terça-feira, 30 de setembro de 2014

Açúcar é sujeira para o organismo

 

  Para Sonia Hirsch, escritora especializada em saúde, doce é um vício a ser superado

entrevista - sonia hirsch 
 
Entender o funcionamento do próprio corpo e, assim, lutar pela saúde sem delegar ao médico o cuidado que cada um deveria ter consigo mesmo. A escritora e jornalista Sonia Hirsch, 66, dedicou os últimos 30 anos à divulgação dessas ideias. Tudo começou quanto, aos 29, ela retirou da dieta o ingrediente de que mais gostava: o açúcar. "Eu era estragada, viciada em doce", diz. 

Ela, que superou alterações de humor com a luta contra a substância, diz que o açúcar está ligado à depressão e também é o gatilho para condições como alergias. 

Em seus 21 livros publicados, a escritora discorreu ainda sobre câncer, alergias e alimentação de crianças. Neste mês, ela relança "Mamãe eu Quero", "Sem Açúcar, com Afeto" e "Deixa Sair" em edições atualizadas. 

Em entrevista à Folha, de Itaipava, no Rio, onde mora, Sonia também fala da contribuição da medicina chinesa na busca pelo bem-estar. 

Folha - Você começou a escrever nos anos 80. Como sua percepção sobre a saúde mudou desde então?
Sonia Hirsch - Passei a pensar na saúde de forma mais integrada. A medicina chinesa foi fundamental. Me ensinou como os alimentos podiam me afetar energeticamente, como cada um tem sua função. Abandonei o vegetarianismo, por exemplo, porque estava com a energia baixa e percebi que precisava comer carne. 

Você usa muito o conceito de "deixa sair" para a saúde, que inclusive é o nome de um dos seus livros. O que ele engloba?
É a limpeza do corpo, prestar atenção no que precisa ser eliminado ou não mais ingerido. E também do controle da respiração, que ajuda na conexão com o corpo e o pensamento. Você passa a se voltar para dentro. A respiração consciente limpa e nutre. 

Quais as consequências dessa falta de conexão com o corpo?
Você pode ter uma dor de cabeça ou uma dor no ombro e não investigar em você mesma os hábitos que podem provocá-las. Tudo o que você busca é um remédio para "acabar" com o problema. Você delega a sua saúde para outro, para alguém cuidar de você. A Constituição diz que "saúde é um direito". Eu discordo. Saúde é um patrimônio pessoal, algo a ser preservado, não algo a se pensar só quando aparece a doença. 

Em um de seus livros, você fala sobre como a retirada de alimentos causadores de alergia podem ajudar contra o câncer. Teve alguém próximo que se beneficiou da dieta?
Meu pai recebeu diagnóstico de mieloma múltiplo [câncer de medula óssea] aos 93 anos. Fez a dieta e morreu de velhice, lúcido e sem dor, aos 97. Eu mesma me livrei das alergias e de um "quase mioma". O bom é evitar os alimentos causadores de inflamação.

A retirada do açúcar é um componente importante. A substância tem a ver com inflamação do intestino e com aquela barriga insistente, resultado dessa inflamação. 

Você diz que o "açúcar dá barato" e é preciso ter uma outra concepção de prazer para se livrar do açúcar. Como fazer essa transição?
Quando você entende que muitas inflamações, depressão, corrimentos e alergias podem desaparecer ou diminuir se o açúcar for retirado, é possível superar esse vício no "bem-estar" passageiro. O açúcar é sujeira para o organismo.

Eu era estragada, viciada em açúcar. Desde criança, o doce corria solto em casa. Depois de referências da dieta macrobiótica e de ler o "Sugar Blues" [William Duffy, 1975], vi que algo estava errado. Eu sempre tinha doce. Passava na doceria antes de fazer análise. Gastei muito dinheiro com terapia, mas as sessões eram confusas. Eu não tinha clareza. Vi que isso era porque o meu corpo estava tentando digerir a quantidade de açúcar que eu ingeria antes da consulta.

Hoje estou açúcar zero, mas tenho alma "junkie". Às vezes, digo: "hoje mereço um chocolate". Quando estou livre do doce, acordo melhor, penso melhor, tenho mais leveza e flexibilidade diante de situações com mais pressão. 

No livro "Manual do Herói", você cita a importância de deixar a energia fluir, sem excesso, nem demais, nem de menos. Como aplica isso na sua vida com tantas demandas?
A filosofia chinesa se explica pelo equilíbrio entre yin, o vazio, e yang, o cheio, com todas as nuances pelo meio. Me acostumei a refletir sobre isso e procurar a harmonia. Há muito tempo pratico exercícios de respiração, mantras, contemplação da natureza, que acalmam a mente e o corpo. Isso tem a ver com uma frase que adoro, atribuída a Jesus: "O Reino dos Céus está em toda parte, mas ninguém o vê; é representado por um movimento e uma pausa." 
   
Raio-X - Sonia Hirsch 

IDADE
66 anos 


FORMAÇÃO
Autodidata, começou no jornalismo aos 17 anos 


CARREIRA
Atuou em publicações nas editoras Abril e Globo. Desde os 29 anos, mora num sítio. Tem 21 livros sobre saúde


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Reportagem MONIQUE OLIVEIRADE SÃO PAULO
Fonte: Folha online, 30/09/2014 
Foto da Internet

Transando com estátuas

João Pereira Coutinho*
 

Uma paisagem saturada em sexo matou o único afrodisíaco que não se compra na farmácia 


Toda a gente ri com a história clássica sobre a noite nupcial de John Ruskin (1819-1900). 

Relembro: Ruskin, um dos mais importantes críticos culturais da Inglaterra vitoriana, casou em 1848 com Effie Grey. Mas, na noite de núpcias, ao ver a mulher despida, o pobre Ruskin pulou da cama e fugiu de susto. Motivo? 

O excesso de pilosidade na genitália da senhora. Ruskin nunca tinha estado com uma mulher "au naturel". Apenas conhecia as estátuas que admirava no Museu Britânico --as ninfas gregas que eram mostradas ao público na versão "Brazilian wax". 

Ninguém tinha explicado ao pobre Ruskin que, excetuando bebês e crianças, as mulheres reais tinham pelos e as estátuas, não. 

Oh well: a história é provavelmente apócrifa. Mas confesso que nunca entendi por que motivo o mundo se ri alarvemente dela. Sobretudo aquela parte do mundo que, saturada em pornografia e outras idealizações sexuais, acaba por brochar e até fugir quando tem uma mulher na cama de verdade. 

Tempos atrás, assisti a um documentário televisivo que ilustra bem o "fenômeno Ruskin". Intitula-se "O Império dos Sem Sexo", foi dirigido pelo Pierre Caule e era um retrato sobre os hábitos sexuais no Japão. Havia de tudo. 

Para começar, um negócio pujante de bonecas artificiais para todos os gostos e bolsas. Por € 10 mil (mínimo, cerca de R$ 30 mil), o cliente podia escolher o tamanho dos seios, a forma da bunda, o desenho dos lábios e outras minudências físicas, como a cor do cabelo, dos olhos e até dos mamilos. 

O produtor dessas encantadoras aberrações falava com orgulho das vantagens das bonecas: eram obedientes; não precisavam de "despesas de manutenção" (como jantares românticos ou presentes de aniversário, por exemplo); e nunca ficavam bravas se, depois da intimidade (digamos assim), o homem optasse pelo ronco imediato. 

Mas o melhor do documentário nem sequer passava por esses casos extremos. Bastava os banais. Como a história de um infeliz que, todos os dias, depois do trabalho, optava por frequentar "sex shops" e ver uma filmografia apimentada só para não ter que voltar demasiado cedo para a mulher. 

Verdade: o documentário não mostrava a mulher. Mas desconfio que nem uma Scarlett Johansson animaria o infeliz: um filme e um pacote de lenços de papel eram preferíveis a qualquer Johansson deste mundo. 

Confrontados com o cenário, a atitude imediata seria imaginar que essa forma de tédio ainda não chegou às fronteiras do Ocidente. 

Seria um erro. Aliás, uma pesquisa recente do jornal "The Observer" chega e sobra para ilustrar esse erro com a libido dos ingleses. Sim, eu sei: falamos de ingleses. E, na cabeça dos eruditos, existe sempre a conhecida frase "sex, no, we're English". 

O problema é que nem sempre foi assim. Antes de 2008, ou seja, antes da falência do Lehman Brothers e da crise financeira internacional, os nativos tinham uma média de sete relações sexuais por mês. 

Hoje, desceu para quatro --qualquer coisa como uma relação por semana. Isso, claro, para falarmos dos "ativos". Porque uma parcela razoável (" dos inquiridos) nem sequer chega a uma relação por ano. Como explicar o deserto? 

Os especialistas na matéria puxaram pelas respectivas cabeças e falaram de tudo: a crise econômica chegou aos lençóis; a pressão sobre os homens para serem mais "femininos" e ajudarem nas tarefas domésticas arruinou a testosterona dos machos; e o consumo alarmante de pornografia transformou o ato, a naturalidade do ato, em algo que não possui a mesma grandeza insana --e a mesma dureza peniana-- da ficção. 

Admito que tudo isso seja verdade. Mas existe uma verdade mais básica que tornou possível todas essas possibilidades: uma cultura que fez da "dessacralização" do sexo a sua obsessão, acabou com todas as obsessões. Acabou, no fundo, com o tipo de "tabus" que os nossos avós reservavam para o quarto. 

Resultado? 

Uma paisagem saturada em sexo foi matando o único afrodisíaco que não se compra na farmácia: o desejo. 

Ou, em linguagem mais prosaica, a vontade simples de estar, descobrir e transgredir com uma pessoa real. Não com uma boneca japonesa. Muito menos com uma estátua pelada. E depilada. 
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Jornalista, escritor, historiador e comentador e cientista político português.
Fonte: Folha online, 30/09/2014
Imagem da Internet

domingo, 28 de setembro de 2014

O mau sentido

Luis Fernando Veríssimo*

“Liberal” é uma palavra traiçoeira. É o adjetivo com que os conservadores americanos xingam a esquerda, ou o que julgam ser a esquerda, no seu país, mas no resto do mundo é o oposto de conservador. A confusão é antiga. Em inglês “liberal” já quis dizer licencioso, ou libertino. Shakespeare descreve alguém como sendo um “liberal villaine”, um vilão liberal, querendo dizer que é um canalha completo. Em todo o mundo, mesmo onde se fala inglês, “neoliberalismo” significa uma nova versão do liberalismo econômico do século 19. Mas o liberalismo de então se opunha ao mercantilismo e ao poder da elite agrária e do conservadorismo e tinha um sentido progressista. Na sua versão atual, se opõe ao dirigismo do Estado e ao controle da empresa livre e, na sua aversão a qualquer ideia distributivista ou solidarista que atrapalhe os negócios, recupera o sentido shakespeariano da palavra. Mas, para aumentar ainda mais a confusão, muitos dos neoconservadores americanos de hoje têm esse nome porque no passado foram “liberais” progressistas, alguns até trotskistas.

O único regime econômico viável para um neoliberal seria o liberal no mau sentido, na opinião de um liberal no outro sentido. Com o suposto ocaso das ideologias e o fracasso do socialismo real e do capitalismo de Estado, não haveria mais alternativas para a moral do mercado dominar as nossas vidas. Democracia formal não garante democracia econômica, como o Brasil não nos cansa de ensinar, nem a liberdade de lucrar sem controle ou remorso é a primeira condição para uma democracia funcionar, como insistem os neoliberais. Fala-se no fim das utopias, mas sobreviveu o utopismo mais irracional de todos, segundo o qual pela ganância e o egoísmo exaltados se pode chegar a qualquer ideia de comunidade e justiça.

O neoliberalismo só acredita na sua doutrina porque a mantém apesar de todas as evidências de que também não deu certo, e nos trouxe para esta crise, em que um sistema financeiro hipertrofiado e desregulado ameaça arrastar todo o mundo para o precipício.

LEITURAS

Na Renascença ninguém disse “Oba, estamos na Renascença!”. Vivemos para a frente, mas entendemos para trás e só sabemos o que nos aconteceu “lendo” o passado. E às vezes lendo errado. A gente fala nos loucos anos 20 quando várias liberdades novas começaram a ser experimentadas no rescaldo da I Guerra Mundial e esquece que foi a era que gerou o fascismo e outras formas liberticidas. O espírito da Era do Jazz foi um espírito totalitário: prevaleceram não os passos do Charleston, mas os passos de ganso. Os plácidos e sem graça anos 50 não foram tão aborrecidos assim. Foram os anos do existencialismo, de revoluções na arte e na literatura, do nascimento do rockenrol... Nos fabulosos anos 60 e 70, enquanto as drogas, o sexo e a comunhão dos jovens pela paz e contra tudo o que era velho tomavam as ruas, o conservadorismo se entrincheirava no poder (Nixon nos Estados Unidos, os generais aqui, Margareth Thatcher e Ronald Reagan já no horizonte) e começava sua própria revolução careta. Quando fizerem a leitura da época atual, qual será a conclusão errada? Que o mundo se tornou mesmo uma aldeia global unida pela técnica ou que se dividiu ainda mais entre ricos e pobres e entre inteligência artificial e fundamentalismos, misticismo e outras formas de atraso? E no Brasil: o que é mesmo que está nos acontecendo?
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* Jornalista. Escritor. Cronista da ZH
Fonte: ZH online, 28/09/2014
Imagem da Internet

Diga-me o que veste

Martha Medeiros*
 
Lembro-me de uma matéria interessante que li anos atrás na revista Elle: convidaram uma estudante e uma executiva para passar 24 horas com a roupa uma da outra. Explico: a estudante, que costumava se vestir de uma maneira sexy e irreverente, teve de se vestir com o que encontrou no closet da executiva, e esta, por sua vez, teve de abandonar seu estilo sóbrio e conservador para escolher peças no closet da estudante. Resultado: viraram outra mulher por um dia.

A estudante, que adorava decote, barriga de fora e sandália de salto alto, colocou pela primeira vez um terno escuro com camisa para dentro da calça e sapato fechado. A executiva, habituada aos tailleurs bem-comportados, encarou uma saia acima do joelho, top de alcinhas, sandália gladiadora e gargantilha com crucifixo. Conclusão delas: não dá para mudar nosso jeito de ser simplesmente trocando de roupa.

Em termos, em termos. As próprias protagonistas da reportagem adotaram uma postura completamente diferente na hora de se deixar fotografar e, mesmo que tenham sido orientadas pela produtora de moda, a verdade é que a roupa conduz nossa atitude, sim. A estudante, uma clone de Miley Cyrus sempre de mãos na cintura e ar provocante, cruzou os braços docemente quando colocou o terno. A executiva, que costumava ficar encolhida em seu trajes pastéis, jogou os cabelos para trás e encarou as lentes com um olhar sedutor, digno de quem se veste para matar. Lógico que a roupa pode despertar novas facetas de nossa personalidade.

Dormir com um pijamão apeluciado e dormir com uma lingerie de renda vermelha: tanto faz? Você de legging e tênis pela manhã, de jeans e jaqueta de couro à tarde, e à noite com um vestido justo decotado nas costas. Sim, é a mesma mulher, mas são três estados de espírito diferentes.

A roupa, subliminarmente, autoriza um determinado tipo de comportamento. Os homens se sentem mais confiantes quando estão de gravata, até seu jeito de caminhar se transforma. Já as mulheres sentem-se mais joviais quando estão de camiseta e mais sensuais quando estão de preto. Coloque um longo Versace numa freira e ela subitamente esquecerá da oração da Ave-Maria, empacará em “o Senhor é convosco” e, dali em diante se pegará, cantarolando algo da Beyoncé.

Cada pessoa deve vestir-se de acordo com o que é, e não com o que que gostaria de aparentar, mas não é pecado experimentar um personagem fora do habitual: desejar ser menos tímida, ou mais séria, ou um pouco excêntrica. É uma transformação que deve vir de dentro, mas o visual ajuda. Um botão a mais aberto na camisa pode operar milagres numa alma introvertida.
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* Escritora. Cronista da ZH
Fonte: ZH online, 28/09/2014

sábado, 27 de setembro de 2014

Entrevista; FREI BENTO DOMINGUES - Dominicano português.

Frei Bento Domingues: “No meu quarto, só tenho um espacinho para ir até à cama e ao computador”

Há quem diga que é um dos maiores teólogos do País. Desde 1992 que assina no 'Público' uma crónica incómoda sobre religião. Tem 80 anos e é frade dominicano. Foi homenageado no dia 19 de Setembro na Gulbenkian

Por Rita Garcia, com imagem e fotografia de Alexandre Azevedo e edição de Daniel Pousada

Começa a conversa com uma provocação: “Sabes o que são estas entrevistas? Missa de corpo presente.” Chama-se Basílio Domingues, mas desde 1953 que todos o conhecem por Frei Bento. Diz que foi nos dominicanos que aprendeu a ser democrata. Escondeu clandestinos, apoiou presos políticos, afrontou a PIDE e esteve fora do País. Foi amigo de Sá Carneiro e Sottomayor Cardia, mas nunca quis ser político. Diz que a sua maior obra foi a teologia com os povos de África e da América Latina e que não pode passar sem dizer o que pensa.

Nasceu em Terras do Bouro. Como era a vida da sua família?
Nasci em Travassos, lugarejo acima da Geira. Lá eram todos agricultores, os meus pais também. O meu pai sabia ler, mas teve de aprender longe.

É o mais velho dos seus irmãos?
Tinha um irmão muito mais velho que já morreu, e outro que é o frei Bernardo [também dominicano], vive no Porto. Tinha uma irmã que morreu aos 15 anos e há três irmãos mais novos: o José, um irmão adoptivo e uma irmã que teve 12 filhos.

Em miúdo admirava-se que ainda ninguém tivesse tocado o céu.
Isso são coisas das montanhas.

Esticava-se para lá chegar?
Sim, numa aldeia cada miúdo tem as suas manias. Para mim, o problema era a escola. Adorava ir, mas fazíamos 4 km para cada lado, descalços, chovesse ou fizesse sol.

Não havia sapatos?
Havia, mas até os adultos os levavam às costas para as romarias para não os gastar. Havia socos e chancas, e, na vida normal, os sapatos que Deus nos deu [os pés]. Não tínhamos fome, porque era uma agricultura de subsistência, mas não havia dinheiro para nada. A escola era importante: aprendia-se uma nova língua. A linguagem local parecia um dialecto.

Dê-me um exemplo.
Mandavam-nos ler um texto e dizia lá ‘maçã’. A gente lia ‘mação’ e levava bofetadas porque estava mal. Fomos todos à escola quando poucos miúdos faziam a 4ª classe. Havia poucos livros em casa, só o jornal.

Com quem aprendeu a rezar?
Rezávamos o terço em casa, a seguir ao caldo, à noite, a cabecear. A única que estava desperta era a minha mãe: estava a lavar a loiça.

Teve logo uma relação especial com a religião?

Foi mais tarde, depois de ouvir as pregações do padre Adriano, um brasileiro que veio falar à [festa em honra de Nossa] Senhora do Livramento [perto de Barcelos]. Antes dele, tinha contacto com duas religiões – a católica e a dos mitos locais. Tinha medo de tudo. Havia bruxas e ameaças por todo o lado. O padre Adriano não falava sob o cunho da ameaça, do pecado e dos inimigos da alma. Esteve lá nove dias. Não me lembro dos conteúdos, mas da ruptura entre uma religião opressiva e a alegria de ser cristão.

Contou ao padre Adriano que ele lhe tinha feito essa revelação?

Fui-me confessar e ele perguntou-me o que eu queria ser. Disse-lhe: “Quero ser como você.” Ele riu-se. Aos 19 anos, fui para uma escola apostólica na Aldeia Nova, perto de Fátima. O meu irmão tinha lá andado. Depois entrei nos dominicanos, uma ordem com cultura democrática desde o século XIII: todos os superiores são escolhidos. Aprendi a viver em democracia na ordem. 

A partir daí esteve onde?
Primeiro em Fátima. Depois Salamanca, Roma, Toulouse, Alemanha, voltei a Roma. Quando cheguei a Portugal, em 1962, o que me interessava era a teologia com os jovens. Estava a anunciar-se o Concílio [Vaticano II]. Tive uma experiência colossal em Génova. Veio ter comigo um senhor com os 100 mandamentos da república universal. Disse-me que tínhamos de fazer um mundo novo e que eram precisas três bombas: uma em Washington, outra em Moscovo, outra no Vaticano. A do Vaticano já lá estava, dizia. Pensei: mais um tonto. Em Florença, o grande representante da ala esquerda da democracia cristã, Giorgio La Pira, disse-me: “Vai para Roma e assiste às audiências do Papa [João XXIII]. Vais ver que é verdade.” Fui. E chorava como uma Madalena [ao ouvi-lo]. Falava como se fôssemos seus paroquianos. “Ah, és dessa cidade? Conheço lá um fulano! Leva-lhe um abraço, ouviste?” O mundo tinha mudado.

Alguma vez falou com ele?
Não. Mais tarde falei muito com João Paulo II, quando estive em Roma a fazer um ano sabático. Ele foi à Universidade de São Tomás de Aquino, onde tinha feito o doutoramento. Uma vez perguntei-lhe quando vinha a Fátima – depois ele nunca mais parava de vir.

Gostou dele?
Era uma sedução enorme, mas não gostei do Pontificado. Voltando ao João XXIII: veio o Concílio, a encíclica Pacem in Terris [que defende a Paz com base na justiça, na verdade e na liberdade] que teve grande repercussão mesmo em Portugal. Quando voltei, fui para a igreja de Cristo Rei, no Porto. Morava numa rua onde viviam pessoas que viriam a formar a Ala Liberal, entre os quais Sá Carneiro, com quem falava todos os dias e a casa de quem ia comer. As pessoas vinham a missas diferentes: os burgueses vinham mais tarde ao domingo, as empregadas eram as primeiras da manhã. Na Juventude de Cristo Rei estavam todos juntos.

Rapazes e raparigas?
Num passeio à Casa de Santa Zita [na Guarda], os rapazes e as raparigas andavam nos quartos uns dos outros a pregar partidas. Uma irmã foi bater à minha porta: “Que desgraça está para aí a acontecer. Os rapazes andam com as raparigas. Tanto sacrilégio que se cometeu aqui hoje.” Um dia eles fizeram uma exposição fantástica com o tema O Mundo Interroga o Concílio. Espelhava os problemas do mundo. A exposição abriu, e apareceu gente a visitar todos os dias. Até que se anunciou uma visita organizada e eu soube que a PIDE ia intervir. Disse-lhes: “Vós entrais por outra porta. Não abro esta hoje.” O largo estava à pinha, mas a PIDE, quando chegou, levou presos uns tipos da extrema direita que lá tinham ido para impedir a exposição. Ficaram furiosos de ter prendido os tipos errados. 

Se os seus superiores eram tão democratas porque é que o mandaram sair do Porto?
Para me proteger! Na Diocese mandava o bispo, e na sociedade mandava a PIDE. Aprendi a fazer coisas na clandestinidade. Trabalhei na fundação do Direito à Informação (jornal clandestino que dava notícias sobre a Guerra Colonial), com o Nuno Teotónio Pereira e a mulher organizei retiros com gente não religiosa que precisava de se agrupar em encontros políticos. Escondia pessoas.

Às vezes eram facções diferentes da oposição…
Nessa altura nós vivíamos na [rua] Barjona de Freitas em apartamentos. A minha grande decepção foi o 25 de Abril. Estava em Roma e ligou-me um jesuíta a avisar. Vim para o 1º de Maio, vi aquela gente toda e disse: “Isto são revolucionários a mais.” Antes era difícil encontrar quem escondesse clandestinos.

Em 1963, mandaram-no sair do País depois de uma intervenção na igreja de São João de Brito, em Lisboa. O que é que disse?
Qualquer coisa como: ‘O problema não é a conversa, é a organização e é preciso derrubar este governo.’ Na manhã seguinte o meu provincial, um canadiano fantástico, disse-me: “Tens de ir para Roma, aqui não te deixam andar.”

Havia sítios onde não podia falar.

Quando os bispos não me davam jurisdição para falar nas igrejas, ele mandava cartas a pedir ao cardeal patriarca. Ele não dava resposta e o padre Silvan dizia: “Como não respondeu, consentiu!” [Risos]

O Concílio foi uma libertação?
Foi a experiência do desejo a cumprir-se, de ver aquele debate enorme, o trabalho dos teólogos, do episcopado brasileiro, com o [D.] Hélder Câmara. Estive lá um ano e picos e vim de barco. Era mais barato e havia menos controlo nas fronteiras. Cheguei e fui ensinar Teologia dos Sacramentos e Cristologia em Fátima, no Studium Sedes Sapientiae. No Verão, fazíamos teologia para religiosas e leigas.

Devia ter um discurso muito incomum para a época...
Era uma escandaleira. Havia um pide a vigiar as aulas. Adormecia quase sempre. Uma vez, eu disse numa aula: “Inferno é capaz de haver, mas deve estar às moscas.” Uma freira virou-se: “Não pode dizer isso. Os Pastorinhos viram-no onde é agora a capelinha [das aparições].” Tentei pôr água na fervura. Mas ela não dava hipótese: zumba, zumba! Até que eu disse: “Vamos fazer uma colecta e pedimos a arqueólogos que escave

Tentava contornar as regras com humor. Uma vez foi em Fátima…
Estava a pregar num retiro e fui à livraria Verdade e Vida, do outro lado do santuário. De repente, dei-me conta de que já devia estar a recomeçar e saí a correr para atravessar. Apareceu um homem servita de Nossa Senhora de Fátima [associação de fiéis com a missão de ajudar os peregrinos] para me deitar a mão: “Não se pode correr aqui.” E eu: “Deixe-me que isto é promessa!” Se fizermos das representações da fé uma prisão, vamos prender os outros. Estive contra Ratzinger, grande teólogo, quando quis ser polícia dos teólogos. Porque não havemos de trabalhar para que Jesus Cristo seja um apetite? Tenho uma admiração louca pelo Papa Francisco e pelo texto que publicou para ajudar os padres do mundo a serem livres.

Foi chamado à PIDE por causa de um sermão a crianças, visto como um ataque à Guerra Colonial.
O pároco de Caxias pediu-me para ir lá celebrar. Nesse domingo havia um texto do profeta Isaías sobre transformar armas de guerra em instrumentos de agricultura e paz. Disse o essencial às crianças: “Vem aí o Natal, vão dar-vos pistolas. Não aceitem. Digam: quando formos grandes não queremos andar em guerras.” Pouco depois, avisam-me no Instituto Superior de Estudos Teológicos (ISET): “Eles estão ali.”

Já sabia quem eram.
Claro. Queriam que os acompanhasse à [rua] António Maria Cardoso. Disse que não podia: ainda tinha outra aula. ‘Está bem. Mas aparece lá.’ Fiz-me de parvo: “O que é que há na António Maria Cardoso? O Centro Nacional de Cultura?” Foi uma coisa desgraçada. Meteram-me numa sala, entrava um e perguntava: “Aqui é que é a guerra?” Saía e vinha outro: “Aqui é que é a guerra.” No interrogatório, percebi que não sabiam nada daquilo em que eu andava metido. Um pegou na cadeira e disse: “Parto-lhe esta cadeira na cabeça!” E eu: “Cuidado que estraga a cadeira.” Queriam que eu assinasse um documento a dizer que era contra a guerra colonial. “Não disse nada disso. Portanto, não assino.” E então propus: “Embora esse senhor escreva com tantos erros, ele escreve uma linha e eu assino, outra e eu assino.”

Escapou sem consequências?
Tive de esconder documentos clandestinos. A gente tinha medo do medo. Uma vez às 3h da manhã vinha da casa do Nuno Teotónio Pereira e senti que me estavam a seguir. Pensei: “Estou lixado.” Aninhei¬-me junto de umas pedras para esconder documentos contra a guerra, a fingir que estava a apertar os sapatos. De repente virei-me e percebi que era a minha sombra.

Foi próximo de Sá Carneiro, dos fundadores do PS, mas nunca se envolveu na política activa…

Não queria nada com o poder. Já depois do 25 de Abril, quando fui à União Soviética com um grupo de gente do PC, do MDP/CDE, do MFA, dava-me vontade de rir. Andava sempre um atrás de mim a querer que eu desse uma entrevista sobre a liberdade religiosa. Disse que não podia falar, não conhecia. Quando cheguei cá, o DN tinha publicado uma entrevista [falsa] durante dois dias comigo a dizer que a União Soviética era o país com maior liberdade religiosa. Estava o Saramago na direcção. Exigi que eles dissessem que era pura invenção. Tinha lido os textos marxistas e comunistas, nunca viveria num regime desses! Queria alternativas. Com Sá Carneiro discuti imenso, mas quando fez o partido não quis ser mais um padre padrinho de um partido… Havia também pressões do PS para eu pertencer – era muito amigo do Sottomayor Cardia.

A relação com Sá Carneiro esfriou?
Percebi que as coisas já não tinham remédio. O Chico era teimoso.

A morte dele foi um choque?
Foi mais do que um choque. Quando fui expulso do Porto, ele foi-me buscar a Fátima para ir passar férias com ele à casa que ele alugava na Granja. No Porto, eu era conhecido como a rebeldia total. Foi sempre muito fixe comigo. Dava-me dinheiro escondido para a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos. Tinha as suas convicções, mas era capaz dos gestos mais generosos.

Como é que reagiu à morte dele?
Não reajo à morte. Acho uma coisa absurda. Meu Deus!, só dei mesmo conta da morte da minha mãe um ano depois e celebrei o enterro dela com o meu irmão. Um dia entrei em casa, o meu pai estava à lareira e perguntei: ‘Onde é que está a mãe?’ E ele: ‘Mas tu estás maluco?’ [Quando morreu Sá Carneiro,] Pensei: ‘Que parvalheira! Então a campanha não analisa o avião?’

Quando todas estas questões políticas amainaram, foi para África e para a América Latina.
Ia todos os anos a Moçambique durante três meses: queria fazer uma teologia africana a partir das comunidades. Percebi que falavam sempre a contar histórias e propus-lhes que escrevessem em histórias locais aquilo que percebiam do Evangelho. Publicámos isso nos Cadernos de Estudos Africanos. Depois fui para Angola ensinar teologia dos sacramentos no Seminário de Luanda.

Daí foi para o México.
Fui fazer uma conferência por causa da minha experiência em África e dar aulas no Verão. Estive no Chile, no Brasil e, de seguida, em Bogotá, na Colômbia. No fim do encontro entre o [presidente Andrés] Pastrana e Tirofijo [do secretariado nacional das Forças Armadas e Revolucionárias da Colômbia], percebe-se que as FARC vendiam droga por todo o lado. Disse aos alunos que aquilo tinha de acabar. Não podia falar em público porque senão era raptado. Em Medellín ainda me encostaram à parede. Tinham rebentado lá umas bombas e andavam a revistar as pessoas. Levei no avião um guarda-costas sem saber.

Ainda esteve no Peru.
Cheguei um dia depois de rebenta rem umas bombas ao pé do Palácio do Governador. E fui para a Argentina dar um curso às Dominicanas naquela noite em que houve três governos e o dinheiro saiu da Argentina [durante o crash económico de 2001]. Participei no Cacerolazo [protesto] em Buenos Aires. 

No regresso a Portugal, fez uma Teologia não institucional.
É feita de fragmentos. É preciso entender a teologia do homem em viagem.

Cumpre escrupulosamente o voto de pobreza.
A pobreza não me custa nada. As coisas que temos são farrapos que nos oferecem. São Domingos permitiu foi que as pessoas levassem os livros pessoais quando mudam de Convento. Quero mandar os meus para a biblioteca comum. No meu quarto só tenho um bocadinho livre para ir para a cama e outro para o computador.

É verdade que quando morre alguém fica com a roupa que a família lhe oferece?
Estes sapatos eram de um morto (aponta). Já se descolaram, Arranjei-os com cola-tudo. Não me faz
impressão.

Também não tem carta.
Andei sempre à espera que as estradas fossem rolantes. Quando todos tiraram a carta, foram unânimes: se não tens amor à tua vida, tem à dos outros. Sou distraído.

Sei que é um bom garfo.
Gostava das coisas que me proíbem. De todos os queijos. Se tenho, tudo bem. Senão, não me faz diferença. Só vou comer fora porque me convidam e são os outros que pagam.

Há pessoas que lhe pedem que as acompanhe nos últimos momentos da vida. Porquê?
Manias. Pensam que tenho jeito para celebrar missa de corpo presente e deixar um ambiente de esperança.

Tem esperança de que este Papa torne “Jesus um apetite”?
Já fez isso. Não impõe nada, mas compreende as pessoas. A única coisa de que gostamos é de ser amados. Quem acredita em Deus, sabe que está no coração d’Ele e ninguém o arranca de lá. É isso que os cristãos têm de testemunhar.
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Site de Portugal: http://www.sabado.pt - Artigo publicado na edição nº542, de 18 de Setembro de 2014.


Evangelismo a 50 graus abaixo de zero

Missionário na Mongólia
Elbert Kuhn nasceu em Taquara, RS, no dia 19 de julho de 1969. Cursou o ensino fundamental no Colégio Adventista Pr. Ivo Souza, em Rolante, e o ensino médio no Instituto Adventista Cruzeiro do Sul (IACS), em Taquara. Começou a faculdade de Teologia em 1988. Trabalhou em Bento Goncalves, por dois anos, depois Sarandi, em Porto Alegre, por três anos, e em Camaquã, também em Porto Alegre, por quase três anos. Foi pastor na Igreja Central de Curitiba, PR, e concluiu o mestrado em Teologia em 2004. Ainda pretende cursar o doutorado na Andrews University. Gosta muito de passar tempo com a família, os irmãos e os cunhados. Também gosta de viajar, conhecer lugares, pessoas e culturas. É casado há 20 anos com Cleidi Kuhn, formada em Pedagogia com pós-graduação em Terapia Familiar. Nesta entrevista concedida ao jornalista Michelson Borges, o pastor Kuhn fala de seu trabalho na Mongólia e dos desafios de evangelizar aquele país.
Fale um pouco sobre a Mongólia: cultura, povo, hábitos curiosos, clima, etc.
A Mongólia e um país situado no norte Asiático, que faz divisa com duas grandes potências mundiais – ao sul, com a China, e ao Norte, com a Rússia, particularmente a Sibéria. É o país do grande conquistador Gengis Khan, que por volta do século 12 quase conquistou toda a Europa e a Ásia. É um país de clima extremamente difícil, onde as temperaturas giram entre menos 20 e menos 55 ºC durante os sete meses de inverno. Tem a capital mais fria do mundo, Ulan Bator. A Mongólia ainda e conhecida como um país de nômades, “a country with no fences”. Um país sem cercas, como eles gostam de dizer. Ainda hoje a atividade primária é o cuidado dos rebanhos de ovelhas, cabritos e cavalos. Eles vivem em tendas chamadas “Gers”, fáceis de montar e desmontar, para que eles possam mudar de região, de acordo com a necessidade dos animais.


A alimentação é precária para a maioria das pessoas. O solo é árido e tudo aquilo que requer mais de três meses para crescer não se produz na Mongólia, em função do frio. A base da alimentação é a carne, com ênfase na gordura. O consumo de álcool e tabaco é muito alto, por isso a saúde do povo em geral é comprometida. Uma curiosidade com relação a isso foi um dia em que a Cleidi viu um bebê de poucos meses com um pedaço de gordura pura de carneiro, do tamanho de uma mão, na boca, como se fosse uma chupeta. São as tradições passadas de geração a geração.
Os mongóis em geral são amigos e hospitaleiros. Sempre dispostos a ajudar quando preciso.
Quais são as condições de trabalho nesse país? Como vivem os irmãos e os pastores?
As condições de trabalho são muito desafiadoras, devido ao clima, às distâncias e à precariedade do transporte. Em toda a Mongólia apenas um aeroporto, o da capital, tem asfalto. Todos os demais aeroportos são de estrada de chão batido, e os aviões, extremamente velhos. Muitas vezes, enviamos nossos jovens líderes para regiões remotas, alguns lugares a mais de dois mil quilômetros de distância, a fim de fundar igrejas. Lá eles chegam com uma mala de roupa e alguns materiais. Assim foi iniciada a maioria das igrejas na Mongólia.
A vida de muitos de nossos pastores não é nada fácil, com recursos limitados que muitas vezes não são suficientes para a comida diária. Deus tem aberto portas e hoje a vida deles tem melhorado.


Como e quando teve início a obra adventista aí?
No ano de 1991. Um casal de jovens norte-mericanos decidiu ir como voluntários a algum lugar do mundo onde não existissem cristãos e tampouco adventistas do sétimo dia. O sonho deles era ir à China, mas descobriram então que na China já havia adventistas. Estudando o mapa, viram que a Mongólia não tinha adventistas, e decidiram ir para lá.
Na época, eles não tinham nenhum apoio oficial da igreja. Eram missionários voluntários, que foram para a Mongólia por meio de um ministério de apoio chamado Adventist Frontier, mas eles tinham que levantar os próprios recursos.
Chegaram à Mongólia em 1992, logo após a queda do sistema comunista. A Mongólia era dominada ate então pela ex-União Soviética. O começo foi muito difícil, pois, com a saída dos soviéticos, o país ficou sem sistema de governo e sem recursos. Por muito tempo, as pessoas não tinham sequer o que comer, mas aos poucos foram encontrando a forma de governo e o país começou a se reorganizar.
Brad e Cathie Jolly lançaram os fundamentos da igreja adventista, traduzindo materiais, estudos bíblicos, alguns livros de Ellen White, como o Caminho a Cristo, e partes do Novo Testamento.

Os missionários Brad e Cathie Jolly

Em seguida, chegou uma missionaria coreana-americana, Joanne Park, que ajudou no processo de organizar grupos pequenos de estudos. Infelizmente, Brad contraiu câncer de estômago em função das dificuldades que enfrentavam. Mesmo extremamente debilitado, não quis voltar aos Estados Unidos e continuou traduzindo e preparando materiais. Faleceu cumprindo o dever.
Que tipo de materiais da igreja são produzidos aí?
Nossa prioridade é a produção de livros, estudos bíblicos e materiais educativos, de família, saúde, a Licao da Escola Sabatina, Manuais da Igreja, de Ministros, de Anciãos. Graças a Deus, temos tido muito apoio para que isso seja feito. Sem livros, a pregação se perde. Nosso povo precisa ter à disposição materiais a fim de ajudá-lo no processo de mudança de hábitos e valores.


Fale um pouco sobre o primeiro batismo adventista, ocorrido em 1993.
No ano de 1993, como resultado do trabalho dos primeiros missionários voluntários, duas jovens foram batizadas pelo então presidente da Associação Geral, pastor Robert Folkenberg. Davakhuu, que hoje é a coordenadora acadêmica de nossa escola de Inglês, e Enkhee, nossa diretora de saúde e temperança. A semente germinou e hoje temos a alegria de tê-las ainda como membros fieis e atuantes da Igreja Adventista na Mongólia.
Pastor Folkenberg batiza Davakhuu e Enkhee
Como é a interação de vocês com os budistas?
Essa é uma pergunta interessante. A Mongólia é um país budista, mas de uma religião muito misturada com outras. Como nômades, que mudam de um lugar para outro facilmente, assim também os mongóis vivem com relação à religião. Alguns mongóis brincam que pela manhã oram a Buda, no almoço para Deus e à noite convidam o xamã para o jantar.
Como eles tiveram a religião exterminada pelo comunismo, hoje vivem de forma extremamente secularizada. Apreciam a discussão religiosa, desde que não se imponham normas e limites. Temos uma relação de amizade e respeito. Com eles, e necessário primeiro estabelecer a confiança e a credibilidade. Depois de terem certeza de que podem confiar em você, as portas se abrem.
Como apresentar Jesus a um budista? Qual a abordagem ideal? Que cuidados devem ser tomados?
Como disse, o primeiro passo é se colocar no lugar deles e imaginar como você, se fosse budista, receberia a mensagem do cristianismo. E preciso muito respeito, muita oração, muita sabedoria e tato, a fim de que os laços não sejam quebrados no afã de querer simplesmente batizar alguém. Essa não deve ser a abordagem. Existem crenças deles tão ou mais fortes que as nossas, e não será em um curto período de tempo que essas crenças serão desfeitas. Temos pessoas que frequentam nossa igreja há mais de três anos, mas ainda têm dúvidas. Não se pode apressar o amadurecimento deles no cristianismo. Pode-se ajudar, mas não apressar.
Apenas a titulo de curiosidade: temos muito no cristianismo a ênfase no sacrifício de Deus em nosso lugar, certo? Isso toca nosso coração e nos leva às lagrimas muitas vezes. Ao entendermos esse sacrifício de amor, somos compelidos a nos entregar de corpo e alma. O budista nos olha e diz: “Só o Deus de vocês morreu. É porque não era um dos ‘maiores’. O Deus top jamais morreria.”
Quais os maiores desafios para a evangelização da Mongólia?
Até agora, o maior desafio foi quebrar a barreira do preconceito contra os cristãos. É muito difícil para um mongol deixar os laços de família. Ser mongol é ser budista ou shamanista, e aceitar sozinho uma nova fé, novos amigos, nova forma de viver e pensar. Enquanto o país viveu as crises financeiras, a religião ainda era uma forma de trazer esperança a muitos. Hoje, com a descoberta de grandes minas de cobre, carvão, ouro, urânio e outros minérios, o que se vê e um desejo desenfreado por melhores condições de vida. Isso foi o que se viu nos países do leste europeu após a queda do comunismo. Por um período de 10 a 15 anos, a busca pelo cristianismo foi tremenda. Não é mais o que acontece. Hoje há um retorno às religiões tradicionais desses países e um desencanto com o cristianismo.



O que o evangelho tem feito na vida dos mongóis que o aceitam?
Creio que o evangelho tem trazido esperança e liberdade. Esperança para um povo que sofre e não tem para onde ir quando os problemas chegam. Esperança de uma família bem ordenada. Esperança de uma saúde melhor. Esperança de um mundo melhor. Liberdade dos hábitos, das tradições, dos vícios, da parte ruim da cultura.
Fale um pouco sobre o projeto com crianças, que está em seu coração.
Quer mudar a história de um país, comece a ensinar as crianças. Ajude-as a pensar, a fazer escolhas sábias, a tomar decisões de longo prazo, e dê a elas condições de fazer tudo isso. Por exemplo, um menino, filho de mongóis, aprendeu acerca dos hábitos alimentares ensinados na Bíblia, e hoje, com sete anos de idade, é um vegetariano saudável. A ênfase aqui não está no fato de ele ser ou não vegetariano, mas na escolha feita. Contra a cultura, contra os hábitos, contra família, contra tudo, ele tomou uma decisão. Aquilo que se ensina a uma criança jamais será esquecido.
Temos projetos com crianças que têm atraído os pais. Por exemplo, em nossa escola adventista servimos o almoço para as crianças. Ao contrario das outras escolas, não servimos café nem doces. Quando as crianças chegam em casa e contam, os pais vêm à escola, alguns bravos, e perguntam por que agimos assim. Quando explicamos as razões científicas e de saúde, eles saem felizes e valorizando a escolha da escola para os filhos. Temos dado muita ênfase aos valores, já que na Mongólia os valores são muito relativos e muitos se perderam no tempo. Temos anualmente projetos que visam a esses propósitos, e nas igrejas, na escola, em nossos acampamentos para crianças, temos visto por que Jesus tinha um cuidado e um carinho grande por elas.



A massificação da informação e suas armadilhas está na Mongólia também. Certo dia, eu estava a quase dois mil quilômetros da capital visitando uma pequena vila, e fui à central telefônica enviar um e-mail. Cada pequena vila tem uma central com dois ou três computadores para as pessoas se comunicarem. Ao meu lado, três garotos de uns sete anos de idade olhavam a tela e riam. Olhavam a tela e fechavam os olhos. Fiquei curioso e com o canto do olho percebi que eles estavam olhando pornografia. São danos irreparáveis na mente dessas crianças; por isso, como igreja, precisamos fazer nosso melhor, e o mais rápido possível, porque, se não, perderemos a batalha e amanhã poderá ser muito tarde.
Por que decidiram reservar uma parte do prédio da União para abrigar estudantes universitários?
A Mongólia é um país interessante do ponto de vista da divisão populacional. Tem três milhões de habitantes, dos quais 1,3 milhão vive na capital. As cidades são pequenas vilas, e quando os jovens se formam no ensino médio, têm que mudar para a capital a fim de continuar os estudos. Ao chegar à capital, vão morar em repúblicas, e normalmente o que se tem visto é que no fim da faculdade não estão mais na igreja. Queremos e precisamos mudar essa realidade.

Decidimos reservar dois andares de nosso prédio e fazer deles dormitórios. Como não temos faculdade, damos a nossos jovens toda a estrutura de nossos colégios, com capelão, cultos, seminários, etc. A única diferença é que no horário escolar eles vão à escola pública ou privada. Queremos que no fim do período de estudos eles estejam comprometidos em ser fieis a Deus e à igreja.



Por que você decidiu ser missionário numa terra tão distante?
Foi plano de Deus. Não tem outra explicação. Jamais fiz uma oração sequer para ser missionário. Jamais enviei um e-mail com esse pedido. A única coisa que a Cleidi e eu sempre tivemos claro foi o chamado. Se Deus e a igreja precisarem de nós, iremos. Muitas vezes sofremos, e muito. Muitas vezes não entendemos o porquê, mas sempre, ao olhar para trás, temos a satisfação de ver a mão de Deus a nos guiar e uma tremenda alegria de poder estar fazendo o que Deus quer que façamos.
Os brasileiros que trabalham como missionários em outros países têm alguma vantagem em relação a missionários de outras nacionalidades?
E difícil dizer se há vantagens. Depende de muitos fatores. Creio que nossa vantagem está em nossa facilidade de nos adaptarmos mais facilmente a diferentes culturas. Na criatividade em resolver problemas e na forma positiva com que encaramos a vida. Creio também que em função de nossa igreja no Brasil ser muito dinâmica, crescemos com muitas atividades, programas e projetos, o que ajuda ao ir ao campo missionário. Creio que uma grande desvantagem é nosso pobre domínio do inglês. Sem ele, nossa capacidade de atuar fica muito limitada. Também precisamos entender que são poucos os lugares no mundo em que os resultados e as respostas à pregação são tão expressivos quanto no Brasil.
É óbvio que devido aos conflitos no mundo moderno, dependendo de onde você vem e para onde você está indo, isso poderá ser um problema, e sério. Mas, em geral, se você estiver comprometido com Deus, com a igreja e com a salvação das pessoas, creio que não imposta muito de onde você seja.
Que conselhos você daria para alguém que sente no coração o desejo de trabalhar como missionário?
Ore muito. Tenha a certeza de que esse é o plano de Deus, não o seu. Tenha a certeza de ter sua família unida nesse projeto. E aprenda o inglês.
Em culto recente na Casa Publicadora Brasileira, você fez uma comparação entre um navio de guerra e um de cruzeiro. Poderia falar sobre isso?
Há pouco tempo li um livro de um jovem e brilhante pastor norte-americano chamado David Plat, intitulado Radical. Ele conta que na década de 40 os Estados Unidos construíram um navio de guerra chamado USS United States. Era para ser usado em missões de guerra e poderia carregar 15 mil soldados para qualquer lugar do planeta, em menos de dez dias. A missão desse navio de guerra era salvar aqueles que pereciam em função de guerras e conflitos. Era o maior e mais rápido navio de guerra construído ate então. O problema e que esse navio nunca viu uma batalha sequer. Ao contrario, foi transformado em um luxuoso navio de cruzeiro.
Agora, pense comigo: um navio de guerra é completamente diferente de um navio de cruzeiro. Em vez de carregar 15 mil soldados para a batalha, agora só podia carregar duas mil pessoas. Em um navio de guerra, o espaço não é importante, pois você tem uma missão em mente. Em um navio de cruzeiro, quanto mais espaço melhor. Em um navio de guerra, velocidade é um imperativo, pois pessoas estão morrendo; mas esse não e o caso no navio de cruzeiro: quanto mais lento melhor, pois o importante é desfrutar a vista e o cenário.
Em um navio de Guerra, ninguém se preocupa se a comida não é suficiente ou “do meu gosto”; pessoas precisam de mim, e minha missão é mais importante. Num navio de cruzeiro, tudo diz respeito a conforto, luxo e prazer.
Em outras palavras, em um navio de guerra, tudo diz respeito aos outros, a ir mais rápido, não importando as condições, pois temos uma missão, a de salvar o que perece. Não é o caso no navio de cruzeiro, onde tudo diz respeito ao meu conforto, ao meu prazer, pois a preocupação é toda centrada no “eu” e não no “próximo”.
Gosto muito de uma sentença em inglês que rima e diz o seguinte: “We should never evaluate a church by its seating capacity, but by its sending capacity.” Ou seja, nunca avalie uma igreja pela quantidade pessoas que entram para ouvir, mas sim pela quantidade de pessoas que saem para servir.
As igrejas, os pastores, os líderes e os membros, em sua grande maioria, correm o risco de esquecer qual é sua missão. Correm o risco de esquecer que existe uma grande guerra acontecendo e que precisamos ir o mais rápido possível para salvar o que perece. Se temos essa visão clara, os problemas pequenos que serão resolvidos facilmente e não daremos tanta importância a detalhes periféricos. Ha uma batalha cósmica em andamento. Jesus está prestes a voltar. O Céu é o lugar em que vamos desfrutar tudo, mas enquanto estamos na Terra, viajamos em um navio de guerra. Precisamos salvar o que perece.
Uma mensagem para os irmãos aqui no Brasil.
Ore para que Deus o ajude a fazer alguma coisa para a salvação das pessoas. Busque se envolver em algum ministério. Pare de prestar atenção e se preocupar com coisas pequenas, sem importância e que não levam a nada. Sonhe os sonhos de Deus. Invista em coisas que irão durar além desta vida. Não há maior alegria na vida de um cristão do que saber que está sendo usado por Deus para salvar pessoas. Tive grandes tristezas e sofrimentos ao longo destes quase dez anos servindo como missionário, mas encontrei um texto que me ajudou por muitos anos na Mongólia. Está em 1 Coríntios 15:58: “Portanto, meus amados irmãos, mantenham-se firmes, e que nada os abale. Sejam sempre dedicados à obra do Senhor, pois vocês sabem que, no Senhor, o trabalho de vocês não será inútil.”

Tudo, mas tudo mesmo que fazemos para o Senhor, de coração sincero, jamais será em vão. Posso dizer com segurança que já vejo os frutos do meu trabalho e quero continuar neste navio de batalha, indo o mais rápido possível a todos os lugares para preparar um povo especial para se encontrar com Deus.
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Fonte: http://www.criacionismo.com.br/2014/09/

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Lugar de ser feliz não é supermercado

Matheus Pichonelli*

 Supermercado

Hong Kong Supermarket, em Chinatown

As pessoas não vão ao supermercado apenas 
para fazer compras. Vão para serem acolhidas. 
Para tapear a solidão. 
E para catequizar os que 
não votam como elas 
Apressado, com a ponta do cigarro de canela em umas das mãos, ele custou a me reconhecer por trás do capuz do moletom. Queria saber que horas encostava o ônibus no terminal, e nos reconhecemos antes que eu ensaiasse uma resposta. Esperávamos o mesmo coletivo.

O menino parecia mudado, o semblante mais sério do que quando descia para a quadra do prédio vizinho para jogar bola, quase sempre descalço. Na época, não tenho certeza, não fumava. Ele andava sumido dos jogos, e só fui descobrir o motivo quando o encontrei, dias antes, em uma esteira de supermercado, onde ajuda a empacotar as compras dos clientes. Era novo para trabalhar, pensei comigo, mas parecia animado, embora cansado, ao fim do expediente. O motivo: as gorjetas.

-Hoje foi bom. Teve cliente que chegou a dar até nota de cinco.

Perguntei se estava gostando do trabalho, e ele relutou. Gostava e desgostava. Mas ia começar a gostar mais ao fim da eleição.

-Como assim?

-Não sei, parece que o pessoal fica mais idiota nessa época.

Pedi que explicasse. Ele explicou. Em pouco tempo de trabalho, ele percebera que as pessoas não iam ao supermercado apenas para fazer compras. Iam para lembrar que estavam vivas. Parte dos clientes ia ao local todos os dias, quase sempre nos mesmos horários. Um senhor chegava a gastar mais de cem reais todos os dias. E havia os que deixavam fortunas para pagar o carrinho cheio de tralhas que seriam compradas novamente em poucos dias. Parte era aposentada, mas a maioria era sozinha: zanzava pelos corredores, olhava as gôndolas, questionava os preços, dava voltas, e mais voltas, e sobretudo puxava papo. Sobre a estiagem, o futebol, a novela. E agora, época de eleição, sobre política. Meu amigo andava desolado.

-O cara começa perguntando em quem eu vou votar e eu finjo que não escuto. Depois começa a dizer que todo político é igual. Que tudo é um grande absurdo. A gente percebe de quem ele não gosta. Daí ele começa a falar alto. Começa a ficar alterado. E se você discorda dele, é capaz de apanhar.

Era isso: enquanto empacotava as sacolas dos clientes, o meu amigo emprestava os ouvidos para ouvir todo tipo de queixas sobre a “presidAnta”, a “Marina vai com as outras”, o “playboy mineiro que só vive no Rio” e outras tantas definições que nós, os que temos a sorte de não trabalhar em supermercado, só encontramos no Facebook. Ele não: era como se a esteira de supermercado fosse a esteira de memes da TV Revolta com rostos e identidades, cada um com suas meia-dúzias de meias-verdades erguidas para a catequização do mundo. A esteira do supermercado era o termômetro de um período de verdades rasas: todo mundo, de todas as classes, quisesse ou não, precisava passar por ali em algum momento da semana, para deixar não apenas seus rendimentos, mas as suas opiniões resumidas em 140 caracteres.

Naquela ponta de esteira, o rapaz ouvia sentenças do tipo "nunca se roubou tanto como hoje em dia no Brasil", "bandido bom é bandido morto", "a Justiça só vai ter jeito quando houver pena de morte", "na ditadura a escola era boa", "o filho do Lula é o dono do frigorífico", "bom mesmo é aquele um que mandou prender todo mundo", "o Aranha está querendo se promover em cima da torcida do Grêmio", "a tal da Sininho tem uns cinco cadáveres escondidos na mochila".

Não perguntei se para isso ele ganhava qualquer adicional de insalubridade, mas não era preciso. Aquele supermercado era a ágora dos que decoram as linhas dos memes de Facebook e vão treinar o discurso na boca do caixa.

O desemboque fazia sentido. Quem já ouviu falar em posicionamento de marca sabe do desafio das empresas hoje em dia para se consolidar não apenas como fornecedoras de determinados produtos, mas de valores, e se fixarem assim como uma espécie de abrigo para grupos de indivíduos cada vez mais atarefados, cada vez mais ansiosos, cada vez mais dispersos e cada vez mais carentes de acolhimento.

O acolhimento que já não existe em casa, no trabalho, na escola, no relacionamento, nas igrejas, nas vizinhanças ou mesmo na política é encontrado assim na marca favorita, seja um tablet, seja um tênis, seja um portal, seja o canal de tevê, seja um supermercado de slogan “feito pra você”. O supermercado, afinal, é lugar de gente feliz, garante a propaganda, e é por isso que, sem mais o que fazer, as pessoas desembocam aos montes entre cestas e carrinhos de ferro para simplesmente sentirem-se protegidas e compartilharem na vida real o que estão cansadas de compartilhar na rede virtual.

-Têm uns que a gente precisa chamar a atenção para avisar que já está na hora de fechar. Se não eles dormem lá e continuam falando: "isso é um absurdo, isso não pode, está tudo errado".

Pobres consumidores, pobres cidadãos, pobres eleitores. Talvez eles não se lembrem de uma velha música dos anos 90 que avisava: “lugar de ser feliz não é supermercado”. O meu amigo se lembra. Teve de aprender, muito cedo, na marra.

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*Jornalista e cientista social, escreve sobre cultura e comportamento no site de CartaCapital
Fonte: Carta Capital online, 26/09/2014

80 anos

                                                               Ruy Carlos Ostermann*
 
                                                                                     
Com o comedimento que se requer para essas ocasiões, que sempre são delicadas, muito pessoais e intransferíveis por isso mesmo, completei 80 anos. É muita idade. É muito tempo. Mas, não comemorei porque acho que faz parte de uma espécie de vitória sobre as coisas. Uma pequena vitória. Muito Pessoal. Também intransferível. Não posso sair alardeando que sou eu que consegui tamanha façanha, até porque não é façanha, é resistência. Uma pura resistência. E aí, o mundo fica um pouquinho diferente e a gente nem sempre percebe.

A idade tem uma qualidade intrínseca, além de outras. A idade é, sobretudo, a acumulação de experiência. É uma espécie de esclarecimento sobre as coisas que acontecem. É o modo como a gente já fez coisas, já passou por elas, tomou decisões a respeito delas, voltou atrás, se corrigiu e até já ficou quieto. A experiência é isso. É um amplo quadro, dentro do qual a gente consegue transitar para cá e para lá e vai acrescentando aquilo que a gente é. Quem conhece a gente são as pessoas próximas. As pessoas à distância fazem uma ideia e sempre essa ideia é um pouco, assim, ligada à aparição, ao movimento, à frase. Enfim, não diria coisas superficiais, não, mas coisas secundárias em relação aquilo que tanto interessa que é esse autoconhecimento, esse reconhecimento. Então, a gente tem que lidar com calma.

Eu hoje sei exatamente que muitas coisas já passaram. A essas que já passaram, a pergunta é: ficaram onde? Pois ficaram em algum lugar. Esse lugar é a descoberta que a gente precisa fazer. Precisa saber onde ficou aquela experiência, com os seus caracteres, com a sua exigência, com a sua mobilidade. Onde ficou? De que modo aparece? E como ela agora pode me ajudar?
Eu caminho de um lado para o outro às vezes pensando nisso. Mas com a idade em que cheguei, eu penso exatamente que já é um marco. Já é uma posição. Já é uma relação. Já consigo olhar para frente e ver algumas coisas. Isso é idade. Talvez, possa ser um pouco de sabedoria.
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* Jornalista. Escritor. Filósofo.
Fonte:  http://www.encontroscomoprofessor.com.br/colunas.php?ano=2014
Imagem da Internet

A CINEFILIA NA ERA DA INTERNET


O que têm em comum o fechamento da videolocadora da esquina de casa, em São Paulo, e o lançamento nos EUA daquela que será a última edição do mais popular dicionário de filmes do planeta? Primeiro, a mesma razão: ambos modelos de negócio foram transformados em cinzas pela internet.

Localizada em Higienópolis, a HM Home Video já fazia parte do cotidiano do bairro quando para cá me mudei no começo dos anos 2000, em dois movimentados endereços, de um total de quatro lojas da rede. A matriz que eu frequentava reunia cerca de 15 mil títulos, com um perfil diferenciado, apostando tanto nos últimos grandes lançamentos dos estúdios hollywoodianos quanto numa coleção de clássicos do cinema, filmes de arte, documentários e títulos nacionais. O único similar paulistano é agora a 2001 Video.

Com suas amplas coleções de Buñuel e Kurosawa, Bergman e Fellini, John Ford e Billy Wilder, para ficar em poucos exemplos, era natural encontrar rotineiramente na HM Home Video com cinéfilos como o diretor Carlos Reichenbach (1945-2012). O fechamento da segunda locadora do bairro, há seis meses, já acendera o sinal amarelo. Um mês atrás, uma placa de “Passa-se o Ponto” jogava a toalha.

“Mantivemos aberto muito além do limite”, confessou-me na semana passada um dos sócios, Hermínio Paschoal Filho, em meio à liquidação de cópias que levou compradores a esvaziar num par de dias as estantes meticulosamente preenchidas durante 27 anos. “Foi como uma nuvem de gafanhotos”, me disse a gerente, Magali Hamaoka.

Em 2007, o fim das atividades em lojas físicas da sucursal brasileira da gigante americana Blockbuster, o que no final do ano passado repetiu-se nos EUA, foi o primeiro grande símbolo do fim de uma era. Uma nova forma de consumo impôs-se rapidamente no mercado, por meio de operadoras de streaming digital de filmes como a Netflix e a multiplicação dos canais de TV por assinatura e suas crescentes plataformas digitais.

No fecho de uma bela crônica na “Folha” em 18 de agosto passado, Leão Serva foi certeiro em destacar uma dimensão para além da cinematográfica do fechamento da locadora: “como será a vida sem locadoras, esse espaço público de afeto que se esvai”? Seu texto lembrou-me um comentário com a sensibilidade habitual de Fernando Gabeira num de seus primeiros livros após a volta ao Brasil, quando indagava quem faria, no balanço da repressão e do exílio, o inventário dos afetos perdidos, dos encontros, beijos e abraços para sempre brutalmente inviabilizados.

No incessante cotidiano das metrópoles contemporâneas, com a esfera do trabalho invadindo ininterruptamente o cotidiano privado por meio da vida 24 horas online dos smartphones e tablets, somado ao severo agravante no caso brasileiro da violência urbana disseminada, videolocadoras e livrarias representam oásis de sociabilização. Reencontros casuais e interações com desconhecidos quebram a rigidez das agendas e dos restritos círculos de amigos, familiares e colegas de trabalho. Com a progressiva desativação destes pontos de encontro, impera cada vez o enclausuramento em torno do novo totem: as grandes e pequenas telas frente às quais nos isolamos dentro de casa.

Do ponto de vista da cultura cinematográfica, sem temer soar como um dinossauro reclamão, tampouco sou otimista frente a aparentemente avassaladora oferta online. Creio que perdemos tanto em diversidade quanto em qualidade.

Nem mesmo a Netflix americana, que desembarcou na França nesta semana, apresenta um cardápio minimamente comparável a de uma videolocadora antenada com o público mais cinéfilo. Não apenas por razões legais, éticas e estéticas, o acervo online de cópias piratas tampouco representa uma alternativa. Além disso, por melhor que seja sua conexão com a internet e mais avançado seu “home theater”, tenho dúvidas de que a curto prazo teremos por aqui uma experiência como espectador tecnicamente próxima a hoje possível com as cópias em blu-ray.

Deve-se também à internet a extinção do “Movie Guide” anual do crítico americano Leonard Maltin. Aquela que será sua última edição, com 1632 páginas e cerca de 16 mil resenhas breves, acabada de ser lançada nos EUA (Signet, US$ 16,44). Sua primeira edição datava de 1969, quando Maltin contava apenas 18 anos. Em 1978, seu dicionário de filmes tornou-se bienal e, em 1986, um evento editorial a cada começo de outono americano.

“Uma geração inteira cresceu acostumada a buscar toda sua informação em seus celulares ou computadores”, explicou Maltin em entrevista a Pete Hammond, um dos tradicionais colaboradores do guia, publicada sintomaticamente no site “Deadline Hollywood”. “Não são estes os consumidores potenciais de livros físicos de referência. Nossas vendas declinaram radicalmente nos últimos anos”.

Nada que surpreenda, com a facilidade de pesquisas online em sites especializados como o IMDb, gerais como Wikipedia e numa infinita blogosfera. Maltin já adiantou que não incluirá o “Movie Guide” nesta onda, pois seu estilo de “resenhas e informações concentradas” foram desenvolvidas para o formato livro. “A internet tem um imperativo diferente e regras distintas”.

São mais sutis as as razões para lastimar-se o fim do “Movie Guide”. Como espectador cotidiano e crítico profissional, eu preferiria continuar combinando os dois modelos de pesquisa, somando a hierarquização subjetiva do guia de papel à multiplicidade informativa da internet. Perde-se online, por outro lado, uma vantagem colateral: a leitura aleatória, com o correr dos olhos pela mesma página impressa, dos verbetes para outros filmes que não aquele especificamente pesquisado.

Uma última razão, reconheço de pronto, é eminentemente pessoal: a bibliofilia. Sou fascinado pela fisicalidade do objeto livro, pelo contato tátil com o papel, pelo ritual da virada de páginas. As videolocadoras podem estar condenadas mas espero que se cumpra uma profecia do crítico americano Harold Bloom: “Não acho que apenas a conveniência, mas a aura que envolve o livro impresso jamais desaparecerá”.
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 * É um crítico de cinema, jornalista, curador e escritor brasileiro.
Imagem da Internet
Fonte: http://etudoverdade.com.br/br/noticia/1414-A-Cinefilia-na-Era-da-Internet