sexta-feira, 23 de junho de 2017

Boff: Sobre desejo, competição e violência

Leonardo Boff*
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René Girard
 
O que o filósofo René Girard nos diz sobre as bases psicanalíticas da rivalidade-exclusão e os caminhos para dar outro sentido ao desejo

Vivemos no nível nacional e mundial situações de violência que desafiam nosso entendimento. Não apenas de seres humanos contra outros seres humanos, especialmente no Norte da África, no Sudão, no Oriente Médio e entre nós mas também contra a natureza e a Mãe Terra. O Papa Francisco em sua encíclica ecológica Sobre o Cuidado da Casa Comum escreveu acertadamente:”Nunca maltratamos e ferimos a nossa Casa Comum como nos últimos dois séculos”(n.53). Não sem razão que está se impondo a ideia de que inauguramos uma nova era geológica, o antropoceno segundo o qual o grande meteoro rasante ameaçador da vida no planeta é o próprio ser humano. Ele se fez o Satã da Terra quando foi chamado a ser o anjo bom e cuidador do Jardim do Éden.

A existência da violência, não raro sob forma de aterradora crueldade, representa um desafio para o entendimento. Teólogos, filósofos, cientistas e sábios não encontraram até hoje uma resposta convincente.

Quero apresentar, sumariamente, a proposta de notável pensador francês que viveu muitos anos nos EUA e que faleceu em 2015: René Girard (1923-2015). Apreciava meus textos e a Teologia da Libertação em geral a ponto de ele mesmo ter organizado em Piracicaba-SP um encontro (25-29 de junho de 1990) com vários teólogos e teólogas, pois via nos propósitos deste tipo de teologia a possibilidade da superação da lógica da violência.

De sua vasta obra destaco duas principais: “O sagrado e a violência” (Rio 1990) e “Coisas escondidas desde o princípio do mundo”(Rio 2005). Qual é a singularidade de Girard? Ele parte da tradição filosófico-psicanalítica que afirma ser o desejo uma das forças estruturantes do ser humano. Somos seres de desejo. Este não conhece limites e deseja a totalidade dos objetos. Por ser o desejo indeterminado, o ser humano não sabe como desejar. Aprende a desejar, imitando o desejo dos outros (“desejo mimético” na linguagem de Girard).

Isso se vê claro na criança. Não obstante os muitos brinquedos que possui, o que mais ela quer, é o brinquedo da outra criança. E aí surge a rivalidade entre elas. Uma quer o brinquedo só para si, excluindo a outra. Se outras crianças entrarem nesse mimetismo, origina-se um conflito de todos contra todos.

Esse mecanismo, afirma Girard, é paradigmático para toda a sociedade. Supera-se a situação de rivalidade-exclusão, quando todos se unem contra um, fazendo-o bode expiatório. Ele é feito culpado de querer só para si o objeto. Ao se unirem contra ele, esquecem a violência entre eles e convivem com um mínimo de paz.

Com efeito, as sociedades vivem criando bodes expiatórios. Culpados são sempre os outros: o Estado, o PT, os políticos, a polícia, os corruptos, os pobres e por ai vai. Importa não esquecer que o bode expiatório apenas oculta a violência social, pois todos continuam rivalizando entre si. Por isso, a sociedade goza de um equilíbrio frágil. De tempos em tempos, com ou sem sem bode expiatório explícito, a violência se manifesta especialmente naqueles que se sentem prejudicados e buscam compensações.

Bem o expressou Rubem Fonseca em seu livro “O Cobrador”. Um jovem de classe média empobrecida, por força das circunstâncias, pratica atos ilícitos. Sente-se roubado pela sociedade dominante e confessa: “Estão me devendo colégio…sanduíche de mortadela no botequim, sorvete, bola de futebol…estão me devendo uma garota de vinte anos, cheia de dentes e perfume. Sempre tive uma missão e não sabia. Agora sei… sei que se todo fodido fiezesse como eu o mundo seria melhor e mais justo”.

Aqui busca-se uma solução individual para um problema social. Na medida em que permanece individual não causa grande problema. Pelo contrário, os causadores principais da violência estrutural  são as classes dominantes que acumulam para si à custa do empobrecimento dos outros. Quanto mais duramente se aplicam as leis contra os empobrecidos mais seguras se sentem. Destarte, conseguem ocultar o fato de serem  elas as principais causadoras de uma situação permanente de violência que o empobrecimento implica.

Mais ainda, vivemos num tipo de sociedade cujo eixo estruturador é a magnificação do consumo individualista. A publicidade enfatiza que alguém é mais alguém quando consome um produto exclusivo que os outros não têm. Suscita-se um desejo mimético de se apossar do bem do outro.  Esta lógica perpetua a violência.

Mas o desejo não é só concorrencial, diz Girard. Ele pode ser cooperativo. Todos se unem para compartilhar do mesmo objeto. De concorrentes se fazem aliados. Tal propósito gera uma sociedade mais cooperativa que competitiva e uma democracia participativa. Aqui Girard via o sentido político da Teologia da Libertação porque propõe uma educação que não imita o oppressor, mas se faz livre e ensina a não criar bodes expiatórios mas a assumir a tarefa de construir uma sociedade mais igualitária e  inclusiva. Então sim haverá mais paz que violência.
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* Leonardo Boff é teólogo, filósofo e autor de “A violência da sociedade capitalista e do mercado mundial” e articulista do JB on line
Fonte: https://leonardoboff.wordpress.com/
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Jessé Souza: “A classe média é feita de imbecil pela elite”

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"O principal fator de coesão da elite é o ódio aos pobres. Os políticos, por sua vez, viraram símbolo da rapinagem. Eles roubam mesmo, ao menos em grande parte, mas, em analogia com o narcotráfico, não passam de “aviõezinhos”. Os donos da boca de fumo são o sistema financeiro e os oligopólios."
 
Inocentes úteis? Ou só úteis?

Em agosto, o sociólogo Jessé Souza lança novo livro, A Miséria da Elite – da Escravidão à Lava Jato. De certa forma, a obra compõe uma trilogia, ao lado de A Tolice da Inteligência Brasileira, de 2015, e de A Ralé Brasileira, de 2009, um esforço de repensar a formação do País.

Neste novo estudo, o ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada aprofunda sua crítica à tese do patrimonialismo como origem de nossas mazelas e localiza na escravidão os genes de uma sociedade “sem culpa e remorso, que humilha e mata os pobres”. A mídia, a Justiça e a intelectualidade, de maneira quase unânime, afirma Souza na entrevista a seguir, estão a serviço dos donos do poder e se irmanam no objetivo de manter o povo em um estado permanente de letargia. A classe média, acrescenta, não percebe como é usada. “É feita de imbecil” pela elite.

Eis a entrevista.

O impeachment de Dilma Rousseff, afirma o senhor, foi mais uma prova do pacto antipopular histórico que vigora no Brasil. Pode explicar?
A construção desse pacto se dá logo a partir da libertação dos escravos, em 1888. A uma ínfima elite econômica se une uma classe, que podemos chamar de média, detentora do conhecimento tido como legítimo e prestigioso. Ela também compõe a casta de privilegiados. São juízes, jornalistas, professores universitários. O capital econômico e o cultural serão as forças de reprodução do sistema no Brasil.

Em outra ponta, temos uma classe trabalhadora precarizada, próxima dos herdeiros da escravidão, secularmente abandonados. Eles se reproduzem aos trancos e barrancos, formam uma espécie de família desestruturada, sem acesso à educação formal. É majoritariamente negra, mas não só. Aos negros libertos juntaram-se, mais tarde, os migrantes nordestinos. Essa classe desprotegida herda o ódio e o desprezo antes destinados aos escravos. E pode ser identificada pela carência de acesso a serviços e direitos. Sua função na sociedade é vender a energia muscular, como animais. É ao mesmo tempo explorada e odiada.

A sociedade brasileira foi forjada à sombra da escravidão, é isso?
Exatamente. Muito se fala sobre a escravidão e pouco se reflete a respeito. A escravidão é tratada como um “nome” e não como um “conceito científico” que cria relações sociais muito específicas. Atribuiu-se muitas de nossas características à dita herança portuguesa, mas não havia escravidão em Portugal. Somos, nós brasileiros, filhos de um ambiente escravocrata, que cria um tipo de família específico, uma Justiça específica, uma economia específica. Aqui valia tomar a terra dos outros à força, para acumular capital, como acontece até hoje, e humilhar e condenar os mais frágeis ao abandono e à humilhação cotidiana.

 "O ódio aos pobres é tão intenso que qualquer melhora 
na miséria gera reação violenta, 
apoiada pela mídia."

Um modelo que se perpetua, anota o senhor no novo livro.
Sim. Como essa herança nunca foi refletida e criticada, continua sob outras máscaras. O ódio aos pobres é tão intenso que qualquer melhora na miséria gera reação violenta, apoiada pela mídia. E o tipo de rapina econômica de curto prazo que também reflete o mesmo padrão do escravismo.

Como isso influencia a interpretação do Brasil?
A recusa em confrontar o passado escravista gera uma incompreensão sobre o Brasil moderno. Incluo no problema de interpretação da realidade a tese do patrimonialismo, que tanto a direita quanto a esquerda, colonizada intelectualmente pela direita, adoram. O conceito de patrimonialismo serve para encobrir os interesses organizados no chamado mercado. Estigmatiza a política e o Estado, os “corruptos”, e estimula em contraponto a ideia de que o mercado é um poço de virtudes.
"O ódio aos pobres é intenso"
 
O moralismo seletivo de certos setores não exprime mais um ódio de classe do que a aversão à corrupção?
Sim. Uma parte privilegiada da sociedade passou a se sentir ameaçada pela pequena ascensão econômica desses grupos historicamente abandonados. Esse sentimento se expressava na irritação com a presença de pobres em shopping centers e nos aeroportos, que, segundo essa elite, tinham se tornado rodoviárias.

A irritação aumentou quando os pobres passaram a frequentar as universidades. Por quê? A partir desse momento, investiu-se contra uma das bases do poder de uma das alas que compõem o pacto antipopular, o acesso privilegiado, quase exclusivo, ao conhecimento formal considerado legítimo. Esse incômodo, até pouco tempo atrás, só podia ser compartilhado em uma roda de amigos. Não era de bom tom criticar a melhora de vida dos mais pobres.

 "São os grandes oligopólios e o sistema financeiro 
que mandam no País e que promovem 
a verdadeira corrupção, quantitativamente 
muito maior do que essa merreca exposta pela Lava Jato."

Como o moralismo entra em cena?
O moralismo seletivo tem servido para atingir os principais agentes dessa pequena ascensão social, Lula e o PT. São o alvo da ira em um sistema político montado para ser corrompido, não por indivíduos, mas pelo mercado. São os grandes oligopólios e o sistema financeiro que mandam no País e que promovem a verdadeira corrupção, quantitativamente muito maior do que essa merreca exposta pela Lava Jato. O procurador-geral, Rodrigo Janot, comemora a devolução de 1 bilhão de reais aos cofres públicos com a operação. Só em juros e isenções fiscais o Brasil perde mil vezes mais.

Esse pacto antipopular pode ser rompido? O fato de os antigos representantes políticos dessa elite terem se tornado alvo da Lava Jato não fragiliza essa relação, ao menos neste momento?
Sem um pensamento articulado e novo, não. A única saída seria explicitar o papel da elite, que prospera no saque, na rapina. A classe média é feita de imbecil. Existe uma elite que a explora. Basta se pensar no custo da saúde pública. Por que é tão cara? Porque o sistema financeiro se apropriou dela. O custo da escola privada, da alimentação. A classe média está com a corda no pescoço, pois sustenta uma ínfima minoria de privilegiados, que enforca todo o resto da sociedade. A base da corrupção é uma elite econômica que compra a mídia, a Justiça, a política, e mantém o povo em um estado permanente de imbecilidade.

Qual a diferença entre a escravidão no Brasil e nos Estados Unidos?
Não há tanta diferença. Nos Estados Unidos, a parte não escravocrata dominou a porção escravocrata. No Brasil, isso jamais aconteceu. Ou seja, aqui é ainda pior. Os Estados Unidos não são, porém, exemplares. Por conta da escravidão, são extremamente desiguais e violentos. Em países de passado escravocrata, não se vê a prática da cidadania. Um pensador importante, Norbert Elias, explica a civilização europeia a partir da ruptura com a escravidão. É simples. Sem que se considere o outro humano, não se carrega culpa ou remorso. No Brasil atual prospera uma sociedade sem culpa e sem remorso, que humilha e mata os pobres.

Algum dia a sociedade brasileira terá consciência das profundas desigualdades e suas consequências?
Acho difícil. Com a mídia que temos, desregulada e a serviço do dinheiro, e a falta de um padrão de comparação para quem recebe as notícias, fica muito complicado. É ridícula a nossa televisão. Aqui você tem programas de debates com convidados que falam a mesma coisa. Isso não existe em nenhum país minimamente civilizado. É difícil criar um processo de aprendizado.

O senhor acredita em eleições em 2018?
Com a nossa elite, a nossa mídia, a nossa Justiça, tudo é possível. O principal fator de coesão da elite é o ódio aos pobres. Os políticos, por sua vez, viraram símbolo da rapinagem. Eles roubam mesmo, ao menos em grande parte, mas, em analogia com o narcotráfico, não passam de “aviõezinhos”. Os donos da boca de fumo são o sistema financeiro e os oligopólios. São estes que assaltam o País em grandes proporções. E somos cegos em relação a esse aspecto. A privatização do Estado é montada por esses grandes grupos. Não conseguimos perceber a atuação do chamado mercado. Fomos imbecilizados por essa mídia, que é paga pelos agentes desse mercado. Somos induzidos a acreditar que o poder público só se contrapõe aos indivíduos e não a esses interesses corporativos organizados. O poder real consegue ficar invisível no País.

O quanto as manifestações de junho de 2013, iniciadas com os protestos contra o reajuste das tarifas de ônibus em São Paulo, criaram o ambiente para a atual crise política?
Desde o início aquelas manifestações me pareceram suspeitas. Quem estava nas ruas não era o povo, era gente que sistematicamente votava contra o projeto do PT, contra a inclusão social. Comandada pela Rede Globo, a mídia logrou construir uma espécie de soberania virtual. Não existe alternativa à soberania popular. Só ela serve como base de qualquer poder legítimo. Essa mídia venal, que nunca foi emancipadora, montou um teatro, uma farsa de proporções gigantescas, em torno dessa soberania virtual.

Um resumo das relações sociais no Brasil

Mas aquelas manifestações foram iniciadas por um grupo supostamente ligado a ideias progressistas...
JS: Só no início. A mídia, especialmente a Rede Globo, se sentiu ameaçada no começo daqueles protestos. E qual foi a reação? Os meios de comunicação chamaram o seu povo para as ruas. Assistimos ao retorno da família, propriedade e tradição. Os mesmos “valores” que justificaram as passeatas a favor do golpe nos anos 60, empunhados pelos mesmos grupos que antes hostilizavam Getúlio Vargas. Esse pacto antipopular sempre buscou tornar suspeito qualquer representante das classes populares que pudesse ser levado pelo voto ao comando do Estado. Não por acaso, todos os líderes populares que chegaram ao poder foram destituídos por meio de golpes.
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 A entrevista é de Sergio Lirio, publicada por CartaCapital, 23-02-2017.
Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/568967-a-classe-media-e-feita-de-imbecil-pela-elite-entrevista-com-jesse-souza
Imagem da Internet

A linguagem secreta da moda, símbolo de fragilidade

 http://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/2017/06/23_06_moda_tatuagens_foto_por_unsplash_pixabay.jpg

As modas têm algo estúpido e devastador. Se você perguntar a um jovem porque usa seu cabelo raspado no lado e espetado sobre a cabeça como uma cestinha, ele vai dizer que todos usam assim. Mas você sabia que essa moda da raspagem lateral quer expressar uma raiva militaresca e foi lançada por Kim Jong, o pequeno gordo cruel ditador da Coreia do Norte? A resposta é um 'dar de ombros' de 'tanto faz como fez'.

Também causam assombro aqueles que compram, por um alto preço, calças jeans cheias de rasgos que imitam uma falsa pobreza que agrada principalmente aqueles que não são pobres. E o que dizer da moda de sapatos de bico fino, (por nossa sorte, já passada) que causa deformações aos pés? O mito do pé pequeno nasceu na China, do desejo de mostrar que uma menina nobre e rica não precisava caminhar. Andar a pé era coisa de camponesa, por isso deformavam seus pés para torná-los inutilizáveis. Mesmo os sapatos de ponta fina e saltos altos de hoje são prejudiciais ao pé de uma mulher que quer caminhar, correr, subir e descer escadas.

Mas se a moda exige...

E o que dizer sobre a barba comprida, muitas vezes grisalha, que os adultos, especialmente os intelectuais, carregam com desenvoltura? Foram os fanáticos religiosos que começaram com isso. Para eles, a barba é um símbolo de austeridade e rigor moral. O paradoxo é que, mesmo aqueles que se declaram laicos e combatem os fanatismos, deixam crescer a barba.

É a moda, não há nada a fazer, cara amiga.

Quem é que sabe que as tatuagem nasceram nas prisões, como uma linguagem da pele aprisionada? Foram os analfabetos, os pobres escravos que não sabiam ler nem escrever que começaram a falar com as imagens de seu corpo. A tatuagem mais repetida era a da borboleta (lembram-se de Papillon?) ou da gaivota, que expressava o desejo de atravessar as grades e voar no céu aberto. Mesmo as figuras femininas ou os barcos a velas enfunadas falavam da liberdade perdida. O corpo tornava-se o papel em que se escreviam as mensagens de um recluso infeliz e sozinho. Como é que, hoje, meninos e meninas, que nunca estiveram em uma prisão, deixam espetar agulhas em sua pele para imitar, sem saber, aqueles desesperados segregados nas prisões de séculos passados?

A moda alimenta-se de linguagens secretas e memórias perdidas, e conta uma fragilidade sem remédio. A arrogância está em repetir um rito sem saber a sua origem, por cega alusão a um sofrimento que não é próprio, como o crucifixo brilhante no pescoço de uma mulher, como a argola presa a uma pálpebra ou ao lábio como lembrança de uma distante escravidão.
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O comentário é de Dacia Maraini, escritora e poetisa italiana, autora do roteiro, entre outros, do filme Storia di Piera, publicado por Corriere della Sera, 20-06-2017. A tradução é de Luisa Rabolini. 
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/568948-a-linguagem-secreta-simbolo-de-fragilidade 23/06/2017

BRASIL NA ROTA DA DIREITA



Marcus Leoni/Folhapress
O deputado federal e presidenciável Jair Bolsonaro (PSC-RJ) 
em Natal, no começo do mês: um terço de seus eleitores (30%)
 está concentrado na faixa de 16 a 24 anos, 
segundo pesquisas.

"Numa roda de amigos, defender Bolsonaro não é cool. Será?" O post, publicado há dois anos no blog da "Família Bolsonaro", destinava a provocativa pergunta especialmente a adolescentes e jovens. Se você "posa de culto, aberto à modernidade", é mais "fashion" dizer na rodinha que Bolsonaro é "burro ou intolerante", o que lhe ajudará a conquistar a "simpatia nos seus amiguinhos jovens", continuava a publicação. "Adolescentes pseudointelectuais" acreditam em tudo o que leem na mídia, e ninguém quer correr o risco de ficar sozinho e perder o amigo, filosofava a Família Bolsonaro.

Se em 2015 o deputado federal Jair Messias Bolsonaro (PSC-RJ) já colocava sua candidatura presidencial na rua com suas usuais polêmicas, em 2017 a estratégia atingiu resultados surpreendentes. O parlamentar, que carrega com orgulho a bandeira da extrema direita brasileira, virou "cool" - pelo menos para uma parcela significativa do eleitorado mais  escolarizado, sobretudo com renda acima de cinco salários mínimos e jovem. Eleito em 2014 deputado federal com a melhor votação no Rio de Janeiro (464.572 votos), o ex-militar tem hoje mais de 4,3 milhões de seguidores de sua página no Facebook e alcançou nas últimas pesquisas de intenções de votos de confiáveis institutos a preferência de aproximadamente 15% dos eleitores.

O que fez a extrema direita virar "cool" para parte dos brasileiros pode ter intersecções com a onda conservadora mundial que colocou Donald Trump no poder nos Estados Unidos, que apontou a ultranacionalista Marine Le Pen como possível futura presidente da França - derrotada por Emmanuel Macron, que incorporou uma proposta de centro - e que alçou Theresa May ao poderoso posto de primeira-ministra britânica, ainda que sem maioria no Parlamento no pós-Brexit. O Brasil, porém, tem suas peculiaridades. A instabilidade política atual e a amplitude da crise de representatividade, aprofundada pela Operação Lava-Jato, tornam o país um caso complexo.

"As coisas no Brasil são mais misturadas. É a primeira vez na história do Brasil que temos grupos e pessoas assumidamente liberais, no sentido de serem contra a intervenção do Estado na economia. Existiam figuras isoladas no passado, tipo Eugênio Gudin [1886-1986], Roberto Campos [1917- 2001], mas não havia, de fato, grupos e pessoas de todas as camadas sociais que abertamente aderissem a esses valores", afirma o sociólogo Sérgio Abranches. Também é a primeira vez no país, segundo ele, em que parcelas mais significativas dos brasileiros assumem sem temor a defesa de valores e visões de mundo de direita. "O Brasil, durante a maior parte do tempo, tinha uma esquerda e o resto se dizia de centro. Ninguém se assumia como de direita, no sentido de ser conservador, antifeminista, contra a liberdade de expressão generalizada. Isso é um fenômeno muito novo."

O deputado-candidato tem viajado o país, ainda que evite declarar sua candidatura à Presidência às plateias para não ser enquadrado pela lei eleitoral, que veda a campanha antecipada. Procurado pelo Valor por intermédio de sua assessoria de imprensa, o parlamentar não retornou aos pedidos de entrevista. O mesmo ocorreu com seu filho, o também deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSC-RJ). Nas redes sociais, a família Bolsonaro atua em sintonia, na política, para catapultar a candidatura presidencial do chefe do clã. Especula-se nos bastidores da política que Bolsonaro trocará de partido, migrando para o PRB do prefeito do Rio, Marcelo Crivella. Outra possibilidade seria a fragmentação do PRB em uma outra agremiação partidária bem mais à direita, denominada Livres.


Barbara Lopes / Agência O Globo
"Ninguém se assumia como de direita, no sentido de ser conservador, antifeminista",
 diz o sociólogo Sérgio Abranches



Matriz ideológica

O crescimento do conservadorismo no Brasil é flagrante. Em 2014, o Instituto Datafolha apontava, em pesquisa sobre a matriz ideológica brasileira, que 55% dos cidadãos pendiam mais para o lado conservador. O Datafolha vai atualizar essa pesquisa nas próximas semanas, segundo o diretor-geral do instituto, Mauro Paulino. A tendência é que o patamar aumente, diz. "Esse é um processo que vem de algum tempo, mas se avolumou a partir de junho de 2013. Estamos vivendo uma onda de conservadorismo e de admissão deste conservadorismo, sem medo." Paulino acredita que as jornadas de 2013 têm relação indireta com esse processo por terem escancarado a crise de representatividade da democracia brasileira. Não por acaso, afirma ele, a partir daquele ano o percentual de eleitores sem nenhuma preferência partidária ascendeu.

 "Uma das consequências de 2013 foi possibilitar enxergar os traçados dos movimentos, organizações e tendências que estavam sob um terreno meio nublado, com voz ainda pouco potencializada nas redes ou em outras formas de mobilização", afirma Rachel Meneguello, professora de ciência política da Unicamp. "Nada nasce em 2013, mas as ruas favoreceram essa expansão." A partir das manifestações de rua, segundo ela, movimentos de direita, como o MBL [Movimento Brasil Livre], encontraram um espaço "para vocalizar posicionamentos destoantes da legitimação democrática que sobretudo os governos petistas constituíram como ações e discurso". Tais ações não ficaram restritas às ruas, e esses grupos se organizaram também no cenário político-eleitoral, mídias, organizações populares e instituições de ensino. "Enfim, 2013 possibilitou o volume e o espalhamento da extrema direita."
 O apoio do eleitorado jovem a Bolsonaro é surpreendente, admite Mauro Paulino. "Entre os eleitores do Bolsonaro, um terço está concentrado na faixa de 16 a 24 anos. Por exemplo: a Marina [Silva] só tem 23% de seus eleitores nesta faixa, assim como o Lula. O [Geraldo] Alckmin tem 17%. Bolsonaro chega a 30%. Eu interpreto isso como falta de alternativa mesmo, neste ambiente de desencanto, e os jovens são os mais desencantados com a política."

De acordo com o diretor do Datafolha, "novidades e propostas que dão a impressão de que a solução de problemas é simples acabam tendo uma aderência maior" neste contexto. Paulino salienta que é preciso aprofundar os estudos e análises sobre o eleitorado de Bolsonaro. Na próxima pesquisa Datafolha, em que será divulgada a matriz ideológica do brasileiro, também será atualizada a rejeição ao candidato da extrema direita. "Mas é muito surpreendente e acentuado o apoio do eleitor jovem", diz Paulino.
Isadora Brant / Folhapress
Cientista político Antonio Lavareda cita pesquisa mostrando que apenas 32% dos brasileiros 
preferem democracia como forma de governo

Deserto ao centro

O fenômeno Bolsonaro, para Abranches, tem relação direta com a falta de alternativas políticas - candidaturas viáveis - pelo centro e pela esquerda. "O fato é que estamos numa enrascada no Brasil, e por isso se fortalece a extrema direita. É exatamente a falta de alternativa do centro para a esquerda, a essa esquerda que se colocou impermeável a qualquer tipo de diálogo.

Mesmo a direita liberal-democrática, a centro-direita e até uma direita nacionalista, avessa ao Estado mínimo, acaba migrando para o polo do "bolsonarismo", na opinião de Abranches, por confundir a candidatura do parlamentar com o antipetismo ou o antiesquerdismo. Em sua conta no Twitter, Bolsonaro dá mostras de que não precisa se situar com clareza no espectro ideológico, como seus eleitores. "Simples: somos o oposto ideológico do PT e de Lula", publicou recentemente.

Outro aspecto intrigante é que a extrema direita não é um amálgama ideológico homogêneo. Tampouco são apenas as questões mercadológicas e econômicas que separam um liberal de um esquerdista.

Muitas vezes os valores morais podem ser muito mais significativos para diferenciar esses espectros. "O povo é bastante contraditório", afirma o diretor do Datafolha. "Há pessoas que defendem posse de armas, mas ao mesmo tempo acham que a homossexualidade deve ser aceita."

"Nossa direita partidária sempre foi fragmentada, na década de 1990 era a mais fragmentada da América Latina [com países que também experimentaram ditaduras], com mais de 14 partidos organizados. Essa multiplicidade perdura não apenas pela variedade de espaços que interesses e lideranças ocupam, mas por conta dos incentivos do sistema eleitoral e partidário. Estimar que para 2018 teremos nova força importante à direita é subestimar a capacidade [mesmo em crise] das forças políticas presentes e superestimar a capacidade criativa estrutural dessa direita", diz Rachel Meneguello.

 Silvia Zamboni / Valor

"Propostas que dão a impressão de que a solução de problemas é simples acabam tendo aderência maior", 
diz Mauro Paulino (Datafolha)


Extremos

Se Bolsonaro representa o radicalismo à direita, a esquerda, para o sociólogo Sérgio Abranches, se aprisionou no extremo oposto. "O mesmo fenômeno ocorre do lado de lá: a esquerda brasileira estigmatizou todas as formas alternativas de pensamento. E, ao fazer isso, impediu a emergência de uma nova esquerda, de uma visão de esquerda mais contemporânea, de novos pensamentos." Ambos os extremos são retrato da intolerância autoritária, afirma.

No caminho do meio, o que convencionalmente se chamaria de centro, não há muitas pegadas. A Lava-Jato colocou todos no mesmo balaio. "A gente quase não tem alternativa porque estão todos eles se tornando homogeneamente clientelistas. É o que eu chamo de peemedebização geral da política brasileira, que atinge um pedaço da direita e um pedaço da esquerda, tanto que estão todos eles, juntos, envolvidos na Lava-Jato. Adotaram o mesmo padrão moral de fazer política", diz Abranches. Não por acaso, um dos slogans preferidos dos fãs de Bolsonaro é: "Meu candidato é apoiado pela polícia. O seu é procurado por ela".

"Bolsonaro faz parte de um partido que está nesta mesma mixórdia, mas se apresenta como alternativa: vou prender, acontecer, arrebentar. Aí muita gente acaba pensando: 'Pô, quem sabe não é a esperança, a solução'. Então ele exerce um atrativo maior do que exerceria em condições normais, se houvesse alternativas tanto à esquerda quanto à direita diferentes  desta coisa que a gente tem aí e que ninguém quer."

Tal mixórdia partidária parece ter ajudado a esquerda, paradoxalmente. "Há a sensação de que está tudo errado, de que todos fazem parte do mesmo caldeirão. As pessoas, então, passam a voltar a confiar e a depositar o voto e a esperança em Lula e no PT. Tem esse outro lado também", afirma Mauro Paulino. Ele pontua que tanto Lula quanto Bolsonaro são os prováveis candidatos que mais crescem nos cenários de intenção de votos hoje.

Se no fim de 2016 o PT viveu sua pior desgraça, vendo a preferência da legenda pelo eleitorado cair para 8 pontos percentuais - índice semelhante ao da época de sua fundação -, 2017 trouxe ventos novos e o partido mostra sinais de recuperação. "Lula e o PT são marcas, junto aos segmentos mais pobres, muito fortes. Principalmente a marca Lula, que está associada aos ganhos que esse segmento obteve especialmente a partir de 2002 até 2010. Ficou a lembrança, a saudade dos tempos em que esses segmentos prosperaram. Isso se reflete agora, sobretudo neste momento, em que as acusações se misturam, e não estão mais concentradas só no PT", diz Paulino.


Fábio Guinalz / Folhapress
Rachel Meneguello (Unicamp) diz que imaginar nova força à direita em 2018 é subestimar
 a capacidade das forças políticas presentes


Águas turvas

É preciso dimensionar o mercado eleitoral não democrático no Brasil para compreender as razões pelas quais uma candidatura como a de Bolsonaro tem potencial competitivo, afirma o cientista político Antonio Lavareda. "Na condição de ex-militar, pelas circunstâncias de nossa história, ele utiliza, inclusive, uma certa valorização regressiva da ditadura militar. Bolsonaro é populista autoritário, explicita a nostalgia do período militar, então o mercado dele tem que ser um mercado do eleitorado não substancialmente democrático."

E qual o tamanho desse mercado supostamente não democrático no Brasil hoje? Para Lavareda, o melhor indicativo é a pesquisa realizada pelo instituto Latinobarómetro em 2016 com intuito de medir o apoio dos países latino-americanos à democracia. Considerando o conjunto de países, 54% dos povos latino-americanos apoiam a democracia. No Brasil, porém, esse patamar ficou surpreendentemente bem inferior: apenas 32% dos brasileiros identificaram a democracia como a forma de governo "preferível". "Isso nos diz que, aparentemente, você tem um mercado muito grande onde o Bolsonaro eventualmente pode arrebatar votos."

A queda dramática do apoio à democracia, para Lavareda, tem explicações óbvias. "A superposição de crise política com crise econômica, e crise moral disseminada a partir da Lava-Jato, deprimiram esses números e produziram essa inflexão que nos deixou nesta situação de penúltima colocação, acima apenas da Guatemala." E é "nestas águas turvas,  de pouca valorização efetiva da democracia entre nós", diz Lavareda, que a candidatura Bolsonaro navega e, "obviamente, pode se expandir".

Pesquisa Ibope de abril deste ano mediu o potencial de voto dos prováveis candidatos à Presidência - 8% dos entrevistados disseram que votariam em Bolsonaro com certeza e 9% poderiam votar. "Então o mercado potencial de Bolsonaro, hoje, é alguma coisa em torno de 17%", diz Lavareda. "É pouco? Não é pouco. Esse contingente, entre os que têm nível superior, alcança 24%. E entre as pessoas que têm renda de dois a cinco salários mínimos chega a 22%. E entre os que ganham mais de cinco salários, o percentual chega a 30%."

Lavareda considera exercício infrutífero buscar similaridades entre a ascensão da extrema direita no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos. "A eleição do Trump foi uma circunstância muito peculiar, não tem nada a ver com uma eventual emergência da extrema direita no Brasil. O Brexit no Reino Unido é outra coisa também. A Marine Le Pen sempre foi alimentada por xenofobia, hipernacionalismo, pela crise da Europa que agora vai se dissipando. Acho uma bobagem fazer contexto disso com o Brasil", afirma o cientista político.

Também seria simplista, segundo a professora Rachel Meneguello, fazer associações diretas entre a ascensão da extrema direita e do nacionalismo com a crise migratória no mundo. "É simplificar muito o problema e não observar seus condicionantes históricos e políticos." A democracia é um fenômeno recente, alega Rachel. No pós-Segunda Guerra Mundial (1939-1945) é que a Europa começa a definir rumos importantes e muitos países do Leste Europeu só começam a trilhar esse caminho após queda do muro de Berlim, em 1989. Em muitas dessas experiências, acrescenta, o Estado do bem-estar social não foi capaz de fornecer respostas suficientes, as instituições democráticas nem sempre funcionaram a contento para consolidar direitos humanos, civis e sociais. Sem contar que aspectos culturais específicos exercem influência direta na forma como uma sociedade enxerga e lida com a democracia. "Em muitos desses países a crise de representatividade dos partidos e do governo representativo terá papel central na expansão de posicionamentos não democráticos." O Brasil pode ser compreendido também nesse contexto.

Pedro Ladeira / Folhapress
 Movimento pelo impeachment de Dilma: 'Vivemos uma onda de conservadorismo',
 diz Paulino

Transição em rede

Se Lula apostou no "Sem medo de ser feliz" em 2002, Bolsonaro aposta no "Sem medo de ser de direita" para encarar a disputa de 2018. "A abertura dos portos da comunicação digital", diz o sociólogo Sérgio Abranches, explicaria a maneira desabrida com que os brasileiros passaram a defender a pena de morte, o porte de armas, o Estado mínimo e a militarização, entre outros ideais do espectro da extrema direita. Ele trata exatamente desses temas em seu novo livro, "A Era do Imprevisto: A Grande Transição do Século XXI".

Digitalização, globalização e intensa troca de informações em rede são fenômenos que permitiram às pessoas encontrarem seus iguais pelo mundo afora. "Agora você entra no Facebook, Twitter, Instagram, SnapChat, qualquer lugar, mídia tradicional ou alternativa do mundo inteiro, e você pode ver alguém como você. Um contador aqui no Brasil encontra um  contador americano defendendo as ideias em que acredita. E ele deixa de ter vergonha."

Ninguém mais sussura. As pessoas vão às ruas, com cartazes, dizendo exatamente o que pensam. "Essa tomada de posição aberta, que é óbvia e banal na Europa e nos EUA, não era aqui. Agora as pessoas descobriram que é possível ser de direita, de esquerda, de centro, normalmente, e que as ideias têm nomes, e que esses nomes não são palavrões", afirma Abranches.

Essa velocidade e o fácil acesso à informação, na visão de Paulino, é exatamente a interface que explicaria os fenômenos de extrema direita no mundo. "A troca e produção de informações nas redes sociais são um fenômeno mundial. Ocorre seja nos países desenvolvidos ou não. O ponto de intersecção é a facilidade com que se pode propagar hoje ideias que antes ou ficavam mais ocultas e agora são mais explicitadas pela facilidade de comunicação ou porque de fato há esse vazio que os eleitores sentem em relação à política tradicional. O recado mundial que existe é: a política tradicional já não nos representa mais."
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Texto Por Malu Delgado | Para o Valor, de São Paulo
Fonte: http://www1.valor.com.br/cultura/5014200/brasil-na-rota-da-direita 23/06/2017

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Inesperados

Roberto DaMatta*

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Pode-se matar por engano ou boçalmente, como na guerra e nos radicalismos, mas na morte não há erro. Sem ter retorno ou reparo — ela simplesmente é

A semana passada me surpreendeu com inesperados. O inesperado é o latente. Aquilo que se cobre com a capa das coisas claras e planejadas mas resulta no seu oposto. A sovinice que arquiteta riqueza, a dificuldade legal manifesta para promover a propina latente da facilidade, o sublime socialismo que tem como alvo distribuir riqueza, mas que detesta opiniões divergentes.

A morte visitou-me atingindo pessoas que eu admirava. É curioso constatar que, apesar de a morte ser o mais óbvio axioma da vida — pois só morre quem vivo está —, ela continuamente nos surpreenda.

Seu incômodo poder decorre de incontáveis latências. A maior delas sendo talvez o modo como a morte inapelavelmente demonstra a nossa finitude. Esse bonito nome para a brutal concretude com a qual os nossos esbirros de onipotência e as nossas fantasias de permanência são negadas.

Haja, pois, espanto quando ela aparece. Vivê-la como algo inesperado é, suspeito, um modo de acolhê-la, porque são raros os que aceitam o seu convívio e milagrosos os que não são por ela contaminados.

Representada como um esqueleto coberto por uma mortalha — uma entidade descarnada, absolutamente impessoal e dona de uma igualdade objetiva, pois os ossos canibalizam caras e bocas, a morte é prova da separação entre o aquilo que possui a mais profunda significação (é o fim de tudo o que almejamos), ao mesmo tempo em que desfruta do nosso mais integral desconhecimento. Sentimos a morte, mas não a experimentamos ou conhecemos. Não sabemos como e o que ela é. Dela temos a experiência exterior, pois para conhecê-la por dentro teríamos que morrer e, neste gesto sem retorno, renegaríamos a vida: esse engenho inesgotável do saber e do conhecimento. Por isso, os mortos queridos nos espantam na sua imobilidade de pedra. Como não reagem aos nossos soluços? Como não ouvem o que ainda temos para pedir ou contar? A morte rompe relações.

Na minha vida, que já vai longa, vi muitas mortes e vivi o absurdo de enterrar quem — pela frágil lógica humana — eu esperava que fosse me sepultar.

Mas haveria alguma morte fora de hora, quando sabemos ela é o sinal de que “chegou a nossa hora?.” Pode-se matar por engano ou boçalmente, como na guerra e nos radicalismos, mas na morte não há erro. Sem ter retorno ou reparo — ela simplesmente é.

Mesmo esperada, a morte surge como um inesperado, como foi o caso do tio de amigos queridos, falecido no mesmo dia em que o laureado jornalista Jorge Bastos Moreno — para quem, envolvido pela sua conhecida simpatia, escrevi o prefácio do seu livro “A história de Mora; a saga de Ulysses Guimarães” — também partia. Neste pequeno texto eu enfatizo o modo com o qual ele recontava fatos públicos do ponto de vista de uma mulher, a dona Mora, que, como Penélope, esperava e via com mais clareza as peripécias do herói.

Como os dois sepultamentos ocorreram no mesmo dia, fui obrigado a uma cruel escolha. E certamente por causa disso, relembrei no velório do qual participei que tudo na vida social tem um lado manifesto e um outro latente. O morto é explicita e ritualmente pranteado, mas alguém tem que providenciar o cemitério, a sepultura, o caixão e a vestimenta. O triste adeus de uma despedida, entretanto, promove encontros benfazejos com velhos e novos amigos.

O escritor inglês G. K. Chesterton chamava isso de “trabalho do morto”; um outro inglês, o antropólogo A. R. Radcliffe-Brown dizia que o sepultamento era o inicio da recomposição da teia social ocupada pelo morto. Robert K. Merton, um brilhante sociólogo americano hoje esquecido, sugeriu, inspirado em Max Weber, que toda instituição social tem uma “função manifesta”, geralmente expressa nos seus estatutos (a ética protestante) e uma “função latente” (o espirito do capitalismo), a qual surge como um inesperado e muitas vezes como ironia ou paradoxo de dentro dos seus contornos sociais.

A morte fez apreciar o Moreno, como um jornalista-profeta. Não o que advinha, mas o que diz o que os poderosos não gostam de ouvir porque foi escrito num tom inesperadamente latente — no limite da ironia e do politicamente correto. A função manifesta do jornalismo é estampar fatos. A latente, é comentá-los. O modo como isso é feito separa o fofoqueiro do profeta que, ao lado do palácio real, prega uma jeremiada nos barões-ladrões.

Tal como acontece na morte, os políticos se elegem manifestamente para governar, mas o seu objetivo latente é roubar ou arrumar-se. Eis uma tese, mas sua demonstração, como diria um outro inglês, é uma outra história...
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* Roberto DaMatta é antropólogo

O ódio

Marcus Faustini*

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Talvez a resposta para um mundo mais diverso e conectado esteja offline

Uma recente matéria do site The Outline mostra o crescimento de perfis nazistas na web a partir de uma pesquisa feita no Twitter. Esses perfis possuem mais adesões do que a militância virtual do Estado Islâmico. É mais uma das faces da cultura de ódio pelo outro, influenciando o cotidiano da vida e da política. Como o ódio vem prevalecendo como estética num ambiente que era a promessa de um mundo diverso e conectado? É possível uma mudança de rumo? Talvez a resposta esteja fora da rede.

As redes sociais, que já foram festejadas como um ambiente que promoveria o interesse pelo outro, portador de alternativas para o bem comum e aumento da presença da diversidade no mundo, num oposto, sustenta e multiplica a existência de comunidades odiosas e abusivas, que não se contentam apenas com seus círculos de adeptos e perseguem aqueles que querem destruir — não são poucos os casos de hordas de homens misóginos que atacam sistematicamente mulheres online, desconstroem reputações, promovem fake news, racismo, fascismo, linchamentos etc. Para isso, essa indústria do ódio cria robôs, comunidades e perfis fakes de propagação.

Trump foi a expressão máxima no mundo da política dessa estética do ódio. Surfou nessa onda, deixando robusta sua candidatura, canalizando rancores, recalques e preconceitos potencializados pela situação de rebaixamento da classe média branca do meio-oeste norte-americano. Trump, em entrevistas e debates, para reforçar o laço emocional com a estética do ódio, performou com agressividade. Para essa estética, o debate ou qualquer possibilidade de fala é apenas um lugar de exaltação raivosa das suas visões. Vale dizer que esse fenômeno revela muito sobre outras esferas do tempo em que vivemos, em que até mesmo a música pop tem como base letras que sempre falam de alguém que usa de jactância e autoglorificação para se afirmar.

O Twitter já sofreu pressões e mudou aspectos da experiência da navegação para frear a presença de grupos de ódio. Mas esbarra em reclamações de que a contundência com que fecha perfis adeptos do Estado Islâmico não é a mesma com que fecha perfis nazi ou fascistas ligados a uma cultura branca. No Brasil, a presença do ódio como motor de engajamento nas redes sociais já foi experimentada em diversas situações: de incentivo a formas de linchamento de quem comete delitos até a polarização agressiva na política que embalou o processo de impeachment, envolvendo uma parte significativa da sociedade na crença de que o único demônio da política era Dilma — taí, deu no que deu!

A presença desse ódio é um dos componentes da bipolaridade que marca os embates atuais. Fábio Malini, professor da Universidade Federal do Espirito Santo (Ufes), um dos poucos pesquisadores profícuos de comportamentos das redes sociais, aponta que o próximo pleito eleitoral tende a ter um componente de ódio como motor da polarização. “O continente americano, em sua maioria, é muito alicerçado num poder central, o que beneficia a polarização.” Quanto mais centralizadora a forma de governo, mais espaço às polarizações e para a estética do ódio prevalecer como núcleo duro de mobilização da atenção de eleitores. Essa polarização ganha como alvo as minorias que foram beneficiadas por programas de inclusão, enfatiza Malini, em breve conversa que tivemos online.

Não será uma outra estética nas redes que irá desconstruir o ódio, apenas. É preciso que o online não seja a única centralidade da expressão política e da vida. Para tanto, um outro ambiente de ação política se faz necessário. E, talvez, deva ter um peso offline maior do que o online. Nestes dias passados aqui em Londres para mais uma jornada de trabalho, foi possível ver que, além de uma militância em redes sociais, a campanha de Corbyn e dos outros candidatos do Partido Trabalhista foi se reinventando a partir de ações bairro a bairro, porta a porta. Muitos candidatos ao parlamento cresceram nos distritos por terem priorizado a relação comunitária. O Podemos, na Espanha, também conseguiu se projetar com uma vasta rede em bairros, com seus círculos e confluências. Malini afirma que a Europa, já tendo experimentado o gosto amargo da austeridade, começa a produzir saídas. O vínculo entre as políticas de austeridade e a cultura do ódio começa a mostrar que não é um bom caminho para a sociedade. Mas foi necessário falar das questões reais da vida, de porta em porta, para essa mudança aparecer.

A vigilância e a denúncia ao comportamento de ódio nas redes são parte importante para forçar as empresas a atuar contra esses perfis. Porém, as ações de convivência comunitária, precisam voltar à agenda prioritária daqueles que imaginam uma sociedade mais solidária e onde o interesse pela diferença seja uma das maiores expressões. Existem caminhos no horizonte para barrar a cultura do ódio.
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* É diretor teatral, documentarista e escritor que destaca-se na cena teatral desde 1998.
Leia mais: https://oglobo.globo.com/cultura/o-odio-21495474#ixzz4kgMyPmtZ

O valor do pensar

Fred Coelho*

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Não serão partidos, empresas, bancos ou tribunais que, sozinhos, irão mudar o país

Vou falar nesta coluna de um tema tão claro em sua importância que soa trágico ter que trazê-lo como assunto. Me refiro ao baixíssimo valor que as áreas do ensino e da pesquisa detêm em nossa sociedade. E digo isso referente não apenas a governos, mas principalmente à população em geral. Cada vez menos, me parece, damos valor à educação como espaço de saberes. Passamos a exigir dela uma resposta prática: dinheiro.

Atualmente, um país que sempre desprezou o trabalho manual também não tem em grande conta o trabalho intelectual. Creio que o perfil massivo do profissional que deve ser admirado é fruto do que se convencionou chamar de “meritocracia”. Empreender individualmente, acumular, ter posses, são atributos que transcendem valores intrínsecos dos fazeres. Capacidades de reflexão crítica tornam-se meros ornamentos que nunca atingirão o perfil do empresário de si mesmo, do maximizador de oportunidades. Afinal, para que “aprender a pescar” se podemos ser donos da vara, do lago, do barco e do peixe?

Talvez essa desqualificação social dos que trabalham nas bordas “inúteis” do regime acumulador de capital e bens materiais (com raízes bem mais profundas do que cabe nesta coluna) explique por que não vemos com a gravidade necessária descalabros que só alimentam nossa sensação de falência completa. Achamos normal a educação pública do país ser em sua amplíssima maioria relegada às parcelas mais pobres. Naturalizamos a ideia de impostos financiarem justamente as instituições formadores da mão de obra manual e sem escolaridade desprezada pela maioria.

Como se a arrecadação pública fosse um investimento para a formação do precariado, contingente que perpetua os traços mais profundos de um país escravocrata. São cidadãos que, depois de abandonada a escola ou a tentativa de universidade, irão trabalhar por péssimos salários para os que tem as posses e, claro, os estudos completos. Esses, são a outra face amarga do professor, tão frágeis em suas carreiras e tão mal pagos quanto os futuros de seus alunos da rede pública — e escrevo isso sabendo que temos exceções.

Achamos compreensível as universidades públicas serem inviabilizadas por orçamentos deficitários em um momento complexo de reformulações por conta da entrada de novos perfis socioculturais. Julgamos grevistas como vagabundos sem nem saber ao certo o que faz um professor escolar ou universitário, trabalho tanto intelectual quanto braçal na preparação das aulas, no preenchimento de relatórios, na ocupação de cargos administrativos, que zelam por toda uma comunidade de alunos, funcionários e pares.

Achamos, por fim, justificável termos redução de investimentos públicos em níveis municipais, estaduais e federais para promoverem ajustes fiscais em tempos de merendas desviadas, espaços escolares conflagrados pela violência, déficit de escolaridade etc. Todas as pesquisas recentes mostram que o jovem que vive fora da escola é o mais vulnerável nas estatísticas brutais ligadas a homicídios no Brasil. Mais uma vez (isso é tão óbvio!), os que morrem são os mesmos que abandonam escolas para ajudar famílias em condições precárias de vida. O ciclo nunca se quebra, pois, quando a escola ou a universidade são largadas, arraiga-se a ideia de que os estudos são para poucos que podem viver seu privilégio de classe — e no Brasil sabemos que esse privilégio não é apenas de quem é muito rico. Ter pouco já é muito perto dos muitos que não têm nada.

Nesse quadro, como incentivar os estudos apenas como um caminho para a obtenção de um fazer ligado ao mercado de trabalho? A reflexão crítica, a empatia, o desejo de inovação, a compreensão da alteridade, a cura das feridas históricas, a construção de éticas comuns, a transformação do ódio social em energia criadora, tudo isso passa pela escola e pela universidade. Não serão partidos, empresas, bancos ou tribunais que, sozinhos, irão mudar o país. Aliás, até mudam, mas para um quadro que neste momento não parece o melhor para se viver. O ensino e a pesquisa, com os seus imensos efeitos permanentes (um indivíduo que aprende a pensar ganha isso para sempre), podem colaborar para uma mudança qualitativa em cenários como o que atravessamos. Cada centavo investido em programas educacionais bem executados retorna de forma perene para o Estado e para toda a comunidade.

Lembro que este é um tempo que, em países como Japão ou os Estados Unidos de Donald Trump, falam do fim das Humanidades como conjunto de saberes financiados pelo Estado. O argumento, em geral, é que são áreas que “não geram lucro” como aquelas envolvidas com tecnologia, patentes e mercados. Pensar, escrever, experimentar, criar ideias, são ações que tornam-se aos poucos espécie de “luxos” dispensáveis quando se almeja o sucesso material. A lógica do lucro se impõe. Assim, especular deixa de ser um verbo intelectual para ser apenas financeiro. Penso, logo invisto. Boa sorte para todos nós.
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* Professor Assistente do Departamento de Letras. Possui graduação em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1994-1999), ...
Fonte:  https://oglobo.globo.com/cultura/o-valor-do-pensar-21498999

terça-feira, 20 de junho de 2017

Gilmar Mendes: Cassação lançaria o país em quadro de incógnita.

ao centro,o presidente do TSe,gilmar mendes,em sessão que julgou a chapa Dilma-Temer

Gilmar Mendes, ao centro, em sessão do julgamento da chapa Dilma-Temer






(Tribunal Superior Eleitoral) que, na semana passada, absolveu Dilma Rousseff e Michel Temer da acusação de abuso de poder econômico, mantendo o atual presidente no cargo. 
 
Presidente da corte eleitoral, Mendes afirma que o papel dos juízes é "muitas vezes decidir de forma contramajoritária e desagradar tanto a chamada 'vox populi' quanto a voz da mídia". 

Caso contrário, diz, seria melhor acabar com a Justiça "e criar um sistema 'Big Brother'" para ouvir o povo e a imprensa. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
*
O TSE está sofrendo críticas porque teria tomado uma decisão eminentemente política. O tribunal desprezou provas?
Gilmar Mendes - Não se tratou de nada disso. O debate se cingiu à discussão sobre o que foi pedido na inicial [da ação do PSDB contra a chapa de Dilma Rousseff e Michel Temer por ter supostamente recebido, em 2014, dinheiro de propina da Petrobras].

A maioria do tribunal entendeu que o relator, Herman Benjamin, que fez um belíssimo trabalho, teria extrapolado, ido além do próprio pedido feito pelo PSDB. A Constituição prevê prazo de 15 dias a partir da eleição para a impugnação de um mandato. Se houver o alargamento dos fundamentos à disposição do relator, estaremos burlando esse prazo.

E por que há prazo estrito? Porque há o valor do mandato, conferido pelo povo. Não se pode banalizar a intervenção judicial.

Para o leigo é difícil entender: só porque o dinheiro ilegal destinado à campanha não tinha origem na Petrobras, mas em outros negócios, vamos desprezar provas?
Esta é a questão técnica que se coloca. E por isso esse tema não é entregue a leigos.

Na maioria dos países, resolvidas as eleições, não se impugna mais mandatos.No TSE, inclusive, somos muito seletivos. Não cabe ao juiz ficar banalizando a impugnação de mandatos. Mas estamos vivendo em um ambiente conturbado. E o que se queria? Que o TSE resolvesse uma questão política delicada [a crise do governo, afastando Temer].

Olvidou-se inclusive que os malfeitos atribuídos [à campanha de 2014] seriam debitados à candidata Dilma. O relator não falava nomes. Teve esse constrangimento.

Por que constrangimento?
Talvez porque ele tenha sido nomeado pelo PT e não queria falar disto. E é até uma pergunta válida, né? Qual teria sido o posicionamento desses ministros [Herman e Rosa Weber, também indicada na gestão do PT] se estivesse presente ali [a possibilidade de se cassar] a Dilma?

Neste caso, qual teria sido o posicionamento do ministro Gilmar Mendes?
Da mesma forma. Eu absolveria a Dilma. Como a absolvi, pois se ação fosse julgada procedente, ela ficaria inelegível por oito anos. Recentemente eu fui voto minerva na 2ª Turma [do Supremo Tribunal Federal] decidindo um habeas corpus em favor de José Dirceu [para que ele fosse libertado]. E também sofri críticas imensas, de todos os lados. Podem me imputar vários problemas, mas não vão me imputar simpatia por José Dirceu, não é?

Uma crítica constante é a de que o senhor tem lado.
Essa é uma lenda urbana. Eu tenho relacionamento com todos os partidos. Dialoguei muito, e tranquilamente, com o então presidente Lula. A despeito das diferenças, tínhamos até uma relação de frequência, de amizade.

Dizem "ah, esteve cinco ou seis vezes com o Temer". Eu recebi outro dia o pessoal do PC do B. E perguntei "como vai o nosso partido"? Eu sou um comensal do PC do B, toda hora me reúno com eles.

Depois de atritos com o ex-presidente Lula, é inegável que o senhor virou um crítico contundente do PT. Chegou a falar que o partido instalou uma cleptocracia no Brasil.
E falei de novo agora, no julgamento do TSE. De fato se instalou esse sistema. Se fala que todos os contratos da Petrobras tinham que verter 1% ou 2% para caixas de partidos.

Nunca se havia visto algo assim. Se estabeleceu essa confusão entre partido e Estado, que vem do marxismo-leninismo, que permite ao partido lançar mão de patrimônio do Estado.

Mas o PMDB e o PSDB, que não são marxistas-leninistas, também sofrem acusações.
Com certeza. Todos usam sistema de financiamento com base em obras públicas, em serviços. Mas essa sistematização, que ficou bem explicitada no julgamento, ninguém tira do lulo-petismo.

Mas, enfim, o fato de eu ser crítico do PT nunca me levou a julgar de maneira diferente. Tanto é que nunca questionaram minha imparcialidade no TSE. Em 2015, ao contrário do que esperavam, votei pela aprovação das contas de Dilma Rousseff.

A preocupação com o mandato popular não foi demonstrada pelo Judiciário, nem pelo senhor, no impeachment da Dilma. Qual é a diferença?
O problema da Dilma, como o do [Fernando] Collor [que sofreu impeachment em 1992] não era jurídico. E sim de apoio no Congresso.

O impeachment é um mecanismo que a Constituição prevê para a derrubada do presidente. Ela precisava de votos para barrar o impeachment. Liminares não salvariam o mandato. Se quiserem, igualmente, afastar o Temer, que o façam pelo Congresso. Ou que comprovem que ele já não tem mais condições de governar e ele opte pela renúncia.

O que havia desta vez, por parte de grupos de mídia, de setores da própria política, era o propósito de usar o TSE para solucionar a crise, cassando o mandato do Temer. E jogando o país numa outra crise.

O senhor acha que grupos de mídia atuaram politicamente?
A mim me parece que houve uma mudança bastante radical e que parte da mídia passou a entender que aqui [no TSE] estava a solução para o problema político, que se divisava como grande. Houve o engajamento de parte de grupos de mídia.

Infelizmente cabe a nós [juízes] muitas vezes decidir de forma contramajoritária e desagradar tanto a chamada "vox populi" quanto a voz da mídia. Caso contrário, seria melhor extinguir a Justiça. E criar um sistema "Big Brother" para ouvir o povo e setores da imprensa.

Como uma eventual pressão repercute na vida dos magistrados?
Nós ouvimos lá [no julgamento do TSE] ministros dizendo que decidiam de olho na opinião pública. É uma situação muito delicada.

Certamente [a pressão] traz desconforto. Os vazamentos de informação para quebrantar o ânimo das pessoas, o moral, isso a gente vê. Não há mãos a medir nesse caso, usam de todos os instrumentos, envolvem familiares, atacam a honra. Alguns certamente ficam com medo.

Há outras pressões. A presidente do STF, Cármen Lúcia, publicou neste sábado uma nota contra devassa que o governo estaria fazendo na vida do ministro Edson Fachin.
Certamente temos que nos preocupar com isso e dar toda a proteção ao ministro Fachin, que está realizando um excelente trabalho.

Agora, eu chamei a atenção da ministra Cármen: ela precisa assumir a defesa do tribunal em todos os ataques.

O ministro [Dias] Toffoli já sofreu ataque, ligado a vazamento da Lava Jato. Já houve ataques ao [Luiz] Fux, ao [Ricardo] Lewandowski. A revista "Veja" noticiou que a PGR queria me envolver no caso [do senador] Aécio [Neves]. E houve silêncio [de Cármen Lúcia]. É preciso que ela assuma a defesa institucional do tribunal e de todo o Judiciário. E não só de um ou de outro. Essa é a missão dela, como presidente.

O próprio STF precisaria de proteção institucional?
Claro. Recentemente uma jornalista escreveu um belíssimo artigo dizendo que hoje o tribunal está como refém da procuradoria. Não sei se isso é verdade ou não. Mas, se o for, temos que reagir. Nós não somos autômatos da procuradoria. Não temos que ficar chancelando atos. Nós somos órgão de controle. O ministro Fachin tem que ter consciência dessa função. E isso vale para todos nós.

O fato de o ministro Fachin ter recebido apoio de executivo da JBS quando era candidato a ministro do STF o compromete para julgar?
Não, não, não. Eu acompanhei esse processo. Quando ele foi candidato, o governo já estava debilitado e ele se sentia muito isolado. Eu mesmo tomei a iniciativa de acolhê-lo no meu gabinete e de telefonar para senadores amigos meus, como José Serra, [José] Sarney, para que o recebessem. Certamente outras pessoas conhecidas ofereceram ajuda e ele aceitou.

Não havia nenhuma imputação a elas naquele momento. Portanto ele não cometeu nenhum ilícito e não há que imputar nada. Agora, como estamos lidando com temas muito delicados do ponto de vista político-jurídico, as pessoas lançam mão desses questionamentos.Eu sei que é fácil nadar a favor da corrente. E sei quão é difícil nadar contra a corrente.

No caso do julgamento do TSE, nós decidimos bem ao não envolver a Justiça num processo de natureza estritamente política. Na Alemanha, no modelo parlamentar, há o voto de desconfiança construtivo: só se derruba um governo para colocar outro no lugar. Isso que é uma lei da política também é um critério de análise de consequência no âmbito jurídico-político. Queriam que o tribunal decidisse essa questão política, lançando o país em um quadro de incógnita.
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Reportagem por  MÔNICA BERGAMO COLUNISTA DA FOLHA
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/06/1892133-cassacao-lancaria-o-pais-em-quadro-de-incognita-afirma-gilmar-mendes.shtml

Editoria de Arte/Folhapress
Como cada um votou - TSE - Tribunal Superior Eleitoral - Cassação chapa Dilma-Temer
Como cada um votou no processo de cassação da chapa Dilma-Temer