domingo, 24 de maio de 2020

Professor da Universidade de Stanford, o pesquisador austríaco lança no Brasil livro sobre a história da desigualdade e fala sobre o impacto da covid-19 no mundo

Desigualdade
Em primeiro plano, a favela do Parque Real e a favela do Panorama; ao fundo, 
predios da Marginal Pinheiros Foto: Filipe Araujo/Estadão

Peste Negra reduziu desigualdades mas o coronavírus vai aumentá-las, diz historiador Walter Scheidel

André Cáceres, O Estado de S.Paulo
23 de maio de 2020

Peste, guerra, fome e morte. Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse podem ter significados variados a depender da crença de cada um, mas para o historiador austríaco e professor da Universidade de Stanford Walter Scheidel essas condições significam uma coisa ao longo dos séculos: redução das desigualdades econômicas. 

Em seu mais recente livro, Violência e a História da Desigualdade - Da Idade da Pedra ao Século 21 (ed. Zahar), Scheidel defende que o nivelamento das rendas só se deu, em toda a história humana, por meio dessas grandes catástrofes, que ele chama de Quatro Grandes Niveladores — uma dos poucas exceções, de acordo com o pesquisador, foi a América Latina nos anos 2000, que reduziu disparidades por métodos pacíficos e democráticos, mas esse processo não se provou duradouro.  

Scheidel utiliza-se de farta documentação histórica para demonstrar como as guerras, epidemias, crises e revoluções foram eventos niveladores. Após a Peste Negra, por exemplo, o contingente de trabalhadores ficou tão reduzido que a mão-de-obra tornou-se valiosa ao ponto de reduzir as injustiças sociais durante vários séculos. Mas esse tipo de nivelamento não deve acontecer, segundo ele, após a atual pandemia de covid-19.  

Leia abaixo a entrevista que o historiador Walter Scheidel concedeu por videochamada ao Estadão:
Walter Scheidel
O historiador austríaco Walter Scheidel Foto: Roger Cremers/Zahar
Há alguma perspectiva de que a atual pandemia provocada pelo novo coronavírus traga efeitos similares de redução de desigualdades ao das grandes epidemias do passado?
Estou muito cético quanto a isso por várias razões. O maior motivo é que a atual pandemia será muito menos severa em termos de mortalidade do que as grandes pestes do passado. Mesmo no pior cenário, a mortalidade será muito menor, em termos de porcentagem da população, e deve afetar ainda menos a força de trabalho, porque a maioria das vítimas são pessoas mais velhas. Salários não devem subir como resultado dessa pandemia, porque a mão-de-obra não se tornará escassa. Então esse efeito não deve aparecer desta vez. Há uma grande quantidade de motivos para crer que a pandemia deve aumentar em vez de reduzir a desigualdade, pelo menos a curto prazo, o que já estamos testemunhando. Há certos grupos de pessoas que estão relativamente protegidas, seus empregos estão seguros, eles podem continuar a trabalhar, e outras pessoas que estão muito mais expostas em determinados setores ou perdendo seus empregos. Então o desemprego está mal-distribuído pela população, como resultado disso a disparidade deve aumentar. Você a vê entre crianças e estudantes, alguns capazes de estudar online e outros sem acesso a esses recursos, e isso deve aumentar as injustiças educacionais também. Na crise de 2008, os ricos perderam inicialmente porque o valor de seus investimentos decaiu, mas eles os recuperaram em um período razoavelmente curto de tempo. Já se vê tendências semelhantes nas bolsas de valores, que não estão indo tão mal, então há uma boa chance que, mais uma vez, os ricos se recuperem mais rapidamente que a maioria da população. Isso deve aumentar a desigualdade. Então ainda que haja algum potencial de nivelamento, isso depende de como políticos, legisladores e eleitores responderão a essa crise e seus efeitos. Qualquer tipo de ruptura tem o potencial de balançar as coisas, e um resultado possível disso é que mais pessoas abracem políticas progressistas de redistribuição de renda, oferecendo mais proteção social e acesso à saúde aos trabalhadores ou aumentando impostos para os ricos. Isso é uma possibilidade, e certamente haverá partidos políticos que tentarão converter a crise em uma motivação para esses programas, mas também haverá uma resistência conservadora considerável, e, no longo prazo, dependerá de quem tem a vantagem. Não é algo que será decidido este ano, mas deve se arrastar por vários anos. 

O mundo contemporâneo parece estar repleto de guerras, revoluções, crises e epidemias, mas por que não vemos esse efeito acontecer novamente hoje em dia?
Há muitas guerras, revoluções e epidemias hoje, isso é verdade em certa medida, mas se compararmos com grandes rupturas do passado, o que estamos vivendo atualmente no mundo não chega perto da magnitude do que já passamos. Apenas guerras muito grandes, como as mundiais, reduziram as desigualdades na Europa, América ou Ásia. O fato de a América Latina nunca ter passado por nada como as guerras mundiais ajuda a explicar por que sua disparidade ainda é muito alta. Nunca houve rupturas realmente violentas. O mesmo é verdadeiro para revoluções, não temos nenhuma grande revolução desde a maoista e suas derivadas em meados do século 20. Estados não entram mais em colapso. Eles eventualmente caem em certas partes do mundo, como a África Central e o Oriente Médio, mas em nenhum outro lugar, nem mesmo na Venezuela nesse momento, pelo fato de os Estados serem muito mais resilientes do que eles costumavam ser. E essa pandemia é muito menos severa do que a Gripe Espanhola há um século ou as grandes pragas do passado. Então eu acho que depende muito do quão grave e disruptivo um evento de crise é. Tenho pensado muito sobre isso, porque eu falo em meus livros sobre os quatro grandes niveladores, e eu acho que no mundo temos hoje quatro grandes estabilizadores, que previnem deslocamentos mais traumáticos (que poderiam ter um efeito de redução de desigualdade) de ocorrer. Um é que boa parte do mundo é muito mais rica do que era, o que evita colapsos sociais ou guerras civis, muito mais comuns no passado. O segundo são as redes de seguridade social, que, claro, estão desenvolvidas desproporcionalmente em diferentes partes do mundo, mas mesmo no Brasil há algum grau de segurança que não havia antes, e isso é ainda mais evidente em outros países, evitando que a pobreza chegue a níveis que façam as pessoas se radicalizarem. Também há a habilidade de bancos centrais criarem dinheiro para manter a economia girando, o que não era possível na década de 1930, por exemplo, durante a Grande Depressão, o que provocou um resultado muito diferente. E o quarto fator consiste na ciência moderna e na tecnologia, que ajudam a estabilizar a ordem existente, seja o fato de podermos trabalhar remotamente pela internet, o que não poderíamos fazer há dez ou vinte anos, ou o fato de sermos capazes de sequenciar o RNA do vírus em apenas algumas semanas e termos mais de uma centena de medicamentos ou tratamentos em teste pelo mundo. A ciência é hoje tão poderosa que tem o potencial de nos levar para fora dessa crise em relativamente pouco tempo. E se ela o fizer, então a ordem é novamente estabilizada. Então essa é uma resposta bem longa para a questão de por que não há grandes rupturas hoje como havia no passado. Sociedades, economias e tecnologias evoluíram de modo a manter a ordem existente. Quanto maior a estabilidade, mais a disparidade é favorecida, porque há menos pressão por mudanças. É isso que essencialmente vemos desde o fim da guerra fria, cada vez mais, então creio que a perspectiva de qualquer transformação radical por meio de grandes rupturas está ficando cada vez menos provável. 

O sr. menciona brevemente a América Latina dos anos 2000 como um caso bastante único de redução de desigualdades sociais sem grandes choques ou rupturas, mas boa parte das conquistas sociais obtidas no início do século foram se perdendo nos últimos anos. O que o caso latino-americano pode nos dizer sobre desigualdade social no século 21?
O caso latino-americano é fascinante, porque, como eu disse, não houve grandes choques na história recente, o que explica que a desigualdade, que é historicamente alta por conta do colonialismo e outros fatores, tenha se mantido elevada durante o século 20, enquanto reduziu em outras partes do mundo. E depois de 2000 vemos muitos países experimentarem uma redução pacífica de injustiças, o que foi muito interessante, porque parece um contraexemplo à minha tese, de que rupturas violentas são necessárias para que isso ocorra. O que houve na América Latina nesse período foi o resultado de uma combinação incomum de circunstâncias favoráveis. Houve alguma recuperação de crises econômicas anteriores, uma forte desregulamentação nos anos 1990, abrindo as economias para o mundo, mais investimento em educação, transformações políticas e a explosão das commodities na China, então as exportações cresceram e beneficiaram determinados setores da população. E todos esses fatores se alinharam na medida certa para reduzir a disparidade, não drasticamente, mas de forma significativa. E não estava claro naquela época se esse processo era sustentável e poderia se manter por muito tempo. E ele não pôde. Primeiro por causa da guinada econômica no início dessa década, e também por conta da reação política de forças conservadores para derrubar os proponentes de mudanças progressistas no Brasil e em outros países. E, é claro, houve locais em que os próprios progressistas se radicalizaram, como na Venezuela e no Equador, e houve reação política contra isso. Então há muitas razões para explicar por que esse processo não pôde ser sustentado pelos últimos anos, e agora a situação é ainda pior, porque a atual crise deve amplificar esses problemas. Eu não tenho esperanças de ver uma nova redução de desigualdades na América Latina em um futuro próximo, graças às consequências da crise do coronavírus. 

É possível haver no futuro mecanismos que favoreçam cenários pacíficos de redução de desigualdades?
É possível teoricamente, mas não parece acontecer muito na prática, então seria ao menos muito difícil. Não é que as pessoas nunca reduziram a disparidade por meios pacíficos, não está limitado ao exemplo latino-americano. Tem acontecido em pequenas proporções por todo o mundo. É possível, mas nunca ocorre em grande escala. Então, se o que você estiver procurando é uma redução maciça da desigualdade em um período curto de tempo, você vai precisar de um choque violento. Se você colocar suas esperanças em mudanças políticas pacíficas, a transformação será gradual e mais lenta, e por isso enfrenta um grande risco de ser desarmada por obstáculos como crise econômica, reação política e outros fatores que interferem nesse processo e o tornam muito mais difícil. Dito isso, há sociedades no mundo que são tão injustas hoje que não é preciso muito esforço para reduzir um pouco de sua disparidade. Se você vive na Suécia, não há muito o que se pode fazer, porque a desigualdade já é muito baixa. Mas se você vive no Brasil, na África do Sul ou nos Estados Unidos, há medidas que se pode tomar pacificamente que teriam um efeito real e não seriam terrivelmente radicais ou dramáticas. E a melhor chance que temos é que tais medidas sejam identificadas e implementadas. Certamente temos um modelo no que ocorreu na América Latina nos anos 2000. 

Existe um ponto de equilíbrio no nível de desigualdade de um país que, se atingido, impede ela de voltar a crescer a níveis prejudiciais?
Pode ser que o nível de equilíbrio varie entre países. Nem todos os países são iguais. Se você olhar para países nórdicos que são, ou costumavam ser, muito homogêneos em termos de sua população, poderia ter sido mais fácil há 50 anos estabelecer Estados de bem-estar social altamente redistributivos. Se você vive em sociedades como o Brasil, a África do Sul e os EUA, que são muito mais heterogêneos e diversos, onde há legados de racismo e todo tipo de iniquidade estrutural, o ponto de equilíbrio da desigualdade pode simplesmente ser mais elevado. Talvez não seja possível baixá-lo a níveis escandinavos por causa da maneira pela qual a sociedade está estabelecida. Não quer dizer que seja impossível reduzir disparidades, mas talvez seja necessário ajustar as expectativas do que é politicamente ou socialmente viável em cada contexto. Essa é uma ótima questão que ainda não foi estudada o suficiente, porque não basta apontar para a Dinamarca e perguntar por que não somos como eles, isso não ajuda em nada. Deve-se levar em consideração todas as variáveis. Então a pergunta é: “Qual é o nível realista de desigualdade para o Brasil dadas condições que não mudarão do dia para a noite ou em nossos tempos de vida? O que pode ser conquistado nesse contexto?” Certamente haverá algo a ser feito, apenas não na mesma escala de outros países.
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Fonte:  https://alias.estadao.com.br/noticias/geral,peste-negra-reduziu-desigualdades-mas-o-coronavirus-vai-aumenta-las-diz-historiador-walter-scheidel,70003310465
 

sábado, 23 de maio de 2020

Requiem pela democracia

 Reunião ministerial de 22 de abril. Foto: Marcos Corrêa/PR

Mais uma vez, depois de tantas, as elites brasileiras preferiram correr o risco de cair na ditadura (quando não a desejaram desde o início) sempre que as classes populares manifestaram a sua aspiração a ser incluídas na nação, a nação que as elites sempre conceberam como sua propriedade privada. A leitura do transcrito da reunião do conselho de ministros do Brasil no dia 22 de abril é uma experiência dolorosa, assustadora e revoltante. O fato de ter sido dado conhecimento público desse vídeo e transcrito é um sinal eloquente de que a democracia ainda sobrevive. Ocorreu no seguimento da denúncia do ex-Ministro Sérgio Moro de que o Presidente tentara interferir com as investigações em curso na Polícia Federal do Rio de Janeiro contra um dos seus filhos por suspeita de graves condutas criminosas. Ao ordenar a divulgação do vídeo, o Ministro do Supremo Tribunal Federal, Celso de Mello, inscreveu o seu nome no livro de ouro da breve e tormentosa história da democracia brasileira. Esperemos que o sinal de esperança que ele nos deu seja potenciador do despertar das forças democráticas de esquerda e de direita, o despertar de um sono profundo e inquietante, feito de ignorância histórica e de vaidade míope, um sono que lhes permite sonhar com cálculos eleitorais sem se dar conta da frivolidade de tais intentos quando a própria democracia está por um fio.

Os fascistas nem sequer escondem os seus intentos. O Presidente faz um apelo direto e inequívoco à luta armada. Mais do que um apelo, informa que está disposto a dirigir o armamento de civis à margem das forças armadas. E faz isso ladeado por generais! Está a confessar um crime de responsabilidade e um crime contra a segurança nacional. E nada a acontece. Ao lado do vice-presidente, está sentado impávida e parvamente o então Ministro da Justiça Sérgio Moro, o grande responsável pela destruição da institucionalidade democrática, para o que sempre contou com a cumplicidade das elites e dos seus media. O anúncio do Presidente não só é recebido com sorrisos complacentes de quem o ouve, como vários ministros se esmeram em soltar por conta própria as cloacas do ódio e do preconceito. Para além de outras aleivosias avulsas.

O que se lê é de tal modo torpe que é melhor ler para crer:

Presidente: “É putaria o tempo todo para me atingir, mexendo com a minha família. Já tentei trocar gente da segurança nossa, oficialmente, e não consegui. Isso acabou. Eu não vou esperar f. minha família toda de sacanagem, ou amigos meus, porque não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha — que pertence à estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele; não pode o chefe dele? Troca o ministro. E ponto final… Eu quero, ministro da Justiça e ministro da Defesa, que o povo se arme! Que é a garantia que não vai ter um filho da puta aparecer pra impor uma ditadura aqui! Que é fácil impor uma ditadura! Facílimo! Um bosta de um prefeito faz um bosta de um decreto, algema, e deixa todo mundo dentro de casa. Se tivesse armado, ia pra rua. E se eu fosse ditador, né? Eu queria desarmar a população, como todos fizeram no passado quando queriam, antes de impor a sua respectiva ditadura. Aí, que é a demonstração nossa, eu peço ao Fernando e ao Moro que, por favor, assine essa portaria hoje que eu quero dar um puta de um recado pra esses bosta! Por que que eu tô armando o povo? Porque eu não quero uma ditadura! E não dá pra segurar mais! Não é? Não dá pra segurar mais”.

Ministro da Educação (extrema-direita) : “Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF. E é isso que me choca… A gente tá conversando com quem a gente tinha que lutar. A gente não tá sendo duro o bastante contra os privilégios, com o tamanho do Estado e é o … eu realmente tô aqui aberto, como cês sabem disso, levo tiro … odeia … odeio o prutido (sic) comunista. Ele tá querendo transformar a gente numa colônia. Esse país não é … odeio o termo “povos indígenas”, odeio esse termo. Odeio. O “povo cigano”. Só tem um povo nesse país. Quer, quer. Não quer, sai de ré. É povo brasileiro, só tem um povo”.

Ministro do Meio Ambiente (momento maquiavélico): “porque tudo que agente faz é pau no judiciário, no dia seguinte. Então pra isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspeto de cobertura de imprensa, porque só fala de COVID e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas…Agora é hora de unir esforços pra dar de baciada a simplificação.”

Ministra da Mulher da Família e dos Direitos Humanos (evangelismo reacionário): “Neste momento de pandemia a gente tá vendo aí a palhaçada do STF trazer o aborto de novo para a pauta, e lá tava a questão de … as mulheres que são vítima do zika vírus vão abortar, e agora vem do coronavírus? Será que vão querer liberar que todos que tiveram coronavírus poderão abortar no Brasil? Vão liberar geral? (dirigindo-se ao Ministro da Saúde) O seu ministério, ministro, tá lotado de feminista que tem uma pauta única que é a liberação de aborto… Porque nós recebemos a notícia que haveria contaminação criminosa em Roraima e Amazônia, de propósito, em índios, pra dizimar aldeias e povos inteiro pra colocar nas costas do presidente”.

Ministro da Economia (feira de vaidades): “Eu conheço profundamente, no detalhe, não é de ouvir falar. É de ler oito livros sobre cada reconstrução dessa (Alemanha, Chile). Então, eu li Keynes, é … três vezes no original antes de eu chegar a Chicago. Então pra mim não tem música, não tem dogma, não tem blá-blá-blá”.

Nada disto é novo. Sobre o que disse o Presidente, basta referir que, depois das eleições de 1932, foi assim que se expressou Hitler, invocando a necessidade da ditadura para se defender da ditadura…da democracia. A reunião teve lugar no dia em que o Brasil ultrapassava a casa de 3.000 mortos pelo coronavírus. Este, no entanto, foi um tema ausente. Ou, ainda mais perversamente, pretendeu-se usar a preocupação mediática com a pandemia para fazer avançar a perda de direitos, os casinos, a privatização, o desmatamento da Amazônia e a eliminação das restrições ambientais. O sistema democrático brasileiro está em tamanho desequilíbrio que vive um momento de bifurcação, uma qualquer ação ou omissão política tanto o pode resgatar como afundar de vez.
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(*) Sociólogo, diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Publicado originalmente no jornal Público, de Portugal.
Fonte:  https://www.sul21.com.br/opiniaopublica/2020/05/requiem-pela-democracia-por-boaventura-de-sousa-santos/

CEM SEM CLARICE

LEANDRO KARNAL*

 Clarice Lispector para crianças: 5 livros infantis da escritora ...

No fim deste ano, se viva estivesse, Clarice Lispector completaria cem anos. Cem anos e estamos sem Clarice. Parei para pensar sobre como ela me atingiu.

No Ensino Médio, tive acesso ao texto A Hora da Estrela. O último romance da escritora foi o meu primeiro contato com ela. Acompanhei Macabéa com o brilho de uma boa descoberta. Porém, confesso, talvez Clarice tenha razão quando pede, em um livro, que os leitores sejam almas já formadas. Gostei da jovem alagoana, compadeci-me de suas privações com a tia fanática, com o namoro ambíguo e a esperança inútil na cartomante. Fui seduzido pela narrativa e, no entanto, volto a dizer, Clarice talvez não seja a autora ideal para alguém de 15 anos.

Anos mais tarde, o estilo introspectivo da ucraniana-brasileira chegou a mim pelo primeiro romance dela: Perto do Coração Selvagem. Clarice mais jovem e eu mais velho foi uma paixão que se adensou. Foi amor de verdade. A memória era de um livro que me fazia perder o sono e eu não parava de ler enquanto comia, para crítica acerba da minha mãe. Joana marcou minha vida como personagem e iluminou cantos da minha alma. Virei um convertido lispectoriano chato que queria emprestar a obra para todo mundo.

Eu não imaginava que o salto seguinte seria o mais espetacular. Já professor, ganhei A Paixão Segundo G.H. Macabéa empalideceu, Joana diminuiu: aquele era, agora, o texto da minha vida toda. Nunca imaginei uma inteligência literária daquele porte. Eu tinha amado muitos autores brasileiros, todavia Clarice ocupava outra prateleira. Não era a beleza da semântica de José de Alencar, a ironia brilhante de Machado de Assis, a brasilidade iconoclasta dos Andrades (Oswald e Mário) ou a identidade regional que eu venerava em Erico Verissimo. Eu tinha tido uma paixão aguda pelos volumes de Eça de Queiroz na biblioteca do meu pai. Todos eram espetaculares e eu os carrego comigo até hoje. O volume d?A Paixão Segundo G.H. eu guardo rabiscado há 30 anos.

O mais dramático é que eu posso dizer com clareza total o motivo de eu achar Vidas Secas de Graciliano Ramos um marco. Também sei o motivo de cultivar sistematicamente a leitura da grande Lygia Fagundes Telles. Hamlet, de W. Shakespeare, foi o livro que li mais vezes na vida. Lembro-me até hoje da primeira vez que conheci o Quixote de Cervantes. Foi uma revolução. Custou-me um pouco mais banhar-me das margens dos rios de Guimarães Rosa, porém, uma vez que mergulhei, saí transformado.

Conservador e católico, fui positivamente chocado por Nelson Rodrigues na juventude. Preciso confessar: nada lido antes se comparou ao furacão provocado pelas reflexões da enigmática G.H. O motivo? Até hoje não tenho certeza, provavelmente apenas eu possa repetir as ideias: "Estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender". Ou: "Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda". Era o que sempre senti e que só agora, pela pena da autora, podia expressar. Era o que sempre temera encarar: como redefinir a vida sem respostas de sistemas externos e acabados, religiosos e filosóficos. Clarice foi fundo no abismo do desespero humano e emergiu com mais densidade do que qualquer outra pessoa no século 20 na língua portuguesa.

Li a biografia dela bem depois. Benjamin Moser fez um trabalho ótimo. Também devorei os contos que ele organizou. Nos pequenos relatos vi, de novo, o brilho genial da mestra da língua. G.H. foi mais adiante: além de brilhante como escrita, é impactante como percepção. Geralmente acho tediosos os fluxos de consciência porque eles despertam uma subjetividade tamanha que só vale para o autor. Clarice parecia uma mulher atormentada. Porém, de forma fascinante, tornou a dor uma alavanca criativa.

Em 10 de dezembro de 2020, ela faria cem anos. Sua vida acompanhou as tragédias do nosso tempo. Antissemitismo, emigração, a memória das guerras, as oscilações políticas no Brasil entre ditaduras e espasmos democráticos. Vi Beth Goulart encarnando a autora no Rio de Janeiro. A semelhança física se tornava notável e o talento da atriz iluminou o gênio da escritora.

Existem bons pintores e existe Diego Velázquez. Existem bons autores e existe Kafka. Existem ótimos autores e existe Clarice Lispector. De onde saem esses meteoros fulgurantes e escassos? Creio que nunca saberemos.

Volto a dizer. Clarice é autora madura para mentes maduras. Ela não atende problemas comezinhos ou seres ainda muito presos ao aqui e agora. Talvez, o maior indicativo para saber se é hora de acessar Clarice seja um pouco da experiência de G.H. no apartamento: o enfrentamento denso e produtivo da solidão. Se você precisa estar sempre com muitas pessoas, se não consegue jantar sozinho ou ir ao cinema só com sua pessoa, creia-me, ainda não é hora de ler Clarice Lispector. Clarice implica vida interior mais elaborada, não exatamente erudição, porém capacidade de enfrentar bem uma noite de sábado tendo a si por espelho e companhia. Não consegue? Não se preocupe, ela esperou um século, pode esperar uns dez anos a mais. Ela aguarda. É preciso ter esperança e é necessária paciência pela hora da sua estrela ficar autônoma para ler G.H.
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 * Escritor. Historiador brasileiro, professor da Universidade Estadual de Campinas, especializado em história da América.
Fonte:  https://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=60ec86078066a15c2cca12b24adb908b 23/05/2020
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Um novo mundo

Lya Luft*

 Como será o novo mundo depois que o coronavírus passar? | NeoFeed

Muito se fala, se pensa, se argumenta sobre isso: depois de passada ou aquietada essa pandemia do coronavírus, teremos um mundo novo, um mundo diferente, uma humanidade transformada, um pouco recauchutada, pior ou melhor?

Em geral sou otimista, o que me permitiu viver bastante bem uma vida já longa, cheia de ganhos e perdas, como a de todo mundo. Pessoalmente, não creio que a gente saia muito melhorada, exceto alguns cuidados de higiene, não atropelar uns aos outros... sei lá. Cuidar mais da saúde, do povo, cuidar mais dos miseráveis e pobres, que são os mais vulneráveis. Mas vejo tanta raiva, tanto horror ao estrangeiro e ao diferente, tanta acusação, tanta irritação que, sem ter um objeto fixo, se lança sobre qualquer um - que não creio muito numa grande melhora na hostilidade geral.

Ao contrário, talvez a gente seja ainda mais egoísta e bairrista, curtindo uma horrorosa xenofobia. Você é de outro edifício, outra rua? Se desinfete por favor, o álcool gel está na porta. Outro bairro? Outra cidade, Estado, região? Outro país? Caia fora, não venha me trazer doença. Talvez no futuro a gente nem lembre mais do corona, mas tenha medo de qualquer pessoa não próxima: seremos tribos isoladas, rangendo os dentes e brandindo paus para quem se aproximar vindo de fora. E não será nem por medo de que roube nossos territórios ou nossos tesouros, mas nossa saúde... ah, aquele vírus.

Estudar, comer, dançar (os furiosos que seremos ainda vão saber dançar?), ir ao cinema, sentar no sofá da sala - tudo com fita métrica na mão: dois metros de distância, ou pouco menos. Vidinha sem graça. Licença para abraçar, transar só para perpetuação da espécie. O resto, muito suspeito, e os vírus, e os vírus?

Seremos mais religiosos, ou transcendentais, ou caridosos, fraternos? Também não sei. Para muitos, a contenção de festas, passeios, despesas, rua, pode significar uma real interiorização também na alma, nos amores. Há quem me diga: descubro cada dia novas qualidades nos meus filhos, novo encanto na minha mulher, nova qualidade no meu marido. Outros, porém, convivem como animais selvagens numa gaiola estreita. Talvez não se ataquem concretamente, mas quanto desejo mau, quanto rancor secreto, quanta palavra maldosa contida na boca que se fecha amargurada.

Enfim, não sabemos, e de momento sou dos que duvidam: sim? Não? Vamos melhorar ou piorar, ou desaparecer do mapa? Possivelmente vamos continuar, cheios de conflito, medo, esperança, alguns milímetros mais humanos... Seja o que for que isso vá significar. Ou ainda achando que tudo aquilo foi histeria e exagero? Ou bem piorados, sussurra o diabinho que às vezes pousa no meu ombro. Vai ser apenas este nosso velho mundinho, mais torto, mais medroso, e um pouco mais raivoso, cheio de ódio e acusações.

Mas vamos ser otimistas: quem sabe será um mundo novo com gente mais amena, mais criativa, mais trabalhadora, mais artística, mais espiritualizada porque passou esse grande susto... Mais amiga e mais bonita porque mais feliz...

Ah, nossos bebês vão começar a nascer mascarados?

Isso nem os deuses sabem.
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* Escritora.
Fonte:  https://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=7ad838e878d7e24ae6593593520fae0f  23/05/2020
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Harari: ‘Trump e Bolsonaro não querem assumir responsabilidade na crise’

 Emily Berl/The New York Times/Fotoarena

O autor de 'Sapiens' diz que existem dois caminhos no pós-pandemia: um fortalecimento ainda maior do nacionalismo ou a cooperação global

Por Marcelo Marthe

Nesses dias de excepcionalidade do coronavírus, o israelense Yuval Noah Harari comemora um feito notável: ele acaba de ultrapassar os 25 milhões de livros vendidos. Com uma rara combinação de rigor factual e linguagem inspiradora, seu mérito é provar que é possível atingir as massas com pensamento elevado, objetivo alcançado pelos seus best-sellers Sapiens (L&PM) e Homo Deus (Companhia das Letras). Em meio à pandemia, o historiador poderia deitar sobre os louros enquanto curte o isolamento em uma casa nas cercanias de Tel-Aviv junto do marido. Mas o intelectual de 44 anos não se aquieta: usa o tempo recluso para escrever e difundir seus pensamentos. “Estou trabalhando duro, na tentativa de ajudar as pessoas a vencer esse período sofrido”, disse a VEJA. Na entrevista a seguir, Harari analisa como a crise atual afetará o futuro, faz uma defesa da cooperação global e expõe os prós e os contras dos sistemas de monitoramento que hoje ajudam a identificar os infectados.

Como será o mundo após a pandemia? Será um mundo diferente. Se melhor ou pior, isso dependerá de nossas decisões agora. O mais importante é perceber que não há apenas um único resultado determinístico para esta crise. Temos escolhas a fazer. E, se fizermos as escolhas certas, podemos não apenas superar o vírus, mas emergir da pandemia tendo construído um mundo melhor.

Quais escolhas seriam certas ou erra­das? Podemos escolher o caminho de mergulhar ainda mais no populismo nacionalista de muitos líderes que estão no poder hoje, com os países lutando só pelos próprios interesses e contra os demais — todos sairiam perdendo. Ou podemos reagir com solidariedade global, num cenário em que os países ajudam uns aos outros na economia, no desenvolvimento de vacinas e na produção de equipamentos médicos. Nosso futuro depende de decisões políticas urgentes. O que acontecerá com a crise do mercado de trabalho? Se, ao final do processo, ela vai enfraquecer ou fortalecer o trabalho organizado, depende de nossas escolhas e de decisões políticas que não são determinadas pelo vírus.

O quadro atual sinaliza que o mundo está no rumo correto? Até agora, a reação está longe do ideal. Não há nenhuma liderança global capaz de coordenar os esforços para deter a epidemia em si, nem atuar na arena econômica. Os Estados Unidos foram o líder tradicional do mundo nas últimas décadas, e assumiram a dianteira na crise financeira de 2008 e no drama do ebola na África, em 2014. Agora, o país está fazendo o oposto: minando todo esforço de cooperação. O presidente Donald Trump briga com a Organização Mundial da Saúde (OMS) na hora em que mais precisamos dessa organização. E não existe um plano econômico global para lidarmos com a crise. Isso é extremamente preocupante. Alguns países têm recursos para enfrentar a devastação da pandemia, mas a maioria não se levantará sem cooperação dos ricos.

O embate entre Trump e a OMS é um sinal do esgotamento das organizações multilaterais do pós-guerra? A situação atual enfatiza quão importante é ter esse tipo de cooperação. A OMS comete erros, como todas as organizações. Mas, sem ela, como seria possível compartilhar informações sanitárias além-fronteiras? Como saber se o vírus pode estar sofrendo mutações ou se haverá uma segunda onda? Se alguns países não gostam do trabalho da OMS ou de suas decisões políticas, tudo bem, vamos tentar construir outra organização. Mas precisamos de uma instância para centralizar o combate a uma pandemia. Sem informação compartilhada, nenhum esforço local pode ter sucesso.
“Estamos em situação mais privilegiada que nunca na história para enfrentar uma pandemia. Não vivemos na Idade Média, e todos devem saber que o coronavírus não é a peste negra”
A baixa cooperação global nesta crise o deixa pessimista? Ela deixa um vazio alarmante, mas, por contraponto, traz uma lição: vamos perceber, por bem ou por mal, quanto é importante a cooperação global. Ainda não é tarde para mudar de rumo e reagir. Desse modo, será mais fácil superar a crise atual e construiremos um mundo em condições de lidar melhor com emergências futuras.

Contra as recomendações sanitárias, Trump e o brasileiro Jair Bolsonaro atacam ferozmente o isolamento social. Como esses líderes serão julgados pela história? É difícil saber como as pessoas verão a crise atual à distância do tempo. Agora mesmo, no calor da hora, é complicado opinar sobre as diferentes abordagens contra a pandemia. Mas Trump e Bolsonaro estão fazendo um jogo duplo. Seus países passarão por um período econômico duro, com as pessoas perdendo empregos e negócios. Ao se portarem como profetas do caos na economia, eles querem transferir a responsabilidade pelas dificuldades para outras pessoas, como prefeitos e governadores. E também não assumem suas responsabilidades na luta contra o vírus.

Em que medida os avanços tecnológicos do presente marcarão a luta contra a pandemia? Em matéria de tecnologia médica, estamos em uma situação mais privilegiada que nunca na história para enfrentar uma pandemia. Felizmente, não vivemos na Idade Média, e todos devem saber que o coronavírus não é a peste negra. Na Idade Média, ninguém entendia o que estava acontecendo quando vinha uma epidemia. Aliás, até coisa de um século atrás, durante a gripe espanhola, os médicos não entendiam o que causava a doença, muito menos como ela podia ser vencida. Hoje temos conhecimento científico e a tecnologia para colocá-lo em prática. Foram necessárias apenas duas semanas para identificar o vírus causador da Covid-19 e sequenciar seu genoma. Não há dúvida da nossa capacidade de entender e controlar uma pandemia.

Governos de vários países estão recorrendo a ferramentas de vigilância no combate à doença. Qual a importância delas? As tecnologias de vigilância desenvolvidas nos últimos anos serão extremamente úteis para permitir que as pessoas possam retornar ao trabalho ou à escola com segurança. Se você é capaz de monitorar pessoas e avisá-las da proximidade de infectados, a volta a uma situação normal pode ser acelerada. Mas tudo tem de ser feito com absoluta ponderação.

Por quê? Precisamos ser muito cuidadosos com a vigilância. Se instituirmos o sistema e as leis erradas, a tecnologia nos ajudará a combater a epidemia, mas também poderá destruir a democracia e nossas liberdades. Já estamos vendo em vários países a tentativa de usar a situação para estabelecer regimes autoritários.

Como se pode utilizar a tecnologia de maneira responsável? Antes de tudo, a vigilância deve ser a mais limitada possível. Seu controle não deve ficar nas mãos da polícia, dos serviços de segurança ou do Exército. Precisamos monitorar as pessoas para descobrir quem está se arriscando ou pondo os outros em risco, mas isso deve ser trabalho de uma agência de saúde independente, que seja obrigada a não compartilhar os dados.

Mesmo assim, as pessoas não estarão sujeitas a abusos por parte do governo? É impossível afastar totalmente o risco de abusos, mas há uma boa solução para que a vigilância ajude a saúde sem comprometer a democracia. Se dermos ao Estado o poder de monitorar as pessoas por meio da tecnologia, devemos nos valer dela para aumentar a vigilância sobre o governo. Na crise atual, nenhum governante expõe claramente como está administrando o dinheiro dos pacotes de auxílio. É possível usar a tecnologia para vigiar se esses recursos não serão destinados para o resgate de corporações corruptas ou para os amigos do poder, em vez das pequenas empresas e indivíduos em dificuldade.

Não há o perigo de que o caos da pandemia leve o mundo a uma nova era de regimes totalitários, como aconteceu na Europa após a I Guerra e a gripe espanhola? Esse é um risco que devemos sem dúvida levar a sério. Crises como a do coronavírus podem despertar os demônios interiores da humanidade. Se conduzida com egoísmo e falta de visão do futuro, esta crise só levará a mais ódio, ganância e ignorância, e estimulará o surgimento de todos os tipos de ditadores.

Há quem defenda a ideia de que ditaduras como a China têm maior facilidade em combater o vírus. Faz sentido? Esse é um erro completo. Não é verdade que as ditaduras sejam melhores do que as democracias em lidar com crises assim. Geralmente é o contrário. É verdade que as ditaduras têm a vantagem de tomar decisões mais rapidamente, porque o ditador não precisa consultar ninguém. O problema é que ele quase nunca admite o erro. Todos os que questionam são traidores e o ditador de plantão exige mais poder a fim de vencer o inimigo. A democracia dispõe de freios e contrapesos que permitem corrigir os rumos em caso de uma decisão errada. Países livres como Coreia do Sul, Taiwan, Nova Zelândia e Alemanha vêm combatendo a crise de modo mais transparente e eficaz que a China.
“A crise atual pode despertar os demônios da humanidade. Se conduzida com egoísmo, só levará a ódio, ganância e ignorância, e estimulará o surgimento de ditadores”
Qual a contribuição de cada indivíduo para atravessar tempos de pandemia? Depende de quem você é, de qual é a sua condição. Muitas pessoas desempenham papéis importantíssimos que um dia terão seu devido reconhecimento nesta crise. Não falo apenas de enfermeiras e médicos, mas das pessoas que vendem comida no supermercado, que limpam a rua ou tiram o lixo. Elas são essenciais. Mesmo alguém que não vá trabalhar na rua tem a função indispensável de manter a si mesmo e zelar pelo equilíbrio de sua família.

Cidadãos ao redor do mundo enfrentam problemas psicológicos e ansiedade diante das notícias ruins e da quarentena. Como manter a fé na humanidade nesta hora? Renovar a confiança na ciência pode nos ajudar a manter o equilíbrio. O vírus é uma grave ameaça, mas podemos derrotá-­lo. Será difícil, muitas pessoas morrerão, mas temer que a doença saia do nosso controle é irracional. E, de novo, não podemos permitir que a irracionalidade desperte os demônios da humanidade. Se começarmos a culpar estrangeiros ou minorias pela doença ou abraçarmos teorias da conspiração, será mais difícil superar o problema. Se, por outro lado, dominarmos nossos demônios, o mundo sairá desta crise muito mais dinâmico. Talvez ela seja o empurrão que faltava para nos levar a um futuro plenamente digital, por exemplo.

Como está lidando pessoalmente com a situação de isolamento? Eu e meu marido estamos em quarentena em nossa casa. Não perdemos nossas fontes de sustento, por isso nossa situação é relativamente boa. Temos amigos e familiares que perderam o emprego por causa da paralisação geral, e estão contando com ajuda de parentes e conhecidos. Sabemos quanto somos sortudos.
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Publicado em VEJA de 27 de maio de 2020, edição nº 2688
Fonte:  https://veja.abril.com.br/paginas-amarelas/harari-trump-e-bolsonaro-nao-querem-assumir-responsabilidade-na-crise/ 22/05/2020

sexta-feira, 22 de maio de 2020

A IGNORÂNCIA É, DESDE A ORIGEM DO BRASIL, INSTRUMENTO DE PODER


José de Souza Martins*
   — Foto: Carvall
-Foto: Carvall

Os reiterados apelos de autoridades médicas para que a população permaneça em quarentena, durante a epidemia da covid-19, tem tido consequências aquém do esperado e, principalmente, do necessário. Há diversos fatores sociais e culturais por trás da imprudência coletiva. A começar de que milhões de brasileiros não têm habitação ou a habitação adequada ao isolamento.

Além do que, esses apelos se baseiam no pressuposto equivocado de que toda a população regula seu comportamento costumeiro, em questões de saúde, pelas mesmas concepções dos médicos e dos cientistas.

Equivocado porque, historicamente, o brasileiro é culturalmente duplo, nas concepções e na língua, uma das consequências das duas escravidões que fizeram o Brasil que conhecemos, a indígena e a negra, além da influência do branco retrógrado. Somos um país atrasado. O que faz do conhecimento científico um conhecimento paralelo ao popular, e com ele em disputa.

No geral, médicos intuem isso. Problema que se abrandaria se nos currículos das faculdades de medicina fosse incluída a antropologia. Uma ponte sobre o abismo que separa e contrapõe as duas culturas.

Tenho observado, em minhas pesquisas, muitos casos, embora fragmentários, no Brasil inteiro, que evidenciam o quanto amplos setores da população estão muito longe das recomendações da cultura médica. E do que seria próprio de uma sociedade cujas normas de saúde fossem reguladas pela racionalidade própria da ciência.

Os muitos casos esparsos que observei deixam claro que o saber popular sobre doença e saúde, mesmo nas grandes cidades, está numa relação de conflito e de antagonismo com o saber médico. O próprio presidente da República, por ignorância e oportunismo explícitos, expressa diariamente esse conflito, ao agir para contestar a medicina.

Num cenário desses, é difícil definir normas de saúde pública, especialmente em momentos de emergência e de urgência. É de limitada eficácia, numa disputa desse tipo, a recomendação de normas da noite para o dia.

Esta é uma interpretação impressionista desse desencontro. Mas do peculiar impressionismo de que se vale todo pesquisador e cientista para definir o primeiro e provisório quadro de sua observação científica sobre determinado problema ou questão.

Seu senso comum é diverso do senso comum popular. É, antes, uma sistematização de conhecimento científico, que lhe permite ver, na urgência de situações inesperadas, o que o conhecimento popular não permite ver senão impropriamente no plano mágico e, eventualmente, religioso.

O problema começa com o fato de que há no Brasil, historicamente, uma ampla ignorância induzida, que se tornou o fundamento de uma cultura paralela de permanente disputa entre juízos de valor e juízos de realidade. A ignorância é, desde a origem do Brasil, um instrumento de poder.

É esse o cenário que define os problemas da saúde pública, em situação de emergência, como agora. Os serviços de saúde chegam à massa da população, seja dos pobres, seja da classe média, precariamente. É mais fácil fazer uma consulta médica do que fazer os exames recomendados pelo médico, que podem demorar meses. As coisas se complicam se for necessária uma internação, uma cirurgia.

Com isso, o médico se torna coadjuvante das improvisações e soluções da medicina popular, do curandeirismo, dos benzimentos. As pessoas ficam sabendo que suas dores e incômodos têm nome, nome de doenças. Mas a solução acaba sendo procurada fora do âmbito médico. Não é casual que aqui a medicina científica seja de fato apenas a segunda instância da medicina popular, da automedicação, das campanhas de liquidação de remédios das farmácias.

Um dos aspectos mais problemáticos desse desencontro é a descrença no saber médico. Sou usuário de hospital público e gosto de acompanhar as conversas de sala de espera. As pessoas trocam informações sobre as queixas que estão levando ao médico. Os outros pacientes opinam, fazem diagnósticos, até dizem que exames o queixoso recomende ao médico para que apenas faça a requisição.

Quando falha o convencimento alternativo do leigo, também paciente, entra o diagnóstico religioso. A conversa, então, se torna proselitismo em favor do grande médico de todas as enfermidades. Já presenciei na espera do ambulatório do Hospital Universitário da USP um desentendimento entre três evangélicos, vinculados a três diferentes igrejas fundamentalistas, por eles mesmos identificadas, porque um impugnava a visão religiosa do outro em nome da sua.

Por trás da resistência à quarentena há um conjunto extenso de insuficiências históricas, sem solução numa situação de emergência, como esta, que é também a de insuficiência de governo.

José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, é autor de "O Cativeiro da Terra" (Contexto).
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quinta-feira, 21 de maio de 2020

Bolsonaro é o “lado mais nefasto da política brasileira”, diz sociólogo

Presidente Jair Bolsonaro participa de ato antidemocracia. Foto: AFP

Para Ivann Carlos Lago, ditadores sempre projetam inimigos e estão em guerra permanente contra eles, tal qual a política de Bolsonaro

Para o professor Ivann Carlos Lago, mestre e doutor na Universidade Federal Fronteira Sul (RS), a política do ódio, da arbitrariedade, da busca por um inimigo real ou imaginário praticada por Jair Bolsonaro, é típica dos ditadores. Mas faz um alerta. “Isso pode se tornar uma armadilha”. Em entrevista a CartaCapital, Lago analisou ainda o comportamento do que chamou de “brasileiro médio”, o eleitor que votou e ainda apoia o ex-capitão.
 
Como o senhor analisa o presidente Jair Bolsonaro?
Ivann Carlos Lago: Bolsonaro é exatamente o que disse que seria, do jeito que disse que seria. Seu modo de governar não surpreende, minimamente, quem acompanhou sua trajetória como parlamentar. Na campanha eleitoral, tentou se mostrar como o antídoto do que chamou de “velha política”. Mas, na prática, ele representa o que há de pior nela. Bolsonaro é a materialização do lado mais nefasto, mais autoritário e mais inescrupuloso do sistema político brasileiro.

Esperava um governo tão conturbado?
IL: Creio que o termo não é “esperava”, mas todas as análises apontavam para isso. Ele foi eleito presidente intensificando suas características mais marcantes, como a agressividade, o ódio, a necessidade de ter inimigos e combatê-los, a negação ao diálogo e a tolerância. Não seria a eleição e o fato de, agora, ser o homem mais poderoso do país, que o fariam mudar.

Em um de seus textos, o senhor afirma que Bolsonaro “é uma expressão fiel do brasileiro médio”. Afinal, quem é e o que pensa o “brasileiro médio”?
IL: O “brasileiro médio” caracteriza o tipo comum, que representa o jeito de ser e pensar de boa parte da população. É o tiozão do grupo de WhatsApp da família, que defende a pena de morte, que orgulha sonegar impostos e ainda ensina os parentes a fazer o mesmo. Aquele que fura fila e conta com orgulho. Defende o extermínio de todos os esquerdistas porque inventaram a corrupção, e sabe disso porque assiste telejornal na TV a cabo pirata. Odeia quem recebe Bolsa Família, acha todo pobre vagabundo.

Não critica homossexualidade em público, mas tem pavor de pensar que seu filho possa ser gay. Não se considera machista nem racista, mas tem um estoque de piadas que ridicularizam mulheres e negros. Tem discurso pronto para criticar políticas assistenciais e defende o “enxugamento” do Estado, mas não perde uma oportunidade de acessar algum benefício ou política pública para o qual seu perfil socioeconômico dá acesso.

Esse eleitor enxergou em Bolsonaro seu alter ego?
IL: Sim. E se sublimou nele. Sente-se representado por ele. Bolsonaro é tudo o que ele gostaria de ser e não pode. Sente-se realizado quando o presidente ofende jornalistas e lideranças de esquerda, quando usa termos vulgares para atacar adversários, quando se comporta nos salões de Brasília como se estivesse no churrasco de domingo. É nesse sentido que afirmo que Bolsonaro não é uma aberração política, mas uma expressão fiel desse “brasileiro médio”.

O que o fez se tornar essa pessoa? São raízes históricas?
IL: São múltiplos fatores. Passa pela cultura da esperteza, de levar vantagem em tudo, de ser criativo não para criar coisas novas, mas para achar modos novos de fazer as coisas com menos esforço. Passa pela noção de “malandro” tão brilhantemente analisada por Roberto Da Matta. Pela ideia de que trabalho é algo degradante, e que sujeito esperto é quem encontra um modo de ganhar dinheiro sem trabalhar. Explorar todos os fatores de suas origens históricas e culturais demandaria um tratado sobre o assunto.

Por que essa parcela da sociedade ainda não havia se manifestado de forma tão explícita?
IL: Porque não haviam tido a chance de votar em um candidato que representasse essa dimensão mais profunda e mais obscura de si mesmo. Essa dimensão ainda é, em grande medida, reprimida, porque vai contra os consensos humanitários internacionais, ou por que simplesmente é crime. Ele não pode ser machista, homofóbico, atacar os direitos humanos em público. Mas se regozija vendo seu representante fazê-lo impunemente.

Bolsonaro, desde o início de seu governo, foi truculento, incentivou à violência e contra as minorias. O país corre o risco de ter uma escalada como o fascismo ou o nazismo na Europa?
IL: O fascismo, o nazismo, estão vivos não só no Brasil, mas em diversas partes do mundo. Mas o mundo de hoje é diferente do mundo do século passado. Nesse sentido, ele é outro, é diferente. Mas nem por isso menos perigoso. Ele se projeta em parte da população, especialmente a mais jovem, o que é, a um só tempo, intrigante e assustador. Ele se naturaliza no cotidiano do “brasileiro médio” a que me referi, nos discursos e práticas “banais” que passam despercebidas e impunes. Mas daí prever que uma onda fascista tome o governo do país é coisa distinta. Mesmo que aos trancos, nossas instituições ainda funcionam e têm conseguido evitar o pior.

Esse modus operandi do discurso do ódio e do inimigo oculto, foi uma estratégia política?
IL: Foi e é uma estratégia política. Porque fazer política com base na guerra permanente demanda a existência de um inimigo permanente. Esse inimigo pode mudar, pode ser real ou imaginário, pode ser um adversário tradicional ou um desafeto de última hora, mas não pode deixar de existir. Se não tiver contra quem guerrear, não faz sentido manter a retórica da guerra. Mas isso pode se tornar uma armadilha. Ditadores em geral sempre se utilizam desse expediente. Sempre projetam inimigos e sempre estão em guerra contra eles. Mas a história mostra que a tendência é de ver inimigos cada vez mais próximos, nos círculos mais íntimos, até que, no fim, acaba por sobrar apenas o próprio ditador.

Apesar do caos, parcela significa da sociedade apoia o ex-capitão. De onde vem esse apoio? Da elite ou do cercadinho na portaria do Palácio da Alvorada?
IL: Grande parte da elite econômica brasileira sempre foi ética e intelectualmente deplorável. Mesquinha, egoísta e interesseira. Nunca teve ideologia política. Seu compromisso não é com uma visão de mundo ou um projeto de sociedade, mas com os próprios ganhos. Até recentemente, essa elite estava ganhando dinheiro e, por isso, para ela, estava tudo ótimo. O quanto a pandemia que enfrentamos mudará isso, o tempo vai dizer, embora alguns sinais já comecem a aparecer. Mas não é só essa elite que apoia o governo. Como as pesquisas têm mostrado, cerca de um terço dos brasileiros o faz, e de forma consistente. Aí estão os tiozões do WhatsApp, de que falamos antes.

O que esperar dos próximos 31 meses do governo Bolsonaro?
IL: Mais do mesmo, ou seja, que Bolsonaro continue sendo Bolsonaro. Ele não vai mudar, porque não sabe fazer política de outro modo. Os inimigos é que vão mudar. A essência continuará a mesma, com tendência de redimensionamento dos espaços ocupados no governo em favor da “ala ideológica”. Para manter o apoio dos 30% que o defendem a todo custo, vai precisar manter um diálogo de radicalismo, de forma direta e permanente com esse eleitorado.
Isso se torna um movimento cíclico e sem volta, que é realimentar a prática de enxergar inimigos cada vez mais perto. Em termos gerais, deveremos ter um governo cada vez mais radical, apoiado pela ala ideológica, substituindo inimigos da esquerda por antigos apoiadores que passarão a ser retratados como traidores. Aliás, como fazem todos os ditadores.
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Reportagem Por  René Ruschel 
Fonte:  https://www.cartacapital.com.br/politica/bolsonaro-e-o-lado-mais-nefasto-da-politica-brasileira-diz-sociologo/ 

A peste

Luis Fernando Veríssimo*

Leia os infográficos do Poder360 sobre o coronavírus | Poder360

Dizem que quando os dois estavam chegando a Nova York, na amurada do navio, Freud virou-se para Jung e perguntou:

- Será que eles sabem que nós estamos trazendo a peste?

Não sei se a história, que li num texto do Stephen Greenblatt publicado recentemente na revista The NewYorker, é verdadeira. Nem sei se Freud e Jung estiveram juntos em Nova York algum dia. Mas o que Freud pretenderia dizer com "a peste" é fácil de entender. Era tudo que os dois estavam explorando em matéria de subconsciente, inconsciente coletivo, sexualidade precoce - enfim, a revolução no pensamento humano que na Europa já se alastrava e era combatida como uma epidemia. Os agentes alfandegários não teriam identificado o perigo que os dois recém-chegados representavam para as mentes da América, deixando-os passar para contagiá-las.

Todo desafio ao pensamento convencional e a crenças arraigadas é uma espécie de praga solapadora, uma ameaça à normalidade e à saúde públicas.

Santo Agostinho dizia que a curiosidade era uma doença. Os que procuravam explicações para o universo e a vida além dos dogmas da Igreja ou da ciência tradicional eram portadores do vírus da discórdia, a serem espantados como se espanta qualquer praga, com barulho e fogo. As ideias de Freud e de Jung divergiram - Jung acabou derivando para um quase misticismo, literariamente mais rico, mas menos consequente do que o que pensava Freud -, mas as descobertas dos dois significaram uma reviravolta no autoconceito da humanidade comparável ao que significou o heliocentrismo de Copérnico e as sacadas do Galileu. O homem não só não era o centro do universo conhecido como carregava dentro de si um universo desconhecido que mal controlava.

Agostinho tinha razão, a curiosidade debilitava o homem. A partir de Copérnico, a curiosidade só levara o homem a ir desvendando, pouco a pouco, sua própria precariedade, cada vez mais longe de Deus.

Marx, outro pestilento, tinha proposto o determinismo histórico e a luta de classes como eventuais formadores do Novo Homem, livre da superstição religiosa e de outras tiranias. Suas ideias, e a reação às suas ideias, convulsionaram o mundo. Esta peste se disseminou com violência e foi combatida com sangrias e rezas e no fim - como também é próprio das pestes - amainou. Todas as pestes chegam ao seu máximo e recuam. A Terra há séculos não é o centro do universo, o que não impede o prestígio crescente da astrologia. O iluminismo do século 18 parecia ser o preâmbulo de um futuro racional e prevaleceu o irracionalismo. O Novo Homem de Marx foi visto pela última vez pulando o muro para Berlim Ocidental. E as teses de Freud e Jung que revolucionariam as relações humanas nunca foram aplicadas nas relações que interessam, a do homem com seus instintos e a dos seus instintos com uma sociedade sadia.Foram, como as outras, uma novidade, ou uma curiosidade, que expirou.

Mas também é próprio das pestes serem reincidentes. Cedo ou tarde, virá outra perturbar a paz da ignorância de Santo Agostinho. E passar.

Crônica publicada no dia 1º de setembro de 2011
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* Jornalista. Escritor.
Fonte:  https://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=3b67b4ed67df50e7635bd96fca28bb54 
Imagem da Internet

De perto ninguém é normal (ou o ‘novo normal’)

Lilia Moritz Schwarcz*
 
©Bruna Tonial

Diante de períodos de crises de ordem política, militar, econômica ou sanitária, as sociedades mostram sua capacidade para se alterar, mas para se ‘conservar’ também
Sempre desconfio das expressões que fazem sucesso rápido e acabam servindo para qualquer ocasião. Afinal, o que explica tudo também explica nada.

A expressão “novo normal” tem sido muito utilizada nos últimos meses, quando se percebeu que o coronavírus há de acarretar mudanças para todo o planeta. Isto é, que os efeitos da Covid-19 não se limitarão ao dia em que a pandemia for dada por terminada. E é certo: a história mostra que não se sai de crises como essa da mesma maneira que se entrou.

“Novo normal” não é, porém, um termo recente; tampouco se sabe a origem dele. No entanto, tem sido crescentemente associado a momentos da história em que toda a sociedade é obrigada a se reinventar diante de períodos de crises de ordem política, militar, econômica ou sanitária.

Crise quer dizer “decisão” e, portanto, parece “normal” que diante de grandes acidentes como esses, as sociedades mostrem sua capacidade para se alterar, mas para se “conservar” também. Durante muito tempo as ciências sociais, prioritariamente, se dedicaram a entender não como as sociedades mudam, mas sobretudo como elas têm essa incrível capacidade de se manter. Como dizia Lampedusa: “É preciso que algo mude para que tudo fique absolutamente igual”.

O ‘novo normal’ representa um esforço contínuo da preservação da sociedade, nem que, para que isso ocorra, 
ela seja levemente alterada

E esse me parece ser o “novo normal”: ele representa, no meu entender, um esforço contínuo no sentido da preservação da sociedade (e de um determinado status quo), nem que, para que isso ocorra, ela seja levemente alterada. Isso porque a humanidade, em seu longo curso, sempre lutou pela manutenção. As pessoas também preferem estados de equilíbrio, de “normalidade”, do que viver no “caos” da novidade. Por isso, se é preciso que alguma coisa se altere, o melhor é que seja bem pouco.
Considero, assim, o “novo normal” um movimento bastante conservador; no sentido primeiro da palavra: conservar. Afinal, esse seria um “novo normal” para quem? Qual seria o nosso coeficiente de “normalidade”? E qual a régua que mede e distingue o que é “normal” do que é “anormal”, ou, ainda, um “novo normal”?

Toda sociedade carrega seus próprios parâmetros e princípios, que serão mais eficientes quanto mais forem vividos como “naturais”, “normais”. A lógica da sociedade, dizia o sociólogo Émile Durkheim, no final do século 19, não corresponde à “soma dos indivíduos”. Por isso, o silêncio que carregamos conosco é uma barulhenta algazarra social, pois procura esconder os critérios que regem essas métricas e não mostra como são obrigatórios esses traços sociais, que nos parecem apenas facultativos.

Arrisco, portanto, dizer que “normal” é acreditar numa história feita apenas por homens, brancos, de classe alta, e celebrados por seus atos célebres. No jogo do “diz que não diz”, chamamos de “história universal”, uma narrativa que diz respeito aos Estados Unidos e à Europa, e em especial à Europa Central. Ela é a “normal”. Tudo o que escapar da “norma” fica jogado na lata de lixo da exceção e do que “não é normal”. Foi assim com a Revolução Haiti (1791-1804), que cometeu o “pecado” de mostrar ao mundo que escravizados podem (e devem) se rebelar e ganhar o comando de seus próprios países. Mas eles romperam com a “norma” e com o “normal”, e sofrem até os dias de hoje, com as severas consequências. Como dizia o etnólogo Claude Lévi-Strauss, “bárbaro é aquele que acredita na barbárie”. Somos nós.

Algo pode mudar, mas tudo deve permanecer basicamente 
como está. E esse é o terreno fértil onde 
se move o ‘novo normal’

Também agimos com “naturalidade”, quando dividimos as produções visuais de maneira cartesiana: arte ou artesanato; arte X artesanato. O que não dizemos quando deixamos de explicitar esses conceitos? Resposta: que arte (europeia, masculina, de classe alta) é a “norma”, já o artesanato é (com sorte) o “novo normal”. Mesmo assim, não existe termo de comparação entre eles.

Os exemplos são muitos. Mas vira e mexe um “acidente” de proporções globais tem a capacidade de escancarar essas diferenças, que preferimos, em geral, jogar debaixo do tapete. Períodos de guerra fazem isso com as pessoas, que passam a reconsiderar suas verdades. Grandes acidentes naturais – terremotos, maremotos, furacões – também têm a potencialidade de fazer com que nos movamos um pouco do terreno seguro das nossas confortáveis certezas. Mas só um pouco, pois a história mostra como, passado o perigo e a insegurança, lá estamos nós de novo habitando nossas velhas e boas verdades. Algo pode mudar, mas tudo deve permanecer basicamente como está. E esse é o terreno fértil onde se move o “novo normal”. O parâmetro é dado pelo “normal” – que continua lá, resistindo. O “novo do normal” é a cereja do bolo, a fita que envolve o presente.

Foi assim com a gripe espanhola que em dois meses assaltou a imprensa, a imaginação e a realidade das pessoas. Calcula-se que a pandemia tenha atingido, direta ou indiretamente, cerca de 50% da população mundial e levado à morte de 20 milhões a 50 milhões de pessoas: 8% ou 10% dela na faixa dos jovens. Os números eram maiores do que os da Primeira Guerra Mundial, que acabou mais ou menos na mesma época, no dia 11 de novembro de 1918, vitimando entre 20 milhões a 30 milhões de pessoas, entre soldados e população civil. No entanto, quando o “incidente” foi embora, tudo voltou ao “normal”, ou a um “novo normal”, levemente alterado por alguns hábitos de higiene, que também se perderam pelo caminho.

E eis que 2020 começou e há de terminar com a chegada desse micro-organismo que não é nem ao menos visível a olho nu. E o impossível aconteceu: as rotinas foram suspensas pelo planeta afora e até segundo aviso. Nessas horas em que o medo e a agonia falam mais forte, tendemos mesmo a sonhar melhor e a desenhar o futuro de forma mais solidária. Isso é o que a pesquisadora Rebecca Solnit chamou de “banalidade do bem”. Em momentos de crise, nossa consciência cívica aumenta e o sentimento de pertencimento social também. Passamos a achar que somos uma nação só, irmanada pela mesma realidade.

Nessas horas em que o medo e a agonia falam mais forte, tendemos mesmo a sonhar melhor e a desenhar 
o futuro de forma mais solidária

E é nessas horas que ao imaginarmos o nosso “normal”, o projetamos para os demais, repaginando-o como um “novo normal”. Somos, porém, um país em que mais de 20% das pessoas vivem em moradias de um cômodo, onde residem quatro ou mais habitantes. No Brasil, 50% das casas não têm acesso ao esgoto sanitário. Trinta e três milhões de brasileiros não contam em seus lares com abastecimento de água confiável. E, mesmo assim, definimos que no “novo normal” – que não tem tempo ou espaço – não viajaremos tanto, não compraremos tantas roupas, não seremos tão consumistas, cozinharemos (quando der) e até arrumaremos a casa. A pergunta, mais uma vez, é a seguinte: “novo normal” para quem?

Há quem diga também que “novo normal” tem a ver com conectividade. Com a maneira como acionamos a energia e nos comunicamos e nos libertamos a partir da tecnologia; grande quimera do século 20. A PNAD Contínua de TIC de 2018 mostrou, todavia, que uma em cada quatro pessoas no Brasil não tem acesso à internet. Portanto, essa opção ao “novo normal”— “não vou mais estar online o dia todo” – corresponde a que realidade?

Muitos têm defendido a ideia de que esses tempos de pandemia romperam com o preconceito contra a educação remota. Ou seja, que a pandemia nos ensinou a aprender de dentro de casa e no recanto do lar. No entanto, é essa mesma crise na saúde pública que tem acentuado e ampliado as iniquidades na área da educação. Existem alunos que têm seu próprio computador, estudam na calma do seu quarto, e dispõem de toda uma família estruturada pronta para dar amparo nesse momento de “novo normal” que, sem dúvida, atrapalhou (e muito) a rotina dos pais e mães. Não discordo ou discuto. Para eles, o “novo normal” é um estado quiçá passageiro. Mas o que dizer de famílias que receberam o material impresso e organizado bravamente pelas escolas públicas, mas não têm lápis e borracha em casa? Muito menos acesso à internet? Nesse caso vive-se mais do mesmo “normal”.

O conceito de “novo normal” também parte e tem como patamar silencioso, o conceito romântico e idealizado de lar, que faz todo sentido para um determinado grupo social. Não para todos. É por isso que durante a pandemia, o “novo normal” foi também o aumento do feminicídio e do infanticídio, mesmo que com uma imensa subnotificação. E o mais estarrecedor nesse “novo normal” é, justamente, “o velho normal”. Quando existe a denúncia, ela recai sempre por sobre parentes, pais, tios, mães e amigos próximos. O lar e a casa podem ser, portanto, lugares tão perigosos como quaisquer outros.

Não sou contra prognósticos otimistas. Só desconfio deles. Também torço para que saiamos desse estado de anomia, diferentes. Tomara que esse “novo normal” resulte num país mais generoso, plural, inclusivo, cidadão e, sendo assim, republicano. Esse deveria ser o nosso “normal”; mas aceito se a regra mandar que ele seja um “novo normal”.

Se o ‘novo normal’ for uma espécie de estado de exceção, ele (então) confirma a regra. Se não for, será mais
 uma convenção conservadora

Homens e mulheres são seres classificadores. Classificam para assim se sentirem seguros nem que seja num “novo normal”. Por isso damos nomes aos planetas, aos animais, aos vírus, aos países, às doenças e a nós mesmos. Só dessa maneira nos sentimos plenos e de posse do controle.

Penso que provérbios são peças de linguagem feitas para iludir. Muitas vezes os citamos sem termos certeza do significado. Vou evocar um por aqui: “A exceção confirma a regra”. Se o “novo normal” for uma espécie de estado de exceção, ele (então) confirma a regra. Se não for, se tiver vindo para ficar, será mais uma das nossas convenções conservadoras que pretendem manter, não revolucionar.
Afinal, e como diz Caetano Veloso num dos versos de “Vaca Profana”, “de perto ninguém é normal”. Quem sabe o “novo normal” faça sentido apenas de longe. Numa distância que acomoda; não incomoda.

Bem-vindos ao velho/novo normal. É hora de reconhecer, como poetou Carlos Drummond de Andrade, que “toda história é remorso”.
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* Lilia Moritz Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “Brasil: Uma Biografia” (Cia das Letras, 2015), com Heloisa Starling, “Dicionário da Escravidão e Liberdade” (Cia das Letras, 2018), com Flavio Gomes e “Sobre o Autoritarismo Brasileiro” (Companhia das Letras, 2019). Foi curadora de uma série de exposições e atualmente é curadora-adjunta do Masp 
Imagem: Bruna Torial (intervenção da artista na obra “Operários” (1933), de Tarsila do Amaral)
Fonte:  https://gamarevista.com.br/sociedade/de-perto-ninguem-e-normal-ou-o-novo-normal/

terça-feira, 19 de maio de 2020

Ser velho e inútil


Eliane Tavares*
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 "Quando eu vejo o meu pai, aos 88 anos, na sua rotina diária de andanças pelo quintal, num ir e vir aparentemente sem sentido, não posso deixar de me comover. Sua inutilidade é um fato. Ele que sempre foi arrimo da família, agora não faz mais nada por ninguém. Passa o dia vivendo sem qualquer preocupação. Não seria então a inutilidade um presente? Um momento de viver para si, só na fruição? 
Penso que sim".



Hoje estava lavando roupa e o tanque fica bem num ângulo que dá pra ver o quarto do pai. Vi que ele conversava muito animado com uma fotografia que achou numa revista e que colocou na mesinha de suporte. Ela fica ali como num altar. É uma foto de um grupo de pessoas, num tempo passado, creio que deve ser lá pelos anos 1940. Não sei quem são, e nem ele, presumo. Mas, de qualquer forma ela o distrai e ele conversa amiúde com aquele povo. O papo é animado, ele mexe as mãos, ri, argumenta. É bem engraçado.

O pai passa os dias assim. Acorda, cochila, come bergamota, cochila, fuma, fica andando em volta da casa, vai até o portão e volta, pega os lixos da lixeira e traz para a cozinha, depois leva outra vez para a lixeira. Almoça, cochila, fica andando em volta da casa, prá e prá cá no portão, fuma, ouve música, come banana. Depois, janta, ouve música, come bergamota, toma chá, vê televisão e vai dormir. É uma vida não produtiva, que alguns chamariam inútil. No mundo do trabalho, do capital, ele é um inútil. Ele não pinta, não compõe, não se lembra do passado, não faz absolutamente nada que sirva para alguma coisa. Então, talvez por isso, que alguns governantes não se importem com a morte dos velhos agora na pandemia, afinal, são inúteis, não servem pra nada.

Quando eu vejo o meu pai, aos 88 anos, na sua rotina diária de andanças pelo quintal, num ir e vir aparentemente sem sentido, não posso deixar de me comover. Sua inutilidade é um fato. Ele que sempre foi arrimo da família, agora não faz mais nada por ninguém. Passa o dia vivendo sem qualquer preocupação. Não seria então a inutilidade um presente? Um momento de viver para si, só na fruição? Penso que sim. Quem disse que é preciso produzir o tempo todo? Quem disse que há que se cumprir um protocolo de utilidade para ser uma pessoa?

O pai começou a trabalhar cedo, em escritório de contabilidade. Teve uma vida boa até os quarenta e poucos anos, quando perdeu tudo e teve de começar do zero. Um velho já para o mundo do trabalho. E, ainda assim, ele se reergueu. Estudou, se esforçou, e terminou sua jornada de trabalhador como chefe do almoxarifado do DEER de Minas Gerais. Nunca se queixou do trabalho duro e sempre foi em frente, sem reclamar. Como empregado era um calvinista. Nunca chegou atrasado, nunca faltou, deu sempre o seu máximo. Fazia o impossível pelos seus colegas. Como pagador de trabalhadores no trecho – obras nas estradas – ele se virava nos 30 para fazer chegar o dinheiro, fizesse chuva ou sol. Chegou a atravessar um rio, amarrado numa corda, para garantir o salário dos companheiros. Era o que se chama de “caxias”.

O pai criou os filhos sempre ensinando o sentido da honestidade e do trabalho. Pagava as contas religiosamente. Era capaz de ter um troço se não tivesse dinheiro para quitar as dívidas e o sinal para a demência foi justamente esse: de repente ele se esqueceu de pagar as contas. Isso só poderia ser doença. E era.

O pai foi um cara extraordinário ao longo de sua vida “produtiva”. Ele tem uma história linda de perseverança, de coragem, de derrotas e superações. Ele tem uma história, que está viva em nós.

Por isso que hoje, quando ele aproveita – sem culpa - desse momento de inutilidade, eu me encho de ternura. É bom vê-lo sem a neurose das contas, sem a necessidade de cumprir afazeres, obrigações. Na sua vida inútil ele está livre. Ele pode conversar com os amigos imaginários nas fotos, ele pode degustar as frutas, dormir, caminhar, ouvir música sem preocupação. Ele tem quem lhe cuide, que lhe dê o alimento na hora, troque sua roupa, dê o banho, quem dance com ele, e lhe encha a cama de perfumes e cobertas quentinhas.

Ele é uma vida que foi vivida na plenitude, mas sempre acorrentada ao trabalho, à obrigação, ao dever. Agora, não. É só um corpo dançante, que toma vinho e cospe o que não quer comer.

Por isso que a vida dele importa. Tanto quanto a do jovem que ainda não viveu tudo o que ele já percorreu. Por isso que não é possível escolher entre um e outro. Cada um é um universo. O jovem, ainda em jornada. O velho, que já cumpriu tanto.

A proposta do “deixa morrer os velhos e os fracos”, que aparece agora, com a pandemia, tem me consumido os dias e noites. Não posso aceitar. Porque, como Manuel de Barros, tenho respeito pelas coisas inúteis, que existem apenas para a fruição. Um velho dedal esquecido numa caixa, um quadro sem valor, um lápis de cor quebrado. Coisas que evocam belezas. O pai, esse homem de tanta vida, é assim. Um ser de fruição. Um evocador de belezas. Ele merece viver sem a pressão de ser útil.

Ele é velho, inútil agora, mas já riscou um caminho nesse mundão de deus. Sua vida importa. E muito. Assim como a vida de outros velhos e velhas desse planeta azul, cheios de histórias, memórias e belezuras.
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Jornalista. Humana, demasiado humana. Filha de Abya Yala, domadora de palavras, construtora de mundos, irmã do vento, da lua, do sol, das flores. Educadora, aprendiz, maga. Esperando o dia em que o condor e a águia voarão juntos,inaugurando o esperado pachakuti