quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

As oito promessas de Trump que ameaçam mudar o mundo

Donald Trump toma posse nesta sexta-feira
 Donald Trump toma posse nesta sexta-feira Reuters
 
Nesta sexta-feira, o milionário eleito Presidente dos Estados Unidos entra na Casa Branca, e as promessas de campanha podem começar a tornar-se política oficial.

Donald Trump toma posse nesta sexta-feira com planos que, em alguns casos, alteram por completo o rumo seguido pelo Presidente que cessa funções, Barack Obama, e pelos seus antecessores republicanos. Alguns têm o potencial de reabrir velhos conflitos armados — caso do israelo-palestiniano. Outros arriscam problemas novos em zonas estratégicas para o equilíbrio mundial — o Pacífico. Estes são alguns dos mais polémicos.

O nó cego da embaixada em Jerusalém

Donald Trump prometeu mudar a embaixada americana em Israel de Telavive para Jerusalém — algo que seria “um ataque contra todos os muçulmanos do mundo, e não apenas contra os palestinianos”, afirmou o grande mufti da mesquita de Al-Aqsa, na cidade santa das três religiões monoteístas. A mudança equivaleria a reconhecer a reivindicação de Israel, que considera Jerusalém como capital indivisível. David Friedman, que Trump nomeou embaixador, defende a expansão dos colonatos e opõe-se à solução dos dois Estados. É provável que vá trabalhar para Jerusalém — a partir de um hotel ou do consulado, declarando-o a nova embaixada. Construir um edifício de raiz pode levar até quatro anos, diz o Washington Post. Mas a Administração Trump teria de lançar, ao mesmo tempo, negociações de paz entre israelitas e palestinianos com redobrado vigor, nota o ex-embaixador em Telavive Martin Indyk no New York Times. Se não, “incitaria uma explosão de fúria entre os palestinianos. Embaixadas e cidadãos americanos em países muçulmanos tornar-se-iam alvos de violência”, alerta. C.B.

Manter as empresas (e os empregos) em casa

Foi com o dedo no Twitter que Donald Trump compôs a política económica, fiscal e de emprego da sua Administração. Usou-o para fazer anúncios de revisão dos tratados comerciais; ameaças de retaliação contra empresas americanas e estrangeiras que não invistam nos EUA; prometer novas barreiras alfandegárias e outras medidas proteccionistas; jurar baixas de impostos ou do fim do quadro regulatório que diz constranger a actividade económica.
Tudo iniciativas que, assegura, vão tornar a indústria americana “grandiosa outra vez”, promover o emprego e aumentar a riqueza. Algumas destas medidas competem à Casa Branca, outras ao Congresso — o que Trump não disse é que a acção directa do Presidente na condução da economia é limitada. Mas antes de tomar posse, já se congratulou pelo seu sucesso: garantiu ontem no Twitter que empresas como a Ford, General Motors, Carrier, Lockheed ou Bayer se comprometeram a lançar investimentos nos EUA em vez de outros países depois de falarem com ele. “Voltaram todos por minha causa”, escreveu. R.S.

Um muro de 25 mil milhões de dólares

Donald Trump prometeu construir um muro para travar a imigração ilegal proveniente do México, e obrigar o México a pagar por ele, ou pelo menos a reembolsar os EUA pela construção, paga com o Orçamento federal. Uma parte dos 3200 km da fronteira dos EUA com o México já está protegida por barreiras, mas, ainda assim, os custos podem chegar a 25 mil milhões de dólares, diz o Washington Post. É uma fortuna, mas o Congresso, dominado pelos republicanos, está a procurar formas de incluir o financiamento da construção do muro de Trump no próximo Orçamento, que tem de estar aprovado até Abril. Se houver um bloqueio neste processo, todos os serviços do Governo encerram, porque deixa de haver dinheiro. Mas só 39% dos norte-americanos consideram a construção do muro na fronteira do México como um objectivo importante para o controlo da imigração ilegal. Um estudo do Instituto Pew diz que 58% dá maior prioridade ao aumento das deportações de pessoas a trabalhar sem visto nos EUA, outra bandeira da campanha de Trump. C.B.

Guerra com republicanos para desmantelar o Obamacare?

Se há coisa em que Donald Trump e o Partido Republicano concordam é que é preciso acabar com o programa de saúde. E se há coisa em que Trump e a bancada conservadora não se conseguem entender é sobre como desmantelar o Obamacare. Poderá ser este o primeiro grande confronto entre a Casa Branca e o Congresso: mal começou a legislatura, a nova maioria percebeu como vai ser complicado — sobretudo politicamente — cumprir o seu compromisso eleitoral: sem alternativa viável, a revogação da lei deixará mais de 20 milhões de pessoas de fora do sistema de saúde. Trump diz que tem uma proposta, “muito barata”, para alargar a cobertura médica a todos os americanos, com prémios de seguro “significativamente mais baixos”. Ainda não apresentou o seu plano mas já exigiu que seja adoptado pelos republicanos (para ser aprovado, precisa também do voto de democratas). “Vai ser aprovado, não vou dizer como, mas vai ser”, garantiu Trump ao Washington Post. A perspectiva de um braço de ferro político com o Congresso parece bem real, já que Trump mostra que que não está disposto a ceder a iniciativa política. R.S.

China, o inimigo escolhido

Donald Trump acusou Pequim durante a campanha de desvalorizar de forma artificial a sua moeda — apesar de dados recentes mostrarem que é o contrário que se tem registado. Já depois de eleito, falou directamente com a Presidente de Taiwan, pondo em causa o princípio que norteou as relações diplomáticas entre os EUA e a China desde o final dos anos 1970. A composição da sua Administração — que inclui numa das pastas económicas um crítico da China de longa data — mostra que Trump está empenhado em continuar a linha de confronto, que pode materializar-se militarmente nas águas do Pacífico. A diplomacia chinesa tem mantido uma postura de contenção e espera para ver o que se segue. Mas não espera sentada. Os media estatais têm sido ferozes com Trump, que acusam de infantilidade. E convém lembrar que a China é a maior detentora de dívida pública norte-americana. J.R.R.

Rússia, o amigo desejado

A reaproximação a Moscovo parece ser uma pedra basilar da política externa de Donald Trump. Barack Obama também o tentou no início da sua presidência, embora com menos elogios a Vladimir Putin. O objectivo de Trump parece ser o de encontrar terreno comum em alguns temas, sobretudo a luta contra o terrorismo. O problema é tudo aquilo que Trump diz estar disposto a negociar para obter o que quer, e que passa por um potencial alívio das sanções económicas impostas por causa da anexação da Crimeia, ou a redução do apoio militar ao Leste da Europa, no quadro da NATO — organização “obsoleta”, de acordo com Trump. No prazo mais curto, o novo Presidente americano terá de indicar como pretende lidar com Moscovo à luz das acusações dos serviços secretos, que a partir desta sexta-feira passa a controlar, de que o Governo russo orquestrou uma campanha de interferência nas eleições presidenciais nos EUA. J.R.R.

Mau clima e mau ambiente

Como Barack Obama não conseguiu que o Congresso aprovasse leis para reduzir as emissões de dióxido de carbono (CO2) que aumentam o efeito de estufa, Obama usou a Agência de Protecção Ambiental (EPA) para estabelecer o valor máximo que as centrais eléctricas a carvão, por exemplo, podem emitir. Esta estratégia está a ser contestada nos tribunais, e o homem escolhido por Donald Trump para liderar a EPA, Scott Pruitt, apoiou estas acções, enquanto procurador-geral estadual do Oklahoma. Pruitt recebeu também apoio financeiro da indústria petrolífera. Apesar de 59% dos americanos desejarem leis de controlo ambiental mais duras, a maioria republicana prepara-se para banir os limites impostos a nível federal das emissões nas centrais térmicas. Passar o controlo aos estados deve ser a palavra de ordem, tanto nas alterações climáticas como noutros problemas ambientais. E resta a interrogação sobre se Trump sairá de facto do Acordo de Paris para limitar as alterações climáticas, que entrou em vigor no fim de 2016, como ameaçou. C.B.

Irão recusa renegociar nuclear

O acordo nuclear que Teerão assinou com uma série de países não vai ser alvo de renegociação, disse esta semana o Presidente Hassan Rouhani. O Presidente eleito dos EUA, Donald Trump, classificou este acordo como “horrível” e tem ameaçado acabar com ele ou renegociá-lo. Mas o Presidente iraniano acha que estas palavras de Trump são apenas “propaganda. O acordo foi assinado pelo Irão, EUA, União Europeia, China e Rússia e está consagrado numa resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Segundo Obama, o acordo impede que Teerão chegue rapidamente a uma bomba — desde que entrou em vigor, o Irão já reduziu significativamente o seu stock de urânio, por exemplo. Quando se assinalou um ano do acordo em vigor, na segunda-feira, Obama deixou um aparente aviso a Trump: “O acordo com o Irão tem de ser visto tendo em conta as alternativas. Uma resolução diplomática que impeça o Irão de obter uma bomba nuclear é preferível a um programa nuclear sem controlo ou outra guerra no Médio Oriente.” M.J.G.
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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Oxfam: 6 falsas premissas que impulsionam a desigualdade

 http://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/2017/01/18_01_chris_jones_flickr.jpg
Relatório aponta os discursos disseminados por corporações e super-ricos para influenciar políticas que os favoreçam.

A reportagem é publicada por CartaCapital, 17-01-2017.

Divulgado na segunda 16, o último relatório da Oxfam revelou que só oito indivíduos (todos homens) detêm a mesma riqueza que os 3,6 bilhões que fazem parte da metade mais empobrecida do planeta.

Além disso, o abismo entre ricos e pobres está aumentando em uma velocidade muito maior do que se esperava, em parte devido às estratégias do topo da pirâmide econômica, habitado por grandes corporações e os "super-ricos", utilizadas para influenciar políticas e garantir regras que os favoreçam, mesmo que em detrimento do restante da sociedade.

"A atual economia do 1% baseia-se em uma série de falsas premissas que fundamentam muitas das políticas, investimentos e atividades de governos, empresas e indivíduos ricos, e que não satisfazem as necessidades de pessoas em situação de pobreza e da sociedade de uma maneira geral", afirma o estudo da Oxfam.

O documento produzido pela ONG inglesa, que busca combater o aumento da desigualdade, elenca as falsas seis premissas que acabam por acirrar o fosso entre ricos e pobres:

1 - O mercado está sempre certo e o papel dos governos deve ser minimizado

A crença inabalável no poder do mercado, aliada a uma visão negativa do papel do Estado na economia, é o alicerce do neoliberalismo. Na verdade, diz o relatório, não existe confirmação de que o mercado seja o melhor meio de organização para a vida em sociedade. Ao contrário. Para a Oxfam, os mercados precisam ser cuidadosamente geridos, a fim de proteger os interesses das pessoas.

"Vimos como a corrupção, o favorecimento ou o nepotismo distorcem os mercados em detrimento de pessoas comuns e como o crescimento excessivo do setor financeiro exacerba a desigualdade", diz o estudo, lembrando da crise financeira de 2008.

Além disso, existem exemplos práticos de como a privatização de serviços considerados essenciais, como a saúde, a educação ou o abastecimento de água, acaba por prejudicar os mais pobres, em especial, as mulheres.

2 - Nas empresas, o lucro e o retorno para os acionistas deve estar acima de tudo

A minimização de custos fiscais e trabalhistas e a maximização da receita são consideradas a fórmula para melhorar a rentabilidade das empresas e torná-las mais "eficientes".

No entanto, a busca pelo lucro acima de tudo e pelos maiores retornos possíveis aos acionistas acaba por aumentar, de maneira desproporcional, a renda dos que já são ricos, ao mesmo tempo em que pressiona negativamente trabalhadores, fornecedores, comunidades e o meio ambiente.

O estudo pede que as empresas busquem um "capitalismo sustentável", com geração de lucros razoável e uma remuneração mais justa para os trabalhadores.

3 - A riqueza individual extrema é sinal de sucesso

O estudo defende que a concentração de renda nas mãos de poucos indivíduos é "economicamente ineficiente, politicamente corrosiva e prejudicial para o nosso progresso coletivo". Embora existam evidências contrárias, afirma a Oxfam, muitos ainda acreditam que chega-se ao topo da pirâmide trabalhando duro e contando com uma boa dose de talento. Outra falsa premissa é que os super-ricos contribuem para o crescimento econômico.

Dados do FMI citados pelo estudo revelam, porém, que países menos desiguais crescem mais e por mais tempo. Por outro lado, países com muitos bilionários crescem mais lentamente.

4 - O crescimento do PIB deve ser o principal objetivo econômico

Considerada a ferramenta padrão para se dimensionar a economia de um país, a soma de todos os bens e serviços produzidos por empresas, governos e indivíduos, isto é, o Produto Interno Bruto (PIB) foi classificado pela revista The Economist como um "indicador de prosperidade problemático".

Por ser uma média, o índice não leva em consideração a desigualdade e, além disso, não computa o trabalho doméstico não-remunerado realizado por uma enorme quantidade de mulheres no mundo todo. O estudo cita a Zâmbia, cujo PIB está crescendo a taxas elevadas, justamente quando o número de pessoas em situação de pobreza aumentou.

5 - Nosso modelo econômico é neutro em relação ao gênero

Outra premissa falsa é a de que não existem diferenças de classe, raça e gênero dentro do modelo econômico vigente. Dentro desta lógica, os resultados alcançados por indivíduos são determinados exclusivamente por suas habilidades e esforços. Essa linha de pensamento, afirma a Oxfam, leva, entre outros, à perpetuação das distorções e das desigualdades de gênero.

"Modelos econômicos neoliberais não somente ignoram essas barreiras, mas também prosperam graças às normas sociais que enfraquecem as mulheres. Países com grandes setores orientados para a exportação são particularmente beneficiados por uma grande força de trabalho pouco qualificada e sem voz. Muitos desses trabalhos são reservados às mulheres devido à sua “desvantagem competitiva”, afirma o estudo.

Além de tradicionalmente ocuparem cargos e funções com remuneração mais baixa, as mulheres recebem, em média, salários 23% menores do que os dos homens na mesma função e são massivamente responsáveis pelo trabalho doméstico não-remunerado - "que não é contabilizado no PIB, mas sem o qual as economias não funcionariam".

Segundo a ActionAid, as mulheres que vivem nos países em desenvolvimento poderiam somar 9 trilhões de dólares a suas rendas caso seu salário e acesso a trabalho remunerado fossem iguais aos dos homens

Além disso, cortes nos serviços públicos, na segurança no emprego e em direitos trabalhistas costumam afetar a força de trabalho feminina de maneira desproporiconal.

6 - Os recursos do nosso planeta são ilimitados

As consequências negativas do modelo econômico atual não atinge apenas a raça humana. Tal modelo, baseado na exploração sem limites do meio ambiente, parte da premissa de que os recursos naturais são ilimitados e devem ser explorados ao bel-prazer de empresas e governos. No entanto, esse modelo "colabora intensamente" para a ocorrência de mudanças climáticas descontroladas.

"A ênfase cada vez maior na maximização dos lucros e retornos de curto prazo agrava a cegueira ambiental das nossas economias, uma vez que qualquer perspectiva de longo prazo é suprimida", diz o relatório.

Segundo estimativas da Oxfam, os 10% mais ricos da população mundial são responsáveis por metade de todas as emissões globais de gases que agravam o aquecimento global. No entanto, as consequências mais graves das mudanças climáticas (como eventos extremos) serão sentidas pelas comunidades mais pobres.
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Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/564063-oxfam-6-falsas-premissas-que-impulsionam-a-desigualdade 18/01/2016

A amante gaúcha de George Orwell

Francis Fierz e a gaúcha Mabel Robinson Fierz (centro), com a filha Fay Fierz, em 1937. Ela foi amante, mecenas, conselheira e até agente literária informal de George Orwell, autor do seminal “1984”, e contribuiu para sua fama.

Francis Fierz e a gaúcha Mabel Robinson Fierz (centro), com a filha Fay Fierz, em 1937. Ela foi amante, mecenas, conselheira e até agente literária informal de George Orwell, autor do seminal “1984”, e contribuiu para sua fama.

FILHA DE PAIS INGLESES e nascida no Rio Grande do Sul, Mabel Fierz teve papel decisivo na carreira do autor de 1984, segundo biografias

Este ano completam-se nove décadas de uma das decisões mais arriscadas tomadas por um dos maiores escritores do século 20. Em 1927, George Orwell (1903 1950) largou a estabilidade respeitável de um servidor do Império Britânico e lançou-se numa trajetória de vagabundagem que culminaria em seu primeiro livro, Na Pior em Paris e Londres. Uma das personagens fundamentais para a publicação deste livro nasceu no Rio Grande do Sul: Mabel Fierz, amiga, amante, patrocinadora entusiasmada e a pessoa que lhe deu a oportunidade de tornar-se George Orwell e não apenas Eric Arthur Blair, seu nome verdadeiro.

Mabel Lilian Sinclair Fierz (1890 – 1990) ocupa um papel importante nos primeiros tempos da carreira literária do autor de 1984. O escritor havia servido, entre 1922 e 1927, como integrante da Polícia Imperial na Birmânia. Em 1927, pediu baixa. Os cinco anos seguintes Orwell passou sem emprego fixo, arranjando biscates e ocupações sub-remuneradas. De volta à Inglaterra, foi viver com os pais em Southwold, no leste da Inglaterra, pintando aquarelas, colhendo lúpulo, servindo como preceptor para famílias inglesas em férias e lutando para dar forma a algumas obras.

Foi ali que conheceu Mabel Fierz e seu marido, Francis Fierz, em agosto de 1930. Orwell pintava na beira da praia. O casal dava um passeio, e a conversa que entabularam daria origem a uma amizade que mudaria o futuro de Orwell e da literatura. Mabel escrevia resenhas literárias. Sua figura também foi esboçada por D.J. Taylor em George Orwell, de Gordon Bowker, de 2003: “Francis e Mabel Fierz eram da América do Sul. Tinham uma casa em Hampstead Garden Suburb e ambos eram muito cultos. Francis era um amante de Dickens; Mabel, uma mulher vivaz e opiniática que gostava da companhia de jovens artistas, acreditava que tinha um olho para o talento e a determinação para trazê-lo à tona”.

Treze anos mais velha do que Orwell, Mabel, embora seja muitas vezes apresentada como uma figura maternal, foi amante do então jovem escritor – e nasceu no Rio Grande do Sul. As duas informações estão na biografia Orwell: Wintry Conscience of a Generation, de Jeff Meyers, publicada em 2000 – e que teve, como fontes, os filhos de Mabel, Adrian e Fay. Meyers a identifica como nascida em 1890, “no Rio Grande do Sul, no Brasil”, filha de pais ingleses. Meyers se estende um pouco mais, comentando que ela foi educada em casa, falava português e só voltou com a família à Inglaterra quando já contava 17 anos, em 1908. Do Brasil, voltou ligada à Igreja Católica (minoritária na Inglaterra anglicana). Seu marido, cujo nome completo era Francis Ernest Fierz, também consta como nascido no Brasil no censo inglês de 1911, o que explica a citação de Bowker de que eram “sul-americanos”. Ambos se casaram em dezembro de 1919, em Londres.

De acordo com o depoimento dos filhos do casal a Meyers, Mabel era, além de uma personalidade viva e cativante, uma mulher de interesses intelectuais ligados à esquerda. Isso também ajuda a explicar parte da fascinação dela pelo jovem que havia desistido da “máquina colonial” para conhecer de perto a vida dos miseráveis. Também mantiveram um caso por certo tempo – admitido para o filho já quando ela tinha idade avançada, segundo Meyers. No mais puro espírito inglês, dado que o caso era discreto e nada escandaloso, Francis Fierz preferiu não tomar conhecimento.

Mabel Fierz foi uma figura fundamental para a fase inicial da carreira de Orwell. Peter Stansky e William Miller Abrahams, em The Unknown Orwell: Orwell, the Transformation, publicado em 1974, afirmam que “ela fez o melhor que pôde, especialmente após conhecer Orwell, para ser mediadora entre pai e filho, ainda que sem resultados visíveis” – o pai do futuro escritor, Richard Blair, ex-funcionário público e homem de sólida consciência burguesa, desaprovava o filho por haver se demitido do serviço imperial e viver como um vagabundo com aspirações a artista.

Orwell havia passado dois anos tentando emplacar a narrativa de suas incursões pelo baixo-mundo com o título provisório de Diário de um Lavador de Pratos. Uma primeira versão havia sido recusada por Jonathan Cape em setembro de 1931. Uma versão retrabalhada e batizada de Dias em Londres e Paris foi enviada no fim do mesmo ano aos cuidados de T.S. Eliot na Faber & Faber – sempre com a intermediação de Mabel, que, encantada pelo brilho intelectual do jovem, ainda não havia sequer lido o texto. O livro foi rejeitado por Eliot no início de 1932, e Orwell deixou o manuscrito com Mabel para que ela o jogasse fora. Tendo finalmente lido a obra, Mabel insistiu para que o agente literário Leonard Moore também o lesse e arranjasse uma editora para o jovem. Na Pior em Paris e Londres foi publicado em 1933, assinado por “George Orwell”. O nome seria adotado por Eric Blair para assinar seus principais trabalhos, entre eles A Revolução dos Bichos e 1984 – onde imaginou a figura do “Big Brother”, adotada por um reality show.

Na Pior em Paris e Londres foi dedicado aos Fierz. Francis morreu em 1979. Mabel, em 1990, aos cem anos. Ambos estão enterrados no cemitério municipal de Surrey, na Inglaterra.
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Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a9419037.xml&template=3898.dwt&edition=30485&section=3597
Imagem da Internet

PESQUISA DO BLOG: Mais aqui: http://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/brasileira-que-se-tornou-amante-e-mecenas-do-escritor-george-orwell-83265/

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Michel Onfray: “Que a morte da nossa civilização seja com elegância”.

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Décadence, a segunda parte de sua “Brève encyclopédie du Monde”, acompanha o nascimento,  apogeu e fim da civilização judaico-cristã. Não é, escreve o filósofo Michel Onfray, nenhuma satisfação ou desgraça, mas apenas um fato.

A entrevista é de Vincent Trémolet de Villers, publicada por La Repubblica, 14-01-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Em que momento começou essa decadência?
Desde o instante em que uma criança nasce já está suficientemente velha para morrer. O meu esquema é vitalista, supõe que da mesma forma que um vulcão ou as placas tectônicas têm vida própria, assim as civilizações também possuem uma vida própria. Essa vida pode ser interrompida por um evento. Uma civilização, essa é uma verdade óbvia, vive enquanto resiste contra aquilo que a quer morta. Enfraquecida, um dia não terá mais forças e acabará sucumbindo. A nossa civilização tem dois mil anos, uma idade respeitável para aceitar seu fim.

O cristianismo enfraqueceu em demasia na Europa, embora exista um bilhão de cristãos no mundo. O Papa Francisco está no ápice de sua popularidade. Essa religião está em vias de extinção?
Primeiro devemos ver de qual cristianismo estamos falando! Há muito passou o tempo em que a religião católica reunia fiéis que acreditavam na Imaculada Conceição ou na transubstanciação. O catolicismo pós-Vaticano II propiciou a laicização da fé católica conferindo à massa dos seus fiéis uma força de verdade quase igual àquela do pastor. O sacro e a transcendência muitas vezes desapareceram deixando espaço a uma moral pueril como regra do jogo contratual. Bento XVI que defendia um discreto retorno ao que havia contribuído para a destruição do Vaticano II, viu-se frente a frente com sua própria demissão. Sua substituição por um papa jesuíta, tão jesuíta a ponto de assumir um nome franciscano, certamente tem um sentido inegável. O catolicismo triunfa midiaticamente porque o Papa sabe usar a mídia, mas não por reunir ao seu redor discípulos de um catolicismo exausto. O volume midiático e o número de fiéis nada informam quanto à qualidade teológica das crenças. Quando o papa Francisco fala: ‘Se um grande amigo ofender a minha mãe, pode esperar um murro’, não tenho mais tanta certeza de que Roma ainda esteja em Roma.

O que pode substituir a nossa civilização?
O que se mostrar mais forte do que ela e contra o que não poderá combater. A demografia nos mostra que a França branca e católica está em via de desaparecer. Isso não me preocupa, não pretendo propor nenhuma política reacionária para impedir que isso ocorra e nem vou entrar no coro das carpideiras, cujos nomes todos conhecemos;  mas apenas faço uma constatação, assim como Michel Foucault anunciava a morte do homem como um rosto de areia desvanece na beira da praia varrido pelo mar, podemos anunciar a morte do homem europeu que costumava ser prevalentemente branco e judeu-cristão. É assim, para além do bem e do mal. A  demografia testemunha em favor da África, da China, da Índia e da Ásia. A resposta à sua pergunta está naqueles países.

Você é um materialista, contudo escreve que não existe civilização sem religião. Reconhece, assim, que o homem é acossado por uma inquietação espiritual. Como explica essa contradição?
O ateísmo não é majoritário em nossa civilização. Aliás, é raro. A negação de Deus, sua explicação como uma invenção humana para suportar a evidência de que estamos destinados a morrer, é defendida por poucos. Cada um tem a seu dispor uma religião que lhe permite crer em algo após a morte. Esse medo da condição de miséria do homem sem um Deus, bem analisada por Pascal quando assevera que a condição humana é similar àquela de homens acorrentados num subterrâneo cuja porta fica trancada e não deixa passar nenhuma luz a não ser quando o carrasco vem buscar o próximo a ser levado à morte, parece-me correta. A religião alimenta-se desse medo, ela quer que o real não seja verdadeiro e que a invenção seja mais verdadeira que o real: a morte que é verdadeira não existe, mas a imortalidade que não existe é verdadeira: é assim em toda religião. A civilização cristaliza-se ao redor dessa necessidade ontológica.

Ao ateísmo religioso associa o ateísmo social. Você é impiedoso com as ideologias e o progressismo: com o comunismo, mas também com o consumismo. Você não é, no fundo, um anárquico?
A palavra ‘anárquico’ tem uma conotação negativa: é o epíteto que caracterizava os bombistas do século XIX. Existe um segundo sentido, mais técnico, que remete à Proudhon, para quem o ‘anarquia positiva’ é um modo de organização contratual da sociedade. É a autogestão, o poder horizontal, a criação da liberdade com fórmulas concretas, práticas e não violentas. Essa é a minha forma de entender. O meu anarquismo social dirige-se às crenças liberais de direita e de esquerda, que estão equivocadas porque consideram o Estado jacobino como sendo a mecânica ideal, enquanto é preciso restituir o poder ao povo para que esse possa gerir por si só a sua vida municipal, local, departamental e regional e depois possa, por meio de um sistema de parlamentos regionais que designaria as pessoas de acordo com a lógica do mandato imperativo, administrar a sua vida nacional e internacional. Em março irei publicar um livro sobre esse tema: a descolonização da província. Será a minha contribuição às eleições presidenciais.

Muitos políticos e intelectuais consideram que o saudosismo já tenha assumido um aspecto patológico. Você não esconde uma série de ligações humanas, regionais, artísticas e políticas. É um saudosista?
Quando é necessário, sim: a perda daquilo que era bom e melhor do que o atual pode legitimamente despertar certo pesar. Um período de paz no passado é melhor do que um período de guerra na atualidade, um período passado de inteligência é melhor do que um período presente de estupidez, uma época de liberdade é melhor do que uma época de servidão nos nossos dias, um tempo de amor pelas letras é melhor do que o desprezo atual por elas. Mas quando o hoje é melhor do que o ontem prefiro o hoje: uma medicina mais eficaz para garantir mais saúde, técnicas digitais de fácil assimilação e uso que possibilitam o acesso à cultura, o desaparecimento de hierarquias infundadas que permite relações verdadeiramente contratuais e imanentes, a condição da mulher menos feudal do que antes de Maio de 1968 e muitas outras coisas. Quem só sabe ser conservador se engana, quem só sabe ser progressista também: é preciso preservar a excelência e desconfiar de tudo que empurra para baixo.

Você escreve que o nosso mundo está desmoronando e que esse colapso poderia arrastar tudo consigo. Por que, apesar dessa constatação tão sombria, continua a escrever e participar ativamente da vida intelectual?
Porque só nos resta a elegância. Morrer em pé, com o sorriso nos lábios, após ter pessoalmente contribuído o menos possível para o naufrágio.
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Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/563997-que-a-morte-da-nossa-civilizacao-seja-com-elegancia-entrevista-com-michel-onfray

O NOVO SALTO GLOBAL DA DESIGUALDADE

Rio Bhuriganga, em Dhaka (Bangladesh), destruído pelo despejo de resíduos industriais. A cidade é uma das que mais cresce no mundo e abriga transnacionais têxteis atraídas para lá por salários baixos e ausência de direitos sociais. É o caso da Zara, cujo fundador é um dos 8 homens mais ricos do mundo

Rio Bhuriganga, em Dhaka (Bangladesh), destruído pelo despejo de resíduos industriais. A cidade é uma das que mais cresce no mundo e abriga transnacionais têxteis atraídas para lá por salários baixos e ausência de direitos sociais. É o caso da Zara, cujo fundador é um dos 8 homens mais ricos do mundo


Políticas de “austeridade” ampliam concentração de riqueza. Oxfam denuncia: agora, oito homens já têm mais que a metade dos habitantes do planeta. Mas há alternativas
Por Oxfam | Imagem: Sara Distin

Estamos criando condições para recuperar o país e voltar a crescer, diz o presidente Michel Temer – e repetem os jornais – a cada medida adotada para reduzir o investimento social, eliminar direitos previdenciários, “simplificar” as exigências das leis trabalhistas e, supostamente, “equilibrar” as contas públicas. Exatamente como Temer agem, desde a crise de 2008, quase todos os governantes do mundo. “Austeridade”, “ajustes fiscais”, “apertar os cintos” tornaram-se conceitos dominantes no jargão politico e econômico da última década. Qual foi o resultado?

Um relatório que acaba de ser divulgado pela organização internacional Oxfam – voltada ao estudo e denúncia da desigualdade – revela. Tais políticas permitiram que apenas oito homens possum a mesma riqueza que os 3,6 bilhões de pessoas que compõem a metade mais pobre da humanidade. O documento Uma economia humana para os 99% mostra que a diferença entre ricos e pobres aumenta a cada edição do estudo, numa velocidade muito maior do que a prevista. Os 50% mais pobres da população mundial detêm menos de 0,25% da riqueza global líquida. Nesse grupo, cerca de 3 bilhões de pessoas vivem abaixo da “linha ética de pobreza” definida pela riqueza que permitiria que as pessoas tivessem uma expectativa de vida normal de pouco mais de 70 anos.

“O relatório detalha como os grandes negócios e os indivíduos que mais detêm a riqueza mundial estão se alimentando da crise econômica, pagando menos impostos, reduzindo salários e usando seu poder para influenciar a política em seus países”, afirma Katia Maia, diretora executiva da Oxfam no Brasil.

Os números da desigualdade foram extraídos do documento Credit Suisse Wealth Report 2016. (Veja link abaixo.) Segundo a organização, 1 em cada 10 pessoas no mundo sobrevive com menos de US $ 2 por dia. No outro extremo, a ONG prevê que o mundo produzirá seu primeiro trilhardário em apenas 25 anos. Sozinho, esse indivíduo deterá uma fortuna tão alta que, se ele quisesse gastá-la, seria necessário consumir US$ 1 milhão todos os dias, por 2.738 anos, para acabar com tamanha quantia em dinheiro. O discurso da Oxfam em Davos também mostrará que 7 de cada 10 pessoas vivem em países cuja taxa de desigualdade aumentou nos últimos 30 anos. “Entre 1988 e 2011, os rendimentos dos 10% mais pobres aumentaram em média apenas 65 dólares (US$ 3 por ano), enquanto os rendimentos dos 10% mais ricos cresceram uma média de 11.800 dólares – ou 182 vezes mais”, aponta o documento.

“A desigualdade está mantendo milhões de pessoas na pobreza, fragmentando nossas sociedades e minando nossas democracias. É ultrajante que tão poucas pessoas detenham tanto enquanto tantas outras sofrem com a falta de acesso a serviços básicos, como saúde e educação”, reforça Katia Maia.
O relatório destaca ainda a situação das mulheres que, muitas vezes empregadas em cargos com menores salários, assumem uma quantidade desproporcional de tarefas em relação à remuneração recebida. O próprio relatório do Fórum Econômico Mundial (2016) sobre as disparidades de gênero estima que serão necessários 170 anos para que as mulheres recebam salários equivalentes aos dos homens. Segundo o texto, as mulheres ganham de 31 a 75% menos do que os homens no mundo.

A sonegação de impostos, o uso de paraísos fiscais e a influência política dos super-ricos para assegurar benefícios aos setores onde mantêm seus investimentos são outros destaques do documento da Oxfam.

A Oxfam é uma confederação internacional de 20 organizações que trabalham em mais de 90 países, incluindo o Brasil, com o intuito de construir um futuro livre das desigualdades e da injustiça causada pela pobreza. Uma das características centrais de seu estudo é a postura não-contemplativa. A organização está empenhada em buscar alternativas que permitam construir “uma economia para os 99%”. Eis, a seguir, algumas de suas propostas para tanto.

Uma Economia Humana para os 99%
Outras conclusões do Relatório da Oxfam (Davos, 2017)
  • Desde 2015, o 1% mais rico detinha mais riqueza que o resto do planeta.i
  • Atualmente, oito homens detêm a mesma riqueza que a metade mais pobre do mundo.ii
  • Ao longo dos próximos 20 anos, 500 pessoas passarão mais de US$ 2,1 trilhões para seus herdeiros – uma soma mais alta que o PIB da Índia, um país que tem 1,2 bilhão de habitantes.iii
  • A renda dos 10% mais pobres aumentou em menos de US$ 65 entre 1988 e 2011, enquanto a dos 10% mais ricos aumentou 11.800 dólares – 182 vezes mais.iv
  • Um diretor executivo de qualquer empresa do índice FTSE-100 ganha o mesmo em um ano que 10.000 pessoas que trabalham em fábricas de vestuário em Bangladesh.v
  • Nos Estados Unidos, uma pesquisa recente realizada pelo economista Thomas Pickety revela que, nos últimos 30 anos, a renda dos 50% mais pobres permaneceu inalterada, enquanto a do 1% mais rico aumentou 300%.vi
  • No Vietnã, o homem mais rico do país ganha mais em um dia do que a pessoa mais pobre ganha em dez anos.vii
  • Uma em cada nove pessoas no mundo ainda dorme com fomeviii.
  • O Banco Mundial deixou claro que, sem redobrar seus esforços para combater a desigualdade, as lideranças mundiais não alcançarão seu objetivo de erradicar a pobreza extrema até 2030.ix
  • Os lucros das 10 maiores empresas do mundo somam uma receita superior à dos 180 países mais pobres juntos.x
  • O diretor executivo da maior empresa de informática da Índia ganha 416 vezes mais que um funcionário médio da mesma empresa.xi
  • Na década de 1980, produtores de cacau ficavam com 18% do valor de uma barra de chocolate – atualmente, ficam com apenas 6%.xii
  • A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que 21 milhões de pessoas são trabalhadores forçados que geram cerca de US$ 150 bilhões em lucros para empresas anualmente.xiii
  • As maiores empresas de vestuário do mundo têm ligação com fábricas de fiação de algodão na Índia que usam trabalho forçado de meninas rotineiramente.xiv
  • Embora as fortunas de alguns bilionários possam ser atribuídas ao seu trabalho duro e talento, a análise da Oxfam para esse grupo indica que um terço do patrimônio dos bilionários do mundo tem origem em riqueza herdada, enquanto 43% podem ser atribuídos ao favorecimento ou nepotismo.xv
  • Mulheres e jovens são particularmente mais vulneráveis ao trabalho precário: as atividades profissionais de dois em cada três jovens trabalhadores na maioria dos países de baixa renda consistem em trabalho vulnerável por conta própria ou trabalho familiar não remunerado.xvi
  • Nos países da OCDE, cerca de metade de todos os trabalhadores temporários tem menos de 30 anos de idade e quase 40% dos jovens trabalhadores estão envolvidos em atividades profissionais fora do padrão, como em trabalho por empreitada ou temporário ou empregos involuntários em tempo parcial.xvii
  • A edição de 2016 do relatório anual do Fórum Econômico Mundial sobre as disparidades de gênero revela que a participação econômica de mulheres ficou ainda mais baixa no ano passado e estima que serão necessários 170 anos para que as mulheres recebam salários equivalentes aos dos homens.xviii
Sugestões da Oxfam para uma economia mais humana
1. Governos que trabalhem para os 99%
2. Incentivo à cooperação entre os países
3. Modelos de empresas com melhor distribuição de benefícios
4. Tributação justa à extrema riqueza
5. Igualdade de gênero na economia humana
6. Tecnologia a serviço dos 99%
7. Fomento às energias renováveis
8. Valorização e mensuração do progresso humano
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FONTE:  http://outraspalavras.net/capa/o-novo-salto-global-da-desigualdade/ 16/01/2017

Zineb, dois anos depois do massacre do Charlie Hebdo: “Não tenho o direito de calar a boca”

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Escapou ao atentado contra o Charlie Hebdo e é das mulheres mais protegidas de França. Zineb El Rhazoui falou ao Observador da sua luta contra o que chama 
de "fascismo islâmico".
Para os crentes, foi graças a Deus que a jornalista franco-marroquina Zineb El Rhazoui se salvou da matança de uma dúzia de companheiros e polícias no dia 7 de Janeiro de 2015 nas instalações do semanário satírico Charlie Hebdo. Para Zineb, uma ateia, foi simplesmente pelo facto de estar em Marrocos, de férias. Militante dos direitos humanos, dos direitos da mulher e defensora da laicidade, esta jornalista de 35 anos saiu entretanto do semanário, e, com uma renovada força, escreveu o livro Détruire le Fascisme Islamique (Destruir o Fascismo Islâmico). Um texto tão curto (70 páginas de uma edição de bolso) quanto frontal, no qual desmonta os argumentos de quem, perante a mínima crítica em relação ao islão, grita ‘islamofobia’ ou ‘racismo’.

Zineb não consegue ser discreta. Desde jovem que corre riscos, seja a fazer oposição ao regime marroquino, seja na forma como se veste (renegando o véu, por exemplo). Até a comer uma sanduíche se revela de enorme coragem. No verão de 2009, o grupo Mouvement Alternatif pour les Libertés Individuelles, fundado por Zineb El Rhazoui e por uma amiga, agitou Marrocos. Marcaram um piquenique em pleno dia durante o Ramadão. O objetivo era protestar contra um artigo do código civil que proibia os marroquinos de quebrarem o jejum em público. O atrevimento não chegou ao fim, porque a polícia interveio, mas Zineb não se livrou de problemas com a justiça nem com os fundamentalistas: recebeu a primeira condenação, de muitas, sob a forma de uma fatwa.
Hoje, a viver em França, continua com a cabeça a prémio.

Zineb
Destruir o Fascismo Islâmico, é o livro mais recente de Zineb

Foi ameaçada de morte. Continua a ser protegida pela polícia?
Sim, dizem que sou a mulher com mais proteção em França. Tenho várias fatwas a condenarem-me à morte, é uma espécie de palavra-passe que permanece com a pessoa. E é a prova que estamos face ao fascismo, face a um totalitarismo. E nunca aceitarei ceder para respeitar qualquer coisa sagrada que é defendida por kalashnikovs. Diria que o nosso dever enquanto espíritos livres é bater-nos contra os ditadores.

“(Os islamistas) gritam em coro ‘isto não é o Islão’ de cada vez que há um atentado terrorista islâmico, mas ao mesmo tempo tentam impedir a sociedade de combater as manifestações da mesma ideologia criminosa que eles repudiaram hipocritamente (…) os terroristas não representam o Islão mas quem denuncia a sua ideologia é acusado de atingir a totalidade dos muçulmanos.”
pág. 15

Não deve ser fácil viver assim.
Não é nada fácil. Quer dizer que vivo sempre a minha vida, pública ou privada, com outras pessoas, com agentes que me acompanham. Não me vou queixar da proteção que recebo. Considero que pertenço a um país que protege os seus cidadãos. Tenho o dever de continuar a falar porque penso em todos os jornalistas, escritores, intelectuais e cartoonistas que têm a mesma mensagem que eu, mas que vivem em países nos quais os Estados podem ser um pesadelo para eles. Ou penso em jornalistas que trabalham em ambientes muito complicados, como por exemplo no México, onde há uma elevada taxa de assassínios. Ninguém os protege, mas continuam a arriscar a vida enquanto cumprem o seu dever enquanto jornalistas. Por isso, tendo eu esta proteção do Estado, não tenho o direito de calar a minha boca. Tenho de continuar a falar e compreender que esta proteção não é para mim, mas para a minha liberdade de expressão e para as ideias pelas quais luto.

“Numa insuportável complacência, os media ocidentais defenderam o burkini como uma ‘liberdade’ e uma expressão cultural legítima de uma parte da humanidade. Saberão ao menos que nas praias dos países muçulmanos nunca houve burkini? (…) Quem fala do pesadelo que vive uma temerária que decida deambular nas ruas de Argel, Casablanca ou Cairo de saia?” págs. 65-66
 
"Dizem que sou a mulher com mais proteção em França. Tenho várias fatwas a condenarem-me à morte, é uma espécie de palavra-passe que permanece com a pessoa. E é a prova que estamos face ao fascismo, face a um totalitarismo." 
 
Há dois anos deu-se o massacre no Charlie Hebdo. Crê que os franceses, bem como os europeus, estão mais conscientes do perigo a que chama fascismo islâmico?
Tenho a certeza de que o povo está mais consciente. As pessoas nas ruas, as pessoas com quem eu falo, sim, mas os políticos nem tanto. Parecem estar conscientes, ao repetirem que ‘agora estamos numa guerra contra o terrorismo’, etc. Mas não estão a tomar as medidas corretas. Certo, estamos numa situação em que é muito importante tomar medidas de segurança e de recolha de informações. Mas não chega. Não se luta contra o fascismo se não o encararmos como tal. Não se consegue eliminar o terrorismo com o código penal comum. No fim da Segunda Guerra, quando se quis erradicar o nazismo, não se quis apenas condenar os nazis que sujaram as mãos. O nazismo não foi tratado como um crime ordinário, mas como uma ideologia, e a Europa proibiu os nazis de darem preleções e também as manifestações pacíficas pela ideologia nazi. Para nos desembaraçarmos do fascismo temos de nomeá-lo e temos de combatê-lo ao nível ideológico e não tanto ao nível militar.

“Os crimes mais abjetos do Estado Islâmico não são mais do que um remake no século XXI do que fizeram os muçulmanos dos primeiros tempos, sob a direção do profeta.” pág. 24

Como é que se pode destruir o que apelida de fascismo islâmico?
A primeira coisa, logo à partida, é chamar o fascismo pelo seu nome: defini-lo como um fascismo ideológico e não enquanto cultura, ou raça ou identidade étnica. É importante qualificar o fascismo islâmico como todos os outros fascismos que a Europa conheceu e de dizer que possui exatamente as mesmas características dos outros fascismos. Trata-se de um totalitarismo e, como tal, temos de nos libertar dele. Na Europa, há quem esconda os verdadeiros problemas. Começam a dizer, por exemplo, que o terrorismo é um problema social, causado pela pobreza, pelo colonialismo, por problemas psiquiátricos. Tudo isso é falso. A única maneira de fazer a desradicalização é libertar a crítica sobre o Islão. É dizer que não há motivo algum para excluir o Islão do universalismo republicano, do universalismo do pensamento. Voltaire, as Luzes, o cartesianismo, a lógica, a razão, não são exclusivos do Ocidente, são do planeta inteiro, são valores universais. Há que obrigar o Islão a respeitar as leis e os valores da razão, que são os valores da democracia ocidental.

“Negação do pluralismo social, sexismo repressivo contra as mulheres e os homossexuais, manutenção de milícias armadas, adoção de uma bandeira e de uma terminologia… o fascismo islâmico assemelha-se em tudo aos fascismos de extrema-direita tradicionais, mas vingou onde todos os outros falharam: alcançou uma respeitabilidade aos olhos dos inimigos, entre os quais a extrema-esquerda, os intelectuais, os anti-racistas, os políticos e até as feministas.”
pág. 46

"O nazismo não foi tratado como um crime ordinário, mas como uma ideologia, e a Europa proibiu os nazis de darem preleções e também as manifestações pacíficas pela ideologia nazi. Para nos desembaraçarmos do fascismo temos de nomeá-lo e temos de combatê-lo ao nível ideológico e não tanto ao nível militar." 
 
Como é que as propostas do seu livro estão a ser recebidas em França?
Tenho recebido enorme apoio da parte de leitores e de cidadãos que estão de acordo comigo. Evidentemente que há pessoas que não estão contentes sobre o que digo sobre o Islão. São os islamistas e as suas associações, bem como os pseudo-intelectuais, que são na realidade os pregadores do Islão, bem como os idiotas úteis da política, que preferem a demagogia e a hipocrisia intelectual para lisonjearem os islamistas e para poderem manter esta visão de uma sociedade comunitária para poderem ser eleitos pelos votantes islamistas.

“Uma parte da classe política, direita e esquerda por igual, prefere ver a sociedade em parcelas de mercado comunitárias, junto das quais será mais fácil concluir compromissos democráticos para depois comprar votos em segmentos inteiros. Quem melhor que o imã de uma mesquita para dar instruções de voto?”
pág. 47

Quando é que tomou consciência dos temas sobre os quais milita?
Sou uma mulher marroquina, nasci e vivi num país que não respeita os direitos humanos nem os direitos da mulher, que está muito, muito longe de ser uma democracia, é uma ditadura. Há medo do ditador, há um medo religioso. Muito rapidamente compreendi a importância de me interessar por essas questões, que são sobre a nossa dignidade.

“O culto exacerbado da personalidade do profeta vai até à interdição de representá-lo, sob pena de morte. Aqueles que pensam que só um punhado de loucos é capaz de matar por um desenho de Maomé ignoram que, onde quer que o Islão reine como religião de Estado, a caricatura e o cartoon são reprimidos. O rei Hassan II (de Marrocos) (…) rapidamente interditou a caricatura (…) Justificou a decisão pelos mesmos argumentos de exegese que os assassinos de Charlie Hebdo: quem desenha desafia o poder criador de Alá. Hassan II morreu, mas continua a ser proibido fazer caricaturas de Mohamed VI, porque este será um descendente longínquo do profeta.”
págs. 43-44

Mas tinha que idade?
Era adolescente. Mesmo antes, quando era criança, comecei a ter dúvidas sobre a existência de Deus. É uma caminhada que começa muito cedo e que é marcada por duvidar dos valores que nos transmitem. Porque é que as leis de Deus não são justas, porque é que as mulheres estão escondidas debaixo de um manto, prostradas, sem direitos, domésticas? Comecei a fazer as minhas leituras, as minhas pesquisas. E, como não posso livrar-me da ditadura de Deus, tentei livrar-me da ditadura dos ditadores, daquele que executa a ditadura de Deus na Terra. Ao mesmo tempo, não é possível desejar uma democracia e uma sociedade democrática sem nos libertarmos da ditadura religiosa. O totalitarismo político e o totalitarismo religioso estão a par, não nos podemos libertar de um sem nos libertarmos do outro.

“Basta olharmos para os países em que o Islão é aplicado, parcial ou totalmente, para nos darmos conta do pouco caso que os islamistas fazem dos princípios universais de que os próprios se aproveitam em democracia. Em nenhuma teocracia islâmica é concedida a liberdade de consciência e de culto aos seus cidadãos.”
pág. 19

"Como não posso livrar-me da ditadura de Deus, tentei livrar-me da ditadura dos ditadores, daquele que executa a ditadura de Deus na Terra. Ao mesmo tempo, não é possível desejar uma democracia e uma sociedade democrática sem nos libertarmos da ditadura religiosa." 
 
Tornou-se numa muçulmana ateia, o que não é muito comum.
Na verdade, quem nasce em Marrocos é obrigatoriamente rotulado de muçulmano. Não existe escolha, não há leis seculares. As leis que regulam o casamento, o divórcio ou a herança são inspiradas no Islão. A educação religiosa é obrigatória na escola, desde o jardim infantil até ao fim da escola secundária. É uma lavagem ao cérebro. Mais tarde, quando evoluí para o livre arbítrio, passei a ser uma muçulmana ateia, uma ateia de cultura muçulmana. Também há em Marrocos quem seja ateu de cultura católica. Para mim é importante referir que a civilização islâmica também produz pessoas que são livres. O discurso que se ouve hoje na Europa é que não se pode criticar o Islão, porque é racismo. Para mim, a religião e a raça são coisas diferentes. No caso do Islão, a ideologia religiosa não se deve confundir com a identidade étnica ou racial dos povos. É completamente absurdo.

“O islamista trabalha para isolar a sua comunidade, para erguer um muro de vestuário, um muro cultural, linguístico, geográfico e jurídico entre os muçulmanos e os outros, mas é ele quem acusa o mundo inteiro de o odiar.” pág. 19
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Reportagem por  César Avó
Fonte:  http://observador.pt/especiais/zineb-dois-anos-depois-do-massacre-do-charlie-hebdo-nao-tenho-o-direito-de-calar-a-boca/

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

O legado Obama




Obama posa para uma fotografia 3D (Pete Souza - 9.jun.2014/Casa Branca)

Em oito anos, primeiro presidente negro dos EUA recuperou a economia e melhorou a imagem do país; aumento da desigualdade e omissão na Síria estão entre fracassos

‘Foi um governo sem escândalos e com dignidade’, afirma biógrafo

De São Paulo
15.jan.2017 - 02h00









Obama e sua mulher, Michelle, chegam para cerimônia no Memorial Lincoln, em Washington (Jewel Samad - 28.ago.2013/Associated Press)

Um dia depois de se reunir pela primeira vez com seu sucessor, em novembro, Barack Obama sentou-se no mesmo local, o Salão Oval da Casa Branca, com o jornalista David Remnick para conversar sobre a eleição.

Editor-chefe da revista “The New Yorker” e autor da principal biografia de Obama, “A Ponte” (Companhia das Letras), Remnick perguntou como havia sido seu encontro com Donald Trump, e, segundo relata, o presidente disse que lhe contaria “um dia, em off, tomando uma cerveja”.

No discurso oficial, Obama deixou de lado o tom crítico adotado na campanha e passou a defender a seriedade da Presidência. Em entrevista por telefone à Folha, Remnick diz não acreditar na mudança de opinião do presidente. “Ele não está livre para falar o que pensa.”

Remnick não tem tanta autocensura. Trump, defende, pode ser um desastre para os EUA. Já Obama, diz, entrará na história como parte de um honroso “segundo pelotão” de presidentes do país —atrás somente dos maiores da história–-, mas a vitória do republicano ameaça o que o primeiro presidente negro dos EUA construiu.

Folha - Qual será o lugar de Obama na história dos presidentes dos EUA?
David Remnick - Não sou historiador, e é impossível saber com certeza, mas acho que ele estará no segundo pelotão dos presidentes americanos. O primeiro seria formado por FDR [Franklin Delano Roosevelt], [Abraham] Lincoln e os Pais Fundadores da democracia dos EUA [líderes da independência e que redigiram a Constituição]. Obama estaria em um grupo abaixo, mas de presidentes muito bons. E acho que vamos sentir isso ainda mais dentro de dois anos, ou mesmo de dois meses, de governo Trump.

Qual será o legado de Obama?
O legado tem de ser visto no contexto de como ele chegou à Presidência. Ele foi eleito como o primeiro presidente afrodescendente, um marco histórico extremamente importante, pois raça é a saga mais dolorosa deste país. Foi eleito apesar de enorme oposição política, e devolveu uma economia em colapso, com desemprego fora de controle, à estabilidade —recuperando também, por extensão, a economia mundial.

O principal destaque é a recuperação econômica do país?
Havia muitas crises, estávamos em péssimo estado. Hoje, apesar da ansiedade que milhões de americanos e eu sentimos com Trump, o país que ele herda é muitíssimo melhor do que o que Obama recebeu, em 2009. Ele deu fim às guerras no Afeganistão e no Iraque —mesmo que isso esteja atrelado a problemas novos, especialmente com o Estado Islâmico e a Síria.

Não quero fingir que não há problemas, especialmente para a classe média, mas as coisas estão melhores. Todo brasileiro vai entender do que estou falando, considerando o que vocês enfrentam: esta é uma Presidência sem grandes escândalos, sem casos de corrupção, e com senso de dignidade mesmo quando enfrentou extrema oposição política e forte racismo. É uma conquista do caráter, e duvido que isso seja alcançado pelo caráter do senhor que está entrando em cena em seu lugar.
Estávamos em crise, em péssimo estado. Hoje, apesar da ansiedade que milhões de americanos e eu sentimos com Trump, o país que ele herda é muitíssimo melhor do que o que Obama recebeu, em 2009

David Remnick

biógrafo de Obama e editor da revista “The New Yorker”
Obama fez campanha sobre esperança e mudança. Quanto disso fica após a eleição?
Estamos navegando águas desconhecidas. Já tivemos demagogos na política americana antes, mas nunca no nível nacional assim. Só espero que possamos sobreviver ao que vejo como uma escolha desastrosa. Espero que esteja errado. Seria maravilhoso se Trump fosse uma mistura de Abraham Lincoln e Franklin Roosevelt. Ficarei aliviado se ele se separar desse comportamento com instintos autoritários que ele demonstra ter. Só não acho que isso vá acontecer.

Trump pode desfazer o que vê como conquistas de Obama?
Claro que sim. Ele é o presidente e tem o poder para fazer muita coisa. Vivemos num mundo de acordos de segurança que impediram o pior de acontecer por meio século. De repente temos alguém que questiona o básico, a Otan, a relação com a China, alguém que parece se beneficiar de um fascínio estranho por Vladimir Putin.

As pessoas que ele indicou para o seu governo são muito assustadoras. Michael Flynn [indicado como assessor de Segurança Nacional] particularmente. O novo chefe da Agência de Proteção Ambiental [Scott Pruitt] parece ser contra a proteção ambiental. Isso é muito sério em um mundo com crescente aquecimento global, e o planeta vai sofrer muito com isso.

Após a eleição, Obama adotou um tom conciliatório.
Obama está tentando não criar problemas. Ele lembra bem da sua transição, quando George W. Bush agiu de forma muito decente com ele. Ele está tentando fazer o mesmo, mas ninguém se ilude em relação ao que ele pensa sobre Trump.

Ele não mudou de opinião?
Claro que não. Ele passou de uma situação de campanha para uma transição de governo. As circunstâncias mudaram. Ele tem um papel político a cumprir e não está livre para falar o que pensa.

Quais foram os maiores erros de Obama?
A questão ambiental é importante, e ele foi lento. Em termos de política externa, houve erros na Síria. A relação com Putin e a Rússia não foi das melhores. Entretanto, mesmo que isso faça com que eu pareça um torcedor exagerado, toda a incapacidade de Obama em fazer o que ele queria se deve às limitações impostas pelo Congresso.

Ele é criticado pelo uso de drones em ataques no Oriente Médio, bem como por não ter fechado Guantánamo.
Ele vê o não fechamento de Guantánamo como um fracasso, e concordo. A questão dos drones me parece mais moralmente complicada. Existem pessoas que querem causar mal aos EUA, e o governo precisa fazer algo. Isso é algo em que ele pensou, e ele vê drones como a opção menos ruim do seu arsenal. Não fazer nada não é uma opção. Acho difícil saber até que ponto o uso de drones pode ser interpretado como puro imperialismo, e não algo muito mais complexo.
Sua personalidade não mudou nada. É o mesmo cara descolado, decente, inteligente, intelectual. É a mesma pessoa

David Remnick

biógrafo de Obama e editor da revista “The New Yorker”
Acha que ele deixa o governo realizado ou frustrado?
Ambos. Nenhum presidente deixa o governo achando que fez tudo o que queria. A eleição de Trump o deixa frustrado, como se o seu governo tivesse sido repudiado.

Obama poderia ter evitado a vitória de Trump?
Ele fez muita campanha para Hillary, e de forma intensa. Acho que precisamos saber mais sobre a influência russa, e me pergunto o que ele poderia ter feito para evitar esta invasão hacker. Mas precisamos lembrar que ele deixa o governo com a popularidade muito alta, e que os dois candidatos tinham índices altos de rejeição. Muita gente não gosta de Hillary Clinton, e ela cometeu erros como candidata, ignorou o Meio-Oeste, foi fazer campanha em lugares como Texas e Arizona.

Ser substituído por Trump é algo que pode tornar a imagem do seu legado mais positiva?
Seu governo vai deixar saudade pelas qualidades de Obama e pelo que podemos antecipar a respeito do governo Trump. Estamos em perigo terrível por razões de caráter, de falta de honestidade, de intelecto e falta de preparo. Como patriota, Obama preferiria ver Trump surpreender todo mundo e ser um ótimo presidente, mas acho que ele não é otimista.

Quanto acha que Obama mudou após oito anos na Presidência?
Sua personalidade não mudou nada. É o mesmo cara descolado, decente, inteligente, intelectual. É a mesma pessoa.

Qual vai ser o papel dele na política após deixar o governo?
Não esperaria que ele tivesse uma atuação política, especialmente no primeiro ano. Imagino que ele vá ficar mais afastado e que vá escrever um livro. Mais adiante, é difícil saber.

Pretende ter contato com ele após o fim do governo? Pensa em atualizar a biografia?
Nós não somos amigos. Escrevi sobre ele, mas não pretendo escrever um novo livro ou um novo capítulo.






Obama e o senador Mitch McConnell (à dir.) durante reunião com congressistas republicanos na Casa Branca (Larry Downing - 7.nov.2014/Reuters)

Para a elite de Washington, será lembrado como ‘alheio’ e ‘arrogante'

Raul Juste Lores

De São Paulo
15.jan.2017 

Boa parte das biografias e reportagens publicadas nos EUA com balanços da era Obama usam variações de “distante” e “alheio” para descrever o comportamento do presidente.

Para boa parte da elite de Washington, essa é a imagem que ficou, longe do carisma e do sorriso popularizados em vídeos na internet.

Um dos primeiros a revelar essa faceta menos conhecida foi o jornalista Ron Suskind, vencedor do Pulitzer, autor do livro “Confidence Men: Wall Street, Washington, and the Education of a President” (Os homens de confiança: Wall Street, Washington e a aprendizagem de um presidente, inédito no Brasil).

Nele, Obama aparece como um solitário, que prefere passar as noites lendo e estudando, ou jantando com a família, do que receber políticos ou costurar acordos com o Congresso.

“Ele tem horror a políticos e até a fazer política. Seu tom professoral e distante irrita até os colegas de partido”, descreveu.

Na biografia “A Ponte” (Companhia das Letras), David Remnick diz que Obama “se mostrava distante aos próprios aliados, ao ponto da arrogância”.

Depois de ter a votação do orçamento bloqueada pela oposição republicana duas vezes, o que congelou os fundos de várias agências do governo, Obama foi cobrado publicamente para negociar.
Chamou ao Salão Oval da Casa Branca os dois líderes do Senado, o democrata Harry Reid e o republicano Mitch McConnell, e lhes disse, rispidamente, que “encontrassem um jeito”. “Não vou fazer concessões”, afirmou, encerrando a conversa. O “New York Times” descreveu o episódio, em 2013. A história se repetiu depois.

Em um dos jantares para os correspondentes da Casa Branca, em que faz um monólogo cômico, o presidente quase admitiu a repulsa: “Ficam me cobrando que eu convide McConnell para um drinque. Por que vocês não o chamam para beber?”, riu.

O novato na política Donald Trump tem um traço em comum com Obama quando o democrata chegou à Presidência: ambos fizeram campanha dizendo que eram “de fora da máquina” partidária, que eram contra lobistas e que desprezavam “a classe política de Washington” (os termos são até os mesmos).

Obama manteve a promessa: cercou-se de um grupo muito jovem e fiel de fora da capital, e lhes deu muito poder.

As longas negociações diplomáticas com Cuba e o Irã, por exemplo, foram tocadas por gente que não tinha chegado aos 43 anos (nenhum embaixador do Itamaraty, por exemplo, chega ao cargo com essa idade). As negociações jamais vazaram para a imprensa.

Isso significou que o Departamento de Estado, o Itamaraty americano, foi escanteado. Assim como veteranos democratas de diferentes correntes e partidos.

Um lobista democrata, pedindo anonimato, narrou à Folha como são os encontros com o presidente “sabe-tudo”. Chamou-o de arrogante, insular e sem-amigos. E que se sentia mais à vontade com celebridades de Hollywood que com os pares, “todos uns despreparados”.

Não se sabe se Obama é mesmo tão arrogante ou se a velha classe dirigente da cidade se ofendeu com o descaso.

Mas, contrários à missão inicial, quase todos os escudeiros que deixaram a equipe de Obama acabaram virando lobistas para grandes empresas americanas, faturando com seus contatos.

Outra crítica comum era ao clube do Bolinha que imperava no Salão Oval.

Suskind escreve que Valerie Jarrett, a assessora mais próxima (e guardiã) dos Obamas, era a única mulher nas reuniões principais nos dois primeiros anos.

“Ele até corrigiu isso no segundo mandato, colocando Susan Rice, Samantha Power e outras mulheres em altos cargos”, afirma a professora Kelly Dittmar, diretora do Centro para a Mulher Americana e a Política, da Universidade Rutgers. “Mas tudo leva a crer que era um clubinho de rapazes mesmo.”







Em abril de 2016, Obama convidou o rival republicano John Boehner, ex-presidente da Câmara, para assistir ao filme "Toy Story" na Casa Branca (Reprodução)
Futuro

Vazio no campo democrata projeta um ex-presidente superpoderoso 

Anna Virginia Balloussier

De Nova York

15.jan.2017
George W. Bush (2001-09) pintou retratos de Silvio Berlusconi e Vladimir Putin. Theodore Roosevelt (1901-09) foi caçar por um ano na África. John Quincy Adams (1825-29), que depois passaria 17 anos no Congresso, refletiu: “Não há nada mais patético na vida do que um ex-presidente”.

A pergunta agora se volta a Barack Obama: o que será dele depois da Casa Branca? Ele também está curioso. “Tem algum conselho para mim?”, pergunta o democrata ao ex-presidente da Câmara John Boehner, um republicano.

Em cinco dias, o presidente adicionará o mesmo prefixo “ex” ao cargo que ocupa há oito anos. Em abril de 2016, chamou o rival político para um vídeo no qual zomba da perspectiva de ostracismo na vida após Washington. Título: “Couch Commander” (comandante do sofá).

Os dois assistem a “Toy Story” sentados em poltronas de couro vermelho, pipoca na mão. “Ontem”, reflete o ex-deputado, “tomei uma cerveja às 11h30. E o McDonald’s serve café da manhã o dia todo”.

Na vida real, Obama terá mais o que fazer do que decidir se começará o dia com uma gelada. Embora a maioria da população rejeite vitrines suas, do Obamacare à Parceria Transpacífico, ele deixa o posto com boa popularidade.

Resta saber como usará o capital político, sobretudo quando os democratas ainda tentam se recuperar do baque que foi perder a Presidência para Donald Trump —e sem uma liderança natural para preencher o vazio deixado pela derrocada da era Clinton.

“Se Hillary tivesse ganhado a eleição, suspeito que Obama ficaria feliz em sair da cena, ao menos num primeiro momento”, diz à Folha David Cohen, do grupo Projeto de Transição da Casa Branca.
“Agora Obama deverá ser um ex-presidente ativo, mais do que qualquer outro. A vitória surpresa de Trump e um Congresso de maioria republicana ameaçam seu legado.”

Em novembro, Obama afirmou à “Vanity Fair” que não pretende se aposentar tão cedo. Lembrou que é novo (55 anos) e destacou um plano concreto: abrir uma biblioteca como parte do Centro Presidencial Obama, em Chicago, seu berço político.

Até aí não é novidade. Bill Clinton montou a Fundação Clinton para proteger seu espólio presidencial, e Jimmy Carter se dedica a contornar conflitos globais e doenças no Centro Carter —vencedor do Nobel da Paz de 2002, já declarou: “Não posso negar que me saio melhor como ex do que como presidente”.

Em 2015, Barack e Michelle ficaram até duas horas discutindo o futuro com 13 convidados na Casa Branca, entre eles o cofundador do LinkedIn Reid Hoffman, a Nobel de Literatura Toni Morrison e a atriz Eva Longoria (da série “Desperate Housewives”). Não existe jantar grátis: segundo o “New York Times”, o presidente já corria atrás de doações para seu instituto.

Parte do Vale do Silício o ajuda a planejar seus próximos passos, alimentando a especulação de que ele criará algum laço com o polo tecnológico. Auxiliares de Obama, que se define como “nerd” (“E não preciso me desculpar por isso”), espalham-se por empresas como Apple e Amazon. Arquiteto de sua campanha de 2008, David Plouffe está na Uber.

O presidente também deu sinais de que participará ativamente da agenda de Washington. “Sua defesa vigorosa do Obamacare sugere que ele não tirará férias da vida pública”, afirma o cientista político William Howell, da Universidade de Chicago.

Para Patrick Griffin, da Universidade de Notre Dame, ele “cultivará o papel de consciência da nação”, um gesto não isento de controvérsia.

“Alguns saudarão, por achar que o primeiro presidente negro dos EUA tem responsabilidade moral de garantir que sua visão para o país se concretize”, diz. “Outros chiarão contra sua intromissão em assuntos políticos, em desrespeito à natureza do papel de um ex-mandatário.”

Os Obamas continuarão em Washington por ora, numa casa alugada de nove quartos. Ficam ao menos até a filha Sasha, 15, se formar no colégio —a primogênita Malia, 18, cursará Harvard, a mesma faculdade dos pais.

Oficialmente, Obama não adiantou qual será a próxima parada profissional. Só disse, em outubro, que pretende “dormir por duas semanas e então levar Michelle para umas férias bem legais”.

OLHA ELA

Democratas especulam sobre quem deixará mais saudades, se o sr. ou a sra. Obama.

Michelle fez alguns dos discursos mais marcantes da última temporada eleitoral. De julho, na convenção de seu partido, veio o bordão “Se eles baixam o nível, nós o elevamos” —dois meses depois, uma republicana chamou a primeira-dama descendente de escravos de “macaco de salto alto”.
Em outubro, criticou o que julgou ser o fundo do poço: a divulgação de acusações de assédio e comentários sexistas de Trump. “Homens fortes não precisam subjugar mulheres para se sentirem poderosos.”

Sua desenvoltura em público anima democratas já de olho na disputa presidencial de 2020. Ela nega ter qualquer interesse na vida política. Em novembro, o marido disse à “Rolling Stone” que Michelle jamais se candidatará. “Brinco que ela é muito sensível para estar na política.”

Só se for piada. A mulher com quem trocou o primeiro beijo em 1989, quando dividiam uma casquinha de chocolate, é conhecida pela personalidade forte. Na primeira eleição de Obama, conservadores a rotularam com o estereótipo de “mulher negra raivosa”, disposta a acirrar as tensões raciais na América.

Na prática, ela aderiu a agendas incontestes, como o combate à obesidade infantil, e incorporou a imagem de uma primeira-dama “light”, que dança Beyoncé na TV.

“Como Hillary foi para Bill, Michelle é vista por setores democratas como herdeira política do marido. O céu é o limite para ela”, diz o professor Griffin. Basta saber o quão longe esta Obama quer voar.






Os Obamas fazem uma performance durante leitura do livro "Onde Vivem os Monstros" para crianças na caça aos ovos de Páscoa na Casa Branca (Yuri Gripas - 28.mar.2016/Reuters)
Mídia

Pop, Obama alimentou a cultura de seu tempo e se alimentou dela

Luciana Coelho

Editora de “Mundo”
15.jan.2017 

Ao entrar na conta da Casa Branca em uma rede social em um domingo, o primeiro nome de “quem seguir” sugerido pela plataforma é o da estrela de reality show Kim Kardashian. Uma versão atual do “diz com quem andas”: diga-me quem é associado à sua página e eu lhe direi quem você é (ou o que você parece).

Presidentes, salvo anacronismos, são o produto de seu tempo. Entre os 43 que os Estados Unidos tiveram, porém, raros governaram em tamanha simbiose com a cultura de sua época como Barack Obama, alimentando-a e alimentando-se dela.

O democrata tem consciência disso, e usou seu gosto pelo pop e a inédita superexposição para atingir mais rapidamente seus objetivos.

“As mesmas referências culturais que moldaram vocês me moldaram, e o fato de isso ter ocorrido até os meus 45 anos me diferencia da maior parte dos presidentes”, disse Obama em entrevista ao colunista Philip Galanes e ao ator Bryan Cranston (de “Breaking Bad”) para o “New York Times” no ano passado, na qual se definiu como “a pessoa mais filmada e fotografada da história”.

O fato de ser catapultado ao estrelato político sem escalas entre meio mandato no Senado e a chegada à Casa Branca aos 47 anos, enquanto a maioria de seus pares se blinda na política mais cedo, permitiu a Obama levar uma vida normal por mais tempo, mantendo fluente sua conexão com a cultura pop.

Esses pontos de identificação ressoam fortemente para o público de 18 a 49 anos, que compõe a maior faixa do eleitorado e a mais cobiçada fatia para o entretenimento.

Obama divulga “playlists” e fala sobre séries de TV. No baile da segunda posse, cantaram Alicia Keys a Stevie Wonder, dois favoritos do reeleito, e ele e Michelle dançaram embalados por Jennifer Hudson, revelada pelo “American Idol”. A plateia se divertiu como se não fosse um evento político, testemunhou a reportagem da Folha.

A proximidade com artistas obviamente não começou com Obama. O político havaiano, contudo, copiou do showbiz táticas para divulgar seu trabalho, o que o levou a participar de programas de TV e internet de forma inédita para um chefe de Estado.



























































 

 

 

Os principais fatos da era Obama



A Folha reuniu os principais episódios dos dois mandatos de Barack Obama.

Relembre as batalhas com os republicanos no Congresso, a intervenção militar na Líbia e a luta para aprovar a reforma imigratória.

Nestes oito anos, Obama passou por altos e baixos em seus índices de popularidade —acompanhe a medição do instituto Gallup ao longo do seu governo.




Cronologia

Os anos Obama e sua popularidade, segundo o instituto Gallup
24.jul.2008

União global

Candidato democrata à Presidência, Obama discursa para 200 mil pessoas em Berlim e pede o fim dos muros entre os povos e religiões
4.nov.2008

"Yes, we can"

É eleito o 1º presidente negro dos EUA, com 53% dos votos e vantagem de 10 milhões no voto popular sobre o republicano John McCain
20.jan.2009

Popularidade: 68%

Toma posse como 44º presidente dos EUA e promete reconstruir o país, em meio à crise financeira
22.jan.2009

68%

Assina ordem executiva para fechar Guantánamo em um ano; a prisão em Cuba, porém, segue ativa
23.jan.2009

69%

Pico de popularidade de Obama em seus dois mandatos
2.abr.2009

62%

Em reunião do G-20 em Londres, diz que o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva "é o cara"
26.mai.2009

65%

Indica a primeira latina à Suprema Corte, Sonia Sotomayor, confirmada pelo Senado em agosto
4.jun.2009

62%

Em discurso no Cairo (Egito), cita o Alcorão e pede "um novo começo" nas relações entre o islã e os EUA
9.out.2009

54%

Recebe o Prêmio Nobel da Paz; a indicação rendeu críticas de diversos organismos internacionais
1º.dez.2009

49%

Contrariando a promessa de acabar com a guerra, anuncia o envio de 30 mil soldados ao Afeganistão
23.mar.2010

50%

Assina a lei do Obamacare, que obriga todo cidadão a aderir a um plano de saúde (o governo cobre os mais pobres)
31.ago.2010

47%

Em discurso no Salão Oval, anuncia o fim da Guerra do Iraque, com o início da saída das tropas americanas
2.nov.2010

43%

Sofre sua primeira derrota ao ver os democratas perderem o controle da Câmara para os republicanos
3.mar.2011

45%

Pela primeira vez, afirma publicamente que o ditador Muammar Gaddafi deve deixar o poder na Líbia
19 e 20.mar.2011

46%

Em visita ao Brasil, autoriza o início da ação militar na Líbia e vai ao Cristo Redentor com a família
4.abr.2011

46%

Anuncia que será candidato a um segundo mandato na eleição presidencial do ano seguinte
1º.mai.2011

46%

"A justiça foi feita", afirma em discurso na TV ao anunciar a morte de Osama bin Laden em ope-ração militar
19.mai.2011

49%

Defende os protestos por democracia no mundo árabe e cita "novo capítulo" nas relações EUA-Oriente Médio
2.ago.2011

42%

Consegue apoio republicano para aumentar o teto da dívida pública e evita inédito calote dos EUA
22.ago.2011

38%

Obama atinge seu pior índice de popularidade até então
20.out.2011

42%

Saúda a morte do ditador líbio Muammar Gaddafi por rebeldes como fim da "sombra da tirania"
9.mai.2012

48%

Afirma que "passou por uma evolução" e que, agora, apoia o casamento gay também no religioso
11.set.2012

51%

Ataque terrorista em Benghazi, na Líbia, mata o embaixador dos EUA e outros três americanos
6.nov.2012

50%

É reeleito com 51% dos votos e vantagem de 5 milhões no voto popular sobre o republicano Mitt Romney
12.fev.2013

52%

Em seu discurso sobre o Estado da União, anuncia a retirada de 34 mil soldados do Afeganistão
jun.2013

47%

O ex-técnico da CIA Edward Snowden revela que a NSA espiona cidadãos americanos e estrangeiros
31.ago.2013

45%

Pede autorização ao Congresso para conduzir ataques na Síria, mas o Legislativo não vota o tema
1º.out.2013

45%

Impasse sobre o teto da dívida pública dos EUA leva o governo federal a parar parcialmente por 17 dias
17.out.2013

43%

Crise termina depois de um acordo com os republicanos que permitiu ao Congresso aprovar um novo teto
10.dez.2013

41%

Em fato inédito há mais de 50 anos, cumprimenta o ditador cubano Raúl Castro no funeral de Nelson Mandela
6.mar.2014

42%

Anuncia as primeiras sanções econômicas contra a Rússia em meio à crise na Ucrânia
29.jul.2014

39%

Propõe sanções mais severas contra Moscou depois da queda de um Boeing no leste da Ucrânia
7.ago.2014

44%

Autoriza pela primeira vez ataques aéreos contra o Estado Islâmico no norte do Iraque
3.set.2014

38%

Obama iguala seu pior índice de popularidade, atingido pela primeira vez em 2011
4.nov.2014

43%

Nas eleições legislativas, democratas perdem controle do Senado para os republicanos
20.nov.2014

41%

Lança programa que impediria deportação de 5 milhões de ilegais com filhos americanos
17.dez.2014

42%

Anuncia reaproximação diplomática com Cuba depois de mais de 50 anos de política de isolamento
28.dez.2014

45%

Otan declara o fim formal das operações no Afeganistão, mas os EUA ainda mantêm parte de seu pessoal no país
16.fev.2015

50%

Juiz federal do Texas concede liminar suspendendo o plano de Obama que impede deportações
14.jul.2015

46%

Anuncia acordo entre potências ocidentais e Irã para a redução do programa nuclear iraniano
12.dez.2015

45%

Após a aprovação do Acordo de Paris, diz que pacto é "a melhor chance de salvar o planeta"
21.mar.2016

51%

Com a mulher e filhas, faz a primeira visita de um presidente americano no cargo a Cuba em 88 anos
12.abr.2016

47%

Em entrevista, afirma que a intervenção militar dos EUA na Líbia foi o seu "maior erro" na Presidência
27.mai.2016

50%

Torna-se o 1º presidente dos EUA no cargo a visitar Hiroshima (Japão) depois da bomba atômica
23.jun.2016

50%

Suprema Corte mantém bloqueio a programa de Obama que impede deportações de ilegais
28.set.2016

51%

Congresso derruba veto de Obama à lei que permite processos contra a Arábia Saudita pelos ataques do 11 de Setembro
27.dez.2016

56%

Premiê do Japão faz visita histórica, com Obama, ao memorial das vítimas de Pearl Harbor, no Havaí
10.jan.2017

56%

Em seu último discurso, diz que as divisões na sociedade americana ameaçam a democracia
12.jan.2017

55%

Revoga política que concedia permissão automática de residência a cubanos ilegais que chegassem aos EUA

Edição: Fabio Victor, Guilherme Magalhães e Juliano Machado / Infografia: Simon Ducroquet / Design e desenvolvimento: Angelo Dias, Pilker, Rubens Alencar e Thiago Almeida
Fonte:  http://arte.folha.uol.com.br/mundo/2017/o-legado-obama/#/entrevista-david-remnick