terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A tragédia da Chapecoense e a vergonha que sinto - às vezes - da minha profissão

Fernando Guifer (*)
rip-jornalismo

Embora indispensável e de suma importância à sociedade, o jornalismo trabalha com o retrógrado e presunçoso vício do “posso tudo e, se não puder, grito logo que é censura” ou “não erro e vivo acima de qualquer humanidade, então, quem são vocês para dizer o que devo ou não fazer?”.

Amigo jornalista, você fica tão preocupado em escrever bem, em não deixar faltar aquela crase, em aplicar corretamente os 'porques' ou em corrigir a gramática/ortografia do coleguinha, que se esquece de fazer o trabalho conforme jurou na formatura.

"ATENÇÃO: IMAGENS FORTES"

É esse tipo de chamada que lemos sempre que um veículo publica algo impublicável, de utilidade pública ou relevância jornalística zero, mas que opta por não abortar o material por que necessita de likes para sobreviver.
Sim, caros leitores. Já há algum tempo existe uma prática abominável nos - grandes - veículos de comunicação que é a tal da 'meta por clique', e isso corrompe totalmente o conceito da profissão e, principalmente, daqueles que estudaram anos e, agora, para colocar comida na mesa, precisam se tornar vendedores ao invés de jornalistas confiáveis.

E é exatamente nesse ponto em que a credibilidade vai para o ralo e os bons pagam pelos maus, já que não se hesita upar títulos sensacionalistas, imagens de corpos dilacerados, vídeos de conteúdo agressivo e/ou textos sem a real preocupação em informar com qualidade.

Funciona (aparentemente) meio que assim ó: Não importa o conteúdo. Se o leitor clica e o anunciante paga, eu ganho. Então, objetivo atingido!

Desculpe, mas isso NUNCA foi e JAMAIS será jornalismo.

CHAPECOENSE

No caso específico e horrendo da Chapecoense, para exibir imagens do resgate e local do acidente, o que vemos é essa tal frase 'Atenção: imagens fortes’, utilizada como espécie de álibi/desencargo de consciência do tipo: “eu avisei, caro leitor. Abriu porque quis”.

A questão principal é: se a imagem é forte, porquê mostrar? No que isso acrescentará de novo à informação ou à credibilidade da notícia? O leitor precisa ver corpos mutilados para acreditar que o avião caiu e com isso ficar sensibilizado?

Não. E isso é um grande absurdo, principalmente quando analisamos o histórico e chegamos à conclusão de que não se trata de erro, e sim, uma infeliz prática cultural desse “jornalismo” que respira com ajuda de aparelhos.

O acidente com a Chapecoense não é o primeiro a ser tratado como publicidade pelos jornais, e certamente não será o último. Desde as primeiras notícias da tragédia, na manhã do dia 29 de novembro, tem sido impossível ficar calado diante de uma cobertura tão absurda da maioria dos colegas de profissão.

Óbvio que não dá para ser injusto e generalizar, vendo que muitos bons (e humanos) jornalistas e veículos também buscaram honrar nossa relevante profissão. Mas, parte dos mal-intencionados ainda é maioria, e infelizmente dominam os grandes conglomerados de transmissão.

Além da divulgação de fotos desnecessárias, tudo o que se viu ao longo das últimas horas foi sequência de equívocos, como, por exemplo, o anúncio aleatório da lista de mortos (sem que oficialmente algo fosse liberado pelas autoridades colombianas).

Entre os casos mais graves, está o do goleiro Danilo, que morreu e ressuscitou diversas vezes pelos microfones da imprensa brasileira. Uma vergonha para os que prezam pela verdade e se preocupam com a família do ser humano que faleceu.

Inclusive... cadê a empatia, amigo jornalista? Poderia ser teu filho ou tua mãe ali. Todos querem dar o tal furo primeiro e, com isso, dane-se o jornalismo, dane-se as famílias, dane-se a população que clama em oração para que as notícias sejam boas.

Ah, e como se toda desgraça ainda fosse pouca, perdemos 20 colegas de profissão nesse acidente.

Então pergunto a quem estiver imerso nessa cobertura: Você tem feito um trabalho respeitoso com relação à memória de seu companheiro que se foi? Está satisfeito com a cobertura que você ou seu veículo tem realizado? Teus filhos e teus pais estão orgulhosos de você?

Antes de darmos “enter” para publicar qualquer coisa, devemos colocar a mão na consciência e refletir que poderia ser qualquer um de nós ou alguém que amamos profundamente. Não podemos nos esquecer dos valores que aprendemos na infância e, mais do que isso, lembrar sempre de que ESTAMOS jornalistas, mas SOMOS antes de tudo humanos.

Em suma: faça jornalismo, e só!

Apure e notifique somente depois de confirmada a tal informação;

Reporte com imparcialidade e pluralidade;

Erre e reconheça o erro - procurando evoluir na próxima;

Coloque-se na condição de servidor público e não de autoridade privada.

Jornalista (aprenda): você existe para servir.

E se isso não condiz com seu ego ou com aquilo que escolheu para sua vida, não tem problema, é uma escolha que será respeitada. Apenas faça um favor à sociedade largando esse trabalho, pois você ajudará indiretamente na reconstrução de uma credibilidade que tem se esvaído dia após dia por quem não está comprometido com a verdade.

Essa coisa da liberdade de imprensa tem é gerado mais libertinagem de imprensa, isso sim. Visto que mesmo após 31 anos, o brasileiro (e o jornalismo do país) ainda não aprendeu a lidar com a democracia - e desde sempre vem sentindo uma dificuldade imensa em acertar o tom dos discursos que dissertou durante esse período pós-ditadura.

Chega de levantar a bandeirinha de que se é o “quarto poder”. Bora trabalhar honestamente. Desde que esse tipo de termo foi criado, o que se presencia no jornalismo é uma espécie de abuso de autoridade por ele achar que deve estar imune às críticas, e com isso aproveita sua arma (microfone) para utilizar argumentos persuasivos e influenciar a sociedade para que esta aplauda qualquer lixo publicado – indo, vez ou outra, maciçamente contra fizer criticas.

Importante o jornalista e os que mandam na comunicação do país entenderem cada dia mais que a população se tornou grande cabeça pensante, que não engole mais qualquer produto ou notícia sem fazer seus adendos ou apontar o dedo questionador.

Então, não há nada oculto que não venha a ser revelado, e logo se descobre os eventuais desvios de conduta nas matérias, gerando julgamentos públicos que são compartilhados em uníssono.

Antigamente o leitor que desejava opinar sobre o jornal ou revista precisava enviar carta à redação para, no mês seguinte, tê-la publicada. No entanto, as cartas eram escolhidas a dedo, ou seja, publicava-se aquilo que convinha e não o que necessariamente deveria ser publicado (o que denotava claramente censura ao consumidor, esta que o jornalista prega tanto ser contra).

Ganhar dinheiro não é pecado e é mais do que necessário encontrar mecanismos que façam o negócio ser rentável. Mas o segmento noticioso é diferente e requer, acima de tudo, humanidade, para não ser conduzido de jeito amador ou como empresa que vende biscoitos.

MAS, OLHA. A REALIDADE É QUE...

O tempo passa e essa profissão regride na mesma velocidade em que a tecnologia avança, afinal, criou-se zona de conforto em torno do impresso, que impede o digital de se desenvolver com qualidade - mesmo que tenhamos nas mãos todas as ferramentas para alcançar um sucesso superior ao que o papel já nos proporcionou um dia.

Embora indiscutível, a inteligência dos profissionais que comandam os veículos de comunicação parece ainda não ter sido suficiente para que parte deles volte sua mente para 2016 ao invés de continuarem estagnados lá nas décadas de 80/90s.

Aliás, 2016 não. O comunicador-empreendedor deve estar à frente de seu tempo, se preparando, inclusive, de forma sustentável, para buscar (quem sabe) a reinvenção da notícia no próprio papel e então concretizar esse meio como sendo tão imortal quanto o livro, por exemplo.

Mas diretores, gerentes e editores mal conseguem entender direito qual seu público-alvo, imagina prever, criar e inovar alguma coisa?

Realidade atual lamentavelmente utópica.

Em nome do jornalismo, desculpe! 
------------------
(*) Autor do livro "Diamante no acrílico: entre a vida e o melhor dela" - que conta a história de luta, superação e milagre de sua filha que nasceu prematura e passou 80 dias na UTI -, Fernando Guifer é papai coruja da Laís, aluno da vida e atua como jornalista desde 2005.
Fonte:  http://portal.comunique-se.com.br/artigos-colunas/82987-a-tragedia-da-chapecoense-e-a-vergonha-que-sinto-as-vezes-da-minha-profissao-info

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

As mães e os órfãos de Chapecó

Matheus Pichonelli*

Torcedores homenageiam jogadores da Chapecoense
 Garoto sentado nas arquibancadas durante homenagem à Chapecoense: tragédia deixou milhões de feridos
 
A América Latina ficou mais órfã nesta semana. Na dor nos reconhecemos entre iguais.
 
Meu avô construiu durante anos o andor da procissão de Nossa Senhora Aparecida em nossa cidade.
Penso nele, na imagem e nos fieis, que lotavam a praça em volta da igreja, todo dia 12 de Outubro. Mesmo quando não estou, fisicamente, lá.

Voltar àquele lugar, mesmo na memória, é uma forma de voltar a uma época em que eu sabia a quem dedicar meus pedidos e angústias.

Na tradição cristã, Maria é quem intercede pelo milagre. É ela quem pede ao filho, Jesus, que providencie mais vinho aos convidados, embora só tivesse água nos barris – daí a expressão “transformar a água em vinho”.

Encontrada por pescadores em um rio de Santo Antonio de Guaratinguetá, no século XVIII, a imagem da santa negra se tornou o rosto – e a padroeira – de um Brasil escravizado.

O que eu não sabia, até pouco tempo, é que, em muitos países da América Latina, populações locais relatam aparições e manifestações similares às que celebramos por aqui.

Essas histórias foram contadas no documentário “Marias”, que estreou recentemente no Brasil. No filme, a diretora Joana Mariani reúne uma série de relatos de devotos que de alguma forma colocam a santa como um elemento de mobilização comum entre os povos latinos. São muitas as histórias, mas todas trazem um ponto de resistência que até mesmo a Igreja Católica tenta ignorar ou minimizar. As histórias dão à figura da mulher um protagonismo negado pelas escrituras e seus zeladores.

Um exemplo é o surgimento de Nossa Senhora de Guadalupe no mesmo local onde os astecas prestavam tributo à deusa Quetzalcoatl, cuja tradição havia sido destroçada pelos colonizadores. Há quem diga, no documentário, que em determinado momento os indígenas aceitaram a conversão para ludibriar os dominadores que não compreendiam que a santa e a deusa representavam as mesmas forças.

“A América Latina é uma região sem pai”, diz uma das entrevistadas a certa altura do filme. Por onde se olha, afirma ela, é impressionante a quantidade de mulheres obrigadas a cuidar sozinhas dos filhos, seja porque os pais fugiram (para eles, “abortar” o projeto é legalizado), seja porque saíram e não voltavam para casa. Nesses encontros religiosos é a voz das mulheres, muitas delas mães sozinhas, que ouvimos puxar o coro, em melodias muito semelhantes às que ouvia na minha infância.

Quando soube do acidente com o avião que levava a Chapecoense até a Colômbia, na madrugada de segunda para terça-feira, as primeiras informações diziam que se tratava de um pouso forçado, e não de uma queda. Uma pessoa havia sido resgatada com vida, e madrugada adentro ficamos esperando notícias similares, já avisados de que as condições de acesso, agravadas pelo frio e pela chuva, eram delicadas.

Pelo Twitter corriam notícias de que havia ainda muitos sobreviventes à espera de atendimento na aeronave.

Torcíamos para que não houvesse vítimas fatais.

Pouco depois, as esperanças foram reduzidas por notícias mais exatas. Passamos a esperar apenas que houvesse poucas vítimas fatais.

Em seguida uma autoridade declarou haver ao menos 25 mortos.

Por exclusão, haveria cerca de 50 sobreviventes.

No fim, eram apenas, e não somente, sete, mas um morreu no hospital – justamente o goleiro Danilo, cuja defesa no lance derradeiro da semifinal, contra o San Lorenzo, levara a equipe inteira para o grande voo de sua história.

Ao longo da semana, assistimos comovidos às homenagens das histórias interrompidas por uma decisão, ao que tudo indica, irresponsável de quem seguiu viagem com o combustível no limite.

A chamada “pane seca” dá a dimensão do desamparo. Quem está no comando? Quem está preocupado? Quem é capaz de colocar a vida acima de qualquer outro cálculo?

Expressões como sorte, acaso e tragédia mudam de figura quando levamos em conta a responsabilidade humana nas decisões. O mesmo se aplica a desastres como os de barragem em Mariana, em Minas Gerais. Ou no descuido dos donos da boate que não preservaram as condições mínimas de evacuação e segurança antes do incêndio em Santa Maria, no Rio Grande do Sul (Somente agora, escrevendo este texto, me dei conta de que os palcos das nossas tragédias recentes têm em comum o nome “Maria”).

Volto ao documentário de Joana Mariani, ela também, de alguma forma, “Maria”. A América Latina, esse continente que durante a semana descobrimos ligados num abraço fraterno de dois estádios separados por milhares de quilômetros numa mesma homenagem às vítimas de Medelin, é uma região sem pai, embora a padroeira de todos esses países seja a figura de uma mãe.

A queda do avião em uma cidade marcada, até pouco tempo, por uma guerra fratricida entre polícia e traficantes, deixou cerca de 70 famílias sem pais – uma equipe inteira de futebol masculino, dirigida por homens, relatada pela crônica esportiva notadamente masculina e conduzida por um comandante homem. Muitos já eram pais, outros ainda seriam.

E conferiram às mães, deles e de seus filhos, a missão de transformar o luto em luta, como é comum nessas paragens de abandono e desamparo – e como pudemos notar na fala tão dolorosa quanto lúcida da mãe do goleiro Danilo pouco antes de saber da morte do filho.

Na manchete que definiu o sentimento de um país inteiro, o jornal O Vale noticiou que a tragédia aérea matou 71 pessoas e deixou 206 milhões de feridos. Pelas manifestações mundo afora, podemos supor que o número é muito maior, mas nenhum deles é capaz de mensurar a dor de quem precisará retomar a vida sem os amigos e familiares dali em diante.

A América Latina, às vésperas de uma decisão de futebol, único esporte capaz de reunir num mesmo palco tantos afetos, para o bem ou para o mal, ficou mais órfã a partir desta semana. Na dor nos reconhecemos entre iguais e redobramos a força.

Quem traz na pele essa marca possui a estranha mania de ter fé na vida, já dizia uma velha música, de nome “Maria, Maria”.
------------------
* Jornalista e cientista social, escreve sobre cultura e comportamento no site de CartaCapital
Fonte:  http://www.cartacapital.com.br/cultura/as-maes-e-os-orfaos-de-chapeco 02/12/2016

A corrupção é uma estética

 Ivana Bentes*

Quadro com o rosto de Sérgio Cabral produzido por Romero Britto (Foto: Reprodução/Romero Britto)
"O sistema político funciona na base do lobby e da concentração de poder econômico contaminando o ambiente parlamentar. Por isso o moralismo anticorrupção é hipócrita. O que tem que fazer é uma reforma politica para neutralizar ou diminuir 
a corrupção estruturante do sistema"

Mas então era para isso que os corruptos de colarinho branco se arriscaram tanto? A pergunta ecoa diante da imagem de um vaso sanitário polonês encontrado na casa do ex-governador Sérgio Cabral, preso em Bangu, que fornece água em três temperaturas e cujo assento também pode ser aquecido. Luxo demais para necessidades literalmente tão básicas!

As imagens do vaso sanitário high tech produziram revolta e comentários cômicos nos portais e redes e vem se juntar a outros signos de status, estilo e ambições dos ricos, novos ricos e aspirantes ao “clube” social brasileiro – um “quem é quem” contemporâneo que vem migrando da coluna social para as páginas político-policiais.

A pergunta não comporta uma resposta reducionista e nem ingênua. Mas o que está em jogo vai do estilo de vida do “corrupto ostentação” até a névoa que cobre a corrupção estruturante da própria democracia no seu atual estágio, onde o que está em jogo na mídia é sempre “a corrupção dos outros”, dos inimigos políticos, e não o modus operandi e estrutural da corrupção.

Brotam nessas crônicas midiáticas sobre a corrupção toda uma “literatura” descritiva e uma sociologia a quente, em um país de extrema desigualdade, em que a riqueza sempre foi vista, de forma popular como bênção dos deuses ou “merecimento. Só muito recentemente podemos ver a melhoria de vida de um contingente por redistribuição de renda, programas sociais e educação, contrastando com o acúmulo de riquezas “do berço”, vistas hoje com suspeição, apropriação indevida do bem comum, rapina de poucos da riqueza dos muitos.

Uma justa revolta diante da “corrupção ostentação” que a mídia sabe explorar de forma folhetinesca, sempre “fulanizando” ao invés de mostrar sua cara e forma estruturante.

Foram inúmeras as matérias sobre a joia de preço estratosférico dada por Sérgio Cabral a esposa como presente de aniversário: um anel de 800 mil reais pago pelo empresário Fernando Cavendish em troca de benefícios para sua empreiteira. Negócio desfeito, o anel milionário foi devolvido por Cabral, em um conto político-corporativo em que a “troca de favores” terminou em delação e prisão.

Esses contos pouco edificantes, com traições e delações premiadas (Cavendish faz o relato da sua prisão domiciliar), trazem também as grifes, valores e detalhes de uma relação que já suspeitávamos de absoluta intimidade e não separação entre os negócios públicos e a vida privada e o gosto das nossas elites, que formam um único e só sistema.

Crédito ou débito? Eis a questão!

O dinheiro público, financiando uma rotina de luxos, espanta também pela “pobreza” de imaginário. Cartão de crédito, espelho meu, diz-me o que compram os muito mais ricos do que eu!
E o que revelam os registros dos gastos nos cartões de créditos de Cláudia Criz, mulher de Eduardo Cunha são 7,7 mil euros na loja da Chanel, em Paris, de US$ 4,4 mil na Prada, em Roma, de US$ 2,2 mil na Victoria’s Secret, de Miami. O consumo de luxo como forma de “distinção” aumentando o capital social e as relações sociais: casamentos, amizades, alianças entre pares que circulam e se concentram no “clube”.

Os “bens de luxo” que pululam nas operações anticorrupção revelam ainda a forma como uma parcela dos ricos e novos ricos brasileiros tentam comprar “capital cultural” e social por meio do consumo de joias, vinhos, roupas, viagens, uma finesse prêt-à-porter com episódio de “mau gosto”, “cafonice”, exageros, na sua lógica.

É que os que roubam milhões utilizam parte do seu tempo para comprar capital cultural, bens, e experiências de distinção para as quais lhes faltam tempo para se dedicar e mesmo para usufruir o resultado do butim.

O luxo serve a dois fins pelo menos: de lavagem cultural/comportamental e a rapina do comum. As propinas recebidas por Eduardo Cunha seguiam esses dois caminhos de lavagem de dinheiro, segundo investigadores da Lava Jato: “ocultação em contas no exterior em nome da mulher Cláudia Cruz” ou “a conversão do dinheiro público em bens de luxo”, o “dinheiro público foi convertido em sapatos e roupas de grifes”.

Mas os novos ricos buscam algo para além das mercadorias de luxo e adentram o consumo cultural em busca da distinção. Afinal não se pode ser confundido com um rico deseducado e bronco! O espólio do ex-governador Sérgio Cabral revela seus arroubos de canonização pela “arte” com dois retratos do polêmico Romero Brito, cultuado pintor brasileiro de sucesso em Miami, uma espécie de Paulo Coelho das artes plásticas que pinta as celebridades do mundo com seu estilo “inconfundível”.
Mimetizando o retratismo das cortes, vemos nos quadros um Sérgio Cabral pintado de forma multicolorida por Romero Brito, com uma bandeira do Brasil em forma de coração no rosto! Enquanto sua mulher, Adriana Ancelmo, é retratada com cabelo lilás e uma boca vermelha sorridente. Para cada grupo social, um retratista oficial ao gosto de cada “corte”.

Eu vendo a vista!

Joias, viagens, retratismo e, fundamental, o lugar e endereço onde se mora. No mais recente escândalo da República de Temer vimos o ex-ministro Geddel Vieira perseguindo o sonho da “Minha cobertura, minha vida” em um empreendimento de luxo na orla de Salvador. Mesmo que para isso tivesse que passar por cima do embargo da obra do edifício de 24 andares pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico Nacional) do Ministério da Cultura.

O EdifícioLa Vue”, como vários outros com nome em francês ou inglês, não deixam dúvida do desejo de nobreza e exclusividade (depois que um publicitário criou o “Santander Van Gogh” tudo é possível!). O empreendimento se apresenta como esse “sonho do alto” que aparta o morador das coberturas de luxo do cidadão comum: “cobertura com piscina e elevador privativo, deck molhado, quadra, espaço gourmet, fitness com vista para o mar, spa, salas de massagem, sauna e jogos, brinquedoteca, bar”. Uma infinidade de signos de um estilo de vida vendido pelas imobiliárias para os que desejam se distinguir.

Um dos filmes mais significativos sobre esse imaginário apartado das coberturas se chama “Um Lugar ao Sol”, de Gabriel Mascaro, de 2010. Um documentário sobre os proprietários e moradores de coberturas no Recife, Rio de Janeiro e São Paulo que falam sobre essa necessidade de “não ouvir o barulho das panelas que vem da cozinha”, da satisfação de “olhar de cima”, esse sentir se bem se vendo como privilegiado e “a parte”. A busca a todo custo por uma marca de distinção.

O caso Geddel, e sua tentativa de colocar os interesses pessoais acima do interesse público, produziu um escândalo que derrubou o próprio Geddel, o ex- Ministro da Cultura Marcelo Calero e ameaça o presidente usurpador Michel Temer. A operação, com pressão direta, telefonemas, conchavos, para liberar a obra embargada explicitam o objetivo das elites do dinheiro e da política, de se apropriarem do Estado para fins pessoais ou de seus grupos e como consideram “ninharia”, corriqueiro e natural esse comportamento predador.

Não se trata de uma “pequena corrupção”. Toda a orla brasileira está sob ataque de políticos e empreiteiras que tentam burlar pedidos de tombamento pelos órgãos de defesa do patrimônio histórico e imaterial. O Cais Estelita, no Recife, também aguarda posicionamento do IPHAN em defesa do patrimônio e da cidade e de seus habitantes ou beneficiando o empreendimento do “Novo Recife”. Um caso que produziu uma hiper mobilização de movimentos sociais e culturais, contra a especulação imobiliária e formas de resistência de novo tipo, atos, filmes, vídeos.

“Vendo a Vista” poderia ser um anúncio dos empreendimentos que vendem a paisagem brasileira, vendem commons, bens comuns, passando por cima do interesse público e privatizando o Estado se for preciso. São as mesmas empreiteiras que financiam as campanhas políticas.

Fato é que essa elite econômica e os novos ricos não possuem um projeto de sociedade para além da rapina de curto prazo, amealhar bens e riquezas, partilhar um estilo de vida que se diferencia da “ralé” e da classe média por pequenos e grandes privilégios. Esse imaginário de poder está tão arraigado na cultura que esse desejo de distinção, nobreza faz parte de toda uma pedagogia de classes sociais que atinge da elite endinheirada a classe média e as classes trabalhadoras que ascenderam socialmente.

Os pobre-stars

Durante décadas as novelas, o noticiário sobre o fabuloso Eike Batista e sua princesa de coleira (a atriz Luma de Oliveira), ou agora o casal Michel Temer e a primeira dama “bela, recatada e do lar”, Marcela Temer, foram apresentados como donos de estilos de vida “invejáveis”, casais paradigmáticos, de modos de ser e estar de uma elite do dinheiro. Até que caiam em desgraça, o que é cada vez mais comum.

A revista Caras (com seus ensaios fotográficos em castelos e ilhas, chamando filhos de “herdeiros” e namorados de “eleitos”) ensinaram o que é ser “de elite” no Brasil das jacuzzis, dos carros importados e mil marcas e logos. Ensinaram como essa elite estava em um outro lugar, patamar e classe, inatingível. E que era melhor aos pobres “porem-se no seu devido lugar” e aceitarem sua dominação econômica e cultural.

Mas essa pedagogia só deu certo parcialmente. Os pobres, ex-pobres, a classe média, a classe C resolveram (do seu modo) “agregar valor ao camarote”, as suas existências, ao puxadinho, a laje, etc. O funk ostentação foi uma uma das formas de expressões do que as elites chamam de “ideias fora do lugar” (como o rolezinho e outras manifestações dos nossos “pobres stars” que embaralharam os códigos.

As culturas das periferias produziram o seu imaginário ostentação, hoje em baixa com a crise econômica, mas fruto de um trabalhador e de uma “ralé” que se viu com a possibilidade de mobilidade social. Sonhar, ostentar! Os clipes e vídeos do funk trouxeram signos de uma fartura e excesso que mesmo imaginária (castelos e paisagens nevadas! Grana para o alto), produziram um deslocamento e curtição em cima do imaginário dos “ricos”, que incomodou profundamente.

Pois a ostentação dos jovens, dos pobres, das popozudas, explicita não apenas o desejo de entrar no mundo normatizado do consumo, mas o que é realmente imperdoável, explodiu o lugar de “distinção”, racista e classista, e o lugar que lhes foi destinado pelas elites.

Essa foi uma forma de “politizar” a cultura do consumo. Os pobres que ascenderam socialmente no Brasil nas últimas décadas afirmaram um novo imaginário: o afropunk, o orgulho da favela, as mil modas e colorações do cabelo, linguagens, música próprias, uma cultura de resistência, novos movimentos urbanos, para além de terem incorporado o ideário das elites e da direita.

A questão é que vimos, com a crise econômica, com os erros políticos da esquerda no governo, com a redução das conquistas sociais ao consumo, com o golpe jurídico-midiático, se forjar um consenso sobre a “corrupção dos outros”, com o crescimento de uma gigantesca base social de classe média ressentida com a ascensão social dos pobres “fora de lugar”.

Democracia em tensão

A classe média brasileira abraçou o discurso da mídia da “corrupção dos outros”, a corrupção seletiva dos inimigos e se se emponderou de forma histérica com esse neo-moralismo seletivo. A corrupção não é o desvio das regras das instituições, mas seu modo de funcionamento. O sistema representativo atual é corrupto (e os partidos atuam dentro dele e o atravessam).

Como retomar o debate da corrupção pelas esquerdas? De forma estruturante? Impossível acabar com a corrupção sem acabar definitivamente com o financiamento empresarial das campanhas políticas ou anistiando o “caixa dois” Não será um golpe, ou um passe de mágica narrativa que vai livrar o sistema político e corporativo, o sistema midiático, as estruturas religiosas do ônus da privatização e predação do Estado. Será um processo.

A fulanização da corrupção tira o foco do sistema. O obscurantismo no Brasil tem nome e sobrenome: a bancada ruralista, a bancada fundamentalista, o lobby das empresas de comunicação e do agronegócio e outras forças arcaicas de especulação contra a vida e contra as liberdades.

É com base no lobby e no poder econômico das corporações e igrejas que se corrompe o ambiente parlamentar que se sacrifica e destrói o meio ambiente, as culturas, territórios e cosmovisão indígenas, se mata a juventude negra, se atenta contra a saúde da população, contra direitos e liberdades.

O sistema político funciona na base do lobby e da concentração de poder econômico contaminando o ambiente parlamentar. Por isso o moralismo anticorrupção é hipócrita. O que tem que fazer é uma reforma politica para neutralizar ou diminuir a corrupção estruturante do sistema.

Jessé Souza chama atenção para o rentismo e os juros altos como uma das maiores formas de concentração e expropriação de renda e riqueza consentidas, junto com a evasão de recursos para o exterior. Operações de corrupção legalizadas que não produzem escândalo e nem manchetes na mídia.

Isso é como o sistema funciona, o sistema politico e econômico atual é corrupto na sua lógica de funcionamento. Por isso tem que ter reforma política e formação política constante.

O crime no Brasil que foi punido com o golpe não foi contra a corrupção foi contra a entrada dos pobres no jogo democrático, como força politica, através dos programas sociais e entrada nas universidades.

Isso as elites não vão perdoar tão cedo! O golpe jurídico midiático foi dado contra essa mobilidade subjetiva para recolocar em seu lugar as forças retrógradas e conservadoras. Os retrocessos hoje em curso não são o erro de um partido simplesmente e muito menos de um governo. São um processo de restauração de uma elite.
----------------------
* Ivana Bentes, professora e pesquisadora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ensaísta, curadora e atuante na área de comunicação e cultura, ex-diretora da Escola de Comunicação da UFRJ de 2006 a 2013 e Secretária de Cidadania e Diversidade Cultural no Ministério da Cultura, de 2015 a 2016, em artigo publicado por revista Cult, novembro de 2016.
Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/563022-a-corrupcao-e-uma-estetica

domingo, 4 de dezembro de 2016

Em Havana, escritores refletem sobre Cuba sem Fidel

A escritora cubana Wendy Guerra, crítica ao regime na ilha

A escritora cubana Wendy Guerra, crítica ao regime na ilha 

Pedro Juan Gutiérrez, 66, está em dúvida. Não sabe o que fazer com duas imagens que tem na sua cabeça. Uma, de quando tinha 9 anos, e viu Fidel Castro entrar em Havana da janela de sua casa. "Minha mãe costurou à mão uma bandeira para recebê-lo", conta à Folha, no saguão do hotel Inglaterra, no centro de Havana.

A outra imagem é da semana passada. Enquanto dava entrevista a um jornal espanhol, viu pela sacada de seu apartamento a passagem do cortejo fúnebre do ditador. "Saímos para olhar, e deu tempo de ver rapidamente os carros militares com aquela urna pequena coberta pela bandeira cubana, então me veio um flash da imagem dos meus 9 anos."

O autor de "Trilogia Suja de Havana" (Alfaguara) não quer mais falar nem escrever sobre política. Desde que lançou seu último romance, "Fabián e o Caos" (também pela Alfaguara), em 2015, em que tratava de um personagem tímido, gay, perseguido pelo regime, baseado num amigo seu da adolescência, acha que não tem mais nada a dizer sobre o regime.

"Mas depois que vi o féretro, fiquei pensando nesse arco de tempo, entre a primeira imagem e a segunda, e isso teve um impacto em mim, toda minha vida transcorreu entre esses dois momentos. E seria uma outra vida se Fidel Castro não tivesse existido."

Ainda assim, não sabe bem o que fazer com essas duas imagens. "Dá para uma anedota de duas linhas, um pequeno post, ou para um romance imenso. Ou para nada", diz, rindo.

Outra autora cubana que vem refletindo em seus livros as lentas transformações na ilha é Wendy Guerra, 45, que não crê em grandes mudanças nesse momento. "Fidel deixou de existir visualmente há vários anos. A única coisa que sua morte provoca é o fechamento de um ciclo de alguém que mudou Cuba há cinco décadas. Agora, as mudanças devem vir de uma transição lenta, mas feita por uma geração que ainda não teve a oportunidade de enfrentar a liderança. Fidel mudou a história e passou para a história. Agora é a nossa vez de fazê-lo."

Para Guerra, a vitória de Donald Trump nos EUA pode significar um retorno a um passado que conhece muito bem, o de viver de costas para os EUA. "Nós crescemos assim, aos 13 anos me colocaram um fuzil na mão para me ensinar a disparar", conta.

A autora de "Todos se Vão" (Benvirá) diz que as mudanças que vinham sendo feitas a partir do aperto de mãos entre Raúl Castro e Barack Obama são o modo mais "coerente" de enfrentar essa nova era. "No caso de que Trump queira interromper o diálogo conosco, simplesmente voltaremos a estar de costas para os EUA. Mas há um fato novo. Agora existem milhões de cubanos que são americanos, e portanto a história não seguirá sendo da mesma maneira."

Guerra acha que Trump vai querer negociar "para fazer de nossa ilha um grande hotel, mas como nos EUA não é possível um presidente fazer simplesmente o que quiser, será um período complexo, de tensão, diferente do mundo sem norte-americanos nos quais eu vivia quando era criança."

Ela ainda observa como Cuba está cheia, neste fim de ano, de turistas dos EUA. E que, para que isso deixe de ocorrer, Trump terá de agir como um ditador. "E um ditador não só vai contra seus inimigos.
Um ditador estabelece um regime estrito em sua própria casa, asfixiando até mesmo seus seguidores. E isso posso dizer por experiência própria."

A escritora ainda se mostra surpreendida com o modo como Cuba está se despedindo de Fidel de forma religiosa, "justamente depois de tanto tempo de separação entre o governo e a Igreja."

Criticou, também, a severa lei seca de uma semana (apesar de desrespeitada em hotéis e em restaurantes turísticos) e a proibição à música, por uma semana.

"Se tivessem me perguntado, creio que o melhor modo que há para se despedir de um cubano é com música", completa.
---------
Reportagem por  SYLVIA COLOMBO ENVIADA ESPECIAL A HAVANA
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/12/1838202-em-havana-escritores-refletem-sobre-cuba-sem-fidel.shtml

Laurent Lafforgue: Reformar para quê? As mudanças no ensino pelo mundo, para o matemático francês.

 
Foto: CARLOS EZEQUIEL VANNONI | PAGOS
A vontade de mudar a escola está destruindo sua principal função: a de transmitir conhecimento sem sobrecarregar o aluno, diz o matemático francês Laurent Lafforgue, estudioso dos sistemas educacionais pelo mundo

Na era da “pós-verdade”, não são raros os educadores a chamar a atenção para a incapacidade de jovens e adultos de interpretar textos e de discernir uma informação falsa de uma verdadeira. Numa época em que a matemática e seus algoritmos têm cada vez mais influência, um matemático eminente, o francês Laurent Lafforgue, adverte para a importância da relação prosaica entre professor e aluno. “Educar é antes de tudo transmitir conhecimento, do mais básico ao mais complexo. O elementar é desenvolver o senso de interpretação, que forma o espírito crítico”, disse ao Estado. “Uma educação que não garante nem mesmo o domínio da linguagem não permite pensar.” 

Nesta entrevista, concedida à luz do movimento estudantil que persiste no Brasil, Lafforgue, vencedor da Medalha Fields, a mais alta distinção de sua área no mundo, discutiu presente e futuro da educação. A seguir, a síntese da entrevista. 

O que seria uma reforma do ensino que abarque as necessidades dos estudantes hoje? Faz sentido retirar disciplinas como sociologia ou filosofia?
Não, de forma alguma. Creio que disciplinas como a filosofia ou a história são muito importantes. Engajei-me muito em debates sobre educação nos últimos 10 anos ou mais e fui inspirado por um só princípio: o de que a escola serve para instruir e transmitir conhecimentos. Para mim, que sou matemático, os conhecimentos mais importantes são os literários. Antes de mais nada, o domínio de sua própria língua, em especial o domínio da gramática, e a seguir a aprendizagem da literatura, por meio da leitura de grandes escritores e de grandes filósofos. Tudo isso me parece indispensável para o desenvolvimento do espírito crítico e para a própria formação da pessoa. Sem o domínio da linguagem, não podemos nem mesmo pensar.
 
Desde 2005, o sr. ressalta a importância do núcleo comum e de um ensino progressivo, que parta do mais simples ao mais complexo.
É muito importante para o aprendizado que o ensino seja progressivo e estruturado. Progressivo no sentido de que a cada ano ele deve ganhar em profundidade, e não passar a outro assunto sem nenhuma relação. Que avance do mais simples ao mais elaborado. Da mesma forma, o ensino precisa ser estruturado, e não dividido em áreas desconectadas. Na história, por exemplo, é importante ter uma cronologia que avance e estabeleça conexões entre os eventos. Nesse sentido, as grandes obras literárias, por exemplo, precisam ser inseridas.
 
O sr. defendeu à época a importância do ensino do latim e do grego no currículo.
Sim, meu engajamento começou assim. Assinei um abaixo-assinado pela manutenção do ensino do grego, porque acreditava que era algo importante. Os organizadores encontraram meu nome e, ao final, organizaram uma conferência com pessoas de diferentes disciplinas, que tinham em comum o apego ao ensino do latim e do grego. Ouvi muitas outras pessoas nessa conferência e fiquei estarrecido ao descobrir que educadores que defendiam o ensino de grego e latim advertiam para uma situação ainda mais grave, que era a do ensino do francês – a língua que falamos. Assim, descobri a crise grave pela qual a educação passava na França, assim como em muitos países, onde ela estava em vias de destruição rápida por políticas governamentais.
 
O sr. cita um ciclo negativo: professores educados de forma precária ensinam precariamente.
A educação é um grande transatlântico, com enorme inércia. Quando as coisas começam a se degradar, a inércia é muito forte. Os professores que sofreram com um ensino degradado têm muito menos conhecimento, e vão dispensar uma educação degradada. Muitas vezes, nem sabem o que é ensinar corretamente. A degradação começou há pelo menos meio século, e não é um fenômeno francês. Todos os países da Europa enfrentam o mesmo, nos Estados Unidos, os problemas do ensino fundamental e médio são ainda mais antigos, e tudo o que chamamos de Ocidente está atingido pela degradação do ensino e, logo, pelo nível cultural e intelectual.
 
E o sr. acusa o “muro ideológico”, criado por pessoas de direita e esquerda, que “ideologizaram” a educação, como responsável pela degradação.
Os responsáveis são de alguma forma todos os governos que se sucederam nos últimos 50 anos. Na França, a educação é mais dominada pela esquerda que pela direita. Mesmo quando os governos são de direita, as pessoas que mantêm o poder na educação são em geral de esquerda. Essa esquerda pós-1968 está em ruptura total no plano da educação com o que a própria esquerda havia feito na Terceira República (1870-1940). Quais são os princípios desse problema: antes de mais nada, esquecer que a missão original de uma escola é a de transmitir conhecimento. Houve uma desvalorização considerável, talvez total, do valor do conhecimento. Muitos intelectuais passaram a duvidar do valor do conhecimento e começaram a pensar que a escola era feita para outra coisa – em especial para formar novas gerações, seres pacíficos para uma nova sociedade. Há um desejo de uma nova sociedade que passa à frente da prioridade, que é a aquisição do conhecimento. Temos hoje novas gerações mal instruídas, têm pouco conhecimento, dominam mal sua própria língua e que não são nada pacíficos. Vê-se nas escolas o desenvolvimento da violência, o que, em outro momento, era inimaginável.
 
O sr. considera que o construtivismo tem parcela de responsabilidade nisso. Por quê?
O construtivismo desvalorizou o simples fato de que um professor pode pretender transmitir conhecimento. Evita-se que o professor se coloque em posição de superioridade em relação às crianças. Adotamos uma postura segundo a qual a criança deve construir o conhecimento sem se dar conta, e não receber o conhecimento. Mas isso pôs sobre os ombros das crianças um peso esmagador, porque é muito mais difícil, talvez impossível, encontrar sozinho o conhecimento que temos construído de forma coletiva há séculos. Vimos pesquisadores e intelectuais que pretendiam transformar as crianças, às vezes desde muito cedo, em pequenos pesquisadores. Mas eles esqueceram que eles próprios, antes de se tornarem pesquisadores, haviam recebido durante anos conhecimentos de seus professores, do mais simples ao mais elaborado, antes de chegarem eles próprios à obra criadora. Os professores também devem escutar os alunos, mas a prioridade é que ensinem.
 
O sr. não deve conhecer o movimento estudantil contra a reforma da educação no Brasil. Mas o que pensa em tese de uma reforma que, entre outras medidas, suprime o ensino da filosofia?
Depende da reforma. Vou lhe falar da experiência francesa. Nos últimos 50 ou 60 anos, tivemos uma sucessão de reformas. Cada uma feita para melhorar, mas essa sucessão foi o que destruiu a educação. Na França, a maior parte dos jornais considera que a educação nacional é um mamute impossível de reformar. Nos dizem que os professores são muito conservadores, que não aceitam a mudança. Para mim, é o oposto. Lamento que os professores não tenham resistido mais. A educação na França passou por modificações que mudaram para sempre a natureza da escola e do ensino. Essas mudanças foram catastróficas. Não digo que toda reforma seja má, isso depende do conteúdo da reforma. Mas, na experiência francesa, toda reforma se apresenta como boa, e os resultados são o contrário do objetivo inicial.
-------
Reportagem por  Andrei Netto / PARIS,
O Estado de S.Paulo
26 Novembro 2016 
Fonte: http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,reformar-para-que-as-mudancas-no-ensino-pelo-mundo-para-o-matematico-frances-laurent-lafforgue,10000090745

Luto em verde e branco: como o Brasil deve lidar com a tragédia da Chapecoense?

Maria Júlia Kovács*

 Resultado de imagem para luto chapecoense

Ao lidar com perdas coletivas, como a da Chapecoense, a sensação de compartilhamento de experiências ajuda. Mas há pontos negativos, como a falta de privacidade, diz psicóloga

A morte faz parte da vida e todos sabemos que um dia vamos morrer. Mas não dessa forma, na queda de um avião de madrugada, numa região montanhosa quase no aeroporto. Essa mescla de fatores, repentina, abrupta, violenta, envolvendo na sua maioria jovens com uma perspectiva de carreira pela frente, não é natural. Um time de futebol do interior de Santa Catarina, que vivia seu melhor momento. A caminho de um título sul-americano – e morreram quase todos de uma vez. Em vez de comemoração, choque e desespero. Que tipo de luto é esse e como lidar com ele? 

Tragédias envolvem sempre dor, um sentido de injustiça, perguntas que não têm resposta. Por que esses jovens, por que nesse momento glorioso? Famílias perdem filhos, para sempre uma perda dolorosa, que dificilmente se explica, mesmo que seja anunciada por uma doença – é uma perda invertida, filhos e netos que morrem antes de seus pais e avós. Como envolve um evento inesperado, busca-se desesperadamente uma resposta ou sentido. Dificilmente será encontrada no imediato, no calor do acontecimento. Cada um tentará à sua maneira elaborar o ocorrido. 

O luto é um processo normal de elaboração da perda quando há vínculos estabelecidos como família, amigos e colegas. Pode haver confusão entre comoção e luto. O desastre que atingiu Chapecó é pleno de comoção, mas para alguns envolve luto pela qualidade de vínculos, por exemplo para a família e amigos – e talvez comoção para os torcedores, moradores de Chapecó, do Brasil e do mundo. Entretanto, quando pensamos em ídolos (um exemplo é Ayrton Senna), comoção e luto se misturam. Todos se emocionam, choram, sentem a dor no coração. 

O luto não é doença, embora possa parecer pela intensidade de sentimentos e por comportamentos estranhos à primeira vista – como, por exemplo, correr e atravessar a rua sem olhar, deixar uma panela no fogo, não comer, não dormir, não sair da cama. É um momento que demanda cuidados. A pessoa em luto, principalmente nas fases iniciais, pode colocar sua vida em risco. As circunstâncias da morte interferem no processo do luto. Mortes por desastres aéreos, inesperadas e violentas, não permitem despedidas – uma questão relevante, a ponto de haver grupos de estudos sobre luto em situações de desastres, ligados ao Conselho Federal de Psicologia. 

O processo de luto pela perda de uma pessoa leva tempo, um tempo subjetivo para que se possa processar o que significa perder um filho, um cônjuge, figuras parentais, amigos ou amantes. Não se devem estabelecer períodos, ou modos de enfrentamento padrão. Cada um expressa os sentimentos à sua maneira e por isso ela deve ser respeitada e acolhida. Os estudos sobre luto dos pioneiros, como Freud e Bowlby, apontam para suas fases, com manifestações como choque; anseio e busca da pessoa morta; elaboração a partir da percepção da realidade da perda; lidar com sentimentos que a morte provoca e retomada da vida sem a presença do falecido. As fronteiras entre as fases nem sempre ficam claras. Atualmente, os estudiosos do luto apontam que, mais importante do que um padrão de enfrentamento, deve-se observar o processo do enlutado. Cabe destacar que o que está sendo vivido nesse desastre é o choque, que se destaca pela intensidade do impacto e pela sensação de torpor, sem que haja clareza sobre o que fazer. Tristeza, desamparo, desespero, desesperança, vulnerabilidade, medo, eis algumas das fortes emoções que sentimos, de difícil nomeação. 

Um desastre aéreo representa um trauma, que atinge as pessoas como círculos concêntricos, tendo como analogia uma pedra que se joga na água. O maior impacto do desastre atinge os familiares, amigos; depois se pode pensar nos colegas do clube, torcedores, jornalistas, moradores da cidade, do Brasil. Crianças de Chapecó que conheceram os jogadores poderão ter sua primeira experiência de morte, tomando contato com o atributo que torna a morte dolorosa: não poder mais ter a presença da pessoa, como tinham até então. Crianças sofrem com a morte e devem ter seus sentimentos legitimados, e não evitados, como se não percebessem o que acontece. 

E então nos perguntamos o que fazer diante de tanta dor e sofrimento? Em alguns casos a explicação pode ajudar na busca de sentido para o ocorrido. É importante deixar que as pessoas enlutadas falem, é o melhor que podemos fazer durante o trauma. Também é fundamental que ajudem nas atividades cotidianas. Cuidar de crianças e idosos pode ser muito importante para os enlutados. O que não se pode é abafar a dor, imaginar que se possa ter um dia igual aos outros. Ter fé e crença em Deus, ou uma perspectiva espiritual pode ajudar no conforto, mas nunca deve ser imposta, sob risco de provocar mais dor. Quando interfere no processo de sofrimento da pessoa, a imposição espiritual pode ser negativa – por exemplo, ao dizer que é preciso “aceitar a perda por ser vontade de Deus”, ou que não se deve chorar porque interfere na jornada da alma. Esses “conselhos” podem atrapalhar o fluxo de emoções que a morte de uma pessoa significativa provoca. 

Rituais coletivos como os propostos: abraçar o estádio, missas, partidas de futebol com homenagens também ajudam. Num processo de perda coletiva, há pontos positivos que envolvem a sensação de pertencimento no grupo, compartilhamento de experiências e sentimentos. Mas há também aspectos negativos, ao não permitir a privacidade para viver e elaborar os sentimentos diante da perda de um familiar. Possivelmente algumas famílias não aceitarão o velório coletivo, para que possam se despedir de seu ente querido e viver sua perda pessoal, e eles têm todo o direito. Nos processos coletivos, pode ocorrer invasão de intimidade prejudiciais ao seu processo de luto. Cantar ou bater palmas pode interferir no silêncio necessário para introspecção, que o sofrimento demanda aos enlutados. É difícil conciliar desejo dos familiares com um grupo maior que envolve, por exemplo, os torcedores e moradores da cidade. 

Ouvimos dizer que o tempo ajudará a elaborar. Certo, mas nunca no esquecimento, e sim na integração possível desse acontecimento na vida de cada um. Não se propõe colocar uma pedra sobre os acontecimentos, e sim cultivar lembranças, narrativas e histórias. Podem ser escritos livros ou produzidos filmes. Avós contarão aos netos a história de seus pais. O luto para os principais envolvidos não acabará, mas há possibilidades de elaboração e integração na vida. Psicoterapia pode ser importante ferramenta de ajuda. Daqui a algum tempo, o impacto da tragédia vai se esvanecer. Já a memória nunca se apagará. Assim se espera. 
-------------------
* MARIA JÚLIA KOVÁCS, PROFESSORA DO INSTITUTO DE PSICOLOGIA DA USP E COORDENA O LABORATÓRIO DE ESTUDOS SOBRE A MORTE, É AUTORA DE EDUCAÇÃO PARA A MORTE – TEMAS E REFLEXÕES (CASA DO PSICÓLOGO)
Fonte:  http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,luto-em-verde-e-branco-como-o-brasil-deve-lidar-com-a-tragedia-da-chapecoense,10000092293
Imagem da Internet

sábado, 3 de dezembro de 2016

O CORPO, ENTRE O INDIVIDUAL E O COLETIVO



Ao contrário do que sugere o mercado, nossa força não está em sermos indivíduos — mas parte de redes. Nelas pode estar a potência dos comuns contra o medo

Quando observamos, casualmente, corpos andando pela cidade, podemos nos dar conta da enorme quantidade de conexões e ações que fazem, de cada corpo, parte de um processo onde corpos se produzem juntamente com os ambientes de que são parte e expressam com suas formas quem são e como lidam com suas vidas. Não é pouco para um lance de olhar. Mas está aí para quem se dispuser a ver.

Nossa cultura visual nos ensina perfeitamente sobre a realidade dos corpos, desde as vidas de elites e celebridades até as vidas em guerras, desastres, migrações. E todos nós sabemos que os corpos nos permitem ver como essas vidas dependem, simultaneamente, de si e dos jogos de força que controlam os recursos do planeta.

Corpos mostram, o tempo todo, que são feitos de forças biológicas e experiências de vida, estruturadas como carne. Músculos e ossos nos particularizam e nos fazem existir como um corpo sólido e reconhecível. As vísceras processam o ambiente na nossa profundidade secreta, propiciando-nos as condições para prosseguir. A vida nos aparece como algo muito individual, quando vivemos o corpo em nível de sua estrutura visível ou de suas necessidades de sobrevivência. Mas, seria mesmo assim?

Diferentemente do passado pouco distante, passamos a viver uma conexão formando uma quase infinita rede mental que experimentamos o tempo todo. Com a contração do planeta produzida pela velocidade dos meios de comunicação, e a acumulação dos acontecimentos que a cibercomunicação tornou ainda mais instantânea e abrangente, cada vez mais estamos imersos nesse processo.

Em tempo real, as mentes pensam sem barreiras entre elas, em ondas psíquicas que envolvem sua ação conjunta, seja através das redes sociais, da telefonia celular, da informação de todo tipo, das burocracias e tecnologias que nos controlam e regulam. Ondas de sentidos e imagens, estados de espírito, sentimentos e desejos percorrem o planeta. O que podem os corpos nessa condição tão ampla e geral?

Felizmente, podemos enxergar nos corpos sua dimensão perene e vivenciar seu sentido em nossa relação com a vida, lembrando sempre que:

– as mudanças e adaptações que os corpos fazem são moldagens de si, com aquele mesmo corpo feito dos mesmos tecidos que biologicamente se tecem, de modo contínuo, com os elementos dos ambientes de que aquele corpo é parte;

– corpos se movem, absorvendo esse mundo que está aí, formando a si mesmos em tempo real, visível e invisível, com as mesmas regras que a vida biológica necessita, e sempre necessitou, para se efetuar;

– cada corpo, numa corrente ininterrupta, canaliza, como sempre canalizou, a vida na biosfera, em linhas ininterruptas de corpos;

– corpos não estão dentro da biosfera, mas são a própria biosfera, e corpos são canais da própria vida buscando se sustentar no planeta.

A arte, hoje, desloca nossa percepção e experiência para esse processo planetário. A ciência, também, com sua enorme divulgação pop, nos permite ler, ver, assistir e absorver essa nova realidade ecológica. Passamos a saber, na carne, que somos parte dessa comunidade biológica que coloniza este planeta. Isso nos comunica uma enorme força.

Sabemos, contudo, também na carne, que hoje, mais do que nunca, esse poder de colonizacão planetária que pertence à Vida está concentrado em mãos cada vez mais numericamente reduzidas. A tradição dominante do pensamento ocidental antropocêntrico, eurocêntrico, falocêntrico nos fez crer, durante séculos, que a criação inteira estava destinada ao homem europeu, branco, macho, colonizador e proprietário do planeta. Essa divisão leonina de direitos prossegue. Por outro lado, porém, as pressões que sentimos em nossas vidas por parte das políticas conservadoras e concentracionistas de poder sobre os recursos do planeta, as redes digitais, a informação generalizada e os movimentos de resistência micropolíticos, culturais e sociais nos fazem, hoje, enxergar, saber e sentir profundamente essa realidade de que somos parte. Isso se tornou inegável.

O corpo vem lutando biologicamente há bilhões de anos para manter-se agregado dentro de ambientes os mais adversos. Os ambientes, hoje, lembremos, são as condições físicas, afetivas, tecnológicas, econômicas, informacionais, políticas, de linguagens, valores e sentidos integrados entre si. Quando nos vivenciamos como corpos em processo de permanente produção dentro de ambientes, passamos a enxergar e confiar que temos recursos na nossa herança biológica para interferir nas formas de um destino aparentemente invencível.

Nossa vida no mercado

O mercado, que desde os anos 1970 tornou-se mundial e integrado, é o ambiente onde os corpos hoje nascem, vivem e morrem. De Nova Iorque ao fundo da África, ecoa seu poder. Mas, diferentemente do poder moral das famílias e das instituições, o mercado não vigia e pune como antes. Num contínuo jogo de forças, ele exerce uma captura das forças formativas nos corpos. O mercado age diretamente sobre a vida nos corpos e sobre a forma que eles tomam para fazer suas dramaturgias, ou seja, sobre as formas particulares de desejar e fazer-se corpo no mundo.

A produção constante de imagem e sentido onde estamos imersos é a própria expressão do mercado. Ele inunda continuamente nosso espaço corporal, agindo através de um duplo jogo: a ameaça de exclusão (e desconexão) das redes que formam nossa realidade e a oferta de configurações para nossa forma, que constantemente se desfaz sob o efeito da velocidade e da intensidade dessas forças. Diante das ameaças de exclusão que são continuamente mostradas nas mídias (violência, miséria, desastres, destruição, desamparo, políticas sociais, etc), os corpos reagem, como todo e qualquer animal, acionando em si o reflexo do susto: recolhem-se, fecham-se, desligam-se do ambiente e de suas redes, e muitas vezes fragmentam-se em pânico, como o bicho diante do predador. O reflexo da imitação se desencadeia, imediatamente, e nos faz mimetizar o ambiente. Esse ambiente é o próprio mercado nos oferecendo, como salvação, formas de vida que aparentemente funcionariam como bordas para nossa desorganização. Fundimos com o ambiente para deixarmos de ser alvo das forças de exclusão. É a vida funcionando como no tempo dos animais.

Mas, quando aprendemos pela experiência como se fazem corporalmente esses reflexos, podemos desenvolver estratégias para desfazê-los, numa prática combinada de músculos e sistema nervoso. E ao desfazer esses reflexos fatais para a nossa autonomia e diferenciação, desfazemos um enfeitiçamento. Acordamos para nos vivenciar como corpos comuns e passar a gerar os comportamentos necessários para sustentar conexão com as redes, próximas e distantes.

A rede mundial do mercado, como sabemos, é explorada por uma reduzida rede de poder, que corresponde a 1% da população. E nós, os restantes 99%, somos a multidão de corpos comuns. Diferentemente do que o mercado tenta, e muitas vezes consegue nos convencer, nossa força está exatamente em não sermos especiais. Nossa força está em lutar e amadurecer para a evidência de que a vida se dá em rede e que é possível funcionar como parte. Deter-se sobre a nossa presença física, sua forma e suas conexões, nas diferentes condições que vivenciamos, passa a ser a base de uma vida normal.

O próximo passo é identificar-se corporalmente com a forma das ações que produzimos para sustentar quem somos, sintonizando com o sentimento que se desprende daí – um sentimento a ser praticado e cultivado. A realidade corporal passa então a nos guiar, mais e mais, na relação com outros corpos e na criação conjunta de ambientes mais oxigenados – porque reais e presentes. Esse é o pulo do gato.
-------
REPORTAGEM por  Regina Favre
Fonte:  http://outraspalavras.net/sociedade-2/o-corpo-entre-o-individual-e-o-coletivo/ 30/11/2016

QUEM INVENTOU A "PÓS-VERDADE?

161201-pos-verdade2

Depois de distorcer sistematicamente os fatos, velha mídia queixa-se da enxurrada de mentiras difundidas nas redes sociais. Faz sentido: os oligopólios não toleram concorrência
 
 “Querem me dizer que esse gás sarín não existe?!”
(General Collin Powells, exibindo uma “prova” na ONU)

Os Dicionários Oxford escolheram “pós-verdade” como a palavra do ano. “Notícias falsas” e política “pós-verdade” foram declaradas culpadas pelo resultado a favor de o Reino Unido separar-se da UE, e pela vitória de Donald Trump nos EUA.

Como se a plebe analfabeta e burra caísse nas “falsas notícias” que os infelizes leem na “nova mídia” e nas mentiras da perigosíssima gangue de políticos ditos populistas que só investem nas emoções mais baixas, não em “fatos objetivos”, para angariar votos. Fenômeno terrivelmente preocupante, que ameaça diretamente a civilização ocidental como a conhecemos.

Bem, bem, perdoem-me por não segurar uma gargalhada. Porque ver o establishment assim tão preocupado com “notícias falsas”/”política pós-verdade” é a piada mais engraçada que me aparece desde que Lord Jenkins of Hillhead, imponente reitor da Universidade de Oxford, várias vezes, repetidamente, chamou seu ilustre hóspede do Sheldon, Mikhail Gorbachev, de “Mr. Brezhnev.”

O que há de tão hilário? Ora! É que as pessoas e os veículos que mais alertam contra os perigos das “falsas notícias” e da “política pós-verdade” são os maiores disseminadores repetidores de “falsas notícias” e da “política pós-verdade” que jamais houve. É como ouvir lições da boca de Al Capone sobre a imoralidade do contrabando; ou o corcunda de Notre Dame a exigir que todos se sentem com costas retas.

Não há dúvidas de que o melhor, digo, o pior exemplo de “falsas notícias” nos últimos 25 anos ou mais, é a mentira neoconservadora belicista segundo a qual o Iraque teria armas de destruição em massa em 2002/3. E não foi mentira criada, disseminada e repetida por “blogueiros obscuros” e “nova mídia”, mas por políticos ocidentais da mais fina estirpe, de partidos “sérios”, e “especialistas” aprovados pelos altos padrões de seriedade e respeitabilidade a serviço de BBC/ITV/CNN, etc., e colunistas de jornal os mais “sérios” e “respeitáveis” dos veículos mais idem e idem.

Nunca houve absolutamente nenhuma prova de que Saddam Houssein teria armas de destruição em massa. A história nunca passou de plena e total mentira, absoluto bullshit. Pois essa notícia falsa dominou as manchetes durante meses em 2002/3 e levou a uma invasão criminosa que matou número assombroso de seres humanos. Diferente da histeria contra “notícias falsas” de hoje, a guerra do Iraque nunca foi piada. Aquela notícia falsa destruiu um país inteiro!

E… adivinhem?! Os mesmos que inventaram e repetiram sem parar e que converteram a mentira sobre armas de destruição em massa em notícia lá estão hoje, os mesmos, a deitar falação sobre “falsas notícias”!

John Hilley observou: “A BBC até meteu lá no estúdio Alastair Campbell (homem de Tony Blair, encarregado da ‘comunicação’ naqueles dias falsos da manhã à noite), para defender a palavra ‘pós-verdade’ como meio para ‘denunciar’ os ‘perigos’ das ‘falsas notícias’.”

Campbell ensinou que “Reconhecimento que a política, que sempre foi dura, entrou em nova fase, quando os políticos que mentem parecem hoje ser recompensados pelas mentiras.” (BBC2 Jeremy Vine Show, 16/11/2016).

O que diria Orwell desse Campbell, mestre em criar e disseminar notícias falsas e belicista blairista, lá sentado, dentro da BBC e recompensado por suas ideias sobre “pós-verdade” e “notícias falsas”? – pergunta Hilley.

Não tenho dúvidas de que o velho George está aos pulos na cova, em Sutton Courtenay.

E há também o príncipe da guerra & camisa branca, belicista Bernard-Henri Levy. Hoje, o Sunday Telegraph noticia na manchete: “Renomado filósofo francês: Marine Le Pen pode sair vitoriosa, porque o povo já não se interessa por saber se os políticos dizem a verdade.”

Oh, que ironia!

Porque se o povo francês realmente “já não se interessa por saber se os políticos dizem a verdade”, Henri-Levy e seus cúmplices belicistas militantes da “mudança de regime” têm muito a ver com isso.
Lembrem a guerra contra a Líbia, que o “renomado filósofo francês” fez lobby sem descanso. Para vender a guerra à opinião pública ocidental, nos mentiram que Muammar Gaddafi estaria a ponto de cometer um massacre “estilo Srebrenica” em Benghazi. Media Lens anotou o que então se “noticiava”.

Mais uma vez, só “notícias plantadas” [orig. “rollocks“]. Cinco anos depois que a Líbia, como o Iraque antes dela, foi destruída por “intervencionistas” ocidentais, relatório da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Comuns informava, afinal sem mentir, que “a proposição de que Muammar Gaddafi teria ordenado o massacre de civis em Benghazi não encontra apoio em nenhuma prova hoje disponível.”

E não foi a única “informação verdadeira” que políticos ocidentais distribuíram pela mídia-empresa para a mídia e que não encontrava nem jamais encontraria qualquer apoio em “prova hoje disponível.” Em fevereiro de 2011, o secretário de Relações Exteriores William Hague insistiu que teria visto “informação” que sugeria que Gaddafi estava a caminho da Venezuela. Um “diplomata” não identificado dissera que se tratava de “informação confiável”. Só que não era. Tratava-se do mesmo tipo de notícia falsa que passa a nos ser impingido sem parar, à opinião pública, cada vez que elites ocidentais põem-se a tentar “mudança de regime”.

Em abril de 2011 a notícia em todos os veículos “sérios”, não falseadores de notícias, rezava que Gaddafi (o qual, como adiante se viu nunca fugira para Caracas), estava alimentando seus soldados com Viagra “para estimular o estupro em massa.”

“As forças de segurança de Gaddafi e outros grupos na região estão tentando semear divisões entre a população, usando violência contra mulheres e o estupro como armas de guerra. Os EUA condenamos essas práticas nos termos mais fortes” – “noticiava” a secretária de Estado Hillary Clinton, a mesma cujos apoiadores estão hoje a se lamuriar com a tal “política pós-verdade”.

Mais uma vez, nenhuma prova foi apresentada do tal Viagra distribuído por Gaddafi para “estimular” estupros. Milagre, milagre: até hoje, nunca apareceu nem vestígio de prova.

Vê-se aí um padrão bem claro. Para obter apoio das populações para suas guerras ilegais para mudança ilegal de regime, o establishment ocidental promove ativa e empenhadamente incontáveis “falsas notícias”, como se fossem notícias não falsas. Para assegurar a “credibilidade” das notícias realmente falsas, elas são publicadas em veículos indiscutivelmente “sérios” e passam a ser regularmente repetidas por quantos comentaristas intervencionistas golpistas o dinheiro consiga comprar, como a causa “indiscutível” da importância e da urgência de se agir contra o tal Estado alvo. Fontes “anônimas” são sempre citadas nessas histórias, a maioria das quais, como a Operação Apelo de Massa do MI6, são muito frequentemente plantadas pelos serviços de segurança.

Simultaneamente, uma vasta brigada de atiradores de teclado de laptops neoliberais põe-se a esbravejar que “alguma coisa tem de ser feita”; e é a mesma multidão “ética” e “indignada”, vale anotar, que acusa os políticos ditos “populistas” de ignorarem “fatos objetivos” e manipularem as emoções populares.

As notícias falsas continuam no ar por todo o tempo que dure a operação de mudança de regime. Depois que passa, todos passamos a ouvir que temos de esquecer para sempre as notícias falsas das manchetes da véspera, porque temos de concentrar todas as energias contra o próximo “novo Hitler” que brote da boca da mesma Hillary. Em 2011 foi Gaddafi; hoje são Assad e o desprezível Putin que, nos dizia sempre a mesma (ex-)Hillary: “têm de ser detidos.”

A expressão pós-verdade implica que antes, em algum momento, a política teria sido reino da mais pura verdade. Duvido que algum dia tenha sido, mas com certeza nos últimos 25 anos, graças à influência dos neoconservadores e dos “intervencionistas liberais” (?!), as mentiras cresceram muito e já tomaram conta de tudo. Lembram das mentiras sobre urânio do Niger? Sobre Saddam, “retaliador de cadáveres”?

E antes da guerra do Iraque, foi o bombardeio “humanitário” da OTAN contra a Iugoslávia, quando novamente as falsas notícias (realmente falsas!) dominavam o noticiário. O secretário de Defesa dos EUA William Cohen “informava” que “cerca de 100 mil albaneses kosovares em idade de serviço militar estão desaparecidos” (…) “podem ter sido assassinados”.

Como John Pilger não nos deixa esquecer, “Kosovo, local do genocídio que nunca existiu, é hoje um sanguinário ‘livre mercado’ de prostituição e drogas.”

Não foi a única descomunal mentira “noticiada” para vender a guerra aos cidadãos. Mas outra vez “notícias” sobre o “genocídio” e centenas de milhares de mortos eram absolutamente falsas, como se lê, até, em sentença de um tribunal da ONU em 2001.

Noticiário falso, totalmente inventado, apareceu também em grande quantidade na campanha dos neoconservadores para conseguir tornar palatáveis as sanções criminosas contra o Irã, acusado de manter um programa de armas nucleares que ninguém jamais viu – e que não existia.

Noticiário integralmente falso dominou a cobertura jornalística dos recentes eventos na Ucrânia, com uma inexistente “invasão da Ucrânia” pelos russos, sempre referida, comentada e criticada como se fosse fato!

O conflito na Síria também é quase exclusivamente objeto de “noticiário” falso, com “informes” repetidos incansavelmente como se fossem 100% comprovados. Quantas vezes o prezado leitor leu/ouviu que “Assad usou armas químicas contra o próprio povo” em Ghouta em 2013? E, isso, apesar de o único fato comprovado até hoje ser que ninguém sabe com certeza e provas quem, afinal, foi autor daquele ataque!

As mesmas pessoas – políticos, jornalistas, “especialistas”, mercenários ativos em várias áreas – que disseminaram tantas falsas notícias por tanto tempo e que ainda vivem incorporados no establishment político e nas mídia-empresas ocidentais, mesmo depois dos fracassos no Iraque e na Líbia, puseram-se agora a espernear contra “mentiras”, pela suficiente razão de que já não controlam a narrativa, como antes.

A opinião pública busca informação e notícias numa variedade muito maior de fontes. E, nas eleições, já começou a eleger candidatos populares, que os eleitores escolhem como bem entendam. Não candidatos/partidos neoconservadores liberais ou não, e sempre intervencionistas, como antes.

Em vez de admitir que esse é o resultado da prática diária, obsessiva, de um oceano de “falsas notícias” e de incansável “política de pós-verdade”, que afastou das empresas de mídia pró-establishment os eleitores (e consumidores de notícias em geral), o incansável lobby da guerra – afinal derrotado na eleição presidencial nos EUA – tem a audácia de acusar outros, pelos crimes que o próprio lobby da guerra comete sem parar há décadas.

Preocupados com “falsas notícias” e “políticas de pós-verdade” criadas e disseminadas pelos incansáveis propagandistas ocidentais pró-guerra?!

Difícil encontrar mais claro exemplo do que os psicanalistas conhecem como “projeção”.
 ------------
 REPORTAGEM Por Neil Clark | Tradução: Vila Vudu
FONTE:  http://outraspalavras.net/capa/quem-inventou-a-pos-verdade/ 01/12/2016

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Pós-verdade

Octávio Carmo*

 Resultado de imagem para pós-verdade

É a palavra do ano 2016 para os dicionários britânicos Oxford. Vale a pena parar pensar na definição de 'post-truth', adjetivo que diz respeito a “circunstâncias em que os factos objetivos têm menos influência na formação de opinião pública do que os apelos emocionais e as opiniões pessoais".

Do ponto de vista jornalístico, estamos a falar de um desastre. Objetivamente. Se, como se lia numa vinheta satírica, o vencedor não for determinado por quem dá a resposta correta mas por quem grita mais alto e mais rápido, mesmo que esteja errado, os factos não valem nada.

É preocupante, por isso, que no debate público se valorize cada vez mais o volume em detrimento do conteúdo, o ruído em vez da substância e as circunstâncias em vez da verdade. E escusamos de apontar o dedo: nas nossas próprias navegações pelas caixas de comentários ou pelas redes sociais, mais do que uma vez teremos cedido à tentação da indignação cega, mais interessada em desqualificar o outro do que em debater argumentos e opiniões fundamentadas.

A pós-verdade aparece muitas vezes de braço dado ao insulto. Não interessa se os argumentos são falsos. Se os factos contradizem o que se diz. Nada se sobrepõe, aparentemente, ao direito à indignação, mesmo ao disparate. Contradizer factos? Para quê? Só é necessário valorizar as emoções e as opiniões pessoais…

Não posso deixar de pensar nisso quando algumas figuras políticas se lembram de responder a trabalhos jornalísticos após estes terem sido publicados, sem que antes tenham manifestado qualquer intenção de atender às solicitações de quem os interpelava. Ou pior, quando as redes sociais se inundam de comentários desumanos, cruéis, absurdos, perante dramas alheios. Se a humanidade pós-verdade for algo parecido com isto, estamos claramente a ir por um mau caminho.

Permitam-me uma nota final para evocar as vítimas da queda do avião que transportava a equipa da Associação Chapecoense de Futebol para o maior jogo da história do clube. Morreram muitas pessoas, incluindo muitos colegas de profissão que, por certo, estariam entusiasmados com a oportunidade de acompanhar este evento. Respeitaremos a sua memória.

Foi sensível e respeitadora a reação da Igreja Católica a esta tragédia, na plena compreensão de que o futebol nunca é “só futebol”. #ForçaChape. 
-------------------
Octávio Carmo. Editor da Agência Eclesia/Portugal. http://www.agencia.ecclesia.pt/noticias/editorial/posverdade/

Do Blog: "Entramos na era da pós-verdade e do pós-fato, em que a verdade não é falsificada, ou contestada, mas de importância secundária. A campanha de Donald Trump nos Estados Unidos, a popularização dos enunciados criacionistas e da cura gay anunciados pelos parlamentares-pastores no Brasil, a campanha jurídico-midiática que produziu o impeachment, o repertório memético da direita e da esquerda, transformam questões complexas em evidências instantâneas, em sentimentos, preconceitos, caricaturas que podem ter apenas um efeito irônico e cômico ou podem, em uma campanha política ou de difamação, serem devastadores e destruir reputações, campos e a credibilidade de grupos inteiros." (Para ler o texto completo, aqui:http://revistacult.uol.com.br/home/2016/10/a-memetica-e-a-era-da-pos-verdade/)