sexta-feira, 26 de maio de 2017

O BRASIL DOS AVESSOS

--> José de Souza Martins*
  Carvall

 "Não é acidental que na história deste Brasil as revoluções sejam revoluções de quem manda, 
e não de quem é mandado."

Já houve época em que, no Brasil, ensaístas competentes e eruditos enriqueciam a cultura política do país com estudos seminais que iam ao nó de nossas incômodas contradições para nos explicar o que achávamos que éramos e não conseguíamos ser. Euclides da Cunha, o maior dos nossos ensaístas, explicou-nos com estilo e elegância o mais brutal dos nossos enganos em “Os Sertões”.

Republicanos que proclamaram uma República sem povo, constituída de uma humanidade servil, recém-saída da escravidão, analfabeta e ignorante, declararam guerra a uma comunidade de gente simples, do sertão remoto. Era, em grande número, descendente de índios tapuias. Gente refugiada na religião para, na fé, se proteger das iniquidades da política e da economia, interpretadas como sinais mais do que evidentes do fim dos tempos e da proximidade do fim do milênio. Os republicanos de praia inventaram um inimigo fictício, massacraram os devotos de uma monarquia milenarista para fazer de conta que haviam feito a revolução do progresso em nome da ordem.
São também esclarecedores seus livros "Contrastes e Confrontos" e "À Margem da História", conjuntos de ensaios sobre o que, aos olhos de hoje, podemos definir como a nossa hipocrisia constitutiva, a dos opostos refazendo-se mutuamente: os liberais opondo-se ao fim da escravidão e os conservadores empenhando-se em encerrá-la, ainda que ao seu modo, para dar lugar à terceira escravidão, a da peonagem na Amazônia. Ou, já nos tempos de agora, um capitalismo delinquente, viabilizado pela facção de direita da esquerda. Nos meus tempos de estudante universitário, os últimos militantes da esquerda juvenil diziam que, com uma esquerda dessas, não é preciso direita. Euclides já mostrara que somos o país dos avessos.

Pouco adiante, já nas primeiras crises da República, Alberto Torres, em dois robustos e luminosos ensaios, na perspectiva conservadora, analisou as perdas e insuficiências da organização política nacional. Concluiu que, na escravidão, ao menos tínhamos ordem. Ironizava aquela frase positivista colada sobre o lábaro que a bandeira ostenta estrelado: "Ordem e Progresso". Creio que foi Millôr Fernandes, um de nossos maiores pensadores, quem disse: "Desde que tenhamos ordem, não tem importância que não tenhamos progresso". Ou teria sido o Barão de Itararé, outro pensador humorista?

A verdade é que não temos os dois. O sempre lúcido Antonio Candido disse, mais de uma vez, que nossa crítica social passa pelo humor e pela troça. Digo: e nisso ficamos. Ou Tiririca não é uma significativa nota de rodapé nas linhas tortas de nosso cinismo político? A política esterilizou-lhe o humor, triste evidência de um teatro de fundo de poço.

Nessa embrulhada histórica que nos oprime há muito, o Brasil separa o desenvolvimento econômico do desenvolvimento social. O povo não conta. Não é apenas a falta de caráter de alguns, mais numerosos do que nos diz nossa vã ingenuidade, que explica a corrupção constitutiva de nosso sistema político. A partir do momento em que a ordem política foi concebida para manter o povo à margem, a porta da desordem foi escancarada e o convite à esperteza na política foi instituída.

"A Independência foi feita pelo próprio Estado, 
no herdeiro da coroa proclamando 
a independência da Colônia, 
uma revolução sem povo, 
as funções da sociedade civil 
usurpadas pelo Estado. 
Somos uma coisa à luz do dia, nas ruas, 
e outra coisa 
no escurinho do poder."

A República não só inventou um republicanismo falso e oligárquico como inventou um povo de ficção, completamente artificial, prisioneiro dos currais da dominação retrógrada. Periodicamente, as porteiras dos currais são abertas para que os inocentes úteis possam ir às urnas renovar mandatos ou eventualmente convocar esse ou aquele dissidente para que possamos fazer de conta que temos ordem. A imensa multidão dos condenados ao castigo do voto condicional, o voto sem alternativa de um sistema político de cumplicidades que nos torna todos acólitos do que nossa consciência repudia.

Isso, obviamente, não é coisa de agora. Para dizer tecnicamente, é estrutural. Tem raízes profundas, na escravidão que formou nosso caráter, nossos medos e nossa cultura de sujeição. Fomos historicamente educados para temer, obedecer e calar. Não é acidental que na história deste Brasil as revoluções sejam revoluções de quem manda, e não de quem é mandado. Fernando Henrique Cardoso, num esclarecedor ensaio sociológico dos anos 70, chama nossa atenção para o fato de que o Brasil independente não nasceu de uma revolução nacional, uma revolução do povo. A Independência foi feita pelo próprio Estado, no herdeiro da coroa proclamando a independência da Colônia, uma revolução sem povo, as funções da sociedade civil usurpadas pelo Estado. Somos uma coisa à luz do dia, nas ruas, e outra coisa no escurinho do poder.

Não é estranho que, como Alice, de Lewis Carroll, quanto mais depressa caminhamos, mais longe ficamos.
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* José de Souza Martins é sociólogo, membro da Academia Paulista de Letras e autor de A Sociologia como Aventura (Contexto), dentre outros. Escreve neste espaço semanalmente
Fonte: http://www.valor.com.br/cultura/4981186/o-brasil-dos-avessos 26/05/2017

quinta-feira, 25 de maio de 2017

É hora de sair do Facebook e da internet?

http://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/2017/05/25_05_redes_sociais_pixabay.jpg
Aos poucos, movimentos e pessoas cogitam deixar a rede, que parece reduzir-se a espaço de espionagem, entretenimento vulgar e mentiras. Mas haverá uma alternativa 
ético-política a esta atitude?

A reportagem é de Angus Harrison, traduzida por Inês Castilho e publicada por Outras Palavras, 23-05-2017.

É hora de proclamar: a internet deixou de ser divertida. Como todos os bons casos de amor, começou emocionante. Costumávamos ficar acordados até tarde e rir juntos. Agora, porém, apenas nos ajuda a discutir/brigar por mais tempo. Os longos verões ociosos de Albino Black Sheep [um site de animação interativo, famoso nos anos 2000] e Chris Crocker [um ator-celebridade na internet, nos EUA, a partir de 2007] transformaram-se num inverno sempre cinza de big data bilionários e torturas ao vivo. Vivemos sob espionagem, incapazes de concentração, não estamos presentes, não conseguimos dormir – não podemos sequer atravessar mais a rua. É a razão pela qual você não consegue terminar um livro e as lojas de departamento já sabem que está pensando em comprar um processador de alimentos. Muito embora – assim como em tantos relacionamentos abusivos –, ele suga nossa energia e nos exaure, mas não conseguimos largá-lo.

O pior é que sabemos disso tudo. Você provavelmente não precisa de outro livro, outra manchete inflamada, outro podcast para detalhar as várias formas como seu celular está arruinando a sua vida. Ainda assim, a despeito de tudo, parecemos capazes de seguir o tema somente até a metade. Já diagnosticamos o problema, mas para uma geração que se orgulha de ser “antenada”, estamos confusos para apresentar uma solução à questão mais universalmente disseminada de nosso tempo.

Fracassamos em solucionar o problema principalmente porque não sabemos por onde começar. Da forma como a vemos, a internet é como um sistema que dá suporte à vida. Decidir um dia arrancá-la de nossas veias nos deixaria freneticamente ofegantes, antes de mergulhar num abismo solitário. Não podemos voltar a um mundo sem ela. Poderíamos deletar todos os nossos contatos, mas como descobriríamos se fomos convidados para uma festa de aniversário?

A continuidade desta decadência não é inevitável. Afinal, os smartphones têm apenas uma década, e a rede mundial, apenas 25. O que consideramos como o início do declínio pode ser visto, no futuro, como um período de ingenuidade tecnológica – o período antes de descobrirmos o que estávamos preparados para sacrificar, e o que queríamos em troca. A tecnologia, é claro, molda o futuro, mas é também totalmente concebível que haja uma luta para redefinir o papel que ela desempenha em nossa vida.

Mudanças pequenas, porém significativas, já estão acontecendo. Os responsáveis por definir as políticas públicas estão discutindo se os smartphones têm ou não lugar na sala de aula; os restaurantes estão proibindo-os nas mesas de jantar e as empresas estão pedindo que sejam deixados fora das salas de reunião. A batalha entre casas de música e smartphones é longa e célebre – a empresa de tecnologia Yondr criou até mesmo estojos de celulares, para deixá-los mudos quando as pessoas entram em auditórios que são “zonas livres de telefone”. Desde março deste ano, digitar dirigindo custa ao motorista uma multa de quase R$ 1000 no Reino Unido. Em todos os aspectos da vida pública, a onipresença da tecnologia está sendo desafiada.

Individualmente, também temos enfrentado o problema. A ideia de uma “detox digital” tem tanto tempo quanto o Blackberry. Em sua forma clássica, ela baseia-se em retiros idílicos, livres de telefone, mas a maioria das organizações também promovem modos de estabelecer, no mundo real, uma relação positiva com a tecnologia. Quanto contatei Tanya Goodin, fundadora da organização de detox digital “Tempo de desconectar” [Time To Log Off] , sobre seus retiros, ela disse que eram semelhantes a outros tipos de reabilitação: as pessoas sabem que têm um problema e pedem ajuda. “No fim, quando lhes damos os telefones de volta, sempre dizem que não querem”, conta, rindo.

É crucial para o sucesso da detox digital o fato de se casar com as esferas da tecnologia e a florescente indústria de bem-estar. Com o crescimento da popularidade de aplicativos de atenção plena como o Headspace [“Espaço Mental”] a moda da meditação trouxe consigo um intenso interesse nos benefícios de ficar livre do telefone. Há agora – de certa forma ironicamente – uma variedade de aplicativos voltados a ajudar as pessoas a usar seus fones e computadores produtivamente – desde o SelfControl [“Autocontrole”] , que permite bloquear certos sites por algum tempo, até o StayOnTask [“Permaneça na Tarefa”], que apenas cutuca você para verificar se está evoluindo com aquilo que deve, supostamente, fazer. O Vale do Silício liderou essas iniciativas, ao ser pioneiro na ideia de um “dia sabático digital” – insistindo em que os empregados adotem, no fim de semana, um de descanso diante da tecnologia.

Individualmente essas políticas, tendências e modinhas não chegam a fazer uma revolução. Apesar disso, elas sugerem um potencial. Até agora são ideias díspares, tendências ao léu à espera de que um movimento intelectual mais amplo as recolha. Cada vez mais, as ideias sobre adição à tecnologia tornaram-se assuntos comuns nas conversas. Publicações que vão do Guardian ao Breitbart publicaram artigos que ligam solidão e mídias sociais. Deixar de usar as redes sociais, temporariamente ou para sempre, tornou-se uma decisão menos estranha para os jovens.

“Não estou no Facebook” costumava ser coisa de hipster — mas torna-se, cada vez mais, uma preocupação geral. Em 2013, o número de adultos que disseram ter-se afastado do Facebook, ao menos temporariamente, chegou a 61%. À medida em que a rede social continua a não levar a sério suas políticas de privacidade, o terreno para um êxodo contínuo torna-se mais fértil. É totalmente plausível, se não lógico, imaginar que o abandono das mídias sociais pode transformar-se numa contracultura.

Há algo transgressor em ser uma pessoa jovem em 2017 e voltar as costas ao celular. Em seu livro Solidão, o escritor canadense Michael Harris considera viver sem a constante distração das mensagens como um despertar espiritual que está para acontecer. Ele define a reflexão interior como uma arte; uma disciplina que precisa ser cultivada num mundo estruturado contra ela. “A palavra é radical”, diz ele pelo Skype. “Você precisa sentir-se à vontade com certo grau de aspereza se pretende retirar-se da cultura de grupo.”

O livro de Harris não é moralista; ao contrário, ele relança pequenas mudanças no estilo de vida como parte de uma luta para reconquistar o senso de identidade. Por exemplo, conta Harris, adiar o momento de abrir pela primeira vez seu celular, dando-se o máximo de tempo no início do dia antes de entrar na nuvem. É um gesto pequeno, mas uma espécie de mudança prática que mostra como o controle pode ser retomado. “São formas de fazer a curadoria de nossas horas”, explica. “Penso que é indicativo do nível de adição em que estamos metidos. Não basta fazer uma detox digital para resolver o problema. Estamos tão mergulhados que temos de lutar contra isso diariamente, se não a cada hora.”

Isso remete a um debate longo e urgente que ainda não tivemos, adequadamente, em nossa sociedade – para a qual cultivar um relacionamento saudável com seu celular é tão importante quanto usar camisinha ou comer verduras. “Se você olha para a cultura alimentar dos anos 1950 e 1960 na América do Norte, encontra uma superabundância de comida”, continua Harris, “mas sem que estivéssemos atentos ao que comíamos. Mas à medida em que os níveis de diabetes e obesidade aumentaram, tivemos de parar e pensar. Da mesma forma que não vamos comer comida industrializada no jantar toda noite, para o resto da vida, estamos começando a dizer: qual é uma dieta saudável de mídia?”

Para isso, é necessário que as pessoas comecem a pensar sobre o uso da tecnologia como questão de saúde púbica – algo não tão difícil de imaginar. Em alguns países, já há campanhas para tornar saúde mental um tema obrigatório nas escolas; o controle do uso compulsivo das mídias sociais é uma extensão lógica disso. Basta observar a crescente popularidade dos exercícios de meditação nas escolas para ver como as ideias sobre bem-estar podem se tornar efetivas.

Richard Graham é um psiquiatra de crianças e adolescentes. Há cerca de doze anos, começou a lidar com casos sem precedentes de jovens sofrendo de problemas de saúde mental em razão do uso excessivo de tecnologia. Em 2010, lançou o primeiro serviço especializado do Reino Unido para adição em tecnologia, e desde então tornou-se uma referência em dependência e reabilitação. Diz concordar que nossa relação com a tecnologia é problemática, mas tem menos certeza de que estamos chegando ao ponto de virada. “Não acho que sabemos quais os nossos limites, ainda”, explica. “Comecei numa era de uma única plataforma, agora há muitas. Está tudo muito confuso, e muito mais complexo.”

Graham crê que as gerações atuais têm de pensar seriamente sobre nosso futuro relacionamento com a tecnologia. Não pensa que a abstinência seja o caminho a seguir, mas que o foco deve ser equipar a próxima geração para “desenvolver a internet de forma ética”. Contudo, concorda que uma mudança cultural é de alguma forma provável. “Espero ver tribos que seguirão esse caminho”, sugere, “com pais buscando escolas onde o smartphone é proibido no maternal”.

Convencer as pessoas de que usar o Twitter em excesso não é bom para elas pode não causar, provavelmente, nenhuma reação substancial. Até bem recentemente, o dano era quantificado como pessoal – medo de usar muito o seu celular relacionado ao seu bem-estar. Mas o contexto está mudando. De vazamentos de informações de alta inteligência a captura generalizada de dados, nossa relação obsessiva com as telas assumiu de repente uma dimensão política. Sugestões de que os celulares ouvem conversas tornaram-se rumores comuns e as expressões “noticias falsas” e “pós-verdade” entraram em nosso vocabulário. Pouco a pouco, uma desconfiança da tecnologia transitou do distópico para o dia a dia.

Seja na campanha pelo Brexit, ou simplesmente para vender seguros de carro, a exploração de nossos dados expôs a desregulamentação assustadora da internet. As corporações sabem o que você quer comprar antes mesmo que faça uma busca no Google, e os governos são capazes de obter fotos íntimas de seus cidadãos, ou diretamente ou por meio de empresas de segurança privada. Seja o que for que tenhamos aceito, ao criar nossas contas de Facebook, certamente não é mais o que acontece.
Porém, quanto mais as redes, os governos e as corporações mostram-se cúmplices de manipulação, menos desejável torna-se possuir uma conta no Facebook. Politizar nossa relação com a tecnologia será provavelmente o melhor caminho para a mudança. Serviços de criptografia como o Signal podem não parecer interessantes agora, mas posicionam-se como ferramentas com as quais as minorias podem proteger-se nos EUA de Trump, e assumem novos e poderosos significados. De repente, um aplicativo desconhecido pode tornar-se uma fonte nova e possante de empoderamento.

As sementes para isso já estão sendo cultivadas – na reação contra o compartilhamento dos humores de seus usuários, feita pelo Facebook e as corporações. À medida em que o mundo começa a fazer mais perguntas sobre o papel desempenhado pela tecnologia na recente campanha eleitoral dos EUA, e mais genericamente sobre quanto o uso excessivo da internet facilitou o Estado de vigilância voluntária, parece inevitável que as pessoas comecem a se questionar se vale a pena submeter-se a isso, em troca dos grupos de conversa.

O momento que vivemos é mais ou menos aquele em que o vegetarianismo encontrava-se há uma ou duas gerações. Especialistas começavam a nos dizer que carne faz mal à saúde e ao ambiente, mas éramos tão carnívoros que se tornava difícil enxergar a vida sem proteína animal. Aos poucos, com cada produto feito de tofu e cada documentário revelador, o vegetarianismo tornou-se uma contracultura. Dadas as ramificações mentais e éticas de nossa atual relação com a tecnologia, movimentos semelhantes são muito plausíveis. É capaz até de acharmos mais fácil; não estamos lutando há séculos contra o consumo de carne. Faz menos de 20 anos.

Ou então, veja o que ocorreu com o tabaco. Há apenas uma geração, era possível fumar num restaurante. Agora, é improvável que muita gente fume em seus próprios carros. Passamos por um lento processo de educação e persuasão, mas finalmente nossa cultura mudou. Os elementos para uma relação saudável com a tecnologia também estão aí. Vários autores já levantaram a hipótese de uma reação neoludista à automação da indústria. Em artigo para o New Statesman em 2014, Bryan Appleyard via o “Ludismo, na prática e na teoria, de volta às ruas”, traçando uma linhagem que vai do anarquista norte-americano Ted Kaczynski, conhecido como Unabomber, aos taxistas parisienses que vandalizaram os veículos da Uber.

Em 2013, o economista Paul Krugman escreveu para o New York Times um artigo intitulado “Simpatia com os Ludistas”, em que liga os trabalhadores têxteis do século 19 à força de trabalho de hoje, que enfrenta um futuro de redundância, à medida em que a automação vem desempenhando papel cada vez mais central na produção – algo que George Monbiot explorou recentemente quanto à educação.

O conflito entre trabalho e tecnologia é considerado inevitável por muitos. Porém, num mundo de captura de dados e adição à tecnologia, em que as linhas entre produção e consumo tornam-se cada vez mais borradas, torna-se mais premente expressar um equivalente sociocultural dessa tensão. Não se trata de dizer “a tecnologia é ruim”. Antes, trata-se de influenciar os modos pelos quais ela se desenvolve – um progresso democratizante, digamos.

Não se trata de penar que pessoas irão um dia levantar-se da cama e jogar fora seus celulares. A reação provavelmente não se expressará na depredação de lojas da Apple por estudantes politizados, ou por cultos livres de tecnologia estabelecendo-se fora das cidades. Na verdade, ela pode simplesmente não acontecer. Apesar disso, parece razoável acreditar que, quanto mais essas ideias crescem no consciente coletivo – quanto mais pessoas se dão conta do quanto sacrificam em troca de conveniência –, mais provavelmente se entregarão aos ecos daquela revolta tão popular para assumir o controle novamente.
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Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/567996-e-hora-de-sair-do-facebook-e-da-internet 25/05/2017

Giorgio Agamben: Cristianismo como religião: a vocação messiânica.

 

"A Igreja se decidirá a aproveitar a sua ocasião 
histórica e a retomar a sua vocação messiânica? 
Pois o risco é que ela mesma seja arrastada para 
a ruína que ameaça todos os governos 
e todas as instituições da terra".


Publicamos aqui o artigo de Giorgio Agamben, professor de filosofia teorética do Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza, publicado na revista Il Regno, nº. 22, 2009. O artigo é uma adaptação de um discurso do autor na catedral de Notre-Dame, em Paris, em março de 2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Nota de IHU On-Line: O artigo de Giorgio Agamben, citado várias vezes no decorrer do evento realizado nos dias 23 e 24 de maio, na Unisinos, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, foi publicado por esta página em 17-01-2010. Para facilitar o acesso e tendo em conta a sua importância e atualidade, o reproduzimos, hoje.

Eis o texto.

O endereço de saudação de um dos textos mais antigos da Tradição eclesial, a Carta aos Coríntios de Clemente, começa com estas palavras: "A Igreja de Deus que se encontra em Roma à Igreja de Deus que se encontra em Corinto". A palavra grega "paroikousa" [traduzida no original francês como "en séjour", literalmente "em estada", e, na versão italiana corrente, como "che si trova", "que se encontra"] indica a estada do exílio, do colono ou do estrangeiro, em contraposição ao residir do cidadão, que se diz "katoikein" em grego. "Paroikein", viver em exílio, define tanto o habitar do cristão no mundo, quanto a sua experiência do tempo messiânico.
É um termo técnico, ou quase técnico, já que a Primeira Carta de Pedro (1,17), chama o tempo da Igreja de "ho chronos tes paroikias": o tempo da paróquia, se poderia traduzir, contanto que nos lembremos que paróquia aqui significa "estada do estrangeiro".

O termo "estada" não diz nada sobre a duração cronológica. A estada da Igreja sobre a terra pode durar – e de fato durou – séculos e milênios, sem que isso mude qualquer coisa da natureza especial da sua experiência messiânica do tempo. Devo destacar isso contra uma opinião muitas vezes retomada pelos teólogos acerca do suposto "atraso da parusia".

Segundo essa opinião, que sempre me pareceu quase blasfema, quando a comunidade cristã das origens, que esperava o retorno do Messias e o fim dos tempos considerando-os iminentes, se deu conta de que havia um atraso do qual não se via o fim, teria então mudado de orientação para se dar uma organização institucional e jurídica estável. Ou seja, teria deixado de ser "paroikein", de estar como estrangeira, e teria se disposto a "katoikein", a habitar como cidadão, como todas as outras instituições deste mundo.

A experiência do tempo messiânico

Se fosse verdade, isso implicaria que a Igreja teria perdido a experiência do tempo messiânico que lhe é consubstancial. O tempo do Messias, como veremos, não é um período cronológico, mas sobretudo uma transformação qualitativa do tempo vivido. E, nesse tempo, algo como um atraso cronológico – como se diz de um trem que está atrasado – não é nem mesmo concebível.

Exatamente como a experiência do tempo messiânico é tal que é impossível nela habitar, assim também algo como um atraso não pode se produzir. É isso que Paulo lembra ao tessalonicenses: "A respeito da época e do momento, não há necessidade, irmãos, de que vos escrevamos. Pois vós mesmos sabeis muito bem que o dia do Senhor vem como um ladrão de noite" (1Ts 5,1-2). "Vir (erchetai)" está no presente, justamente como o Messias é chamado nos Evangelhos o "ho erchomenos", aquele que vem, que não cessa de vir. Um filósofo do século XX, que tinha ouvido a lição de Paulo, repete do seu modo: "Cada instante é a porta estreita através da qual o Messias pode passar" (W. Benjamin).

É, portanto, da estrutura desse tempo, que é o tempo do Messias como Paulo o descreve, que eu gostaria de tratar. Um primeiro mal-entendido que é preciso evitar com relação a isso é o de confundir o tempo e a mensagem messiânicos com o tempo e a mensagem apocalípticos.

A apocalíptica se situa no último dia, o dia da cólera: vê o fim dos tempos e descreve aquilo que vê. O tempo que o Apóstolo vê, pelo contrário, não é o fim dos tempos. Se quiséssemos expressar com uma fórmula a diferença entre o messiânico e o apocalíptico, deveríamos dizer que o messiânico não é o fim dos tempos, mas o tempo do fim. Messiânico não é o fim dos tempos, mas a relação de cada instante, de cada kairós, com o fim dos tempos e com a eternidade. Assim, aquilo que interessa a Paulo não é o último dia, o instante no qual o tempo termina, mas sim o tempo que se contrai e que começa a acabar. Ou, se preferirmos, o tempo que resta entre o tempo e o seu fim.

Uma transformação radical da existência

A Tradição judaica conhecia a distinção entre dois tempos ou dois mundos: o "olam hazzeh", ou seja, o tempo que vai da criação do mundo até o seu fim, e o "olam habba", o tempo que vem depois do fim do mundo. Esses dois termos, na sua tradução grega, estão presentes no texto das epístolas: mas o tempo messiânico, o tempo que o Apóstolo viveu e o único que lhe interessa, não é nem o "olam hazzeh" nem o "olam habba": é o tempo que resta entre esses dois tempos, quando se verifica no tempo a cesura do acontecimento messiânico (o qual, para Paulo, é a ressurreição).

Como podemos representar esse tempo? Aparentemente, se o transferirmos como se faz na geometria com um segmento e uma linha, a definição que eu dei agora – o tempo que resta entre a ressurreição e o fim do tempo – não coloca dificuldades. Mas é uma outra coisa totalmente diferente se buscarmos pensá-lo no plano da experiência do tempo que ele implica. É claro que viver no "tempo que resta" ou viver o "tempo do fim" só pode significar uma transformação radical da experiência e também da representação habitual do tempo. Não é mais a linha homogênea e infinita do tempo cronológico profano (representável, mas vazio de qualquer experiência), nem o instante pontual e da mesma forma impensável do seu fim.

Mas não é nem mesmo um simples segmento retirado do tempo cronológico e que iria da ressurreição até o fim do tempo. É um tempo que pulsa dentro do tempo cronológico, que o trabalha e o transforma a partir de dentro. É, de um lado, o tempo que o tempo emprega para terminar; de outro, o tempo que nos resta, o tempo do qual precisamos para fazer o tempo terminar, para atingir a meta, para nos libertarmos da nossa representação ordinária do tempo.

Enquanto esta última, enquanto tempo dentro do qual acreditamos estar, nos separa daquilo que somos e nos transforma em espectadores impotentes de nós mesmos, o tempo do Messias, ao contrário, enquanto tempo operativo (kairós) no qual compreendemos pela primeira vez o tempo (o chronos), é o tempo que nós mesmos somos. É claro que esse tempo não é um outro tempo, que teria o seu lugar em algum outro lugar improvável e venturo. É, pelo contrário, o único tempo real, o único tempo que temos, e fazer experiência desse tempo implica em uma transformação integral de nós mesmos e do nosso modo de viver.

É isso que Paulo diz em uma passagem extraordinária, que é talvez a mais bela definição que ele deu da vida messiânica: "Eis o que vos digo, irmãos: o tempo é breve ("ho kairos synestalmenos esti": o verbo "systello" indica tanto o fato de cair as velas [de um navio] quanto o modo em que um animal se abaixa preparando-se para dar um salto). O que importa é que os que têm mulher vivam como se a não tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que se alegram, como se não se alegrassem; os que compram, como se não possuíssem; os que usam deste mundo, como se dele não usassem". (1Cor 7,29-31).

Algumas frases antes, Paulo havia dito, a propósito da vocação messiânica: "Cada um permaneça na profissão em que foi chamado por Deus. Eras escravo, quando Deus te chamou? Não te preocupes disto. Mesmo que possas tornar-te livre, antes cuida de aproveitar melhor o teu chamamento" (1Cor 7,20-21).

"Hos me", "como se não" nos diz então que o sentido último da vocação messiânica é de ser a revogação de toda vocação. Justamente como o tempo messiânico transforma, a partir de dentro, o tempo cronológico, assim a vocação messiânica, graças ao "hos me", ao "como se não", é a revogação de toda vocação, que muda e esvazia a partir de dentro toda experiência e toda condição factual para abri-la a um novo uso.

É um ponto importante, já que nos permite pensar corretamente essa relação entre as coisas últimas e as coisas penúltimas, que define a condição messiânica. Pode um cristão viver apenas de coisas últimas? Um grande teólogo protestante, Dietrich Bonhoeffer, denunciou a falsa alternativa entre radicalismo e compromisso, que parte, em ambos os casos, da separação clara entre as realidades últimas e as realidades penúltimas, isto é, aquelas que definem a nossa condição social e humana de todos os dias. Ora, como o tempo messiânico não é um outro tempo, mas sim uma transformação do tempo cronológico, assim viver as coisas últimas é, antes de tudo, viver de outro modo as coisas penúltimas.

A verdadeira escatologia talvez não seja outra coisa que a transformação da experiência das coisas penúltimas. Já que as realidades últimas têm primeiro lugar dentre as penúltimas, estas – contra toda radicalismo – não podem ser simplesmente rejeitadas; mas – pela mesma razão e contra toda possibilidade de compromisso – as coisas penúltimas não podem ser consideradas como últimas. É com o verbo "katargein" – que não quer dizer "destruir", mas sim tornar inoperante, literalmente "des-operar" – que Paulo expressa a relação entre o que é último e o que não é. A realidade última desativa, suspende e transforma a realidade penúltima, mas é, porém, no seu interior que ela entra em jogo inteiramente.

Isso permite compreender a situação própria do Reino em Paulo. Ao contrário da corrente representação escatológica, deve ser lembrado que, para ele, o tempo do Messias não pode ser um tempo futuro. A expressão com a qual ele indica esse tempo é sempre "ho nyn kairos", o tempo do agora. Como escreve em 2Cor 6,2: "[Idou nyn] Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação!".
"Paroikia" e "parousia", estada do estrangeiro e presença do Messias, têm a mesma estrutura que é expressada em grego com a preposição "para": a de uma presença que distende o tempo, de um já que é também um não ainda, de um atraso que não é um adiamento para mais tarde, mas um descarte e uma disjunção dentro do presente, que nos permite compreender o tempo.

Vê-se bem, portanto, que a experiência desse tempo não é algo que a Igreja possa escolher entre fazer ou não fazer. Não existe Igreja senão nesse tempo e por meio desse tempo.

A Igreja e os sinais dos tempos

O que há dessa experiência do tempo do Messias na Igreja de hoje? De fato, a referência às coisas últimas parece ter desaparecido do discurso da Igreja a tal ponto que se pôde dizer, não sem ironia, que a Igreja de Roma fechou o Escritório Escatológico. E é com ironia, sem dúvida ainda mais amarga, que um teólogo francês pôde escrever: "Esperava-se o Reino, e chegou a Igreja". É uma imagem poderosa, sobre a qual devemos refletir.

Considerando o que foi dito acima sobre a estrutura do tempo messiânico, é claro que não se trata de criticar a Igreja pelo seu compromisso em nome do radicalismo. Nem se trata, como fez o maior teólogo ortodoxo do século XIX, Fëdor Dostoevskyi, de apresentar a Igreja de Roma sob a figura do Grande Inquisidor. Trata-se de uma outra coisa, ou seja, da capacidade da Igreja de compreender o que Mateus 16,3 chama de sinais dos tempos, "ta semeia ton kairon".

Quais são esses sinais que o Evangelho opõe ao desejo vão de interpretar o aspecto do céu? Se a história é penúltima em referência ao Reino, este – viu-se acima – tem o seu lugar antes de tudo e acima tudo na história. Viver no tempo do Messias exige, portanto, a capacidade de ler os sinais da sua presença na história, de reconhecer no seu percurso o selo da economia da salvação. Aos olhos dos Padres – mas também para os filósofos que refletiram sobre a filosofia da história, que foi e continua sendo (também em Marx) uma disciplina essencialmente cristã –, a história se apresentava como um campo de tensões, percorrido por duas correntes opostas: a primeira – que Paulo, em uma célebre e enigmática passagem da Segunda Carta aos Tessalonicenses, chama de "to catechon" – que considera e diferencia sem parar o fim do mundo ao longo da linha do tempo cronológico, infinito e homogêneo; a outra que, colocando em tensão a origem e o fim, não cessa de interromper e levar o tempo a termo. Chamamos de lei ou de Estado a primeira polaridade, devotada à economia, ou seja, ao governo infinito do mundo; e chamamos de Messias ou de Igreja a segunda, cuja economia – a economia da salvação – é essencialmente finita.

Uma comunidade humana não pode sobreviver se essas duas polaridades não estão copresentes, se não existe entre elas uma tensão e uma relação dialética.

Ora, é exatamente essa tensão que hoje é despedaçada. Enquanto a percepção da economia da salvação no tempo histórico se ofusca na Igreja, vê-se a economia estender seu próprio domínio cego e derrisório sobre todos os aspectos da vida social. Ao mesmo tempo, a exigência escatológica que a Igreja ignorou retorna sob uma forma secularizada e parodística nos saberes profanos, que parecem competir para profetizar em todos os campos das catástrofes irreversíveis. O estado de crise e de emergência permanente que os governos do mundo proclamam hoje é justamente a paródia secularizada da perpétua atualização do juízo último na história da Igreja.

Ao eclipse da experiência messiânica do cumprimento da lei e do tempo, corresponde uma hipertrofia inaudita do direito, que pretende legislar sobre tudo, mas que trai com um excesso de legalidade a perda de toda legitimidade verdadeira. Afirmo, aqui e agora, medindo as palavras: hoje, sobre a terra, não há mais nenhum poder legítimo, e os próprios poderosos do mundo são todos reis de ilegitimidade. A jurisdização e a economização integral das relações humanas, a confusão entre aquilo em que podemos crer, esperar, amar, e aquilo que somos levados a fazer ou a não fazer, a dizer ou a não dizer, marca não apenas a crise do direito e dos Estados, mas também e sobretudo a da Igreja, pois a Igreja não pode viver senão se mantendo – enquanto instituição – em relação imediata com o fim da Igreja. E – não devemos esquecer –, na teologia cristã, há uma única instituição que não conhecerá seu fim e sua dissolução: é o inferno. Aqui se vê bem – me parece – que o modelo da política de hoje – que aspira a uma economia infinita do mundo – é propriamente infernal. E, se a Igreja despedaça a sua relação original com a "paroikia", ela só pode se perder no tempo.

Eis porque a pergunta que eu coloco, certamente sem ter nenhuma autoridade para fazê-la senão a de um hábito obstinado de ler os sinais dos tempos, se resume nesta: a Igreja se decidirá a aproveitar a sua ocasião histórica e a retomar a sua vocação messiânica? Pois o risco é que ela mesma seja arrastada para a ruína que ameaça todos os governos e todas as instituições da terra.
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Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/567993-cristianismo-como-religiao-a-vocacao-messianica-artigo-de-giorgio-agamben 25/05/2017

ELEGÂNCIA

Luis Fernando Veríssimo* 
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Um dos delatores da JBS comentou no seu depoimento que o presidente Temer não foi elegante ao pedir 1 milhão para ele, dos milhões que cruzavam à sua frente. Segundo o delator, só o Kassab fez o mesmo. Notava-se uma certa decepção na voz do delator ao contar que Temer reivindicara uma beirada do propinato em trânsito para o seu bolso. De um Kassab não se esperava outra coisa. Mas de um presidente da República? O corruptor lamentava o ocorrido. Uma certa etiqueta fora rompida. Uma certa presunção de elegância – presente até entre bandidos – fora frustrada.

A presidência do Brasil parece um daqueles touros mecânicos sobre os quais poucos se equilibram, e o que varia é a maneira de cada um ser derrubado, com mais ou com menos elegância. Nenhum presidente deposto caiu mais dramaticamente do que o Getúlio. Jânio caiu ridiculamente, Jango pateticamente, Tancredo surpreendentemente. Os generais encontraram uma maneira prática de evitar a queda e o vexame: desligaram o touro e o mantiveram desligado por 20 anos. Collor caiu sem perder a linha. Dilma idem, com a desculpa adicional de ser a primeira mulher a montar no touro.

Como o Temer cairá do touro, se cair, ninguém sabe. Pouco se falou do milhão por fora que ele pediu para o delator da JBS, talvez porque, em comparação com os bilhões que enchem os ares, 1 milhão pareça mais uma gorjeta do que uma propina. E há a possibilidade de o corruptor ter mentido. Seja como for, o que Temer precisa antes de mais nada é recuperar a pose. O conselho vale para todo mundo: elegância, gente.

Nunca é demais lembrar que as consequências de corrupção revelada, no Brasil, nunca são muito radicais. Ninguém fica arruinado para sempre, nenhuma carreira política se interrompe, o tempo reconstrói qualquer reputação abalada. Corruptos se desculpam, corruptores confessos deixam para trás uma República deflagrada e voam para Nova York, e tudo bem. Se fosse no Japão, já teriam acontecido no mínimo 17 haraquiris.
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* Jornalista. Escritor.
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a9799845.xml&template=3916.dwt&edition=31236&section=70
Imagem da Internet 25/05/2017

Deborah Levy: ""Eu não acho que alguém possa perceber os motivos de um autor sem conhecer algo de seu desenvolvimento anterior".

A escritora britânica nascida na África do Sul Deborah Levy, que virá à próxima Flip

GERAINT LEWIS/WRITER PICTURES? ASSOCIATED PRESS. A escritora britânica nascida na África do Sul, Deborah Levy 

Escritora confirmada para a Flip dá resposta feminista a Orwell

SYLVIA COLOMBO

Em 1946, George Orwell (1903-1950) dizia, em seu ensaio "Why I Write" (por que escrevo): "Eu não acho que alguém possa perceber os motivos de um autor sem conhecer algo de seu desenvolvimento anterior". E acrescentava: "Antes mesmo que ele comece a escrever, terá adquirido uma atitude emocional da qual nunca escapará completamente".

A primeira coisa que a britânica Deborah Levy, 58, apresenta sobre sua atitude emocional antes de iniciar o ensaio memorialístico "Coisas que Eu Não Quero Saber", que apresentará na Festa Literária Internacional de Paraty, é que ela vivia uma "primavera em que a vida estava muito difícil", e na qual ela "chorava nas escadas rolantes das estações de trem."

E é assim, armada de uma "leve autoironia que busca a empatia do leitor, mas mantendo certa formalidade", como explicou à Folha, que Levy constrói a voz condutora dos quatro capítulos que compõem o livro, a sair pela editora Autêntica.

Em cada um, a autora propõe uma "virada modernizadora e feminista" às quatro razões apresentadas por Orwell para justificar o ato de escrever: puro egoísmo, entusiasmo estético, impulso histórico e proposta política.

Por telefone, de Londres, Levy conta que pela primeira vez em sua trajetória —que já passeou pelo teatro, a ficção e a poesia— quis investigar mais a fundo suas memórias mais antigas da infância passada na África do Sul e da adolescência e parte da vida adulta, já no Reino Unido.

Nascida em Johannesburgo, filha de um ativista de direitos humanos em tempos de apartheid, Levy conta que seu espanto com relação ao sistema começou na escola.

"Eu via crianças brancas como eu jogarem pedras nas crianças negras que vinham revirar o lixo da escola. Os negros nos eram apresentados como 'o perigo', mas eu percebia claramente que os brancos é que eram perigosos."

Como filha de alguém ligado à luta política por uma mudança na sociedade, Levy conta que "para falar desse assunto, tinha que encontrar o meu modo de olhar, e este era o de uma criança, portanto mostro como se vivia o apartheid no dia a dia."

Discorre, então, sobre as memórias que tinha de sua babá, Zama, que tinha de despedir-se de sua filha, Thandiwe, e enviá-la ao bairro dos negros, para poder trabalhar.

Para não desanimar a criança, Zama se mostrava alegre, dizendo que a viagem de ônibus até o subúrbio seria boa "porque ela poderia mostrar os sapatos novos à avó".

Tendo crescido numa casa em que "se respirava a discussão sobre os direitos humanos", Levy conta que a cena lhe partia o coração.

"Que uma mãe negra tivesse de se separar de sua filha para cuidar dos filhos de uma mulher branca; e que ainda por cima tinha de mostrar-se alegre para não machucar a criança, como que para esconder dela essa dura realidade, para mim isso era um retrato nítido do apartheid."

Seu pai foi prisioneiro político de 1964 a 1968, quando Levy era embalada, antes de dormir, pelas histórias que sua mãe contava, também para lhe dar esperanças.

"Creio que essa foi uma das razões que me levaram a, no futuro, eu querer contar histórias", diz Levy.
Mas apenas quando o pai foi solto, e a família, obrigada a deixar o país, mudando-se para a Inglaterra, isso começou a se tornar possível.

"Eu lia sobre os autores franceses, sobre Sartre e Simone de Beauvoir, e queria aquela vida deles, em cafés, discutindo a existência humana." Só que, na Londres na qual se instalara, não existia tal cultura de cafés intelectualizados, ao menos não para uma garota de 16 anos.

"Então fui buscar algo parecido a isso e ia a um bar onde motoristas de ônibus conversavam. Ali tanto eles como eu podíamos pagar por um café da manhã. E foi onde aprendi que, quando você está sozinha num lugar público, mas está escrevendo, as pessoas te deixam em paz. E eu gostei dessa sensação."

O ambiente ao redor, ainda que amigável, exalava uma tensão que não lhe passava despercebida. Eram anos de governo conservador e de muitas greves. Mas a tomada de consciência não se converteu então em escritura.

"Só o que eu conseguia escrever no meu guardanapo era a palavra 'Inglaterra'. Era um processo de começar a pertencer a este lugar", recorda. "Minha mãe dizia que vivíamos no exílio, que era temporário e que voltaríamos à África, mas comecei a me conectar com o que hoje é minha casa e tem outro nome. Naquela época, ele aparecia na minha letra de adolescente em guardanapos engordurados e dizia apenas: Inglaterra."

Vivendo até hoje no norte de Londres, Deborah Levy dedica-se quase exclusivamente à literatura. Mas a autora de "Nadando de Volta para Casa" (Rocco, 2014), livro indicado para o Man Booker Prize de 2012, confessa que seu "elemento natural é a água".

"Paro para nadar todos os dias. Levo maiô para onde for, mesmo no inverno", conta.

"Quando escrevemos é como estar num voo de 12 horas, por isso preciso me esticar e mover meu corpo por um tempo, todos os dias. Além disso, um escritor sempre se vê diante de entraves na escritura. E eu só consigo resolvê-los quando estou dentro da água e posso deixar que minha mente divague até encontrar uma saída para esses dilemas literários."
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Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/05/1886968-escritora-confirmada-para-a-flip-da-resposta-feminista-a-orwell.shtml

quarta-feira, 24 de maio de 2017

AGAMBEN: profanar a Democracia Representativa

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A quem interessa sacralizar um sistema que já não representa ninguém, senão o poder financeiro — ou o Deus convertido em Dinheiro, segundo notou o filósofo?

Por Fran Alavina

Este texto dialoga com a série de vídeos de Outras Palavras, nos quais Antonio Martins propõe e instiga que pensemos novos recursos democráticos que rompam com a farsa da representação. Aqui, nos integramos a este debate pensando a partir da filosofia de Giorgio Agamben.

Deus não morreu. Ele tornou-se dinheiro”. Esta já célebre afirmação de Giorgio Agamben nos dá uma amostra expressiva de como seu trabalho de pensamento explicita a função religiosa do capitalismo: a violência do discurso economicista que se apresenta como dogma e a mistificação do sacrifício subsumido no discurso da meritocracia. Tal aspecto, de descer às estruturas do modo de pensar religioso e teológico a fim de se pensar o político não é algo periférico na filosofia de Aganbem.

Por exemplo, na obra Profanações (Boitempo, 2007), que reúne preciosos artigos e ensaios, observa-se um movimento comum em suas obras filosóficas. O autor centra sua reflexão na gênese de um termo-conceito aparentemente apenas “teológico”, o de profanação, para dele pensar o político. Não se trata tanto de um simples movimento teórico de inversão, de fazer um termo passar do sacro ao profano como é comum nas análises típicas de uma secularização mal justificada do pensamento. Trata-se de compreender o sentido genético do termo e as intercessões entre o teológico e o político. 

Agamben nos mostra, com seu procedimento genético, que o sentido do termo profanar é, antes de tudo, jurídico. Isto nos é dito no ensaio que dá título ao livro: Elogio da Profanação. Se o consagrar é o ato de tornar algo sagrado, isto é, o isolar no círculo simbólico do religioso, separando do uso ordinário das coisas, o profanar não equivale tanto tornar impuro, mas a restituir aos homens isto que antes havia sido isolado, retirado do uso comum. Por isso, o sentido original da palavra possui um aspecto positivo, e não negativo; afastado, portanto, daquilo que hoje o termo significa. 

Nesse aspecto, profanar é a restituição de algo que antes fora expropriado, reversão da expropriação que torna possível um uso comum. A profanação é um exercício de desmonte da separação, do isolamento e de uma suposta singularidade inacessível que empresta a aura de sagrado às coisas, aos gestos e mesmo aos lugares, pois tudo aquilo que se quer fora do comum da vida hodierna supõe um lugar particular que possa preservar a “sacralidade”, retirando do fácil acesso cotidiano. As coisas não são isoladas por divinas, mas divinas por serem isoladas, apartadas. É o gesto de isolamento que as institui como algo diferente, raro e de difícil acesso. 

Ademais, por se tratar de um gesto político de restituição, de tomada daquilo que sendo comum fora violentado pelo uso restrito de alguns, a profanação não se identifica com a secularização. Secularizar supõe que algo antes sagrado, divino, por isso extraordinário, é despido de sua impostação divina para tornar-se humano. Ou seja, reconhece que aquilo que se seculariza possuía, antes, um estatuto diferenciado; enquanto na profanação este estatuto diferenciado é negado por princípio, pois na gênese está o comum. Secularizar é instituir, profanar é restituir. 

Aqui, nosso leitor, que nunca tenha lido uma linha de Agamben, pode estar se perguntando: mais qual a relação disto com nosso atual quadro político? Ora, os sistemas de democracia representativa passaram e ainda passam por um processo de divinização e mistificação. A Representação tomou o lugar da Democracia, como a parte que toma o lugar do todo em uma metonímia desajustada. Um dos meios dos processos democráticos foi isolado, como se a essência da Democracia se resumisse aos pleitos eleitorais, e apenas em função deles existisse. 

Assim, a democracia representativa “sacralizou”-se, tornou-se intocável, algo que não pode ser removido, ou sequer modificado. Falar contra ela, apontar seus defeitos, pensar uma forma de Democracia que rompa com a farsa da representação seria profaná-la. Mas é disto mesmo que se trata: profanar a representação para restituir a democracia, tirá-la da separação entre os políticos profissionais e o homem comum, retirá-la dos espaços apartadores das instituições que funcionam não com base no comum, mas para manutenção do privilégio de alguns. A quem interessa sacralizar este sistema representativo que não representa ninguém, senão o poder financeiro — de fato, o único representado? A democracia representativa não é mais democracia, mas sim plutocracia. É preciso profaná-la para restituí-la ao comum, pois a essência democrática que se assenta na igualdade do comum é ferida pelo princípio da representação que separa aqueles que têm vozes nas instituições daqueles que, ainda que falem e gritem, nunca são ouvidos. A Democracia isola eleitores e escolhidos como estão isolados no templo religioso o sacerdote no altar e o resto dos fiéis. 

Quem nunca escutou a frase: “A Democracia é Sagrada (!)”? Pensá-la desse modo, tendo em mente a preservação do sistema representativo atual, é pensá-la de modo mítico, é operar uma reversão de sentido que a coloca fora de seu registro natural: aquele das coisas próximas e nossas. A democracia não é sagrada, é profana; não é pura, feita por escolhidos; ela é impura, e se suja com o pó do caminho de suas reinvenções. A gênese da Democracia, como nos mostraram os gregos, não está no âmbito das coisas extraordinárias, pelo contrário, ela deve ocorrer no comum da vida banal. A Democracia é gesto inconcluso, que se faz e se refaz, e se reinventa somente quando caminha na via para ser: direta, nossa, comum, sem diferenças entre outorgantes e outorgados, entre os que fazem e os que “assistem”. 

Todavia, para que isso comece a ser pensado como possível, é preciso, antes de tudo, se desfazer do cabedal teológico-político que está enraizado na vida nacional. A bancada da Bíblia não se resume aos confessos e representantes de igrejas, ela está muito além dos deputados pastores. Nela podem se inserir mesmo aqueles que se dizem laicos, mas que pensam a democracia ao modo teológico-político. 

Ao contrário, do que se possa pensar à esquerda, o esquema teológico-político não faz acepção de lado: pode se apresentar tanto à direita, quanto à esquerda. Há um exemplo claro de teológico-político à esquerda proferido cotidianamente nos últimos dias, e em tons proféticos. Trata-se do messianismo de parte da esquerda em relação à candidatura de Lula em 2018. Vaticinada na afirmação de que apenas a “sua volta à presidência poderá restaurar a Democracia”. Pensar dessa maneira é incorrerr no pensamento mágico e tentar esconder as mazelas de um sistema representativo carcomido que não poderá ser refeito pelas ações mágicas de um, independentemente de suas qualidades. Valendo-se da caçada que é feita ao ex-presidente, os que proferem esse discurso, cada vez mais se utilizam da mitificação de um passado recente, como se somente sua volta restaurasse um reino de prosperidade. Este retorno não significará nada se tudo voltar a ser como antes: ao contrário, poderá tornar o problema ainda maior.

Este pensamento mágico à esquerda é a outra face do pensamento mágico cada vez mais assumido pela direita: a de que a restauração da legitimidade de um sistema deslegitimado se dará com a assunção dos ditos “não políticos”, aqueles “homens puros”, com auréolas midiáticas, que nunca se contaminaram com as impurezas da política: são apresentados e se apresentam como vestais. Trata-se de um curto circuito do pensamento lógico: afirmar que os “não políticos” podem restaurar a confiança na política é o mesmo que crer que um não médico é o mais habilitado para começar o tratamento de uma doença grave. A farsa, que é também a perversidade dos “não políticos”, está em usar a rejeição da representação não para descartá-la, mas para se apropriar desse sentimento e manter tudo como está. Não é por outra razão que uma das mais carcomidas caricaturas do nosso sistema representativo – FHC – esteja a incensar os novos, os “não políticos”: o apresentador global e o prefeito gestor de imagens.

Este pensamento teológico-político que sacraliza personificações hipostasiadas da representação se faz sentir também no discurso acerca de seu rito legitimador: as eleições. Não é por outro motivo que a mídia hegemônica chama as eleições do sistema representativo de “festa da democracia”. Tal expressão dá o sentido teológico-político de como se concebe o gesto de escolha: entre as onerosas ocupações da vida normal, há um dia em que se concede, como que por dádiva divina, ocorrer algo extraordinário: votar. Depois daquele dia único e extraordinário, por se tratar de uma festa, tudo volta ao normal, de modo que o “dia da democracia” está separado do restante dos dias, como estarão separados os que escolhem e os seus escolhidos. 

Em tempos de golpe nunca se repetiu tanto a palavra Democracia: seu uso indiscriminado entre reacionários e progressistas – na boca de golpeadores e golpeados – mostra o quanto o termo se desgastou. É claro que o sentido do termo não é o mesmo para os dois lados; mas a possibilidade de que na boca de reacionários e nos ouvidos de seus respectivos seguidores o termo possa fazer algum sentido prova seu esgarçamento. O termo tornou-se uma simples peça retórica de sentido confuso porque o nome não corresponde mais à coisa, nem a coisa ao nome. 

O que hoje vemos por baixo do termo Democracia nada mais é que seu oposto mais contraditório. Em nome da Democracia se exerce o julgo impiedoso do autoritarismo, a imposição, a farsa, em suma: não a liberdade, mas a opressão. Tudo que é antidemocrático hoje é possível de caber nos regimes democráticos, em muitos casos sem maiores problemas, porque a Democracia já não é mais ela mesma, porém a sua encenação consumada no teatro da representação. Em um teatro de enredo único, com trama asfixiante onde se encenam tragédias reais, tão reais que mesmo os momentos cômicos nada mais são que a face mais perversa da tragicidade. 

Se no momento histórico em que se gestavam os regimes democráticos de hoje falou-se que o rei estava nu, agora é possível afirmar que a representação está nua: a vemos como ela é, eivada de contradições, paradoxalmente despida por aqueles que com ela se vestem. Por isso, toda tentativa de reforma da Democracia que mantenha a atual versão representativa será remendo de pano novo em roupa velha. Não há mais espaços para meras reformas, é preciso, de fato, reinventá-la, recriá-la: em outros termos, é preciso profaná-la. Somente quando profanado o sistema representativo, os escolhidos deixarão de constituir a casta de hoje, e nós deixaremos de ser os párias. 
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Fonte: http://outraspalavras.net/brasil/dialogo-com-agamben-profanar-a-democracia-representativa/ 22/05/2017 

terça-feira, 23 de maio de 2017

Harold James: “O verdadeiro inimigo da Europa é o medo”

Harold James, professor na Universidade de Princeton, é autor de vários livros e colaborador do Project Syndicate
O especialista em História económica e um dos autores do livro The euro and the battle of ideas, diz que Macron vai trazer consigo um maior equilíbrio na relação com a Alemanha, e impulsionar a convergência europeia.

Para Harold James, um dos autores do livro The Euro and the battle of ideas (juntamente com Markus Brunnermeier e Jean-Pierre Landau), publicado no ano passado, a Europa pode ganhar um novo impulso com Emmanuel Macron, que terá de fazer reformas a nível interno. A capacidade da Europa em responder ao desafio do populismo, diz, numa entrevista por telefone, “dependerá da forma como a relação entre a França e a Alemanha funcionar”. E destaca que o maior inimigo da Europa é o medo, ligado à incerteza sobre o futuro, e que é preciso saber responder a esses desafio.
Para este britânico, especialista em História Económica e professor em Princeton, o “Brexit” vem facilitar o processo de integração europeu. Já esta segunda-feira, inquirido por e-mail sobre o grupo de trabalho para aprofundar a convergência da Zona Euro, anunciado pelos ministros das Finanças da Alemanha e da França, diz que esse é o passo lógico na sequência da vitória de Macron.

O que espera de Macron, o novo Presidente francês?
Acho que a sua eleição foi muito importante. A relação entre a França e a Alemanha tem estado desequilibrada devido às debilidades francesas e é a Alemanha quem tem conduzido, sozinha, a Europa. Acho que Macron virá trazer um maior equilíbrio a esta relação. Mas isso requer algo ao nível da frente europeia, e vai obrigar a substanciais reformas, ao nível interno, da França.

O que quer dizer com "frente europeia"? Um posicionamento também de países como a Itália?
Quero dizer que Macron está certo quando menciona a necessidade de haver mais esforços concertados ao nível europeu, em áreas como a da defesa, dos refugiados ou na maior integração do mercado energético. Há questões que não devem ser abordadas apenas do ponto de vista nacional.

Também os ex-presidentes Sarkozy e Hollande prometeram mudanças, mas com pouco sucesso. Porque é que algo pode mudar agora?
O sistema político francês estava partido… havia o centro esquerda e centro direita, e não trabalhavam em conjunto. Depressa ficaram reféns dos extremos. O governo de Sarkozy foi sendo empurrado pela direita, com um discurso de linha dura sobre a imigração, e o executivo de Hollande perdeu grande parte do seu ímpeto ao avançar com medidas simbólicas para a esquerda, como nos impostos, mas que não trouxeram qualquer melhoria à questão da competitividade francesa. 

Como é que viu o encontro entre Merkel e Macron, na passada terça-feira? Esperava mais, ou foi a reunião possível?
Penso que marcou o início de uma longa discussão, e que começou muito bem.

O anúncio feito esta segunda-feira, pelos ministros das Finanças da Alemanha e da França, da criação de um grupo de trabalho para aprofundar a convergência da Zona Euro, é algo que já esperava, certo?
Sim, é a lógica da vitória de Macron.

A data de Julho para a apresentação de resultados não é demasiado cedo?
Não, não acho que seja demasiado cedo. Esta é uma questão demasiado urgente e que já tem sido amplamente discutida.

Acredita que, se Merkel for reeleita em Setembro, pode mudar algo na forma como a Alemanha olha para a Europa?
Há sinais dessa mudança… o tipo de discussão que se verifica hoje na Alemanha é diferente do que se produzia em 2012. E é perfeitamente alcançável ter a acção colectiva a nível europeu de que falava há pouco, ao nível da energia ou dos refugiados. Merkel percebe claramente que o desafio vem de fora, vem da Rússia, com Putin, e dos Estados Unidos. Isto numa altura em que a Europa está muito vulnerável, e a única forma de responder a isso é agir mais em conjunto a nível europeu.

Mas é possível mudar a forma como a Alemanha olha para as políticas económicas?
Acho que há dois aspectos: o que deve ser feito na Alemanha e o que deve ser feito na Europa. A Alemanha neste momento não precisa de estímulos orçamentais, é o resto dos países quem precisa de apoios. E, aqui, os projectos europeus são muito importantes. Penso que algum do criticismo, em que se diz que a Alemanha precisa de mais estímulos orçamentais, não tem muito sentido porque não é isso que vai levar a uma recuperação dos países do Sul da Europa. O que vai ajudar são os projectos de âmbito europeu, e a Alemanha tem de contribuir para isso.

É possível a existência de Eurobonds?
Não sei se serão chamadas assim, mas o mecanismo europeu de estabilidade já é um passo nessa direcção, com a ideia de o transformar num fundo monetário europeu. E quando se fala em medidas colectivas ao nível da defesa, isso requer sem dúvida um orçamento comum. É, aliás, ao nível destas questões que Macro poderá fazer a diferença.

Onde é que vê mais divisões na Europa? Entre o Norte e o Sul, ou entre Este e Oeste?
As duas situações acabam por ter pontos comuns. O que se está a verificar na Polónia e na Hungria é uma reacção contra a Europa mais focada em temas políticos do que económicos. Mas quando a Europa começar a actuar de forma mais efectiva e se verificar um maior dinamismo – neste momento já se assiste a uma maior recuperação económica –, nessa altura as críticas vão suavizar-se. Tendo em conta a ameaça da insegurança, que é muito, muito real, em particular para os polacos, é expectável que surja uma mudança de postura.
Com o “Brexit”, os países que estão fora da moeda única ficaram sem o seu maior porta-voz. A saída do Reino Unido vai acentuar a tendência para uma União Europeia com várias velocidades, ou camadas, com os que estão fora e dentro do euro, mesmo entre os que têm a moeda única?
Penso que, por diversas razões, o “Brexit” fará com que o processo de integração europeu seja mais fácil. Uma das falhas cruciais é o facto de a Zona Euro não ter uma capacidade orçamental. Ela existe ao nível da União Europeia, onde a Grã-Bretanha e a Dinamarca tinham a opção de nunca aderir ao euro. Com a saída da Grã-Bretanha, e além da Dinamarca, todos os outros estão ou na Zona Euro ou a caminho. Isso faz com que seja muito mais fácil ter uma discussão sobre o orçamento da Zona Euro, e que considero ser muito importante para a estabilização. Principalmente durante o mandato de Cameron, a Grã-Bretanha minou constantemente os esforços de estabilização da União Europeia. Uma Europa sem esse tipo de interferências é uma Europa mais forte. 

Qual é o maior inimigo do projecto europeu, neste momento? O populismo? Ou ainda a crise económica?
É difícil responder. O populismo está também ligado ao medo da globalização, da perda de postos de trabalho, das novas tecnologias. Mas o que se verificou durante as eleições francesas foi a ausência de uma resposta coerente por parte de madame Le Pen a essas questões. A capacidade da Europa em responder ao desafio do populismo dependerá da forma como a relação entre a França e a Alemanha funcionar. O verdadeiro inimigo da Europa é o medo, ligado à incerteza sobre o futuro, e as políticas europeias têm de saber responder a esses receios.

No ensaio que escreveu com outros autores, Economy Policy And The Rise Of Populism – It’s Not So Simple, afirma-se que populismo deverá forçar os governos a lidar com os problemas económicos que não levaram em conta até agora. Acredita que isso é possível?
Acho que sim. Os desafios existem, são reais. A maioria das respostas apresentadas pelos populistas não são coerentes e levariam a um aumento da inquietação e insatisfação, à perda de mais postos de trabalho. Veja-se o caso da ideia de tirar a França do euro, isso teria um resultado desastroso. Há uma escolha, neste momento, entre um projecto que está em construção, e que precisa de mais esforços para ser melhorado, e algo que é completamente incoerente.

Mas para se ir mais além no combate aos receios da pessoas, que tendem a crescer, o que é que se pode fazer? Porque há de facto efeitos do fenómeno da globalização. O próprio FMI mencionou recentemente a necessidade de compensar os que foram afectados...
A questão é saber exactamente o que fazer para compensar os que perdem com a globalização. No fim de contas, a única forma de combater o problema é através da criação de novos empregos, novas áreas de crescimento económico.

Está a dar aulas nos EUA. Como avalia estes primeiros meses de Donald Trump?
Ainda não se percebeu, com clareza, qual o rumo político. Aquilo a que assistimos até ao momento é algo muito confuso. Há espaço, por exemplo, para investimentos em infra-estruturas, onde há muito para fazer, mais do que na Europa, como ao nível da reparação de auto-estradas, pontes, modernização de aeroportos… mas não sei se irá mesmo por esse caminho. O mais provável é avançar-se com uma grande descida de impostos, e acho que não é disso que os Estados Unidos precisam. Se fizer subir o consumo e reduzir as poupanças só vai piorar os problemas de longo prazo do país. 

Que palavra define melhor os tempos que estamos a viver neste momento? Esperança, medo, incerteza…
O que vemos mais na Europa é esperança, mas há muita incerteza no mundo neste momento. Há uma grande preocupação sobre o futuro da democracia, e isso torna a Europa muito importante, com um papel central na forma como isso irá evoluir.

Olhando para o que está a acontecer na Coreia do Norte, teme o advento de um conflito à escala mundial?
O ambiente de segurança está muito precário. Estou bastante preocupado com a situação na Coreia do Norte, que requer uma grande capacidade política de forma a lidar com o desafio que está a colocar em termos internacionais. Os Estados Unidos podem talvez ter alguma influência na situação, mas quem tem de facto essa capacidade é a China. Julgo que cabe à liderança chinesa assegurar que a península coreana se mantém em paz.
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Reportagem por : Luis Villalobos
Português de Portugal
Fonte:  https://www.publico.pt/2017/05/22/mundo/noticia/o-verdadeiro-inimigo-da-europa-e-o-medo-1773035

segunda-feira, 22 de maio de 2017

'Se quiserem, me derrubem', afirma Temer ao negar de novo a renúncia

 Resultado de imagem para Michel Temer - Folha de sao paulo maio 2017
Enfrentando a mais grave crise de seu governo, o presidente Michel Temer (PMDB) diz que renunciar seria uma admissão de culpa e desafia seus opositores: "Se quiserem, me derrubem". 

Em entrevista à Folha no Palácio da Alvorada, Temer afirma que não sabia que Joesley Batista, que o gravou de forma escondida, era investigado quando o recebeu fora da agenda em sua residência em março –embora, naquele momento, o dono da JBS já fosse alvo de três operações. 

Sobre o ex-assessor Rodrigo Rocha Loures, flagrado correndo com uma mala de dinheiro, Temer diz que mantinha com ele apenas "relação institucional". A atitude de Loures, para o presidente, não foi "aprovável". Mas ele defende o caráter do ex-assessor. "Coitado, ele é de boa índole, de muito boa índole." 


O sr. estabeleceu que ministro denunciado será afastado e, se virar réu, exonerado. Caso o procurador-geral da República o denuncie, o sr. vai se submeter a essa regra?
Michel Temer Não, porque eu sou chefe do Executivo. Os ministros são agentes do Executivo, de modo que a linha de corte que eu estabeleci para os ministros, por evidente não será a linha de corte para o presidente. 

Mas o sr. voluntariamente poderia se afastar.
Não vou fazer isso, tanto mais que já contestei muito acentuadamente a gravação espetaculosa que foi feita. Tenho demonstrado com relativo sucesso que o que o empresário fez foi induzir uma conversa. Insistem sempre no ponto que avalizei um pagamento para o ex-deputado Eduardo Cunha, quando não querem tomar como resposta o que dei a uma frase dele em que ele dizia: "Olhe, tenho mantido boa relação com o Cunha". 

[E eu disse]: "Mantenha isso". Além do quê, ontem mesmo o Eduardo Cunha lançou uma carta em que diz que jamais pediu [dinheiro] a ele [Joesley] e muito menos a mim. E até o contrário. Na verdade, ele me contestou algumas vezes. Como eu poderia comprar o silêncio, se naquele processo que ele sofre em Curitiba, fez 42 perguntas, 21 tentando me incriminar? 

O Joesley fala em zerar, liquidar pendências. Não sendo dinheiro, seria o quê?
Não sei. Não dei a menor atenção a isso. Aliás, ele falou que tinha [comprado] dois juízes e um procurador. Conheço o Joesley de antes desse episódio. Sei que ele é um falastrão, uma pessoa que se jacta de eventuais influências. E logo depois ele diz que estava mentindo. 

Não é prevaricação se o sr. ouve um empresário dentro da sua casa relatando crimes?
Você sabe que não? Eu ouço muita gente, e muita gente me diz as maiores bobagens que eu não levo em conta. Confesso que não levei essa bobagem em conta. O objetivo central da conversa não era esse. Ele foi levando a conversa para um ponto, as minhas respostas eram monossilábicas... 

Quando o sr. fala "ótimo, ótimo", o que o sr. queria dizer?
Não sei, quando ele estava contando que estava se livrando das coisas etc. 

Era nesse contexto da suposta compra de juízes.
Mas veja bem. Ele é um grande empresário. Quando tentou muitas vezes falar comigo, achei que fosse por questão da [Operação] Carne Fraca. Eu disse: "Venha quando for possível, eu atendo todo mundo". [Joesley disse] "Mas eu tenho muitos interesses no governo, tenho empregados, dou muito emprego". Daí ele me disse que tinha contato com Geddel [V. Lima, ex-ministro], falou do Rodrigo [Rocha Loures], falei: "Fale com o Rodrigo quando quiser, para não falar toda hora comigo." 

Ele buscou o sr. diretamente?
Ele tentou três vezes me procurar. Ligou uma vez para a minha secretária, depois ligou aquele rapaz, o [Ricardo] Saud, eu não quis atendê-lo. Houve um dia que ele me pegou, conseguiu o meu telefone, e eu fiquei sem graça de não atendê-lo. Eu acho que ele ligou ou mandou alguém falar comigo, agora confesso que não me recordo bem. 

Por que não estava na agenda? A lei manda.
Você sabe que muitas vezes eu marco cinco audiências e recebo 15 pessoas. Às vezes à noite, portanto inteiramente fora da agenda. Eu começo recebendo às vezes no café da manhã e vou para casa às 22h, tem alguém que quer conversar comigo. Até pode-se dizer, rigorosamente, deveria constar da agenda. Você tem razão. 

Foi uma falha?
Foi, digamos, um hábito. 

Um hábito ilegal, não?
Não é ilegal porque não é da minha postura ao longo do tempo [na verdade, está na lei 12.813/13]. Talvez eu tenha de tomar mais cuidado. Bastava ter um detector de metal para saber se ele tinha alguma coisa ou não, e não me gravaria. 

É moralmente defensável receber tarde da noite, fora da agenda, um empresário que estava sendo investigado?
Eu nem sabia que ele estava sendo investigado. 

O sr. não sabia?
No primeiro momento não. 

Estava no noticiário o tempo todo, presidente [Joesley naquele momento era investigado nas operações Sepsis, Cui Bono? e Greenfield].
Ele disse na fala comigo que as pessoas estavam tentando apanhá-lo, investigá-lo. 

Um assessor muito próximo do sr. [Rocha Loures] foi filmado correndo com uma mala pela rua. Qual sua avaliação?
Vou esclarecer direitinho. Primeiro, tudo foi montado. Ele [Joesley] teve treinamento de 15 dias, vocês que deram [refere-se à Folha], para gravar, fazer a delação, como encaminhar a conversa. 

A imagem dele correndo com dinheiro não é montagem.
[Irritado] Não, peraí, eu vou chegar lá, né, se você me permitir... O que ele [Joesley] fez? A primeira coisa, o orientaram ou ele tomou a deliberação: "Grave alguém graúdo". 

Depois, como foi mencionado o nome do Rodrigo, certamente disseram: "Vá atrás do Rodrigo". E aí o Rodrigo certamente foi induzido, foi seduzido por ofertas mirabolantes e irreais. 

Agora, a pergunta que se impõe é a seguinte: a questão do Cade foi resolvida? Não foi. A questão do BNDES foi resolvida? Não foi. 

O Rocha Loures errou?
Errou, evidentemente. 

O sr. se sente traído?
Não vou dizer isso, porque ele é um homem, coitado, ele é de boa índole, de muito boa índole. Eu o conheci como deputado, depois foi para o meu gabinete na Vice-Presidência, depois me acompanhou na Presidência, mas um homem de muito boa índole. 

Ele foi filmado com R$ 500 mil, que boa índole é essa?
Sempre tive a convicção de que ele tem muito boa índole. Agora, que esse gesto não é aprovável. 

O sr. falou com ele desde o episódio?
Não. 

O sr. rompeu com ele?
Não se trata de romper ou não romper, não tenho uma relação, a não ser uma relação institucional [com ele]. 

Quando o sr. diz para o Joesley que ele poderia tratar de "tudo" com o Rodrigo Rocha Loures, o que o sr. quer dizer?
Esse tudo são as matérias administrativas. Não é tuuudo [alongando o "u"]. Eu sei a insinuação que fizeram: "Se você tiver dinheiro para dar para ele, você entregue para ele". Evidentemente que não é isso. Seria uma imbecilidade, da minha parte, terrível. 

O sr. o conheceu há quantos anos?
Quando ele era deputado, portanto, há uns dez anos. 

E mesmo o conhecendo há dez anos, ele tendo sido seu assessor...
Mas espera aí, eu conheço 513 deputados há dez anos. 

Mas apenas ele foi seu assessor próximo.
Como são próximos todos os meus assessores. 

E mesmo próximo era apenas uma relação institucional?
Institucional, sem dúvida. 

Nos últimos dias, o sr. veio numa escalada nas declarações. Acha que a Procuradoria-Geral armou para o sr.?
Eu percebo que você é muito calma [risos]. Espero que você jamais sofra as imputações morais que eu sofri. Eu estava apenas retrucando as imprecações de natureza moral gravíssimas, nada mais do que isso. Agora, mantenho a serenidade, especialmente na medida em que eu disse: eu não vou renunciar. Se quiserem, me derrubem, porque, se eu renuncio, é uma declaração de culpa. 

No pronunciamento o sr. foi muito duro com o acordo de delação.
Não faço nenhuma observação em relação à Procuradoria. Agora, chamou a atenção de todos a tranquilidade com que ele [Joesley] saiu do país, quando muitos estão na prisão. Ou, quando saem, saem com tornozeleira. Além disso, vocês viram o jogo que ele fez na Bolsa. Ele não teve uma informação privilegiada, ele produziu uma informação privilegiada. Ele sabia, empresário sagaz como é, que no momento em que ele entregasse a gravação, o dólar subiria e as ações de sua empresa cairiam. Ele comprou US$ 1 bilhão e vendeu as ações antes da queda. 

Se permanecer no cargo, em setembro tem de escolher um novo procurador. O sr. acha que tem condição de conduzir esse processo sem estar contaminado depois de tudo isso que está acontecendo?
Contaminado por esses fatos? Não me contamina, não. Aliás, eu tiro o "se". Porque eu vou continuar. 

É preciso alguma mudança na maneira como esses acordos são feitos? Mudança na lei?
Acho que é preciso muita tranquilidade, serenidade, adequação dos atos praticados. Não podem se transformar em atos espetaculosos. E não estou dizendo que a Procuradoria faça isso, ou o Judiciário. Mas é que a naturalidade com que se leva adiante as delações... Você veja, as delações estão sob sigilo. O que acontece? No dia seguinte, são públicas. A melhor maneira de fazer com que eles estejam no dia seguinte em todas as redes de comunicação é colocar uma tarja na capa dizendo: sigiloso. 

Esse processo dá novo impulso ao projeto de lei de abuso de autoridade?
É claro que ninguém é a favor do abuso de autoridade. Se é preciso aprimorar toda a legislação referente a abuso de autoridade, eu não saberia dizer. Abusar da autoridade é ultrapassar os limites legais. 

O sr. falou muito do Joesley. Mas qual a culpa que o sr. tem?
Ingenuidade. Fui ingênuo ao receber uma pessoa naquele momento. 

Além dos áudios, há depoimentos em que os executivos da JBS fazem outras acusações. Por exemplo, que o sr. pediu caixa dois em 2010, 2012 e 2016. Inclusive para o [marqueteiro] Elsinho Mouco, para uma campanha da internet.
No caso do Elsinho, ele fez a campanha do irmão do Joesley, e por isso recebeu aquelas verbas. Fez trabalhos para a empresa. Diz que até recentemente, esse empresário grampeador pediu se o Elsinho poderia ajudá-lo na questão da Carne Fraca. 

Empresário grampeador?
Mas qual é o título que ele tem de ter? Coitadinho, ele tem de ter vergonha disso. Ele vai carregar isso pelo resto da vida. E vai transmitir uma herança muito desagradável para os filhos. 

Nos depoimentos, há conversa do Loures com o Joesley sobre a suposta compra do Cunha que é muito explícita.
Por que é explícita? 

Porque eles conversam sobre pagamentos.
Você está falando de uma conversa do Joesley com o Rodrigo. De repente, você vai me trazer uma conversa do Joesley com o João da Silva. 

O Rocha Loures não é um João da Silva.
[Irritado] Eu sei, você está insistindo nisso, mas eu reitero que o Rodrigo era uma relação institucional que eu tinha, de muito apreço até, de muita proximidade. Era uma conversa deles, não é uma conversa minha. 

Um desembarque do PSDB e do DEM deixaria o sr. em uma situação muito difícil. O sr. já perdeu PSB e PPS.
O PSB eu não perdi agora, foi antes, em razão da Previdência. No PPS, o Roberto Freire veio me explicar que tinha dificuldades. Eu agradeci, mas o Raul Jungmann, que é do PPS, está conosco. 

Até onde o sr. acha que vai a fidelidade do PSDB?
Até 31/12 de 2018. 

Até que ponto vale a pena continuar sem força política para aprovar reformas e com a economia debilitada?
[Irritado] Isso é você quem está dizendo. Eu vou revelar força política precisamente ao longo dessas próximas semanas com a votação de matérias importantes. 

O sr. acha que consegue?
Tenho absoluta convicção de que consigo. É que criou-se um clima que permeia a entrevista do senhor e das senhoras de que vai ser um desastre, de que o Temer está perdido. Eu não estou perdido. 

O julgamento da chapa Dilma-Temer recomeça no TSE em 6 de junho. Essa crise pode influenciar a decisão?
Acho que não. Os ministros se pautam não pelo que acontece na política, mas pelo que passa na vida jurídica. 

Se o TSE cassar a chapa, o sr. pretende recorrer ao STF?
Usarei os meios que a legislação me autoriza a usar. Agora, evidentemente que, se um dia, houver uma decisão transitada e julgada eu sou o primeiro a obedecer. 

O sr. colocou ênfase no fato de a gravação ter sido adulterada. Se a perícia concluir que não há problemas, o sr. não fica em situação complicada?
Não. Quem falou que o áudio estava adulterado foram os senhores, foi a Folha [com base em análise de um perito feita a pedido do jornal]. E depois eu verifiquei que o "Estadão" também levantou o mesmo problema. Se disserem que não tem modificação nenhuma eu direi: a Folha e o "Estadão" erraram. 

Como o sr. vê o fato de a OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] ter decidido pedir o seu impeachment?
Lamento pelos colegas advogados. Eu já fui muito saudado, recebi homenagens da OAB. Tem uma certa surpresa minha, porque eles que me deram espada de ouro, aqueles títulos fundamentais da ordem, agora se comportam dessa maneira. Mas reconheço que é legítimo. 

Em quanto tempo o sr. acha que reaglutina a base?
Não sei se preciso reaglutinar. Todos os partidos vêm dizer que estão comigo. É natural que, entre os deputados... Com aquele bombardeio, né? Há uma emissora de televisão [TV Globo] que fica o dia inteiro bombardeando. 

Essa crise atrasou quanto a retomada da economia?
Tenho que verificar o que vai acontecer nas próximas semanas. [Henrique] Meirelles [Fazenda] me contou que se não tivesse acontecido aquele episódio na quarta [dia da divulgação do caso], ele teria um encontro com 200 empresários, todos animadíssimos. causam um mal para o país. 

Como o sr. está sentindo a repercussão de seus dois pronunciamentos, mais incisivo?
Olha, acho que eles gostaram desse novo modelito [risos]. As pessoas acharam que "enfim, temos presidente". 
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 Reportagem por:
FÁBIO ZANINI
EDITOR DE "PODER"
DANIELA LIMA
EDITORA DO "PAINEL"
MARINA DIAS
DE BRASÍLIA
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/05/1886163-se-quiserem-me-derrubem-afirma-temer-ao-negar-de-novo-a-renuncia.shtml