quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

PARIS e a ALIANÇA

Gilles Lapouge*
ctv-2sx-otan-2019

Líderes dos países membros da OTAN junto à Rainha Elisabeth e o Príncipe de Gales para o encontro de 2019 da cúpula em Londres Foto: Yui Mok/Pool via The New York Times

A celebração dos 70 anos da Otan nada tem de gloriosa; não só não trouxe paz e felicidade ao mundo, como os confrontos causaram estragos no interior da própria aliança

A Otan (Organização Tratado do Atlântico Norte) está reunindo todos seus membros em Londres para o 70.º aniversário da aliança atlântica. Quando a Guerra Fria terminou, o filósofo da Casa Branca, Francis Fukuyama, anunciou que o mundo entrava em uma nova era profetizada no século 19 pelo filósofo Friedrich Hegel: o “fim da História”. Estava aberto o caminho para que desabrochassem a democracia, a paz universal e as sociedades liberais. Sem mais tensões e fúria, sem mais guerras. 

No lugar disso, a felicidade. Naquele dia, porém, Fukuyama, que é um bom filósofo, teria feito melhor se ficasse calado. Desde 1990, ou seja, desde “o fim da História”, as guerras, as revoluções, os golpes, as microtiranias, tumultos, intolerâncias, o caos, as ansiedades, a miséria, longe de desaparecer, prosperaram. Europa, África, Ásia, América continuam lindos, mas cheios de bestas ferozes. A tal ponto que um humorista pôde escrever: “Dê-nos a nossa velha Guerra Fria, pois ela deu fim às pequenas guerras quentes.” 

A celebração dos 70 anos da Otan nada tem de gloriosa. Não só não trouxe paz e felicidade ao mundo, como os confrontos causaram estragos no interior da própria aliança. A Turquia é um membro essencial, um país poderoso, dotado de formidável Exército e ocupa um centro nevrálgico na transição entre Europa e Ásia. Mas o presidente Recep Erdogan decidiu, sem avisar a Otan, atacar os curdos que haviam lutado ao lado da aliança na longa guerra contra o Estado Islâmico. Emmanuel Macron criticou e Erdogan respondeu com desprezo: “Macron é um amador”, disse o turco. 

É claro que Macron estava certo, mas ele respondeu com virulência desnecessária. Esse é o “pecado venial” de Macron. Suas análises são sólidas e razoáveis. Mas ele as expressa sem tato, tentando atingir o outro. Dia desses, Macron se voltou contra a Otan. Aqui também, seu diagnóstico estava correto. Mas ele achou inteligente expressá-lo com uma fórmula insultuosa. “A Otan está em estado de morte cerebral.” A fraqueza de Macron está aí: o diagnóstico é exato, mas é expresso com uma violência não apropriada entre países amigos. 

A Otan desempenhou um papel benéfico na proteção dos países da Europa contra os desejos predatórios da URSS. Então, começou a declinar ou até cometer grandes erros, por exemplo, a guerra estúpida contra a Líbia, de Muammar Kadafi, ditador, mas que protegia o Ocidente do maléfico avanço do jihadismo. Hoje, é toda a África que se confronta com o horror extremista. A Otan está inerte e muda.  

Apenas os soldados franceses tentam impedir que a região do Sahel se torne, após o fim do EI no Iraque e na Síria, um novo refúgio para assassinos. Macron analisou bem. Mas sua voz não se impõe tanto quanto há um ano. Se alguém fizer um balanço de sua ação em política externa, é obrigado constatar um fracasso. Ele havia iniciado seu mandato, há dois anos, com um hino à concórdia, à união, e com a meta de ouvir os outros. Ele não obedeceu a tais resoluções. Arruinou grandes oportunidades. 

Ele contava com Angela Merkel para revitalizar a União Europeia, que precisa urgentemente disso. Mas suas vaidades caíram sob a austera chanceler alemã. Renovar a UE graças à amizade franco-alemã, meta tão querida de Macron, não está mais na agenda. Merkel não perde uma oportunidade de contradizer o francês. 

Apesar de tantas falhas, Macron não se acalma. Ele tem outros projetos. Primeiro, gostaria que a Europa parasse de tratar Putin como uma vítima da peste. Mais uma vez, ele está certo. É estúpido demonizar Putin. Grande parte da opinião pública europeia compartilha dessa análise. Finalmente, Macron conseguirá moldar um grande projeto diplomático? Integrar a Rússia à esfera europeia, em vez de deixar Moscou se aproximar da Ásia? 

Novamente, o diagnóstico de Macron está correto. Mas será que ele conseguirá esquecer sua arrogância, seu hábito de distribuir aos outros “pontos positivos”, de nocautear seu público com discursos inteligentes, sutis, mas pedantes, pretensiosos e narcisistas? / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO
------------------ 
*É CORRESPONDENTE EM PARIS
FONTE:  https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,paris-e-a-alianca,70003112573 04/12/2019

Margaret O’Mara: “Não é possível escapar de Apple, Microsoft, Amazon, Google e Facebook”, diz autora do best-seller The C

A historiadora americana Margaret O’Mara, autora do livro The Code

Em entrevista ao NeoFeed, Margaret O’Mara, autora do livro “The Code”, que narra o processo da fundação do Vale do Silício, fala sobre inevitável regulação das Big Tech e da falta de diversidade nas empresas da região

Ela anseia o futuro justamente por entender o passado: a historiadora americana Margaret O’Mara investiu os últimos cinco anos de sua vida pesquisando sobre as raízes do Vale do Silício e acredita que a região mais tecnológica do mundo está à beira de um novo ponto de virada.

Explicando todos os seus argumentos em seu terceiro e mais recente livro publicado – “The Code” –, a autora prevê que as eleições presidenciais do ano que vem e as discussões sobre privacidade e antitruste tragam novos rumos para as empresas globais baseadas na Califórnia.

PhD em história pela Universidade da Pensilvânia, Margaret trabalhou na Casa Branca durante a gestão de Bill Clinton e, como professora, atuou em Stanford e na Universidade de Washington, onde ainda leciona.

Ela, que tem textos publicados no The New York Times, Los Angeles Times, The Washington Post, Newsweek e outros grandes veículos de mídia, conversou com exclusividade ao NeoFeed e falou sobre meritocracia, machismo e a política do Vale do Silício.
Veja, a seguir, a entrevista completa.

Você poderia contextualizar um pouco o seu novo livro The Code? Por que escrever sobre a história do Vale do Silício?
Meu interesse pela história da tecnologia não é novo e nem novidade. Pesquiso sobre o assunto há 20 anos e, talvez por isso, receba tantas perguntas sobre o tema. Comecei a notar, então, que certas questões se repetiam: é possível criar um novo Vale do Silício? Esse polo poderia ter surgido em outra região dos EUA? Perguntas interessantes para as quais eu não tinha ainda uma resposta. Foi esse o ponto de partida do livro, porque eu queria entender a “fórmula mágica” da região que abriga as cinco empresas das quais ninguém consegue escapar.

Ninguém consegue escapar…?
Não é possível escapar de Apple, Microsoft, Amazon, Google e Facebook. Você pode não ter uma conta na rede social, mas talvez use o WhatsApp. Ao pedir um Uber, por exemplo, você está utilizando o Amazon Web Service sem nem saber. Virtualmente, estamos todos consumindo e dependendo dessas empresas. E a história delas é também, de certa maneira, a história dos EUA. É preciso saber o que veio antes para explicar o agora e entender o que acontece depois.
“Quebrar as Big Tech, como propõem alguns, acho que não. Mas as regulamentações estão ganhando força em diferentes setores da sociedade”
Então antes de falar sobre o passado, uma pergunta sobre o futuro: o que vem pela frente no Vale do Silício?
Acho que estamos num ponto de virada. Se você observar o que tem acontecido em Washington, com as pautas de regulamentação, sabe que algo vai mudar. Quebrar as Big Tech, como propõem alguns, acho que não. Mas as regulamentações estão ganhando força em diferentes setores da sociedade. A Califórnia mesmo tem discutido sua legislação e, dependendo do que aconteça nos próximos anos, o cenário vai mudar completamente.

Pode ser o fim do Vale do Silício?
A indústria tecnológica cria a próxima geração de sucesso, numa espécie de “autorregeneração”. Se as investigações e pautas antitruste surtirem algum resultado mais austero, seja limitando as companhias ou suas ações, pode ser que tudo mude. Estou acompanhando o desenrolar dessa história com grande interesse.

Acha que pode existir uma outra região no mundo com esse mesmo potencial? O que aconteceu para que o Vale do Silício se tornasse o que é hoje?
Investimento e decisões. Depois da Segunda Guerra Mundial e Guerra Fria, lá por meados dos anos 1950, os Estados Unidos passaram, pela primeira vez, a investir fortemente em em engenharia e áreas afins. As universidades passaram a ter fundos e a educação superior se transformou.

Foi uma decisão de priorizar a educação, então?
Não foi algo assim tão nobre, porque o pano de fundo desses investimentos eram militares. O cenário geopolítico da época colaborou para isso. O governo passou a comprar e investir em computadores e em tecnologia, mas por motivações bélicas.
“A gente sabe, hoje, que essa hiperconexão tem seu preço, mas o otimismo da troca está nas raízes do Vale do Silício”
E quando foi que isso mudou?
Em 1960, esses jovens escolarizados, passaram a questionar a posse da tecnologia por parte do governo. Todo acesso passava, de alguma maneira, pelo controle estatal. Ali começou a ideia do computador pessoal como uma forma de revolução social, para que as pessoas pudessem conversar umas com as outras sem interferência do Estado. A gente sabe, hoje, que essa hiperconexão tem seu preço, mas o otimismo da troca está nas raízes do Vale do Silício.

Mas o Vale do Silício não poderia ter surgido em outro lugar dos EUA, talvez um mais perto da capital?
Eu acredito que não, porque a Califórnia era o Estado que mais recebia dinheiro do fundo militar e soube investir bem em educação, construção e estrutura. Prédios, rodovias, cabeamento… tudo isso conta. Além disso, a Califórnia era o único Estado americano a permitir que um funcionário aceitasse imediatamente uma oferta na empresa concorrente sem que sua migração fosse passível de processo. Isso permitiu um fluxo de talentos inédito e, no final das contas, os profissionais são os maiores e mais caros recursos de uma companhia. Também é preciso destacar que o clima da Califórnia colaborou para o sucesso da região, bem como a universidade de Stanford, que sempre foi um hub para a indústria eletrônica.

Teve alguma descoberta que a surpreendeu ao longo da pesquisa para o livro?
Acho que muita gente pensa em concorrência, quando eu descobri mais cooperação. Quando falamos do Vale do Silício, podemos pensar que cidades como Boston e Seattle competiam pelo posto de pólo tecnológico, mas era uma relação simbiótica. Houve muita troca positiva entre esses centros, e eu falo aqui de networking, pesquisa, investimento e talentos.

Questões como o machismo, por exemplo, não causaram surpresa?
Engraçado, enquanto eu escrevia o livro começaram a falar pela primeira vez sobre o machismo no e do Vale do Silício. É fácil de entender e contextualizar a falta de diversidade, porque tudo ali acontecia na base da indicação e do contato. Venture capital é um negócio muito arriscado, e uma forma de minimizar os riscos é apostando em algo ou alguém conhecido e que seja fácil de prever. Então acabavam apostando sempre nos mesmos semelhantes. Via de regra, os engenheiros eram todos homens, brancos e héteros. Ao ganhar dinheiro, eles adquiriam o poder de tomar as decisões e, de novo, investiam em algo parecido. Os vencedores da geração passada escolhem os vencedores da próxima geração.
“Um dos problemas que o Vale enfrenta hoje é consequência, justamente, da falta de diversidade”
E isso não pode mudar?
Acho que está mudando, mas vagarosamente. Um dos problemas que o Vale enfrenta hoje é consequência, justamente, da falta de diversidade. Porque não há pluralidade na equipe, eles não sabem em quais produtos apostar, por exemplo. Além disso, outras pessoas, com outros perfis, começaram a ganhar dinheiro e apoiar classes historicamente excluídas do Vale. Está mudando, não na velocidade desejada.

Não existe meritocracia no Vale do Silício, portanto?
Acho que, no começo, era uma terra com oportunidade para homens brancos de origem humilde: se você trabalhasse duro, conseguiria ganhar algum dinheiro na região. Mas a grande verdade é que esse discurso de meritocracia é muito limitado. Dizem que se você for bom, terá uma chance por lá, e que a predominância masculina se dá porque “mulher não liga para tecnologia” – e isso não é verdade. Mulheres tiveram de lutar pelo direito de estudar e, certas áreas, como essa da tecnologia, foram mais resistentes. O contexto explica.

O empreendedorismo não poderia ter mudado esse cenário e trazido mais diversidade?
A cultura do empreendedorismo é, também, exclusiva. Quem pode se dar ao luxo de viver à base de macarrão instantâneo, trabalhando 18 horas por dia? E quem tem que mandar dinheiro para a família todo mês, ou quem tem filhos para criar, como fica? Não são todos que contam com a sorte do suporte familiar para garantir moradia e salário numa região cara como é a Califórnia. Empreendedorismo tem muito privilégio. Não por isso vemos que boa parte dos empreendedores de sucesso são garotos de 20 e poucos anos, que topam passar dias comendo mal, dormindo mal e sem tomar banho, sacrificando tudo pelo negócio. E é mentira achar que, quem não aceita esse esquema, não está interessado em empreender. Alguns não podem e outros simplesmente não querem essa rotina.

Como esse pensamento moldou a cultura americana?
Passamos a colocar toda a pressão no indivíduo: se você for inteligente e trabalhar pesado, você está feito. Isso ainda ecoa pelo país, mesmo não sendo verdade. Acho que deixamos de lado o pensamento do “vamos juntos”. Passamos a defender menos governo e mais iniciativa privada, mas não podemos ter um mundo de pessoas individualistas querendo “chegar lá” sozinhas – porque é preciso uma grande estrutura para atravessar a jornada.
“Apple e Microsoft, que já foram considerados os bad boys do setor, hoje parecem os adultos da sala, defendendo um diálogo mais saudável com Washington”
Por falar em governo, o Vale do Silício tem links direto com Washignton DC. Você comenta que o pólo tecnológico americano passou de republicano para democrata…
Os partidos mudaram muito ao longo dos anos também. No começo, o Vale era tomado por empresários que tinham o típico pensamento de “menos impostos” defendido pelos republicanos. Mas eles nunca foram conservadores nos costumes, tanto que não davam muita bola para Ronald Regan. Paralelo a isso, uma nova geração de democratas, com um novo discurso, passou a se aproximar do setor de tecnologia. Bill Clinton e Barack Obama, por exemplo, eram abertamente tech friendly e adotaram políticas importantes para o setor, como diminuição dos impostos e flexibilização das regras migratórias para a mão-de-obra especializada.

E essa aproximação do Vale e de Washington é boa?
Muita gente no Vale do Silício ainda quer distância da capital e da política, mas as coisas não se separam tanto. É preciso discutir as regras e o poder dessas empresas. O lobby das Big Tech, em DC, é enorme. Da mesma forma, muita gente que passou pela Casa Branca hoje trabalha no Vale. O que é curioso nisso tudo é que Apple e Microsoft, que já foram considerado os bad boys do setor, hoje parecem os adultos da sala, defendendo um diálogo mais saudável com Washington.
---------
Fonte:  https://neofeed.com.br/blog/home/nao-e-possivel-escapar-de-apple-microsoft-amazon-google-e-facebook/?fbclid=IwAR1pZetIFC4l1TAELPMsINtZczKYcTcEKiAiUBO6WhrupjjpNUpQ_F5SKlg - Acesso 04/12/2019

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Nos últimos ‘Diários’, Fernando Henrique reflete sobre cansaço e ascensão do PT


A percepção negativa de Fernando Henrique sobre Lula vai mudando, mostram os “Diários”:
“Se o Lula ganhar, nós vamos ter que apoiá-lo, por causa do Brasil” — Foto: Eraldo Peres/AP

Nos “Diários” sobre dois últimos anos de seu governo, Fernando Henrique reflete sobre turbulências, 
cansaço e ascensão do PT

Por Matías M. Molina — Para o Valor, de São Paulo

O quarto e último volume dos “Diários da Presidência”, que cobre os dois últimos anos do mandato de Fernando Henrique Cardoso, retrata o ocaso de seu governo. Nesse período, perdeu popularidade pelos efeitos de uma desvalorização atabalhoada do real, da crise de energia, da derrota de seu partido nas eleições presidenciais, da ascensão do Partido dos Trabalhadores. E teve que enfrentar a turbulência externa.

Os “Diários” refletem o peso da idade e o cansaço no exercício no cargo. FHC registra a “solidão do poder”, a “fadiga de material” e menciona: “É a primeira vez em oito anos que me sinto assim, meio alquebrado”. E “é curioso, estava pensando: tenho setenta anos, a Ruth [Cardoso, 1930-2008 ] também, e a gente vai ficando um pouco vegetal, depois mineral, não no sentido físico, no sentido espiritual, porque a gente já não tem as aflições que tinha antes, das coisas que vão acontecer, que não vão acontecer, mesmo quanto às pessoas. Acho que há certo ceticismo bem temperado, sem grandes expectativas”. Essa fadiga, observa, passa para o povo, e reconhece que “a população se cansa da gente”.

 
Reunião sobre crise de energia com os então presidente do 
BC Arminio Fraga e ministro Pedro Malan — Foto: Ruy Baron/Valor

Apesar desse cansaço, FHC se manteve atento e ativo até o fim da Presidência. Nos “Diários”, registra como reagiu às pressões do cotidiano, como julgava amigos e inimigos, sem omitir vacilações, dúvidas e contradições. E há frases curiosas: “De manhã, apenas nadei, ou melhor, nem nadei, fiz exercícios, porque não quis entrar na água”.

O autor reconhece que atenuou expressões. Mas o que foi publicado deve ter machucado muitos egos da República. Usa expressões extremamente duras, ditadas para depois da morte, mas cuja divulgação decidiu antecipar. FHC não poupa o Congresso, os políticos, a imprensa, os procuradores, as elites, os mercados, os bancos.

O Congresso, diz, uma instituição forte com partidos fracos, está se desmoralizando; é cada vez mais uma reunião de vereadores federais que não se preocupam com o conjunto do país; “só votam contra o Tesouro, só votam benesses”. Projetos estratégicos, os deputados não se preocupam com eles. “É uma coisa entristecedora, e eu não posso sequer denunciar, porque se o fizer nada mais passará no Congresso”.

FHC não denunciou, mas negociou. Diz que dedicou a Presidência a transformar práticas enraizadas como corporativismo, clientelismo e personalismo e que, para avançar, em lugar de bater de frente contra interesses arraigados, precisou contorná-los e, mesmo, ceder. Quis modernizar o Brasil com o que tinha nas mãos, “e nas mãos tenho a força do atraso”. Na base aliada havia “podridão”: “os mais espertos, dominam parte importante da maioria, e eles são partes do jogo brasileiro”. FHC jogou esse jogo.

Quando uma jornalista escreveu que, em lugar de romper com as oligarquias, ele escondia sua “sujeira”, reagiu: “Escondendo nada, eu quero apenas que se vote (...) É chantagem do PFL, eu sei. (...)Antônio Carlos [Magalhães, ACM, 1927-2007] levou a vida inteira chantageando, o Jader [Barbalho] não deixou de chantagear. Isso é política”. Houve momentos de angústia: “se o Congresso quiser brigar comigo, que brigue. Eu já cansei, cansei de ser civilizado, cansei de aguentar desaforo, cansei de engolir sapo, cansei de engolir gente de quem eu não gosto, cansei de fazer concessão em nome da pátria”. No fim, esse mesmo Congresso “aprovou tudo o que quisemos, tudo, sem exceção”. Esqueceu, porém, que não conseguiu passar a reforma da Previdência.

Aprendeu que, se você anuncia o que vai fazer, você já não faz, porque as forças atuam contra. Ele vê focos de corrupção na Sudam, onde a roubalheira existe há 40 anos, e na Sudene e diz que Banco do Brasil, Caixa Econômica, Basa e Banco do Nordeste estão todos apodrecidos.

Sobre os políticos faz observações ferinas. O ex-governador do Rio Anthony Garotinho: “Ou é irresponsável, ou idiota ou um falsário”. Dos dois principais líderes do Senado, ACM e Barbalho, “estertores do arcaico”, diz que, a rigor, poderiam ser cassados e que querem ver o circo pegar fogo. Jader Barbalho por desespero, Antônio Carlos Magalhães por astúcia.

De Barbalho, afirma que participou de roubalheira, “mas ele é presidente do Senado e me ajudou em outros momentos”. É contundente com ACM, que “tem uma inveja infinita de mim e que gostaria mesmo é de ser presidente”. Diz que é patético, matreiro; um espertalhão que faz canalhices, desatinos, joga lama em todo mundo, tem doença patológica, está desorientado e, quando fala em moralidade, teria que botar luva muito grossa para esconder as marcas de alguém que sustentou o regime militar e posa de vestal. Destruiu o PFL e tentou destruir o presidente da República. É um farsante que “lê um discurso (...) cheio de frases de autores que ele nunca leu, Kant, Voltaire. (...) uma peça cínica. Um discurso de ódio, de vingança pura”. Lamenta, porém, o fascínio que ACM exerce sobre a mídia, porque a mídia precisa de gente histriônica e de fanfarronice antiga e arcaica e assim dá projeção a tudo que ele faz.

Leonel Brizola (1922-2004) é um velho caudilho que perdeu o rumo. Ciro Gomes é um descabeçado sem rumo, uma sublegenda de ACM; um oportunista que vive da imprensa; um desbocado, um “colorido” sem recatos, oportunista e perigoso. FHC suaviza as críticas depois que Ciro falou bem dele.

Do senador Pedro Simon diz que gosta de histrionismo, é cupim da dignidade alheia, um destemperado, quer ser presidente da República e não consegue. No ex-presidente Itamar Franco (1930-2011), de quem foi ministro das Relações Exteriores e da Fazenda, vê um homem frágil e pequeno, dado a chiliques, mas hábil ao passar-se por desavisado e distraído sem ser; um pândego, sem compromisso com nada a não ser com ele mesmo

De Paulo Maluf, antigo prefeito e governador de São Paulo, ouviu que “continua o mesmo, continua roubando”. Do ex-presidente e ex-prefeito de São Paulo Jânio Quadros (1917-1992), soube que ficava com uma parte dos aumentos das tarifas de ônibus. José Sarney, em sua opinião, foi um presidente razoável na transição democrática, ruim na gerência, mas manteve a liberdade, “e eu sempre tive uma relação considerada com ele”. Evita comentar a “sujeirada” de que foi acusado.

Sobre Luiz Inácio Lula da Silva, diz que é boa pessoa e intuitivo, mas sem preparo para ser presidente; que não aprendeu nada em 30 anos de militância; que é decepcionante e tem dito muita bobagem, com uma visão equivocada do mundo. “Não estudou nada, não trabalhou, não se aperfeiçoou e não pode ser bom presidente.”

A percepção vai mudando. “Gosto do Lula, suponho que ele goste de mim também. Achei o Lula melhor. Capaz de falar melhor o português, com conceitos, com elaboração.” Admite que “se o Lula ganhar, nós vamos ter que apoiá-lo, por causa do Brasil”. Registra que Lula beijou a cruz e que, ao dizer que vai respeitar contratos, vai respeitar as metas, o PT é obrigado a dizer que acredita no que não acredita. Eleito Lula, FHC não vê nada errado nos setores-chave do ministério: Economia, Forças Armadas, Itamaraty. “O resto é uma mixórdia.”

Numa conversa, Lula “muito esperto”, observou que o PSDB perdeu Mário Covas (1930-2001) e pergunta se ele, FHC, ficaria dando conferências ou entraria na briga política, uma vez que José Serra, o candidato derrotado, não servia para presidente do partido e Aécio Neves era fogo de palha; o melhor era Geraldo Alckmin. Lula reconheceu que teve medo de Tasso Jereissati ser candidato à Presidência da República: ele é “nordestino de ‘zoinho’ azul, e é mais fácil passar um nordestino de olhinho azul no Sul do que um paulista no Nordeste”. Segundo FHC, “curiosamente, ele quer que eu fique na política.”

Numa entrevista à imprensa durante o lançamento dos “Diários”, FHC reconheceu que errara em sua avaliação de Lula como presidente: formou uma maioria e explicou ao país para onde ia. Mas Lula, depois de assumir a Presidência, não perdeu tempo em dizer que recebera uma “herança maldita” de seu antecessor. De José Dirceu observa que falava com a pronúncia muito menos acaipirada e o elogia, pois “raciocina como um de nós, como um tucano, com conhecimento da situação” e mostrou que é um homem dedicado, competente.

Em Guido Mantega vê um rapaz de capacidade intelectual limitada e de conhecimentos mais limitados ainda, que não sabe o que acontece no Brasil. Colocado no Ministério do Planejamento, comenta que ele não tem a menor ideia de orçamento, de Congresso, de nada disso. FHC preferia Paulo Bernardo na pasta porque “esse é competente”. De Dilma Rousseff diz que a moça tinha uma visão favorável a subsídio, não sei o quê, subsídio para isso, subsídio para aquilo, enfim, como se o Tesouro fosse o Papai Noel.

Sobre a economia, FHC menciona o ímpeto do mercado para substituir o Estado, mas reconhece que o mercado não resolve as questões de uma nação. “Eles não leram Marx, o capitalismo é assim mesmo, centralizador, tem tendência monopolista; é racionalizador, exclui os mais fracos. Sobra o Estado, por isso sou favorável a fortalecer o Estado, para se contrapor à tendência monopólica do capitalismo. Não dá para quebrar o capitalismo; quem o quebraria seria a classe operária revolucionária, que desapareceu, foi para o paraíso.”

Um dia, observou que “os mercados estão nervosos, esses malditos mercados”. Outro dia: “Esses banqueiros fazem sempre a mesma coisa. Não há banqueiro amigo, eles são amigos do dinheiro”; alguns “fazem sujeira contra o país, contra os interesses econômicos, contra quem quer seja”. Diz que o ultracapitalismo financeiro é imperialista. Mas reconhece que o Brasil precisa de mercado. Afirma que falta audácia aos empresários e que eles se queixam, “mas quando a gente vai mudar não querem, porque a fórmula atual é boa, até lhes dá subsídio”.

Arremete contra a elite, que não aceita a normalidade democrática e a cidadania ou a ideia de sermos todos iguais perante a lei. “A elite dominante brasileira, sobretudo essa mais do Norte e Nordeste, não aceita a quebra de privilégio.” Essa elite não quer pagar impostos. “O grosso da classe média está pagando e não está reclamando; quem está eclamando, como sempre no Brasil, são os mais ricos.” Seu desejo é que se arrebente a base oligárquica.

No entanto, se ele é cáustico quando escreve sobre os políticos individualmente, as críticas à oligarquia são genéricas; menções nominais a empresários estão, quase sempre, acompanhadas de elogios.

FHC elogia a elite do setor público: “Esses burocratas qualificados que o Brasil tem são de tirar o chapéu, e eles são muitos, é uma gente que se dedica, que é competente, inteligente, que tem amor ao serviço público”. Das Forças Armadas diz que é gente correta e importante. Do Itamaraty escreve que é competente, mas tem um sabor de Império. “Muita etiqueta, muito formalismo, muita pretensão até, o que incomoda os políticos. A sociedade brasileira, que é republicana e não monárquica e muito pouco formal, não gosta dessas coisas.” Mas o Itamaraty é necessário e sem esse formalismo o Brasil não se mantém como Estado.

Para FHC a diplomacia e as Forças Armadas têm uma visão estratégica do país, do Estado, para a classe política ainda falta muito, alguns empresários tem essa visão, embora “no conjunto... meu Deus, dá pena”, e pouquíssimos jornalistas a têm.

Sobre o “apagão” de energia, “o maior abacaxi de toda a minha gestão”, diz que o grande responsável por ela, o ministro do setor, Rodolpho Tourinho (1941-2015), do PFL, lhe dizia que não havia risco de apagão e chegou a proibir que se falasse em racionamento no ministério. Mas FHC reconhece que foi ele quem o colocara lá.

Onde se sente mais seguro e confiante é nas relações internacionais. Afirma ter seguido o Barão do Rio Branco (1845-1912): bom relacionamento com os Estados Unidos e olho no Prata. Agora, o nosso Prata é a América do Sul, e não bastam boas relações com os EUA, necessárias também com a Europa, China e o Japão.

“A Argentina”, escreve, “continua a ser o meu objeto de preocupação”; “o Brasil tem que estar presente lá”. FHC cultiva as relações também com Cuba - se dá bem com Fidel Castro (1926-2016) - e com a Venezuela. De seu presidente, Hugo Chávez (1954-2013), relata que é sempre simpático, brincalhão, “muito correto comigo”, e gosta dele; tem impulsos que não são racionais, mas até agora, diz, nunca quebrou a regra democrática.

Ele enfatiza as relações estreitas com os líderes ocidentais. “Talvez nunca tenha havido na história um momento em que um presidente do Brasil tenha tido contatos tão diretos(...) de tanta liberdade, pelo modo como falamos um com o outro (...) sem reservas.”

E não se inibe em registrar os aplausos e elogios que recebeu. “Fiz um discurso forte, foi extremamente aplaudido.” “Eles ficaram, acho eu, impressionados com o domínio que eu tinha das questões.” “Fiz uma exposição que foi aplaudida fortemente.” “Fui saudado com palmas não só na entrada.” “Resultado: no final fui aplaudido em pé por mais de um minuto.” Registra que “Eu e Ruth dormimos no quarto onde Churchill ficava.” E que “O Olavo (Setúbal) serviu um vinho Barca Velha que eu reconheci, ele ficou contentíssimo, os outros não conheciam, é um vinho português muito bom, o melhor de Portugal.”

Perguntado se valeu a pena o segundo mandato: “Para mim, certamente não (...); para o Brasil, talvez, porque quem iria domar essas confusões que estamos vivendo?”.

Sobre sua Presidência: “(...) depois do Getúlio, quem fez alguma coisa de mais significativo foram o Juscelino, o Geisel e, agora, o nosso governo”. Diz que o que fez é quase milagroso, fazer o país andar, mudar as instituições e a cultura, com uma base política de lascar.

É inegável que ele deixou a seu sucessor um Brasil melhor do que encontrou. No entanto, de seus “Diários” é possível concluir que, se foi perspicaz nas observações sobre pessoas e problemas, ele deixou de agir com a ênfase necessária. O intelectual prevaleceu sobre o homem de ação.

Sobre a questão do câmbio, por exemplo, ele percebera a necessidade de desvalorizar o real, mas agiu tarde, arrastado pelo mercado. Na crise energética, diz ter sentido que havia alguma coisa errada, mas não interferiu até a crise estourar.

Ele coloca o dedo sobre uma chaga do sistema político ao afirmar “que a mancha do voto proporcional no Brasil é a desproporção entre o número de eleitores e as representações nos vários Estados”. Realmente, esse processo, ignora o princípio democrático de “um cidadão, um voto”. No entanto, FHC prefere omitir-se: “Todo mundo sabe que isso é quase impossível de se modificar”, escreve, sem sequer tentar apagar a mancha.

Instalou as agências reguladoras e introduziu o tripé macroeconômico - câmbio flutuante, meta fiscal e meta da inflação -, mas não tentou uma reforma profunda da máquina pública e da burocracia oficial, bases para uma reforma duradoura do Estado.

Reconhece que a oposição ganhou a batalha ideológica acusando o governo de neoliberal, de não fazer nada pelo social e de estar submetido ao FMI. Atribui essa visão ao “baixo clero” que domina a universidade e a mídia. “Mas a culpa é nossa - diz - que não fomos capazes de brigar”. FHC deixou o decreto que garante o sigilo eterno de alguns documentos oficiais, uma herança maldita para os historiadores.

Últimas palavras do último “Diário”: “Fiz algo, houve coisas que não consegui, mas trabalhei bastante e acredito que o Brasil seja outro. Acho que o Brasil mudou”. Mas as ervas daninhas que tentou extirpar - corporativismo, clientelismo e personalismo - têm raízes muito profundas.

“Diários da Presidência 2001-2002 (Volume 4)” Fernando Henrique Cardoso. Companhia das Letras, 1.024 págs., R$ 129,90.

Matías M. Molina é autor dos Livros “Os Melhores Jornais do Mundo” (Editora Globo) e “História dos Jornais do Brasil” (Companhia das Letras). E-mail: matias.molina@terra.com.br