quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Voltaire, Rousseau e nós

Robert Darnton*
 
Minerva protege Rousseau e Voltaire do fanatismo (alegoria do séc.XIX)
 
Por onde começa a transformação da sociedade: pelo povo ou pelas elites? Uma questão que pertence à esfera do saber histórico, pois este dilema ainda tão atual surgia na rivalidade de duas grandes mentes do século XVIII: Rousseau e Voltaire

Em fala exclusiva ao Fronteiras, o historiador norte-americano Robert Darnton explica a relação entre estes filósofos e explica como suas diferentes opiniões abrangem muitos aspectos da natureza humana. 

Não esqueça: Robert Darnton sobe ao palco do Fronteiras do Pensamento Porto Alegre nesta segunda-feira. Darton retorna ao projeto 10 anos após sua participação na primeira edição do Fronteiras, em 2007, quando o historiador proferiu a conferência Voltaire, Rosseau e nós

Leia abaixo a fala de Robert Darnton:

Há uma carta famosa de Voltaire para Rousseau, na qual ele diz: “Monsieur, li seu último livro; ele faz com que eu deseje ficar de quatro, feito um animal". Ele debocha de Rousseau, como se ele fosse primitivo. E Rousseau responde: “Monsieur, eu o odeio".

Havia um contraste entre os dois e esse contraste, creio, hoje é importante para compreender por que Voltaire tinha uma estratégia para mudar a sociedade. A estratégia era trabalhar de cima para baixo. Ele conhecia o mundo da elite, nasceu no século 17, em 1694, sob o reino de Louis XIV, em outro mundo.

E ele acreditava que a sociedade era hierárquica, que mesmo os trabalhadores não deveriam aprender a ler porque alguém, ele disse, tinha que arar os campos. Ele se dirigiu à elite e soube como manipular o mundo do salon, das academias.

Ele era um cortesão em Versalhes, conhecia o rei e também a amante do rei, Madame de Pompadour. Ele, então, manipulou esse mundo, mas se excedeu e teve de desaparecer e passar os últimos anos de sua vida primeiro em Berlim, depois entre a França e a Suíça, escrevendo panfletos, sempre atacando a injustiça, mas atacando-a de cima para baixo, entre as pessoas no poder.

Rousseau é o oposto: veio de uma família pobre, seu pai era um artesão, um relojoeiro, e Rousseau expressava uma profunda discordância em relação a Voltaire. Ele pensava que se deve trabalhar de baixo para cima, e era nas próprias pessoas que ele se inspirava.

Imaginava um mundo democrático onde, em vez do teatro se vissem demonstrações populares, um tipo de teatro do povo e procissões e festivais. Todos seriam atores e espectadores ao mesmo tempo. Isso, em última análise, era uma espécie de política.

Rousseau tinha a energia das bases populares da sociedade. E creio que, quando Rousseau rompeu com os encyclopédistes, os autores da grande Encyclopédie, que é o livro central do Iluminismo, rompeu ao atacar a cultura da elite.

Quando Voltaire descreve a sociedade utópica de Eldorado, e ele está pensando nesta parte do mundo, ele insiste que ela é, acima de tudo, uma société polie. Ele descreve como as pessoas interagem de forma educada. O que ele quer dizer é que há respeito pelo outro e há uma espécie de douceur, de gentileza no modo como as pessoas se tratam que é civilizado.

A civilização ideal é o que Norbert Elias chama de “processo civilizatório", um processo que doma as paixões violentas dos indivíduos para que a vida social seja possível. E isso era importante porque os nobres, por exemplo, no século 17, eram uns brutos. Pensamos neles como grands-seigneurs e assim por diante. A noção dos bons modos franceses é recente, é uma noção do século 18 iniciada no século 17. Antes disso, eles eram uns brutos que queriam brigar o tempo todo.

O processo civilizatório muda toda a natureza das relações sociais. E isso, de uma maneira, abre o caminho para o poder, para aqueles que nascem nas partes mais baixas da sociedade, mas aprenderam o código das boas maneiras a fim de progredir. Foi o que Voltaire fez.

Afinal, ele não era um seigneur, seu pai tinha um trabalho numa das cortes, mas não era um aristocrata. Porém, Voltaire tinha talento para divertir as pessoas, para as relações sociais. E, com o tempo, chegou ao topo da corte de Louis XV, empregando o código das boas maneiras. 

Mas, é claro, para Rousseau isso era terrível, porque era um código especificamente relacionado à aristocracia e à Igreja. Rousseau odiava a ideia dos bons modos; em vez disso, queria um modo popular direto de interação social.

O lema de Voltaire, em francês, era "il faut mettre les rieurs de notre côté", "devemos ter o sorriso do nosso lado". Ele usou o sorriso como uma arma contra o preconceito. E, por preconceito, ele quis dizer a Igreja Católica, o sistema legal que era corrupto e, de certa forma,o sistema político.

Com Rousseau, é muito mais radical, porque ele defendia a completa democratização do sistema político. O que me espanta, quando leio Rousseau, é a forma com que ele criou uma nova relação entre escritor e leitor. Sei disso porque estudei todas as cartas que ele recebeu.

As pessoas escreviam a ele dizendo: "Monsieur, o senhor tocou meu coração.", "Diga o que vai acontecer com os personagens do livro." Porque as pessoas pensavam que personagens como Saint Priest e Julie eram reais e os levavam para suas vidas, quase como nas novelas hoje em dia. Mas, na época, era algo novo.

Vê-se a mesma coisa acontecendo na Inglaterra e na Alemanha com os grandes novelistas, como Richardson na Inglaterra, Goethe na Alemanha, Rousseau na França. Eles criam uma nova espécie de relação entre leitor e escritor, o que produz mais poder, de forma que as pessoas se comovem depois de terem sido mobilizadas através do sorriso por Voltaire.

O movimento de Voltaire para Rousseau abrange muitos aspectos da natureza humana e os une pela causa em comum do Iluminismo.
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* Historiador cultural norte-americano. Darnton é pioneiro nos estudos sobre a história do livro e um dos mais renomados especialistas em história da França do século XVIII. Graduado pela Universidade de Harvard, com mestrado e doutorado pela Universidade de Oxford, lecionou em Princeton de 1968 a 2007. Em 2007, assumiu como diretor da Biblioteca de Harvard e tornou-se o responsável por disponibilizar pela internet o conjunto da produção intelectual da universidade, considerado um dos maiores e mais importantes do mundo
Fonte:  http://www.fronteiras.com/artigos/voltaire-rousseau-e-nos 26/08/2016

terça-feira, 30 de agosto de 2016

ALBERTO MANGUEL: O intelectual está em extinção, diz escritor.

Feria del libro 2016 inauguracion Alberto Manguel fotos German Garcia Adrasti Foto: german garcia adrasti/Clarin ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***

Certa vez Alberto Manguel viu-se perdido em uma selva escura. Não era uma selva de verdade, mas aquela em que Dante Alighieri (1265-1321) conta ter entrado, logo no começo da "Divina Comédia".
Desde então, o escritor argentino, 68, visita o inferno, o purgatório ou o paraíso todas as manhãs. Foi dessa experiência que saiu seu novo livro, "Uma História Natural da Curiosidade" (Companhia das Letras, 488 págs., R$ 74,90). 

Manguel participa, nesta terça-feira (30), de um debate com o historiador americano Robert Darnton. O evento inicia uma série de encontros realizados em comemoração pelos 30 anos da Companhia das Letras. 

"[A 'Comédia'] parece um livro infinito. Minha cabeça estava cheia de ideias surgidas com a leitura de Dante. Mas sou apenas um leitor comum que ficou perdido nos três mundo dele", afirma.

Em cada um dos 17 capítulos da obra aparecem grandes questões –e os insights de grandes livros do passado. Quem sou eu? O que é linguagem? O que é verdade? 

"Nós, seres humanos, somos seres questionadores. A curiosidade é um instrumento de sobrevivência, que nos leva a fazer perguntas e usar a imaginação para encenar a experiência que ainda não tivemos", diz Manguel. 

"Por isso toda religião e toda instituição política tem não só um dogma, mas usa também histórias."
Manguel, que na juventude lia para Jorge Luis Borges, quando o escritor perdeu a visão, hoje é presidente da Biblioteca Nacional da Argentina –mesmo posto ocupado pelo autor de "O Aleph". 

Dono de uma coleção de 30 mil livros, Manguel sabe ser representante de uma espécie em extinção: o homem de letras, aquele que parece uma enciclopédia do saber humanístico. "O intelectual é uma espécie em extinção. Vivemos em um mundo estruturado em torno da máquina comercial". 

Para Manguel, o mundo contemporâneo não quer indivíduos que reflitam, por estar mais interessado em formar consumidores. "Há um vazio de educação sobre a memória do passado comum, de nossos valores. Não diria que já tivemos uma sociedade justa. Mas no passado havia um esforço para questionar momentos injustos." 

Ainda segundo ele, o mundo vive um impasse político em que apenas são bradados slogans, repetindo a linguagem publicitária. E Manguel cita o Brasil como exemplo. 

"São corruptos acusando outros de corrupção. Nenhum vocabulário ético definiu uma situação assim: uma disputa entre aqueles que cometeram crimes e aqueles que cometeram crimes. Por isso [para algo assim existir], é preciso uma sociedade que não pensa". 

A imagem que vem à cabeça do autor é a do mundo imaginado por H. G. Wells em "A Máquina do Tempo": uma sociedade de seres bestiais que trabalham brutalmente e não pensam. Acima, uma classe desconectada da realidade dos que vivem abaixo dela. 

Acompanhando a política brasileira, Manguel brinca que vai incluir o Brasil na próxima edição de seu "Dicionário de Lugares Imaginários", que reúne locais da literatura onde ocorrem as coisas mais irreais.

Uma História Natural da Curiosidade
Alberto Manguel
l
Na programação de eventos pelos 30 anos da Companhia das Letras, no Rio e em São Paulo, ainda haverá encontros com Mia Couto, Maria Bethânia, David Grossman e Ian McEwan.

"Houve uma escolha afetiva dos autores que acompanharam a história da editora", diz Luiz Schwarcz, presidente do grupo Companhia das Letras. "Manguel e Darnton são homens que perseguem a biblioteca. Ou são perseguidos por ela." 

Além dos eventos, a editora prepara a edição das obras completas de Raduan Nassar, com três inéditos do autor. 
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Reportagem por  MAURÍCIO MEIRELES - DE SÃO PAULO
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/08/1808235-o-intelectual-esta-em-extincao-diz-escritor-alberto-manguel.shtml

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

NARCISISMO: 'Olha eu aqui!' Autora indica como lidar com narcisistas: ao se deparar com um deles, fuja!

 

Na mais recente contribuição à bibliografia sobre o narcisismo, autora oferece um conselho para lidar com todo tipo de superególatra: antes que seja tarde, fuja!




Eles estão por toda parte. Em lugares suspeitos e insuspeitos. A qualquer hora são vistos, e é justamente isso o que eles mais desejam. Nos Jogos Olímpicos, deram um show coletivo: de olho no telão, aenando para as lentes da TV, “Ó, nós aqui!” Narciso se mirava nas águas de um rio, nossos narcisistas não podem ver um espelho ou uma câmera. 

Sua vocação para papagaios de pirata é inexcedível. Se ninguém os filma ou fotografa, uma selfie, essa cocaína especular, quebra o galho. Suprassumo do onanismo fotográfico, a selfie foi o maior presente que a era digital ofertou às pessoas mais carentes de atenção, reconhecimento e adulação. Ególatras e exibicionistas, não resistem a um flagrante de si mesmos, estejam onde estiverem, a sós ou acompanhados. Dane-se a paisagem, dane-se o entorno, dane-se a Monalisa meio desfocada ao fundo. “Ó, eu aqui!”

Não foi pelo simples prazer de brincar com as palavras que neologismos como “selfish” e “narcistick” foram inventados. “Selfish” é um amálgama perfeito de selfie com egoísta, em inglês; “narcistick”, uma mistura de narcisista com stick, pau de selfie em inglês. A pandemia de selfies veio confirmar uma suspeita: o espectro do narcisismo ronda o planeta, germe de outro vocábulo recente – narcisfera, que é onde os embeiçados pela própria imagem (não apenas no sentido icônico) gravitam com mais intensidade e desfaçatez, a inundar as redes sociais de inanidades verbais e irrelevâncias visuais que deveriam ser de consumo restrito. E mais outro: narcifobia, que é a aversão que nos provocam os autocentrados internautas do Facebook, do Instagram e do Twitter. 

Como não ter medo de pessoas com excessiva (e invasiva) autoestima? Medo e, em muitos casos, inveja. Pois se nem toda selfie evidencia um “transtorno de personalidade narcisista” (para usar o termo científico popularizado pelo psicanalista Heinz Kohut, meio século atrás), nem toda autoestima excessiva faz mal à saúde psíquica; às vezes pode ser saudável, estimulante, terapêutica, defende o doutor Craig Malkin em Rethinking Narcissism (“Repensando o Narcisismo”), provocante estudo sobre os malefícios e benefícios do narcísico culto ao bem-estar, ao protagonismo e à soberba benigna. 

Como estimar qual a taxa ideal de autoestima? A partir de que ponto a autoestima torna-se destrutiva e autodestrutiva? Ao contrário da febre, da hipertensão e dos terremotos, não existe um instrumento nem uma escala para mensurar isso. Se algum cientista por ventura inventá-la, não lhe faltarão nomes mais apropriados que o seu para batizá-la: Escala Kim Kardashian, Escala Justin Bieber, Escala Donald Trump, Escala Kenye West. Todos irreprocháveis. 

Um analista político insinuou há tempos a emergência de um novo sistema bipartidário na América, não mais opondo democratas e liberais a republicanos e conservadores, mas narcisistas (sob a sigla PN) e seus antípodas (do Partido da Baixa Estima). Por seu próprio jeito mercurial de ser e por seu fetiche do excepcionalismo americano, Trump seria filiado ao Partido Narcisista – o mais afinado, por sinal, com a maioria dos políticos, bons (Franklin Roosevelt), maus (Collor) e ditadores (Hitler, Stalin, Mao, Gadhafi). Por motivos óbvios, Bill Clinton seria colega de legenda de Trump, até porque o impulso libidinal é elemento destacado na caracterização do narcisista. 

Ou foi, quando Freud enfiou sua colher no conceito colhido na mitologia grega pelos clínicos ingleses Havelock Ellis e Paul Näcke, ainda no século 19. Quatro anos antes de produzir seu estudo sobre o narcisismo, em 1914, Freud já usava o termo para explicar “a escolha de objetos nos homossexuais, que primeiro tomam-se a si mesmos como objeto sexual (...) e procuram jovens que se pareçam com eles, e a quem possam amar como a mãe os amou a eles”. Depois, sua análise embrenhou-se por outras veredas, para alívio dos gays e das mulheres, ainda que muitas delas, fiéis ao arquétipo delineado por Freud, não consigam passar por uma vitrine (até de açougue serve) sem dar uma espiada de soslaio em sua refletida silhueta. 

De tanto ouvir falar numa “epidemia de narcisismo” (segunda no ranking de expressões prêt-à-porter, a primeira ainda é “banalidade do mal”) e de ler a respeito de NPD (a sigla em inglês de Transtorno de Personalidade Narcisista), Kristin Dombek resolveu investigar a procedência da metástase narcísica e a transformação de um problema psíquico individual em fenômeno cultural, de resto, retratado (por Tom Wolfe) e analisado (por Christopher Lasch) em seu primeiro apogeu, na década de 1970, adrede rotulada de “Me decade”. 

Admirada por seus conselhos de alta (repito: alta) ajuda nas revistas The Paris Review e n+1, Dombek escreveu um rico e sombriamente engraçado ensaio de 140 páginas, The Selfishness of Others (“O Egoísmo dos Outros”, a US$ 10 na versão kindle), com ênfase na narcifobia e como o temor aos que fazem do mundo um espelho pode distorcer nossas relações interpessoais. É a mais recente contribuição teórica à colossal narcisobibliografia. 

Assim como existem narcisistas de variada espécie e periculosidade – inofensivos (a turma do selfie e da autopromoção nas redes sociais), vaidosos, gabolas delirantes (“eu já transei com mais de 20 garotas da Playboy”), agressivos, fálicos, corporativos (vulgo bozós), farisaicos, oniscientes – existem livros que nos ensinam a farejá-los à distância (pelos mimos maternos, pelas postagens na internet), a distingui-los de perto (pelo mau comportamento social: loquazes, autorreferentes, espalhafatosos, arrogantes), e a lidar com cada um deles, seja para evitá-los, desmascará-los e combatê-los de igual para igual. 

Como se defender de um narcisista extremado? Joseph Burgo, autor de The Narcissist You Know (“O Narcisista que Você Conhece”), tem as dicas necessárias. Como se vingar de um narcisista e usar contra ele as técnicas secretas da manipulação emocional por ele utilizadas? Leyla Loric e Richard Grannon ensinam em How to Take Revenge On a Narcissist (“Como se Vingar de um Narcisista”). 

Dombek, de quem já lera observações inteligentes sobre sexo, aborto e descrença religiosa, navega pela mitologia grega, a literatura clássica (o inevitável Ovídio), a teoria psicanalítica (Freud, Alice Miller, Donald Winnicott, Otto Kernberg), por reality shows, pela autoajuda online, pela psicosociologia pop. Ela faz questão de distinguir bem os narcisistas prosaicos daqueles que postam mensagens superególatras nas redes sociais, pegam em armas e invadem shoppings, escolas e cinemas, para extravasar seu instinto homicida. Seu único conselho: fuja antes que seja tarde. Dos dois.
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Reportagem por  Sérgio Augusto,
Fonte: O Estado de S.Paulo - 
http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,olha-eu-aqui-autora-indica-como-lidar-com-narcisistas-ao-se-deparar-com-um-deles-fuja,10000072358
Foto: ROBERT PRATTA | REUTERS


DO BLOG: 
 
O que é narcisismo?

Com base nas ressonâncias desse termo, Freud desenvolveu um dos conceitos mais importantes de sua teoria
 
Eco e Narciso (Detalhe), Óleo sobre tela, John William Waterhouse, 1903, Museu Nacional, Liverpool

por Maria Laurinda Ribeiro de Souza

Muitas vezes a palavra “narcisismo” é utilizada no senso comum de maneira pejorativa, para designar um excesso de apreço por si mesmo. Para a psicanálise, trata se de um aspecto fundamental para a constituição do sujeito. Um tanto de amor por si é necessário para confirmar e sustentar a autoestima, mas o exagero é sinal de fixação numa identificação vivida na infância.

A ilusão infantil de que o mundo gira ao nosso redor é decisiva nessa fase, mas para o desenvolvimento saudável é necessário que se dissipe, conforme deparamos com frustrações e descobrimos que não ser o centro do universo tem suas vantagens. Afinal, ser “tudo” para alguém (como acreditamos, ainda bem pequenos, ser para nossa mãe) é um fardo pesado demais para qualquer pessoa. Alguns, no entanto, se iludem com o fascínio do papel e passam sua vida almejando o modelo inatingível de perfeição.

Diz o mito grego que Narciso era uma criança tão linda e admirada que sua mãe, Liríope, preocupada com esse excesso, levou-o até o sábio Tirésias. Ele lhe disse que o menino só teria uma vida longa se jamais visse a própria imagem. Por muito tempo essas palavras pareceram destituídas de sentido, mas os acontecimentos que se desenrolaram mostraram seu acerto. Na adolescência, Narciso era um jovem belíssimo, mas muito soberbo. Ao passear certo dia pelo campo, a jovem Eco o viu e se apaixonou por ele, mas o rapaz a repeliu. Um dia, cansado, Narciso dirigiu-se a uma fonte de águas límpidas. Eis então que a profecia se realiza: ao ver-se refletido no espelho das águas, enlouqueceu de amor pelo próprio reflexo. Embevecido, não tinha olhos nem ouvidos para mais nada: não comia ou dormia. Em vão, Eco suplicava seu olhar. Mas Narciso só olhava para si. Apaixonado, ensimesmado, busca para aplacar sua dor um outro que, sendo ele mesmo, não lhe responde. Realizase, então, seu destino: mergulha no espelho e desaparece no encontro impossível.

Sem a possibilidade de reconhecimento do que é a própria imagem e do que é o outro, o corpo de Narciso tornou-se pura miragem e desfez-se nas águas... E Eco, que só a Narciso perseguia, só por ele clamava, só nele vivia, petrificou-se e perdeu o poder de sua própria palavra. Narciso não cria laços; não partilha seu encanto. Perde-se na imagem de si. Eco também se perde e, no desencontro, entrega-se à repetição compulsiva, sem poder se separar da miragem idealizada.

Com base nas ressonâncias desse mito Freud desenvolverá um dos conceitos mais importantes de sua teoria – o narcisismo. Mencionado pela primeira vez em seus escritos em 1909, é apresentado como uma fase própria do desenvolvimento humano, quando se realiza a passagem do autoerotismo, do prazer centrado no próprio corpo, para o reconhecimento e a busca do amor em outros objetos – diferentes de si. Passagem importante e cheia de inquietações já que implica a saída da gratificação por aquilo que é efeito apenas da própria imagem – “Narciso só reconhece o que é espelho” – para a realização de uma das conquistas mais importantes da cultura: a possibilidade de viver, aceitar e trabalhar com a alteridade e, portanto, com as diferenças.

Freud aborda explicitamente esse conceito – efeito do confronto vivido por ele mesmo ao deparar com argumentos de Adler e Jung, que questionavam suas teorias acerca do lugar ocupado pela sexualidade na constituição da subjetividade e na compreensão das patologias. A legitimidade do conceito justificouse a partir da experiência freudiana com a clínica, naquilo que reconheceu como resistência dos pacientes em abandonar suas posições amorosas, nas manifestações da onipotência infantil e do pensamento mágico, nas doenças orgânicas e na hipocondria – quando toda a libido se volta para o corpo doente – e nos delírios de grandeza das psicoses. Em O mal-estar na civilização, de 1930, Freud diz que um dos grandes obstáculos do homem em sua busca pela felicidade, e que lhe traz maiores dificuldades, é o sofrimento resultante das relações humanas, pois elas nos colocam em confronto com aquilo que, não sendo espelho, nos solicita novos posicionamentos.

Toda criança, ao nascer, é banhada por vários olhares e desejos. Quando se contemplar no espelho, não verá o simples reflexo físico de uma imagem, mas tudo o que esses olhares depositaram no seu corpo. É um momento fulgurante de “sua majestade, o bebê!”. Júbilo para a criança e para os pais, que veem renascer das cinzas sua própria imagem idealizada e todos os seus anseios irrealizados. Instante de narcisismo primário – constitutivo e alienante. O bebê será um herói, vencerá todos os perigos; trata-se de um momento necessário, mas cheio de riscos. Se não ocorre, a imagem de si pode não se constituir, pode se fragilizar, parecendo insuficiente. Se for excessivo, torna-se aprisionante, comprometendo o futuro, a possibilidade de construção de projetos e os ideais.

Se tudo corer bem, a criança se desligará desse olhar primordial e escapará do destino fatal de Narciso – embeber-se, afogado, na tentativa de perpetuar o encontro com a imagem que as águas lhe devolviam. Os desdobramentos do narcisismo são de fundamental importância para a análise do mundo em que vivemos. A valorização da imagem e do sucesso a qualquer custo reduz a tolerância das mínimas divergências – o que Freud chamou de narcisismo das pequenas diferenças – e acirra os conflitos, seja nas pequenas discordâncias do cotidiano ou nos grandes conflitos bélicos. Se o outro não me satisfaz, se não é espelho daquilo que almejo, se tenta opor se às minhas vontades e ameaça minha autoestima, eu o aniquilo. O terreno é propício para preconceitos, fanatismos e violência.

A tragédia vivida por Narciso não nos abandona. Deixa sempre restos que nos fazem seguir pela vida tentando reencontrar o olhar mágico que nos enlevava e nos dizia tudo que éramos. Busca incessante de certezas, de entrega passiva às ilusões...
 
FONTE:http://www2.uol.com.br/vivermente/artigos/o_que_e_narcisismo_.html

domingo, 28 de agosto de 2016

O monge pop

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BENEDITINO ALEMÃO ANSELM GRÜN É A ATRAÇÃO DO 3º SIMPÓSIO DE ESPIRITUALIDADE E SAÚDE RECONCILIAÇÃO E PAZ, PROMOVIDO PELA SANTA CASA DE PORTO ALEGRE NESTA SEGUNDA-FEIRA

Dono de uma longa barba branca, que se une em uma coisa só aos igualmente compridos e alvos cabelos, Anselm Grün é uma figura pop. O sucesso do monge beneditino alemão, autor de mais de 300 livros – com 2,5 milhões de cópias vendidas somente no Brasil –, está em sua capacidade de fazer dialogar os milenares ensinamentos cristãos com os anseios espirituais do homem moderno.

A extensa obra tem temática variada: falta de tempo, necessidade do silêncio, poder da reconciliação, liderança nos negócios, liberdade e conflitos interiores. E a abordagem é sempre a mesma: parte da espiritualidade cristã, buscando apoio em ensinamentos da filosofia budista e da psicanálise de Carl Jung. Por este passeio em outras correntes, Grün é visto como um herege por setores mais conservadores da Igreja Católica, que o acusam de flertar com a autoajuda.

O alemão de 71 anos está convicto de que é preciso manter o vínculo com a contemporaneidade. Portanto, acredita que a homossexualidade não pode ser vista pela Igreja como um pecado, defende que o celibato não deveria ser obrigatório para ingresso no sacerdócio e não vê problema em falar de paixões e desejos (não experienciados) – são sentimentos que o ajudaram a se transformar em um homem melhor.

Grün comanda a área financeira da Abadia de Münterschwarzach, na Alemanha, convento onde vive desde que completou 19 anos. Já são cinco décadas de dedicação – tempo bastante para refletir sobre o caminho que seguiu e também encher-se de dúvidas. Mas ele não se arrepende. Este é mais um dos conselhos impressos em seus livros, traduzidos para mais de 30 idiomas: é preciso renovar diariamente o compromisso com as escolhas tomadas.

Na segunda-feira, o monge desembarca em Porto Alegre. A reconciliação espiritual será o tema de sua palestra no 3º Simpósio de Espiritualidade e Saúde – Reconciliação e Paz, promovido pela Santa Casa e realizado na PUCRS (saiba mais na página 25). Ele conversou por e-mail com ZH. Confira:

O senhor é autor de mais de 300 obras sobre espiritualidade, traduzidas para 30 idiomas. No Brasil, já vendeu mais de 2,5 milhões de livros. Como explica esse grande sucesso?

Sou grato pela popularidade dos meus livros. Creio que a razão seja um anseio profundo por uma espiritualidade cristã saudável. E eu simplesmente escrevo, não moralizo. Desejo transmitir aos leitores que eu acredito neles e que eu os amo.

Vivemos em tempos em que a velocidade está impregnada em tudo o que fazemos, levando-nos a uma rotina marcada pelo estresse e pelos processos automatizados. Como encontrar o equilíbrio interno e ter uma vida mais leve?

Nós precisamos encontrar o acesso ao espaço de silêncio que temos dentro de nós. Ali, a correria do mundo perde seu poder sobre nós. Podemos retirar-nos sempre para esse lugar de refúgio.

O senhor fala sobre o poder do silêncio e da meditação como um caminho para se ligar a Deus. Qual é o seu entendimento sobre Deus?

A primeira epístola de São João nos diz que Deus é amor. O amor de Deus impregna toda a criação. E o amor de Deus é também a fonte interna da qual bebemos. Mas Deus não é apenas amor, ele é também um “tu”, um interlocutor, que podemos conhecer. E quando conhecemos Deus, conhecemos nossa própria verdade. Isso nos faz bem e nos liberta.

Seus livros abordam os limites de cada um, a busca pela felicidade, nossos anseios. Quais são hoje, ao seu ver, nossas principais angústias?

O maior anseio é que a vida seja bem-sucedida e que nós nos experimentemos como seres amados e preciosos. O maior medo é o de fracassar na vida, de perder a vida e de permanecer a sós com seu desejo de ser amado.

Em um dos seus livros, o senhor traz 50 rituais para a vida. Que práticas diárias o senhor considera as mais importantes?

É importante começar o dia com um bom ritual. Um bom ritual seria o da bênção. Que deixemos a bênção fluir para todas as pessoas que encontraremos durante o dia e com as quais vivemos e trabalhamos. À noite, é importante devolver o dia a Deus através de um ritual. Muitos usam a noite para refletir sobre tudo aquilo que não correu muito bem. E assim não conseguem se desprender do dia. É preciso oferecer a Deus o dia da forma como ele foi. E confiar que Deus abençoa tudo que foi e transforma aquilo em bênção.

O senhor já disse que a tristeza é inerente ao homem. Muitos consideram a depressão o grande mal dos tempos modernos. Como o senhor difere a tristeza da depressão?

A tristeza faz parte do homem. E ela é diferente da depressão. Muitos acreditam que têm de estar o tempo todo cheios de alegria. Esta é uma visão pouco realista. Porque só podem ser felizes aqueles que se permitem também ser tristes. A depressão sempre tem um significado. É importante saber olhar para ela e conversar com ela para entender o que ela tem a dizer. Quando se fala abertamente sobre a própria depressão, ela perde o poder sobre a gente.

Qual o papel da fé no caminho da felicidade?

A fé nos liberta da compulsão por sermos sempre felizes. E a fé em Deus nos presenteia sempre com a experiência de uma felicidade não merecida.

O senhor fala que saber “aproveitar e deixar” (Gemeiem und Lassem) é um dos grandes segredos da vida.

Desfrutar de algo e abrir mão de algo andam juntos. Aqueles que não renunciam também não conseguem desfrutar. Mas existem também pessoas que se concentram tanto na ascese (penitência, renúncia do prazer) que chegam a negar a vida.

O senhor vem a Porto Alegre para palestrar em um evento sobre Espiritualidade e Saúde. Qual a relação entre a fé e a ciência?

Fé e ciência são duas perspectivas, dois modos diferentes de ver a realidade. Mas ambas tratam da mesma realidade. Esses modos diferentes não deveriam ser contraditórios. A fé precisa da razão. E a ciência deveria estar aberta para o mistério, que transcende o nosso conhecimento racional.

O tema da sua palestra será a “reconciliação”. Qual a importância desta palavra hoje?

A reconciliação é decisiva para uma vida bem-sucedida. Isso vale para a vida na família, na empresa, num país, no mundo inteiro. E a reconciliação com a nossa própria história é um requisito para que se tenha uma vida bem-sucedida.

Como o senhor vê a relação dos jovens com a fé?

Os jovens se mostram abertos ao autoconhecimento. E quando têm o desejo sincero de conhecerem a si mesmos, acabam perguntando também pelo fundamento de seu ser. E então deparam com Deus. Mas eles são céticos em relação às tentativas de fixar Deus como uma imagem excessivamente concreta.

Setores da Igreja Católica já criticaram o senhor por considerarem suas obras uma tentativa de reduzir o Evangelho a livros de autoajuda e mesclar a espiritualidade com a psicologia. O que o senhor acha disso?

Meus livros correspondem à sã tradição católica. Mas toda teologia precisa sempre dialogar com seu respectivo tempo. Eu tento aproximar as pessoas da sabedoria terapêutica de Jesus. Isso nada tem a ver com esoterismo. A tradição teológica ressalta a salvação por meio de Jesus Cristo. Mas ela diz também que nós precisamos nos abrir para a ação salvadora e curadora de Jesus.

Em seus livros, o senhor sinaliza a necessidade de cada um ser fiel à sua própria consciência, que este seria o caminho para a salvação. Isso não fere os preceitos da Igreja Católica?

A Igreja Católica ensina que a consciência é a norma suprema do ser humano, superior às prescrições da Igreja.

A busca pela espiritualidade saudável é um dos aspectos centrais de sua obra. Como avalia as atuais tendências ao fanatismo religioso?

O fanatismo religioso é sempre marcado pelo medo. Cada um de nós tem dentro de si tanto fé quanto descrença. Quando eu reprimo minha descrença, passo a manifestá-la externamente, combatendo aqueles de fé diferente. Quando acolho a minha descrença, ela enriquece minha fé.

A Igreja Católica não está livre de correntes intolerantes. Em 2008, o senhor disse à revista alemã Cafebabel que a homossexualidade não deveria ser vista como um pecado.

O papa Francisco rompeu com a postura excessivamente rígida da igreja em relação à homossexualidade e prega a misericórdia. Acato a postura do Papa. A homossexualidade é uma predisposição de determinadas pessoas. Não podemos julgá-las. A pergunta é: como a pessoa com predisposição homossexual deve lidar com isso?

O senhor também defende que padres possam casar. Quais seriam os benefícios para a Igreja?

O celibato é uma tradição, mas não é um dogma da Igreja. Creio que seria bom se ambas as formas de existência sacerdotal fossem possíveis: o celibato e o padre casado. Isso reduziria a falta de padres e resultaria em sinceridade e honestidade maiores.

O senhor mora desde os 19 anos em um convento. Houve momentos em que sentiu arrependimento pela vida que escolheu?

Houve crises. Mas nunca me arrependi de ter decidido ingressar no monastério e de ter optado pela vida monástica. Preciso renovar constantemente a decisão que tomei no passado.

Durante todo este tempo de sacerdócio, o senhor se apaixonou pelo menos duas vezes, conforme seu biógrafo, Freddy Derwahl: primeiro, por uma freira, logo que entrou no convento, depois, aos 50, por uma mulher 10 anos mais jovem. O senhor acredita que todos se apaixonam e não vê problema em falar sobre pensamentos eróticos. Mas como o senhor, na condição de monge, lida com esses desejos?

Quando me apaixonei, descobri dentro de mim a minha capacidade de amar. E a paixão me revelou novos aspectos da minha alma. Não falo de viver a paixão em uma relação amorosa, mas de incorporar a mim mesmo aquilo que me fascinou em uma mulher.

Um casamento é construído sobre um sentimento absoluto e eterno, o qual o senhor considera impossível, uma vez que as emoções humanas são mutáveis e nenhum parceiro pode satisfazer todos os nossos anseios. Esta sua visão sobre o amor é um pouco pessimista, não? Como é possível manter um relacionamento?

O amor tem sempre dois lados: ele satisfaz os nossos desejos e também nos decepciona. Essas duas experiências nos abrem para o amor de Deus, que jamais nos decepciona. O amor humano e o amor divino andam juntos. Quando sei que o amor humano me remete ao amor divino, eu consigo desfrutar e me deleitar no amor humano sem sobrecarregar a outra pessoa com expectativas exageradas.

bruna.scirea@zerohora.com.br
Reportagem por BRUNA SCIREA
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a7335312.xml&template=3898.dwt&edition=29599&section=4572

sábado, 27 de agosto de 2016

ALBERTO MANGUEL. A curiosidade inspira a nova obra de Alberto Manguel

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Escritor argentino mostra como a dúvida é um estímulo que impulsiona o conhecimento

Todos os dias, o escritor argentino Alberto Manguel rende-se a uma rotina que lhe alimenta o espírito: ler ao menos um capítulo de A Divina Comédia, poema de viés épico e teológico escrito por Dante Alighieri no século 14. “Sempre há uma nova descoberta”, conta o autor que, apesar da extrema proximidade com os clássicos, só decidiu ler integralmente a obra-prima italiana há 12 anos. E foi essa descoberta que o incentivou a escrever Uma História Natural da Curiosidade, livro em que mapeia os textos que o inspiram como leitor. E o ponto de partida são 17 questões propostas por Dante na Divina Comédia

Manguel é um autor de múltiplas vivências – nascido em Buenos Aires em 1948, viveu em Israel e no Taiti até se mudar, nos anos 1980, para Toronto, onde se tornou cidadão canadense. Aprendeu a ler por volta dos 3 anos e nunca mais parou. Quando adolescente, leu em voz alta, durante anos, para Jorge Luis Borges, que ficara cego. Viveu em um presbitério construído no século 16, que comprou para instalar sua biblioteca de 30 mil livros, em um vilarejo medieval no sul da França. E atualmente é diretor da Biblioteca Nacional da Argentina, mesmo cargo ocupado por Borges.

Em São Paulo, Manguel vai participar de um debate com Robert Darnton, na terça, 30, no Sesc Vila Mariana, evento que inicia a festa dos 30 anos da Companhia das Letras. E, no dia 31, estará na Bienal do Livro de São Paulo. Por telefone, ele conversou com o Estado

Quando decidiu que a curiosidade era tema para um livro?
A curiosidade como parte do ser humano é uma característica essencial que nos permite sobreviver para imaginar as experiências que nos constroem e nos possibilitam entender o mundo que contém nossa identidade. Não creio que seja apenas o tema desse livro, mas de toda a minha obra. Mas, depois de ler Dante, pensei em fazer uma espécie de cartografia do mundo intelectual dantesco por meio das perguntas que ele faz e que refletem nossa inquietação hoje. A lista de 17 perguntas (que poderiam ser mais) reflete nosso inconformismo e dá forma a questões milenares. 

A curiosidade implicaria uma ação transgressora?
Com certeza. Nossa sociedade está construída sobre afirmações. Nosso contexto social representa uma das regras que constroem a muralha simbólica do lugar onde podemos viver juntos sob uma certa coerência. O indivíduo, para que essa sociedade continue viva, tem de questioná-la. Se há leis, elas devem mudar ao longo do tempo. E é a curiosidade do homem que pode alterá-las. Desde sempre, desde que as muralhas das sociedades eram verdadeiras, reais, o indivíduo queria saber o que havia do lado de fora para comparar com o que dispunha dentro e que caracterizava sua forma de viver. A curiosidade permite incorporar algo que não é real graças à imaginação. 

É a vontade de saber mais que possibilita, por exemplo, a descoberta de um novo planeta como o anunciado recentemente, não?
Sempre soubemos que nosso entendimento é limitado pelos sentidos, que reduzem o alcance da nossa busca. Mas, graças à nossa imaginação, podemos ver o que não está adiante, ouvir algo no que parece ser silencioso. Há campos imensos aos quais não temos acesso, mas construímos instrumentos para estender o alcance dos nossos sentidos. E a descoberta desse planeta é obviamente uma extensão dos nossos olhos. Marshall McLuhan, quando escreveu seu famoso livro O Meio É a Mensagem, já dizia que os instrumentos são uma extensão dos homens, ou seja, o carro é uma continuação das nossas pernas.  

Em seu livro, o senhor promove uma interessante conexão entre a Antiguidade e o mundo contemporâneo, além de montar encontros originais como Kafka e Platão, ou Confúcio e o filósofo pré-colombiano Netzahualcóyotl.
Esquecemos que as definições temporais e espaciais são convenções que foram criadas para facilitar o pensamento da comunicação. No universo, não há tempo nem espaço. Essas etiquetas são categorias que nos permitem viver nesse mundo. Mas, acima delas, está a rede que comunica as distintas partes e que fazem com que Platão responda às nossas inquietações atuais ou que encontremos referências a Alice no País das Maravilhas ou a Sêneca, Dante e Kafka em nossa vida cotidiana. 

Vivemos em um mundo marcado pelas certezas, oferecidas pela comunicação e pela publicidade. Mesmo nas escolas, os alunos são educados a aceitar respostas e a não fazer perguntas. O que isso traz de prejuízo?
É um problema recorrente. No fim da Idade Média, o método de ensino, que era escolástico, afirmava que os conceitos clássicos, autoritários, eram os corretos e tinham de ser apreendidos pelo estudante para que ele descobrisse quais eram as opiniões válidas na sociedade. Só com o Humanismo é que se começou a questionar esse sistema e a se discutir que a base do conhecimento autoritário é apenas uma base sobre a qual construímos os relacionamentos interiores. Essa é a diferença entre a literatura, que apresenta perguntas, e o dogma político religioso social, que apresenta certezas. 

E o que dizer do uso de religiões, como o islamismo, para fomentar guerras. O que o senhor pensa disso?
Esses extremismos existiram sempre. Hoje, ao ouvirmos falar do extremismo islâmico, nó nos esquecemos de que as religiões católica e protestante tiveram atos de extremismos muito mais pronunciados e durante muito mais séculos. O que nos chama atenção hoje são os atos dos terroristas, mas nos esquecemos convenientemente de que a nossa própria história – sendo cristãos ou judeus – é marcada por atos extremos.  

Como é trabalhar na Biblioteca Nacional da Argentina, função já exercida por Borges?
Fui nomeado no fim do ano passado, mas não pude aceitar até junho deste ano. Trabalhei a distância. É uma tarefa difícil, mas excitante. É preciso transformar a biblioteca em um espaço funcional, que compartilhe suas riquezas. Quero fazer um acordo com a Biblioteca Nacional do Brasil. Sobre Borges, ele conferiu uma grande visibilidade à biblioteca, era um local onde gostava de estar. 

UMA HISTÓRIA NATURAL DA CURIOSIDADE
Autor: Alberto Manguel
Tradução: Paulo Geiger
Editora: Companhia das Letras 
(496 págs., R$ 74,90)

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Reportagem por:
Ubiratan Brasil,
O Estado de S. Paulo
27 Agosto 2016 
Fonte:  http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,a-curiosidade-inspira-a-nova-obra-de-alberto-manguel-que-vem-a-sp-para-o-lancamento,10000072257

Comida desperdiçada. E a pobreza crescendo

Um escândalo que não deveria existir!

Washington Novaes
Jornalista
Quando chegarão as políticas capazes 
de mudar esse panorama universal?
A desigualdade segue aumentado 
sempre mais! 

Nas últimas semanas têm sido muito frequentes na comunicação e nas cartas e artigos de leitores manifestações sobre uma foto estampada em jornais de um menino brasileiro sentado numa cadeira, com o rosto ensanguentado e as roupas rasgadas, após haver ficado debaixo das ruínas de sua casa que desabara – a própria imagem da desolação e da impotência. Nos mesmos dias, outra notícia informava (O Popular, 19/8): a milhares de quilômetros, na Colômbia, autoridades de Bogotá “disseram que a chuva torrencial que caiu na cidade na madrugada de ontem arrastou ao menos 30 moradores de rua que dormiam em duto de esgoto” – a morte nas cloacas, no mundo povoado de pobreza e de notícias tristes.
Que fazer? O Brasil precisa (O Estado de S. Paulo, 18/5) de mais US$ 7,2 bilhões ou R$ 25 bilhões extras por ano para acabar com a pobreza até 2030. O mundo precisará de US$ 10 trilhões (ou mais de U$S 600 bilhões por ano) para a mesma tarefa, em 15 anos. Mas não há recursos disponíveis, lá e cá, para prover os direitos sociais, criar emprego e renda, etc. O Brasil está em sexto lugar entre os países que mais precisam de recursos para tarefas como essas (em primeiro lugar, a Índia, com US$ 61 bilhões anuais; em segundo, a China, com US$ 37 bilhões; em terceiro, a Nigéria, com US$ 36 bilhões; depois, a Etiópia e a Indonésia).
Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), “a pobreza nos países em desenvolvimento está aumentando”, em 1950 viviam com menos de US$ 1,90 por dia cerca de 47% da população mundial, em 2012 eram 15%. “Mas o progresso é frágil: 40% dos africanos vivem na pobreza; e nos próprios países ricos a pobreza também aumentou; 30% da população mundial tem apenas 2% da renda total”. No Brasil, segundo o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), a proporção de pobres caiu de 23,4% em 2001 para 7% em 2014; 26,3 milhões de pessoas saíram da linha de pobreza: eram 40,5 milhões e baixaram para 14,2 milhões em 12 anos E para assegurar US$ 3,1 por dia seriam necessários 0,3% do produto interno bruto; para garantir renda diária de US$ 5 a todos o Brasil precisaria ampliar os gastos sociais para US$ 23,2 bilhões anuais, ou 2% do PIB nacional. [Infelizmente, com esta crise econômica, fala-se apenas em reduzir os gastos sociais!]
Estamos longe, com a taxa de desemprego em 11%, com possibilidade de aumentar até o fim de 2016. Menos de 40% da renda da camada mais pobre da população vem de trabalho remunerado, lembra Guy Ryder, diretor da OIT (O Estado de S. Paulo, 19/5). Mas no ano passado 343 mil famílias deixaram o programa Bolsa Família por haverem aumentado sua renda (MDS, 12/5); 261,3 mil reduziram o benefício, pela mesma razão; 467,1 mil não se recadastraram. A bolsa contempla 14 milhões de famílias com renda média de R$ 163,57, que significa no total R$ 2,3 bilhões mensais. Entre os beneficiados, 10 milhões de pessoas, ou 5% da população (O Estado de S. Paulo, 28/4). Apesar de nossos problemas sociais serem muito maiores que os de países “desenvolvidos”, nossos gastos sociais são menores (edivanbatista@yahoo.com.br, 21/7). Aplicamos 21,3% do PIB em 2013, por exemplo, quando a Alemanha aplicou 27,1% e a Suécia, 29,8%. [E nestes países a pobreza é bem menor! Imaginem!]
Resultado importante é o que mostra (Pnad 2014) que vem caindo desde 2003 o número de famílias da zona rural em situação de pobreza e pobreza extrema (renda mensal até R$ 77), abaixo da meta dos Objetivo do Desenvolvimento Sustentável, que é de 3% (MDS, 20/11/15). Dado preocupante, porém, é o de que a taxa de desemprego entre jovens da Grande São Paulo está em 36% (O Estado de S. Paulo, 27/6), quando o desemprego médio na área está em 16%. O desemprego total no País anda pela casa dos 11%; e quase metade desses desempregados é constituída de jovens (O Estado de S. Paulo, 27/6). A concentração da renda é evidenciada pelo fato de os 10% mais ricos da população deterem, em 2014 (O Popular, 7/5), 38% da renda tributável e 39% dos bens e direitos líquidos totais. A vulnerabilidade dos mais pobres é apontada pelo professor Ladislaw Dowbor: 19% da renda familiar é destinada ao pagamento de dívidas (terra.com.br). 

Em abril último a Assembleia-Geral da ONU decidiu criar (FAO, 4/4) o Decênio de Ação sobre a Nutrição, já que:
* 800 milhões de pessoas no mundo passam fome e
* mais de 2 bilhões sofrem com deficiência de nutrientes;
* 159 milhões de crianças com menos de 5 anos têm déficit no crescimento;
* 50 milhões estão abaixo do peso recomendável,
* enquanto na população geral 600 milhões são obesos.
Nesta mesma hora, diz o site Oxfam (21/1) que a concentração da renda continua a aumentar; 62 pessoas têm tanto capital quanto a metade mais pobre da população mundial. Mas há dados diferentes. O Departamento de Informação Pública da ONU relata que 13% da população mundial vive em extrema pobreza e 2,4 bilhões não dispõem de saneamento adequado – embora as pessoas em pobreza extrema tenham diminuído mais de 50% desde 2002 e a mortalidade materna tenha diminuído 44%; a mortalidade de crianças baixou mais de 50%.
Com tantos problemas, tanta fome, a América Latina continua desperdiçando até 348 mil toneladas por dia de alimentos (FAO, 30/2). Cerca de 36 milhões de pessoas (mais que a população do Peru) poderiam suprir suas necessidades com o que é perdido nos pontos de venda direta ao consumidor. A Argentina perde 12% do que produz. A Unicef alerta (28/6) para o risco de 60 milhões de crianças com menos de 5 anos de idade morrerem até 2030 de doenças que poderiam ser evitadas. E 167 milhões viverão na pobreza, apesar de 36% dos cereais, 20% das sementes, carnes e laticínios, 35% dos peixes, 40% a 50% dos vegetais e frutas irem para o lixo ou outros formatos desperdiçadores (Folha de S. Paulo, 20/7). Os Estados Unidos desperdiçam um terço do que plantam. O paradoxo maior talvez seja o da África, que, juntamente com a fome, tem 65% das terras férteis não cultivadas do planeta e 10% da água doce (Eco-Finanças, 22/8).
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Fonte: O Estado de S. Paulo – Espaço aberto – Sexta-feira, 26 de agosto de 2016 – Pág. A2 – Internet: clique aqui.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Žižek: Hillary e o triunfo da ideologia


Slavoj Žižek*
 
hilary ideologia zizek
Julian Assange está certo em sua cruzada contra Hillary, 
e os liberais que o criticam por atacar 
a única figura que pode nos salvar 
de Trump estão errados. 
O alvo a ser atacado e solapado 
agora é precisamente esse consenso 
democrático contra o “vilão”.

Alfred Hitchock disse certa vez que um filme é tão bom quanto seu vilão. Isso quer dizer que as atuais eleições nos EUA serão boas já que o “malvado” (Donald Trump) é quase um vilão ideal? Sim, mas num sentido muito problemático… Para a maioria liberal, as eleições de 2016 nos apresentam diante uma escolha bem clara e definida. A figura de Trump é evidentemente um excesso ridículo, uma figura vulgar que explora nossos piores preconceitos racistas e sexistas, um porco chauvinista sem um mínimo de decência. Até grandes nomes Republicanos estão o abandonando aos montes. Se Trump de fato permanecer o candidato Republicano, ficaremos com umas eleições de levantar o ânimo: a sensação será de que, apensar de nossos problemas e disputas internas, onde há uma verdadeira ameaça, temos a capacidade de todos nos unir em defesa de nossos valores democráticos básicos… como a França fez após os ataques terroristas.

No entanto, é exatamente esse confortável consenso democrático que deveria nos preocupar. Devemos dar um passo atrás e voltar o olhar para nós mesmos. Afinal, qual é mesmo a coloração dessa ampla unidade democrática? Todo mundo está lá, dos partidários de Wall Street aos apoiadores de Sanders junto com o que sobrou do movimento Occupy, das grandes corporações aos sindicatos, dos veteranos do exército aos militantes LGBT+, de ecologistas horrorizados pela negação de Trump do aquecimento global a feministas felizes com a perspectiva de uma primeira presidenta mulher nos EUA passando pelas figuras “decentes” do establishment Republicano espantadas pelas inconsistências de Trump e suas irresponsáveis propostas “demagógicas”.

Mas o que desaparece nesse conglomerado que aparenta englobar a tudo e a todos? É preciso lembrar que a raiva popular que deu origem ao fenômeno Trump também produziu Sanders. Apesar de ambos expressarem o descontentamento social e político generalizado, eles o fazem em sentidos opostos. Um através do populismo direitista e outro optando pelo grito esquerdista por justiça. E aqui está o truque: o clamor da esquerda por justiça se associa a lutas pelos direitos das mulheres, das minorias, da população LGBT+, por multiculturalismo e contra o racismo, etc. O objetivo estratégico do consenso de Clinton é claramente o de buscar dissociar todas essas pautas do horizonte esquerdista de justiça. É por isso que o emblema vivo desse consenso é Tim Cook, o CEO da Apple que orgulhosamente assinou a carta pro-LGBT e que agora pode facilmente ignorar as centenas de milhares de trabalhadores da Foxconn sendo esfolados em condições análogas à da escravidão na linha de montagem da Apple na China – seu grande gesto de solidariedade para com os “não-privilegiados” se limitou à exigência da abolição à segregação de gênero… Como geralmente costuma acontecer, as grandes empresas se colocam em profundo alinhamento com a teoria politicamente correta.

Essa mesma postura foi levada ao extremo com Madeleine Albright, uma grade apoiadora “feminista” de Clinton. No programa 60 Minutes do canal CBS (12/5/1996, assista aqui), a jornalista a questiona sobre a Guerra no Iraque: “Ouvimos que meio milhão de crianças morreu. Quer dizer, isso é maior do que o número de crianças que morreu em Hiroshima. E, enfim, será que o custo de uma guerra como essa compensa?.” Albright responde prontamente: “Acho que é uma escolha muito difícil, mas o custo – nós consideramos que vale a pena arcar com ele.” Ignoremos as inúmeras questões que essa resposta levanta (incluindo o interessante deslocamento do “eu” para o “nós”: eu considero uma questão difícil, mas nós avaliamos que compensa), e foquemos apenas no seguinte aspecto: imagine só o descalabro que não seria se o mesmo comentário saísse da boca de alguém como Putin, ou o Presidente Chinês Xi, ou o Presidente do Irã! Será que eles não seriam imediatamente bombardeados por todas as nossas manchetes os condenando como monstros frios, bárbaros e sem pudor? Durante a campanha para Hillary, Albright ainda disse: “Há um lugar especial no inferno para mulheres que não ajudam umas às outras!” (Leia-se: que vão votar em Sanders e não em Clinton.) Talvez devamos corrigir essa afirmação: há um lugar especial no inferno para mulheres (e homens) que pensam que meio milhão de crianças mortas é um preço razoável a se pagar por uma intervenção militar que arruína um país, e que ao mesmo tempo calorosamente apoiam os direitos das mulheres e das minorias em casa…

Trump não é a água suja que devemos jogar for a para preservar o bebê saudável da democracia estadunidense. Ele é o próprio bebê sujo que deve ser despejado para obnubilar a verdadeira água suja das relações sociais que sustentam o consenso Hillary. A mensagem que e consenso passa à esquerda é o seguinte: “você pode ficar com o que quiser, nós só queremos o essencial, o livre funcionamento do capitalismo global”. O “Sim, nós podemos!” do Presidente Obama adquire agora um novo significado: “sim, nós podemos ceder a todas as suas demandas culturais… contanto que a economia global de mercado não seja comprometida – então não há motivo algum para medidas econômicas radicais”. Ou, como Todd McGowan colocou (em uma comunicação privada): “O consenso das ‘pessoas que pensam direito’ em oposição a Trump é assustador. É como se seu excesso autorizasse o verdadeiro consenso global capitalista a emergir e a se autocongratular a respeito de seus valores de abertura.”

É por isso que Julian Assange está certo em sua cruzada contra Hillary, e os liberais que o criticam por atacar a única figura que pode nos salvar de Trump estão errados: o alvo a ser atacado e solapado agora é precisamente esse consenso liberal-democrático forjado de cima para baixo para combater o vilão ideal.”

E o pobre Bernie Sanders? Infelizmente, Trump acertou em cheio quando comparou seu apoio a Hillary com um integrante do movimento Occupy apoiando os Lehman Brothers. Ele deveria ter simplesmente se retirado e ter permanecido na dignidade do silêncio para que sua ausência pesasse fortemente sobre as celebrações de Hillary, nos lembrando do que ficou de fora nessa festa de consenso e, dessa forma, preservando o espaço para alternativas futuras mais radicais.
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*Nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidas, Primeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011) e o mais recente, Vivendo no fim dos tempos (2012). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.
* Texto enviado pelo autor diretamente ao Blog da Boitempo. A tradução é de Artur Renzo.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

'Não me considero culpada': o polêmico testemunho da secretária do braço direito de Hitler

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"Não quebro o silêncio para limpar minha consciência", diz Brunhilde Pomsel, única testemunha viva do que ocorria no Ministério para Ilustração Pública e Propaganda de Adolf Hitler durante os anos do nazismo (1933-1945), o capítulo mais obscuro da história da Alemanha.

Ela trabalhou na pasta por três anos, sob o comando de Joseph Goebbels, responsável pela propaganda nazista e braço direito do Führer.

A reportagem foi publicada por BBC Brasil, 24-08-2016.

A ex-secretária é figura central do documentário Ein deutsches Leben ("Uma vida alemã", em tradução livre), que estreou em junho no Festival de Cinema de Munique e exibido também no Filmfestival de Jerusalém e no Festival de Cinema Judeu de San Francisco.

"Conhecemos a senhora Pomsel por coincidência, enquanto pesquisávamos outra história", contaram Christian Krönes e Florian Weigensamer, dois dos quatro diretores do filme, ao canal alemão Deutsche Welle.

"Não era uma nazista ávida. Mas também não se importou (com o que o regime nazista fazia) e olhou para o outro lado. Nisso recai sua culpa", disse Weigensamer ao jornal americano The New York Times.

Mas o documentário não se concentra na responsabilidade particular de Pomsel.

Segundo os diretores, "em um momento em que o populismo de direita está no auge na Europa", eles querem que o filme seja uma lembrança da "capacidade da complacência e da negação do ser humano".

Uma capacidade que também fica evidente em uma entrevista dada por Pomsel ao jornal britânico The Guardian.

"Ver o filme é importante para mim, porque posso ver no espelho tudo o que fiz de ruim", disse a ex-secretária. "Ainda que isso não tenha sido mais que trabalhar no escritório de Goebbels."

O trabalho

Suas atribuições, como ela mesma conta, incluíam desde registrar as estatísticas de soldados nazistas mortos a exagerar o número de abusos sofridos por alemãs nas mãos de soldados do Exército Vermelho soviético.

Criada de acordo com os preceitos do dever prussiano, ela aprendeu a ser secretária com um advogado judeu e trabalhou também em uma emissora de rádio antes de chegar, em 1942, ao Ministério de Propaganda do governo nazista.

Para isso, ainda que diga que era "apolítica", teve de se filiar ao Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães - o partido nazista. "Por que não? Todo mundo fazia isso", afirmou no documentário.

Quando trabalhava para Goebbels, observou de perto o círculo de poder que rodeava Hitler. Ela descreve o ministro da Propaganda como "um cavalheiro, elegante e nobre", mas também um "ator" que, quando alguém tirava "sua máscara de homem culto e educado, ficava louco".

"Ficávamos sabendo quando chegava ao escritório, mas não voltávamos a vê-lo até a hora em que ia embora", relatou.

Ela diz que não sabia a que se dedicava exatamente o braço direito do Führer. Mas admite que tinha conhecimento da existência dos campos de concentração, apesar de alegar desconhecer na época sua função real.

Segundo ela, acreditava-se então que "não se queria que as pessoas fossem diretamente para a prisão, então, iam para os campos para serem reeducados".

"Ninguém poderia imaginar algo assim", disse, sobre o objetivo real de exterminar os judeus da Alemanha.

Pomsel assegura que as pessoas que trabalhavam para o regime nazista tinham certeza que os judeus "desaparecidos" haviam sido enviados para as aldeias dos Sudetos, nome da cadeia de montanhas na fronteira entre a República Tcheca, a Polônia e a Alemanha.

A versão oficial dava conta de que o objetivo seria repovoar aqueles territórios montanhosos da Europa oriental, naquele momento ocupados pelos nazistas. "Tudo era secreto, e, por isso, acreditamos. Era totalmente crível", disse ela.

Pomsel insiste que nem sequer sabia do ocorrido durante a "Noite dos Cristais", uma série de linchamentos e ataques contra estabelecimentos judeus ocorridos na noite de 9 para 10 de novembro de 1938.

Ignorância

Segundo ela, essa ignorância do estado real das coisas era generalizada na Alemanha nas décadas de 1930 a 1940. "Todo o país parecia estar sob a influência de um feitiço", afirmou.

Por isso, para a ex-secretária, as pessoas que dizem ter se rebelado contra o regime "podem até acreditar sinceramente nisso", mas ela acha que "a maioria não o teria feito".

Pomsel reconheceu no documentário que seu passado pesa sobre ela de certa forma. "Quando uma pessoa viveu uma época (...) e, no final, só pensou em si mesma, ela tem a consciência um pouco pesada", disse.

Mas esclareceu não se sentir culpada nem responsável pelas milhões de mortes causadas pelo regime.
Terminada a Segunda Guerra Mundial, Pomsel passou cinco anos em uma prisão soviética. "Fui tratada muito mal, e não tinha feito nada", afirmou.

"Não me considero culpada, a não ser que se culpasse todos os alemães por tornar possível que aquele governo chegasse ao poder", declarou em sua mensagem final.

"Não há justiça, não há Deus. Mas está claro que o diabo existe", concluiu.
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Fonte:  http://ihu.unisinos.br/559305-nao-me-considero-culpada-o-polemico-testemunho-da-secretaria-do-braco-direito-de-hitler

O futuro do livro pode ser uma questão de dicionário

Roberto Dias*
 SAO PAULO, SP, 19.03.2014: Leitura a jato. Foto produzida de livros abertos e um celular, vendo os livros através da tela. A Ideia é falar de apps que prometem leitura rápida e resumem clássicos. (Foto: Daniel Guimarães/Folhapress, TEC) ***EXCLUSIVO FOLHA***


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Venda de ebooks dá sinais de estagnação, ao passo que cresce o uso de smartphone. 

SÃO PAULO - Começa nesta semana a 24ª Bienal do Livro de São Paulo, feira dedicada àquele que encapsulou a transmissão do conhecimento num "objeto perfeito": grande resistência, alta resolução, fácil de carregar, "bateria" inexaurível. 

A despeito disso, os números do setor que o produz não são animadores. Estudo da Fipe mostra que a indústria de livros colhe desempenho inferior ao do PIB brasileiro. Há queda de preço médio e volume. 

Pior, não é exclusividade daqui —nos EUA também se registra retração. Pior ainda, o que pintava como solução não se mostrou tão promissor. A venda de ebooks dá sinais de estagnação nos EUA e na Europa; no Brasil tem dificuldade em decolar. Um dia vistos como a pista de início desse novo voo, os tablets vão sendo engolidos pelos smartphones. 

Se não for pelos livros atuais, como se dará a transmissão massificada do conhecimento? É impossível responder a isso por ora, mas parece inegável que formatos em vídeo vão ficando cada vez mais populares. 

Exemplo são as Ted Talks, que resgatam a transmissão oral de ideias num pacote mais, digamos, industrializado. Os títulos das 20 apresentações de maior audiência bem poderiam figurar numa estante de livraria. 

Nas plataformas de ensino à distância, vídeos que misturam aula e gráficos fazem as vezes dos ebooks como fonte didática de consulta. A realidade virtual pode crescer muito no ensino profissional. 

A única coisa que continua inelástica é o tempo das pessoas. Se elas optarem por dedicar esse bem escasso a um meio que não o livro tradicional, o destino dele estará dado. 

Essa substituição não seria inconsequente. Existe muito debate sobre a absorção do conhecimento num meio eletrônico, que nem sempre leva a imersão e sequência linear. 

Entre os vários sentidos que atribui a "livro", o Houaiss admite que a palavra signifique, figurativamente, "fonte de conhecimento, de instrução". Para quem teve o papiro como berço e conheceu sucessivas transformações tecnológicas, transmutar-se em vídeo pode ser, quem sabe, uma questão de dicionário. 
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 *Jornalista é secretário de Redação da área de Produção da Folha, onde trabalha desde 1998. Escreve às quintas.
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/robertodias/2016/08/1806647-o-futuro-do-livro-pode-ser-uma-questao-de-dicionario.shtml

Da Olimpíada às eleições: e agora?

Juremir Machado da Silva* 
 Resultado de imagem para Olimpiadas e eleições
 
Mordendo cadarço

      Os Jogos Olímpicos, por óbvio, não mudarão o Brasil. A colheita de medalhas não resultou numa safra espetacular, mas foi melhor do que as anteriores. Quem ganhou e quem perdeu? Perderam os vira-latas nacionais que passam o tempo louvando as glórias estrangeiras e esculhambando o gigante tido por patético e visto como eternamente adormecido. Depois do ouro do futebol masculino contra a supostamente imbatível Alemanha, o vira-latas anda mordendo cadarço de sapato alheio de tanta raiva. Ainda mais que essa também foi a Olimpíada da chinelagem americana, a dos nadadores dos Estados Unidos que inventaram um assalto, com imaginação rasteira de Hollywood, e tiveram de desculpar-se, lamber o chão, pagar multa e mico.

Ganharam aqueles que acreditam nas superações do esporte e em nossas poucas, mas adoráveis, qualidades de improvisação. Há muito que eu só torço pela seleção brasileira. Meu critério é transparente. O que faz um grande clube de futebol? O dinheiro. Quem tem mais dinheiro, compra os melhores jogadores e faz o grande time. É o Barcelona. É o Bayern de Munique. Seleção é diferente. O que faz a melhor seleção? O local de nascimento.

O mais rico não pode comprar os melhores para formar a melhor equipe. A Espanha não pode comprar Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar para o seu ataque. Não pode comprar nem a naturalização deles para formar o trio ofensivo dos sonhos. Ao menos, por enquanto. O capital tende a se apropriar de tudo, até do nascimento.

Quando o dinheiro fala mais alto numa seleção, com a escolha de jogador ruim para valorizá-lo, a derrota é muito provável. Não funciona. Um país de três milhões de habitantes pode ter uma grande safra de craques e vencer potências com populações muito maiores. Futebol continua sendo a articulação do coletivo com individualidades excepcionais. Um coletivo sem craques é um deserto sem encantamento. Um craque sem coletivo é um Dom Quixote lutando contra zagueiros com pés de moinhos de vento. O Brasil que venceu a Alemanha é, antes de tudo, o de Neymar, com auxílio de Luan, Gabigol, Gabriel Jesus e outros guris bons de bola e de drible. Futebol sem drible é sexo sem penetração. Tem que goste. Mas para a maioria sempre falta algo, esse algo que faz a diferença.

O vira-latas está babando no cadarço do próprio sapato de tanto ódio: os Jogos Olímpicos deram certo. Não houve atentado. A Vila Olímpica não desabou. Estrangeiros não foram massacrados por hordas de assaltantes. A festa correu solta. Teve mais diversão do que conflito. Como disse alguém, foi um desperdício que deu certo. Não era para ter sido feito, na medida em que falta dinheiro para escola e hospital, mas já que fizeram, deu certo. A imprensa internacional, inicialmente catastrofista, rendeu-se. As festas de abertura e de encerramento foram maravilhosas.

O vira-latas pensa em se matar.

O fiasco ficou por conta de Michel Temer, que tomou vaia na abertura, embora tenha tentado ficar escondido a maior parte do tempo, e fugiu do encerramento. O vira-latas uiva para a lua de tanta amargura. Sabe que tudo isso começou com Lula. Em dois anos, o Brasil organizou dois megaeventos, Copa do Mundo e Olimpíada, sem qualquer tragédia. Salvo, certamente, a das propinas e superfaturamentos. O vira-latas não sabe onde meter o focinho.
Resta balançar o rabo. 

E agora, candidatos?

      Foi-se a Olimpíada. O intervalo entre nossas crises acabou. Estamos de volta à realidade. Bem-vindos ao cotidiano. Vivemos grandes emoções delegadas. As celebridades existem para nos representar na utopia. Muita gente se arrepiou ao ver Neymar escalar o muro para abraçar Bruna Marquezine no meio do público depois da conquista da medalha de ouro do futebol. Eram príncipe e princesa se encontrando depois de muitos obstáculos. As melhores histórias quase sempre obedecem a três passos: encontro, desencontro e reencontro. Muitas vezes o reencontro se dá na velhice para um balanço tardio.

O nosso jogo agora é com o impeachment da presidente Dilma. O encontro foi nas eleições. O Brasil viveu um clima de romance proibido. A esquerda chegou ao poder, depois da ditadura, e adotou políticas de inclusão social. A direita anunciava o caos. O país viveu alguns anos de superação. Lula foi tão bem que elegeu a sua sucessora, uma mulher que jamais havia disputado uma eleição. Depois, veio o desencontro. A corrupção apareceu como um vírus minando a felicidade provisória. A aliança com o PMDB virou um caso público de traição. Algo que pode ser condensado nesta afirmação de um amigo:

­ – Numa situação extrema, eu votaria no DEM, no PP, no indigesto Jair Bolsonaro, no Donald Trump, na Marine Le Pen, mas jamais no PMDB.

O reencontro com o impeachment será no tribunal da história. Pode-se imaginar um encontro entre o PT e o PMDB dentro de 50 anos. Velhinhos, os dois revisam o passado e confessam os seus crimes.
– Eu não tinha escolha – diz o PMDB.

– Você escolheu o poder pelo atalho – ressente-se o PT.

– Não se escolhe deixar o poder passar encilhado.

– Não se apeia o aliado como se fosse um inimigo.

– Você fez por merecer, petralha.

– Quem falando, metralha.

– Chega de acusações.

– É, passado é passado. Que tal uma nova aliança?

Será certamente uma conversa sem futuro. Servirá para afagar a nostalgia e simular um acerto de contas impagáveis. Em 1964, a imprensa apoiou o golpe. O STF avalizou a tomada de poder. Um jurista jurou que a Constituição fora violada para ser preservada. Passados 49 anos, o jornal O Globo se arrependeu. A Folha de S. Paulo ainda acha que foi só uma “ditabranda”. No presente, o buraco é mais embaixo. Depois da queda anunciada de Dilma Rousseff, restarão as eleições municipais e as estratégias federais para 2018. Há uma pergunta parada no ar poluído: quem tem um projeto para a cidade?

Um projeto que não dependa de qualquer pretexto para ser executado. Os megaeventos disponíveis já foram realizados. Esqueçam a Fórmula 1. É coisa de retardatário. Saiu da linha de frente. Um projeto que melhore a cidade em quatro anos. Um plano que não seja igual ao de todo mundo. Uma ideia que valha ouro. Um programa que não seja apenas para iludir a audiência. Uma meta que leve e mantenha o candidato no alto do pódio.

Agora, candidatos, é tudo com vocês.

Apresentem algo que preste, por favor!
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* Jornalista. Sociólogo. Escritor.
Fonte: 
Imagem da Internet http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/2016/08/8973/da-olimpiada-as-eleicoes-e-agora/