domingo, 28 de agosto de 2016

O monge pop

Resultado de imagem para anselm grun

BENEDITINO ALEMÃO ANSELM GRÜN É A ATRAÇÃO DO 3º SIMPÓSIO DE ESPIRITUALIDADE E SAÚDE RECONCILIAÇÃO E PAZ, PROMOVIDO PELA SANTA CASA DE PORTO ALEGRE NESTA SEGUNDA-FEIRA

Dono de uma longa barba branca, que se une em uma coisa só aos igualmente compridos e alvos cabelos, Anselm Grün é uma figura pop. O sucesso do monge beneditino alemão, autor de mais de 300 livros – com 2,5 milhões de cópias vendidas somente no Brasil –, está em sua capacidade de fazer dialogar os milenares ensinamentos cristãos com os anseios espirituais do homem moderno.

A extensa obra tem temática variada: falta de tempo, necessidade do silêncio, poder da reconciliação, liderança nos negócios, liberdade e conflitos interiores. E a abordagem é sempre a mesma: parte da espiritualidade cristã, buscando apoio em ensinamentos da filosofia budista e da psicanálise de Carl Jung. Por este passeio em outras correntes, Grün é visto como um herege por setores mais conservadores da Igreja Católica, que o acusam de flertar com a autoajuda.

O alemão de 71 anos está convicto de que é preciso manter o vínculo com a contemporaneidade. Portanto, acredita que a homossexualidade não pode ser vista pela Igreja como um pecado, defende que o celibato não deveria ser obrigatório para ingresso no sacerdócio e não vê problema em falar de paixões e desejos (não experienciados) – são sentimentos que o ajudaram a se transformar em um homem melhor.

Grün comanda a área financeira da Abadia de Münterschwarzach, na Alemanha, convento onde vive desde que completou 19 anos. Já são cinco décadas de dedicação – tempo bastante para refletir sobre o caminho que seguiu e também encher-se de dúvidas. Mas ele não se arrepende. Este é mais um dos conselhos impressos em seus livros, traduzidos para mais de 30 idiomas: é preciso renovar diariamente o compromisso com as escolhas tomadas.

Na segunda-feira, o monge desembarca em Porto Alegre. A reconciliação espiritual será o tema de sua palestra no 3º Simpósio de Espiritualidade e Saúde – Reconciliação e Paz, promovido pela Santa Casa e realizado na PUCRS (saiba mais na página 25). Ele conversou por e-mail com ZH. Confira:

O senhor é autor de mais de 300 obras sobre espiritualidade, traduzidas para 30 idiomas. No Brasil, já vendeu mais de 2,5 milhões de livros. Como explica esse grande sucesso?

Sou grato pela popularidade dos meus livros. Creio que a razão seja um anseio profundo por uma espiritualidade cristã saudável. E eu simplesmente escrevo, não moralizo. Desejo transmitir aos leitores que eu acredito neles e que eu os amo.

Vivemos em tempos em que a velocidade está impregnada em tudo o que fazemos, levando-nos a uma rotina marcada pelo estresse e pelos processos automatizados. Como encontrar o equilíbrio interno e ter uma vida mais leve?

Nós precisamos encontrar o acesso ao espaço de silêncio que temos dentro de nós. Ali, a correria do mundo perde seu poder sobre nós. Podemos retirar-nos sempre para esse lugar de refúgio.

O senhor fala sobre o poder do silêncio e da meditação como um caminho para se ligar a Deus. Qual é o seu entendimento sobre Deus?

A primeira epístola de São João nos diz que Deus é amor. O amor de Deus impregna toda a criação. E o amor de Deus é também a fonte interna da qual bebemos. Mas Deus não é apenas amor, ele é também um “tu”, um interlocutor, que podemos conhecer. E quando conhecemos Deus, conhecemos nossa própria verdade. Isso nos faz bem e nos liberta.

Seus livros abordam os limites de cada um, a busca pela felicidade, nossos anseios. Quais são hoje, ao seu ver, nossas principais angústias?

O maior anseio é que a vida seja bem-sucedida e que nós nos experimentemos como seres amados e preciosos. O maior medo é o de fracassar na vida, de perder a vida e de permanecer a sós com seu desejo de ser amado.

Em um dos seus livros, o senhor traz 50 rituais para a vida. Que práticas diárias o senhor considera as mais importantes?

É importante começar o dia com um bom ritual. Um bom ritual seria o da bênção. Que deixemos a bênção fluir para todas as pessoas que encontraremos durante o dia e com as quais vivemos e trabalhamos. À noite, é importante devolver o dia a Deus através de um ritual. Muitos usam a noite para refletir sobre tudo aquilo que não correu muito bem. E assim não conseguem se desprender do dia. É preciso oferecer a Deus o dia da forma como ele foi. E confiar que Deus abençoa tudo que foi e transforma aquilo em bênção.

O senhor já disse que a tristeza é inerente ao homem. Muitos consideram a depressão o grande mal dos tempos modernos. Como o senhor difere a tristeza da depressão?

A tristeza faz parte do homem. E ela é diferente da depressão. Muitos acreditam que têm de estar o tempo todo cheios de alegria. Esta é uma visão pouco realista. Porque só podem ser felizes aqueles que se permitem também ser tristes. A depressão sempre tem um significado. É importante saber olhar para ela e conversar com ela para entender o que ela tem a dizer. Quando se fala abertamente sobre a própria depressão, ela perde o poder sobre a gente.

Qual o papel da fé no caminho da felicidade?

A fé nos liberta da compulsão por sermos sempre felizes. E a fé em Deus nos presenteia sempre com a experiência de uma felicidade não merecida.

O senhor fala que saber “aproveitar e deixar” (Gemeiem und Lassem) é um dos grandes segredos da vida.

Desfrutar de algo e abrir mão de algo andam juntos. Aqueles que não renunciam também não conseguem desfrutar. Mas existem também pessoas que se concentram tanto na ascese (penitência, renúncia do prazer) que chegam a negar a vida.

O senhor vem a Porto Alegre para palestrar em um evento sobre Espiritualidade e Saúde. Qual a relação entre a fé e a ciência?

Fé e ciência são duas perspectivas, dois modos diferentes de ver a realidade. Mas ambas tratam da mesma realidade. Esses modos diferentes não deveriam ser contraditórios. A fé precisa da razão. E a ciência deveria estar aberta para o mistério, que transcende o nosso conhecimento racional.

O tema da sua palestra será a “reconciliação”. Qual a importância desta palavra hoje?

A reconciliação é decisiva para uma vida bem-sucedida. Isso vale para a vida na família, na empresa, num país, no mundo inteiro. E a reconciliação com a nossa própria história é um requisito para que se tenha uma vida bem-sucedida.

Como o senhor vê a relação dos jovens com a fé?

Os jovens se mostram abertos ao autoconhecimento. E quando têm o desejo sincero de conhecerem a si mesmos, acabam perguntando também pelo fundamento de seu ser. E então deparam com Deus. Mas eles são céticos em relação às tentativas de fixar Deus como uma imagem excessivamente concreta.

Setores da Igreja Católica já criticaram o senhor por considerarem suas obras uma tentativa de reduzir o Evangelho a livros de autoajuda e mesclar a espiritualidade com a psicologia. O que o senhor acha disso?

Meus livros correspondem à sã tradição católica. Mas toda teologia precisa sempre dialogar com seu respectivo tempo. Eu tento aproximar as pessoas da sabedoria terapêutica de Jesus. Isso nada tem a ver com esoterismo. A tradição teológica ressalta a salvação por meio de Jesus Cristo. Mas ela diz também que nós precisamos nos abrir para a ação salvadora e curadora de Jesus.

Em seus livros, o senhor sinaliza a necessidade de cada um ser fiel à sua própria consciência, que este seria o caminho para a salvação. Isso não fere os preceitos da Igreja Católica?

A Igreja Católica ensina que a consciência é a norma suprema do ser humano, superior às prescrições da Igreja.

A busca pela espiritualidade saudável é um dos aspectos centrais de sua obra. Como avalia as atuais tendências ao fanatismo religioso?

O fanatismo religioso é sempre marcado pelo medo. Cada um de nós tem dentro de si tanto fé quanto descrença. Quando eu reprimo minha descrença, passo a manifestá-la externamente, combatendo aqueles de fé diferente. Quando acolho a minha descrença, ela enriquece minha fé.

A Igreja Católica não está livre de correntes intolerantes. Em 2008, o senhor disse à revista alemã Cafebabel que a homossexualidade não deveria ser vista como um pecado.

O papa Francisco rompeu com a postura excessivamente rígida da igreja em relação à homossexualidade e prega a misericórdia. Acato a postura do Papa. A homossexualidade é uma predisposição de determinadas pessoas. Não podemos julgá-las. A pergunta é: como a pessoa com predisposição homossexual deve lidar com isso?

O senhor também defende que padres possam casar. Quais seriam os benefícios para a Igreja?

O celibato é uma tradição, mas não é um dogma da Igreja. Creio que seria bom se ambas as formas de existência sacerdotal fossem possíveis: o celibato e o padre casado. Isso reduziria a falta de padres e resultaria em sinceridade e honestidade maiores.

O senhor mora desde os 19 anos em um convento. Houve momentos em que sentiu arrependimento pela vida que escolheu?

Houve crises. Mas nunca me arrependi de ter decidido ingressar no monastério e de ter optado pela vida monástica. Preciso renovar constantemente a decisão que tomei no passado.

Durante todo este tempo de sacerdócio, o senhor se apaixonou pelo menos duas vezes, conforme seu biógrafo, Freddy Derwahl: primeiro, por uma freira, logo que entrou no convento, depois, aos 50, por uma mulher 10 anos mais jovem. O senhor acredita que todos se apaixonam e não vê problema em falar sobre pensamentos eróticos. Mas como o senhor, na condição de monge, lida com esses desejos?

Quando me apaixonei, descobri dentro de mim a minha capacidade de amar. E a paixão me revelou novos aspectos da minha alma. Não falo de viver a paixão em uma relação amorosa, mas de incorporar a mim mesmo aquilo que me fascinou em uma mulher.

Um casamento é construído sobre um sentimento absoluto e eterno, o qual o senhor considera impossível, uma vez que as emoções humanas são mutáveis e nenhum parceiro pode satisfazer todos os nossos anseios. Esta sua visão sobre o amor é um pouco pessimista, não? Como é possível manter um relacionamento?

O amor tem sempre dois lados: ele satisfaz os nossos desejos e também nos decepciona. Essas duas experiências nos abrem para o amor de Deus, que jamais nos decepciona. O amor humano e o amor divino andam juntos. Quando sei que o amor humano me remete ao amor divino, eu consigo desfrutar e me deleitar no amor humano sem sobrecarregar a outra pessoa com expectativas exageradas.

bruna.scirea@zerohora.com.br
Reportagem por BRUNA SCIREA
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a7335312.xml&template=3898.dwt&edition=29599&section=4572

sábado, 27 de agosto de 2016

ALBERTO MANGUEL. A curiosidade inspira a nova obra de Alberto Manguel

Resultado de imagem para Alberto Manguel

Escritor argentino mostra como a dúvida é um estímulo que impulsiona o conhecimento

Todos os dias, o escritor argentino Alberto Manguel rende-se a uma rotina que lhe alimenta o espírito: ler ao menos um capítulo de A Divina Comédia, poema de viés épico e teológico escrito por Dante Alighieri no século 14. “Sempre há uma nova descoberta”, conta o autor que, apesar da extrema proximidade com os clássicos, só decidiu ler integralmente a obra-prima italiana há 12 anos. E foi essa descoberta que o incentivou a escrever Uma História Natural da Curiosidade, livro em que mapeia os textos que o inspiram como leitor. E o ponto de partida são 17 questões propostas por Dante na Divina Comédia

Manguel é um autor de múltiplas vivências – nascido em Buenos Aires em 1948, viveu em Israel e no Taiti até se mudar, nos anos 1980, para Toronto, onde se tornou cidadão canadense. Aprendeu a ler por volta dos 3 anos e nunca mais parou. Quando adolescente, leu em voz alta, durante anos, para Jorge Luis Borges, que ficara cego. Viveu em um presbitério construído no século 16, que comprou para instalar sua biblioteca de 30 mil livros, em um vilarejo medieval no sul da França. E atualmente é diretor da Biblioteca Nacional da Argentina, mesmo cargo ocupado por Borges.

Em São Paulo, Manguel vai participar de um debate com Robert Darnton, na terça, 30, no Sesc Vila Mariana, evento que inicia a festa dos 30 anos da Companhia das Letras. E, no dia 31, estará na Bienal do Livro de São Paulo. Por telefone, ele conversou com o Estado

Quando decidiu que a curiosidade era tema para um livro?
A curiosidade como parte do ser humano é uma característica essencial que nos permite sobreviver para imaginar as experiências que nos constroem e nos possibilitam entender o mundo que contém nossa identidade. Não creio que seja apenas o tema desse livro, mas de toda a minha obra. Mas, depois de ler Dante, pensei em fazer uma espécie de cartografia do mundo intelectual dantesco por meio das perguntas que ele faz e que refletem nossa inquietação hoje. A lista de 17 perguntas (que poderiam ser mais) reflete nosso inconformismo e dá forma a questões milenares. 

A curiosidade implicaria uma ação transgressora?
Com certeza. Nossa sociedade está construída sobre afirmações. Nosso contexto social representa uma das regras que constroem a muralha simbólica do lugar onde podemos viver juntos sob uma certa coerência. O indivíduo, para que essa sociedade continue viva, tem de questioná-la. Se há leis, elas devem mudar ao longo do tempo. E é a curiosidade do homem que pode alterá-las. Desde sempre, desde que as muralhas das sociedades eram verdadeiras, reais, o indivíduo queria saber o que havia do lado de fora para comparar com o que dispunha dentro e que caracterizava sua forma de viver. A curiosidade permite incorporar algo que não é real graças à imaginação. 

É a vontade de saber mais que possibilita, por exemplo, a descoberta de um novo planeta como o anunciado recentemente, não?
Sempre soubemos que nosso entendimento é limitado pelos sentidos, que reduzem o alcance da nossa busca. Mas, graças à nossa imaginação, podemos ver o que não está adiante, ouvir algo no que parece ser silencioso. Há campos imensos aos quais não temos acesso, mas construímos instrumentos para estender o alcance dos nossos sentidos. E a descoberta desse planeta é obviamente uma extensão dos nossos olhos. Marshall McLuhan, quando escreveu seu famoso livro O Meio É a Mensagem, já dizia que os instrumentos são uma extensão dos homens, ou seja, o carro é uma continuação das nossas pernas.  

Em seu livro, o senhor promove uma interessante conexão entre a Antiguidade e o mundo contemporâneo, além de montar encontros originais como Kafka e Platão, ou Confúcio e o filósofo pré-colombiano Netzahualcóyotl.
Esquecemos que as definições temporais e espaciais são convenções que foram criadas para facilitar o pensamento da comunicação. No universo, não há tempo nem espaço. Essas etiquetas são categorias que nos permitem viver nesse mundo. Mas, acima delas, está a rede que comunica as distintas partes e que fazem com que Platão responda às nossas inquietações atuais ou que encontremos referências a Alice no País das Maravilhas ou a Sêneca, Dante e Kafka em nossa vida cotidiana. 

Vivemos em um mundo marcado pelas certezas, oferecidas pela comunicação e pela publicidade. Mesmo nas escolas, os alunos são educados a aceitar respostas e a não fazer perguntas. O que isso traz de prejuízo?
É um problema recorrente. No fim da Idade Média, o método de ensino, que era escolástico, afirmava que os conceitos clássicos, autoritários, eram os corretos e tinham de ser apreendidos pelo estudante para que ele descobrisse quais eram as opiniões válidas na sociedade. Só com o Humanismo é que se começou a questionar esse sistema e a se discutir que a base do conhecimento autoritário é apenas uma base sobre a qual construímos os relacionamentos interiores. Essa é a diferença entre a literatura, que apresenta perguntas, e o dogma político religioso social, que apresenta certezas. 

E o que dizer do uso de religiões, como o islamismo, para fomentar guerras. O que o senhor pensa disso?
Esses extremismos existiram sempre. Hoje, ao ouvirmos falar do extremismo islâmico, nó nos esquecemos de que as religiões católica e protestante tiveram atos de extremismos muito mais pronunciados e durante muito mais séculos. O que nos chama atenção hoje são os atos dos terroristas, mas nos esquecemos convenientemente de que a nossa própria história – sendo cristãos ou judeus – é marcada por atos extremos.  

Como é trabalhar na Biblioteca Nacional da Argentina, função já exercida por Borges?
Fui nomeado no fim do ano passado, mas não pude aceitar até junho deste ano. Trabalhei a distância. É uma tarefa difícil, mas excitante. É preciso transformar a biblioteca em um espaço funcional, que compartilhe suas riquezas. Quero fazer um acordo com a Biblioteca Nacional do Brasil. Sobre Borges, ele conferiu uma grande visibilidade à biblioteca, era um local onde gostava de estar. 

UMA HISTÓRIA NATURAL DA CURIOSIDADE
Autor: Alberto Manguel
Tradução: Paulo Geiger
Editora: Companhia das Letras 
(496 págs., R$ 74,90)

--------
Reportagem por:
Ubiratan Brasil,
O Estado de S. Paulo
27 Agosto 2016 
Fonte:  http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,a-curiosidade-inspira-a-nova-obra-de-alberto-manguel-que-vem-a-sp-para-o-lancamento,10000072257

Comida desperdiçada. E a pobreza crescendo

Um escândalo que não deveria existir!

Washington Novaes
Jornalista
Quando chegarão as políticas capazes 
de mudar esse panorama universal?
A desigualdade segue aumentado 
sempre mais! 

Nas últimas semanas têm sido muito frequentes na comunicação e nas cartas e artigos de leitores manifestações sobre uma foto estampada em jornais de um menino brasileiro sentado numa cadeira, com o rosto ensanguentado e as roupas rasgadas, após haver ficado debaixo das ruínas de sua casa que desabara – a própria imagem da desolação e da impotência. Nos mesmos dias, outra notícia informava (O Popular, 19/8): a milhares de quilômetros, na Colômbia, autoridades de Bogotá “disseram que a chuva torrencial que caiu na cidade na madrugada de ontem arrastou ao menos 30 moradores de rua que dormiam em duto de esgoto” – a morte nas cloacas, no mundo povoado de pobreza e de notícias tristes.
Que fazer? O Brasil precisa (O Estado de S. Paulo, 18/5) de mais US$ 7,2 bilhões ou R$ 25 bilhões extras por ano para acabar com a pobreza até 2030. O mundo precisará de US$ 10 trilhões (ou mais de U$S 600 bilhões por ano) para a mesma tarefa, em 15 anos. Mas não há recursos disponíveis, lá e cá, para prover os direitos sociais, criar emprego e renda, etc. O Brasil está em sexto lugar entre os países que mais precisam de recursos para tarefas como essas (em primeiro lugar, a Índia, com US$ 61 bilhões anuais; em segundo, a China, com US$ 37 bilhões; em terceiro, a Nigéria, com US$ 36 bilhões; depois, a Etiópia e a Indonésia).
Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), “a pobreza nos países em desenvolvimento está aumentando”, em 1950 viviam com menos de US$ 1,90 por dia cerca de 47% da população mundial, em 2012 eram 15%. “Mas o progresso é frágil: 40% dos africanos vivem na pobreza; e nos próprios países ricos a pobreza também aumentou; 30% da população mundial tem apenas 2% da renda total”. No Brasil, segundo o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), a proporção de pobres caiu de 23,4% em 2001 para 7% em 2014; 26,3 milhões de pessoas saíram da linha de pobreza: eram 40,5 milhões e baixaram para 14,2 milhões em 12 anos E para assegurar US$ 3,1 por dia seriam necessários 0,3% do produto interno bruto; para garantir renda diária de US$ 5 a todos o Brasil precisaria ampliar os gastos sociais para US$ 23,2 bilhões anuais, ou 2% do PIB nacional. [Infelizmente, com esta crise econômica, fala-se apenas em reduzir os gastos sociais!]
Estamos longe, com a taxa de desemprego em 11%, com possibilidade de aumentar até o fim de 2016. Menos de 40% da renda da camada mais pobre da população vem de trabalho remunerado, lembra Guy Ryder, diretor da OIT (O Estado de S. Paulo, 19/5). Mas no ano passado 343 mil famílias deixaram o programa Bolsa Família por haverem aumentado sua renda (MDS, 12/5); 261,3 mil reduziram o benefício, pela mesma razão; 467,1 mil não se recadastraram. A bolsa contempla 14 milhões de famílias com renda média de R$ 163,57, que significa no total R$ 2,3 bilhões mensais. Entre os beneficiados, 10 milhões de pessoas, ou 5% da população (O Estado de S. Paulo, 28/4). Apesar de nossos problemas sociais serem muito maiores que os de países “desenvolvidos”, nossos gastos sociais são menores (edivanbatista@yahoo.com.br, 21/7). Aplicamos 21,3% do PIB em 2013, por exemplo, quando a Alemanha aplicou 27,1% e a Suécia, 29,8%. [E nestes países a pobreza é bem menor! Imaginem!]
Resultado importante é o que mostra (Pnad 2014) que vem caindo desde 2003 o número de famílias da zona rural em situação de pobreza e pobreza extrema (renda mensal até R$ 77), abaixo da meta dos Objetivo do Desenvolvimento Sustentável, que é de 3% (MDS, 20/11/15). Dado preocupante, porém, é o de que a taxa de desemprego entre jovens da Grande São Paulo está em 36% (O Estado de S. Paulo, 27/6), quando o desemprego médio na área está em 16%. O desemprego total no País anda pela casa dos 11%; e quase metade desses desempregados é constituída de jovens (O Estado de S. Paulo, 27/6). A concentração da renda é evidenciada pelo fato de os 10% mais ricos da população deterem, em 2014 (O Popular, 7/5), 38% da renda tributável e 39% dos bens e direitos líquidos totais. A vulnerabilidade dos mais pobres é apontada pelo professor Ladislaw Dowbor: 19% da renda familiar é destinada ao pagamento de dívidas (terra.com.br). 

Em abril último a Assembleia-Geral da ONU decidiu criar (FAO, 4/4) o Decênio de Ação sobre a Nutrição, já que:
* 800 milhões de pessoas no mundo passam fome e
* mais de 2 bilhões sofrem com deficiência de nutrientes;
* 159 milhões de crianças com menos de 5 anos têm déficit no crescimento;
* 50 milhões estão abaixo do peso recomendável,
* enquanto na população geral 600 milhões são obesos.
Nesta mesma hora, diz o site Oxfam (21/1) que a concentração da renda continua a aumentar; 62 pessoas têm tanto capital quanto a metade mais pobre da população mundial. Mas há dados diferentes. O Departamento de Informação Pública da ONU relata que 13% da população mundial vive em extrema pobreza e 2,4 bilhões não dispõem de saneamento adequado – embora as pessoas em pobreza extrema tenham diminuído mais de 50% desde 2002 e a mortalidade materna tenha diminuído 44%; a mortalidade de crianças baixou mais de 50%.
Com tantos problemas, tanta fome, a América Latina continua desperdiçando até 348 mil toneladas por dia de alimentos (FAO, 30/2). Cerca de 36 milhões de pessoas (mais que a população do Peru) poderiam suprir suas necessidades com o que é perdido nos pontos de venda direta ao consumidor. A Argentina perde 12% do que produz. A Unicef alerta (28/6) para o risco de 60 milhões de crianças com menos de 5 anos de idade morrerem até 2030 de doenças que poderiam ser evitadas. E 167 milhões viverão na pobreza, apesar de 36% dos cereais, 20% das sementes, carnes e laticínios, 35% dos peixes, 40% a 50% dos vegetais e frutas irem para o lixo ou outros formatos desperdiçadores (Folha de S. Paulo, 20/7). Os Estados Unidos desperdiçam um terço do que plantam. O paradoxo maior talvez seja o da África, que, juntamente com a fome, tem 65% das terras férteis não cultivadas do planeta e 10% da água doce (Eco-Finanças, 22/8).
-------------------------------
Fonte: O Estado de S. Paulo – Espaço aberto – Sexta-feira, 26 de agosto de 2016 – Pág. A2 – Internet: clique aqui.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Žižek: Hillary e o triunfo da ideologia


Slavoj Žižek*
 
hilary ideologia zizek
Julian Assange está certo em sua cruzada contra Hillary, 
e os liberais que o criticam por atacar 
a única figura que pode nos salvar 
de Trump estão errados. 
O alvo a ser atacado e solapado 
agora é precisamente esse consenso 
democrático contra o “vilão”.

Alfred Hitchock disse certa vez que um filme é tão bom quanto seu vilão. Isso quer dizer que as atuais eleições nos EUA serão boas já que o “malvado” (Donald Trump) é quase um vilão ideal? Sim, mas num sentido muito problemático… Para a maioria liberal, as eleições de 2016 nos apresentam diante uma escolha bem clara e definida. A figura de Trump é evidentemente um excesso ridículo, uma figura vulgar que explora nossos piores preconceitos racistas e sexistas, um porco chauvinista sem um mínimo de decência. Até grandes nomes Republicanos estão o abandonando aos montes. Se Trump de fato permanecer o candidato Republicano, ficaremos com umas eleições de levantar o ânimo: a sensação será de que, apensar de nossos problemas e disputas internas, onde há uma verdadeira ameaça, temos a capacidade de todos nos unir em defesa de nossos valores democráticos básicos… como a França fez após os ataques terroristas.

No entanto, é exatamente esse confortável consenso democrático que deveria nos preocupar. Devemos dar um passo atrás e voltar o olhar para nós mesmos. Afinal, qual é mesmo a coloração dessa ampla unidade democrática? Todo mundo está lá, dos partidários de Wall Street aos apoiadores de Sanders junto com o que sobrou do movimento Occupy, das grandes corporações aos sindicatos, dos veteranos do exército aos militantes LGBT+, de ecologistas horrorizados pela negação de Trump do aquecimento global a feministas felizes com a perspectiva de uma primeira presidenta mulher nos EUA passando pelas figuras “decentes” do establishment Republicano espantadas pelas inconsistências de Trump e suas irresponsáveis propostas “demagógicas”.

Mas o que desaparece nesse conglomerado que aparenta englobar a tudo e a todos? É preciso lembrar que a raiva popular que deu origem ao fenômeno Trump também produziu Sanders. Apesar de ambos expressarem o descontentamento social e político generalizado, eles o fazem em sentidos opostos. Um através do populismo direitista e outro optando pelo grito esquerdista por justiça. E aqui está o truque: o clamor da esquerda por justiça se associa a lutas pelos direitos das mulheres, das minorias, da população LGBT+, por multiculturalismo e contra o racismo, etc. O objetivo estratégico do consenso de Clinton é claramente o de buscar dissociar todas essas pautas do horizonte esquerdista de justiça. É por isso que o emblema vivo desse consenso é Tim Cook, o CEO da Apple que orgulhosamente assinou a carta pro-LGBT e que agora pode facilmente ignorar as centenas de milhares de trabalhadores da Foxconn sendo esfolados em condições análogas à da escravidão na linha de montagem da Apple na China – seu grande gesto de solidariedade para com os “não-privilegiados” se limitou à exigência da abolição à segregação de gênero… Como geralmente costuma acontecer, as grandes empresas se colocam em profundo alinhamento com a teoria politicamente correta.

Essa mesma postura foi levada ao extremo com Madeleine Albright, uma grade apoiadora “feminista” de Clinton. No programa 60 Minutes do canal CBS (12/5/1996, assista aqui), a jornalista a questiona sobre a Guerra no Iraque: “Ouvimos que meio milhão de crianças morreu. Quer dizer, isso é maior do que o número de crianças que morreu em Hiroshima. E, enfim, será que o custo de uma guerra como essa compensa?.” Albright responde prontamente: “Acho que é uma escolha muito difícil, mas o custo – nós consideramos que vale a pena arcar com ele.” Ignoremos as inúmeras questões que essa resposta levanta (incluindo o interessante deslocamento do “eu” para o “nós”: eu considero uma questão difícil, mas nós avaliamos que compensa), e foquemos apenas no seguinte aspecto: imagine só o descalabro que não seria se o mesmo comentário saísse da boca de alguém como Putin, ou o Presidente Chinês Xi, ou o Presidente do Irã! Será que eles não seriam imediatamente bombardeados por todas as nossas manchetes os condenando como monstros frios, bárbaros e sem pudor? Durante a campanha para Hillary, Albright ainda disse: “Há um lugar especial no inferno para mulheres que não ajudam umas às outras!” (Leia-se: que vão votar em Sanders e não em Clinton.) Talvez devamos corrigir essa afirmação: há um lugar especial no inferno para mulheres (e homens) que pensam que meio milhão de crianças mortas é um preço razoável a se pagar por uma intervenção militar que arruína um país, e que ao mesmo tempo calorosamente apoiam os direitos das mulheres e das minorias em casa…

Trump não é a água suja que devemos jogar for a para preservar o bebê saudável da democracia estadunidense. Ele é o próprio bebê sujo que deve ser despejado para obnubilar a verdadeira água suja das relações sociais que sustentam o consenso Hillary. A mensagem que e consenso passa à esquerda é o seguinte: “você pode ficar com o que quiser, nós só queremos o essencial, o livre funcionamento do capitalismo global”. O “Sim, nós podemos!” do Presidente Obama adquire agora um novo significado: “sim, nós podemos ceder a todas as suas demandas culturais… contanto que a economia global de mercado não seja comprometida – então não há motivo algum para medidas econômicas radicais”. Ou, como Todd McGowan colocou (em uma comunicação privada): “O consenso das ‘pessoas que pensam direito’ em oposição a Trump é assustador. É como se seu excesso autorizasse o verdadeiro consenso global capitalista a emergir e a se autocongratular a respeito de seus valores de abertura.”

É por isso que Julian Assange está certo em sua cruzada contra Hillary, e os liberais que o criticam por atacar a única figura que pode nos salvar de Trump estão errados: o alvo a ser atacado e solapado agora é precisamente esse consenso liberal-democrático forjado de cima para baixo para combater o vilão ideal.”

E o pobre Bernie Sanders? Infelizmente, Trump acertou em cheio quando comparou seu apoio a Hillary com um integrante do movimento Occupy apoiando os Lehman Brothers. Ele deveria ter simplesmente se retirado e ter permanecido na dignidade do silêncio para que sua ausência pesasse fortemente sobre as celebrações de Hillary, nos lembrando do que ficou de fora nessa festa de consenso e, dessa forma, preservando o espaço para alternativas futuras mais radicais.
--------------
*Nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidas, Primeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011) e o mais recente, Vivendo no fim dos tempos (2012). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.
* Texto enviado pelo autor diretamente ao Blog da Boitempo. A tradução é de Artur Renzo.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

'Não me considero culpada': o polêmico testemunho da secretária do braço direito de Hitler

Resultado de imagem para Brunhilde Pomsel
"Não quebro o silêncio para limpar minha consciência", diz Brunhilde Pomsel, única testemunha viva do que ocorria no Ministério para Ilustração Pública e Propaganda de Adolf Hitler durante os anos do nazismo (1933-1945), o capítulo mais obscuro da história da Alemanha.

Ela trabalhou na pasta por três anos, sob o comando de Joseph Goebbels, responsável pela propaganda nazista e braço direito do Führer.

A reportagem foi publicada por BBC Brasil, 24-08-2016.

A ex-secretária é figura central do documentário Ein deutsches Leben ("Uma vida alemã", em tradução livre), que estreou em junho no Festival de Cinema de Munique e exibido também no Filmfestival de Jerusalém e no Festival de Cinema Judeu de San Francisco.

"Conhecemos a senhora Pomsel por coincidência, enquanto pesquisávamos outra história", contaram Christian Krönes e Florian Weigensamer, dois dos quatro diretores do filme, ao canal alemão Deutsche Welle.

"Não era uma nazista ávida. Mas também não se importou (com o que o regime nazista fazia) e olhou para o outro lado. Nisso recai sua culpa", disse Weigensamer ao jornal americano The New York Times.

Mas o documentário não se concentra na responsabilidade particular de Pomsel.

Segundo os diretores, "em um momento em que o populismo de direita está no auge na Europa", eles querem que o filme seja uma lembrança da "capacidade da complacência e da negação do ser humano".

Uma capacidade que também fica evidente em uma entrevista dada por Pomsel ao jornal britânico The Guardian.

"Ver o filme é importante para mim, porque posso ver no espelho tudo o que fiz de ruim", disse a ex-secretária. "Ainda que isso não tenha sido mais que trabalhar no escritório de Goebbels."

O trabalho

Suas atribuições, como ela mesma conta, incluíam desde registrar as estatísticas de soldados nazistas mortos a exagerar o número de abusos sofridos por alemãs nas mãos de soldados do Exército Vermelho soviético.

Criada de acordo com os preceitos do dever prussiano, ela aprendeu a ser secretária com um advogado judeu e trabalhou também em uma emissora de rádio antes de chegar, em 1942, ao Ministério de Propaganda do governo nazista.

Para isso, ainda que diga que era "apolítica", teve de se filiar ao Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães - o partido nazista. "Por que não? Todo mundo fazia isso", afirmou no documentário.

Quando trabalhava para Goebbels, observou de perto o círculo de poder que rodeava Hitler. Ela descreve o ministro da Propaganda como "um cavalheiro, elegante e nobre", mas também um "ator" que, quando alguém tirava "sua máscara de homem culto e educado, ficava louco".

"Ficávamos sabendo quando chegava ao escritório, mas não voltávamos a vê-lo até a hora em que ia embora", relatou.

Ela diz que não sabia a que se dedicava exatamente o braço direito do Führer. Mas admite que tinha conhecimento da existência dos campos de concentração, apesar de alegar desconhecer na época sua função real.

Segundo ela, acreditava-se então que "não se queria que as pessoas fossem diretamente para a prisão, então, iam para os campos para serem reeducados".

"Ninguém poderia imaginar algo assim", disse, sobre o objetivo real de exterminar os judeus da Alemanha.

Pomsel assegura que as pessoas que trabalhavam para o regime nazista tinham certeza que os judeus "desaparecidos" haviam sido enviados para as aldeias dos Sudetos, nome da cadeia de montanhas na fronteira entre a República Tcheca, a Polônia e a Alemanha.

A versão oficial dava conta de que o objetivo seria repovoar aqueles territórios montanhosos da Europa oriental, naquele momento ocupados pelos nazistas. "Tudo era secreto, e, por isso, acreditamos. Era totalmente crível", disse ela.

Pomsel insiste que nem sequer sabia do ocorrido durante a "Noite dos Cristais", uma série de linchamentos e ataques contra estabelecimentos judeus ocorridos na noite de 9 para 10 de novembro de 1938.

Ignorância

Segundo ela, essa ignorância do estado real das coisas era generalizada na Alemanha nas décadas de 1930 a 1940. "Todo o país parecia estar sob a influência de um feitiço", afirmou.

Por isso, para a ex-secretária, as pessoas que dizem ter se rebelado contra o regime "podem até acreditar sinceramente nisso", mas ela acha que "a maioria não o teria feito".

Pomsel reconheceu no documentário que seu passado pesa sobre ela de certa forma. "Quando uma pessoa viveu uma época (...) e, no final, só pensou em si mesma, ela tem a consciência um pouco pesada", disse.

Mas esclareceu não se sentir culpada nem responsável pelas milhões de mortes causadas pelo regime.
Terminada a Segunda Guerra Mundial, Pomsel passou cinco anos em uma prisão soviética. "Fui tratada muito mal, e não tinha feito nada", afirmou.

"Não me considero culpada, a não ser que se culpasse todos os alemães por tornar possível que aquele governo chegasse ao poder", declarou em sua mensagem final.

"Não há justiça, não há Deus. Mas está claro que o diabo existe", concluiu.
---------------
Fonte:  http://ihu.unisinos.br/559305-nao-me-considero-culpada-o-polemico-testemunho-da-secretaria-do-braco-direito-de-hitler

O futuro do livro pode ser uma questão de dicionário

Roberto Dias*
 SAO PAULO, SP, 19.03.2014: Leitura a jato. Foto produzida de livros abertos e um celular, vendo os livros através da tela. A Ideia é falar de apps que prometem leitura rápida e resumem clássicos. (Foto: Daniel Guimarães/Folhapress, TEC) ***EXCLUSIVO FOLHA***


.
Venda de ebooks dá sinais de estagnação, ao passo que cresce o uso de smartphone. 

SÃO PAULO - Começa nesta semana a 24ª Bienal do Livro de São Paulo, feira dedicada àquele que encapsulou a transmissão do conhecimento num "objeto perfeito": grande resistência, alta resolução, fácil de carregar, "bateria" inexaurível. 

A despeito disso, os números do setor que o produz não são animadores. Estudo da Fipe mostra que a indústria de livros colhe desempenho inferior ao do PIB brasileiro. Há queda de preço médio e volume. 

Pior, não é exclusividade daqui —nos EUA também se registra retração. Pior ainda, o que pintava como solução não se mostrou tão promissor. A venda de ebooks dá sinais de estagnação nos EUA e na Europa; no Brasil tem dificuldade em decolar. Um dia vistos como a pista de início desse novo voo, os tablets vão sendo engolidos pelos smartphones. 

Se não for pelos livros atuais, como se dará a transmissão massificada do conhecimento? É impossível responder a isso por ora, mas parece inegável que formatos em vídeo vão ficando cada vez mais populares. 

Exemplo são as Ted Talks, que resgatam a transmissão oral de ideias num pacote mais, digamos, industrializado. Os títulos das 20 apresentações de maior audiência bem poderiam figurar numa estante de livraria. 

Nas plataformas de ensino à distância, vídeos que misturam aula e gráficos fazem as vezes dos ebooks como fonte didática de consulta. A realidade virtual pode crescer muito no ensino profissional. 

A única coisa que continua inelástica é o tempo das pessoas. Se elas optarem por dedicar esse bem escasso a um meio que não o livro tradicional, o destino dele estará dado. 

Essa substituição não seria inconsequente. Existe muito debate sobre a absorção do conhecimento num meio eletrônico, que nem sempre leva a imersão e sequência linear. 

Entre os vários sentidos que atribui a "livro", o Houaiss admite que a palavra signifique, figurativamente, "fonte de conhecimento, de instrução". Para quem teve o papiro como berço e conheceu sucessivas transformações tecnológicas, transmutar-se em vídeo pode ser, quem sabe, uma questão de dicionário. 
------------------------
 *Jornalista é secretário de Redação da área de Produção da Folha, onde trabalha desde 1998. Escreve às quintas.
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/robertodias/2016/08/1806647-o-futuro-do-livro-pode-ser-uma-questao-de-dicionario.shtml

Da Olimpíada às eleições: e agora?

Juremir Machado da Silva* 
 Resultado de imagem para Olimpiadas e eleições
 
Mordendo cadarço

      Os Jogos Olímpicos, por óbvio, não mudarão o Brasil. A colheita de medalhas não resultou numa safra espetacular, mas foi melhor do que as anteriores. Quem ganhou e quem perdeu? Perderam os vira-latas nacionais que passam o tempo louvando as glórias estrangeiras e esculhambando o gigante tido por patético e visto como eternamente adormecido. Depois do ouro do futebol masculino contra a supostamente imbatível Alemanha, o vira-latas anda mordendo cadarço de sapato alheio de tanta raiva. Ainda mais que essa também foi a Olimpíada da chinelagem americana, a dos nadadores dos Estados Unidos que inventaram um assalto, com imaginação rasteira de Hollywood, e tiveram de desculpar-se, lamber o chão, pagar multa e mico.

Ganharam aqueles que acreditam nas superações do esporte e em nossas poucas, mas adoráveis, qualidades de improvisação. Há muito que eu só torço pela seleção brasileira. Meu critério é transparente. O que faz um grande clube de futebol? O dinheiro. Quem tem mais dinheiro, compra os melhores jogadores e faz o grande time. É o Barcelona. É o Bayern de Munique. Seleção é diferente. O que faz a melhor seleção? O local de nascimento.

O mais rico não pode comprar os melhores para formar a melhor equipe. A Espanha não pode comprar Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar para o seu ataque. Não pode comprar nem a naturalização deles para formar o trio ofensivo dos sonhos. Ao menos, por enquanto. O capital tende a se apropriar de tudo, até do nascimento.

Quando o dinheiro fala mais alto numa seleção, com a escolha de jogador ruim para valorizá-lo, a derrota é muito provável. Não funciona. Um país de três milhões de habitantes pode ter uma grande safra de craques e vencer potências com populações muito maiores. Futebol continua sendo a articulação do coletivo com individualidades excepcionais. Um coletivo sem craques é um deserto sem encantamento. Um craque sem coletivo é um Dom Quixote lutando contra zagueiros com pés de moinhos de vento. O Brasil que venceu a Alemanha é, antes de tudo, o de Neymar, com auxílio de Luan, Gabigol, Gabriel Jesus e outros guris bons de bola e de drible. Futebol sem drible é sexo sem penetração. Tem que goste. Mas para a maioria sempre falta algo, esse algo que faz a diferença.

O vira-latas está babando no cadarço do próprio sapato de tanto ódio: os Jogos Olímpicos deram certo. Não houve atentado. A Vila Olímpica não desabou. Estrangeiros não foram massacrados por hordas de assaltantes. A festa correu solta. Teve mais diversão do que conflito. Como disse alguém, foi um desperdício que deu certo. Não era para ter sido feito, na medida em que falta dinheiro para escola e hospital, mas já que fizeram, deu certo. A imprensa internacional, inicialmente catastrofista, rendeu-se. As festas de abertura e de encerramento foram maravilhosas.

O vira-latas pensa em se matar.

O fiasco ficou por conta de Michel Temer, que tomou vaia na abertura, embora tenha tentado ficar escondido a maior parte do tempo, e fugiu do encerramento. O vira-latas uiva para a lua de tanta amargura. Sabe que tudo isso começou com Lula. Em dois anos, o Brasil organizou dois megaeventos, Copa do Mundo e Olimpíada, sem qualquer tragédia. Salvo, certamente, a das propinas e superfaturamentos. O vira-latas não sabe onde meter o focinho.
Resta balançar o rabo. 

E agora, candidatos?

      Foi-se a Olimpíada. O intervalo entre nossas crises acabou. Estamos de volta à realidade. Bem-vindos ao cotidiano. Vivemos grandes emoções delegadas. As celebridades existem para nos representar na utopia. Muita gente se arrepiou ao ver Neymar escalar o muro para abraçar Bruna Marquezine no meio do público depois da conquista da medalha de ouro do futebol. Eram príncipe e princesa se encontrando depois de muitos obstáculos. As melhores histórias quase sempre obedecem a três passos: encontro, desencontro e reencontro. Muitas vezes o reencontro se dá na velhice para um balanço tardio.

O nosso jogo agora é com o impeachment da presidente Dilma. O encontro foi nas eleições. O Brasil viveu um clima de romance proibido. A esquerda chegou ao poder, depois da ditadura, e adotou políticas de inclusão social. A direita anunciava o caos. O país viveu alguns anos de superação. Lula foi tão bem que elegeu a sua sucessora, uma mulher que jamais havia disputado uma eleição. Depois, veio o desencontro. A corrupção apareceu como um vírus minando a felicidade provisória. A aliança com o PMDB virou um caso público de traição. Algo que pode ser condensado nesta afirmação de um amigo:

­ – Numa situação extrema, eu votaria no DEM, no PP, no indigesto Jair Bolsonaro, no Donald Trump, na Marine Le Pen, mas jamais no PMDB.

O reencontro com o impeachment será no tribunal da história. Pode-se imaginar um encontro entre o PT e o PMDB dentro de 50 anos. Velhinhos, os dois revisam o passado e confessam os seus crimes.
– Eu não tinha escolha – diz o PMDB.

– Você escolheu o poder pelo atalho – ressente-se o PT.

– Não se escolhe deixar o poder passar encilhado.

– Não se apeia o aliado como se fosse um inimigo.

– Você fez por merecer, petralha.

– Quem falando, metralha.

– Chega de acusações.

– É, passado é passado. Que tal uma nova aliança?

Será certamente uma conversa sem futuro. Servirá para afagar a nostalgia e simular um acerto de contas impagáveis. Em 1964, a imprensa apoiou o golpe. O STF avalizou a tomada de poder. Um jurista jurou que a Constituição fora violada para ser preservada. Passados 49 anos, o jornal O Globo se arrependeu. A Folha de S. Paulo ainda acha que foi só uma “ditabranda”. No presente, o buraco é mais embaixo. Depois da queda anunciada de Dilma Rousseff, restarão as eleições municipais e as estratégias federais para 2018. Há uma pergunta parada no ar poluído: quem tem um projeto para a cidade?

Um projeto que não dependa de qualquer pretexto para ser executado. Os megaeventos disponíveis já foram realizados. Esqueçam a Fórmula 1. É coisa de retardatário. Saiu da linha de frente. Um projeto que melhore a cidade em quatro anos. Um plano que não seja igual ao de todo mundo. Uma ideia que valha ouro. Um programa que não seja apenas para iludir a audiência. Uma meta que leve e mantenha o candidato no alto do pódio.

Agora, candidatos, é tudo com vocês.

Apresentem algo que preste, por favor!
--------------------
* Jornalista. Sociólogo. Escritor.
Fonte: 
Imagem da Internet http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/2016/08/8973/da-olimpiada-as-eleicoes-e-agora/

CORTELLA: “Não se pode confundir informação com conhecimento”

Resultado de imagem para MARIO SERGIO CORTELLA

ENTREVISTA | MARIO SERGIO CORTELLA - Filósofo e escritor

Não muito tempo atrás, sair de casa todos os dias para enfrentar longas horas de trabalho era uma tarefa motivada essencialmente, quando não exclusivamente, pelo dinheiro que cairia na conta no fim do mês. A vida parecia ser menos complexa – e ter um emprego era sinônimo de garantir recursos para sustentar uma família e construir um patrimônio que pudesse ser deixado de herança.

Pode ser que, à mente de muitos, ainda seja este o pensamento que vem quando chega a segunda-feira e mais uma semana se inicia. Para o filósofo e escritor Mario Sergio Cortella, no entanto, esta visão sobre o trabalho faz cada vez menos sentido. No livro “Por que fazemos o que fazemos?”, lançado em julho, o especialista em educação afirma que os profissionais que hoje ocupam postos em diversas áreas estão mais do que nunca questionando os seus propósitos: eles querem reconhecer o esforço diário como útil e, mais, serem valorizados por ele. O que está em jogo é a realização, sobretudo para os jovens que chegam agora ao mercado de trabalho – aos quais Cortella deixa uma alfinetada:

– A nova geração é mal- educada. Está acostumada a ser quem subordina os adultos em casa.

No início deste mês, Cortella esteve em Porto Alegre para lançar o livro e falar sobre gestão do conhecimento em tempos de excesso de informação, em palestra realizada no Colégio Farroupilha, onde recebeu Zero Hora.

O senhor fala que a gestão do conhecimento é um desafio urgente. Por quê?

Muita gente diz que estamos vivendo a era do conhecimento, quando na verdade estamos vivendo a era da informação veloz. O conhecimento sempre existiu. Se não fosse assim, não estaríamos vivos. O ser humano é um ser que conhece, não nasce pronto. Quando falamos sobre a questão da gestão do conhecimento, hoje, estamos diante de um desafio urgente para que a gente não caia em uma armadilha. Primeiro, não se pode confundir informação com conhecimento. Informação é cumulativo, conhecimento é seletivo. O conhecimento vem quando damos à informação uma objetividade relacionada ao interesse, que é de cada um. Só que nossos alunos são do século 21, nossos professores são do século 20, e uma parte da metodologia é do século 19. Temos, portanto, uma colisão intersecular que precisa ser ultrapassada, na medida em que nos preparamos melhor, utilizando o mundo que está à nossa volta, mas sem se subordinar a ele. O conhecimento sempre esteve na história humana. A diferença agora é que a gente tem uma fartura de informação para fazer com que ele possa ir a tona como deve vir.

O seu novo livro trata das aflições comuns em relação ao trabalho, à carreira e às expectativas que temos para a vida. Quais são estas aflições?

A primeira delas, que acaba englobando quase todas as outras, tem a ver com o fato de as pessoas viverem com pressa em relação às nossas próprias coisas. Elas perderam um pouco da referência em relação ao sentido daquilo que fazem. É preciso ter uma vida que não seja automática, robótica, que não seja banal. É preciso que a gente, vez ou outra, não entre em angústia ao se perguntar “por que estou fazendo isso?” ou “onde estou com a cabeça?” ou sentenciar “se eu pudesse, eu largava tudo”. Estas expressões são sintomas de uma doença, que não é a depressão, enquanto patologia, mas uma certa desorientação em relação ao sentido daquilo que faz. Esta aflição é fortíssima. As pessoas dizem muito hoje: “Um dia vou ser feliz”. Como se isso se situasse no futuro e não fosse uma condição que pudesse ser vivenciada no tempo presente, em meio às turbulências que nós temos. Esta é uma aflição grande. A outra (aflição) é a ausência de reconhecimento que existe em muitos locais de trabalho. Como cada vez mais trabalhamos em grandes grupos, coletivamente, a autoria, a capacidade da “mão do artista”, fica muito diluída. A minha marca como jornalista, como gestor, como funcionário, desaparece, se dilui. As pessoas vêm se sentido um pouco, e com toda a razão, desprestigiadas.

Se hoje buscamos mais o reconhecimento e questionamos mais nossas posições e o que fazemos, não é porque temos mais opções? Porque podemos escolher o que fazer e corrigir escolhas erradas?

O nosso país ganhou muita condição econômica nos últimos 50 anos. Nós nos tornamos um país muito mais rico. Éramos a 35ª nação do planeta em termos de economia no início dos anos 1960, e agora somos a sétima. Isso significa que a economia dá uma condição melhor do que existia antes. Isso tem influência direta na formação das crianças. Mas tem um outro lado. Os pais, em nome da capacidade de proteção acabam desprotegendo e enfraquecendo seus filhos. É curioso quando os pais falam “poxa, eu não quero que meu filho passe pelo o que eu passei”. Eu fico imaginando: o que esse pai e essa mãe passaram? Tiveram de fazer comida? Limpar a casa? Cortar lenha, como foi o meu caso? Qual é o nível de sofrimento destas tarefas? Ao meu ver, pelo contrário, elas faziam parte da partilha de tarefas de casa. Hoje não mais. Durante muito tempo a geração adulta cuidava de si mesma e dos filhos. Quando os filhos cresciam, os pais diziam: “Bom, agora você vai e cuida da sua vida”. A atual geração de adultos cuida de si mesma. Se tiver filhos, cuida dos filhos. Às vezes, cuida também dos pais, com plano de saúde, atendimento. E, eventualmente, no caso de alguns, até dos netos. A atual geração que tem entre 35 e 40 anos cuida de três gerações. Ela está estafada, cansada, vive em estado de sonolência e deseja, de maneira repetida, libertar-se disso. Só há uma maneira de fazer isso: a procura contínua pela partilha das tarefas. Neste sentido, a educação escolar é uma parte que ajuda nesta questão. Mas ela depende também do coletivo, não apenas da escola. As novas gerações não podem crescer como adultos em férias, que vão ao cinema, passeiam, comem foram... Só não trabalham. Essa condição é malévola. Pode ser até gostoso poder oferecer isso aos filhos, em determinado momento, mas produz um enfraquecimento da capacidade do esforço mais adiante. Portanto, não é fazer os filhos sofrer, mas viver de uma maneira mais partilhada o desgaste e o esforço.

Recentemente, em uma entrevista, o senhor disse que os jovens estão chegando ao mercado de trabalho altamente competentes, porém mal-educados.

A nova geração não tem problema de formação. Ela é ligada à conectividade. Tem um nível de escolaridade que, mesmo que fragilizado, ainda consegue ser ultrapassado. Mas ela chega mal-educada no mundo do trabalho, sem percepção de hierarquia. Ela está acostumada a ser quem subordina os adultos em casa, tanto que há pais e mães que vivem em função dos filhos. Ao mesmo tempo, esta geração não tem necessariamente compromisso com meta e prazo. Abandona coisas com muita facilidade. É muito comum ouvir falar hoje de jovem que começa uma faculdade e passa para outra. Ele descobre que não é o que quer, aí vai estudar mecânica, depois vai para a metalurgia, e passa para a alta gastronomia. Isso não é excesso de opção, isso é confusão mental. É ausência de clareza de onde se quer chegar. E esta mesma geração é absolutamente rica e exuberante naquilo que consegue, que é a criatividade. Se você observar as startups, são inéditas. Mas de quem são? Daqueles que vão fazer um esforço. As coisas não são automáticas, elas não acontecem sozinhas. Há um esforço imenso a ser feito para que as coisas tenham concretização. E a gente observa que o jovem muitas vezes chega até uma nova empresa e supõe que a chefia dele é como um pai e uma mãe, que tem que resolver as coisas para ele. Há pais e mães que saem pelo caminho colocando almofadas para que, a cada tropeço, o filho caia em um lugar macio. Há uma diferença entre proteção e desqualificação. Por isso há uma expressão que precisa ser lembrada: o amor verdadeiro é aquele que não aceita tudo. A frase “o amor aceita tudo” é absolutamente acovardada. Não podemos deixar de modo algum que esta nova geração acredite em uma coisa, que é muito perigosa para a vida coletiva: confundir desejos com direitos.

Até que ponto o mercado de trabalho não tem uma dinâmica obsoleta, ultrapassada para as relações atuais?

Sim, claro. Imagine que a tecnologia nos últimos 20 anos se alterou com uma velocidade imensa, e o mundo do trabalho acompanhou no campo da mecânica, mas não acompanhou no campo dos processos formativos. A internet está fazendo 20 anos. É algo de agora. Não deu tempo para o mundo do trabalho mudar muito, exceto aquelas empresas que atuam no campo do mundo digital. Se você observar, as grandes empresas desta área ligada à internet tentaram a formação diferenciada e elas agregam o jovem que terá de ser disciplinado de outro modo. Embora ele possa trabalhar descalço, ir de bicicleta, levar o cachorro para dentro da empresa, como acontece em várias delas, ele ainda tem compromisso com o grupo, ele precisa se esforçar para que aquilo aconteça. Ele precisa ser disciplinado para entender que o trabalho não é algo que ele senta na cadeira e, de maneira misteriosa, a fada do dente vem e entrega tudo pronto, como um presente.

Como o senhor imagina o cenário futuro, quando a maior parte dos cargos de trabalho, políticos e posições sociais importantes será ocupada pela geração dos atuais jovens?

Haverá um choque de realidades muito forte. Afinal de contas, aquilo que é um grande segredo hoje, do mundo das organizações, é a convivência intergeracional. Por exemplo, um jovem tem percepção de senso de urgência, instantaneidade, mobilidade, conectividade. Mas ele não tem paciência, não tem percepção estratégica. Isso significa que ele tem algumas coisas que são vantajosas, e outras que não. A nova geração não é um encargo. Assim como a anterior, ela é um patrimônio, desde que a gente junte as forças. Por isso, haverá um momento em que esta nova geração, ao galgar alguns dos cargos, ela precisará ter sido formada para fazer algo que não seja um desastre. Afinal, pessoas com mais idade já fizeram muitos desastres, muitas empresas quebraram nos últimos 30, 40 anos. Só não podemos esquecer que a história humana é marcada também por gente muito jovem fazendo muita coisa. Dom Pedro tinha 22 anos quando proclamou a independência. Jesus começou a encantar pessoas com 30 anos. Charles Darwin tinha 19 anos quando foi até a Patagônia. Existe uma presença do mundo jovem muito forte que se ausentou em grande medida no século 20, porque uma parte dos jovens do mundo ocidental morreu nas guerras. Na primeira, 9 milhões de pessoas, na segunda, 55 milhões – e boa parte delas eram jovens entregues ao mundo para a morte. Não é fora de propósito que a geração pós-guerra tenha se dedicado à dança, ao rock, à música, ao fluir da vida. Fazia parte de um impulso movido pelo pós-guerra, em uma sociedade que se amargurou por ter mandado os filhos para morrer nos campos de batalha. E, a partir daí, passaram a deixá-los mais livres. Isso não vale hoje, não estamos mais vivendo em 1946.
------------------------
bruna.scirea@zerohora.com.br
REPORTAGEM POR BRUNA SCIREA
FONTE:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a7328251.xml&template=3898.dwt&edition=29585&section=3593

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A origem da ansiedade: psicológica ou fisiológica?

PAULA CAROLINA CARDOSO BRENNEISEN*
 Resultado de imagem para ansiedade

A ansiedade é ubíqua à condição humana e está presente atualmente dentro do contexto das pressões, demandas e estresses flutuante do cotidiano humano. É um sentimento como outro qualquer que se apresenta em diferentes escalas, pode ser considerada saudável em condições normais. No entanto em escalas maiores pode ser extremamente prejudicial tanto para a saúde mental do indivíduo quanto para a física devido aos seus vários sintomas (RANGÉ, 2005). Mas, então, o que é afinal ansiedade? Como ocorre a exacerbação desse sentimento? Tem causa fisiológica e, portanto, tratável com medicamentos, ou psicológica e tratável com psicoterapia? Essas e outras perguntas serão respondidas ao longo do texto.

Para o Nacional Institute of Mental Health (NIMH, 2001), 19 milhões de adultos norte-americanos apresentando um transtorno de ansiedade, estima-se que 20% a 30% da população mundial venha a desenvolver transtornos relacionados pelo menos uma vez na vida sendo que a prevalência é em mulheres, portanto é um assunto de muita relevância para estudos. Os medicamentos utilizados para o tratamento desses transtornos são da classe antidepressivos e estabilizadores do humor e são a terceira classe de remédios mais prescrita no mundo, movimentando mais de 19,5 bilhões de dólares por ano. Os transtornos de ansiedade são a forma mais prevalente dentre os distúrbios de ordem psicológica, a Organização Mundial da Saúde Mental (OMS, 2004) constatou que é o transtorno mais comum em todos os países, exceto na Ucrânia e China. Portanto, milhões de pessoas no mundo inteiro travam uma batalha diária contra a ansiedade clínica e é um assunto de grande importância (CLARCK E BECK, 2012).

A natureza emocional humana faz parte do psicológico em que, no modelo cognitivo-comportamental, a emoção precursora da ansiedade é o medo, o qual surge como uma resposta adaptativa e saudável a situações de ameaça à integridade física do sujeito, garantindo a segurança e sobrevivência dele. O medo é importante, presente em todos os seres normais e saudáveis. No entanto, esse sentimento pode ser mal adaptativo quando ocorre em uma situação não ameaçadora que é interpretada de maneira errada como perigosa. São essas situações geradoras de estresse como trabalho, estudos, falar em público, entre outras que não põem a vida da pessoa em risco, mas capazes de gerar ansiedade em demasia. Já os sintomas fisiológicos posteriores à percepção de situação ameaçadora provocam ativação do sistema nervoso simpático e parassimpático, que geram hiperexcitação como a constrição dos vasos sanguíneos, tônus aumentado dos músculos, frequência e contração cardíaca aumentadas, dilatação dos pulmões, dilatação das pupilas, cessação na atividade digestiva, aumento no metabolismo basal e secreção aumentada de epinefrina e norepinefrina no cérebro, ou seja, prepara o indivíduo para fugir, lutar ou congelar (BRADLEY, 2000). No entanto as situações que causam ansiedade na contemporaneidade não representam real risco de vida, todas as reações fisiológicas terminam por inutilmente prejudicar o funcionamento do organismo.

Nesse sentido, a ansiedade pode ser considerada uma resposta emocional provocada pelo medo, se constituindo do estado desagradável evocado quando o medo é estimulado com uma série de sintomas fisiológicos que surgem por consequência desse estado emocional, e não como causa. A ansiedade num estado mais permanente de ameaça ou apreensão ansiosa que inclui outros fatores cognitivos denominados de crenças, como a incontrolabilidade, incerteza, vulnerabilidade, desamparo, e incapacidade (RANGÉ, 2005). Partindo do pressuposto de que um sujeito apenas avalia uma situação não ameaçadora como uma ameaça real quando possui algumas crenças disfuncionais, elas se tornam fundamentais para diagnóstico dos transtornos, como exemplo dessas: acreditar que o futuro é incontrolável e o pior pode acontecer, ou não ser capaz de encontrar respostas adequadas para seus problemas cotidianos, ainda se considerar despreparado para lidar com qualquer situação se tornando vulnerável. Nesse sentido sujeitos psicologicamente amparados, seguros e saudáveis geralmente tem mais capacidade de lidar com adversidades da vida sem sentirem-se demasiadamente ansiosos, sendo considerados mais preparados, maduros, seguros, emocionalmente estáveis, independentes e até mesmo mais confiáveis pelas pessoas.

É importante separar o que é normal de todos os seres humanos do que não é. Se livrar totalmente do sentimento de ansiedade é tarefa impossível já que é inerente a uma emoção tão rudimentar dos seres vivos que é o medo. No entanto, pode-se tratar sua exacerbação que prejudica a qualidade de vida bem como a saúde psicológica das pessoas. Segundo Clark e Beck (2012), para que a ansiedade seja considerada clínica se faz necessário imprescindivelmente a presença de cinco critérios de ordem estritamente psicológica, o que sugere que os sintomas físicos não especialmente definem o diagnóstico. Dentre eles estão a cognição disfuncional, ou seja presença das crenças disfuncionais citadas anteriormente; funcionamento prejudicado em que a vida do sujeito está claramente afetada de maneira negativa pelas ameaças irreais percebidas; a clara manutenção que o sujeito faz para a permeação da ansiedade como antecipação da ameaça que pode ser constatada diariamente, presença dos chamados alarmes falsos (pânico ou medo excessivo sem qualquer presença de estímulo, o estado ocorre sem nenhum evento causal e a pessoa pode ficar sob constante alerta), e, por fim, a hipersensibilidade a estímulo. A última diz respeito às situações irreais consideradas ameaçadoras que geram excesso de sentimentos negativos: pessoas com aversão à andar de elevador, por exemplo, têm respostas fisiológicas e alteração emocional apenas em pensar sobre o assunto.

Portanto, a ansiedade é de causa psicológica que possui efeitos tanto mentais como físicos como resposta a uma avaliação de perigo eminente, provavelmente por uma crença individual de impotência para lidar com os problemas adversos e também de vulnerabilidade generalizada. A ansiedade está presente em todos os indivíduos e é importante para a sobrevivência em situações de perigo real, mas que exacerbada pode gerar prejuízos inicialmente psicológicos e posteriormente físicos, devendo ser tratada com psicoterapia e, em casos mais graves, como é o caso de transtornos diagnosticados por profissionais competentes, tratados também com o auxílio de medicamentos prescritos por psiquiatras.

BIBLIOGRAFIA
ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSICOLOGIA (APA). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5ªed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
BRADLEY, S.J. Affect regulation and the development of psychopathology. Nova York: Guilford Press, 2000.
CLARK, D. A. e BECK, A. T. Terapia Cognitiva para os Transtornos de Ansiedade. Porto Alegre: Artmed, 2012.
NATIONAL INSTITUTE OF MENTAL HEALTH (NIMH). The numbers cont: Mentals disorders in America, 2001.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Conferência internacional sobre cuidados primários de saúde (declaração de alma-ata, 1978). Brasília: Ministério da Saúde, 2004.
RANGÉ, B. Terapias cognitivo-comportamentais: um diálogo com a Psiquiatria. Porto Alegre: Artmed, 2005.
-----------------
 * PAULA CAROLINA CARDOSO BRENNEISEN é Psicóloga Clínica Especialista em Terapia Cognitivo-comportamental pela UNIFIA – SP. CRP: 12/15040. E-mail: paulabrenneisen@gmail.com Facebook: https://www.facebook.com
Fonte:  https://espacoacademico.wordpress.com/2016/08/22/a-origem-da-ansiedade-psicologica-ou-fisiologica/
Imagem da Internet

Dowbor: Crônica em meio à grande crise global

Ladislau Dowbor*

160823-Banksy
Saídas para evitar um colapso civilizatório são evidentes – mas nunca estiveram tão bloqueadas. 
A questão crucial: teremos tempo para chegar a um Plano B?

Difícil deixar de pensar que estamos vivendo num circo gigante. Quando sentamos no sofá depois de um dia bizarro de trabalho e horas de transporte, as novelas surreais na TV nos dão uma visão geral do jogo global: tantas bombas sobre a Síria, mais refugiados nas fronteiras, os problemas das grandes finanças, os últimos gols de Neimar. Ah sim, e quem, depois da Hungria, a Grécia, a Polônia e o Reino Unido está ameaçando deixar a União Europeia em nome de ideais nacionais superiores.

É um jogo e tanto. Relatórios do Crédit Suisse e da Oxfam mostram a grande divisão entre os donos do jogo e os espectadores: 62 bilionários têm mais riqueza do que os 50% mais pobres da população mundial. Eles produziram tudo isso? Evidentemente, tudo depende de que papel você desempenha no jogo. Em São Paulo, os muito ricos que habitam o condomínio de Alphaville estão murados em segurança, enquanto os pobres que vivem na vizinhança se autodenominam Alphavella. Alguém precisa cortar a grama e entregar as compras.

De acordo com o relatório global da WWF sobre a destruição da vida selvagem, 52% das populações de animais não-domesticados desapareceram, durante os 40 anos que vão de 1970 a 2010. Muitas fontes de água estão contaminadas ou secando. Os oceanos estão gritando por socorro, o ar condicionado prospera. As florestas estão sendo derrubadas na Indonésia, que substituiu a Amazônia como a região número um do mundo em desmatamento. A Europa precisa ter energia renovável, de carne barata e da beleza do mogno.

A Rede de Justiça Fiscal revelou que cerca de 30 trilhões de dólares – comparados a um PIB mundial de US$ 73 trilhões – eram mantidos em paraísos fiscais em 2012. O Banco de Compensações Internacionais da Basileia mostra que o mercado de derivativos, o sistema especulativo das principais commodities, alcançou 630 trilhões de dólares, gerando o efeito iôiô nos preços das matérias-primas econômicas básicas. O maior jogo do planeta envolve grãos, minerais ferrosos e não ferrosos, energia. Essas commodities estão nas mãos de 16 corporações basicamente, a maior parte delas sediadas em Genebra, como revelou Jean Ziegler em “A Suiça lava mais branco”. Não há árbitro neste jogo, estamos num ambiente vigiado. Os franceses têm uma excelente descrição para os nossos tempos: vivemos une époque formidable!

Fizemos um trabalho perfeito em 2015: a avaliação global sobre como financiar o desenvolvimento em Adis Abeba, as metas do desenvolvimento sustentável para 2030 em Nova York e a cúpula sobre mudanças climáticas em Paris. Os desafios, soluções e custos foram claramente expostos. Nossa equação global é suficientemente simples para ser executada: os trilhões em especulação financeira precisam ser redirecionados para financiar inclusão social e para promover a mudança de paradigma tecnológico que nos permitirá salvar o planeta. E a nós mesmos, claro.

Mas são os lobos de Wall Street que traçaram o código moral para este esporte: Ganância é Ótima!

Afogando em números

Estamos nos afogando em estatísticas. O Banco Mundial sugere que deveríamos fazer algo a respeito dos news four biliion – referindo-se aos quatro bilhões de seres humanos “que não têm acesso aos benefícios da globalização” – uma hábil referência aos pobres. Temos também os bilhões que vivem com menos de 1,25 dólar por dia. A FAO nos mostra em detalhes onde estão localizadas as 800 milhões de pessoas famintas do mundo. A Unicef conta aproximadamente 5 milhões de crianças que morrem anualmente em razão do acesso insuficiente a comida e água limpa. Isso significa quatro World Trade Centers por dia, mas elas morrem silenciosamente em lugares pobres, e seus pais são desvalidos.

As coisas estão melhorando, com certeza, mas o problema é que temos 80 milhões de pessoas a mais todo ano – a população do Egito, aproximadamente – e este número está crescendo. Um lembrete ajuda, pois ninguém entende de fato o que significa um bilhão: quando meu pai nasceu, em 1900, éramos 1,5 bilhão; agora somos 7,2 bilhões. Não falo da história antiga, falo do meu pai. E já que não é da nossa experiência diária entender o que é um bilionário, vai aqui uma nova imagem: se você investe um bilhão de dólares em algum fundo que paga miseráveis 5% de juros ao ano, ganha 137.000 dólares por dia. Não há como gastar isso, então você alimenta mais circuitos financeiros, tornando-se ainda mais fabulosamente rico e alimentando mais operadores financeiros.

Investir em produtos financeiros paga mais do que investir na produção de bens e serviços – como fizeram os bons, velhos e úteis capitalistas – de modo que não tem como o acesso ao dinheiro ficar estável, muito menos gotejar para baixo. O dinheiro é naturalmente atraído para onde ele mais se multiplica, é parte da sua natureza, e da natureza dos bancos. Dinheiro nas mãos da base da pirâmide gera consumo, investimento produtivo, produtos e empregos. Dinheiro no topo gera fabulosos ricos degenerados que comprarão clubes de futebol, antes de finalmente pensar na velhice e fundar uma ONG – por via das dúvidas.

Um suborno global

Muita gente percebe que as regras do jogo são manipuladas. Os tempos são de fraude global, quando pessoas fabulosamente ricas doam a políticos e promovem a aprovação de leis para acomodar suas crescentes necessidades, fazendo da especulação, da evasão fiscal e da instabilidade geral um processo estrutural e legal. Lester Brown fez suas somatórias ambientais e escreveu Plano B [“Plan B”], mostrando claramente que o atual Plano A está morto. Gus Speth, Gar Alperovitz, Jeffrey Sachs e muitos outros estão trabalhando no Próximo Sistema [“Next System”], mostrando, implicitamente, que nosso sistema foi além de seus próprios limites.

Joseph Stiglitz e um punhado de economistas lançaram Uma Agenda para a Prosperidade Compartilhada, rejeitando “os velhos modelos econômicos”. De acordo com sua visão, “igualdade e desempenho econômico constituem na realidade forças complementares, e não opostas”. A França criou seu movimento de Alternativas Econômicas; temos a Fundação da Nova Economia no Reino Unido; e estudantes da economia tradicional estão boicotando seus estudos em Harvard e outras universidades de elite. Mehr licht! [Mais luz!]

E os pobres estão claramente fartos desse jogo. Sobram muito poucos camponeses isolados e ignorantes prontos a se satisfazer com sua parte, seja ela qual for. As pessoas pobres de todo o mundo estão crescentemente conscientes de que poderiam ter uma boa escola para seus filhos e um hospital decente onde pudessem nascer. E além disso veem na TV como tudo pode funcionar: 97% das donas de casa brasileiras têm aparelho de TV, mesmo quando não têm saneamento básico decente.

Como podemos esperar ter paz em torno do lago que alguns chamam de Mediterrâneo, se 70% dos empregos são informais e o desemprego da juventude está acima de 40%? E eles estão assistindo na TV o lazer e a prosperidade existentes logo ali, cruzando o mar, em Nice? A Europa bombardeia-os com estilos de vida que estão fora do seu alcance econômico. Nada disso faz sentido e, num planeta que encolhe, é explosivo. Estamos condenados a viver juntos, o mundo é plano, os desafios estão colocados para todos nós, e a iniciativa deve vir dos mais prósperos. E, felizmente, os pobres não são mais quem eram.

Cultura e convivialidade

Sempre tive uma visão muito mais ampla de cultura do que o tradicional “Ach! disse Bach”. Penso que ela inclui desfrutar de alegria com os outros, enquanto se constrói ou se escreve alguma coisa, ou simplesmente se brinca por aí. Convivialidade. Recentemente passei algum tempo em Varsóvia. Nos fins de semana de verão, os parques e praças ficavam cheios de gente e havia atividades culturais para todo lado.

Ao ar livre, com um monte de gente sentada no chão ou em simples cadeiras de plástico, uma trupe de teatro fazia uma paródia do modo como tratamos os idosos. Pouco dinheiro, muita diversão. Logo adiante, em outras partes do parque Lazienki, vários grupos tocavam jazz ou música clássica, e as pessoas estavam sentadas na grama ou assentos improvisados, as crianças brincando por perto.

No Brasil, com Gilberto Gil no ministério da Cultura, foi criada uma nova política, os Pontos de Cultura. Isso significou que qualquer grupo de jovens que desejassem formar uma banda poderiam solicitar apoio, receber instrumentos musicais ou o que fosse necessário, e organizar shows ou produzir online. Milhares de grupos surgiram – estimular a criatividade requer não mais que um pequeno empurrão, parece que os jovens trazem isso na própria pele.

A política foi fortemente atacada pela indústria da música, sob o argumento de que estávamos tirando o pão da boca de artistas profissionais. Eles não querem cultura, querem indústria de entretenimento, e negócios. Por sorte, isso está vindo abaixo. Ou pelo menos a vida cultural está florescendo novamente. Os negócios têm uma capacidade impressionante para ser estraga-prazeres.

O carnaval de 2016 em São Paulo foi incrível. Fechando o círculo, o carnaval de rua e a criatividade improvisada estão de volta às ruas, depois de ter sido domados e disciplinados, encarecidos pela comunicação magnata da Rede Globo. As pessoas saíram improvisando centenas de eventos pela cidade, era de novo um caos popular, como nunca deixou de ser em Salvador, Recife e outras regiões mais pobres do país. O entretenimento do carnaval está lá, é claro, e os turistas pagam para sentar e assistir ao show rico e deslumbrante, mas a verdadeira brincadeira está em outro lugar, onde o direito de todo mundo dançar e cantar foi novamente conquistado.

Um caso de consumo

Eu costumava jogar futebol bastante bem, e ia com meu pai ver o Corinthians jogar no tradicional estádio do Pacaembu, em São Paulo. Momentos mágicos, memórias para a vida inteira. Mas principalmente brincávamos entre nós, onde e quando podíamos, com bolas improvisadas ou reais. Isso não é nostalgia dos velhos e bons tempos, mas um sentimento confuso de que quando o esporte foi reduzido a ver grandes caras fazendo grandes coisas na TV, enquanto a gente mastiga alguma coisa e bebe uma cerveja, não é o esporte – mas a cultura no seu sentido mais amplo – que se transformou numa questão de produção e consumo, não em alguma coisa que nós próprios criamos.

Em Toronto, fiquei pasmo ao ver tanta gente brincando em tantos lugares, crianças e gente idosa, porque espaços públicos ao ar livre podem ser encontrados em todo canto. Aparentemente, por certo nos esportes, eles sobrevivem divertindo-se juntos. Mas isso não é o mainstream, obviamente. A indústria de entretenimento penetrou em cada moradia do mundo, em todo computador, todo telefone celular, sala de espera, ônibus. Somos um terminal, um nó na extensão de uma espécie de estranho e gigante bate-papo global.

Esse bate-papo global, com evidentes exceções, é financiado pela publicidade. A enorme indústria de publicidade é por sua vez financiada por uma meia dúzia de corporações gigantes cuja estratégia de sobrevivência e expansão é baseada na transformação das pessoas em consumidores. O sistema funciona porque adotamos, docilmente, comportamentos consumistas obsessivos, ao invés de fazer música, pintar uma paisagem, cantar com um grupo de amigos, jogar futebol ou nadar numa piscina com nossas crianças.

Um punhado de otários consumistas

Que monte de idiotas consumistas nós somos, com nossos apartamentos de dois ou três quartos, sofá, TV, computador e telefone celular, assistindo o que outras pessoas fazem.

Quem precisa de uma família? No Brasil o casamento dura 14 anos e está diminuindo, nossa média é de 3,1 pessoas por moradia. A Europa está na frente de nós, 2,4 por casa. Nos EUA apenas 25% das moradias têm um casal com crianças. O mesmo na Suécia. A obesidade está prosperando, graças ao sofá, a geladeira, o aparelho de TV e as guloseimas. Prosperam também as cirurgias infantis de obesidade, um tributo ao consumismo. E você pode comprar um relógio de pulso que pode dizer quão rápido seu coração está batendo depois de andar dois quarteirões. E uma mensagem já foi enviada ao seu médico.

O que tudo isso significa? Entendo cultura como a maneira pela qual organizamos nossas vidas. Família, trabalho, esportes, música, dança, tudo o que torna minha vida digna de ser vivida. Leio livros, e tiro um cochilo depois do almoço, como todo ser humano deveria fazer. Todos os mamíferos dormem depois de comer, somos os únicos ridículos bípedes que correm para o trabalho. Claro, há esse terrível negócio do PIB. Todas as coisas prazerosas que mencionei não aumentam o PIB – muito menos minha sesta na rede. Elas apenas melhoram nossa qualidade de vida. E o PIB é tão importante que o Reino Unido incluiu estimativas sobre prostituição e venda de drogas para aumentar as taxas de crescimento. Considerando o tipo de vida que estamos construindo, eles talvez estejam certos.

Necessitamos de um choque de realidade. A desventura da terra não vai desaparecer, levantar paredes e cercas não vai resolver nada, o desastre climático não vai ser interrompido (a não ser se alterarmos nosso mix de tecnologia e energia), o dinheiro não vai fluir aonde deveria (a não ser que o regulemos), as pessoas não criarão uma força política forte o suficiente para apoiar as mudanças necessárias (a não ser que estejam efetivamente informadas sobre nossos desafios estruturais). Enquanto isso, as Olimpíadas e MSN (Messi, Suarez, Neymar para os analfabetos) nos mantêm ocupados em nossos sofás. Como ficará, com toda a franqueza, o autor destas linhas. Sursum corda.
-----------------------
 * Ladislau Dowbor é professor de economia nas pós-graduações em economia e em administração da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), e consultor de várias agências das Nações Unidas. Seus artigos estão disponíveis online em http://dowbor.org
Tradução: Inês Castilho | Imagem: Banksy
Fonte:  http://outraspalavras.net/capa/cronica-em-meio-a-grande-crise-global/