sábado, 22 de abril de 2017

Baleia azul e a crise existencial

Walmyr Junior *
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"Vemos muitos adolescentes evitando a busca 
presencial de relacionamentos e se prendendo 
a coletividades cibernéticas, 
com amigos virtuais."
 
A maturidade moderna entra em questão novamente ao analisarmos um fenômeno que vem tirando a vida de muitos jovens e adolescentes na Europa, fenômeno este que tem se espalhado pelo Brasil. A ‘cultura de morte’ que estamos falando vem dos altos índices da prática do suicídio. O assunto foi mais uma vez levantado na internet quando o ‘desafio’ da Baleia Azul entrou em destaque e virou caso de polícia. 

O Jogo é virtual e de origem Russa. Mundialmente conhecido, o Baleia Azul, convoca os participantes a entrarem em grupos secretos nas redes sociais e tem como propostas 50 metas que leva os participantes a desafiarem sua própria existência. A dinâmica do jogo é simples, porém os riscos que ele provoca permite a reflexão sobre as atuais crises existências que a contemporaneidade vem sofrendo. 

Quem sou eu? O que eu estou fazendo aqui? Qual é o sentido da vida? São perguntas cotidianamente feitas por nós. Porque o ser humano é o único ser vivo que adiciona sistemas de relações em sua natureza, consolidando uma possível cultura, que o leva a responder essas perguntas acima. Quando não respondido, o ser humano, de forma geral, adolescentes e jovens no caso específico desta coluna, passa a ter a sensação de estar sozinho e isolado no mundo, além disso, passa a questionar a existência da sua própria vida.

A crise que abordamos é empírica, está no cotidiano das relações. Vemos muitos adolescentes evitando a busca presencial de relacionamentos e se prendendo a coletividades cibernéticas, com amigos virtuais. Enquanto no habitat familiar reagem de forma introspectiva e "calma", porém sabemos bem que dentro de suas cabeças reinam o caos total. Um turbilhão constante de pensamentos, normalmente pessimistas, que fazem os jovens ficarem extremamente ansiosos e esgotados.

Uma das grandes causas desse problema é o sentimento de não aceitação, isolamento e medo. Não saber seu lugar no mundo, não reconhecer e/ou não aceitar seu corpo, sua estética é uma dessas depressivas características. 

A vida de um adolescente em crise existencial é muito injusta. A ausência de afeto familiar e a não compreensão dessas especificidades só pioram o problema. Muitos veem nessas atrações cibernéticas um refúgio dessa crise. O desafio da Baleia Azul cai como ‘uma luva’ para quem busca o não existir. Se mutilar, ou até mutilar o outro substitui relações saudáveis. 

Além desse mal presente, com tantas crises e inseguranças, os ‘desafios’ são impulsionados por uma terceira pessoa que torna-se o fator mais tênue dessas relações constituídas. Ao invés da família e dos amigos, geralmente os adolescentes e jovens em crise, vão buscar nos falsos perfis das redes sociais, um meio de se sentir importante ou até desafiado. 

Fica para nós uma reflexão do que fazer mediante a tais circunstâncias. O amar, acolher, compreender, escutar, respeitar e aprender, são saídas que podemos encontrar para dar respostas as crises da contemporaneidade.  
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*Walmyr Junior é morador de Marcílihttps://www.blogger.com/blogger.g?blogID=1573693655200632246#editor/target=post;postID=2983643667982801885o Dias, no conjunto de favelas da Maré, é professor, membro do MNU e do Coletivo Enegrecer. Atua como Conselheiro Nacional de Juventude (Conjuve). Integra a Pastoral Universitária da PUC-Rio. Representou a sociedade civil no encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ
Fonte:  http://www.jb.com.br/juventude-de-fe/noticias/2017/04/20/baleia-azul-e-a-crise-existencial/
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Erro de pessoa

Lya Luft* 

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Quem não erra? Mil vezes na vida erramos, muitas sem sequer nos darmos conta. Falando alto demais, interpretando mal alguém, sendo muito críticos, impacientes, interrompendo alguma fala emocionada, ignorando uma data especial, retrucando com ira em lugar de fraternalmente, e tantas outras coisas. Querendo impor nossas ideias a quem nada tem a ver com elas: um dos erros mais comuns.

Mas há um erro que entristece sobremaneira, o erro de pessoa. Quem parecia amigo nutria ressentimentos e um malquerer que um dia irrompe. Diante de palavras duras, injustas e madrastas, corremos para o chuveiro, para simbolicamente tirar esses miasmas do corpo – mas na verdade é do coração que os queremos alijar. Porque palavras assim, pessoas assim, nos fazem mal. Muito mal. E não precisamos de mais mal do que esse que já arreganha os dentes nos noticiosos aqui e pelo mundo.

Muitas amizades, muitos afetos, até familiares, se mancharam, enferrujaram e desfizeram no vento pernicioso das diferenças políticas, ideológicas, nestes tempos (futebolísticas já acontecem há muito tempo). Não entendo como se pode misturar afeto, partilhamento de anos e anos, com diferenças de ideologia. Quem somos nós para querer impor aos outros nossas ideias? Que feia arrogância, que desagradável senso de superioridade, que frustrações nos levam a agir assim?

Tenho amizades de alguns anos, outras de várias décadas, e as cultivo caprichosamente porque são importantes para mim. Mas agora, com certa frequência, alguém comenta comigo, meio espantado, que estão se desfazendo amizades por alguém ser de esquerda ou de direita, conceitos já bastante diluídos. Depois do primeiro choque, ficamos pensando, então ele, ou ela, era assim, é assim? E eu nunca percebi? Em vez de um amigo, eu tinha ali um crítico, mas silencioso, mas feroz?

Pois a vida também se faz de coisas assim. O fora do namoradinho da adolescência doeu, mas outros amores, melhores e mais belos, viriam. O fim áspero de uma velha amizade ou relação familiar não se cura facilmente, nem com aquela necessária raiva inicial que muitos aconselham quando uma relação termina: “Pense nessa pessoa com alguma raiva, ao menos no começo, ou essa separação não funciona”. Não sei se o conselho é eficaz, pode parecer cínico, sarcástico, pessimista – ou simplesmente prático e até bem-humorado... para quem está olhando de fora. Além disso, já temos receitas demais para amar, separar, transar, ser uma celebridade. E, se eu cometo erros de pessoa, como não cometer erros, por exemplo, na hora de fazer tantas escolhas decisivas na minha vida?

Por falar em bom humor, que, segundo meu amado compadre Erico Verissimo, muitas vezes nos salva, ele também tem andado escasso nestes tempos em que o bolso se esvazia de recursos e a cabeça se enche de preocupação. Muita gente raivosa, grosseira, hostil mesmo sem motivo, dando trombada de carro, passando à frente dos outros onde não seria possível, pessoas se empurrando na calçada, dando cotovelada na fila, olhando de cara ameaçadora por qualquer bobagem ou por coisa nenhuma, atendendo o telefone quase num latido.

Bom repensar um pouco as nossas atitudes, para não sermos um erro de pessoa para alguém de quem a gente até gostava.
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* Escritora. Tradutora.
Fonte: http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a9777870.xml&template=3916.dwt&edition=31058&section=70
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Gilles Lipovetsky: AS PESSOAS PROCURAM UMA FORMA DE ALIVIAR O PESO DA VIDA

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Pensador que tem se debruçado sobre diversos aspectos da contemporaneidade, Gilles Lipovetsky voltará a Porto Alegre a convite do Fronteiras do Pensamento. Participará de um debate ao lado do economista brasileiro Eduardo Giannetti no dia 5 de junho, a partir das 19h45min, no Salão de Atos da UFRGS. Teórico da hipermodernidade, o filósofo francês aborda em seus livros temas como individualismo, ética, moda e consumo.

Professor de Filosofia na Universidade de Grenoble, ele é autor de best-sellers como A Era do Vazio – Ensaios Sobre o Individualismo Contemporâneo (1983), O Império do Efêmero – A Moda e Seu Destino nas Sociedades Modernas (1987) e O Crepúsculo do Dever – A Ética Indolor dos Novos Tempos Democráticos (1992). Lançado no Brasil em 2016, Da Leveza – Para uma Civilização do Ligeiro, seu mais recente livro, aborda o culto contemporâneo à felicidade em contraposição à rotina veloz e exigente que enfrentamos.

Assíduo visitante do Brasil, com diversas passagens pelo Rio Grande do Sul, Lipovetsky conversou com ZH por telefone de Paris a respeito de temas como a busca pelo bem-estar na sociedade pós-moderna, o crescimento da direita no mundo ocidental, o fenômeno Donald Trump e a eleição presidencial deste domingo na França – cuja candidata Marine Le Pen, líder da extrema direita no país, desponta como provável postulante ao segundo turno do pleito.

No livro Da Leveza – Para uma Civilização do Ligeiro, você analisa a procura atual pela leveza na vida, que no entanto não dispensa a obsessão pela performance da produção e pelo reconhecimento social. Em sua opinião, até que ponto esse paradoxo é sustentável?

De fato, o livro inteiro aborda esse sistema cada vez mais construído para tornar nossa vida mais leve – na técnica, no digital, na desmaterialização, no smartphone, na web, na nanotecnologia –, que também convive evidentemente com todo o mundo do consumo e da mídia, que são instâncias da leveza. Os valores veiculados por eles – o prazer, o divertimento, o lazer – compõem um universo de leveza, mas a vida individual das pessoas continua pesada. Esse paradoxo não é uma contradição, porque essa leveza é resultado da tecnociência e do capitalismo, que demandam a mudança perpétua e, por outra parte, exigem competência na performance. Dentro desse quadro, temos ao nosso redor coisas cada vez mais leves, como as possibilidades de viajar e obter tudo muito facilmente, mas, ao mesmo tempo, o mundo do trabalho e também o privado se endurecem por causa da cultura do individualismo, que empurra o sujeito a sempre se construir, a se inventar. Então, estamos permanentemente fazendo escolhas e nos impondo novos valores para obter sucesso. Por outro lado, o mundo da tradição é muito duro, com miséria, fome, guerra. O caminho das pessoas já está traçado nesse mundo, você consegue compreendê-lo porque a religião e a tradição já estabeleceram o roteiro, você pode prever o futuro com antecipação. Hoje, no mundo da leveza, tudo está aberto, nada é fixo, tudo está por construir. E, como tudo está por construir, tudo é extremamente difícil. Acrescente-se a isso que a globalização provavelmente não é algo passageiro e que a competição e a inovação vão se acelerar ainda mais. Você não sabe mais o que vai mudar amanhã e o que vai permanecer, tanto na economia quanto na vida privada. Voltando ao paradoxo que você citou, nós teremos universos cada vez mais preocupados com a performance para alcançar a eficácia e a riqueza materiais e, ao mesmo tempo, uma vida pessoal mais difícil. É possível continuar a viver assim? Penso que sim, precisamente porque, como no Brasil e em outros países, as pessoas se preocupam menos com a política e mais com a leveza de suas vidas. Por isso o sucesso do budismo, da ioga, do zen, das atividades artísticas. A vida global vai ficar mais difícil, ao mesmo tempo em que as pessoas vão buscar cada vez mais por meios de aliviar o peso de sua vida pessoal com atividades psicoespirituais que funcionam como uma espécie de remédio. Isso vai continuar porque não há alternativa. A novidade do mundo hipermoderno é justamente essa. A modernidade do século 19, por exemplo, tinha um contramodelo que era sociedade burguesa de então. Ela sonhava com o socialismo e a revolução. Hoje, não temos um outro modelo para contrapor. Sabemos apenas que amanhã haverá ainda mais competição. É por isso que o desejo de revolução não tem mais consistência e o que domina, ao contrário, é o desejo de leveza. As pessoas procuram, cada uma a sua maneira, uma forma de aliviar o peso da vida.

Como é possível conciliar essa demanda de aceleração na sociedade de hoje com domínios do conhecimento e da vida que não podem ser mais acelerados do que já estão, como a educação, por exemplo?

A vida de hoje é clivada. Isso quer dizer que uma pessoa que leva durante a semana uma vida de louco em grande velocidade pode mudar de vida no final de semana. Não se trata de uma conciliação, mas de uma combinação, uma hibridação, uma justaposição. Nós temos muitas vidas na mesma vida, ao mesmo tempo, com modelos e ideais diferentes. No passado, a sabedoria era uma atividade que visava mudar completamente o mundo. Hoje, a prática da sabedoria – meditação, zen, desenvolvimento pessoal – não muda a organização do mundo. Ela permite apenas adaptar-se, respirar um pouco. Se você não gosta do seu trabalho, por exemplo, porque é monótono ou o chefe o aborrece, pode reunir-se com os amigos no final de semana e, digamos, fazer música com eles. Você consegue respirar assim. Acho que esse é o modelo do futuro. Não creio na unidade e na harmonia global. Penso que podemos ter momentos de harmonia que se destacam em um universo difícil.

O mundo parece viver um ressurgimento da direita, alimentado por um crescente sentimento anti-imigrantes e anti-Islã. Como essa tendência se relaciona com o que você escreveu no livro Metamorfoses da Cultura Liberal?

O movimento a que você se refere é alimentado pelo medo e pela insegurança com relação ao futuro. Há uma relação com a pergunta que você me fez antes. Porque o crescimento atual da direita não é próprio do mundo todo, mas sim de pessoas que se sentem ameaçadas. São elas que votaram em Donald Trump, por exemplo. Ele foi eleito por pessoas ameaçadas pela globalização. Mas as camadas sociais que estão inseridas na competição internacional não têm essa mesma reação. Evidentemente, a questão é o que vai acontecer amanhã. Não se pode responder a isso de maneira clara hoje porque depende da maneira como as sociedades vão reagir. Primeiramente, se as sociedades não conseguirem criar empregos e, em segundo lugar, se as ondas de imigração não forem controladas, a direita mais dura terá grandes chances de se desenvolver. Mas é preciso ser muito prudente nos prognósticos, porque as coisas mudam, não estão necessariamente escritas no desenvolvimento da hipermodernidade. Voltando a sua primeira questão, pode ser um momento puramente provisório. Não creio que o protecionismo proposto por Donald Trump seja o futuro. Ao mesmo tempo, a abertura das fronteiras e o livre comércio são uma coisa necessária e boa, especialmente para países emergentes como o Brasil, o México e a China. Como o mundo é grande hoje em dia, o movimento protecionista não parece ser agora a figura do futuro. É possível, mas não é certo. Devemos pensar em ter uma sociedade aberta, mas, ao mesmo tempo, é preciso que as nações do Primeiro Mundo sejam capazes de desenvolver um modelo social em que os indivíduos se reconheçam. E penso que, para isso, o sistema escolar é fundamental. Porque, se você tiver elites com pessoal competente e inteligente, capaz de inovar, acho que não existirá esse fenômeno protecionista de que estamos falando. Acho que, quanto mais tenhamos uma sociedade tecnológica, mais precisaremos de uma educação melhor do que antes.

 "Hoje, no mundo da leveza, tudo está aberto, nada é fixo, tudo está por construir. E, como tudo está por construir, tudo é extremamente difícil. Acrescente-se a isso que a globalização provavelmente não é algo passageiro e que a competição e a inovação vão se acelerar ainda mais. Você não sabe mais o que vai mudar amanhã e o que vai permanecer, tanto na economia quanto na vida privada."


Falando em crescimento da direita, como você vê a situação na França, onde as eleições presidenciais irão se realizar neste domingo?

A França está em uma situação nos últimos 20 ou 30 anos que não é aceitável, porque tivemos governos que não fizeram as reformas necessárias. O resultado é que não fizemos recuar o desemprego. Passamos por governos que tiveram medo de tomar medidas como as que os alemães, por exemplo, tomaram e que permitiram à economia alemã tornar-se extraordinariamente competitiva e eficaz. A França, não. É a mesma coisa com a Itália e os países do sul (da Europa). Não é culpa da globalização, é culpa dos políticos. São os políticos que, por razões eleitorais, não fazem as reformas necessárias. Então, estamos em uma situação na França em que o poder governante, o poder socialista de François Hollande, foi rejeitado pelos franceses como nunca antes. A questão hoje é que a campanha eleitoral é parasitada infelizmente por assuntos morais que tomam o lugar das questões políticas. Se você prestar atenção na mídia e nos jornais, verá que os temas da eleição não dizem respeito à política. Hoje, ninguém pode dizer como essa eleição vai evoluir! Tivemos o Brexit e a eleição de Donald Trump, episódios sobre os quais as pesquisas se enganaram. A situação é muito instável. Então, serei muito prudente como todo mundo (risos). Uma coisa que eu penso, mas posso estar enganado: não acho que Marine Le Pen possa ganhar. Ela pode chegar ao segundo turno da eleição presidencial, mas não vai ganhar. Acredito verdadeiramente nisso. Na minha opinião, a situação da França vem de erros de governos que viviam acima de seus meios via crédito e que não fizeram passar reformas suficientemente adaptadas ao universo aberto da globalização. A França é uma nação que foi feita pelos políticos. Neste país, tudo passa pelos políticos. Esse modelo é intimamente contraditório com a globalização, que é um universo governado pela economia. Os franceses se adaptaram mal a isso. O liberalismo e o mercado viraram sinônimos de satã. O Estado deve regrar tudo por aqui. Isso não é possível, sobretudo no mundo de hoje. Então eu penso que o governo de amanhã deve adaptar nosso país ao universo da globalização.

Por um lado, no mundo hiperindividual, as mídias tradicionais parecem perder cada vez mais o monopólio da informação. De outra parte, a difusão de notícias falsas e o que está sendo chamado de “pós-verdade”, tanto na internet quanto na grande imprensa, é preocupante. Qual é a dimensão real da importância dos meios de comunicação na formação da opinião pública hoje em dia?

Eles desempenham um papel enorme. A mídia teve uma importância considerável com o que se passou agora na Grã-Bretanha, porque os ingleses votaram pelo Brexit a partir de fake news. Foram difundidas pela mídia informações realmente falsas. Essa situação é muito mais importante hoje do que há 30 anos ou mesmo no começo deste século, porque, nas democracias do passado, havia um papel capital para os partidos políticos, com quem as pessoas se identificavam. Por exemplo, as pessoas que se definiam como católicas tinham um voto bastante identificável, assim como os operários votavam nos comunistas. Hoje em dia, as pessoas não têm mais confiança nos partidos. É como aí no Brasil, as pessoas rejeitam a classe política e suspeitam dela. Há uma suspeita a respeito de tudo, que é uma situação característica de nossa época. As pessoas não confiam mais nos deputados, nos ministros e também na mídia. A época hipermoderna é de desconfiança. Nos tempos anteriores, isso não acontecia de forma alguma: as pessoas acreditavam que Stalin tinha razão. Hoje, ninguém mais acredita na palavra política. No extremo, temos Donald Trump, que, não importa o que ele diga, as pessoas gostam, porque o que ele diz não é politicamente correto. Ele se endereça às emoções e, nessa situação, as fake news desempenham um papel essencial. É evidentemente grave e sobretudo triste para o futuro da democracia. E novamente vem a questão do quanto devemos investir em educação. Porque não podemos ser regrados pelo controle da informação, mas tão somente pela formação de qualidade dos cidadãos. E essa formação passa pela escola. Caso contrário, as pessoas googleiam, leem os blogs e não sabem fazer a distinção entre os que dizem coisas sérias e os que dizem qualquer coisa. Para ler uma informação é preciso luneta. Você acredita em tudo o que lê? Não é com a reforma da mídia que isso mudará, viu? É preciso algo muito mais profundo, que as nações se conscientizem dos riscos do futuro e formem um corpo de professores competentes, bem pagos e capazes de fazer corretamente seu trabalho para que os cidadãos não caiam na armadilha das fake news.

Isso pode ser entendido como uma recomendação ao Brasil?

Ao Brasil e à América Latina em geral. Olhem ao redor de vocês e vejam que os países bem sucedidos são aqueles que dedicaram um montante considerável de seus orçamentos à educação. Não há mistério. Vejam Cingapura, Finlândia, os países do norte. Todos investiram na formação de qualidade dos professores, no método pedagógico. É o futuro da democracia! Não é apenas a técnica que vai fazer nosso mundo. São os homens. E é preciso formar os homens.

Você já visitou o Brasil muitas vezes. Que papel você acha que o país desempenha na cena mundial?

O Brasil é um país imenso que tem tudo para ser bem-sucedido em termos de riqueza nacional. Mas isso não é suficiente para fazer a prosperidade de um país. O exemplo extremo é a Rússia, que sem dúvida é o país mais rico do mundo, mas é um desastre. Do lado de vocês há a Venezuela, que repousa sobre um tesouro de petróleo e está falida. A riqueza não é suficiente. Acho que o Brasil é bem sucedido em alguns aspectos, mas, como você sabe melhor do que eu, há um grande problema político. O sistema político não avança, há uma corrupção horrível, as pessoas não confiam mais. Dentro desse contexto, acho que é um país que tem uma cultura acolhedora e alegre, mas, ao mesmo tempo, vejo brasileiros muito estressados por causa das dificuldades da vida em um país que poderia ser muito mais bem-sucedido do que ele é. Penso que no Brasil há todos os recursos para se desenvolver, mas, de novo, não basta apenas isso. Mesmo que o Estado e a política sejam menos importantes do que no passado, eles continuam essenciais. É preciso fazer reformas, é preciso justiça e elites políticas de talento. Acho que o problema do Brasil não é a economia. Em primeiro lugar, há um problema considerável no domínio da política e provavelmente também da justiça social, com desigualdades insuportáveis. Isso é evidente: no Brasil, a 200 metros de uma favela há um condomínio de luxo. As desigualdades não são más, não sou contra elas, mas elas não podem paralisar um país. Penso que há um enorme trabalho a ser feito para que os brasileiros acreditem que o futuro é para eles, que devem se esforçar, mas que haverá justiça e que a corrupção, que é um enorme problema, será reduzida.

Você se considera otimista ou pessimista quanto ao futuro?

Ah, me considero um otimista! Penso que a humanidade representa uma aventura na história da Terra de escala excepcional e que, apesar de todas as coisas horríveis pelas quais atravessou desde a pré-história, ela sempre superou os desafios. E por quê? Penso que pela inteligência do homem. O homem é um animal que inova. Ele cria o problema com muita aflição e sempre é bem sucedido em superá-lo. Mas, ao mesmo tempo, ele recria o problema outra vez. O resultado final é que, apesar de tudo, os ideais que amamos, quer dizer, o humanismo, a liberdade, a igualdade, a democracia liberal, são valores cada vez mais partilhados pelas pessoas. Claro que há desigualdades, coisas ignóbeis. O que pode alimentar o otimismo é que, apesar de tudo, cada vez menos pessoas aceitam a escravidão, a dominação das mulheres, a vitimização das crianças. Por fim, temos três séculos de dinâmica da ciência. Sou um homem das luzes, racionalista, herdeiro do século 18. Acredito que a grande conquista da humanidade não é a moral. A moral está muito bem, amo ela como você, não há problema quanto a isso. Mas os grandes problemas, como a poluição, as mudanças climáticas, as desigualdades, exigem inovação, que repousa na inteligência dos homens, formada nos laboratórios, nas ciências, nas universidades. E observo que esse fenômeno explodiu por todo o planeta. Não há um país sequer que não faça pesquisas! A maioria da população do mundo participa hoje dessa inovação. Temos forças em nós, a força do humanismo democrático e da tecnociência. Penso que isso é uma aquisição considerável. Em países desenvolvidos e mesmo no Brasil as pessoas vivem mais, a miséria absoluta recua. Mesmo que haja coisas horríveis, não há por que ocultar que também existem coisas positivas. Não é o paraíso, mas sou otimista porque os valores que nos regem são os humanistas, mesmo que não sejam respeitados. Esses valores estão aí. Em segundo lugar, sou otimista porque usamos a inteligência e a racionalidade para fazer a humanidade progredir em direção a algo mais satisfatório.
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Reportagem por Roger Lerina - Zero HoA /DOC  Nº 60 22 E 23 DE ABRIL DE 2017
roger.lerina@zerohora.com.br

Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a9777161.xml&template=3898.dwt&edition=31058&section=4572
Foto Piere Virgili - divulgação

Fernando Henrique Cardoso: "O sistema político-partidário no Brasil acabou"


 Fernando Henrique Cardoso
 O antigo Presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso reconhece que as investigações de corrupção provocaram graves danos para a imagem do Brasil, mas acredita no funcionamento das instituições e na regeneração do país. Se aparecerem líderes capazes de mobilizar a sociedade para uma nova causa.

Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, fundador e presidente do Partido da Social-Democracia Brasileira, antigo Presidente do Brasil (1995-2002), não tem ilusões quanto à situação que o país atravessa: "É complicado", "é difícil", disse ao PÚBLICO, numa entrevista em Lisboa. Sem atenderem aos desejos de reforma da sociedade, os partidos perderam a predominância, mas ainda não fizeram a reflexão necessária para recuperar a confiança dos cidadãos, incrédulos com as revelações da mega investigação Lava Jato.
As notícias que nos têm chegado do Brasil, e já há alguns anos, são de crise económica, crise social, crise política: manifestações, impeachment, a mega investigação da Lava Jato... Tem andado muito pelo país e por fora: pensa que isto prejudicou irreversivelmente a imagem do Brasil?
Claro que tem prejudicado. A imagem do Brasil começou a fortalecer-se quando nós restabelecemos a democracia, acabámos com a inflação e estabelecemos programas sociais que diminuíram as diferenças de renda no país. Isso dava a impressão de que o Brasil tinha resolvido os seus problemas. Mas era uma ilusão. Houve possibilidade de aprofundar o que começou bem, desde a Constituição de 88 e até ao primeiro Governo do Presidente Lula, mas a uma certa altura, a partir da crise de 2007 e 2008, tiveram a ilusão de que era preciso crescer através do aumento do consumo e do crédito, sobretudo público. E isso criou uma bolha, uma expansão falsa de prosperidade. Quando a Presidente Dilma foi eleita, ela acentuou esses traços que vinham de antes, a nova matriz económica. Ela tentou ser mais ortodoxa no segundo mandato, mas as pessoas não acreditavam e a essa altura já tinham estourado os escândalos de corrupção. Muito frequentemente diz-se uma platitude: sempre houve corrupção. Mas não foi isso o que aconteceu no Brasil. Não foi a corrupção individual, foi a corrupção como instrumento de manutenção do jogo político e do poder. Isso foi novo. Começou com o Mensalão, e depois o Petrolão viu-se que a extensão era muito maior do que se imaginava. Isso abalou a imagem da capacidade do Governo brasileiro, e do Brasil como país. É inegável que isso mexeu com a imagem do país.

Mas acha que os danos são irreversíveis?
Irreversíveis não, nada é irreversível na História. E o Brasil conseguiu organizar instituições que operam, como agora. A despeito de tudo, as instituições funcionam: a justiça e a polícia são órgãos de Estado e não de Governo, o Congresso bem ou mal funciona. Não existe risco de golpe militar, os brasileiros não estão preocupados com isso. É um avanço qualitativo importante. Então não acho que seja irreversível.

A Lava Jato estendeu o manto da suspeita para cima de todo o sistema, universalizou a corrupção.
A Lava Jato destapou o que estava obscurecido. A política custa. A democracia precisa de ser financiada, quem paga? Não está resolvida essa questão. Agora, o que o petrolão mostrou foi a aliança entre empresas e Governo e o uso do dinheiro público para financiar os partidos. Você faz um contrato com o Governo, aumenta o preço do contrato e dá o dinheiro para a empresa que passa para o partido. É uma coisa de outra natureza. E isso vai acabar. As pessoas estão a ser punidas.

Em 2013, no auge dos protestos de rua, os brasileiros exigiam precisamente reformas políticas que nunca aconteceram. A Lava Jato veio acentuar bastante a repulsa da sociedade com a classe política. Acredita que com o actual Congresso sob suspeita há condições para avançar nesse sentido?
Sempre houve muitas manifestações de rua no Brasil, não é novidade. Mas recentemente houve um impacto maior porque tínhamos desaprendido que esses factos acontecem. E as manifestações tiveram um impacto grande. Mas o Congresso que está lá agora é o mesmo que tinha apoiado a Presidente Dilma, as forças políticas que estão são as mesmas. Não houve uma mudança para a direita ou para a esquerda. O que houve foi que as ruas começaram a reclamar, a situação económica agravou-se, o Governo demonstrou pouca capacidade de reorganizar a economia e foi perdendo capacidade de governar.

Perdeu a autoridade.
Perdeu autoridade e paralisou o processo de decisão. Pessoalmente, custei muito a aceitar a ideia de impeachment, porque eu sei que é sempre um processo traumático, mesmo quando tem razão de ser, e produz consequências que não são as melhores do ponto de vista das instituições. Mas chega um momento que não tem jeito. Você pode dizer: o Congresso foi atingido. É verdade, uma parte.

O Congresso foi atingido, o actual Governo está sob suspeita, com vários ministros sob investigação. E como diz, o Congresso é precisamente o mesmo. Quanto tempo é que o Brasil vai ter de esperar para que o sistema tenha condições para efectivamente mudar?
Eu classifiquei a situação dizendo que nós temos de atravessar uma pinguela, que é uma ponte precária de madeira. Se ela romper, você não tem nada, cai na água. E qual é a responsabilidade do Presidente que atravessa uma pinguela? É chegar ao outro lado, que é a eleição [em 2018]. Como? Primeiro você tem de fazer a economia renascer. Nesse aspecto o Governo tem feito esforço: a inflação caiu e houve um aumento recente de crescimento, 1,3% no mês passado. Começa a haver algum sinal. Mas esse sinal não pode ficar separado da política. Se a política começar a desandar muito afecta a retoma.

A taxa de popularidade do Presidente Temer é de 10%.
Ele não foi eleito pelo voto popular, então perguntar a popularidade é uma inconsequência. Mas ele está a tentar utilizar os instrumentos de que dispõe, que são basicamente o Congresso apoiar medidas. Vai conseguir? Já conseguiu alguma coisa.

A chamada “delação do fim do mundo” [dos dirigentes da construtora Odebrecht que estão a colaborar com a Operação Lava Jato] já travou a reforma da previdência, e outras medidas estão em causa.
É complicado. Mas eu acho que há outro dado que é o seguinte: para nossa sorte, o ciclo de commodities hoje é positivo. Isso dá uma certa folga, entra dinheiro no circuito económico. Se o Governo conseguir criar um clima de confiança e se houver uma eleição da qual resulte algum candidato que abra um rumo para o país, dá para recuperar o que se perdeu. Não é uma saída imediata, mas não é um beco sem saída.

Os dados económicos têm ajudado, mas as eleições são já no próximo ano e não sabemos quanto mais tempo poderá durar a Operação Lava Jato que atingiu globalmente a classe política brasileira. A renovação a fazer seria grande. Acresce que as sondagens dão Lula da Silva como o candidato largamente mais popular.
Sim, mas também largamente o mais rejeitado, 60%. Qualquer previsão eleitoral agora é precária e precipitada, porque é preciso ver o que vai acontecer com os partidos.

Mas não o surpreende que nesta fase do campeonato apareça uma sondagem onde Lula da Silva tem 47% das intenções de voto contra 22% de Aécio Neves?
É muito cedo para fazer previsão. E não esqueça que há segunda volta no Brasil, e aí polariza. Quando é que o Lula conseguiu ganhar? Quando penetrou na classe média e teve apoio dos grandes empresários. Hoje não tem, tem o que é dele até agora. E os efeitos reais da Lava Jato vão aparecer na campanha.

Na sua opinião, o que é que isso diz do sistema político partidário brasileiro que o PT não tenha outro candidato que não seja Lula da Silva?
O sistema político partidário acabou. Acabou!

Acabou tudo? Acabaram todos os partidos?
Não, os partidos vão continuar lá, mas perderam a predominância que tinham porque mudou a cabeça das pessoas. Eu acho prematuro fazer apostas sobre quem vai ganhar, mas não é prematuro os partidos perguntarem: por que é que eu cheguei a esse ponto? É uma crise de confiança.

E vê os partidos a fazer esse exercício no Brasil?
Não estão fazendo. Eu escrevi que o algoritmo da política mudou. O que mexe com as pessoas para votar é outra coisa hoje. A sociedade mudou, fragmentou-se muito e os partidos mais ainda. Mas não há mais a correspondência que existia no passado entre a sociedade e o partido. No Brasil, a fragmentação do Congresso vem junto numa fragmentação da sociedade só que não há uma correspondência entre um e outro. E não tem uma estrutura política que seja capaz de unir.

Como se desata esse nó?
Precisamos de lideranças. Hoje as pessoas já não se mobilizam em função de interesses partidários e políticos em sentido estrito, mobilizam-se eventualmente por causas: a paz, a participação das mulheres, a ecologia, a moral – esse vai ser um factor grande na situação brasileira, “eu sou a favor de um comportamento mais transparente, eu não quero mais saber de político que enrole”. O político de modo geral enrola no modo de falar. Os que estão a ganhar no mundo de hoje, inclusive no Brasil, são aqueles que vão cara a cara, dizem o que querem, o que pensam, o que são. Não dizem que são uma coisa e fazem outra, isso desmoraliza.

Enrolar, na política, é a maneira de não correr riscos.
Mas tem de arriscar. O enrola não funciona mais. Você tem de abrir o jogo. Não adianta mais você esconder, porque tem isso aqui [aponta o smartphone], tem a rede social, tem os media

O Presidente diz-nos que não vê os partidos a fazer essa reflexão, mas ou eles a fazem antes da eleição que vem, ou o poder político, mesmo com um Presidente diferente, acabará mais ou menos da mesma maneira.
Mas quem vai ser eleito provavelmente em 2018 será alguém que será capaz de dizer e de fazer essas coisas.

Vê alguém no Brasil que tenha essa capacidade de liderança?
Vou dizer como o [prefeito de São Paulo] João Dória ganhou a eleição. Ele é um empreendedor, é rico. Foi para a campanha e disse que ele era isso mas que também era joão trabalhador. Há um modo de comunicação com o povo que é diferente. O próprio Lula tinha uma capacidade de se comunicar pelo que ele era. Agora estão a mostrar, na Lava Jato, que ele não era o que ele dizia que era. Porque é que Jair Bolsonaro, uma pessoa que queria fuzilar-me quando eu era Presidente, tem tanto apoio? Porque ele é afirmativo. Ele não diz que é de direita, ele diz que é a favor de matar bandido. E isso dá voto. Tem limites, mas dá voto. Não estou a dizer que eu goste disso. Mas é a sociedade como ela é hoje.

E essa sociedade tem crescido na bancada da bala, na bancada evangélica…
Sim, a representação política cresceu por aí. Mas quem mais cresceu na última eleição foi o PSDB, o que não garante que vá crescer mais depois. Hoje tudo no Brasil está um pouco entre parêntesis. Tudo vai depender do posicionamento que seja atribuído não aos partidos mas às pessoas. E vai ser preciso mexer nas instituições. Não se pode governar com 28 partidos no Congresso.

Mas os partidos são indispensáveis.
São indispensáveis mas não podem ser 28. Não há 28 posições políticas, eles não correspondem a uma diferenciação real.

Acha portanto que é preciso mexer nas regras do sistema político e da eleição do Congresso?
É preciso, e já há leis nesse sentido.

E já agora, face a tudo o que tem acontecido, é preciso mexer nas regras do poder judicial?
O Supremo Tribunal ganhou proeminência no Brasil, na medida em que o executivo perdeu prestígio e o Congresso também. Então as pessoas defendem-se dizendo que o judiciário está com muito poder. A situação não se resolve mudando na lei o poder do judiciário, resolve-se elegendo pessoas que tenham legitimidade e possam ter uma posição respeitada, até para o judiciário. Eu não vejo que haja uma distorção do judiciário.

Numa intervenção em Lisboa, em jeito de resposta às notícias que davam conta de uma alegada articulação sua, do Presidente Temer e Lula da Silva para abafar a Lava Jato, referiu-se ao ambiente de pós-verdade que vivemos hoje. Preocupa-o essa tendência de pós-factos e fake news?
Isso existe hoje porque há realmente muita informação e muita informação que não corresponde a nada. Aqui em Portugal, quando eu respondi, eu quis saber: qual é o facto? Você diz haver um acordo comigo, com o Lula e o Temer, baseado em quê? Estivemos juntos, mandamos algum emissário? Não há nada. Mas eu tenho que prestar atenção a essa pós-verdade, porque na política actual a pós-verdade é um fantasma que existe.

Pergunto se é só um fantasma ou se tem real influência no eleitorado.
Mas tem! O fantasma existe, nos media, nas redes sociais e também na política. Não se pode ficar soberbo, sem reagir às notícias fantasmagóricas. É preciso explicar. Neste caso, eu fartei de dizer “não é verdade”. Eu estive com o Lula quando morreu a mulher dele, foi uma coisa de ordem sentimental, pessoal. Mas eu não tive nenhuma conversa com ele a respeito de nada, muito menos sobre Lava Jato. Eu sou contrário a que se faça qualquer movimento de tentar abafar. Não se consegue, mesmo que se queira.

O ex-ministro Nelson Jobim diz que o senhor e Lula eram os únicos com capacidade para promover um entendimento nacional que evitasse a eleição de um “Trump caboclo”. Concorda? Acha que são os protagonistas com mais legitimidade para tentar corrigir o sistema brasileiro?
Se fosse assim até que seria fácil. Mas há mais interesses e mais parceiros em jogo. Eu nunca me neguei a conversar mas tem de se dizer sobre o quê: qual é a agenda? O melhor é ter uma base. Eu entendo a proposta do Jobim, ele está justamente querendo evitar que haja uma radicalização, mas os pólos não somos eu e o Lula. Eu pelo menos não sou pólo de nada e muito menos de um pensamento conservador que eu não tenho. Eu acho os partidos deviam conversar em redor de um tema: o que vamos fazer com a situação político-partidária, com o sistema eleitoral? É preciso ter clareza. Para reaver a confiança, você tem de jogar mais claro. O que a Lava Jato fez foi mostrar as bases reais do poder. Está mostrado. A minha posição nessa matéria é: agora quem tem de julgar é a justiça. Tem de começar a separar o joio do trigo. Tem de começar a distinguir, não para absolver, mas para penalizar de forma diferente e mostrar à sociedade que as pessoas não agiram todas da mesma maneira. Porque se tudo é igual, e tudo é ruim, então não tem política.

Quando todos os políticos são mencionados, todos os Presidentes incluindo o senhor, isso não promove essa suspeita de que é tudo igual? E não há o risco de, como dizem no Brasil, dar em pizza [não dar em nada]?
Não pode, se não foi um esforço inútil. E não vai virar pizza. Já houve consequências. Quantos estão presos? Como eu não sou Torquemada, eu não acho que isso se resolva pondo todo o mundo na cadeia. O país tem de ser dirigido, tem que ter gente capaz de fazer essa mediação, em nome do interesse público. Os partidos ou os líderes que mostrarem isso vão ter voto.

O discurso do Presidente Lula não ajuda a essa clarificação, e percebe-se porquê, é um discurso de defesa.
Qual é a coisa grave do ponto de vista político para o Lula? É que mostra o que estava por trás. Pode dizer-se que é perseguição, mas quando há factos o que há a fazer? Quando você está no nível da narrativa, pode inventar uma narrativa que seja crível, mas só dura enquanto durar a falta de factos. Não é fácil a situação, e eu não fico feliz com isso. Não é bom, é ruim. Mas o bem público exige que as pessoas sejam punidas. E isso vale também para o meu partido.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

A falta que faz o conversar



Costumo ressaltar a diferença enorme que existe entre o ouvir – usar o aparelho anatômico da audição – e o escutar. Este, a capacidade de assimilarmos o que foi ouvido, metabolizando-o à luz dos nossos conhecimentos e valores morais, refletindo e tirando conclusões sem açodamento ou preconceitos. Como se vê, uma arte dificílima. Também ressalto a diferença substanciosa que existe entre o olhar e o enxergar. O primeiro, representando a simples utilização da estrutura ocular, comum a quase todas as espécies animais. De certa forma, corresponde ao ouvir. Todavia, ao humano realmente evoluído, o olhar é apenas o ato inicial do enxergar, que é a compreensão exata – ou a mais próxima disso – daquilo ou daquele que se coloca diante dos nossos olhos. Enxergar corresponde, de certa forma, ao escutar, pois vai muito além do órgão anatômico do sentido, para o penetrar, profundamente, no que olhamos.

E o falar, tem também suas duas dimensões, sendo ele a mera articulação racional – ou não – das palavras que conhecemos, e às vezes até mesmo daquelas que mal sabemos pronunciar, inclusive ignorando o seu significado. Percebemos isso escutando certas pessoas pernósticas, ou alguns oradores de ocasião, ávidos de exibir erudição e buscando seus sonhados minutos de glória, mas carecendo dos mais comezinhos princípios da retórica, e – que tragédia! –     do idioma em que pretende colocar suas ideias (se é que as têm…).  Resumindo, qualquer pessoa é capaz de falar, entretanto são poucas as que conseguem conversar. Pois no universo da comunicação ele é, de certa forma, o correspondente ao enxergar e ao escutar, sendo porém uma arte bem mais nobre, mais complexa e mais gratificante para os que interagem. Quem bem conversa, bem enxerga, melhor escuta. E somente quem vai além de todas as limitações dos órgãos anatômicos: olhos, ouvidos e boca, é que logram escutar, enxergar e conversar, fazendo-o com absoluta autenticidade, humildade e generosidade, jamais por encenações que logo são desmascaradas. E os que o fazem genuinamente, são aquelas pessoas com quem nos deleitamos disfrutar de sua companhia. São aquelas de quem nos recordamos, sempre que temos necessidade de compartilhar tristezas ou alegrias, derrotas ou vitórias. Na área profissional, são os médicos, psicólogos, advogados, sacerdotes e pastores, mestres, jornalistas entrevistadores, etc. mais requisitados – mesmo (e especialmente) não sendo figurões, pois esses geralmente são frutos artificiais do marketing, hoje bastante agressivo em quase todas as atividades. Na vida familiar, onde não há espaço para o marketing, o diferencial é a disposição interior e pessoal de cada um, para acolher os que o procuram. Nos círculos de amizade, conhecemos bem aqueles que se aprazem em escutar, que não se impacientam com a fala do outro, que têm real interesse em conhecer o que o interlocutor está compartilhando com ele. Por outro lado, são notórios e cada vez em maior número, aqueles que estão sempre ávidos a encontrar um espaço para interromper quem fala, e logo despejar falação sobre si mesmos, sobre seus feitos, sobre suas maravilhas, sobre seu modo de pensar, sobre suas predileções – e muitas vezes também de seus familiares – sem terem escutado uma só palavra do que o outro disse. Na realidade, somente ouviam em prontidão para perceber um almejado ponto final, ou pelo menos uma vírgula, na fala do outro, permitindo-lhes tomar imediatamente a palavra. Às vezes o grau de ansiedade é tanto, que nem a pontuação aguardam. Simplesmente ignoram a fala do outro e iniciam a sua verborragia individualista. São os comumente denominados “desmancha-bolinhos”.

Outra situação onde a arte de conversar assume enorme importância são os momentos de discussão, onde diferentes pontos de vista se chocam. Isso ocorre especialmente no âmbito familiar. Nesse momento revelam-se os bons e os maus conversadores. Os bons escutam, procurando entender o que o outro realmente quer expressar. Também enxergam cuidadosamente para ver, além das aparências, o que o corpo daquela pessoa está dizendo além das palavras. Assim superam preconceitos, prejulgamentos e agressividades. São compassivos e conseguem amenizar e até apaziguar as mais complexas situações. Já os maus conversadores, não se interessam pelos sentimentos, nem pela opinião alheia. Julgam-se os donos da verdade, só eles estão certos, ouvem ofegantes e por isso quase nada escutam, estando sempre na defensiva e enchendo os pulmões de ar para, na primeira oportunidade, contestar com todas as forças o que os outros possam ter dito. Mesmo sem ter assimilado o que disseram. Para eles, o importante é ganhar a discussão e não necessariamente chegar a um consenso que atenda a todos. E muito menos admitir que sua posição nem sempre é a melhor, nem mesmo a mais certa.

Por isso a humanidade anda tão agressiva, e as pessoas tão recolhidas à sua conversa solitária nas máquinas eletrônicas, onde falam o que querem, não precisam escutar nem cuidar da forma ou do estilo, muito menos de uma fala escorreita. Sabem que não serão interrompidas e, a qualquer desconforto, é só dar um clique e … que pena! O sistema caiu!
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* EVALDO D’ASSUMPÇÃO é médico e escritor. Publicado em O TREM Itabirano, n. 139, abril de 2017, p. 4. Itabira-MG.
Fonte:  https://espacoacademico.wordpress.com/2017/04/19/a-falta-que-faz-o-conversar/

A história para crianças que Jorge Luis Borges nunca escreveu

Ilustração da história infantil ‘El Secreto de Borges’.
Ilustração da história infantil ‘El Secreto de Borges’. pequeño editor
O argentino a contou em 1981 para um grupo de estudantes 
que o visitou em casa

Jorge Luis Borges inventou uma história infantil. Nunca a escreveu, mas a história sobreviveu ao esquecimento, uma palavra tão borgeana, graças à memória de uma das crianças que há 36 anos o ouviu com atenção infantil no apartamento do escritor no centro de Buenos Aires. Essa criança é hoje um adulto chamado Matías Alinovi. Estudou física, mas também é escritor. Por isso foi a pluma por trás do livro El Secreto de Borges (O Segredo de Borges), que a Pequeño Editor lançará no fim de abril, durante a Feira do Livro de Buenos Aires. Diante de uma bandeja de “balas importadas”, Alinovi e seus colegas da 4ª série da escola religiosa San Marón ouviram o segredo da longevidade de Borges, uma história que improvisou na hora para uma auditório pouco comum a sua rotina de estrela das letras argentinas. O livro de Alinovi recupera aquele relato oral a partir do olhar de um menino de nove anos, mas é muito mais do que isso.

A primeira coisa que Borges revelou às crianças foi que antes da chegada delas tinha dois medos. “O primeiro era que fôssemos, porque não sabia sobre o que falar com as crianças da 4ª série. Mas o segundo medo, que era mais forte do que o primeiro, era que não fôssemos. Não se entendia bem o que dizia”, escreve Alinovi. A partir daí começou o feitiço.
Matías Alinovi, autor de ‘El Secreto de Borges’.
Matías Alinovi, autor de ‘El Secreto de Borges’. pequeño editor
“Vou contar a vocês como pude viver tantos anos”, disse Borges às crianças que o ouviam sentadas no chão em semicírculo, enquanto “olhava para cima, mas não via, e a cortina atrás da poltrona verde era muito branca e muito bonita por causa da luz do sol”. E o escritor revelou-lhes o segredo das tartarugas que viviam no poço de onde tirava a água que bebia na casa de sua infância, no bairro de Palermo. “Disse que ele, um dia, se pusera a pensar e percebera uma coisa: a água que havia tomado quando era criança não era água, mas água de tartaruga. E como as tartarugas viviam muito, ele tinha vivido muito”, escreve Alinovi no livro, ilustrado em tons negros e verdes por Diego Alterleib. O texto é simples e recupera os bastidores daquele encontro, com detalhes tão ricos quanto a própria história.

Porque a rota que leva as crianças ao apartamento de Borges merece um livro por si só, e assim o entendeu Alinovi, que conta a história que guardou na memória por quase quatro décadas como uma história infantil. “Lembro-me bem daquele dia, mas não sei se me lembro porque me lembro ou porque revisitei muitas vezes a cena”, diz Alinovi ao EL PAÍS. “Estava com o meu amigo José Manuel na saída da escola, um dia de tarde, e me lembro bem o momento em que ele me disse ‘hoje eu vou à praça, mas vou com Borges’. A sensação que quis transmitir é que esse Borges, o Borges que ouço de José Manuel, era um dado completamente neutro. Digo isso com os termos de [Ernesto] Laclau, era um significante vazio. Ali operou uma coisa muito bonita, porque era um significante vazio no qual eu coloquei algo, e o que coloquei nesse significante foi o rosto de José Manuel, que me disse ‘que chatice, não vai ser tão bom ir à praça”, diz. A partir daí, as crianças brincam com a história desse Borges “sem significado” e com a pressão dos adultos, conscientes de que estavam diante de algo que merecia atenção.
A história para crianças que Jorge Luis Borges nunca escreveu
pequeño editor
O que carrega o significante vazio do Alinovi criança? “O primeiro passo foi minha mãe. Quando eu contei a ela que José Manuel ia com Borges à praça ela disse, e eu lembro o tom maternal que usou, ‘não Matías, olha, Borges é um escritor muito famoso. José Manuel deve ter ouvido o nome por aí e te disse isso’. Mas José Manuel não estava mentindo. O menino era neto de Fanny, a governanta de Borges por mais de 40 anos e naquela época morava na casa de Borges. Na qualidade de inquilino tinha algumas obrigações, como acompanhar Borges à praça se sua avó pedisse.

O passo seguinte foi na escola. “A segunda coisa que me surpreendeu como criança foi a atenção em relação a José Manuel, que era um garoto menosprezado pela professora, uma freira. No dia seguinte ela se ocupou particularmente dele dizendo-lhe ‘mas como pode ser isso, menino?’ José Manuel respondeu, ‘é que eu moro com Borges’, e isso foi uma mudança impressionante na forma como a professora o tratava. Lembro que ela disse, ‘bom, você poderia perguntar a ele se as crianças da 4ª série poderiam ir à sua casa?’. No dia seguinte, José Manuel trouxe uma mensagem: “disse que sim’”.
A história para crianças que Jorge Luis Borges nunca escreveu
pequeño editor
Então foi preciso organizar a visita, especialmente porque tinha de estar sob o controle da escola. A professora pediu que as crianças preparassem as perguntas que quisessem, mas logo teve de “discipliná-las”. “Maximiliano queria perguntar quantas vezes tinha ganhado o prêmio Nobel. E Liliana, outra colega, queria perguntar quantas vezes havia se casado. As perguntas eram geniais. Crianças que não sabem nada apontaram e acertaram dois tiros no eixo de flutuação de Borges: o Nobel e as mulheres”, diz Alinovi.

Borges morreu em 1986, cinco anos depois daquele encontro com os estudantes da escola do bairro. Alinovi não voltou a vê-lo, mas guardou o registro da história que ouviu no apartamento da rua Maipú graças a um pequeno gravador que sua mãe lhe deu para a ocasião. O áudio original foi perdido sob alguma gravação descuidada, mas permitiu que Alinovi rememorasse várias vezes a conversa com Borges. Durante anos, a história deu voltas na cabeça do autor, até que ele encontrou a forma mais adequada de contá-la. “A única justificativa dessa história é recuperar a extraordinária capacidade de Borges para improvisar uma história diante de crianças da 4ª série. Porque ele improvisou. Tenho a sensação de que a tarde caiu em cima dele, Fanny deve ter dito ‘lembre-se que hoje vêm as crianças’, o sentaram e ele inventou uma história”, conta. A única história infantil do autor de Ficções não está no papel, mas sobreviveu na memória, onde venceu o esquecimento. Uma batalha digna de Borges.
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 Texto de Federico Rivas Molina - Buenos Aires
Fonte:  http://brasil.elpais.com/brasil/2017/04/12/cultura/1492026316_087282.html

A ESCOLA CONTRA O CORPO

Eliane Brum*
170418-Escola
Tentativa de censura a um livro didático, no norte do país, mostra que a ignorância não é apenas uma tragédia nacional, 
mas um instrumento político usado por milícias de ódio 

Por Eliane Brum, no El País

No final de março, um grupo de pais de uma escola pública estadual da cidade de Ji-Paraná, no norte do Brasil, entregou um abaixo-assinado ao Ministério Público de Rondônia. Eles exigiam a retirada da sala de aula de um livro de ciências cujo conteúdo de educação sexual seria “impróprio” para alunos da oitava série do ensino fundamental. O desenho de um pênis ereto, usada pelas autoras da obra didática para explicar o funcionamento do órgão, é um dos principais motivos da tentativa de censura. O pinto duro não deveria estar lá.

Neste pequeno grande acontecimento há muitas tragédias. E todas elas contam de nós. Há quem ache bizarro. Eu só consigo achar triste. Seria mais fácil se este fosse um caso isolado, numa escola pública do interior de Rondônia, no norte do Brasil, lugar distante para a maioria. Seria mais fácil, mas falso. É preciso prestar muita atenção ao que está acontecendo no Brasil: incitados pelos novos inquisidores, cada vez é maior o número de fogueiras onde queimam livros, reputações e, principalmente, direitos.

É na Escola onde tudo se articula.

1) Por que querem castrar um livro didático?
Uma das mães afirma ao portal G1, da Globo: “Neste livro, eles incitam a criança, que está no início da adolescência, a descobrir a vida sexual. Também vulgarizam a virgindade da criança, dizendo que ela pode sofrer bullying e que, se ela perder a virgindade, pode ser melhor”.

O coordenador regional de educação, José Antônio de Medeiros, diz ao portal UOL: “Este livro traz uma abordagem sobre sexualidade e tem ilustrações, de certo modo, até um pouco agressivas. Ficou muito explícito as simulações de carícias, de estímulo sexual, e até umas imagens demonstrando penetração, mostrando o órgão sexual masculino e feminino…”.

O vereador de Ji-Paraná, Johny Paixão (PRB), afirmou à TV Globo que os temas do livro podem incitar à prática não consensual do sexo. “Meu compromisso com eles (pais) é lutar com todas as forças possíveis para que nós venhamos a retirar esse livro da sala de aula, porque ele é tendencioso. As imagens são tendenciosas. Elas afloram a sexualidade. Por que vou aflorar a sexualidade se as crianças não podem fazer sexo?”.

Dito assim, a impressão de quem lê as matérias e assiste às notícias sobre a “polêmica” é de que o livro Ciências 8o ano – Ensino Fundamental II da coleção Projeto Apoema (Editora do Brasil) é uma espécie de Kama Sutra escolar.

2) Mas o que diz o livro ameaçado de fogueira pelos novos inquisidores?
Tenho um hábito cada vez mais raro: antes de opinar sobre um livro ou um texto, eu o leio. Esta frase pode ser interpretada como ironia. Gostaria que fosse. Quero deixar explícito que não é. Infelizmente.
A seguir, um trecho do capítulo 5, intitulado “Adolescência”, do livro indicado para adolescentes de 13 anos ou mais:

“Nos últimos 30 anos, tem-se falado muito sobre sexualidade. Propuseram-se diversas teorias, realizaram-se vários estudos, e o tema é até hoje explorado nos jornais, nas revistas e nos programas de televisão. No entanto, muitas vezes, há uma idealização da vida sexual, dando a falsa impressão de que existe uma fórmula única de viver plenamente a sexualidade, um padrão sexual, um modelo rígido ao qual todas as pessoas devem se adaptar (…). Cada um pode viver muito bem, e plenamente, do seu jeito e conforme sua orientação. O importante é fazê-lo com responsabilidade e ter direito à informação e espaço para expressar suas opiniões”.

Num outro ponto, o livro reproduz a fala de um médico ginecologista: “É preciso lembrar que o sexo é bom quando é bom para os dois”. E segue: “O médico explica que ser virgem não significa de maneira alguma estar fora do mundo atual, mas estar em um momento de reflexão: ‘A pessoa virgem ainda não se sente preparada para enfrentar a relação sexual com a maturidade que ela merece. E isso independe de idade’”.

Há ilustrações de um homem na fase infantil, adolescente e adulta. Nenhum deles é eunuco. Deveriam ser? Se fossem, haveria um problema, já que homens castrados e com pênis decepados, na nossa sociedade, são vítimas de violência. Há também o desenho de um pênis “flácido” e de um pênis “em ereção”, para ilustrar a explicação sobre anatomia e aspectos biológicos: “O tamanho do pênis varia entre os homens e não tem relação biológica com fertilidade nem com potência sexual”.Outra reclamação se refere a uma série de ilustrações que ensinam as mulheres a realizarem o autoexame de mamas, como um ato de prevenção ao câncer. E, sim, nas imagens a mulher tem seios. Se não tivesse, haveria um problema de informação, já que mulheres têm peitos, dos mais diversos formatos e tamanhos, mas decididamente peitos. Sem contar que seria difícil ensinar a fazer o toque, no exame preventivo, sem que houvesse um seio no desenho. Como detectar um caroço ou uma alteração suspeita num seio sem um seio? E haveria ainda mais uma complicação: mulheres mastectomizadas, na maioria das vezes, perderam os seios devido ao desenvolvimento de tumores, exatamente a doença que este capítulo do livro pretender colaborar para prevenir.Reproduzi aqui os principais pontos atacados. Mas o livro ainda não foi proibido e pode ser lido por todos, para que tirem suas próprias conclusões.
 
Uma das páginas que gerou o abaixo-assinado.
Uma das páginas que gerou o abaixo-assinado. REPRODUÇÃO
 
3) Como ler a tentativa de censura?
Minha primeira hipótese é a de que as pessoas que atacaram o livro não leram o livro. Lembrando que ler é bem diferente de apenas passar os olhos. A diferença entre o que é dito sobre este capítulo do livro e o que está de fato escrito no livro é enorme, como se pode ver nos exemplos citados. Em alguns momentos, o que dizem que o livro disse é exatamente o oposto do que o livro de fato diz. Como é possível?

Aqui, estamos diante de duas tragédias contemporâneas, explícitas nas redes sociais da internet. A primeira delas é que as pessoas não leem, mas mesmo assim jogam o texto na fogueira. Ou leem apenas o enunciado e dão uma olhada nas imagens e “queimam” o livro. E, como ler exige tempo e atenção, mas reproduzir o discurso de ódio leva apenas um segundo, em pouco tempo as chamas já incineraram o alvo do ataque. Isso vale para livros, como é o caso, vale para reputações. Assim, livros que exigiram anos de pesquisa de seus autores, como é o caso deste, ou reputações construídas ao longo de uma vida inteira, são destruídas sem que uma parte dos linchadores perceba a violência e a amplidão do seu ato.

A segunda tragédia é a da própria educação. A internet escancarou uma realidade conhecida, mas cujas proporções não tinham ficado tão claras até então. Muitos leem de fato o texto, o livro, mas não conseguem interpretá-lo. Qualquer frase um pouco mais elaborada ou mais longa ou menos direta se torna um enigma. Ironias não são compreendidas, metáforas são decodificadas como literalidades. Pessoas têm alcançado a universidade sem conseguir interpretar um texto.

É possível que parte destes pais – parte – tenha lido o capítulo do livro e não tenha conseguido interpretá-lo, adotando assim a versão que estava disponível. E se a versão que estava disponível era a da necessidade de proteger os filhos do mal, ali representado pelo livro, podemos supor que pode ter se tornado fácil aderir ao protesto. Aderir sem uma reflexão maior que poderia, inclusive, ter sido proporcionada pela escola.

É fácil culpar os pais e apontar uma suposta ignorância. E, vale a pena deixar claro, uso ignorância neste texto no sentido daquele que ignora um fato ou informação, daquele que não teve ou não tem acesso ao conhecimento. Como parte de uma sociedade, somos todos responsáveis pela tragédia educacional. É muito triste que as pessoas não consigam ler ou interpretar um texto ou por falta de acesso à escola ou porque a escola que deveria ensiná-lo não foi capaz de fazê-lo.

Quando alguém passa pelo sistema educacional e chega à vida adulta sem condições de interpretar o que lê isso representa uma traição àquela pessoa, com graves consequências para a sua vida e para a vida da comunidade. Assim, se parte destes pais são algozes de um livro, são também vítimas de um sistema educacional em que, com poucas exceções, a escola pública tem prédios precários e cheios de problemas, a maioria dos professores é mal paga e uma parcela deles é mal preparada, uma escola pública onde falta até mesmo o básico. E, ainda assim, contra tudo, muitos profissionais lutam para criar espaços de qualidade e educar a população.

É importante lembrar ainda que os pais e mães deste abaixo-assinado fizeram um percurso. Eles levaram suas questões até a autoridade na área da educação e buscaram a Câmara de Vereadores. O coordenador regional de educação e o vereador que assumiu a “causa” têm uma responsabilidade pública e devem responder publicamente por ela. Como se vê nas matérias, seguiram o caminho do ataque fácil. Do representante da educação, em especial, seria legítimo esperar uma abordagem mais responsável.

Contradições não devem ser contornadas, mas acolhidas e enfrentadas. Este episódio, surgido a partir do susto de uma mãe, poderia ter se tornado uma oportunidade de encontro, de diálogo e de reflexão coletiva, inclusive dentro da escola. Mas, por irresponsabilidades variadas, da qual não escapa a imprensa, assumiu de imediato contornos de fogueira. É assim que os cada vez mais escassos espaços de debate estão sendo interditados neste país.

4) O que o pinto duro tem a ver com isso?
Não é possível ignorar o tema que alimentou a fogueira. Fosse outro, talvez a leitura tivesse se mostrado mais acessível e a interpretação do texto não sofresse tanta interdição. Mas era de educação sexual que se tratava. E de um mito (ou seria tabu?) muito difícil de ser desmontado, que é o da criança assexuada. Ele aparece em todas as falas reproduzidas pelas matérias da imprensa. A ideia de uma criança sem sexualidade se confunde com a própria invenção da infância na modernidade, já que em outros períodos históricos pessoas desta faixa etária não eram vistas desta maneira.

Os principais pensadores da infância derrubam esse mito. Mas ele persiste. E aparece das mais variadas formas, muitas delas inconscientes. Se alguém observar as matérias de imprensa, por exemplo, vai descobrir frases como esta: “Homens, mulheres e crianças…”. Ou seja, as crianças não são homens e mulheres, mas seres assexuados. Eu mesma cometia esse equívoco, sem perceber o que fazia, até ser alertada por uma amiga. Passei a usar então “Adultos e crianças, homens e mulheres…”.
A ideia de que as crianças são “puras” e que uma das provas disso é que não teriam sexualidade é amplamente difundida no senso comum. E assim os pais acabam por reprimir qualquer manifestação que desminta essa crença. Para piorar, a repressão é respaldada por algumas religiões. Isso não significa que as crianças terão relações sexuais, obviamente. Seu corpo nem está preparado para isso. Mas significa que vão se tocar, descobrir o corpo, e que não há nada de errado com isso. Pelo contrário. É saudável que se descubra também o próprio corpo na idade em que tudo se descobre.
Aos pais cabe orientar e respeitar seus filhos e filhas, ajudando-os a se tornarem adultos capazes de respeitar o corpo e o desejo do outro e capazes de respeitar seu próprio corpo, fazendo do sexo uma experiência prazerosa e responsável quando o momento chegar. E é também pelo conhecimento que se conhece e se respeita o próprio corpo e o corpo do outro. A ignorância é uma grande aliada da violência que se faz consigo mesmo e com o outro.

Se é mais fácil reprimir as crianças exatamente porque são crianças e dependem para tudo dos pais, o mesmo não se pode dizer dos filhos na fase que se nomeou “adolescência”. E este talvez seja o susto de parte destes pais. Não há nenhum mistério nisso. Qualquer um, eu e você, estivemos lá (na adolescência) e nos lembramos muito bem. Estes pais também devem se lembrar que um dos principais interesses – ou talvez o principal interesse – era justamente sexo.

Assim, acusar o livro, como fez uma mãe e o vereador, por fazer “aflorar o sexo” em adolescentes de 13 anos ou mais é uma negação completa da realidade. Aos 13 anos, a maioria dos humanos quase só pensa nisso, o que não significa que vai fazer sexo com um parceiro ou parceira de imediato, passar do pensamento ao ato, da masturbação à relação sexual com outro corpo. Esta é uma decisão que cada um deverá tomar no seu tempo, com conhecimento e responsabilidade e respeito com seu corpo e com o corpo do outro, como o próprio livro tão bem sublinha.

Do mesmo modo, considerar que o desenho de um pênis ereto vai surpreender algum adolescente não faz qualquer sentido. Com permissão para uma brincadeira, porque o tema deveria ser também lúdico, o que talvez surpreenda mais um menino nesta faixa etária é o desenho do “pênis flácido”. Do mesmo modo, é comum uma menina conferir várias vezes por dia no espelho se seu peito cresceu, apalpando-o e acariciando-o, sem qualquer problema em ter prazer com isso. Assim como é natural tocar seu pênis ou sua vagina para descobrir o que lhe dá prazer e conhecer seu corpo, o que também vai ajudá-lo a ter prazer e dar prazer ao outro quando o dia chegar.

Debater este tema é responsabilidade também da escola. E os pais deveriam enxergar nela uma aliada para que seus filhos tenham de fato educação sexual não apenas em uma disciplina, mas em todas. E, assim, sentirem-se à vontade para discutir as transformações que lhe causam angústia e conhecer o seu corpo não só pela biologia, mas por todas as áreas que atravessam o tema da sexualidade. O conhecimento é o principal fator de prevenção de gravidez adolescente indesejada, doenças sexualmente transmissíveis, violências sexuais e bullying. É pelo conhecimento e pelo diálogo que adolescentes poderão tomar as melhores decisões sobre a sua vida e construir, no seu tempo, uma vida sexual responsável e prazerosa.

Quem lê o livro jogado na fogueira percebe claramente o esforço das autoras para cumprir este papel. É uma pena que seus detratores não consigam – ou não queiram – enxergar que livros como este, assim como professores que ajudem os estudantes a interpretá-los e debatê-los, são justamente os que não deixam os pais sozinhos num mundo tão complicado e violento, em que os adultos têm se sentido tão desamparados para educar crianças e adolescentes. É abrindo os livros – e não fechando-os – que os pais estariam melhor acompanhados.

5) Onde se esconde a maldade?
Ainda que seja improvável (mas não impossível) que o livro seja formalmente banido das salas de aula, como quer uma parcela dos pais desta escola, a obra já foi “queimada” publicamente. A fogueira já foi acesa e ardeu, porque as fogueiras hoje são sem matéria (por enquanto), mas suas labaredas têm longo alcance e graves consequências.

Diante da repercussão, é possível que o Ministério da Educação, numa próxima seleção, não escolha este livro. É possível que os professores das escolas privadas prefiram pular esta obra para não se arriscar a polêmicas. E é possível que os autores de livros didáticos passem a contornar o tema da educação sexual em suas obras, para se protegerem de eventuais inquisidores. Assim como jornalistas, políticos e intelectuais já começam a evitar certos temas para se protegerem de linchamentos que atingem não só a eles, mas começam a alcançar suas famílias.

Depois da fogueira pública, o resto acontece em silêncio. E acontece (também) por causa do silêncio. É desta maneira insidiosa que a ignorância se infiltra. É por esse caminho sombrio que o medo penetra e domina. É por essa técnica que historicamente os fascismossubjugaram as mentes e os corpos e produziram seus crimes. É preciso prestar muita atenção ao que está acontecendo no Brasil.
Por décadas a escola pública foi abandonada, enquanto o ensino privado foi se tornando um negócio cada vez mais lucrativo, cada vez menos pedagógico e mais empresarial. Por décadas os professores foram desvalorizados, os prédios foram sendo depredados, a escola se afastando mais e mais da comunidade – e a comunidade se afastando mais e mais da escola. Por décadas muito poucos se perguntaram seriamente como se sentiam alunos em escolas às vezes literalmente caindo aos pedaços, sem equipamentos básicos, em salas de aula ocupadas por professores mal pagos, sobrecarregados e, em alguns casos, despreparados. Por décadas um número crescente de pais passou a se esfalfar para conseguir dinheiro para matricular os filhos numa escola particular, mesmo que ruim, e aqueles que tinham mais condições de fazer a disputa por qualidade de educação deixaram a escola pública. Permaneceu quem não pôde sair – e permaneceram os idealistas, sempre em menor número. A escola pública passou a ocupar o lugar de resto. E como resto professores e alunos foram tratados.

Nos últimos anos, um movimento com muita potência surgiu. Estudantes passaram a ocupar as escolas e, transgressão das transgressões, passaram a cuidar delas e a exigir qualidade na educação. Como restos eles não incomodavam. Como protagonistas, cidadãos, foram criminalizados como “invasores” e “vândalos”.

Mas também nos últimos anos um movimento muito mais articulado se organizou. Ele não é novo, mas ganhou uma articulação nova. E sua principal arma é justamente a deseducação que a escola no lugar de resto produziu. Sua principal arma é a ignorância e a falta de conhecimento, que geram adesão em vez de reflexão, gritos em vez de diálogo. Fogueira.

Depois da corrosão da educação pública produzida pela ditadura civil-militar(1964-1985), a resposta dos governos democráticos que vieram a seguir foi insuficiente para a urgência do problema. Houve avanços significativos em algumas gestões, como a de Fernando Henrique Cardoso e de Luiz Inácio Lula da Silva, mas muito menores do que seria necessário para uma mudança que produzisse transformação estrutural. E, como todo vazio acaba sendo ocupado, ressurgiu o velho engodo embalado em papel novo e disseminado para milhões de seguidores nas redes sociais: o problema da escola pública é “moral” – e “de doutrinação ideológica”. Percebendo o risco, era preciso ocupar. Isso fica explícito no momento em que os estudantes tomam o partido da escola pública e restauram o valor da política, mas são duramente reprimidos não só pela polícia, mas também pelas milícias de ódio em defesa do projeto nomeado “Escola Sem Partido”.

Nesta manipulação, vendida à sociedade como um projeto restaurador da ordem (mas qual ordem?), o problema não seria a escola caindo aos pedaços, os professores mal pagos, a falta de estrutura material e pedagógica, mas uma suposta “doutrinação ideológica” praticada por professores “esquerdistas”, “comunistas” e moralmente desvirtuados a serviço do mal. (Com a esquerda mal parando em pé, isso deveria ser piada, mas não é, já que uma das consequências da ignorância é sua vítima não entender piada, muito menos humor ou ironia.)

Diante do medo e do desamparo, sentimentos que crescem em qualquer crise, a resposta moral sempre cola. Assim como um inimigo forjado. E cola mais ainda quando não existe uma proposta alternativa que as pessoas possam compreender e confiar. O problema então torna-se o outro – e ele deve ser destruído. Diante de pais assustados, com todo o direito tanto de querer que seus filhos sejam bem educados como de concluir que não estão sendo, qualquer mão estendida, mesmo que seja na forma de uma resposta estapafúrdia e violenta, geradora de mais desconhecimento e ignorância, é agarrada.

E assim pais são incitados por milícias de ódio na internet a tornarem-se inquisidores. Em vez de irem à escola para dialogar, compartilhar e reivindicar, construir junto, são estimulados a apontar o dedo e a linchar. Na época da ditadura, este serviço odioso era realizado nas escolas públicas por professores cooptados pelas forças da repressão, que espionavam os colegas e faziam seus relatórios, enquanto ganhavam pontos na carreira. Hoje, o que antes acontecia nos cantos escuros é amplamente incitado nas redes. A infâmia é vendida como virtude moral.

Construir é difícil, lento e dá trabalho. Queimar é imediato. E nada mais cômodo do que poder extravasar sua frustração culpando o outro e, se possível, eliminando-o. Ou deletando-o do espaço público. A estratégia é velha, muito velha. A única novidade é a entrada da internet na equação. Mas como a história não foi bem ensinada para as gerações que aí estão, ela é vendida e comprada como nova.

6) O que diz a autora do capítulo atacado?
Nos últimos anos, episódios de censura ou tentativas de censura a livros didáticos e de literatura têm pipocado pelo país. Alguns casos se tornam conhecidos, outros são abafados. É raro professores, bibliotecários e autores se arriscarem a defender a obra publicamente. Em geral, temem a demissão e, mais recentemente, o linchamento pessoal. Algumas editoras costumam aconselhar seus autores a silenciar, na expectativa de que o incêndio se extinga com menos prejuízos. Na minha opinião, isso é um erro e uma omissão de responsabilidade pública. Tentativas de censura e ataques a livros e autores dizem respeito a toda sociedade e devem ser enfrentados como o que são.

O livro de Ciências para o 8o ano, da coleção Projeto Apoema, é assinado por Ana Maria Pereira, Margarida Santana e Mônica Waldhelm. O capítulo atacado foi escrito por Mônica. Ela é professora do Ensino Médio, titular de Biologia no Centro Federal de Educação Tecnológica do Rio de Janeiro (CEFET/RJ). Tem 50 anos de idade e 33 de magistério. É doutora em Educação pela PUC-Rio e consultora da Unesco. Enviei a ela algumas perguntas por e-mail e ela respondeu a todas elas. A seguir, os principais pontos:

Como você se sentiu ao tomar conhecimento deste episódio?
Confesso que custei a entender o motivo alegado para o abaixo-assinado feito pelo grupo de mães e pais. Ao ler e ouvir as declarações não reconhecia naquelas palavras o conteúdo do livro: Pornografia? Vulgarização do sexo? Estímulo à promiscuidade? Imagens fortes? Sabia de todo cuidado que tivemos ao produzir cada volume e constatei que havia um ruído na comunicação ou algo mais preocupante por trás desta ação. Foi um misto de surpresa, perplexidade e tristeza.

O livro já havia sofrido algum tipo de ataque antes?
Esta coleção em questão não. Recebemos um parecer muito positivo na última avaliação do MEC no âmbito do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), e os livros são adotados por escolas públicas e privadas de todo o Brasil. Contudo, este campo da sexualidade é tradicionalmente espinhoso. Ao longo de 20 anos como autora, visitando escolas de Norte a Sul e conversando com os colegas professores, já ouvi alguns relatos de situações delicadas. Em uma escola, embora os professores manifestassem explicitamente o desejo de utilizar nossos livros, a presença de imagens de vulvas e pênis foi motivo de controvérsia por parte da coordenação pedagógica. Também soubemos de uma escola na qual uma professora de Ciências venceu a resistência da coordenadora e adotou a coleção, mas depois teve problemas com a mãe de uma aluna. Esta mãe simplesmente grampeou as páginas do livro que continham figuras de vulvas, pênis, camisinha e similares. Mas foram casos isolados e resolvidos com conversa e mediação.

Você escreveu a parte relativa à educação sexual. Quais são os cuidados que toma nas suas escolhas?
Como docente – e até quando fui aluna – sempre me incomodou a maneira como o corpo historicamente é apresentado e, deste modo, estudado nos livros didáticos de Ciências. O tema sexualidade humana quase sempre é abordado nos capítulos finais dos livros, onde o professor em geral nunca chega durante o ano letivo – e de modo reduzido ao aspecto da reprodução. As figuras aparecem quase sempre na forma de esquemas em cortes transversais ou longitudinais. Com seu corpo ainda desengonçado e com acne, o adolescente se depara, nos livros didáticos, com figuras e modelos “perfeitos”, bem torneados e com dentes corretos e, então, não se reconhece como tal. Também acho difícil um aluno da Educação Básica reconhecer-se nas estranhas figuras assexuadas. Ainda hoje, em muitos livros, pênis e vulvas/vaginas, em geral, só aparecem em cortes “estratégicos”, expondo apenas sua anatomia interna. Além disso, com imagens humanas idealizadas e retocadas no computador, os livros acabam por reforçar o que faz a produção mídiatica predominante, que hipervaloriza a aparência física e acaba por determinar padrões estéticos. Estes “padrões” são buscados febrilmente por jovens nas academias de ginástica e no uso de anabolizantes. Também se refletem nos consultórios médicos, onde vão em busca de “reparos”, assim como no avanço de distúrbios como bulimia e anorexia.

Esta foi a razão para a sua investigação no mestrado?
Este incômodo com certeza motivou minha pesquisa no mestrado em Educação realizada na Universidade Federal Fluminense (1998), na qual investiguei a produção sociopolítica do corpo nos livros didáticos de Ciências editados nas décadas de 1960 e 1990. Ao ser convidada logo depois para escrever livros didáticos, tive a oportunidade de propor um material que modificasse, ainda que em parte, este cenário preocupante. Hoje é consenso no meio educacional que o currículo escolar não pode estar desvinculado da realidade dos alunos, tendo em vista que uma das funções da escola é a preparação para a vida cidadã. No contexto desta discussão, entendo que as questões relativas ao corpo, gênero, sexualidade e papeis sociais devem ser trazidas para sala de aula, dado o impacto que provocam na vida dos alunos. Muitas vezes, porém, as angústias e tabus acerca da sexualidade estão baseadas no desconhecimento da anatomia e da fisiologia do próprio corpo. Daí a importância de criar condições para que os professores possam conversar com os alunos, levando-os a expressar suas crenças e seus mitos em relação ao corpo e à sexualidade como ponto de partida para o estudo dos aspectos biológicos do sexo. No volume didático alvo da polêmica, num total de seis unidades, optamos por abordar a sexualidade na terceira unidade. Queríamos evitar que este tema fosse relegado a segundo plano caso ficasse no fim do livro. O texto escrito por mim foi objeto de cuidadosa análise também das outras autoras e da equipe da editora, pois não queríamos correr o risco de produzir nem reforçar subjetividades hegemônicas que levassem a preconceitos e discriminação por gênero, etnia, orientação sexual etc. Em diversos momentos, na versão para o professor, colocamos “bilhetes” sinalizando para a importância de debater determinados tópicos e atentar para atitudes preconceituosas. Ao abordar as características anatômicas femininas e masculinas incluímos também representações de corpos inteiros e com as estruturas externas visíveis. Cuidamos para não reforçar a “pedagogia do terror”, associando sexualidade somente à doença ou à gravidez indesejada. Destacamos a importância do cuidado com o corpo, associando-o à promoção da saúde e à vivência prazerosa e responsável da sexualidade.

Como você insere esse episódio no contexto mais amplo do país?
Não há como negar que uma onda conservadora vem assolando nosso país. E isto tem provocado repercussão e embates travados tanto no campo das ideias quanto das ações e até das políticas públicas. No campo educacional não é diferente. Tentativas de censura e cerceamento de práticas docentes e uso de materiais didáticos têm sido recorrentes e até apoiadas por representantes políticos que se dizem “defensores da moral e bons costumes” das famílias brasileiras. A retirada dos termos “gênero e orientação sexual” da última versão do texto da Base Nacional Comum Curricular entregue ao Conselho Nacional de Educação não será inócua. Embora o MEC insista que as escolas terão autonomia para construir seus currículos, a não explicitação do termo esvazia sua legitimidade e importância. Currículo é um território de poder e de embates. Esta omissão no documento norteador deixa autores de livros didáticos e docentes sem respaldo legal para abordar o tema. E pode simplesmente impedir a discussão sobre diversidade sexual, estereótipos de gênero e atitudes homofóbicas nas escolas. Iniciativas como a tentativa de censura ao nosso livro de Ciências, a livros de Geografia que incluem famílias homoafetivas, a periódica conclamação em redes sociais a famílias para que induzam seus filhos a filmarem episódios de “doutrinação” nas escolas, assim como um vereador querendo “fiscalizar” as aulas e vários projetos de lei em andamento são elementos de um cenário que causa extrema preocupação com a liberdade de expressão dos educadores em geral. A propagada neutralidade religiosa, sexual e política não tem nada de neutra. Reflete as visões e crenças de um grupo conservador na sociedade.

Como você interpreta a manifestação destes pais? O que, afinal, eles temem, a ponto de querer proibir o livro?
Acho que há vários aspectos envolvidos. Um deles é o que envolve o desejo e a crença de controle total sobre os filhos (incluindo seus corpos, sexualidade, formas de pensar e ver o mundo). E sei que este desejo não é mal intencionado. Um outro se refere ao fato de cada pai e mãe como pessoa ter seu conjunto de crenças e referências culturais influenciado por experiências pessoais, familiares, religiosas e outras. E embora a escola pública seja para todos, alguns pretendem impor sua forma de ver o mundo como verdade absoluta. Então o racista não quer ver o racismo discutido, o homofóbico não quer que se aborde gênero e preconceito, o misógino acha desnecessário falar sobre feminismo e por aí vai. Paradoxalmente, constato que enquanto em várias escolas e livros de Ciências a questão da sexualidade é ignorada ou abordada superficialmente, no dia-a-dia é crescente a erotização da infância e da adolescência. A realidade é bem diferente do que muitos pais querem admitir. Adolescentes procuram informações onde podem. E a escola pode trazer esta informação de modo adequado. Sabemos que não basta informar, é preciso debater, problematizar, levá-los a refletir, a construir projetos de vida. Enquanto os pais acham que seus filhos com 13-15 anos ainda não devem discutir sexualidade e ver imagens de pênis, o Ministério da Saúde reduziu a idade mínima para a vacinação contra HPV para 9 anos para garantir imunização antes do início da vida sexual. Soma-se a isso o alarmante número de grávidas adolescentes, o crescimento do HIV entre jovens, o suicídio e homicídio de jovens homossexuais…

E como você avalia a relação entre escola e comunidade?
Ainda existe falta de diálogo entre muitas escolas e as famílias dos alunos. Uma maior aproximação, buscando esclarecer a proposta pedagógica, a realização de projetos envolvendo a comunidade e trabalhos intersetoriais (com o posto de saúde local, por exemplo) são estratégias que reforçam a parceria e trazem sinergia ao processo educativo. Nosso livro propõe várias atividades envolvendo a comunidade por reconhecer a importância desta interação. A sexualidade envolve pessoas e, consequentemente, sentimentos, que precisam ser percebidos e respeitados. Envolve também crenças e valores, assim como ocorre em um determinado contexto sociocultural e histórico, o que tem papel determinante nos comportamentos. Nada disso pode ser ignorado quando se debate a sexualidade com os jovens. O papel de problematizador e orientador do debate, que cabe ao educador, é essencial para que os adolescentes aprendam a refletir e a tomar decisões coerentes com seus valores, no que diz respeito à sua própria sexualidade, ao outro e ao coletivo, conscientes de sua inserção em uma sociedade que incorpora a diversidade. Consideramos que silenciar – nos discursos e práticas – no âmbito das questões relativas à sexualidade humana tem implicações gravíssimas na formação de nossas crianças e jovens.

Como você nomearia o que está acontecendo? E como um professor pode enfrentar essa conjuntura?
Como autora, professora, mãe e cidadã, reforço e valorizo a necessidade de um movimento de resistência organizado e coletivo – e portanto com mais impacto e eficiência – por parte dos educadores, frente às recentes e sistemáticas ações que buscam tirar a autonomia docente e isolar a sala de aula e a escola da vida real, alijando os alunos do debate acerca de questões contemporâneas cada vez mais relevantes. A busca por uma sociedade pautada na solidariedade, na alteridade, na justiça social, no respeito e na convivência pacífica passa pelo reconhecimento da diversidade como positiva. Questionar as muitas formas de preconceito e de exclusão social é papel de uma escola que pretende ajudar a construir um Brasil menos sexista, menos racista e menos homofóbico – e isso deve começar na Educação Infantil.

7) Por que a ONU se manifestou?
Apenas nas últimas semanas, vários golpes articulados acentuaram a crise educacional e ética do país. E colaboraram para aumentar a violência e ampliar a ignorância no âmbito da escola pública. Tanto que, em 13 de abril, a ONU fez um comunicado manifestando sua preocupação com ameaças ao direito à educação e à liberdade de expressão no Brasil e pedindo que o governo brasileiro se manifeste em 60 dias.

No documento, os relatores das Nações Unidas apontam o projeto “Escola Sem Partido” e as “visitas-surpresa” a escolas municipais feitas pelo vereador de São Paulo Fernando Holiday (DEM) como motivos de apreensão. O vereador entrou nas escolas para “analisar se há doutrinação no conteúdo que está sendo dado nas salas de aula”. No vídeo divulgado por ele se anuncia: “Escola Sem Partido. Holiday faz visitas supresas em escolas de SP e quer que você denuncie casos de doutrinação”.

Segundo a Folha de S. Paulo, o episódio provocado pelo vereador quase causou a demissão do secretário de Educação de São Paulo, Alexandre Schneider. O secretário, respeitado na área educacional, repudiou com veemência a tentativa de intimidação dos professores, citando a Constituição. Em seguida, foi vítima de uma campanha de desqualificação promovida por grupos articulados na internet. Segundo o jornal, o secretário não teria se sentido apoiado pelo prefeito João Doria (PSDB). O prefeito pode ter preferido manter o apoio das milícias de ódio na internet, que o inflam nas redes como o grande “gestor”.

No comunicado, os relatores da ONU afirmam que, se os projetos de lei baseados no Escola Sem Partido forem aprovados, isso pode significar restrição indevida ao direito de liberdade de expressão de alunos e professores no Brasil, com impacto no ensino do país em diversos temas. Alertam ainda que o Escola Sem Partido pode representar “censura significativa” e restringir o direito do aluno a receber informação.

O documento manifesta ainda a preocupação com o impacto destas ideias sobre as políticas públicas, como a retirada da expressão “orientação sexual” da Base Nacional Comum Curricular do país, que define as competências e os objetivos do aprendizado dos estudantes em cada etapa da vida escolar. Os relatores afirmam também que a mudança contraria a recomendação da ONU para que o país reforce os programas de combate à homofobia.

Escola Sem Partido é um projeto idealizado pelo advogado Miguel Nagib em 2004, nos últimos anos adotado como bandeira pelas milícias de ódio na internet e por algumas das vozes mais atrasadas do Legislativo. A escolha do nome é esperta. Ela sugere uma finalidade legítima: a de impedir que professores façam proselitismo político-partidário em sala de aula ou o que tem sido difundido como “doutrinação ideológica”. Na prática, o Escola Sem Partido propõe exatamente o que afirma combater: doutrinação ideológica e proselitismo. Mas para isso é preciso capacidade de interpretar texto e de “ler” a realidade, justamente o que a Escola deveria promover, mas tem fracassado por todos os motivos conhecidos.

O nome do projeto, que já era esperto quando foi concebido, tornou-se ainda mais eficiente num momento em que os principais partidos políticos do país estão atolados na lama exposta pela Operação Lava Jato e parte da classe política virou caso de polícia. Assim, em vez do “político”, estes grupos lançam a figura do “gestor”, aquele que supostamente está “limpo” porque não foi enlameado pela política, reduzida por eles a palavrão.

Se há dificuldade de interpretar textos, como esperar que exista interpretação de subtextos e de entrelinhas? Quantos vão perceber que negar a política, uma das criações mais potentes do pensamento humano, responsável por alguns dos maiores avanços da humanidade, é um ato político? E que se autodenominar “gestor” é uma esperteza política de um político esperto?

De novo estamos de volta à tragédia da educação. E agora ela ecoa para muito além dos muros das escolas. A ignorância não é apenas uma tragédia, mas um instrumento. E, no Brasil, este instrumento nunca foi usado de forma tão articulada como hoje.

8) Quem silencia?
Como a história ensina, para quem teve a chance de aprender, a opressão se instala devagar. É um acontecimento aqui, outro lá, aparentemente sem conexão. E assim ela vai se infiltrando primeiro nas franjas do cotidiano, nas periferias dos debates. E depois vai avançando para a área central até tornar-se o próprio centro. A cada novo linchamento, a cada nova fogueira, e elas são ateadas pela direita, mas também pela esquerda, muitos têm se calado. Há gente demais se esquecendo de sua responsabilidade pública e soprando as brasas para longe de si. Muitos que têm espaço para falar e ressonância para ser escutado têm silenciado, na esperança de que a vítima mais recente da inquisição promovida nas redes sociais e em certa mídia se incinere sozinho na fogueira da sua reputação e que nenhuma brasa caia no seu quintal. Lamento dizer, mas vai cair. E aí, talvez, seja tarde demais para reagir.
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Eliane Brum é uma jornalista, escritora e documentarista brasileira. Formou-se pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul em 1988 e ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem.
Fonte:  http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=452854 18/04/2017