sábado, 25 de setembro de 2021

BULLYING E BOA EDUCAÇÃO

 Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada*


 3 Cargos Da Área De Educação Além De Professor | Revista Quero

O Papa Francisco, no Twitter, publicou no passado dia 8 uma inspiradora mensagem, a propósito do começo de mais um ano lectivo: “A educação é um dos caminhos mais eficazes para humanizar o mundo e a história. A educação é sobretudo uma questão de amor e de responsabilidade, que se transmite no tempo, de geração em geração.”

Nos meus tempos de menino e moço havia alguma violência por parte dos professores – as famosas reguadas, a palmatória dos cinco olhos, etc. – bem como esporádicas brigas entre estudantes que, como as tempestades de verão, tão depressa rebentavam como desapareciam, sem deixar rastos na nossa despreocupada e feliz camaradagem estudantil. Muitos anos volvidos sobre o meu tempo de estudante no dominicano Colégio Clenardo e no Liceu Pedro Nunes, de que também fui aluno, só guardo boas recordações. Não me lembro de nenhum episódio de bullying, mas não devem ter faltado.

A verdade é que sempre houve crianças e jovens que foram vítimas da agressividade dos colegas, mas nesse tempo ainda não se falava de bullying. Talvez alguns miúdos sejam, por temperamento ou deficiente educação, mais irascíveis e agressivos, ou mais tímidos e sofredores, mas todos éramos, mais ou menos, sujeitos activos e passivos de bullying. Esses episódios não transcendiam, porque um colega que fizesse queixinhas de outro aos professores, ou aos pais, era imediatamente rotulado de cobarde e, como tal, sofria o ostracismo a que eram condenados os “traidores”.

Alguns pais, para que melhor se defendessem os filhos dos colegas mais violentos, complementavam a sua educação com algumas aulas de artes marciais, o que nem sempre resultava. Queixava-se, com graça, um pai: “Como batiam no meu filho na escola, pu-lo no judo. Agora leva pancada na escola e… no judo!”

Todos os pedagogos estão de acordo sobre a necessidade de recorrer, por razões de disciplina ou de aprendizagem, a acções mais enérgicas. A questão é saber como se deve actuar nessas ocasiões. Uma educação, em casa ou na escola, que seja violenta, não favorece a formação de uma personalidade equilibrada, mas também não é benéfica uma atitude excessivamente permissiva.

É provável que, em tempos passados, a educação dada pela família e pela escola fosse mais enérgica mas, felizmente agora, não só em casa, como também nos estabelecimentos de ensino, recorre-se, em geral, a métodos mais pacíficos.

A historiadora Elaine Sanceau, num curioso artigo sugestivamente intitulado “Educação e pancada”, coligiu alguns interessantes testemunhos sobre a educação portuguesa na Idade Média e não só. Apesar da lenda negra, que ensombra a mal-dita ‘noite de mil anos’, “os filhos de D. João I não foram educados à pancada. No ‘Leal Conselheiro’, D. Duarte confessa que, desde que se lembravam, ‘do dito Senhor Rei [D. João I] nunca em sanha houvemos ferida nem recebemos uma má palavra’.” A brandura do método a que foi submetida a ínclita geração parece ter dado muito bons resultados porque, segundo Fernão Lopes, nunca se soube de rei que tivesse filhos tão excelentes como os de D. João I. A este propósito, pergunta Sanceau: “Causa ou efeito? O belo resultado deve-se antes às qualidades dos educadores, ou à dos educandos? Tanto a umas como a outras, nos quer parecer. É evidente que D. João I e a rainha D. Filipa, sua mulher, foram educadores exímios, mas também o material que tinham entre mãos, para a obra educativa, era muito acima do vulgar.”

D. João II, embora bisneto do Mestre de Aviz, era partidário de uma educação mais musculada, segundo relatos daquele tempo. Numa ocasião em que dois pajens da corte, já crescidos, se envolveram numa rixa, o rei mandou que ambos fossem açoitados. Como os pais de um deles protestassem, por entenderem que o filho era grande de mais para levar açoites, o monarca decidiu então degredá-lo, dez anos, para Ceuta! Protestando de novo os pais, pediram ao soberano que antes castigasse o filho com açoites e foi o que, de facto, o rei se encarregou de fazer, pessoalmente. Também em relação ao seu filho, D. Jorge, Duque de Coimbra, D. João II deu instruções ao seu mestre, Cataldo Siculo, para que lhe batesse sempre que entendesse necessário. Já adulto, o pupilo confessou, curiosamente, que o método lhe tinha sido “muito proveitoso”.

Ao contrário do que seria de supor, os castigos corporais, que em pleno século vinte eram ainda muito frequentes nos colégios ingleses, nem sempre provocavam nos jovens um expectável sentimento de revolta.

Um episódio pode ilustrar como, antigamente, uma justa punição era apreciada. Nos colégios dos jesuítas, que têm merecida fama de excelentes pedagogos, os castigos físicos só eram permitidos até aos 16 anos. Em Pernambuco, em 1574, um aluno do colégio da Companhia de Jesus acusou um colega que, por este motivo, foi castigado. Em vez de ficar desagradado com a delação de que foi vítima, o jovem açoitado ficou tão agradecido ao colega que o denunciou que fez questão de o levar a sua casa e apresentá-lo à mãe, como seu benfeitor! E esta, para retribuir o bem que tinha proporcionado ao filho, ofereceu-lhe uns calções e um gibão de seda!

Esta história, que pareceu inverosímil a Elaine Sanceau, talvez sirva de exemplo para aqueles extremosos progenitores que, de tanto protegerem os seus rebentos, na realidade os prejudicam ou, como se costuma dizer, ‘estragam com mimos’. Assim o disse o Padre Mestre Gaspar Barzeu, missionário flamengo, amigo e companheiro de São Francisco Xavier: “Nunca deixeis de castigar os meninos, porque toda a misericórdia com eles é crueldade.” Era, aliás, desta escola o nosso Rei D. Manuel I, que dizia: “No castigar, tereis sempre este modo: mostrar-vos-ei sempre muito severo, trabalhando sempre mais que vos temam do que vos amem, porque o amor de meninos traz dissolução, e isto por falta de razão.” Como é óbvio, este “amor de meninos”, a que se refere o Venturoso, era aquela condescendência que, ao tudo desculpar aos filhos ou alunos, favorece a sua irresponsabilidade.

Não se pense, contudo, que D. Manuel I era excessivamente severo porque, numa carta de 1509, ou 1510, a Afonso de Albuquerque, ordena brandura no ensino dos jovens indianos, por vezes vítimas da excessiva severidade dos seus mestres: “Nos é dito que os clérigos e pessoas que ensinam os moços cristãos novos o fazem com grande rigor, açoitando-os e apressando-os nisso mais do que a terra e costume dela o sofre e que recebem disto grande escândalo”. Recomenda o monarca que se tenha com eles “outra temperança”, e que os mestres “os não apressem nem castiguem em seu ensino com rigor, mas que mansamente os levem, porque assim se fará mais fruto, e recomendamos que assim o façais fazer”.

A Igreja católica tem uma honrosa tradição académica, que arranca dos seus primórdios: não em vão o seu fundador é o Mestre, e são discípulos os seus seguidores. Na sua bimilenária história, muitos santos educadores se destacaram, como São João Bosco, fundador dos salesianos, e São Marcelino Champagnat, que o foi dos maristas. À sua intercessão recorramos para que, no começo de um novo ano académico, todos os estudantes não padeçam uma injusta violência, nem uma prejudicial benevolência, e, como o jovem Jesus de Nazaré, cresçam “em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens” (Lc 2, 52).

* Gonçalo Nuno Ary Portocarrero de Almada é um sacerdote católico português. Licenciado em Direito na Universidade Complutense de Madrid e, posteriormente, doutorado em Filosofia pela Pontifícia Universidade da Santa Cruz, em Roma.

Imagem da Internet

 Fonte: https://observador.pt/opiniao/bullying-e-boa-educacao/

Reféns do global ou vítimas da bolha assassina

 Eliane Tavares*

As notícias pululam fragmentadas e a imprensa olha de um jeito vesgo. Dezenas de artistas da Rede Globo estão sendo demitidos ou se demitindo. Alguns analistas de televisão falam em crise na emissora, outros falam de falta de coração, afinal, está se desfazendo de gente que deu sua vida ali na telinha. Nessa semana Lázaro Ramos deu adeus a 18 anos de Globo e Ingrid Guimaraes sai da emissora depois de 30 anos. Saem fazendo discursos emocionados enquanto abraçam as novas gigantes mundiais da comunicação. Pois o que se configura por trás de tudo isso é justamente a acomodação das forças comunicacionais mundiais. As novas tecnologias anunciam outras formas de se comunicar e as empresas locais terão dois caminhos: ou começam a se adequar ou morrem. 

No Brasil a televisão aberta ainda tem um grande espaço na vida das pessoas. Os números dizem que a Rede Globo segue liderando o mercado, apesar de ter perdido audiência. A média de audiência é de 15 pontos enquanto a segunda rede, a Record, tem 5 pontos, a diferença é grande. Não bastasse isso, a Globo é a empresa de comunicação de massa brasileira que está mais à frente no âmbito da tendência mundial, tanto que já tem um canal de streaming (transmissão direta por internet), a Globoplay, e tem produzido exclusivamente para esse nicho. 

 "As novas tecnologias anunciam outras formas de se comunicar e as empresas locais terão dois caminhos: ou começam a se adequar ou morrem".

Há quem diga que estamos vivendo o fim da era da TV aberta. A tendência agora é a transmissão por demanda. E, como temos visto, essa é uma área completamente dominada por empresas internacionais gigantes como a Amazon, a Netflix, a Disney, etc... A Globo quer surfar nessa onda e está testando se vai nessa sozinha ou se precisará se aliar a algumas dessas gigantes. 

 "Há quem diga que estamos vivendo o fim da era da TV aberta. A tendência agora é a transmissão por demanda".

Essa nova configuração das contratações também faz parte dos novos tempos. Foi-se a era da fidelidade dos atores a determinados canais. Agora eles também trabalharão por demanda. Podem fazer produções para a Netflix, para a Amazon ou para a Globoplay, sem um lugar realmente fixo, um emprego seguro. Terão de amargar a eterna busca de espaço num mundo sem regras. Até agora ser ator ou atriz é uma profissão regulamentada, a pessoa precisa fazer curso, ter registro. Mas, pode ser que isso também se esboroe. Quem acompanha o mundo televisivo está por dentro da tentativa da Globo em levar a celebridade instantânea do BBB, Juliette (32 milhões de seguidores no Instagram), para a novela Pantanal. Por enquanto, o sindicato dos atores está segurando, visto que ela não é atriz, mas até quando? Emprego, registro profissional, estabilidade, são palavras que vão perdendo o sentido no mundo do trabalho. Inclusive no serviço público, vide a PEC 32 que quer a volta do “quem indica”. 

Os tempos são sombrios para os trabalhadores e também para as empresas nacionais porque as gigantes estrangeiras estão abocanhando tudo. Muito em breve estaremos completamente reféns dessas empresas, vítimas das informações falsas, do pensamento único e da estética única. O Facebook está planejando até permitir a realização de transações bancárias dentro da plataforma, ou seja, a pessoa entra ali e não precisa mais sair para quase nada. 

O mundo distópico do grande irmão está cada dia mais presente.  O capitalismo aprofunda seu processo de dominação. 

Enquanto isso, a TV aberta – esta que chega a 97% dos lares – segue sendo a única opção de quem não têm condições de comprar os pacotes das diversas empresas de transmissão direta por demanda. Por isso, seguramente que ela não vai se acabar. Pode encolher, mas seguirá existindo. A Record, com seu nicho evangélico e suas novelas bíblicas, tentando levar o rebanho para os tempos fundamentalistas do velho testamento, e a Globo emburrecendo as gentes cada dia mais, com a profusão de programas idiotizados, como os de danças dos famosos, famosos mascarados, programas de calouros cheios de sadismo e de gente autocentrada, joguinhos entre artistas e dramas de humilhação dos pobres. Um show de horrores que segue o modelo dos shows europeus e estadunidenses com apresentadores engraçadinhos e sem cabeça. 

Um desafio imenso para quem quer um mundo onde o pensamento crítico seja soberano. Cada dia que passa vamos assistindo ao crescimento da “bolha assassina” das grandes empresas de transmissão por demanda, tal qual a gosma vermelha do filme de terror protagonizado e dirigido por  Steve McQueen, em 1958. No filme, a gosma não é destruída, é congelada e levada para o Ártico. E a fala final do “mocinho” prenuncia o nosso tempo. “Até que o ártico também siga congelado”. Pois parece que o Ártico descongelou e bolha está aí outra vez. 

*Jornalista

O INÚTIL E O ÚTIL

 Joaquim Miguel de Morgado Patrício*


No texto A Árvore Inútil, o pensador chinês Tchouang-Tseu, discípulo de Lao-Tseu, escreveu:


“Houi-Tseu dirigiu-se a Tchouang-Tseu e disse: “Eu tenho uma grande árvore. As pessoas chamam-lhe árvore dos deuses. O seu tronco é tão nodoso e disforme que não se pode cortar a direito. Os seus ramos são tão torcidos e tortos que se não podem trabalhar com peso e medida. Está à beira do caminho, mas nenhum marceneiro a olha. Assim são as vossas palavras, senhor, e todos se afastam de vós ao mesmo tempo.”   


Tchouang-Tseu respondeu: (…) Porque não a plantais numa terra deserta ou num campo vazio? Aí poderíeis passear na sua proximidade ou dormir à vontade sobre os seus ramos sem nada fazer. O machado e a machadinha não lhe reservam um fim prematuro e ninguém lhe pode fazer mal.


Como é bom que nos preocupemos com uma coisa que não tem utilidade!”


Quando o que vale é o imediatamente útil e vendável, em termos da rentabilidade crescente das necessidades e do consumo, o que é inútil e não instantaneamente funcional e utilizável faz lembrar o vazio. 


Por isso a contemplação, a meditação, o autoconhecimento, o sentir de sentimentos não expressos, o ar que respiramos, a fala que falamos, porque intangíveis, permanentes e invendáveis, há quem os tenha por inúteis, embora seja forçoso compreender que temos que nos preocupar com eles, sem os quais não sobrevivemos.


Nesta perspetiva, o ser útil e inútil não é uma questão de fidelidade a regras abstratas, mas apenas um esforço para termos tanta utilidade ou não utilidade quanto possível.  Que mistério e sigilo se esconde em algo ao mesmo tempo inútil, persistente, duradouro, transversal e não imediatista?


A velocidade do mercado e consumismo atual, agudizado pela velocista e tudóloga internet, converte tudo ao mercado e ao que tem por útil e vendável, com exceção do que tem por pretensamente inútil, este estruturalmente mais durável e menos descartável, consistente, imaterial, memorável e criativo. 


Curiosamente o presumivelmente inútil está mais imunizado contra a exploração comercial e consumista, sendo caso para dizer que é um privilégio ser invendável nestes tempos que correm.

*Escritor. Centro Nacional de Cultura/Portugal

Fonte: https://e-cultura.blogs.sapo.pt/cronicas-pluriculturais-1137750


24.09.2021

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Roland Barthes, a biografia trata de questões polêmicas da vida do intelectual

 Paulo Nogueira*

Barthes

O pensador francês Roland Barthes Foto: Editora 34

Biógrafa Tiphaine Samoyault fala da homossexualidade e das suas discordâncias com o Partido Comunista francês

Quem diria: os ativistas que tanto cancelam a França por causa da respectiva agenda são ideologicamente fertilizados por luminares franceses – Foucault, Derrida, Deleuze, Lyotard – todos já mortos e enterrados. Isso quando Paris, depois de séculos passando o rodo no glamour intelectual (com Voltaire, Hugo, Sartre, Camus, Beauvoir), hoje vê sua intelligentsia à míngua de charme, se não de massa cinzenta. 

Quando o jovem André Gluksmann promoveu a reconciliação pública entre Sartre e Raymond Aron, em 1979, o cachimbo da paz foi fumado em pleno Palácio do Élysée, sob o olhar embevecido do presidente Giscard D”Estaing. Já quando outro dia a colunista Eugénie Bastié perguntou ao historiador Pierre Nora o que achava da vida intelectual francesa, ele grunhiu: “Que vida intelectual francesa?”

Até os últimos franceses Nobel de Literatura (Claude Simon, Go Xinjan, JMG Clézio, Patrick Modiano) são pequenos se comparados aos antecessores (Romain Rolland, Anatole France, Camus, Sartre). O único ficcionista francês contemporâneo de impacto internacional é Michel Houellebecq, um misantropo cujos protagonistas adoram odiar. E tem toda razão Tiphaine Samoyault, autora da biografia Roland Barthes (a partir de agora, RB): “Quem lamenta que não existam mais ‘grandes pensadores’, ignora que a promoção desses modelos não depende apenas de suas qualidades, mas da escolha de uma sociedade em se identificar com eles.” 

Esta biografia começa pelo fim: a morte do biografado. Uma morte besta: RB vinha a pé de um almoço com François Mitterrand (outro presidente) e foi atropelado pela caminhonete de uma tinturaria. Sobreviveu um mês, sem dar um pio. Morreu em 26 de março de 1980.

Como duas de suas supremas influências, Proust (que doou a um bordel gay a mobília da mãe assim que esta morreu) e Sartre (que, também órfão precoce de pai, disse: “Não tive complexo de Édipo”), RB era apaixonado pela sua genitora, com quem morou 60 anos. Quando Marguerite Duras criticou a obra dele, “por lhe faltar a experiência mais antiga da vida, o conhecimento sexual de uma mulher”, RB rugiu: “Conheci o corpo de minha mãe doente, e depois agonizante.” De luto, Barthes fez terapia com Lacan, mas não quebrou o galho: “Éramos um velho idiota com um velho imbecil.”

RB nasceu em Cherbourg, mas lembra Clarice Lispector e a Ucrânia: “Literalmente não coloquei os pés ali, pois saí de lá aos dois meses.” Em Paris, um dos primeiros mentores de RB foi André Gide, sobre escrita e piano, “sem levar em conta o resto”. O resto era o armário – RB e a mãe jamais tocaram no assunto. Em Corydon, Gide foi um pioneiro literário na homossexualidade assumida. Como comentou estarrecedoramente o escritor François Mauriac: “Muitos desses doentes que não se conheciam, hoje se conhecem graças a Gide. Muitos, que se escondiam, não mais se esconderão.”

Depois da 2ª. Guerra, Sartre é o Zeus do Olimpo intelectual. RB dedicará a Sartre um de seus últimos livros, A Câmara Clara (em que analisa fotografias da mãe). Outros parçeiros foram Julia Kristeva e Phillipe Sollers, fundador da revista literária de Tel Quel – ambos ainda vivos e casados. É ela que apresenta a Barthes a obra do russo Mikhail Bakhtin, uma referência decisiva. 

Por fim, Michel Foucault, que RB conhece nos anos 1950 e que o convida para uma palestra na universidade de Upsala, onde o autor de A História da Loucura lecionava. Ambos eram baladeiros (RB cai na gandaia todas as noites, até o atropelamento) e consta que a estadia sueca foi uma espécie de rave com miolos – RB circulando alegremente no Jaguar bege de Foucault. Frequentaram as boates gay de Montmartre, e juntos fizeram turismo erótico em Marrocos. Foucault apadrinhou a eleição de RB para o excelso Collège de France. Os dois morrem no mesmo hospital – Foucault quatro anos depois. 

Um episódio sugestivo foi a viagem chinesa de RB. Barthes era de esquerda, mas considerava o PC francês (stalinista até à raiz dos cabelos) “desprezível”. Em 1974, RB e uma trupe de intelectuais toparam o convite de Mao, e desembarcaram em Pequim na última fase da Revolução Cultural. Uma visita seletiva: “Eles nos mantém gentilmente afastados do que se passa aqui.” No final, RB passará um pusilânime pano: “A China é tranquila.” Milhões de pessoas, muitas delas intelectuais, tinham sido perseguidas e assassinadas – e continuariam a ser, até a morte de Mao em 1976.

Em 1983, a organizadora do piquenique chinês, a italiana Maria-Antonieta Macchiochi, compareceu a Apostrophes, de Bernard Pivot, o programa cultural mais chique da TV mundial. Outro convidado era o polímata belga e um dos maiores sinólogos, Simon Leys (quando ele será editado no Brasil?), que já em 1971 publicara A Roupa Nova do Presidente Mao, denunciando os crimes maoistas e a hipocrisia dos tietes ocidentais do Grande Timoneiro. Macchiochi desandou a pontificar liricamente sobre a China. Leys respondeu na lata, espinafrando os erros factuais da interlocutora. Hoje já não se discute quem tinha razão nesse arranca-rabo. 

Apesar das derrapagens, o legado de RB é robusto. Primeiro pela paixão – correspondida – dele pela literatura. Ao comentar o livro Roland Barthes por Roland Barthes, o romancista Robbe-Grillet nota: “Barthes é diferente do crítico estrito – é um escritor.” O que recorda por um lado o mantra desconstrucionista “da morte do autor”, pois “interpretação é literatura”. E por outro o gemido de George Steiner: “Quem seria crítico, se pudesse ser escritor?” Roland Barthes por Roland Barthes é o que hoje chamamos de autoficção, como a epígrafe entrega: “Tudo isso deve ser considerado como dito por um personagem de romance.” O conceito seminal de RB é o prazer do texto” – na escrita ou na leitura, já que todo leitor é um coautor.

RB era um exímio estilista, embora às vezes patinasse no cabotinismo (mas sem o hermetismo quase histriônico de um Derrida). E craque em epigramas. Sobre a cozinha japonesa: “Nela, a única operação que os alimentos sofrem, de fato, é a de serem cortados.” Sobre o sexo: “No Japão, a sexualidade está no sexo, não em outra parte; nos EUA é o contrário: o sexo está em toda parte, exceto na sexualidade.”

E há o ethos hermenêutico de RB: prismático e irredutível, que aflora no duradouro conceito de “neutralidade”. RB postulou que guardar segredos é o próprio mecanismo de nossa vida: sermos “respeitáveis” aos olhos dos outros, e “coerentes” aos nossos. Em 1978, deu um curso no Collège de France sobre O Neutro, abordando práticas pelas quais as pessoas escapam às questões polarizadoras, e alguns lugares, reais ou imaginários, nos quais se refugiam. São momentos do cotidiano através dos quais, nos esquivando ao recrutamento para alistarmos nas fileiras altruístas, permitimos que os seres vivam decentemente uns com os outros. Não significa se empoleirar em cima do muro – uma omissão que, em Mitologias, RB reprovara como “a crítica nem, nem” (nem contra nem a favor). RB invoca “um estado intermediário”: “Pegamos educadamente o panfleto dos missionários ou murmuramos ‘hmm’ recatadamente para um amigo moralizador.”

RB realça que “a tradição ocidental torna o conflito um valor” – da competição capitalista à luta de classes marxista. Nossos heróis são o guerreiro, o empreendedor e o ativista – já a neutralidade parece fria, débil e suspeita. Preconizou o espaço neutro que o próprio Foucault (que adorava inventar palavras pomposas de origem grega) chamou de “heterotopias”. Como indicou Blake Smith, RB investiu nesse espaço o desejo e a criação, citando a ideia de Virginia Woolf: um quarto só seu. Para RB, tal introspecção era não uma patética torre de marfim, mas uma via acessível a todos, contra “o cardume de peixes” no qual as diferenças individuais são aniquiladas. É como já dizia Aristóteles: só há conceito no geral, mas só existência no particular.

Uma banana para os conflitos intoleráveis e as reivindicações intolerantes, um lugar onde os imperativos dos profetas e dos políticos podem ser pelo menos adiados. É “uma possibilidade momentânea de calar”, uma luta pela liberdade, e não uma nova demanda do mundo. E nos permitimos estar incertos – isto é, neutros – sobre o valor dos objetivos brandidos, em toda a nossa estranheza individual. 

A militância contemporânea por vezes se inspira num ideal impossível de indivíduos perenemente translúcidos e compreensíveis, que se encaixam como uma luva em lados e categorias. Para RB, fingimos ser essas pessoas, que nunca poderemos ser. Na época da viralização monetizada, dos reels e das selfies, em que se exige representação e visibilidade de cada cantinho de nós mesmos, Barthes continua da hora. Da hora H, transfigurando até o armário num playground. 

*PAULO NOGUEIRA É AUTOR DE ‘O AMOR É UM LUGAR COMUM’ (INTERMEIOS)

Fonte: https://alias.estadao.com.br/noticias/geral,biografia-de-roland-barthes-trata-de-questoes-polemicas-da-vida-do-intelectual,70003842302

O Marx de Enrique Dussel

 Por ANTONINO INFRANCA*

Considerações sobre a profundidade da interpretação da obra de Marx, feita a partir da perspectiva do Terceiro Mundo

Enrique Dussel é considerado o maior conhecedor de Marx no mundo, embora venha do assim-chamado “Terceiro Mundo”; sua leitura vem, em particular, da América Latina, que historicamente foi a primeira vítima do capitalismo, aliás, pode-se afirmar que sem a conquista da América Latina o capitalismo não poderia ter nascido, porque essa conquista ofereceu a quantidade de metais preciosos para desencadear o mecanismo de acumulação primitiva do capital, para usar a terminologia de Marx.

Para compreender a Modernidade é necessário, portanto, partir da condição de vítima da América Latina. Será, então, uma leitura não eurocêntrica, porque é conduzida pela exterioridade do Primeiro Mundo que, com a queda do socialismo, decretou a morte do marxismo. Mas Dussel faz uma simples observação: o socialismo entrou em colapso na Europa, não no Terceiro Mundo, ou seja, em Cuba, na China, no Vietnã, logo, na periferia. Além disso, os estudos marxistas na América Latina estão em grande desenvolvimento e Dussel é o líder desse desenvolvimento, quer dizer, atrás dele o pensamento crítico avança e o marxismo contribui para o trabalho de descolonização da filosofia, um tema que tem pouquíssima repercussão na Europa.

O outro motivo decisivo é a maneira que Dussel conduz sua leitura de Marx; sua leitura é conduzida no estilo dos intérpretes escolásticos de Aristóteles, em outras palavras, linha a linha. Por várias vezes Dussel afirma que ninguém antes dele realizou uma leitura tão detalhada de todos os textos do filósofo alemão, inclusive os inéditos, que Dussel leu nos arquivos de Amsterdã e de Moscou. A descoberta mais interessante que Dussel fez é que Marx reescreveu O Capital quatro vezes e, em cada reescrita, sempre surgem novidades fundamentais na sua obra de crítica da economia política. É sugestivo poder reler Marx à maneira de Dussel, porque o trabalho crítico do filósofo alemão torna-se um work in progress, uma espécie de descrição crítica da essência do modo de apropriação capitalista. Essa descrição torna-se uma crítica, porque não esconde a verdade histórica do modo de apropriação capitalista que é feito de injustiça e de morte.

Dussel definiu Marx como “um filósofo do século XXI”, porque pelo menos 50% de seus textos ainda são inéditos. O resultado dessa leitura é a reproposta de um Marx totalmente original, por ser autêntico e desprovido das incrustações ideológicas ou epistemológicas que o distanciaram da autenticidade dos textos. Assim, cai o Marx dos manuais soviéticos de economia política, que eram considerados verdadeiros manuais dogmáticos a serem seguidos literalmente, enquanto a carta de Marx conduzia em direções exatamente opostas.

Dussel indica o ponto crucial em que o Marx dos soviéticos não corresponde ao Marx autêntico, que não condenava o mercado em sua totalidade, mas sustentava que a produção das mercadorias deve estar ligada ao consumo, à troca e à distribuição, não era possível decidir de cima o que se deveria consumir e, portanto, o que trocar e distribuir, mas consumo, troca e distribuição devem ser planejados “de baixo” – a partir das necessidades vitais da sociedade civil.

Além disso, Marx não falou de “modos de produção”, mas de “modos de apropriação”, isto é, do mundo em que um sistema econômico, como o capitalismo ou o feudalismo e assim por diante, se apropria da fonte criativa do valor, isto é, o trabalho vivo, a subjetividade que trabalha. A história, então, não é história dos modos de produção, mas dos modos de apropriação do trabalho e da subjetividade do trabalhador pelo sistema dominante de cada época. Segundo Dussel, a crítica de Marx parte justamente da subjetividade do trabalhador, de sua corporeidade e, portanto, desenvolve uma crítica econômica material.

Um aspecto de Marx sobre o qual Dussel se debruça é a oposição entre trabalho social e comunitário. Social é o trabalho de um indivíduo que se dirige ao mercado social e é dirigido de fora, ou seja, por um administrador que não trabalha com ele, enquanto comunitário é o trabalho de toda uma comunidade, não apenas trabalho solidário, mas coletivo, como é típico das sociedades pré-capitalistas, especialmente da América Latina. O capitalismo impõe o trabalho social e o socialismo seria o estágio em que o trabalho comunitário é submetido ao controle dos indivíduos livres, associados enquanto possuidores em comum dos meios de produção. Desse modo, os produtores decidem as formas do processamento em comum e, então, da produção, sem qualquer controle externo ao âmbito do trabalho. Pode-se, portanto, notar como o socialismo alcançado esteve longe das ideias de Marx, embora não tenham dado amplas indicações, mas apenas princípios reguladores a serem respeitados na construção do socialismo.

O outro aspecto da autenticidade de Marx, que foi negada de várias maneiras tanto pelos manuais soviéticos quanto pelos brilhantes filósofos ocidentais, é sua relação muito próxima com Hegel. De fato, muitas vezes nas conferências que compõem este livro, Dussel insiste na relação Hegel-Marx, no uso que Marx faz das categorias, do léxico e do método hegelianos. No modo de apropriação capitalista, um papel central é desempenhado pela negação, assim como na dialética hegeliana. A relação entre produção e consumo também é dialética: na origem existe uma necessidade vital do ser humano, que produz o material que permite a satisfação dessa necessidade. É, portanto, uma determinação vital na origem da produção do trabalho e o consumo é a negação da necessidade, satisfazendo-a. Dussel lembra que as determinações de Marx são sempre materiais, derrubando as hegelianas que eram ideais.

Dussel sustenta que Marx derrubou o método hegeliano, colocando o não-ser no início do ser e tornando-o o núcleo racional de sua análise crítica. De fato, ao contrário de Hegel, Marx pensa que o não-ser é real, ou seja, o trabalho vivo, ou a capacidade de trabalho, é a fonte criativa do valor, não o seu fundamento, porque o fundamento é o ser, mas o trabalho vivo ainda não é capital, é força/trabalho que pertence ao ser humano, que se vê obrigado a vendê-la no mercado, porque é pobre e não tem meios de produção para reproduzir a própria vida. O trabalho vivo é o não-ser do capital.

A reprodução da vida do pobre é confiada ao trabalho, que é atividade vital; aliás, Dussel afirma que o trabalho é “atualidade da vida”. O dinheiro, que ainda não é capital, procura justamente o pobre para comprar sua força/trabalho. Mas o pobre com sua capacidade de trabalho é o não-ser do capital. Existe, portanto, um contrato entre dinheiro e trabalho, entre capital e pobre. O pobre é subsumido de fora do capital, dentro do modo de produção do capital; sua força/trabalho é apropriada pelo capital. Se não houvesse pobres, o capital e sua reprodução não poderiam existir. A pobreza é a vida do capital, porque quando o dinheiro coloca em contato força/trabalho, ferramentas de trabalho e matéria-prima, então pode nascer o valor, que é, portanto, um ser, um processo que nasce do não-ser do capital.

Valor é o não-ser da capacidade de trabalho, mas dela é criado. O capital se realiza na medida em que o trabalhador se desrealiza. O valor é a objetivação de trabalho, de vida humana e qualquer processo econômico é vida humana objetivada, ou seja, negada. Aqui está o ponto central das polêmicas que acompanham a releitura dusseliana de Marx: a vida! A vida é o princípio material fundamental de toda ética. A validade de uma norma ética se dá por sua capacidade de participar da reprodução da vida, se não participa da reprodução da vida não é válida.

Dussel foi acusado por todos os intérpretes althusserianos de Marx de ser um místico, porque ele constantemente leva adiante a presença do tema da vida nas obras econômicas de Marx. Mesmo na Itália essas polêmicas foram difundidas, embora em menor grau, porque os italianos, particularmente eurocêntricos, não se dedicam à leitura de autores da Periferia, esperam as instruções do Centro (Estados Unidos, Alemanha, França, Inglaterra), condenando-se, assim, a ser Periferia. De fato, é difícil para acadêmicos eurocêntricos aceitar que os termos teológicos, usados por Marx, com perfeita correspondência semântica, não sejam metáforas, mas a derivação de sua crítica da economia política da teologia judaico-cristã.

Na realidade, Dussel é o único caso de um grande pensador que com a queda do socialismo passou para o marxismo. Dussel pode dizer que não foi marxista até os 40 anos. Depois, ele descobriu os pobres da América Latina e tentou entender a origem dessa pobreza e só Marx lhe oferecia os instrumentos teóricos para a compreensão da realidade de sua terra. São instrumentos teóricos críticos, por isso são eficazes para entender a crescente pobreza na América Latina.

Um papel importante na releitura dos textos de Marx por Dussel é desempenhado pela Teoria da dependência. Trata-se de uma teoria nascida na América Latina, mas que hoje diz respeito a toda Periferia do mundo, aliás, diz respeito às relações totais entre o Centro e a Periferia. A Teoria da dependência descreve a transferência de valor da Periferia para o Centro, transferência que cria a dependência dos países periféricos em relação aos centrais. Uma empresa do Centro transfere parte de sua produção para um país periférico, atraída pelo baixo custo da mão de obra daquele país. Os salários pagos aos trabalhadores do país periférico são devolvidos em valor produzido nas mercadorias em menos tempo do que os trabalhadores da mesma empresa no país central. Assim, a empresa aumenta seu lucro.

O importante é realocar a produção para os países periféricos, pagando salários de países periféricos, mas vendendo as mercadorias pelo preço que têm no país central. Outra forma de transferência de valor é representada pelos empréstimos que o Centro concede à Periferia. No caso da América Latina, esses empréstimos foram inicialmente solicitados por ditaduras militares e, então, impostos pelo Centro. Hoje, os empréstimos são dentro das mesmas empresas entre a central e as periféricas. Outra forma de dependência é a tecnológica: o Centro exporta sua tecnologia para a Periferia ao preço do Centro. A Periferia necessita dessa tecnologia para poder produzir mercadorias que possam ser vendidas no Centro, ou seja, tenta competir com as indústrias do Centro.

Na verdade, está comprando as ferramentas de produção a preços altos e vendendo a baixo custo suas mercadorias, quer dizer, transfere valor, que é a vida objetivada, para o Centro. Está exportando vida, porque exporta valor e não pode acumular valor para melhorar as condições de vida de seus pobres. A Teoria da dependência explica, assim, o elevado número de pobres na América Latina ou na Periferia do mundo, onde os pobres são a esmagadora maioria dos seres humanos. Esses pobres nem mesmo são uma classe, porque não são subsumidos pelo capital no processo de produção, são povo, ou seja, têm a própria cultura tradicional, mas não têm os meios para reproduzir a própria vida, são marginalizados e excluídos do sistema capitalista dominante.

A Ética da Libertação de Dussel nasce da releitura de Marx, pode ser considerada, portanto, uma ética marxista. A de Dussel é um caminho paralelo ao de Lukács, o maior filósofo marxista do século XX. Lukács, além de apoiar a estreita relação entre Hegel e Marx, planejava escrever uma ética, mas sua morte impediu a realização dessa ética marxista, porém o século XX terminou justamente com uma ética marxista, a de Dussel, que é uma ética materialista, precisamente porque tem como princípio a vida material do ser humano e sua exploração pelo capital. Dussel argumenta que o uso da rate of explotation (taxa de exploração) por Marx é a revelação da existência de sua ética associada à sua crítica da economia política que, por sua vez, está associada a uma antropologia, uma consciência da exploração das capacidades vitais do ser humano.

O tema da vida é recorrente nas obras de Marx e Dussel, e pode ser retomado com uma leitura filologicamente correta. O trabalho vivo foi mencionado como fonte criativa de valor, então, o trabalho vivo é também fonte criadora de valores morais e é a isso que Lukács se referia nos esboços de sua ética. Segundo Dussel, Marx faz uma crítica ética do capitalismo, pois remete as categorias da economia à fonte criativa dela, que é o trabalho vivo, e não reconhece valor no capital, o qual não produz valor. A produção de valor é o trabalho vivo do ser humano. A moral capitalista, ao contrário, sustenta que o fundamento do valor é o capital e o ser humano é reduzido a coisa, a meio da produção do lucro.

Para Dussel, leitor atento de Marx, o trabalho vivo é antes de tudo o meio para a satisfação das necessidades do ser humano vivente, de todas as necessidades do ser humano, tanto materiais quanto espirituais. Mas todas as necessidades do ser humano são necessidades corporais e naturais, até as necessidades espirituais dizem respeito ao corpo do homem, porque o homem é naturalmente um animal espiritual. Não é possível ter uma vida espiritual digna se passar fome; aliás, a fome é a oposição entre corpo e espírito. Assim, o estranhamento da atividade espiritual do ser humano corresponde à alienação do trabalho vivo, da capacidade corpórea de trabalho do ser humano. As duas formas de desumanização estão intimamente ligadas e indissociáveis, pois corpo e espírito são inseparáveis no ser humano. Esse é o aspecto material da ética de Dussel, que ele apreende de Marx e dele retoma também o caráter universal dessa ética, porque Marx não elaborou uma teoria crítica válida apenas para a Europa, mas para toda a humanidade.

O marxismo de Dussel se baseia justamente na consciência que Marx tinha da preeminência da vida sobre a morte, da necessária reprodução do corpo e do espírito do ser humano. A fome e a pobreza são sofrimento. Marx estava ciente desse sofrimento, assim como o fundador do cristianismo, que era um ser humano que tinha medo da morte (Jesus no jardim Getsêmani), enquanto o fundador da civilização ocidental, Sócrates, não tinha medo da morte. Há, portanto, uma dialética vida/morte e, de fato, Marx capta essa dialética quando fala de trabalho vivo e capital morto. O capitalismo reproduz esse dualismo da civilização ocidental: a força/trabalho do trabalhador está dentro do sistema como a força reprodutiva do sistema, suas necessidades estão fora do sistema, elas só entram nele como fonte de consumo fetichista das mercadorias.

A análise crítica de Dussel parte de uma perspectiva externa ao sistema capitalista dominante, daquela exterioridade na qual ele insiste constantemente. É uma perspectiva presente para Marx, aliás, é a mesma que a de Marx, se tivermos em mente o fato de que Marx só pôde compreender totalmente o capitalismo mudando-se para a Inglaterra, isto é, em contato físico direto com a classe operária, a vítima do capitalismo. Do ponto de vista da exterioridade e da exclusão, Marx e Dussel – este como latino-americano – podem compreender a totalidade do sistema capitalista dominante. Dussel observa acertadamente que os intelectuais marxistas do Centro falaram de totalidade, mas cada totalidade impõe uma exclusão e, portanto, uma exterioridade, à qual se contrapor uma subsunção. Dussel usa sua própria tradução do termo alemão Aufhebung com subsunción, que traduzi literalmente como “subsunção”. Mas o sub da palavra espanhola não deve ser entendido apenas como “estar abaixo”, mas como “aquilo que surge de baixo e o constitui como parte”, como parte integrante e necessária para a constituição do sistema de dominação. De fato, o trabalho vivo é a exterioridade do capital e quando entra no sistema capitalista torna-se trabalho assalariado. As categorias econômicas se transformam na dependência de seu movimento em perfeita sintonia com o método dialético hegeliano.

O sistema capitalista dominante é substancialmente um sistema formal que, de fato, é baseado em preços e exclui o momento material da vida humana, e na qualidade de sistema formal é autorreferente. Não é por acaso que o neoliberalismo funda sua ideologia no mercado capitalista e não tem nenhuma postura crítica em relação a ele; aliás, o neoliberalismo preconiza uma consciência universal do mercado, que é,na verdade,uma abstração da vida real. O mercado universalizou o mundo, mas não universalizou a humanidade. O mercado capitalista está inserido entre o trabalho vivo do ser humano e a satisfação de suas necessidades, ou seja, a reprodução da vida. Na sociedade capitalista moderna, os meios para satisfazer as necessidades são encontrados apenas no mercado, e é precisamente nessa intermediação que ocorre a reificação das necessidades e a fetichização das mercadorias. O mercado é a determinação negativa da força/trabalho como atualidade da vida e a determinação vital da necessidade humana e sua substituição pelo consumo mercantilizante.

Quem não tem dinheiro para ir ao mercado satisfazer suas necessidades está fora do mercado, excluído dos meios de satisfazer as próprias necessidades, é um pobre marginalizado pela moderna sociedade capitalista. O grande problema da humanidade, hoje, é que a maioria da humanidade está excluída do mercado, porque não tem dinheiro. Vale lembrar que Dussel está falando para um público latino-americano, portanto composto por índios, negros, mulatos, mestiços, além de brancos crioulos, que buscam sair do estado de pobreza para colaborar para a melhoria de toda a sociedade civil latino-americana, como é tradição das sociedades latino-americanas, onde o pobre, quando não é completamente anulado pela fetichização das mercadorias e do dinheiro, sempre se coloca na perspectiva de colaborar com os outros para todos melhorarem juntos. Trata-se de um público que sabe o que significa ser pobre.

*Antonino Infranca é doutor em filosofia pela Academia Húngara de Ciências. Autor, entre outros livros, de Trabalho, indivíduo, história – o conceito de trabalho em Lukács (Boitempo).

Tradução: Juliana Hass.

Fonte: https://aterraeredonda.com.br/o-marx-de-enrique-dussel/?utm_term=2021-09-23&doing_wp_cron=1632493974.2128329277038574218750

“[As pessoas que não acreditam na Ciência] não devem ser tratadas como malucas”

 

Nuno Maulide, professor de Química Orgânica na Universidade de Viena Foto: Luís Barra 

 
Nuno Maulide regressou à casa onde se fez engenheiro, o Técnico, em Lisboa, para apresentar o livro Como Se Transforma Ar em Pão. Professor de Química Orgânica da Universidade de Viena, passará também a ser professor catedrático convidado do Departamento de Engenharia Química daquela instituição. Defende um ensino superior exigente, mas justo – o que nem sempre acontece, defende

O auditório do Complexo Interdisciplinar, no Técnico, em Lisboa, está cheio de caras conhecidas de Nuno Maulide – mesmo que mais velhas e cobertas pela metade. Professor de Química Orgânica na Universidade de Viena, Áustria, vai falando com antigos professores e colegas de curso que se juntaram numa sexta-feira ao final da tarde para a apresentação do seu livro Como Transformar Ar em Pão (editora Planeta) que, numa linguagem simples e “desafetada” e com ilustrações apelativas, vai da comida às alterações climáticas para mostrar que tudo é química e que, por isso, não há que ter medo dela, da Química. Explicar e tornar simples conceitos complexos é parte essencial da sua identidade. Já era assim quando ainda estudante de licenciatura entrava na biblioteca, à procura de quem tivesse dúvidas, ou enquanto andava a aprender piano e teve vontade de dar aulas de música, ou praticava ginástica e quis ensinar os amigos a fazer mortais, ou até quando tirou a carta de condução e cogitou ser instrutor. Na Áustria, esta paixão já lhe valeu o prémio de Cientista do Ano, em 2018. De regresso, pelo menos parcial, à casa de partida, onde integrará o corpo de docentes, como catedrático convidado do Departamento de Engenharia Química, admite que “o jeito para ensinar” não é tido em conta na carreira de um professor universitário – mas devia. 

No Técnico, onde estudou e aonde regressa agora como professor, sofre-se muito enquanto se está a estudar. Tem de ser assim?

Não. De maneira nenhuma!

Então por que razão isto acontece?

Penso que isto acontece porque é a perpetuação de um trauma: “Eu sofri, logo os meus alunos também vão ter de sofrer”. Tem de haver um nível de exigência elevado na universidade – sou um grande defensor disso – não é para ser fácil. Mas tem de ser justo. É preciso combinar as duas coisas. Perguntei aos meus alunos repetentes de Química Orgânica se estavam revoltados comigo. E eles responderam que não, porque sentiram que o exame era justo – só que a disciplina é vasta e exige muito estudo. Nem sempre se avalia a qualidade pedagógica na escolha de um professor universitário. Privilegia-se a componente de investigação. Eu acho que devia haver prémios tendo em conta a componente pedagógica.  

O livro está disponível em Portugal desde o início de setembro

No livro tem a preocupação de desmontar ideias feitas, negativas, acerca de questões relacionadas com a Ciência, em particular com a Química. Nunca houve tanta comunicação de ciência como a que temos assistido durante a pandemia. Apesar disso, nunca pareceu haver tanta desinformação. Até parece ser contraproducente…

É um problema muito grande [a desinformação]. O que penso é que não estamos a abordá-lo da forma certa. Quem está a defender coisas como ‘A Terra é plana’ não está à espera que alguém vá demonstrar que não o é – isto já foi feito muitas vezes e não é por isso que se deixaram convencer. Dentro deste grupo de pessoas que acredita em coisas deste género, há quem tenha um posicionamento de crente, de dogma. E aí não há nada a fazer! Depois há outro grupo de pessoas que poderiam mudar de opinião se sentissem que estão a ser tratadas com respeito. O grande problema da falta de confiança nos peritos é as pessoas sentirem que estão a ser tratadas com arrogância. Vimos isso também na altura do Brexit e do Trump – as pessoas estão fartas de peritos.

Que por vezes perdem a paciência a tornam-se agressivos.

Exatamente. O que eu até posso compreender. Porque ao fim de tanto tempo [de ter sido demonstrado que a Terra não é plana] e numa altura de tão grande desenvolvimento tecnológico ter de convencer pessoas de que a Terra não é plana é um bocadinho exasperante. Mas temos de abordar quem acredita nisto em pé de igualdade. A abordagem tem de ser a de explicar o método científico, que é muito frustrante porque não dá certezas. Elabora-se uma teoria que permite explicar uma série de observações. Mas a primeira coisa que os cientistas fazem é provar por A mais B que a teoria está errada. O objetivo é chegar a uma teoria que permita explicar o que se observa, com base em medições rigorosas, e fazendo previsões para o que ainda não se mediu. Quem cria teorias da conspiração tem uma abordagem completamente oposta. Cria uma teoria e vai à procura de pequenas porções de informação que poderiam encaixar na teoria. É o contrário do método científico já que só se recorre ao que confirma a teoria e elimina-se os restantes dados. Vamos tomar como exemplo a teoria da Terra plana. Podemos sentar-nos com a pessoa e perguntar: admitindo que a Terra é plana, o que seria previsível observar, para podermos testar a teoria? Tenho a certeza de que com uma abordagem deste género as pessoas que não têm uma perspetiva dogmática, de crente, se deixariam muito mais facilmente convencer.

Já teve sucesso com uma abordagem deste género?

Sim! Tenho esta experiência. As pessoas dogmáticas não aguentam o confronto de ideias. Não vale a pena sequer. As outras, que aceitam discutir porque acreditam que a sua teoria vai sobreviver ao escrutínio, nunca foram sensibilizadas para o facto de a ciência ter por base o escrutínio.

Durante a pandemia ocorreu um fenómeno que foi uma espécie de ‘conversão’ à desinformação. Pessoas que até então acreditavam na ciência mudaram completamente de posição. Como explica este percurso?

Continuo a achar que é pela falta de interlocutores que as levem a sério. Devem ser consideradas e não dispensadas pura e simplesmente, tratadas como malucas. O problema é que quando se vai pelo caminho do rebater, isto gera logo oposição. Temos de ir por um discurso positivo.

Antigo aluno do Técnico, Nuno Maulide regressa agora como professor convidado

Tem esperança que consiga converter pessoas com este livro?

Olhe, todos os jornalistas a quem dei entrevistas sobre o livro me disseram que tinham ficado a perceber que a química não é boa nem má. Houve até quem tivesse ido fazer as experiências [descritas no livro].

Sente diferença na perceção relativamente à ciência entre Portugal e a Áustria?

Noto na perceção relativamente à necessidade de investir em Ciência. Neste momento, o investimento em ciência na Áustria está próximo dos três por cento do PIB.

Em que é que isto se traduz na atividade científica?

Em imensa coisa. Por exemplo há concursos para projetos durante todo o ano e as taxas de aprovação são de vinte a trinta por cento.

O que é mais do dobro das taxas de aprovação em Portugal…

Exato. Mas mesmo assim para nós [cientistas na Áustria] não chega. Também há verba disponível para as universidades contratarem pessoas para apoiar a investigação e dar aulas.

Se pudesse resolver um problema da atualidade, o que gostaria de resolver?

Há vários, mas há um que não está assim tão longe assim de ser resolvido, embora não seja ainda economicamente viável, que é o splitting da água [separação da água em oxigénio e hidrogénio]. Porque aí podia ter um carro movido a água. Neste caso, o hidrogénio da água é que faria mover o carro. Ou seja, seria um carro que consumiria água.

Disse que estavas prestes a ser resolvido…

Quer dizer, já existe a tecnologia. Se tivermos um copo de água iluminado, pela luz do dia, e tivermos uma folha, um pedaço de papel impregnado com um catalisador, mergulhada na água, as bolhas de hidrogénio começam a libertar-se. O splitting da água acontece, graças à energia dos fotões. Só que isto ainda não é eficiente.

E na sua área, da química orgânica, o que solucionaria?

A transformação de metano em metanol. Não estou a trabalhar nisso, mas é um problema da química orgânica muito complicado.

Qual é o interesse em conseguir fazer isso?

O metanol é o primeiro composto na cadeia de conversão da química. Tendo acesso a metanol pode fazer-se toda a química: produzir as cadeiras em que estamos sentados, os cosméticos, praticamente tudo. O problema é que a maior parte dos processos que permitem fazer metanol a partir de metano, que é uma fonte renovável, são muito pouco eficientes o que nos deixa muito dependentes da indústria petroquímica, que gera não metanol mas outros compostos que se poderiam obter a partir do metanol e é com estes compostos que fazemos a química toda. Portanto, se fosse possível substituir toda a química do petróleo por uma química renovável, isto teria um enorme impacto positivo. Ainda mais giro seria despolimerizar a lignina e a celulose.

Vai ter de explicar do que se trata…

Eu imagino um polímero como uma cadeia de crianças de mãos dadas – o plástico é um polímero. Despolimerizar é separar as crianças. Este processo requer muita energia. Sendo a celulose uma das moléculas mais comuns na Terra, ser capaz de a cortar aos pedacinhos seria uma excelente jogada. A lignina, que é o que existe na casca de qualquer árvore, é outro polímero que existe ao pontapé e é muito mais difícil de partir do que a celulose. É também muito mais valiosa e quem o conseguir partir de forma eficiente ganhará um prémio Nobel e resolverá grandes problemas, gerando uma economia muito diferente da do petróleo.

A comida nunca foi tão segura e controlada. No entanto nunca houve tanta desconfiança e tanto medo relativamente à comida. Tem uma explicação para isso?

Por haver mais controle e mais cuidado gera-se uma tomada de consciência muito maior relativamente ao que está a ser feito. Há também muita informação que gera medo, como a de galinhas a crescer em espaços muito apertados, em grande concentração. Não é de facto natural manter galinhas em espaços exíguos e tratadas com antibiótico para acelerar o crescimento. É normal que as pessoas procurem processos mais naturais. Só não está garantido que sejam assim tão mais seguros … Mesmo assim, vivemos num continente em que as normas são as mais apertadas. Na América, por exemplo, há muito menos preocupação com a segurança alimentar.

Mas há a ideia de que a FDA é muito rigorosa.

Nem por isso. Aliás, uma das motivações para o Brexit foi precisamente o que os britânicos consideravam excesso de regulação. As pessoas nem sempre têm esta noção, de que o escrutínio feito a Europa é muito rigoroso.

Reportagem: Por  Sara Sá Sara Sá (Jornalista)

Fonte: https://visao.sapo.pt/exameinformatica/noticias-ei/ciencia-ei/2021-09-23-as-pessoas-que-nao-acreditam-na-ciencia-nao-devem-ser-tratadas-como-malucas/

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

O amor é uma bactéria

 Marcello Dantas*

Bactérias são organismos vivos que podem sofrer mutações – Jornal da USP

Microrganismos são capazes de regular o nosso peso, nosso humor, nosso cheiro e, curiosamente, por quem vamos nos apaixonar

22 de Setembro de 2021

Existe um fungo chamado cordyceps que, ao infectar uma formiga, altera todo o seu comportamento. Ele passa a comandar todos os seus movimentos, fazendo com que a formiga zumbi suba em uma planta específica e lá, se suicide. O fungo tem a inteligência e a capacidade de guiar e fazer a formiga, seu hospedeiro, obedecer piamente.

Em inglês existe a expressão gut feeling, que em português é algo como “seguir o seu instinto”. Contudo, gut significa “intestino”, portanto gut feeling é sentir o intestino para tomar uma decisão. Muita gente se refere ao intestino como nosso segundo cérebro. Na realidade, esse órgão é o nosso primeiro e mais importante cérebro. Ele comanda nossas ações e nosso comportamento muito mais do que a nossa ingênua mente imagina.

As bactérias de cada ser humano estabelecem as condições essenciais na vida de cada um. Apenas 1% dos genes do nosso corpo é humano, 99% são bactérias, vírus, fungos, parasitas e protozoários. Estes microrganismos são capazes de regular o nosso peso, nosso humor, nosso cheiro e, curiosamente, por quem vamos nos apaixonar. Isso não é figura de linguagem, é ciência pura.

Assim como quando temos um desejo compulsivo por açúcar, mesmo cientes que nos faz mal, há uma ordem enviada por bactérias intestinais instruindo a comer o açúcar que alimentará aqueles tipos de bactérias. O mesmo acontece com o amor.

Quantas vezes o cheiro pode ter te atraído ou te afastado de uma pessoa? Isso é um sinal do encontro ou desencontro de bactérias

Experimentos recentes feitos com moscas e ratos provaram que aqueles que eram alimentados exclusivamente com certos tipos de bactérias iriam cruzar prioritariamente com os que possuíam bactérias complementares a essas. As bactérias induziram a produção de certos hormônios fazendo com que as moscas e ratos sempre procurem seus pares ideais mesmo quando colocadas em grupos com diversidade bacteriológica.

Quantas vezes o cheiro pode ter te atraído ou te afastado de uma pessoa? Isso é um sinal do encontro ou desencontro de bactérias. Um beijo na boca transmite 8 milhões de bactérias por segundo. O beijo é a conexão mais forte entre as microbiotas de duas pessoas.

E sim, o beijo define tudo na atração entre duas pessoas. A escolha de um par é afetada por um sistema chamado complexo de histocompatibilidade (MHC), que consiste numa mistura de proteínas e bactérias que dá a cada pessoa uma identidade olfativa única. A teoria diz que a gente seleciona nossos pares inconscientemente com base em perfis bacterianos que complementarão nossa base imunológica nos tornando menos frágeis.

A chave dessa história é entender que existe uma outra dimensão na sua biografia que, provavelmente, você não levava em conta, até então. É o que eu chamaria de “biolo-grafia”. Uma identidade acima do seu ego que comanda a sua personalidade, seu metabolismo, suas relações sexuais e sua afetividade. Em cada umbigo existe um acervo de identidades singulares. Isso nenhum psicanalista vai conseguir resolver porque, no fundo, você é um mero obediente.

Uma identidade acima do seu ego comanda a sua personalidade, seu metabolismo, suas relações sexuais e sua afetividade

O próprio Alexander Fleming, inventor da penicilina, costumava fazer pinturas com bactérias já nos anos 1920 para observar como suas transformações ocorriam. Hoje artistas em diferentes partes do mundo estão começando a entender o potencial poético de trabalhar em cooperação com a orquestra de bactérias que conduzem nossos destinos. Será que podemos simular os sinais que fazem nossas bactérias responderem de uma certa forma? Será que conseguimos decodificar nossos anseios bacterianos? Será possível mudar o curso de seus determinantes micróbios? É possível criar com bactérias? Qual desenho a cultura das bactérias do seu corpo formaria?

Essas e outras perguntas estão sendo elaboradas por artistas como Mehmet Berkmen, Sonja Bäumel, Maria Penil e Joanne Dungo, entre outros, que têm explorado o potencial imenso de se fazer uma arte que seja viva. Aceitar a transitoriedade das coisas é o primeiro passo para entender esta nova era que estamos vivendo, em que você é apenas o vetor encontrado para que as bactérias do seu parceiro se aproximem das suas.

*Marcello Dantas trabalha na fronteira entre a arte e a tecnologia em exposições, museus e projetos que enfatizam a experiência. É curador interdisciplinar premiado, com atividade no Brasil e no exterior 

Fonte:  https://gamarevista.uol.com.br/colunistas/marcello-dantas/o-amor-e-uma-bacteria/ 

Imagem da Internet

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 Ana Ruepp*


A singularidade da arquitetura não é abrigar uma vida cómoda, estável nem garantida.

“Construir é colaborar com a terra; é pôr numa paisagem uma marca humana que a modificará para sempre…”, Marguerite Yourcenar


A arquitetura é um fenómeno de grande complexidade que liga o mundo à vida humana. É vazio mas também limite. É uma totalidade que dá forma a volumes no espaço que encerram em simultâneo vários objetos e vários pensamentos. A arquitetura concretiza ideais de preenchimento, de posição, de encontro, de movimento e de tempo. É a forma que encerra o nada e matéria em transformação.


A arquitetura realiza-se no espaço verdadeiro e tangível que é ocupado pela atividade do nosso corpo. Vem do desenho e da mão humana. Por isso é também invenção, meio de expressão, meio de transmissão de pensamento e um símbolo.


“Cada pedra era a estranha concreção de uma vontade, de uma memória, por vezes de um desafio. Cada edifício era a o plano de um sonho.”, Marguerite Yourcenar


A arquitetura é um conjunto de partes cujo comprimento, a largura e a profundidade concordam entre si de uma certa maneira e constituem um sólido inédito, com um volume interno, uma massa exterior e uma sensibilidade às variações da luz. A relação entre o volume interno e a massa exterior varia no tempo e talvez seja aí que resida a originalidade mais profunda da arquitetura. Os volumes externos ao formarem o espaço oco, fazem surgir inesperadamente um elemento novo no meio das formas naturais - é assim concebido uma espécie de avesso do espaço. O ser humano age sempre no vazio, no exterior das coisas, está sempre de fora. Se quiser entrar no interior dos objetos tem de os quebrar.


A singularidade da arquitetura não é abrigar uma vida cómoda, estável nem garantida mas sim contribuir através de uma sucessão de espaços interpenetrantes para a lenta transformação que a breve vida humana apresenta e colocá-la incessantemente em contacto com o cosmos que a rodeia. A arquitetura será sempre e acima de tudo uma experiência que compreende a produção e a receção, a atenção e a participação, a imaginação e o corpo, o pensamento e o mundo.

*Mestrada em Arquitetura pela Universidade de Lisboa, Pós-Graduada e Mestra em Fine-Arts pela University of Arts de Londres 

Fonte: https://e-cultura.blogs.sapo.pt/a-forca-do-ato-criador-1137312 

Derrotar Bolsonaro no ano que vem é possível, mas o bolsonarismo, nem tanto

Marcelo Coelho*

Desenho mostra uma faixa presidencial verde e amarela cheia de nós 
 Publicada em 21 de setembro de 2021 - André Stefanini

O corpo mole com relação ao impeachment do presidente pode nos jogar em dinâmica da era Lula



Dá para entender o cansaço das pessoas com relação ao impeachment de Bolsonaro. Tudo empaca no presidente da Câmara dos Deputados, e as pressões sobre ele não são das mais consideráveis.

A sensação vem acompanhada de grande otimismo com a eleição de Lula em 2022. A terceira via tem se mostrado puramente imaginária até aqui, e as pesquisas apontam para uma lavada a favor do petista.

Contra Bolsonaro, qualquer um é excelente candidato, na minha opinião. Lula, Doria, Moro, Luciano Huck, quem você quiser. Mas é aí que as coisas se complicam. Misturam-se dois objetivos: tirar Bolsonaro e fazer um novo governo. O que serve para um caso não serve necessariamente para outro.

Imagino uma grande convergência em torno de Lula para ganhar as eleições. Quem seria o seu vice? Alguém do agronegócio ou do varejo? Renan, quem sabe? Qual seria a sua base no Congresso? Uma aliança ainda mais ampla do que a construída das outras vezes?

Toda a habilidade política do ex-presidente para contentar PMDB, PTB e o que seja me parece insuficiente, a esta altura, para conduzir um governo nos próximos anos. Os anos Lula se beneficiaram de uma boa situação econômica. Os avanços sociais cobriram, por um bom tempo, a corrupção e a ausência de reformas essenciais.

Achar possível uma volta àquela situação de conforto seria ignorar o que aconteceu a partir de 2013 e, mais ainda, as próprias razões do bolsonarismo. Derrotar Bolsonaro é possível com largas alianças à direita. Derrotar o bolsonarismo é uma tarefa bem mais difícil e exigiria um bocado de radicalidade. Dou alguns exemplos. 

Não me parece possível nenhum avanço no plano dos direitos da mulher, do respeito à laicidade do Estado, do estímulo ao pensamento científico e da melhoria intelectual da população se um futuro governo mantiver as televisões dominadas por igrejas evangélicas.

Por que uma TV, concessão do Estado, pode alugar seu espaço a curandeiros histéricos e enganadores? Ai de quem tocar nesse assunto! “Atentado à liberdade religiosa! Preconceito!” Uma coisa é atentar contra a liberdade religiosa. Outra é facilitar a vida de trambiqueiros.

Outro exemplo. Como permitir que as Forças Armadas e as polícias militares vivam em completo desacordo com o legado da democratização, e com princípios de respeito aos direitos humanos estabelecidos há séculos?

Uma intervenção ideológica radical seria necessária —mas seu sucesso dependeria, também, de uma política de segurança pública de audácia jamais vista… Pois a convicção geral de que “bandido bom é bandido morto” nasce do real desespero de quem vive em áreas de risco.

A mudança no sistema eleitoral seria uma terceira frente: sem o voto distrital misto, ninguém tem controle sobre deputados e vereadores e mal lembra em quem votou.

Por fim, o blá-blá-blá dos economistas neoliberais, com a eterna e velada ameaça de que qualquer coisa de esquerda “afugenta o investidor”, teria de ser combatido. Como acreditar no futuro econômico de um país com infraestrutura em pandarecos, com sistema educacional ridículo, desigualdades sociais gritantes e tanta insegurança pública?

Falo, portanto, de quatro pilares do bolsonarismo: neoliberais, tele-evangélicos, milicianos e fisiológicos. Nem menciono o agronegócio e as mineradoras, cujas exportações seguraram a economia nestes anos.

É muita gente para ser conciliada. São muitas cabeças sobre as quais passar a mão. Unificar uma grande maioria para derrotar Bolsonaro nas urnas pode ser possível. O preço a pagar num governo futuro pode ser altíssimo.

São, como eu disse, duas tarefas distintas. O crescimento de uma mobilização popular, culminando num impeachment, abriria caminho para opções mais claras no momento posterior das eleições.

O corpo mole com relação ao impeachment pode resultar no mesmo que se viu durante a era Lula: um jogo de equilibrismo com a direita, que se torna mais difícil agora que seu ressentimento e radicalização vieram à tona.

Meu raciocínio pode ser acusado de total irrealismo —o impeachment parece distante. Mas o irrealismo de hoje pode se revelar bem realista daqui a alguns anos. Esquecer a experiência de 2013, e dos anos que se seguiram, é também fechar os olhos para o que acontece.

*Mestre em sociologia pela USP, é autor dos romances “Jantando com Melvin” e “Noturno”. 
 
Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcelocoelho/2021/09/derrotar-bolsonaro-no-ano-que-vem-e-possivel-mas-o-bolsonarismo-nem-tanto.shtml

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Usa sacos de pano ou papel porque são melhores para o Ambiente? Bom, talvez não sejam…

 Visão Verde

 
Getty Images
 
A pegada ambiental dos sacos de plástico é menor do que a dos sacos de papel ou de algodão, conclui estudo da Deco Proteste e outras associações europeias. A mesma análise indica que os sacos de algodão biológico são (ainda) piores do que os de algodão convencional. Os resultados vêm na mesma linha de estudos anteriores

Um estudo realizado em Portugal pela Deco Proteste e por congéneras suas em Espanha, Itália e Bélgica tentou perceber o ciclo de vida dos vários tipos de sacos disponibilizados nos supermercados, para ajudar os consumidores a tomarem as opções mais sustentáveis. As conclusões podem surpreender muita gente, que descartou os sacos de plástico devido aos seus efeitos no Ambiente.

“Analisámos o número mínimo de vezes que os sacos [de diferentes materiais] devem ser reutilizados para poderem ter um impacto ambiental igual ou inferior ao dos sacos de plástico que só são usados uma vez, e verificámos que não há bom nem mau, há melhor e pior. Temos de perceber o nosso perfil enquanto consumidor”, explica à VISÃO Elsa Agante, Team Leader de Energia e Sustentabilidade, da DECO PROTESTE.

A pior opção é o trolley de compras – a menos que se consiga utilizá-lo mais de 742 vezes. Este tipo de sacos com rodas tem maiores impactos ambientais, nomeadamente nas alterações climáticas e toxicidade, ao longo de todo o ciclo de vida. Fazendo as contas, se for diariamente ao supermercado com o trolley, precisará de dois anos e doze dias para compensar, do ponto de vista ambiental.

Se, em alternativa, optar por um saco de algodão, tem de utilizá-lo 101 vezes para que seja mais sustentável do que um simples de plástico, já que requer mais material e mais energia para ser fabricado. Pior se for um caso de algodão biológico: tem uma pegada ecológica 149 vezes maior do que um de plástico (uma vez que este tipo de agricultura não utiliza fertilizantes nem pesticidas sintéticos, tem uma menor produtividade, pelo que necessita de mais 30% de área de cultivo, aumentando o seu impacto em termos de recursos e emissões).

Um estudo do Ministério do Ambiente e Alimentação da Dinamarca tem resultados ainda mais negativos para os sacos de tecido. A investigação, de 2018, concluiu que um saco de algodão convencional tem de ser usado 7 mil vezes para compensar os recursos que se gastaram no seu fabrico. Um saco de algodão biológico, por seu lado, precisa de 20 mil utilizações para atingir o desempenho ambiental dos sacos plásticas convencionais.

Reutilizar, reutilizar, reutilizar

Os sacos de polipropileno (os reutilizáveis, de plástico mais grosso) e os de poliéster têm de ser usados até 4 e 3 vezes, respetivamente, para que sejam mais sustentáveis. Surpreendentemente, um saco de plástico tem uma pegada ambiental menor do que um saco de papel com o mesmo número de utilizações. O papel terá de ser usado nove vezes para igualar a utilização do saco plástico. O problema dos sacos de papel é que dificilmente se consegue garantir a sua qualidade até à nona utilização.

Segundo Elsa Agante, da Deco Proteste, para considerar um saco mais ou menos amigo do Ambiente “fez-se a análise de todo o ciclo de vida de todos estes tipo de produtos: a extração das matérias-primas, a energia consumida na produção, o transporte, se tem tintas ou não e o tipo de cola ou costura.” Finalmente, foi ainda considerado o destino final de acordo com as taxas de reciclagem de cada país.

Os consumidores também devem repensar as suas opções quanto aos sacos reutilizáveis em poliéster para transportar fruta. Isto porque, se forem simples, dez utilizações bastam para que os impactos ambientais sejam inferiores face à utilização de sacos de plástico de uso único. Mas, se o saco for colorido, aumenta para 98 o número de vezes que precisa de ser reutilizado. Já os sacos de algodão para a fruta devem ser utilizados 952 vezes, o que só trarão beneficícios se forem usados durante longos anos.

“Utilizar sacos mais simples, com um único material, com o mínimo de tintas e cola possível – são pequenas coisas que fazem toda a diferença”, sugere Elsa Agante.

Um estudo publicado pela Universidade Tecnológica de Nanyang, Singapura, também verificou que sacos de plástico reutilizado ​​são uma melhor opção, desde que sejam reutilizadas muitas vezes. A análise dos diferentes tipos de saco baseou-se na produção, distribuição, transporte, tratamento e descarte no fim da vida. Sacos de algodão e papel requerem grandes quantidades de água e recursos naturais, deixando uma pegada ecológica maior, afirma o relatório.

Há, no entanto, que recordar que os sacos de plástico têm outras desvantagens ambientais: o plástico que vai parar aos oceanos é já um problema gravíssimo, e com tendência a piorar.

Fonte:  https://visao.sapo.pt/visao_verde/2021-08-30-usa-sacos-de-pano-ou-papel-porque-sao-melhores-para-o-ambiente-bom-talvez-nao-sejam/?utm_term=VIS%3F%3F%3F%3FO+VERDE%3A+Entalados+entre+negacionistas+e+hipocritas&utm_campaign=Sites+Trust+In+News&utm_source=e-goi&utm_medium=email

A barbárie e os bárbaros

 Por FELIPE CATALANI*

Richard Billingham, "Seta", 2000.

Notas sobre o processo social brasileiro na crise[1]

“Reter é hoje privilégio de um pequeno grupo dos poderosos, que sabe Deus não são mais humanos que os outros; na maioria bárbaros, mas não no bom sentido” (Walter Benjamin, Experiência e pobreza).

“Sou um agente da civilização contra a barbárie.” Poderia ser Quincas Borba, mas é Fernando Haddad, ainda enquanto prefeito de São Paulo, em 2015. Talvez haja quem diga que, no limite, “guerra cultural” é isso: cultura contra não-cultura. Quem sabe poderíamos nomear esse conflito, tal qual imaginado pelos que se consideram do lado da cultura, de a civilização contra seus descontentes, para homenagear a terrível tradução americana do título de um clássico de Freud: Civilization and its Discontents. Contra a intuição fundamental de Freud, a civilização seria algo autossuficiente, ou quase, pois ela teria sempre que lidar com alguns inadaptados incivis.[2]

Para além da autocomplacência, o modo como esse par de conceitos – civilização e barbárie – vem sendo mobilizado no discurso e no imaginário político contemporâneo mereceria atenção, sobretudo após nosso último capítulo da dialética brasileira do esclarecimento (também conhecida como “dialética da ordem e da desordem”, nos termos de Antonio Candido), que não é outra coisa senão o colapso brasileiro da modernização. Se Haddad concebia-se em 2015 como “um agente da civilização contra a barbárie”, certamente não lhe faltaram motivos para incarnar essa nobre posição em 2018. Durante a campanha do primeiro turno, alguém havia feito até mesmo uma espécie de gráfico que representava, no canto da extrema direita, a “barbárie” (Bolsonaro), e, ao lado, a “civilização” representada em um degradê que ia da esquerda para a direita, onde estavam distribuídos no espectro político todos os outros candidatos, de Alckmin a Boulos, passando por Amoedo, Meirelles, Marina, Ciro e Haddad.

Não pretendo fazer um julgamento daquela imagem que, como outras dezenas de milhares, foi produzida para disputar corações e mentes de eleitores no campo virtual, no sentido de dizer que a linha que divide “civilização” e “barbárie” deveria ser deslocada para incluir os outros nomes, o que seria uma bobagem. Interessa observar que a civilização representa aqui um limite, à esquerda e à direita do sistema político, e a barbárie seria um excesso beyond the line inaceitável. Em que sentido, portanto, Haddad poderia ser considerado um “agente da civilização”? Se tomarmos essa acepção corrente, em que civilização é uma contenção e a barbárie é o descontrole e o desrecalque de algo como uma “tendência natural à violência”, a denominação até pode funcionar – embora a barbárie real não caiba nesse pequeno esquema.

Para tentar entender como esse par de ideias pode estar em operação, pensemos por exemplo nas leis de trânsito. É considerada uma das maiores vitórias da esquerda da capital paulista a criação de ciclovias e a diminuição dos limites de velocidade em marginais e grandes avenidas. Ironias à parte e permitindo o exagero, talvez a ideia de “leis de trânsito” configure a alma da esquerda hoje. Quem sabe esse exagero não seja tão descabido, se adicionarmos às “leis de trânsito” a ambulância e os socorristas que vão ao atendimento das vítimas das fatalidades-acidentes. Nada que seja também tão espantoso se considerarmos que o destino da esquerda, após o desaparecimento do horizonte de transformação da sociedade, tenha se reduzido à famigerada “gestão do social”. Menos espantoso ainda se constatarmos que na gênese histórica do social em meados do século XIX (após o trauma de 1848, certamente) está também uma questão de segurança, a saber, os acidentes de trabalho nos moinhos satânicos da sociedade industrial moderna. E cabe lembrar que, já em sua origem, “a seguridade [assurance] não é a antecâmara do socialismo, mas seu antídoto”. (DONZELOT, 1994, p. 137)

Se hoje é essa segurança que estamos chamando de “civilização”, podemos dizer que, no nosso presente prolongado em que o futuro catastrófico deve ser evitado pela gestão dos riscos, estamos diante de algo como um progressismo sem progresso, análogo à experiência lulo-petista do reformismo sem reforma. Por isso, a comparação com o reformismo do século XIX, mesmo que seja como crítica em nome do desejo revolucionário, é inadequada, pois “reforma” aqui não significa outra coisa senão adiar o momento em que a casa vai cair.

A “força civilizatória” da esquerda é análoga portanto à de um freio – certamente não o “freio de emergência” de Walter Benjamin, que significava a interrupção da máquina do mundo e que permitiria a seus passageiros dela descerem e tomarem o rumo que bem entendessem – o freio a que nos referimos aqui é pura contenção, um mecanismo portanto inerente ao funcionamento normal das coisas, mas que aqui tem a função única de retardar e evitar um grande acidente. Portanto, o “freio” não é um elemento isolável: ele é inseparável do acelerador. Ou seja, não se trata somente de Segurança, mas também de Desenvolvimento – sendo que um é a verdade do outro.

Quer dizer, chegamos aqui ao que a Escola Superior de Guerra chamou de “Objetivos Nacionais Permanentes” (justamente, Segurança e Desenvolvimento). Como sintetizou Robert McNamara em seu A essência da segurança (1968), evocado por um expert da ESG explicando a Doutrina de Segurança Nacional: “Segurança é Desenvolvimento e sem Desenvolvimento não pode haver Segurança”.[3] Portanto, ordem é progresso. Não é por acaso que o mesmo expert afirmará que, “[..] antes do eminente estudioso, o Brasil pode orgulhar-se de haver inserido, em sua Bandeira Nacional, algo semelhante”. (Idem) A segurança é a chave para entender o “progresso” como essa linha temporal onde as coisas avançam (que seja para o abismo) e nada muda.

Insistamos mais um pouco nas leis de trânsito. Quando Doria venceu Haddad nas eleições municipais de 2016, muita coisa já tinha acontecido e vinha acontecendo, tanto na cidade como no país. E também já apareciam de forma agressiva, por parte da esquerda, especulações ressentidas sobre o “pobre de direita”, o “pobre coxinha”, o “pobre empreendedor” (que não é o “trabalhador” em sentido clássico, mas é aquele que, impossibilitado de vender sua força de trabalho, se vira de alguma forma para se integrar socialmente).[4] Seria o resultado daquelas eleições o retorno ao ponto de equilíbrio da hegemonia tucana paulista, no Estado que é a “locomotiva do Brasil” e que é tradicionalmente comandado pela burguesia industrial e pelo agrobusiness?

Mais ou menos. Afinal, como hoje é claro, Doria representa menos uma direita tradicional e conservadora, mas já é uma nova direita aceleracionista interessada na terra arrasada. Os espetáculos de violência gratuita promovidos pelo ex-prefeito, como acordar mendigos com jatos de água fria e bombardear a cracolândia, já davam sinais disso. Ora, o mote da campanha de Doria era justamente “Acelera São Paulo!”, em que era transformada em metáfora geral sua promessa de aumentar os limites de velocidade das vias de circulação – não para “resolver” o trânsito, nisso ninguém acredita e nem precisa ser engenheiro de tráfego para saber que se trata de algo “cronicamente inviável” (tal como a sociedade retratada no filme de Sérgio Bianchi), mas somente para que algo de essencial seja desrecalcado, nem que seja o direito de lançar o próprio carro para dentro do Rio Tietê ou o de passar por cima do “atraso de vida” que é qualquer ente que esteja no caminho.

Afinal, qual zona de contenção na cidade é mais extensa que suas próprias vias de circulação, em seus fluxos, retenções e filas, em que espera é sinônimo de aflição?[5] Mas é certo que sempre haverá um esclarecido paz e amor (um ciclista militante, talvez) a dizer que essas almas irritadas são terríveis e ignorantes egoístas de classe média (sic) ou infelizes ressentidos que não descobriram o prazer de pedalar 20 km após uma jornada de viração ou após a espera na fila de desempregados no mutirão do emprego do Vale do Anhangabaú.

Pois bem, e não é que o desrecalque apocalíptico-aceleracionista de Bolsonaro também flertou com o impulso libertário-suicida dos motoristas? Ainda deve estar fresco na memória que em junho deste ano [2020] o capitão foi pessoalmente à Câmara dos Deputados levar um projeto de lei que envolvia a suspensão da obrigatoriedade do uso da cadeirinha para crianças, o fim do teste toxicológico para caminhoneiros e o aumento de 20 para 40 pontos o limite para a suspensão da CNH (“por mim, eu aumentava para 60”, afirmou Bolsonaro).[6] Até aqui, nada que fira as convicções do nosso “agente da civilização”. De um lado, experiência da desmesura, disrupções pulsionais, desrecalque e irracionalidade em estado puro; do outro, um “Princípio de Responsabilidade” que se expressa como racionalidade da gestão do risco.

Claro que não há como negar a razoabilidade de tentar reduzir os danos de um sistema, o rodoviário, que em um ano é capaz de matar mais de 1 milhão e 300 mil pessoas no mundo. Adicione-se a isso que nas regiões do mundo que se encontram em um estágio avançado de colapso (como Oriente Médio e parte significativa da África), o carro, a maior herança do capitalismo fordista, torna-se muito mais fatal.

Tomando um último exemplo do mundo da circulação e do tráfego e pensando aquilo que fora germinado no asfalto quente do país: quando Haddad defendeu militarmente, junto com Alckmin, o aumento da tarifa de ônibus, estava ele enfrentando uma “horda de bárbaros” enquanto agente da civilização? Se o critério for mantido, será forçoso dizer que sim – o que, no entanto, fará com que os conceitos mudem de sinal e que os repensemos. Por fim, serão obrigados a dizer que bárbaros inimigos da democracia eram os revoltosos incendiários de 2013 – o excesso que extrapolou os limites da segurança – enquanto os agentes da civilização eram os mantenedores da ordem, no caso, a tropa de choque a prender e arrebentar manifestantes – a contenção.

Depois que a “coisa virou”[7], começou a aparecer a crítica desse excesso (a “gota d’água” a mais) e a defesa da contenção por parte da esquerda, e é nesse contexto que se configura um discurso bastante ambíguo de “defesa da civilização contra a barbárie”.[8] Na verdade nem tão ambíguo assim, pois, como chegou a ser dito por aí algumas vezes, em tom de piada ou não, “deveríamos ter pago aqueles 20 centavos”. Basicamente: o pessoal deveria sofrer calado mais um pouco. E quando se evoca uma “frente antifascista” (?) em outros lugares do mundo ao redor de figuras como Macron e Clinton, a mensagem não é outra: contenham vosso mal-estar no neoliberalismo, que está sendo chamado de Civilização Ocidental.

A barbárie que Bolsonaro representa não são seus excessos pulsionais nem a falta de polidez em suas falas e gestos, que causam nos pudicos esclarecidos a “vergonha internacional”, mas a própria destrutividade do processo civilizatório (que também atende pelo nome de modernização capitalista) em seu estágio final. Quando Adorno e Horkheimer, no final da Segunda Guerra Mundial, redigiram a Dialética do Esclarecimento com a finalidade de explicar por que a humanidade não se humanizou e sim adentrou um período de trevas, tratava-se de mostrar como o horror não era algo como um meteorito vindo de outra galáxia, mas que ele foi produzido de forma imanente, e portanto a partir das contradições internas ao processo de Esclarecimento. Portanto eram obrigados a constatar que os agentes da civilização eram também agentes da barbárie e vice-versa. É certo que tal interpretação não poderia ter se tornado hegemônica, afinal ela boicotava de antemão o projeto restauracionista da Reconstrução de uma sociedade que tinha se autodestruído e que deveria necessariamente significar a perpetuação do horror.

Já na visão liberal-humanista de um HelmuthPlessner, a recaída alemã na selvageria hitlerista era signo de uma nação atrasada, e portanto ela era analisada sob a ótica de um déficit: “faltou humanismo político”, escreve Plessner (1982, p. 19) em seu clássico Die verspätete Nation [A nação atrasada]. Tal “humanismo”, que permanece intacto, seria o norte da Reconstrução. Em sua antropologia filosófica, a falta de espírito produziu um excesso de corpo, que em sua visão teria levado ao naturalismo anti-humanista nietzschiano que se imiscuiu na herança romântica do culto ao Volk(culpa do Herder). Portanto, humanizar-se é criar freios (PLESSNER, 2019, p. 122): o ser humano talvez seja uma “besta loira”, mas “a besta está no estábulo” (idem, p. 126) – contida, portanto. A civilização reconstruída é esse estábulo.

Uma transfiguração ideológica semelhante ocorre no Brasil, também à esquerda, porém em outra chave, pois reaparece igualmente a ideia de retorno, de déficit, de atraso, de um elemento arcaico não modernizado que reapareceria como resultado de um processo civilizatório inacabado ou de um recalque malfeito. Mas este arcaico anti-humanista não aparece, ao menos originalmente, vinculado à ideia de “povo”: se na Alemanha há um abismo entre a esquerda e os pobres, visto que qualquer coisa que lembra Volk já aparece com a cara völkisch de um carrasco da SS, o Brasil, por outro lado, goza de uma mistificação positiva do povo, ligado à tradição do nacional-popular e com vocação progressista.[9] Algo que, no entanto, produziu um desencontro frustrante para a esquerda, horrorizada com o “pobre de direita”, que vai desde o pobre de mau gosto que trai a beleza cultural mítica brasileira até o pobre que estaria “traindo seus interesses objetivos” ao votar errado. Enquanto na Alemanha a esquerda despreza o povo que “corresponde a seu próprio conceito” (que aparece como Volk), no Brasil a esquerda despreza o pobre que não tem “cara de povo” e que não “age como povo”. Basicamente: o populismo de esquerda tornou-se órfão de seu objeto. E então, como canta Juçara Marçal em Encarnado: “o que era belo / agora espanta”. E com o timbre exato da Ciranda do Aborto: “a ferida se abriu / nunca mais se estancou”.[10]

O que aconteceu? Diante das transformações sociais que ocorreram no Brasil de forma simultânea ao colapso da sociedade do trabalho em curso no mundo desde a década de 1970, seria preciso observar como as categorias de “classe trabalhadora”, “classe média” e “povo” foram empregadas nas últimas décadas, pensando o entrecruzamento de suas (im)precisões sociológicas e o sentido político-moral que tais categorias evocam.

Lançarei algumas modestas hipóteses. Reações teóricas ao problema começam a aparecer a partir do momento em que a ideia de “nova classe média” passa a circular, sobretudo após as pesquisas e o livro de Marcelo Neri, economista da FGV que ocupou cargos nos governos Lula e Dilma e que idealizou um dos programas de crédito social. Como “classe média” tem uma conotação péssima no Brasil, sobretudo em meios de esquerda, tratou-se logo de reagir a essa ideia que parecia conter veneno político afirmando-se que se tratava não de uma nova classe média, mas de uma nova classe trabalhadora (como o fizeram, por exemplo, Marcio Pochmann, Jessé Souza e Marilena Chauí – poderíamos incluir aí o “precariado” de Ricardo Antunes).

De alguma forma, já vinha assombrando o pensamento social brasileiro a possibilidade de um monstrengo que poderia emergir das transformações sociais em curso, um fantasma que precisava ser recalcado por meio de conceitos sociológicos que buscavam evocar as virtudes progressistas da “classe trabalhadora” em sentido clássico. Afinal, a classe trabalhadora é agente da história e motor da modernização – e, no entanto, Trabalho, História e Modernização já haviam perdido seu lastro objetivo e o Capital já havia entrado de forma definitiva na era de sua reprodução fictícia. O mundo do trabalho no qual essa “nova classe trabalhadora” estava se fazendo e sendo feita (certamente não como o “making” da classe trabalhadora inglesa de Thompson) só no limite ainda poderia ser chamado de “mundo”. neoNão obstante, aproveitando a metáfora de Silvia Viana, é no óleo fervente desse mundo do trabalho simulado (que é também o mundo do desemprego estrutural) onde o coxinha foi frito[11], o mesmo óleo quente que arrancou a pele do povo cujo rosto a esquerda não mais reconhece. Sem entender o que ocorre ali, em meio a essa centralidade negativa do trabalho[12], a esquerda continuará na histeria de seu neoiluminismo de crise bradando que “a Terra é redonda” como se fosse Galileu diante das trevas medievais na aurora da modernidade.

Dentro desse debate da “nova classe média/nova classe trabalhadora”, não é irrelevante observar aquilo que estava sendo produzido por Jessé Souza, que no entanto se tornou hoje ideólogo do petismo mainstream com sua máquina de produção de consolos (com requintes de paranoia) e de discursos nobilitadores para uma esquerda desmoralizada. Aliás, a carga moralizante de suas análises sociológicas, tendencialmente mais cristãs que materialistas, é algo que salta aos olhos – o que se imprime mesmo em dois de seus conceitos centrais, o de ralé e o de batalhadores.

Foquemos brevemente nos “batalhadores brasileiros”, que constituiriam precisamente aquele grupo social de trabalhadores que emergiu da ralé. O que dá o tom ali é uma moral do trabalho vinculada, como não poderia ser diferente, a um elogio do sofrimento que cedo ou tarde seria recompensado pelos frutos da nação do futuro. “Nossa pesquisa, escreve Jessé, mostrou que essa classe conseguiu seu lugar ao sol à custa de extraordinário esforço: à sua capacidade de resistir ao cansaço de vários empregos e turnos de trabalho, à dupla jornada na escola e no trabalho, à extraordinária capacidade de poupança e de resistência ao consumo imediato e, tão ou mais importante que tudo que foi dito, a uma extraordinária crença em si mesmo e no próprio trabalho.” (SOUZA, 2010, p. 50) Ou ainda, nas palavras de Roberto Mangabeira Unger comentando o livro de Jessé no prefácio: “Lutam, ativamente, com energia e engenho para escapar da ralé e entrar no rol da pequena burguesia empreendedora e emergente. Exibem qualidades que Euclides da Cunha atribuía aos sertanejos.” (UNGER, p. 10)

Ora, se tirássemos daí a roupagem nacional-popular com seu imaginário do povo forte e corajoso, isso poderia sem dificuldades ser traduzido na linguagem neoliberal mais desbocada como elogio da resiliência. Em suma: empreendedorismo, um eufemismo para gestão da sobrevivência[13], mistificado como valentia sertaneja. Por meio das virtudes populares vinculadas ao esforço, à luta (entendida como batalha pela autopreservação) e à persistência que, apesar de todas as adversidades, aponta para frente (embora não haja nada adiante), busca-seemular o antigo esforço descomunal da superação do subdesenvolvimento e da luta contra o atraso que animava o imaginário populista dos anos 1950-60 e, se formos mais longe, da industrialização e do ethos do trabalho da Era Vargas. Ao povo caberia ser o sujeito da modernização retardatária[14] e carregar o fardo da formação da civilização brasileira.

Entretanto, na situação contemporânea, é bem provável que essa ladainha progressista tenha perdido sua força persuasiva e que a incrível resiliência sertaneja desse batalhador incansável tenha encontrado um limite nessa luta sem horizonte de expectativa. Quem sabe hoje Jessé olhasse para seus batalhadores e constatasse o mesmo que um dirigente da Ford afirmou no início dos anos 1970, na aurora do que Chamayou chamou de “sociedade ingovernável”, a respeito de seus operários: “há nos empregados um esmorecimento geral da tolerância à frustração”. (CHAMAYOU, 2018, p. 25)É provável também que a energia social identificada por Jessé não seja, como ele desejaria, o combustível de um salto adiante modernizador, mas o ingrediente básico para uma explosão de ódio social em meio a uma dessocialização catastrófica. E no entanto, teóricos sociais estavam enxergando naquele mundo da viração, em que a possibilidade da consolidação de uma sociedade salarial à moda do pós-guerra europeu estava bloqueada de saída, uma espécie de porta para o futuro tal qual o “privilégio do atraso histórico” (TROTSKY, 1961, p. 4) imaginado por Trótski em sua teoria do desenvolvimento desigual e combinado, em que se pularia de uma só vez “do arco e flecha para o rifle” (idem). Nos termos de Mangabeira Unger: “É preciso – e possível – organizar uma travessia direta do pré-fordismo para o pós-fordismo, sem que o país todo tenha de passar pelo purgatório do fordismo industrial. Os batalhadores e a pequena burguesia empreendedora seriam os primeiros beneficiários dessa construção.” (UNGER, 2010, p. 12) Acontece que essa “travessia direta” do “subdesenvolvimento” para o mundo do trabalho pós-fordista de serviços, como há de ser num país periférico onde a verdade do processo global se revela de forma mais nítida, era um atalho para o colapso.

Como Unger não é de todo ingênuo, ele via que os “batalhadores” tinham algo de refratários[15], pois, estando um pouco acima do nível dos miseráveis, não eram alvos das políticas de gestão. O governo deveria, portanto, se preocupar em domesticar essa energia e inventar para eles algum programa social, de modo que os batalhadores deveriam ser “os primeiros beneficiários potenciais dos projetos de capacitação e de ampliação de oportunidades. Mostraram que se podem resgatar porque já começaram a resgatar-se por conta própria”.(UNGER, 2010, p. 10) E, no entanto, não “se resgataram”: havia ali algo de ingovernável que era o próprio limite da governança petista. Converteram-se em “ingratos”, como afirmou o ministro Gilberto Carvalho após as manifestações de 2013.

Quisessem ou não chamar de “nova classe média”, havia a expectativa de que essa nova classe trabalhadora se tornasse o cimento da nova sociedade brasileira de forma análoga às classes médias do Atlântico Norte, embora com o diferencial da roupagem colorida do nacional-popular, o que seria mais uma prova da contribuição brasileira para a sociedade democrática do futuro. Só não se desejou dizer que o projeto era formar uma classe média (por parte de alguns) porque esta é entendida como uma “elite de privilegiados” (SOUZA, 2015, p. 240) que quer se “distinguir”, são racistas e babacas – são portanto os representantes das relações de produção (em sentido moral somente, pois as reais relações de produção não entram em questão) que resistem às forças produtivas, portadoras do progresso. Não é por acaso que na narrativa petista oficial o “golpe” e o bolsonarismo são interpretados como a reação das pesadas estruturas do atraso que não se deixaram quebrar pelas forças progressistas (que no caso seria o próprio PT). Chega a ser cômica a tentativa de convencimento de que essa “reação conservadora” (para dizer de forma simples) é uma “reação ao avanço”, portanto ela só pode ser sintoma daquilo em que os governos do PT foram “bons”.

De todo modo, voltemos à “classe média”. Lembremos da célebre caracterização de Marilena Chauí em sua contribuição ao livro sobre os “10 anos de governos pós-neoliberais [sic] no Brasil”: a classe média é uma “abominação cognitiva”, porque burra; uma “abominação ética”, porque violenta; uma “abominação política”, porque fascista. (CHAUÍ, 2013, p. 134). A barbárie personificada, em suma. Ora, não é exatamente disso que posteriormente foram xingados os “batalhadores” que votaram em Bolsonaro? Contudo, Chauí gostaria de, com o conceito de “classe trabalhadora”, defender a solidariedade e outras antigas virtudes civilizatórias ligadas ao trabalho – que entretanto não existiam mais em uma sociedade que só no limite pode atender por esse nome. Falar em “nova classe trabalhadora” parecia, portanto, mais um verniz eufemizante, uma idiossincrasia moral de intelectuais que os próprios gestores e tecnocratas não têm, por isso eles não titubearam em falar de “nova classe média”, embora o termo também fosse uma mistificação da realidade.

De todo modo, como “classe média” também trabalha, de algum modo ou de outro, a distinção sociológica que se desejava fazer ali parecia antes uma referência a como as distinções operam socialmente em termos morais ou culturais (à maneira da distinção simbólica concebida por Pierre Bourdieu). O que está por trás do argumento é que há uma classe média representante do atraso atávico (vinculada a tudo que aparece como improdutivo, como o patrimonialismo, o rentismo etc.), e uma outra, trabalhadora, batalhadora e ascendente, que deveria se tornar a base social de um capitalismo “civilizado e democrático” – turbinado e sem crise, sem dúvida.Afinal, como diz Lula: “[…] obviamente que eu tenho clareza que o trabalhador só pode ganhar se a empresa for bem. Eu não conheço, na história da humanidade, um momento em que a empresa vai mal e que os trabalhadores conseguem conquistar alguma coisa a não ser o desemprego”. (LULA, 2013, p. 16) Quem viu as últimas entrevistas de Lula, enquanto ainda estava na prisão, ou mesmo seu depoimento em A verdade vencerá, percebe que seu espírito “utópico” (que é inegável) está vinculado à fantasia do infinito da valorização do valor (que Marx denominou de fetiche do capital).

No limite, podemos dizer que tal fantasia é constitutiva da própria ideia de esquerda tal como ela se configura no pós-guerra, uma vez que seu horizonte definitivo se tornou, de forma mais ou menos intensa, regular/governar/desenvolver o capitalismo, desempenhando uma função distributivista e de apaziguamento dos antagonismos sociais. Portanto, não importa se liberal-keynesiana ou stalinista com veleidades autoritárias, esse infinito do valor passa a estar no coração da esquerda, que precisa então acreditar e fazer os outros acreditarem que há sempre valor sendo produzido e que a acumulação é um processo indefinido e potencialmente eterno. O drama – e isso é algo observado por Robert Kurz na virada dos anos 1980 para os 90 – é que, conforme o capitalismo vai perdendo sua capacidade de se reproduzir, a esquerda vai sendo desmoralizada.

No Brasil, quando chega a “hora da esquerda” na esteira da redemocratização, o quadro global da tendência ao colapso e do desmanche da sociedade do trabalho já estava dado. O processo de automação em curso e a contínua expulsão de trabalho vivo do processo produtivo (que ocorria de forma brutal também, ou sobretudo, no campo) já não podia ser compensada, tal como ocorreu no centro orgânico do capital, por uma expansão externa do mercado tal qual após o boom fordista nas décadas de 1940 e 50. “O cenário, escreve o sociólogo José de Souza Martins, era o do crescimento do número de desenraizados, vivendo precariamente à margem da economia organizada, gentes supostamente sem horizonte e sem futuro.” (MARTINS, 2011, p. 11) O quadro era já o do “Brasil anômico” (na denominação de Martins), em que a formação de algo como uma sociedade “próspera” (em termos capitalistas) e de pleno emprego era uma impossibilidade lógica e histórica. Nessa situação, se avolumava um contingente populacional supérfluo do ponto de vista da reprodução do capital. O que fazer? Martins comenta uma conversa de 1982: “Num dos intervalos para o cafezinho, João Pedro Stédile comentou comigo que ‘quem conseguisse organizar esses lumpens mudaria o país’.” (idem) Dois anos depois era fundado o MST.

Se o MST em algum momento apresentou um potencial de ruptura revolucionária é porque ele foi capaz de organizar essa gente sem eira nem beira, pobres expulsos do campo e aglomerados nas enormes periferias urbanas, uma população de “sujeitos monetarizados sem dinheiro” que já não tinha possibilidade alguma de ser integrada pela sociedade do trabalho.[16] Eram “inempregáveis”, como disse FHC nos anos 1990. “A situação para estas massas é de fim de linha. Elas precisam lutar para sobreviver, e isto somente pode ser possível numa rebelião contra boa parte das forças produtivas do capital e seu modo de produção.” (MENEGAT, 2013)[17] No caso do PT, não era evidente qual seria sua relação, nas palavras de Tarso Genro, com essa “população marginalizada, lumpesinada ou meramente excluída do mundo da Lei e do Direito” (apud MARTINS, 2011, p. 12). Ao mesmo tempo, como diz Martins, “a designação ‘lúmpen’ indicava a desconfiada incorporação política de uma massa de desamparados cujo comportamento podia ser enquadrado, mas não podia ser assegurado”. (idem)

Portanto, não se tratava de uma base de trabalhadores sindicalizados prontos para montar um “capitalismo sindical” de parcerias à europeia. Não estava dado de antemão que um pacto social seria formado. Com o tempo, mostrou-se que o único destino dessa massa era ser governada, com a mão esquerda e direita do Estado neoliberal, que ora ampara e assiste as populações vulneráveis com programas sociais, ora pune, encarcera e mata. Mas não foi sem sucesso, muito pelo contrário, a gestão do social com a mão esquerda, cujas origens espirituais talvez devessem ser retraçadas nessa relação umbilical da esquerda brasileira com a Doutrina Social da Igreja e que casou com tecnologias governamentais de ponta (que inclusive passaram a ser exportadas como práticas modelo). Em dado momento, portanto, “as dificuldades conceituais do Partido dos Trabalhadores com a massa lúmpen chegaram ao fim quando ficou claro que ela se tornara constituinte do lulismo e fora decisiva na reeleição de Lula […].”(idem)

Nesse ínterim, os movimentos sociais aparelhados pelo Estado também se tornaram plataformas para gradualmente catapultar setores da “ralé” para essa nova classe média por meio do crédito social. Ou seja, como lidar com as fraturas do “Brasil anômico”? Cash, baby. Anomia no capitalismo se pacifica com grana, tanto faz se sem valor, importa é que a circulação funcione. Se isso é algo que faz sociedade, aí é outra questão… Importante é que choveu dinheiro e as pessoas ficaram felizes – quem não ficou? E não faltaram sociólogos e filósofos para confirmar que dinheiro liberta, civiliza, emancipa etc. De todo modo, além de desafogar as necessidades materiais mais básicas, dinheiro traz sobretudo respeito e reconhecimento. O que não é irrelevante, pois a crise do trabalho inaugurou uma verdadeira Era da Humilhação. Quando Kurz falava sobre “a honra perdida do trabalho”, devemos levar em conta que isso significa uma desonra objetiva dos (ex-)trabalhadores, que passam à categoria de “deploráveis”, tal como Hillary Clinton designou os eleitores do Trump, que eram justamente maioria entre os ex-operários das regiões desindustrializadas do rustbelt.

Nesse sentido, a “moral do trabalho” não é um mero ornamento superestrutural, mas ela tem uma objetividade social no capitalismo e ganha outro sentido, mais brutalizado, no instante da crise do trabalho enquanto tal. Há uma forma de compensar tal condição indigna: se tal compensação não pode aparecer na produção (no trabalho), a dignidade deve ser realizada na outra ponta: no consumo (que seja eterno enquanto dure). O dinheiro é o passe para entrar no mundo – o sujeito monetarizado sem dinheiro é o próprio “homem sem mundo”.[18] Mas como aquilo que parecia ser crescimento rumo ao infinito era uma simulação movida a capital fictício (deve-se ter em vista aqui sobretudo o boom das commodities[19]), era provável que uma hora o dinheiro acabasse depois que a bolha estourasse. E como dinheiro não forma sociedade, o que aparece quando ele acaba é o violento contrário de sociedade – e já nos primeiros meses do governo Lula havia quem dissesse que a famigerada “inclusão pelo consumo” não faz sociedade e que aquilo ia dar em fascismo, e no entanto eram acusados de catastrofistas, exagerados etc.

É provável que humilhação e sofrimento acumulados produzam algo diferente de paz e amor, sobretudo numa situação em que a “tolerância à frustração” dos batalhadores ao redor do mundo está em baixa – e no entanto os que reagem com “mais amor por favor” parecem somente querer reforçar a tolerância à desgraça da normalidade. Entra também em baixa a tríade de Comte– amor, ordem e progresso – que era uma fórmula de pacificação para encerrar os períodos turbulentos de crises e revoluções e para cimentar as bases de uma história lenta. Esse cimento, os vínculos em uma sociedade fraturada, era o social, cujo lastro, como explicado por Donzelot, está no declínio das paixões políticas. Ora, a partir do momento em que, como anunciado pela dama de ferro, there’s no suchthing as society, a artificialidade do “social” e seu prazo de validade ficam visíveis na medida em que, justamente, a sociedade vai se tornando ingovernável, e o conflito social, como reconhece Honneth (2012), se brutaliza diante do declínio das expectativas de reconhecimento. Talvez o que apareça aí seja o processo reverso ao analisado por Donzelot: o declínio do social e o retorno das paixões políticas. E nisso reaparece o ódio não como uma patologia qualquer, mas como a paixão política por excelência, a paixão do confronto e do antagonismo. Em 2013 se dizia: “Acabou o amor, isso aqui vai virar a Turquia” – a referência era o fôlego libertário da praça Taksim, mas “tornar-se Turquia” pode ser, como sabemos, algo bem pior.

O que surge desse desmoronamento parece sombrio. Podemos especular se Walter Benjamin, observando nosso mundo contemporâneo, talvez pensasse que, como antídoto à barbárie em curso, pudesse surgir uma “barbárie positiva”, tal qual imaginada por ele ao refletir sobre os homens e mulheres mutilados saídos de uma situação de guerra (a Grande) e com sua capacidade de fazer e transmitir experiência atrofiada.[20]De forma distinta dos “agentes da civilização”, que se tornam positivamente agentes da barbárie, os inimigos da barbárie também estão enleados no horror. Sem os “barbarizados”, as vítimas desumanizadas e arrebentadas por essa máquina de moer gente e, no entanto, condenadas a improvisar num tempo sem desenvolvimento, não há nada que se possa fazer contra a real barbárie. Quem sabe do improviso possa surgir uma nova inteligência – mas isso somente se Benjamin tiver razão.

*Felipe Catalani é doutorando em filosofia na USP.

Referência


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Notas


[1] O artigo integra o livro O pânico como política: o Brasil no imaginário do lulismo em crise(RJ, Mauad X, 2020), organizado por Fabio Luis Barbosa dos Santos, Marco AntonioPerruso e Marinalva Silva Oliveira.

[2] Vale hoje para os falsos “críticos da barbárie” aquilo que Adorno dizia sobre os críticos da cultura: “O crítico da cultura não está satisfeito com a cultura, mas deve unicamente a ela esse seu mal-estar. Ele fala como se fosse o representante de uma natureza imaculada ou de um estágio histórico superior, mas é necessariamente da mesma essência daquilo que pensa ter a seus pés. […] O crítico da cultura mal consegue evitar a insinuação de que possui a cultura que diz faltar. […] Onde há desespero e sofrimento, o crítico da cultura vê apenas algo de espiritual, o estado da consciência humana, a decadência da norma.” (ADORNO, 1998, p. 7)

[3] A citação inteira: “Em uma sociedade que se está modernizando, Segurança significa Desenvolvimento… Segurança não é material militar, embora esse possa ser incluído no conceito; não é força militar,embora possa abrangê-la; não é atividade militar tradicional, embora possa envolvê-la. Segurança é Desenvolvimento e sem Desenvolvimento não pode haver Segurança.” (apud Brasil, 1979, p. 399)

[4]Sobre a ideia de viração tal como ela aparece na sociologia do trabalho, ver por exemplo o artigo de Vera Telles (2006) “Mutações do trabalho e experiência urbana” e o de Ludmila Costhek Abílio (2017) “Uberização do trabalho: subsunção real da viração”. Sobre como o colapso da sociedade do trabalho se manifesta nas periferias urbanas, ver a tese de Daniel Manzione (2018), intitulada Eles não usam macacão: crise do trabalho e reprodução do colapso da modernização a partir da periferia da metrópole de São Paulo.

[5] Sobre o sentido social dessa espera no mundo contemporâneo, conferir o capítulo “Zonas de espera: uma digressão sobre o tempo morto da onda punitiva contemporânea” do livro O novo tempo do mundo (2014) de Paulo Arantes.

[6] No momento da redação deste texto, aparece a notícia de que Bolsonaro extingue também o DPVAT, seguro para acidentes de trânsito.

[7] Para uma análise sobre os desdobramentos políticos pós-2013 feita a partir do ponto de vista da militância, ver Passa Palavra (2019).

[8] Remeto a um texto escrito em um outro contexto (“Documentos de cultura, documentos de barbárie”) em que Paulo Arantes (2004, p. 221-235) comenta um tal “Manifesto contra a Barbárie e em favor da Arte”.

[9] O filme Bacurau (2019) é exemplar nesse caso, e de modo tão exagerado que seu caráter de consolo, diante da situação contemporânea, fica excessivamente evidente.

[10] Notemos que o álbum foi produzido em grande parte durante os eventos de 2013. Para um comentário geral do disco, ver o artigo “Nota sobre o disco Encarnado de Juçara Marçal (2014)” de Walter Garcia (2016).

[11] “A nova direita não nasceu em 2013, menos ainda nos idos da colonização. Ela é cria de uma dissolução socialmente estruturada, portanto não de uma anomia qualquer a ela imputada e por ela retribuída em acusação espelhada. O coxinha foi frito na desgraceira generalizada do trabalho cuja forma flexível nos deformou a todos, à sombra da qual, contudo, ele encontrou uma expressão política particular.” (VIANA, 2019, p. 26)

[12] O termo, que indica também a intensificação do sofrimento no trabalho no instante de sua crise, é de Paulo Arantes (2014, p. 106). A teoria de fundo sobre a crise do trabalho é de Robert Kurz e as observações sobre sofrimento social, de Christophe Dejours. Com esse termo busca-se salientar que, quanto mais a crise do trabalho se aprofunda e quanto mais o trabalho se torna objetivamente obsoleto, mais ele se torna, na vida das pessoas, um problema, e mais sua centralidade social no capitalismo se agudiza. Isso significa, portanto, que a crise do trabalho não significa a perda de sua centralidade, tal como imaginado, por exemplo, por Habermas a partir das observações de Claus Offe sobre a crise da sociedade salarial europeia e do Welfare State, de tal modo que, no cerne de sua teoria, um novo paradigma centrado na linguagem deveria ocupar o velho paradigma marxista do trabalho.

[13] Como sugere Ludmila Costhek Abílio (2019).

[14] Sobre o conceito de “modernização retardatária”, ver o capítulo “O fracasso da modernização” do livro O colapso da modernização de Robert Kurz (1993).

[15] Sobre essa “segunda classe média”, ele diz: “Morena, vinda de baixo, refratária, a sentir-se um pedaço do Atlântico norte desgarrado no Atlântico sul, essa nova classe média compõe-se de milhões de pessoas que lutam para abrir ou para manter pequenos empreendimentos ou para avançar dentro de empresas constituídas, pessoas que estudam à noite, que se filiam a novas igrejas e a novas associações, e que empunham uma cultura de autoajuda e iniciativa.” (UNGER, 2010, p. 9)

[16] Acompanho aqui o argumento de MarildoMenegat (2013) em seu artigo “Unidos por catástrofes permanentes: o que há de novo nos movimentos sociais da América Latina”.

[17] Para um aprofundamento desse argumento, ver também a tese de doutorado de Ana Elisa Cruz Corrêa (2018) intitulada Crise da modernização e gestão da barbárie: a trajetória do MST e os limites da questão agrária.

[18] Não por acaso uma das figuras centrais do “homem sem mundo” é o desempregado, tal como ele aparece na análise de Günther Anders do romance Berlin Alexanderplatz de Alfred Döblin.

[19] Para uma explicação informada sobre a crise econômica atual no Brasil e a relação entre boom das commodities e capital fictício, ver o artigo “O crescimento e a crise da economia brasileira no século XXI como crise da sociedade do trabalho: bolha das commodities, capital fictício e crítica do valor-dissociação” de Fábio Pitta (2020).

[20] Refiro-me ao ensaio “Experiência e pobreza” (1994).

Fonte: https://aterraeredonda.com.br/a-barbarie-e-os-barbaros/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=a-barbarie-e-os-barbaros&utm_term=2021-09-21