirracista Joséphine Baker será a primeira mulher negra a entrar no Panteão, nesta terça-feira (30). Na cripta do monumento situado no 5º distrito de Paris repousam os restos mortais ou memoriais de personalidades que marcaram a França, como os filósofos Voltaire (1694-1778) e Jean-Jacques Rousseau (1712-1789) . Apenas cinco mulheres foram homenageadas até hoje, sendo a última delas Simone Veil, em 2018.

Taíssa Stivanin, da RFI

Nascida em 1906 no Missouri, nos Estados Unidos, a intérprete da canção J’ai Deux Amours (Tenho Dois Amores), chegou à França aos 19 anos e ganhou a cena parisiense, se apresentando com os seios à mostra, quase nua, quebrando tabus e ignorando proibições. Como uma verdadeira camaleoa, ela assumiu, durante seus 68 anos, diversas identidades e papéis: artista, espiã e ativista de direitos cívicos. Ao morrer em 1975 em Paris, Joséphine Baker deixou um legado.

A artista franco-americana foi enterrada em Mônaco e seu corpo não será transferido ao Panteão para a cerimônia desta terça-feira. Desde 2013, sua família solicita ao governo francês sua entrada no monumento. O dossiê foi examinado pela primeira vez em junho pelo Palácio do Eliseu e veio acompanhado de uma petição lançada há dois anos, que reuniu 38 mil assinaturas, explicou Brian Bouillon Baker, um dos filhos adotivos de Baker, à RFI. “Estamos todos ansiosos. Nós nos sentimos surpresos, emocionados e orgulhosos, um orgulho que provavelmente nossa mãe também teria sentido, mesmo se, claro, ela nunca tenha reivindicado essa homenagem no Panteão”, disse.

Brian Bouillon Baker também contou que se reuniu secretamente com o presidente francês, Emmanuel Macron, em seu escritório, para conversar sobre o assunto. O chefe de Estado pediu que a entrada de Joséphine Baker fosse mantida em sigilo até agosto deste ano, mas garantiu que ela receberia a homenagem. A razão principal, teria dito Macron, foi o papel da artista franco-americana como espiã durante a resistência nazista e seu engajamento contra o racismo.

Em 28 de abril de 1963, em um dos momentos mais marcantes de sua vida, Joséphine Baker participou da Marcha pelos Direitos Cívicos em Washington, usando seu uniforme das Forças Francesas livres. Ela discursou diante da multidão ao lado de Martin Luther King e Daisy Bates. Joséphine Baker falou da liberdade que tinha na França e os locais que não eram submetidos à segregação racial, vivenciada na época de maneira cotidiana pelos negros americanos.

Em uma rara gravação do Instituto Nacional do Audiovisual francês (INA), dos anos 1970, a cantora contou como foi sua chegada à França. “Um dia, em setembro, eu deixei a América do Norte. O tempo estava nublado. Cheguei a Paris com o sol da França dentro do coração. Sabia que na França teria liberdade de corpo e de espírito”, declarou.

O presidente francês, Emmanuel Macron, conta o filho da cantora, também é um fã de sua música, mas a decisão de homenageá-la no Panteão se deve principalmente à sua atuação no período da Resistência. “O mais importante foi sua ação e seu papel durante a Segunda Guerra Mundial”, declara.

Joséphine Baker arriscou a vida pela França. Em setembro de 1939, ela se tornou agente de contraespionagem e, em 1940, se engajou no serviço secreto da França Livre, o serviço de resistência criado em Londres pelo general Charles de Gaulle após o histórico apelo de 18 de junho do mesmo ano. Em 1945, a artista franco-americana se mudou para o Marrocos, onde apoiou as tropas americanas e aliadas na região, obtendo informações estratégicas privilegiadas.

Joséphine Baker recebe a legião de honra das mãos do general Vallin, ex-comandante das forças áereas francesas livres, em 1961, em seu castelo em Milandes, no sudoeste da França. © Keystone-France/Gamma-Keystone via Getty Images

Doze filhos adotivos

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, Joséphine Baker e seu marido, o compositor Jo Bouillon, descobriram que não podiam ter filhos. Eles então decidiram adotar 12 crianças, de diferentes partes do mundo. A família vivia no castelo de Milandes, em Dordogne, no sudoeste da França, alugado desde 1937. No local, ela desenvolveu um complexo turístico vanguardista que batizou de “Vilarejo do Mundo.” Em 1956, Joséphine Baker se despediu dos palcos para se dedicar à família, mas o “adeus de verdade” só aconteceria em 1959.

Em 1966, Joséphine Baker foi para Dakar participar como convidada do primeiro festival de Artes da Cultura Negra em Dakar. Em seus discursos, ela promoveu a união dos povos e a fraternidade e não perdeu a ocasião de falar sobre seus filhos de diferentes origens e etnias, que ela chamava de “tribo do arco-íris”.

Seis anos depois de chegar a Paris, Joséphine Baker já era uma celebridade Gamma-Keystone via Getty Images – Keystone-France

Artista, espiã, resistente, ativista. As múltiplas facetas de Joséphine Baker inspiram artistas do mundo todo, inclusive brasileiros. A atriz brasileira Aline de Luna está em Paris com o espetáculo “Joséphine Baker, a Vênus negra” e conversou com a RFI Brasil sobre como é incorporar o mito. “Estar em Paris, nesse lugar onde ela se sentiu acolhida dessa maneira e onde ela se tornou a estrela que ela, foi já é uma emoção incrível, além de poder fazer esse espetáculo aqui e perto dessa cerimônia que acontecerá no Panteão que é a entrada dessa mulher estrangeira, negra, dos Estados Unidos, sobrevivente. É incrível, e faremos a apresentação toda em francês, na língua dela.”

Fonte:  http://desacato.info/as-mil-facetas-de-josephine-baker-a-primeira-mulher-negra-a-entrar-no-panteao-frances/

Livro de Frances Lappé, a madrinha 'da vida baseada em plantas', faz 50 anos

 Steven Kurutz, The New York Times

Diet 

Frances Moore Lappé fotografada em Belmont. Autora de 'Diet for a Small Planet', publicado há 50 anos, se tornou líder do vegetarianismo  Foto: Cody O‚ÄôLoughlin/The New York Times

Autora de 'Dieta Para um Pequeno Planeta', que estimulou um movimento em direção ao vegetarianismo, relembra seu legado

01 de dezembro de 2021 | 17h00

O último hambúrguer de Frances Moore Lappé foi em 1971, o mesmo ano em que publicou Diet for a Small Planet, seu influentíssimo livro sobre comida e sustentabilidade que praticamente criou o nicho editorial da política alimentar e transformou Lappé naquilo que ela mesma, com certo humor autodepreciativo, já chamou de "Julia Child do circuito da soja".

Em Diet (Dieta Para um Pequeno Planeta, em português), Lappé argumentou que os americanos comem muita carne, especialmente carne bovina, e que nossas refeições centradas na carne são um enorme desperdício de recursos. Tanto nosso corpo quanto o planeta seriam mais saudáveis se, em vez disso, tivéssemos uma dieta baseada em vegetais.

Naquela época, o vegetarianismo era um jeito estranho, senão herético, de se alimentar. O centro do prato americano estava reservado para um bife, uma grande costeleta de porco. No prefácio de certa edição de Diet, ela se lembra de quando tentou promover seu livro em um talk show local da TV de Pittsburgh em meados da década de 1970. Lappé foi ao ar ao lado de um especialista em Ovnis e a única pergunta que o apresentador lhe dirigiu foi: "O que você acha que eles comem lá em Ovnis?".

Ser vegetariano também era um desafio logístico naquela época. Mollie Katzen – que leu Diet aos 20 anos, quando ainda era estudante universitária, e tempos depois o usou como referência quando ajudou a fundar o restaurante vegetariano Moosewood, em Ithaca, Nova York, no ano de 1973, de onde veio seu também influente Moosewood Cookbook – lembrou que muitos ingredientes não eram fáceis de encontrar nos supermercados da época.

"Não havia ervas frescas em lugar nenhum", lembrou Katzen, de 71 anos, em uma entrevista recente. "As pessoas não cortavam cebolas. Só usavam cebola em pó. Você não conseguia nem encontrar uma garrafa de azeite – era só óleo." Adotar um regime vegetariano, observou Katzen, era "definitivamente uma coisa bem alternativa".

Meio século depois, Lappé não só viveu para ver Diet completar 50 anos – uma edição de aniversário atualizada saiu em setembro –, mas também para ver suas ideias sobre alimentação e nutrição serem adotadas por milhões de americanos e até mesmo gerar chavões de marketing para a indústria do bem-estar. 

Sopa de cenoura

Numa tarde semanas atrás, Lappé recebeu o repórter em sua casa, numa vila arborizada nos arredores de Boston, para falar sobre como comíamos no passado e como comemos agora. Apesar de seu sucesso – Diet vendeu mais de 3 milhões de cópias e ela foi agraciada com o Right Livelihood Award, uma espécie de Prêmio Nobel alternativo – Lappé, ou Frankie para os íntimos, é uma pessoa bem pé no chão, uma mulher alegre de 77 anos. Ela deu as boas-vindas a seu convidado com uma quente e reconfortante tigela de sopa de cenoura, uma das receitas clássicas de Diet, que ela preparara especialmente naquela manhã.

"Fiz essa sopa para Betty Ballantine", contou Lappé com todo o entusiasmo, se referindo à editora que ficara tão impressionada com a mensagem de Lappé que se arriscara a pedir que ela escrevesse um livro. Até então, ela não tinha publicado nada, mas, a partir daí, escreveu mais 19 livros sobre tópicos que vão desde a sustentação de nossa democracia até a criação de filhos sem TV.

Diet
'A recompensa não é a quantidade de vegetarianos que criei', comenta Frances Moore Lappé, fotografada em sua casa de Belmont, em Massachusetts Foto: Cody O‚ÄôLoughlin/The New York Times

Ao longo dos anos, muitas pessoas categorizaram Lappé como chef ou autora de livros de receitas, a exemplo de outra de suas contemporâneas, a ativista alimentar Alice Waters. Na verdade, foi Ballantine quem sugeriu que Lappé incluísse receitas em Diet, para suavizar o argumento e aumentar o potencial de venda daquilo que era essencialmente um manifesto político. Muitas das receitas foram colaborações de amigos.

Lappé garantiu que nunca se imaginara como líder de uma revolução travada estritamente na seção de produtos hortifrutigranjeiros. Como ela disse: "A recompensa não é a quantidade de vegetarianos que criei". Em vez disso, ela fica feliz quando as pessoas vêm até ela e lhe dizem: "Li seu livro e ele mudou minha vida".

Se você trocou o peru pelo tofu neste Dia de Ação de Graças, em vez de agradecer a um pássaro, poderá agradecer a Lappé. O inventor da proteína vegetal, Seth Tibbot, leu Diet e, como contou aos produtores de um documentário da Vice sobre o futuro dos alimentos, o livro mudou sua vida. Outro discípulo é Ethan Brown, fundador do Beyond Meat. E, é claro, você pode incluir a própria autora entre aquelas pessoas cuja vida foi radicalmente mudada pelas ideias de Diet.

Lappé tinha 25 anos e estava fazendo pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley, quando começou a questionar o propósito de sua vida. Como muitas pessoas de sua geração, ela leu The Population Bomb (A Bomba Populacional), o livro de 1968 no qual Paul Ehrlich previa (erroneamente, ao que parece) uma fome iminente por causa da superpopulação, e foi inspirada pelo movimento ecológico que levou à criação do primeiro Dia da Terra.

Lappé também estava conhecendo novos e diferentes alimentos, como o tofu e o triguilho. Ela começou a fazer cursos sobre ciência do solo e se debruçar sobre relatórios acadêmicos na biblioteca agrícola de Berkeley, para entender melhor o sistema alimentar e a fome global.

Ela ficou surpresa com suas descobertas: mais da metade da área cultivada nos EUA da época se destinava à alimentação do gado, o que significava que, se esses recursos fossem redirecionados, haveria comida mais do que suficiente para todos. Lappé imprimiu um folheto e saiu distribuindo por Berkeley. Por intermédio de uma amiga, um livreto expandido chegou a Ballantine.

Diet foi um best-seller improvável, um argumento contundente contra o bom e velho hambúrguer, com gráficos bem assertivos sobre as safras americanas e uma ilustração de grãos de milho e trigo logo na capa. Mas foi publicado durante "uma época muito idealista para a juventude americana, muitos estudantes universitários como eu estavam em busca de uma forma alternativa de viver que tivesse menos impacto na Terra. Havia também essa ideia de que o pessoal é político. O livro dela preencheu todas as lacunas", acrescentou Katzen.

TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Fonte:  https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,livro-de-frances-lappe-a-madrinha-da-vida-baseada-em-plantas-faz-50-anos,70003913691

Margaret Atwood diz que 'solução para o planeta precisa vir das pessoas', na Flip

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A escritora canadense Margaret Atwood criou a palavra 'ustopia' para explicar a união da 'utopia' com a 'distopia' Foto: REUTERS/Kyaw Soe Oo

A autora do best-seller The Handmaid's Tale citou a ativista Greta Thunberg em debate com o cientista Antonio Nobre. Encontro foi promovido pela Festa Literária Internacional de Paraty e tratou da natureza e de 'utopia' e 'distopia'

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2021 | 22h41

A 19º edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que acontece em formato virtual até o próximo dia 5 de dezembro, tem proporcionado encontros e debates que têm como eixo principal a questão das "plantas e florestas". Foi a partir desta ideia e dos conceitos de utopia e distopia que se desenrolou, nesta quarta-feira, uma das mesas mais aguardadas do evento: a reunião entre a escritora canadense Margaret Atwood e o cientista Antonio Nobre

Entre outras obras, Margaret Atwood é autora de The Handmaid's Tale (No Brasil o título é "O Conto da Aia). O livro, lançado em 1985, inspirou uma série de enorme sucesso e muitos prêmios sobre um regime totalitário que trata as mulheres como propriedade.

A obra de Margaret fez com que ela se tornasse uma espécie de fonte primária quando o assunto é distopia. Não à toa, ela criou a palavra "Ustopia". "Utopia e distopia são duas metades da mesma coisa. Cada distopia tem um pouco de utopia dentro dela", falou a autora. 

Ao lado da autora, Antonio Nobre, cientista com trabalhos reconhecidos sobre  mudanças climáticas e aquecimento global, foi quem trouxe a questão da distopia para dentro do tema proposto pela Flip: "A perda da conexão do ser humano com a articulação da vida pela natureza está na origem do que entendo como distopia", falou. 

Questionada pela escritora e jornalista portuguesa Anabela Mota Ribeiro sobre a crise climática e problemas envolvendo o descaso do ser humano com a natureza, Margaret foi direta: "O problema é que os políticos são pensadores de curto prazo que pensam em como se reeleger", disse. Para ela, a solução para o planeta precisa vir do "público em geral" e de pessoas como a jovem ativista Greta Thunberg. Ainda assim, a escritora advertiu para a necessidade de explicar às pessoas que a defesa da natureza não significa, por exemplo, a perda de empregos.

"A natureza está em você. Cada vez que você respira, você respira a natureza. A sobrevivência de nós nossa sobrevivência depende da natureza. Digo para os jovens que  o problema não é meu, é deles", brincou Margaret, que tem 82 anos.

Perguntado sobre quem protege as plantas e a natureza ameaçada, Nobre foi enfático: "As plantas só podem ser protegidas pela consciência. Só assim pode ser protegida da distopia em que vivemos", disse.

Mas foi a poesia de Margaret que encontrou a metáfora certa para resumir o tema da mesa: "Não estamos separados da natureza, do tempo ou do ciclo da vida. Achamos que transcendemos a natureza,  mas não é bem assim. Isso é o agora, daqui a 5 minutos será outro momento. Observamos isso nas flores. Uma flor é um botão. Ela vai desabrochando, se abrindo e murchando. Com algumas flores, tudo isso pode acontecer em apenas uma noite apenas...Parece triste, mas vamos aproveitar as flores" , falou.

Fonte:  https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,na-flip-margaret-atwood-diz-que-solucao-para-o-planeta-precisa-vir-das-pessoas,70003913889?utm_source=estadao:ibope&utm_medium=newsletter&utm_campaign=conectado:e&utm_content=link:::cultura&utm_term=::::20211202

El hombre y la máquina

Artículo Luis Meyer

transhumanismo 

Ilustración Carla Lucena

Los avances tecnológicos prometen continuar mejorando nuestra salud y nuestras condiciones de vida, pero el desarrollo de ámbitos como la inteligencia artificial o la edición genética marca un camino inesperado hacia el transhumanismo. Una corriente que ambiciona trascender las capacidades humanas normales a través de la tecnología y sobre la que los expertos reclaman un consenso ético y regulatorio antes de que se torne realidad.

«El poder superior de una máquina se manifiesta en su velocidad, que es mucho mayor que la del proceso del cerebro humano a la hora de calcular las consecuencias». Hannah Arendt señalaba en La condición humana las virtudes de la inteligencia artificial, pero también sus carencias: «Eso no es lo que logra erigir un mundo, igual que no lo son otros procesos obligatorios de la vida, como el trabajo y el consumo». La filósofa posiblemente desconocía la expresión «inteligencia artificial», acuñada solo dos años antes y aún con poco recorrido fuera de los entornos estrictamente informáticos. Pero la describió con puntería sintética en su monumental ensayo de 1958, donde incidía en la rapidez no solo de las computadoras, sino de la manera en que empezaban a convivir con las personas. «La embestida de la velocidad», resumía la autora. Una tendencia que ha cristalizado en un hecho que hoy nadie discute: la tecnología lo inunda todo e influye en la evolución humana a un ritmo endiablado.

Tom Chatfield, tecnólogo y columnista de la BBC, propuso recientmente equiparar los 4.700 millones de años de nuestro planeta a las 24 horas de un día: «Solo los últimos 20 minutos han visto el surgimiento de los mamíferos, lo medianamente humano ha existido durante aproximadamente un minuto y la historia registrada de la humanidad abarca la última décima de segundo –la Revolución Industrial cinco milésimas–, momento en el que nuestra analogía se vuelve demasiado microscópica para ser útil». Chatfield no pretendía dar una lección de humildad, sino todo lo contrario: «Incluso en el contexto de varios miles de millones de años de historia, los últimos siglos humanos han sido asombrosos. Nuestra especie ha remodelado la biosfera de su planeta, y es la causa de cambios en el terreno, los océanos y el clima a una escala que solo los impactos de asteroides o siglos de erupciones volcánicas apocalípticas igualaron anteriormente». Y remata: «Hemos introducido algo exponencial en las ecuaciones del tiempo planetario, y ese algo es la tecnología».

Román Abadías: «No es descabellado que en 20 años llevemos el teléfono implantado en el cerebro»

Esa cualidad exponencial quedó reflejada en la ley de Moore (formulada en 1965 por Gordon E. Moore, cofundador de Intel), según la cual aproximadamente cada dos años se duplica el número de transistores en un microprocesador. En los próximos dos años veremos el mismo progreso en computación que en toda su historia. Y, como apunta Chatfield, si dejáramos que esta evolución vertiginosa siguiera su inercia natural, la tecnología alcanzaría un punto de no retorno en el que tomaría el control y se autodiseñaría dejando a la humanidad fuera del circuito, lo que se conoce como el mito de la singularidad.

Estamos lejos de algo así, pero ya hemos sobrepasado muchos hitos hasta hace poco solo concebibles en películas de ciencia ficción. Hoy existen exoesqueletos capaces de levantar 20 veces el peso de una persona o chips que se implantan en la retina y logran que individuos con determinadas patologías oculares recuperen la vista. La empresa Neuralink, fundada por Elon Musk, desarrolla un implante neuronal que será la interfaz cerebro-máquina definitiva, y el ser humano podrá instalarse software para curar enfermedades o, directamente, aumentar sus capacidades. Ya está en una fase muy avanzada: en una de sus pruebas recientes, lograron que un chimpancé jugase a un videojuego con la mente, sin usar las manos.

Estos son solo unos pocos ejemplos que dan una idea de en qué punto de desarrollo tecnológico nos encontramos. En 2020 se concedieron casi tres millones y medio de patentes, una cada diez segundos y más del doble que en 2015, según la Oficina Mundial de Patentes. «Es una carrera tan veloz que es inútil tratar de hacer predicciones», explica Román Abadías, codirector de la multinacional de telecomunicaciones Teltronic y autor de Aporía: La curiosidad mató al gato de Schrödinger. «En 2018, los expertos decían que la supremacía cuántica tardaría unos 20 años en llegar. China la alcanzó apenas tres años después, logrando que un ordenador cuántico superara la capacidad de cálculo de la computación clásica». Y añade: «No es descabellado que en dos décadas llevemos el teléfono implantado en el cerebro y nos comuniquemos por una red neuronal de humano a humano».

Antonio Diéguez: «La tecnología podría llegar a tener una repercusión evolutiva si consigue modificar nuestro genoma»

Este ingeniero apunta a una confluencia inevitable de todas las disciplinas: «Estamos en un crecimiento tecnológico abrupto que tiene mucho que ver con la inmediatez en las comunicaciones, en tener toda la información de forma instantánea, y no solo la tecnología electrónica crece de manera exponencial, también la medicina, la biología…». Y pone un ejemplo: «En 1930, la vida media en España era de 50 años. Hoy es de 84 y, en 2050, es posible que la gente llegue a los 100 años con una cierta calidad de vida gracias a la biotecnología».

Los avances ya no se materializan solo en aparatos externos, sino que empiezan a integrarse en los propios individuos en forma de implantes o modificaciones genéticas. Algunas voces comienzan a hablar de una nueva fase de nuestra especie, que denominan extraoficialmente homo digitalis. «En la medida en que la tecnología nos permita modificar directamente nuestro genoma en la línea germinal, esto es, en los genes de óvulos y espermatozoides o embriones de pocos días, sí pue- de tener repercusión evolutiva», apunta Antonio Diéguez, catedrático de Lógica y Filosofía de la Ciencia de la Universidad de Málaga. «Se podría conseguir, por ejemplo, que desaparezcan determinados alelos que producen ciertas enfermedades como la fibrosis quística, o añadir alelos artificiales que pudieran potenciar cualidades o incluso insertar en el ser humano otras nuevas que nunca tuvo previamente, como la capacidad de ecolocalización de los murciélagos, o ver en el ultrarrojo y el ultravioleta», continúa.

El experto añade: «Por el momento no pasa de la teoría, pero si se diera, debería aplicarse de forma generalizada. Solo así habría una evolución en la condición del ser humano». Se refiere a casos como el de Altos Labs, la start-up de Silicon Valley financiada por Jeff Bezos y otros fondos millonarios para la investigación de fórmulas de longevidad. «Si consiguieran descubrir qué gen hay que modificar para vivir 200 años y solo se aplicara a los más ricos, se introducirían los alelos en una parte pequeña de la población, y eso añadiría desigualdades biológicas a las desigualdades económicas», concluye Diéguez.

El transhumanismo, una corriente aún heterogénea pero cada vez más visible y definida, defiende la mejora del ser humano por medio de la tecnología, y los más radicales lo estiran hasta el poshumanismo, un estado en el que volcaríamos nuestras experiencias mentales (contenidos sinápticos, recuerdos, emociones…) en un organismo cibernético o una nube virtual, de manera que podríamos alojarnos en un mundo digital, desprendernos de nuestro cuerpo y, por extensión, del sentido renacentista del humanismo. No en vano, uno de sus impulsores más acérrimos, el filósofo Nick Bostrom de la Universidad de Oxford, defiende «el bienestar de toda entidad con capacidad sensitiva, ya sean inteligencias humanas, artificiales, especies animales… e incluso especies extraterrestres si las hay».

Sin necesidad de llegar tan lejos, Marta García Aller, periodista y autora de Lo imprevisible: Todo lo que la tecnología quiere y no puede controlar, recela incluso del término medio: «Son muchas las transformaciones que la tecnología está pro- vocando y acelerando, y cambian muchas de las reglas del juego que venían del siglo XX. Ya no encajan, es un corsé que queda obsoleto para este siglo, y todavía no tenemos las perspectiva suficiente para entender la profundidad del cambio, y mucho menos para ponerle un nombre». Respecto a la mejora del ser humano por medio de la tecnología, expone: «A lo largo de la historia, la hemos utilizado para enormes beneficios en la salud y en el bienestar de la humanidad, pero también para destruirnos los unos a los otros. No creo que esas innovaciones vayan a sacar solo lo más virtuoso del alma humana. Por eso deberemos poner límites a tanto poder en tan pocas manos, que es lo que está pasando con la inteligencia artificial y el mundo conectado. Hay que estar alerta».

García Aller argumenta, en este sentido: «No olvidemos que las empresas tecnológicas, fundamentalmente, quieren ganar dinero. Que nos instalen chips en el cerebro o en la muñeca para entrar y salir del trabajo sin tener que llevar una tarjeta, simplemente con biometría, no es necesariamente una solución para hacernos la vida más cómoda; supone que pueden tenernos más controlados». La autora matiza: «No debemos pensar en Black Mirror ni en un señor maligno que acaricia un gato mientras piensa en dominar el mundo. Lo que debe inquietarnos es que por tener un móvil implantado en el cerebro en lugar de en la palma de nuestra mano no nos vamos a volver superhumanos necesariamente. Tal vez incluso sea una involución, nos puede volver más superficiales y previsibles, porque igual que ahora perdemos tan- to tiempo viendo vídeos insustanciales en Instagram, lo tendríamos más fácil aún. Las notificaciones, que son interrupciones constantes, están poniendo a prueba la capacidad de los humanos para focalizar nuestra atención. Y cuanto más nos conectamos, más necesarias se vuelven prácticas como la meditación y el mindfulness, cosas que antes no hacía falta enseñar a los niños en las escuelas, cuando estaban acostumbrados a aburrirse».

Elena Postigo: «¿Qué sucedería en una sociedad en la que conviven seres imperfectos y otros perfeccionados genéticamente con robots?»

Y concluye: «Un chip en la cabeza nos puede convertir en hámsteres que están todo el rato dando vueltas buscando una recompensa, esos ‘me gusta’ que nos generan dopamina. Convertir a los humanos en cyborgs no necesariamente nos mejora, porque no siempre más tecnología nos lleva a más sofisticación, y podemos acabar crónicamente amuermados viendo una pantalla que ya no tenemos ni que encender».

La directora del Instituto de Bioética de la Universidad Francisco de Vitoria, Elena Postigo, define el transhumanismo como un movimiento cultural que tiene como finalidad mejorar la especie humana para llevarla a otro nivel y eliminar aspectos indeseados, incluso la mortalidad. «Esto coincide en parte con los fines de la medicina tradicional, enfocada en tratar y evitar enfermedades y alargar la esperanza de vida», explica. Pero matiza: «El problema está en los medios, como el mejoramiento mediante la edición genética, el mejoramiento cognitivo, mental, psíquico, mediante nanochips, sustancias… o el mejoramiento afectivo mediante oxitocinas, fermononas…, por no hablar del trasvase del contenido sinóptico para tener una existencia posbiológica».

En este sentido, Postigo menciona la negación del límite del homo sapiens en muchos de los transhumanistas: «Dicen que somos chatarra biológica y quieren arreglarla. Pero los problemas vienen en el plano práctico. Quienes nos dedicamos a la bioética tenemos que hacer un esfuerzo para analizar qué riesgos plantea cada una de estas intervenciones. No es lo mismo implantar un nanochip en la mano que en el cerebro, porque la interfaz cerebro-ordenador se usa con una finalidad terapéutica, pero abre ciertas puertas nada deseables como, por ejemplo, un hackeo del propio individuo». Y apunta a otro de los grandes riesgos de la mejora humana: la generación de desigualdades. «Habermas hablaba de humanos no mejorados porque así lo han decidido, de trashumamos y de poshumanos. ¿Qué sucedería en una sociedad en la que conviven seres imperfectos, otros perfeccionados por edición genética o nanochips y poshumanos o robots? Es en este escenario donde podemos incurrir en injusticias y discriminación. Hay que apostar por un buen uso, prudencial y sapiencial, de la ciencia y la técnica para la plena realización de las personas no solo a nivel físico, sino teniendo en cuenta nuestra responsabilidad sobre las generaciones futuras y el planeta».

Jon Rueda, doctorando en Filosofía por la Universidad de Granada con numerosas publicaciones sobre bioética, inteligencia artificial y neurociencia, opina que hay que ser prudentes a la hora de valorar el transhumanismo, la mejora humana o la implantación de cyborgs: «Hay que bajar el debate a un nivel menos macro, a cómo puede pensar la gente sobre estas tecnologías desde la moralidad a nivel individual, porque muchas tecnologías están destinadas a curar enfermedades, algo que ya hacemos y que está aceptado por la mayoría, pero también sirven para mejorarnos, y ese es el debate moral que aún no hemos solucionado». El experto advierte de que es problemático tener un posicionamiento genérico en contra o a favor de la mejora, y es mejor ir caso por caso, analizar qué tipo de interacciones tecnológicas son éticas y cuáles no, qué potenciales tienen algunas tecnologías, etc.: «Hoy no existe un consenso, porque el debate siempre ha estado polarizado, y encuentras defendiendo la misma postura a perfiles muy diferentes. Ves en contra de la mejora por la tecnología a personas que se les considera bioconservadores, a gente progresista que piensa que puede generar desigualdades, a gente sencillamente de ideología conservadora que piensa que esa práctica equivale jugar a ser dioses…».

El poshumanismo defiende llegar a un estado en el que volquemos nuestras experiencias mentales en un organismo cibernético o una nube virtual

Rueda opina que deberíamos tener ya una opinión pactada al respecto cuando todo esto llegue: «Debemos darle ya un enfoque anticipatorio porque aún son tecnologías emergentes, en desarrollo, y no sabemos el potencial real de sus posibles aplicaciones. Esto es ventajoso porque nos permite ir abriendo el debate ético, tenemos la oportunidad de ver cómo podemos gobernar estas tecnologías de manera que beneficien al conjunto de la sociedad». Y advierte: «El problema es dejar que las tecnologías lleguen y estos debates vayan por detrás».

Al igual que su colega Elena Postigo, opina que la desigualdad es uno de los temas fundamentales que se deben tratar, porque las tecnologías de mejora serán caras: «La reproducción asistida puede llegar a costar 15.000 euros. ¿Cuánto podría costar la edición genética? Podemos prever que pasará lo mismo con las tecnologías de mejora, que serán solo algo al alcance de unos pocos a no ser que estén subvencionadas con dinero público». Rueda admite: «Hay quien puede decir que eso ha pasado siempre con los avances tecnológicos, por ejemplo, los móviles, que pasaron de ser algo elitista a democratizarse». Sin embargo, defiende que el problema es que aquí repercute más profundamente en el individuo: «Por eso no hay que prohibirlas o hacerlas obligatorias, o si no subvencionar, por ejemplo, mediante impuestos, las tecnologías que hayan generado un consenso sobre que mejoran a los individuos y a la sociedad en su conjunto».

Marta García Aller: «Debemos poner límites a la acumulación de poder tecnológico en tan pocas manos»

El último informe ESPAS de la Unión Europea incluye entre los retos para 2030 «anticiparse y legislar sobre las tecnologías disruptivas», y reconoce expresamente que su potencial puede ser tan positivo como negativo. «El concepto ético debemos tenerlo claro, superar los sesgos», dice Román Abadías, y se pregunta: «¿Qué pasará cuando vaya un niño al colegio y esté mejorado con 128 gigas de información extra o lleve una calculadora integrada? Eso puede pasar, y si no está regulado, se generarán desigualdades desde la base». Y añade: «Se trata de que el sistema educativo se dé cuenta de que el conocimiento y la información cada vez tendrán menos valor, y deberá centrarse en enseñar cómo usarlos de la mejor manera, porque siempre los tendremos a nuestra disposición. Y eso empieza por saber discernir lo que es cierto de lo que no, lo que es útil de lo que no».

En cualquier caso, estamos lejos aún de poder afirmar que nos encontramos en una transición que nos llevará más allá del homo sapiens a lomos de la tecnología. «Según la ley de Moore, se podría llegar a un circuito con tantos componentes como tiene un cerebro», opina Enrique Dans, profesor de Innovación y Tecnología en el IE Business School. «Pero falta algo muy importante: cuando dos neuronas transmiten información, no es una mera corriente eléctrica; es un espacio sináptico que aún no hemos llegado a comprender. Por eso, de momento, las conexiones que realicemos en un cerebro artificial no llegarán a ser exactamente iguales que en uno real, y no estamos evolucionando nada». Y concluye: «El homo sapiens ha sido capaz de modificar su entorno de tal manera que hemos llegado a un desarrollo de la información impensable hasta hace nada. Esto cambia la esencia y las características de una civilización. Pero no las de la especie humana».

Fonte:

Fonte: https://ethic.es/2021/11/el-hombre-y-la-maquina-transhumanismo/