quarta-feira, 20 de novembro de 2019

A rebelião das massas

Haverá um denominador comum a todos estes protestos? Sim. A frustração, o ressentimento e a revolta contra o sistema estabelecido.
Não, não estou a falar do clássico de Ortega y Gasset. Estou a falar do protesto de massas que atravessa, hoje, o mundo inteiro. Tudo começou há um ano, em Paris, com o movimento dos coletes amarelos. De então para cá, a revolta popular não parou mais. Nos últimos nove meses, o protesto tomou conta da rua e a rua tomou conta do mundo. São gigantescas manifestações de massas que saíram à rua nas mais diversas capitais e que se tornaram um actor central na política global. 

Em Hong Kong, o protesto contra uma lei da extradição transformou-se numa luta pela liberdade e pela democracia. Na Catalunha, o protesto contra a prisão dos líderes independentistas transforma-se na luta pela própria independência. No Chile, um protesto contra o aumento do preço dos bilhetes do metro transformou-se numa luta contra as desigualdades. No Líbano, um protesto contra um imposto sobre a utilização do WhatsApp transformou-se numa luta contra a corrupção. No Iraque, a demissão de um militar tido por combater a corrupção transformou-se numa luta contra a falência dos serviços públicos. No Irão, o protesto foi contra a subida do preço dos combustíveis, na Índia contra o preço das cebolas e na Arábia Saudita contra um imposto sobre o uso dos cachimbos de água nos restaurantes. 
 
As causas próximas são várias e, muitas delas, secundárias. As causas profundas, pelo contrário, são sérias e quase sempre as mesmas: desigualdades económicas, ameaça às liberdades políticas, corrupção, separatismo. Mas haverá um denominador comum a todos estes protestos? Sim. A frustração, o ressentimento e a revolta contra o sistema estabelecido. A incerteza sobre o futuro e a luta pela dignidade de que os manifestantes se sentem excluídos. Excluídos, porque não se sentem representados pelas instituições tradicionais partidos ou sindicatos – e excluídos porque sentem que os governos não respondam às suas necessidades, aos seus anseios e, sobretudo, aos seus receios. São pequenas coisas que se transformam em grandes causas.

Na mobilização das massas são os jovens os actores principais, estudantes universitários ou mesmo do secundário, a que se juntam os desempregados e depois a massa dos cidadãos que se identifica com o protesto. O instrumento principal da mobilização é o telemóvel e o veículo as redes sociais. A organização é horizontal e em rede, sem hierarquias nem lideranças visíveis. Os protestos tendem a radicalizar-se e a violência entra em cena. Do lado da repressão policial e também dos manifestantes. Os mortos contam-se já pelas centenas. E mesmo quando os governos cedem e os líderes caiem, os protestos continuam na rua. 

Quer isto dizer que as coisas estão a mudar e os protestos estão a vencer? Não. O que um estudo sistemático sobre o protesto político realizado por Erica Chenoweth, da Universidade de Harvard, nos diz é precisamente o contrário. Nos últimos 20 anos, a taxa de sucesso dos protestos que reivindicavam a mudança política sistémica era de 70%, uma tendência que crescia sustentadamente desde a década de cinquenta. Desde 2000, porém, a tendência inverteu-se e, hoje, a taxa de sucesso destes movimentos é de apenas 30%. Isto é, a banalização do protesto limita a sua relevância e reduz a sua eficácia. Ao banalizar-se perde o seu poder transformador e torna-se o “novo normal”.
Mas o que é que explica essa queda da eficácia do protesto como instrumento de mudança política? Primeiro, a mudança do ambiente político internacional e a recente vaga de autocratização. Pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, o número dos países que evoluem para a autocracia é maior dos que evoluem para a democracia. Segundo, a resposta cada vez mais sofisticada dos poderes, não só na repressão dos manifestantes, mas também no uso das novas tecnologias e redes sociais. O instrumento de mobilização passa a ser usado também como instrumento de desmobilização. E, finalmente, a própria duração e a radicalização do protesto. Pode a causa ser a mais nobre, pode o objectivo ser o mais justo, mas se o método for o da violência, o protesto tende a isolar-se, alienando o apoio da maioria da população. Ou seja, os meios podem comprometer os fins.

O protesto é um poderoso instrumento de mudança política. Mas o segredo do seu sucesso está na capacidade de atrair para a sua causa a maioria dos cidadãos. Isto é, de transformar a revolta das margens no interesse comum. É isso o que está em jogo, de Hong Kong a Barcelona, de Beirute a Santiago.
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segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Žižek: Bolívia, anatomia de um golpe

Slavoj Žižek*

Bolivianos em apoio a Evo Morales erguem uma bandeira wiphala, que representa povos indígenas durante uma manifestação em La Paz na última terça-feira, 12 nov. 2019. (AP Photo/Natacha Pisarenko) 

É precisamente por terem sido bem-sucedidos que Evo Morales, Garcia Linera e seus seguidores representavam um incômodo tão grande ao establishment liberal.

* TEXTO ENVIADO DIRETAMENTE PELO AUTOR PARA SUA COLUNA NO BLOG DA BOITEMPO. A TRADUÇÃO É DE ARTUR RENZO.

Embora eu seja por mais de uma década um firme apoiador de Evo Morales, devo admitir que, depois de ter lido sobre a confusão que se seguiu a controversa vitória eleitoral de Morales, fiquei mergulhado em dúvidas… Teria ele também sucumbido à tentação autoritária, como ocorreu com muitos esquerdistas radicais no poder? Contudo, depois de um ou dois dias, as coisas logo ficaram claras.


Brandindo uma enorme Bíblia encadernada em couro e se autoproclamando presidente interina da Bolívia, Jeanine Añes, a segunda vice-presidente do Senado declarou: “A Bíblia retornou ao palácio do governo.” E emendou: “Queremos ser uma ferramenta democrática de inclusão e unidade”. O recém-empossado gabinete de transição, contudo, não continha uma única pessoa indígena. E isso já diz tudo. Embora a maioria da população da Bolívia seja composta de indígenas ou mestiços, até a ascensão de Morales esses setores eram efetivamente excluídos da vida política, reduzidos à maioria silenciosa daqueles que fazem seu trabalho sujo nas sombras. O que aconteceu com Morales foi o despertar político dessa maioria silenciosa que não se enquadrava na rede de relações capitalistas. Não eram ainda proletários no sentido moderno, permaneciam imersos em suas identidades sociais tribais pré-modernas – foi assim que Álvaro García Linera, o vice de Morales, descreveu a situação:

“Na Bolívia, a comida era produzida por agricultores indígenas, prédios e casas eram construídas por trabalhadores indígenas, as ruas eram limpas por pessoas indígenas, e a elite e as classes médias encarregava a eles o cuidado de seus filhos. No entanto, a esquerda tradicional parecia cega para isso e se ocupava somente com trabalhadores na grande indústria, dando pouca atenção à identidade étnica desses sujeitos.”
Álvaro Garcia Linera, em entrevista a Marcello Musto para a Truth Out, 9 nov. 2019.

Para compreendê-los, precisamos incorporar nesse quadro o peso histórico da condição deles: essas pessoas são os sobreviventes de possivelmente o maior holocausto da história da humanidade, a obliteração das comunidades indígenas pela colonização espanhola e inglesa das Américas.

A expressão religiosa do estatuto pré-moderno deles é a combinação única entre catolicismo e a crença na Pacha Mama, a figura da Mãe Terra. É por isso que, embora Morales tenha se declarado católico, na Constituição Boliviana vigente (promulgada em 2009), a Igreja Católica Romana perdeu seu status oficial. No artigo quarto do documento lê-se: “O Estado respeita e garante a liberdade de religião e de crenças religiosas, conforma as cosmovisões de cada indivíduo. O Estado é independente da religião.” É contra essa afirmação da cultura indígena que o gesto de Añez de exibir a Bíblia é direcionado. A mensagem é clara: uma afirmação aberta de supremacismo religioso branco, e uma tentativa não menos aberta de colocar a maioria silenciosa de volta a seu devido lugar de subordinação. Do México, onde atualmente encontra-se exilado, Morales já apelou ao Papa para que intervenha. A reação do pontífice vai nos dizer muito. Será que Francisco reagirá como um verdadeiro cristão e rejeitará de maneira firme a re-catolicização forçada da Bolívia como aquilo que ela realmente é, a saber, como uma jogada política de poder que trai o núcleo emancipatório do cristianismo?

Jeanine Añez ergue uma Bíblia enorme após se autoproclamar presidente interina da Bolívia em 14 de nov. 2019.

Se deixarmos de lado o possível papel do lítio no golpe (a Bolívia possui grandes reservas de lítio, matéria-prima das baterias dos carros elétricos), a grande questão é: por que a Bolívia representa, por mais de uma década, um incômodo tão grande ao establishment liberal ocidental? O motivo é muito peculiar: o fato surpreendente de que o despertar político do tribalismo pré-moderno na Bolívia não resultou em uma nova versão do Sendero Luminoso ou do show de horrores do Khmer Rouge. O governo Morales não se enquadra na história conhecida da esquerda radical que, ao tomar o poder, estragou tudo econômica e politicamente, gerando pobreza e passou a manter seu poder por meio de medidas autoritárias. Uma prova do caráter não-autoritário do governo Morales é que ele não expurgou militares e forças policiais de seus opositores (razão pela qual eles se voltaram contra ele).

Morales e seus seguidores, é claro, não eram perfeitos: eles cometeram erros, havia conflitos de interesse no interior de seu movimento. No entanto, o balanço geral é realmente impressionante. Morales não era Chávez, ele não dispunha de recursos do petróleo para debelar seus problemas, de forma que seu governo precisou realizar um trabalho duro e paciente de resolução de problemas no país mais pobre da América Latina. O resultado não foi nada menos do que milagroso: a economia deslanchou, os índices de pobreza caíram e a saúde pública melhorou – e tudo isso garantindo que as instituições democráticas tão caras aos liberais continuaram funcionando. O governo Morales manteve um equilíbrio delicado entre formas indígenas de atividade comunal e política moderna, lutando simultaneamente por tradição e pautas como os direitos das mulheres.

Para que seja contada a história inteira do golpe na Bolívia, precisamos de um novo Assange parra trazer à tona documentos secretos relevantes. O que é possível ver agora é que foi precisamente por terem sido bem-sucedidos que Morales, Linera e seus seguidores representavam um incômodo tão grande ao establishment liberal: por mais de uma década a esquerda radical esteve no poder na Bolívia e o país não “virou uma Cuba ou uma Venezuela”. O socialismo democrático é possível.

Ao lado de García Linera, Evo Morales faz pronunciamento para imprensa após desembarcar no México, país que lhes concedeu asilo político.

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Leia também, na coluna de Slavoj Žižek no Blog da Boitempo, “De Hong Kong ao Chile?“, sobre as manifestações que vem tomando as ruas em diversas cidades da América do Sul, e “A Amazônia está em chamas“, sobre a urgência e as armadilhas ideológicas da questão ecológica hoje. Em entrevista exclusiva ao Blog da Boitempo, feita logo após a eleição de Bolsonaro, o filósofo esloveno reflete que uma novidade potencialmente interessante do Brasil é que aqui o populismo de direita que está no poder não abriu mão da imposição da austeridade. Leia aqui.
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* Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidas, Primeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013), Violência (2014),  O absoluto frágil (2015) e O sujeito incômodo: o centro ausente da ontologia política (2016). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente
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Fonte:  https://blogdaboitempo.com.br/2019/11/18/zizek-bolivia-anatomia-de-um-golpe/

Luc Ferry: "A felicidade é a ideia mais idiota já inventada”


 
Escritor fecha o ciclo de palestra do Fronteiras do Pensamento deste ano

 "Quando não há mais ideias e utopias, o que resta: o cuidado de si visto por Michel Foucault. O comunismo morreu. Não há mais grandes causas. Só resta cuidar do próprio umbigo. Aí entra a terceira etapa, a felicidade. Se só resta o meu umbigo, preciso gozar ou encontrar a sabedoria no budismo, no estoicismo, no epicurismo ou no taoísmo, o que me permitirá viver bem comigo. É uma grande bobagem. A felicidade é impossível".

Casado há 22 anos com “uma linda mulher”, como faz questão de enfatizar, pai de três filhas “maravilhosas”, ex-ministro da Educação da França, autor de 70 livros, traduzido em 45 países, Luc Ferry, 68 anos, se vê como um liberal social que detesta os centristas como Emmanuel Macron, já votou no socialista Michel Rocard, mas se considera, antes de tudo, gaullista, republicano de direita, liberal em economia.

Convidado do Fronteiras do Pensamento, nesta entrevista, fala do “segundo humanismo” e da revolução do amor”. Afirma que nada é mais idiota do que a ideia de felicidade.

Caderno de Sábado – A democracia liberal tem futuro?
Luc Ferry – Ela triunfa por toda parte. Se comparamos com os anos 1930, está milhares de vezes melhor hoje. Os países do leste europeu, antes comunistas, viraram democracias. O Brasil é uma democracia. Bolsonaro foi eleito. Trump também. A democracia só não vence onde predomina o Estado Islâmico. O problema é que a globalização produz excluídos. São eles que engrossam as fileiras da extrema esquerda e da extrema direita. A saída, porém, não é o centrismo, nem trocar o debate esquerda/direita por centro versus extremismos. A globalização produz um efeito antidemocrático, mas mesmos os líderes de extrema-direita são eleitos democraticamente.

CS – Como fazer para superar esse efeito nefasto?
Ferry – Sem demagogia, o problema é que o mercado se tornou mundial, mas a política continua local. Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft e são mais poderosos que muitos Estados. Os gigantes chineses ­– Baidu, Alibaba, Tencent et Xiaomi – são muitos fortes. Os executivos dessas empresas têm mais poder que muitos chefes de Estado. A solução, contudo, ao contrário do que pretendem alguns, não é o retorno à nação para que nossas elites tenham influência. A moeda nacional não dará um poder real. O Brexit faz parte dessa ilusão nacionalista. É uma idiotice compreensível. Será necessário encontrar soluções dentro da própria globalização em curso.

CS – O filme “Coringa” mostra um sistema que produz humilhação e colhe tragédia, gera exclusão e resulta em ressentimento e fosso social.
Ferry – O capitalista cria gente humilhada e também gente muito rica. Ninguém faz melhor. Os franceses de hoje são três mais ricos que os de 1950. A expectativa de vida aumentou 40 anos desde 1900. A globalização liberal produz liberdade e riqueza, mas também sentimento de abandono, como a semente geneticamente modificada levada pelo vento que escapa ao controle dos pesquisadores. Isso, repito, nutre as ideologias extremistas.

CS – Há espaço para a felicidade nesse quadro da globalização?
Férry – A ideia de felicidade é a mais idiota, a mais absurda de toda a história da humanidade. Isso vem da psicologia positiva norte-americana dos anos 1980. A autoajuda tomou conta do mundo. A sua origem está numa sequência devastadora: desconstrução da transcendência, que começa com Schopenhauer e passa pela filosofia do martelo de Nietzsche, que quebra os ídolos, Heidegger e os filósofos da suspeita, Marx, Freud. O mundo, sem transcendência, torna-se materialista, numa imanência radical, tendo Spinoza como pensador. Quando não há mais ideias e utopias, o que resta: o cuidado de si visto por Michel Foucault. O comunismo morreu. Não há mais grandes causas. Só resta cuidar do próprio umbigo. Aí entra a terceira etapa, a felicidade. Se só resta o meu umbigo, preciso gozar ou encontrar a sabedoria no budismo, no estoicismo, no epicurismo ou no taoísmo, o que me permitirá viver bem comigo. É uma grande bobagem. A felicidade é impossível. Podemos ter momentos de alegria. Desde que se ama alguém, que se tem filhos, a felicidade se torna impossível, pois há preocupações. A “felicização” do mundo é uma mercadoria que se vende bem: livros, aplicativos, sem contar o coach que ganha dinheiro de quase todo mundo.

CS – O coach é um charlatão?
Ferry – Claro, quase estelionatário, impostores intelectuais, vendendo exercícios espirituais para enfrentar a morte e ser feliz. A verdadeira definição da felicidade é justo a possibilidade de sentir alegria. Não é algo estável ou que será permanente. O resto é pura falsificação.

CS – O que colocar no lugar da felicidade?
Ferry – Estou escrevendo um livro sobre isso: “Nem decrepitude nem morte: a sabedoria do segundo humanismo”, o do amor. Hoje, quem se preocupa com os outros, faz isso por se sentir bem. Altruísta por egoísmo. Utilitarista. O primeiro humanismo, o republicano, defendia a liberdade e os direitos humanos, mas ficou refém do nacionalismo e do cientificismo. O segundo humanismo é pós-Nietzsche. Existem quatro respostas para a pergunta sobre o sentido da vida: para os gregos, a vida boa é a da harmonia de si com o cosmos; para as religiões, a vida boa é da harmonia de si com Deus; para o primeiro humanismo, a vida boa é da harmonia de si com a humanidade inteira; quarta resposta, a tríada, desconstrução-cuidado de-si-felicidade. Proponho uma quinta resposta a partir de duas revoluções, a invenção do casamento por amor, que sacraliza o ser humano, e o aumento do tempo de vida. O sagrado é aquilo pelo que aceito morrer. Antes, pela pátria, por Deus, por uma ideologia. Hoje, só por quem se ama. Por quem amo ou por quem poderia ou poderei amar, o meu próximo.

CS – Seremos imortais?
Ferry – Sempre seremos mortais, mas viveremos 150 anos ou mais. Estudei biologia durante três anos. Sei do que estou falando. A longevidade vai mudar tudo. Talvez cheguemos a 200 anos. Já transformamos células senescentes em células-tronco. Muitas doenças serão controladas. A questão será mais de manter a liberdade na velhice. Haverá tempo para amar.

CS – Já o criticaram por romantismo.
Ferry – Sou o primeiro dos modernos. A revolução do amor é moderna. Quando eu era jovem, mulheres precisavam de autorização do pai para casar. Os casamentos de conveniência dominam o mundo não ocidental. O casamento por amor engendra o divórcio. A tradição não precisava disso, pois não sentir amor não era razão para separação. E havia bordeis, amantes e traições.

CS – A civilização ocidental está em perigo?
Ferry – O islamismo radical vai provocar ainda muito estrago, mas não estamos na Alemanha nazista. Não haverá uma autodestruição. Francis Fukuyama tinha razão sobre o fim da história. Podemos ter retrocesso, mas não se fará melhor do que a democracia, que poderá ser aperfeiçoada. Mesmo nos regimes ditos iliberais, a democracia resiste no direito ao voto. Putin, Orban, Trump e Marine Le Pen não querem acabar com as eleições. O problema é que na democracia se pode votar em idiotas. Faz parte do jogo.

CS – Há uma ameaça individualista?
Ferry – Ao contrário. O individualismo foi uma vitória contra a tradição. O casamento por amor resulta da liberdade individual. É emancipação. Nunca o mundo foi tão altruísta quanto hoje. A filantropia nunca arrecadou tanto. Não estamos colocando o vazio no lugar dos valores. É o amor que rege as escolhas. Tivemos duas guerras mundiais devastadoras. Não queremos mais isso. Nunca tivemos um mundo tão pleno de possibilidades positivas.

CS – O iluminismo não se apagou?
Ferry – O primeiro humanismo apagou-se. O segundo está aí. Pensemos na emancipação das mulheres e dos homossexuais. Era inimaginável há menos de 50 anos. Em 1980, homossexualismo era visto como doença pela Organização Mundial da Saúde. Sociólogos ainda pensam muito negativamente, mas estão em decadência. Pierre Bourdieu morreu. Esse velho marxismo expirou.

CS – Ele dizia que não era marxista.
Ferry – Era marxista chique. Não era um Althusser. As religiões ideológicas da salvação terrena acabaram. O liberalismo ganhou. Victor Hugo dizia que produzir riquezas é uma coisa; saber reparti-la, outra. A Inglaterra sabia produzir, mas não distribuir. O capitalismo sabe produzir riquezas. É preciso saber distribuí-las. O comunismo pretendia saber repartir, porém não conseguia produzir. O modelo socialdemocrata europeu é o que melhor dá conta desse desafio. O Estado deve garantir meios de promoção social. Eu vim de uma família muito modesta e ascendi pelo esforço e pela escolarização. Estados oriundos do autoritarismo agarram-se ao ultraliberalismo. É preciso ajudar a criar oportunidades para todos.

CS – A tecnologia não está afetando esse modelo?
Ferry – Está ajudando. Vamos resolver o problema do câncer. A tecnologia tem um papel nisso. Não se deve crer em livros como o de Yuval Harari. É o livro mais idiota que li nos últimos 20 anos. O trabalho não vai acabar. Quantas profissões sumiram de 1850 para cá. E quantas surgiram? A inteligência artificial vai gerar mais atividades do que extinguir. Haverá, claro, um tempo de transição e de formação para essa mutação.
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sexta-feira, 15 de novembro de 2019

“Lula terá dificuldade para construir um campo unificado de oposição”


O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Foto: Reprodução/PT

Para o cientista político Aldo Fornazieri, o ex-presidente empolga a militância, mas o desafio é mobilizar setores mais amplos da sociedade

“Sei que a esquerda está bastante eufórica, mas a minha análise é um tanto pessimista”, esclarece de antemão o cientista político Aldo Fornazieri, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, ao analisar as perspectivas para o chamado campo progressista após a libertação de Lula. Mesmo com todo o carisma que possui, o ex-presidente dificilmente será capaz de unificar esse campo político ou mesmo de construir uma sólida oposição ao governo de Jair Bolsonaro, avalia o especialista.

“Lula mobilizaria a sociedade em torno do quê? Com quais bandeiras?”, indaga Fornazieri. “Dentro do Congresso, vemos as oposições enfraquecidas. Quem dá as cartas ali é o Centrão, reunido em torno do presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Não vejo como mudar a correlação de forças no Parlamento por causa da libertação do ex-presidente.”

Confira, a seguir, a entrevista concedida a CartaCapital:

CartaCapital: O senhor acredita que Lula será capaz de reorganizar a oposição ao governo Bolsonaro?
Aldo Fornazieri: Acho bem difícil. Em primeiro lugar, porque Lula não pode substituir os partidos políticos, e as legendas de oposição demonstram estar em crise, sem capacidade de mobilização. O episódio mais recente foi o fiasco dos protestos de 5 de novembro, em reação às declarações de Eduardo Bolsonaro sobre a volta do AI-5. Os atos pelo País foram totalmente esvaziados. A greve de junho também fracassou. Na votação da reforma da Previdência na Câmara dos Deputados, tinha uns 20 manifestantes. Não sei se o filho do presidente consegue fechar a Suprema Corte com um cabo e um soldado, mas seguramente a oposição não consegue barrar reformas que retiram direito dos trabalhadores com apenas 20 militantes.

CC: Lula não tem essa capacidade de mobilização?
AF: O ex-presidente tem retórica, tem carisma, é um mito desse campo popular e da esquerda. Se ele fizer aquelas viagens pelo Brasil, acredito que pode mobilizar a militância, mas não a sociedade de uma forma mais ampla. Foi o que o PT conseguiu fazer nos últimos tempos. Nos atos contra o impeachment, o partido já demonstrava os limites de sua capacidade convocatória. O desafio persiste. Lula mobilizaria a sociedade em torno do quê? Com quais bandeiras? Dentro do Congresso, vemos as oposições enfraquecidas. Quem dá as cartas ali é o Centrão, reunido em torno do presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Não vejo como mudar a correlação de forças no Parlamento por causa da libertação do ex-presidente. No Congresso, nem Bolsonaro tem uma base efetiva nem a oposição.

CC: Não seria possível buscar uma reaproximação com as demais lideranças do chamado campo progressista?
AF: Acho improvável. Ciro Gomes tem uma perspectiva clara de disputar a presidência da República em 2022 e vê o PT como um obstáculo à sua candidatura. Ele mantém, inclusive, um discurso muito agressivo contra a direção petista. Não acredito que Lula esteja disposto a trabalhar pela candidatura do Ciro, até porque o PT não abre mão de ter candidato próprio. O PSOL pode ter uma aproximação tática com os petistas em torno de certas questões, mas duvido que abra mão de se constituir como uma força política autônoma. Para crescer, ele não pode ser caudatário do PT. Então esse campo deve continuar dividido. Para ter uma força política com capacidade de atração gravitacional, é preciso ter uma perspectiva de poder.

CC: O PT não cumpre mais esse papel?
AF: Não vejo isso. Lula não pode ser candidato e outras lideranças se retraíram. O próprio Fernando Haddad recuou após as eleições, não parece disposto a exercer uma presença política mais forte na sociedade. Não é possível conquistar o poder sem liderança forte, sem atuação social. Lula pode tentar, mas enfrentará enorme dificuldade para construir um campo unificado de oposição.
Ciro Gomes tem uma perspectiva clara de disputar a presidência da República em 2022 e vê o PT como um obstáculo à sua candidatura
CC: A ideia de construir uma frente ampla dos setores democráticos e progressistas não passou de um sonho?
AF: Isso vinha se anunciando nas análises de conjuntura dos partidos de esquerda, mas também fracassou. No começo, partiu-se da análise equivocada de que o governo Bolsonaro seria fascista, e não é. Pode ter algum diapasão, algumas posturas típicas, mas está longe de encarnar o fascismo. O próprio PSL não é um movimento fascista, tanto que parte do partido está brigada com o presidente. Por conta desse equívoco, a ideia de construir uma frente democrática com setores do centro político não tem mais operacionalidade na atual conjuntura. Por outro lado, a ideia de construir uma frente popular e progressista perdeu o timing. Agora, os partidos estão preocupados com os arranjos para as eleições municipais do ano que vem.
A esquerda perdeu o pulso da sociedade. Nas periferias, há um evidente predomínio das igrejas evangélicas
CC: A base de Bolsonaro parecia se desentender cada vez mais. A libertação de Lula pode contribuir para uni-la?
AF: Ah, sim… Isso pode ocorrer, mas também lá existem muitas divisões. Precisamos ver se haverá manifestações de rua expressivas, mas não me parece ser o momento para isso. Bolsonaro também está com menor capacidade convocatória. Pode mobilizar a militância, mas está difícil extrapolar esse grupo. Na verdade, a sociedade parece bastante enfastiada da política, está decepcionada. Se surgir algum movimento grande, não acredito que será por iniciativa dos partidos. Será por disposição da própria sociedade, como ocorreu recentemente no Chile ou em 2013 no Brasil. Os partidos perderam o protagonismo das grandes manifestações, não empolgam mais as massas. 

CC: Quais são as alternativas para o campo progressista?
AF: A esquerda perdeu o pulso da sociedade. Nas periferias, há um evidente predomínio das igrejas evangélicas, que expressam um conservadorismo muito forte. Sem força social organizada, a esquerda não triunfa, e é exatamente isso que tem sido negligenciado. Para reconquistar essa força, é preciso repensar não apenas a retórica utilizada para convencer a população, mas também a organização de movimentos sociais fortes e atuantes nas periferias. Hoje, é a direita que faz isso, em associação com as igrejas. Talvez até surja algum candidato epifenômeno, capaz de vencer as eleições, mas ele não terá condições de fazer mudanças estruturais sem contar com uma força social organizada. Esse foi o equívoco dos governos petistas, eles acreditavam que o domínio da máquina governamental era suficiente. Houve uma melhora das condições de vida da população, mas quais reformas mais profundas o PT fez?
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Fonte:  https://www.cartacapital.com.br/politica/lula-tera-dificuldade-para-construir-um-campo-unificado-de-oposicao/?utm_campaign=novo_layout_newsletter_-_15112019&utm_medium=email&utm_source=RD+Station 

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Há um descolamento entre macroeconomia e insatisfação política na América Latina, diz professor


 
Manifestante diante de forças de segurança em Providencia, Santiago   Foto: Jorge Silva/Reuters
 
Para o coordenador de Relações Internacionais da 
FESP-SP, onda de protestos no continente 
está quebrando alguns preceitos

Entrevista com

Moisés Marques, coordenador de Relações Internacionais da FESP-SP 

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

A queda de Evo Morales na Bolívia, os protestos no Chile e a invasão da embaixada venezuelana em Brasília como parte de um movimento contra o governo de Nicolás Maduro mostram que a premissa de que as insatisfações populares com governos na América Latina estão ligadas a uma crise econômica nem sempre é verdadeira. 

"Vemos um descolamento entre performance econômica, digo macroeconomia, e o encantamento ou desencantamento com o processo político. Acreditávamos que se um país estava bem economicamente, o povo não ficava descontente com o governo. Os casos latino-americanos desmentem um pouco isso", explica o coordenador de Relações Internacionais da pós-graduação da FESP-SP, Moisés Marques. Para Marques, a ligação entre os movimentos no continente está na facilidade de se organizar movimentos e não necessariamente num mesmo motivo ideológico. 

A seguir, trechos da entrevista:

Há relação entre as crises vividas na América Latina?
Os casos latino-americanos são um pouco diferentes entre eles. Muita gente fala que se vive uma onda de protestos no Equador, Chile, Venezuela, Nicarágua. Cada país que você analisar tem um elemento. Temos sim uma facilidade de se manifestar e isso vem desde a Primavera Árabe. A minha demanda é parecida com a sua então saímos para as ruas. Isso aconteceu em vários países do mundo. Mas na América Latina estamos quebrando com alguns preceitos. Vemos um descolamento entre performance econômica, digo macroeconomia, e o encantamento ou desencantamento com o processo político. Acreditávamos que se um país estava bem economicamente, o povo não ficava descontente com o governo. Como dizia James Carville, o estrategista de Clinton, "é a economia, estúpido". Os casos latino-americanos desmentem um pouco isso. 

Como explicar isso?
No caso da Bolívia e do Chile, por exemplo, a economia não vai mal, mas a questão é 'o que significa a economia estar indo bem?'. Estamos olhando indicadores normais de crescimento dos países, mas não para o crescimento da desigualdade ou para as disparidades entre as populações dos países. Na Bolívia e na Guatemala, você tem um recorte muito grande na questão indígena. Essa população não tem recebido os benefícios do crescimento econômico, se beneficiam de alguns programas sociais, é diferente. Na América Latina, temos aqueles que se beneficiam do processo de crescimento e aqueles que começaram a aproveitar alguns benefícios e apoiam lideranças mais populistas. Com a facilidade das redes sociais, você vai ver rua de todos os tipos. Uma parte da população na Bolívia apoia a derrubada do Evo e sai às ruas para comemorar, mas quando desce o povo de El Alto, o Exército intervém porque são pessoas pró-Evo que vão para as ruas com dinamite, não estão ali para brincar. Facilitar a ida para as ruas também facilitou o embate. 

Protesto em La Paz, capital da Bolívia Foto: AIZAR RALDES/AFP

O elemento religioso tem peso nos conflitos?
Outra coisa perigosa que vemos hoje é a mistura de valores políticos e religiosos. Na Bolívia isso ocorre com Luis Fernando Camacho, vemos isso na Guatemala, na Costa Rica, e também na política externa brasileira. Estão misturando valores e isso é perigoso desde Maquiavel. Isso é perigoso porque você transporta valores morais e individuais para questões políticas. Na Bolívia, 60% da população é indígena. Agora Jeanine Añez leva a bíblia para o palácio, dizem que Pachamama (a mãe terra) está nas mãos de Deus. Isso é mexer com questões enraizadas. Isso tende a polarizar ainda mais o processo. Estamos nos aproximando do fundamentalismo e isso é ruim. 

A derrubada de Evo na Bolívia dá munição para a queda de Maduro na Venezuela?
No caso na Venezuela, existe uma crise institucional há muito tempo, forte inflação e um governo que perdeu total a legitimidade. No caso da Bolívia, existe uma série de erros grosseiros cometidos por Evo, de avaliação e de interpretação. Ele perdeu o plebiscito e interpretou de outra forma. Além disso, historicamente, na Bolívia os militares têm um papel de quebra institucional. Há uma tradição de interferir militarmente no processo político. No caso venezuelano, mesmo em 1958, quando derrubam o Marcos Pérez Jiménez, os militares seguram o processo democrático. Em geral, a interferência de militares é mais pró-democracia. 

Como o sr. vê a invasão da embaixada venezuelana em Brasília?
Me parece uma coisa maluca, Guaidó tem pouca legitimidade na Venezuela, fez uma aposta de alto risco que não pegou, mesmo quando há meses tentou o envio de ajuda humanitária esperando que a população saísse em seu apoio. Boa parte dos venezuelanos quer o Maduro fora do poder, mas não necessariamente o Guaidó em seu lugar. Acredito que agora o que vemos é mais uma maneira de aproveitar um momento de intervenção dos militares para Evo sair da presidência e tentar linkar com uma onda pró-oposição nos países bolivarianos. Se for essa a intenção de Guaidó será um grave erro de avaliação porque o Maduro pode até cair, considerando que a economia deve encolher ainda mais esse ano na Venezuela, mas isso não significa que Guaidó assumirá.