sexta-feira, 31 de março de 2023

O amor e a dor em suas diversas paisagens: Cenas de um casamento, de Ingmar Bergman.

 Por Faustino Teixeira

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31 Março 2023

"Trata-se, como imagino, de um bonito amor terrenal, marcado pelos limites do tempo e pelos enigmas de cada um, num mistério profundo que ninguém consegue penetrar com agudez. Toda relação vem pontuada por enigmas e interrogações, que jamais serão complementadas e realizadas. O que importa é abraçar com alegria o momento e o instante, sem deixar escapar sua luz e reverberação", escreve Faustino Teixeira, teólogo, colaborador do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

Eis o artigo.

Para os que se dispõem a fazer uma grande maratona cinematográfica, fica o convite para enveredar nas longas teias de Cenas de um Casamento, de Ingmar Bergman (1973). A primeira versão não foi destinada ao cinema, mas à televisão, como uma mini série de seis episódios com duração de cerca 49 minutos. São praticamente cinco horas diante da tela, sem que se perceba o tempo passar, dada a beleza e força do enredo desse magnífico diretor.

Para compor a riqueza do que se vê, temos dois grandes intérpretes contracenando: Liv Ulmann, no papel de Marianne e Erlan Josephson, no papel de Johan. Há também o reforço da maravilhosa fotografia, que esteve aos cuidados de um dos melhores diretores de fotografia do cinema universal, um parceiro constante de Bergman: Sven Nykvist.

Depois desta primeira versão para a TV, que veio a público em 1973, Bergman produziu uma versão mais condensada para o cinema, que foi premiada em 1974 com o prêmio de melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro.

Os seis episódios têm como títulos: 1. Inocência e Pânico; 2. A arte de fazer como o avestruz; 3. Paula; 4. O vale de lágrimas; 5. Os analfabetos; 6. No meio da noite numa casa escura em algum lugar do mundo.

O sucesso do filme foi favorecido pela preciosa interação de Bergman com os dois intérpretes do filme, e em particular com Liv Ulmann. Também participou das filmagens outra grande e experiente intérprete, que é Bibi Anderson, igualmente presente em outras produções de Bergman.

Na ocasião das filmagens, Bergman estava casado com Liv Ulmann, depois de quatro casamentos fracassados. Os dois permaneceram juntos por cinco anos e tiveram uma filha. Moravam no Ilha de Farö, que se situa entre a Rússia e a Suécia. Bergman escolheu esse lugar diferente para morar, modelado por uma paisagem árida, de vegetação estranha, com solo cinzento e marrom. Só uma vez ao ano é que a paisagem ali ganha cores esplêndidas e animadoras.

Foi em Farö que ocorreram as filmagens de Cenas de um Casamento, num estúdio que Bergman montou junto à sua casa, depois transformado em seu cinema particular. Apesar de seu temperamento difícil, Bergman conseguiu achar um ponto de equilíbrio fabuloso nas filmagens, abrindo um espaço singular para a criatividade dos atores. Liv Ulmann chegou a dizer em entrevista, que Bergman era o diretor ideal, que favorecia aos atores uma singular possibilidade de expressão criativa dos sentimentos. Alguém que tinha o dom de ouvir e o carisma para desvendar os segredos mais íntimos de seus intérpretes.

Outro dado importante que ocorreu no filme, foi o recurso a belos e longos close-ups. A atriz Liv Ulmann apreciava muito essa técnica do diretor de fotografia. Constituía um grande desafio para ela. Disse a respeito: “Quanto mais perto chega a câmara, mais ansiosa fico para mostrar um rosto completamente nu, desvendar o que está atrás de pele, dos olhos: dentro da cabeça. O conjunto dos recursos, somados à habilidade do diretor, favoreciam o empreendimento fantástico de uma viagem situada no interior mais profundo do ser.

O tema do filme gira em torno de um relacionamento afetivo, com toda a sua complexidade, com suas dores e alegrias. Como personagens, um casal que celebra dez anos de casamento, e que até então tinham uma relação bem adaptada. Os dois provinham de uma vida burguesa, ele professor e ela advogada, envolvida em questões relacionadas ao divórcio. O roteiro gira em torno dessa relação, cobrindo os vinte anos de amizade entre os dois, seja nos momentos de união ou separação. Os dois tem duas filhas, mas a ocular do diretor não se fixa nelas em nenhum momento. Toda a trama ocorre na trajetória do casal.

Nos dois primeiros episódios, o casal ainda vive uma condição de regularidade no casamento. Já começam a se deparar com o inferno que preside a relação de amigos ou, no caso de Marianne, de uma cliente que relata para ela a profunda solidão que vive no matrimônio. O confronto com tais situações começa a provocar no casal algumas interrogações sobre o viver juntos. Johan, que é mais frio e racional, chega mesmo a pensar que a solução para o casamento seria um contrato de cinco anos, com direito a prorrogação. Sua preocupação, diferentemente de Marianne, é com os domínios de seu “quintal”, embora tenha consciência de que o mundo afunda-se numa grande crise.

Marianne, com 35 anos naquela ocasião, tinha uma preocupação maior com a humanidade. Via também no casamento, a possibilidade de expressão de amor, ternura e carinho. Aos poucos, porém, vai percebendo o ritmo da solidão na vida a dois. Eles falam entre si sobre amor e fidelidade. Ela acredita ser possível a vida em comum, desde que haja uma preocupação e atenção mútua entre os parceiros. Vislumbra também no casamento a possibilidade de companheirismo, humor e tolerância. Ele, Johan, com 42 anos, é mais pragmático ainda que profundamente carente. Em sua visão a fidelidade deve ser algo natural: “Ou ela existe ou ela não existe”.

A tensão entre os dois começa a se fazer presente quando ela anuncia que está grávida, e ele acolhe a notícia com indiferença. Ela não esperava uma tal reação, e se entristece. Ele, sempre pragmático, fica preocupado em resolver logo o assunto, através do recurso do aborto. Ela acaba aderindo à proposta, mas arrepende-se profundamente depois. Acreditava que os dois poderiam receber a criança com alegria, mas era pura ilusão.

Aos poucos, a partir do segundo episódio, já começa a emergir mais forte em Marianne uma angústia indefinida, mas dolorosa. Aquela angústia que Heidegger bem definiu, como o “puro ser-ai no estremecimento”, ou seja, como o estar diante de um perigoso “nenhum”, que corta qualquer dicção do eu.

Entre o casal começa a brotar uma “atmosfera de desentendimento”. Os dois buscam explicações para o desencontro, e chegam a aventar o influxo dos compromissos familiares, com os pais, aos finais de semana, que acabavam por encolher o tempo de amadurecimento e enriquecimento da vida do casal. Chegam a dizer que um tal compromisso deveria ser um divertimento e não uma obrigação.

Com o tempo, o desentendimento vai se acirrando e o tema da hospedagem do amor entra em crise. Como dizia com razão Frida Kahlo: “Onde não puderes amar, não te demores”. A cisão ocorreu em seguida, quando Johan revela para Marianne, no terceiro episódio, que estava apaixonado por outra mulher, Paula, uma garota de apenas 23 anos. Acrescentou ainda que estava partindo com ela para Paris, por sete ou oito meses. A reação de Marianne foi de estupefação. Não sabia como reagir diante daquele outro, que agora se revelava um estranho. É um momento bonito do filme, quando Marianne expressa com o olhar suplicante, toda a sua dor diante da crua revelação.

A reação de Johan é fria e calculista. Diz a ela, sem rodeios, que depois os dois encontrariam um caminho para resolver a nova situação. E ainda arremata mandando-a para o inferno. Diz não querer levar nada consigo, a não ser alguns livros, e pretende acalmá-la dizendo que nada faltará a ela e as crianças. Diz ainda que está cansado da relação, e que tudo que agora o interessa é sair do inferno em que se viu enredado: “sair de tudo isto, dar o fora”. Revela a Marianne que ainda a continua amando, mesmo depois do encontro com Paula, e que a ama com mais intensidade, mas que precisa desse tempo seu.

Marianne ainda busca argumentar em favor de uma nova tentativa na relação, mas sem sucesso. Ela reconhece que pode ter errado todo o tempo, mas que ainda acredita num reatamento em novas bases. Pede a ele para adiar a viagem por alguns meses e sublinha que os dois poderiam na sequência encontrar um novo modo de reparar o casamento e uma forma diversa para a vida sexual.

Depois de toda a conversa, regada a dor, os dois se deitam na cama de casal e ficam ali silenciosos e mudos. Ela ainda busca informações sobre Paula, de como ela é e qual a sua idade e de como ela reage na cama. Está angustiada. Ele não deixa de revelar dados sobre a vida da nova amante. Marianne e Johan fazem amor ao raiar do dia, olhando um para o outro “com carinho e angústia”. Permanecem ali, juntos, “mudos, nus, estranhos um para o outro.

Johan finalmente a deixa “com suas aflições” logo após o café da manhã. E “sem que Marianne o queira, as lágrimas começam de repente a correr-lhe pelo rosto, mas ela funga, assoa o nariz e recompõe-se”. Desesperada, ela liga para um amigo comum, Fredrik, para relatar o acontecido, e se surpreende ao saber que ele e outros amigos já estavam a par da situação.

Depois de um ano sem se verem, os dois voltaram a se encontrar. Johan buscava conviver com Paula na nova situação, mas enfrentado agora dificuldades precisas e um ciúme crescente por parte dela. No início as coisas estavam melhores, e Paula teve um papel importante como companheira de Johan, trazendo alegria e carinho para a sua vida. No momento em que encontra com Marianne, Johan já demonstra viver com dificuldades na outra relação. Por sua vez, Marianne já dava sinais de recuperação na sua vida pessoal.

Os dois se encontram, e reconhecem a existência de um grande carinho mútuo. Eles se abraçam e se beijam com alegria e ternura. Johan relata que tinha conseguido um contrato de três meses numa universidade americana, mas que iria viajar sem a Paula. Durante o encontro, Marianne retoma a conversa sobre o divórcio, mas Johan desconversa. Ela lamenta o fato dos dois terem se separado, e deixado de lado o carinho que era tão importante para eles. Johan reage sinalizando com clareza para Marianne que o que existe na base de qualquer relação é uma “solidão absoluta”. Reitera o fato de que ninguém consegue quebrar essa barreira, e que em verdade a coexistência equilibrada é uma miragem. Por mais que se busquem palavras, elas não servem senão para esconjurar um grande vazio.

Mesmo com toda a distância, que reverbera na relação com as filhas, Marianne demonstra acreditar no grande carinho que tem por Johan. Revela que sempre se lembra dele, todos os dias e várias vezes por dia. Continua a manifestar surpresa com uma separação que não estava em seu horizonte. Era um traço bonito de amor que escapou pelas mãos. Em resposta, Johan diz a ela que seria oportuno ela buscar ajuda com um psiquiatra. E ela responde dizendo que vem sendo atendida duas vezes por semana, em conversas que vão além das que ocorrem no consultório.

Na verdade, Johan não consegue escamotear o carinho que sente por Marianne, que é também um tesão criativo. Mas quando na ocasião ele busca uma aproximação, visando colocar sua mão em seu peito, Marianne, delicadamente, desvia-se e evita o contato mais íntimo. Revela, porém, a ele que não consegue entender sua vida e a das crianças com outro homem. Sente-se atrelada a um vínculo profundo com Johan, que não consegue entender. Diz a ele que os outros homens a aborrecem. Na sequência, os dois se beijam, sem se arrojarem em carinhos mais íntimos. Os dois passam a noite juntos, com o sentimento comum da beleza de estarem juntos, ainda que simplesmente dando as mãos. Ela revela a ele que a separação foi um golpe muito duro, e que gostaria de ter ficado “terrivelmente zangada com ele”. Mas como ocorre com os suecos, ela ponderou as reações. E diz: “Quando você me deixou, eu tinha apenas um pensamento na cabeça: eu queria morrer. Fiquei andando às voltas naquela manhã, e estava justamente amanhecendo, e só pensava: não vou sobreviver”.

Marianne conseguiu sobreviver à crise e foi aos poucos se recompondo e retomando a vida. Encontrou outros homens pelo caminho, mas deles se cansou, até que encontrou Davi, alguém que se mostrou diferente, carinhoso e atencioso com as meninas. Disse a Johan que não sabia se era ele, David, que respondia às demandas de seu afeto. Diferentemente da visão de Johan, Marianne não acreditava numa vida solitária, mas queria alguém a seu lado, e intuía que essa pessoa não era Davi. E se lamenta com Johan: “Eu não entendo como você vai poder aguentar o mundo sem mim (...). A gente não pode viver só e ser forte. A gente precisa ter alguém a quem segurar a mão”. E retoma sua vontade de reatar com Johan: “Acho que você deveria se esforçar como um louco para reparar o nosso casamento”. Johan reconhece que gosta de Marianne e se indaga sobre o que há de errado em sua vida. Sublinha também que sente “saudades terríveis”. Em resposta, Marianne diz que os dois poderiam simplesmente ficar ali, “deitados juntos, segurando a mão um do outro”.

No penúltimo episódio, ocorre a explosão da violência entre os dois amigos. É quando se firma para eles a vontade de assinar o divórcio. Os dois se encontram num local de trabalho, já com os papeis na mesa para serem assinados. Ela insiste com ele para assinar antes de partir para América. Não sabe ainda que a viagem não iria vingar. Não assinam de imediato, reconhecendo a dificuldade de colocar um fim na relação. Marianne revela então a Johan que começa a sentir-se livre, com um sentimento novo de felicidade. Indica, porém, que os dois anda têm uma noite para beber e amar. Johan confidencia a ela que ainda se sente ligado a ela de uma forma muito profunda e inexplicável.

Num impulso amoroso, Marianne chega a pensar em rasgar todos os papeis que estão sobre a mesa. Foi apenas um impulso. Tomados por um grande estranhamento os dois entram em conflito corporal violento, que deixou marcas de sangue no tapete. São cenas tremendas! Ambos queriam destruir-se mutuamente. Acabam esgotados e tristes... Ela, imóvel, com o corpo recolhido de dor. Johan então toma a iniciativa de assinar os papéis, num gesto que foi acompanhado por Marianne. Já ao final do encontro, Marianne ainda diz para ele: “Devíamos ter começado a bater um no outro há muito tempo. Teria sido muito melhor”. E quem sabe...

Apesar da virulência do conflito que marcou o último encontro dos dois, eles ainda voltam a se encontrar mais tarde. Vivem então um momento diverso, como se inaugurassem uma nova forma de ser, agora mais serenos e maduros. Os dois estavam bem nas suas respectivas relações. Ressurgiam agora, como das cinzas anteriores, com um clamor de vida alternativo. Johan estava diferente, sem a barba e de óculos. Revela a Marianne que vivia então o casamento como uma “comodidade” que era recíproca. Marianne também convivia bem com seu novo par, Henrik.

Eles aproveitaram uma viagem de seus cônjuges para marcar um novo encontro. Os dois estavam ansiosos para reverem-se com alegria. Estariam fazendo, naquele mesmo mês de agosto, 20 anos de casados. O encontro tinha sido marcado na casa de campo de Marianne, mas o plano foi alterado, depois que Johan pediu a um amigo próximo para emprestar sua casinha que ficava junto à praia. Foi ali, naquele lugar distante, que os dois se encontraram novamente. A casa estava meio revirada, e os dois juntos se ajudaram para colocar tudo em ordem e montar o ninho do encontro.

Num momento de grande beleza, os dois estão ali, “no meio da noite, numa casa escura em algum lugar do mundo”. A emoção toma conta dos dois e ela o acolhe com grande sentimento e lágrimas nos olhos. Depois de tanto tempo, Marianne dá razão a Johan, concordando com a sua visão sombria sobre o mundo. Reconhece a presença dolorosa de um estado geral de inquietação entre as pessoas, e que é contagiante. Revela que de fato as pessoas andam “escorregando para baixo”, tomadas pelo medo, insegurança e incompreensão.

Naquele momento, porém, eles “esquecem” a dor e buscam viver a intensidade do instante, em clima de grande intimidade, aconchego e excitação. Os dois se tratam de forma linda e enamorada. Ele diz: “Meu amor, minha adorada Marianne”. E ela: “Meu querido e adorado Johan”. Apenas isso!

Marianne revela mais uma vez que jamais conseguiu amar alguém da forma como gostaria, e nem sentiu-se amada como desejava. Johan responde de forma curta, simples e realista: “Eu acho que a amo à minha maneira, restrita e bastante egoísta. E, à vezes, acho que você me ama à sua maneira, briguenta e fria”. E acrescenta: “Eu acho, pura e simplesmente, que você e eu nos amamos um ao outro. De uma maneira terrena e restrita”.

Nada mais delicado e simples de entender, bem ao modo Zen, o que significa amar nas condições de contingência do humano. Por fim, Johan complementa o seu argumento: “É assim, com toda a simplicidade, no meio da noite, numa casa escura, em alguma parte do mundo, que eu existo, realmente, e a conservo nos braços. E você me conserva nos seus. Eu não posso afirmar que sinto qualquer espécie de elevação ou de sentimento de humanidade”.

Trata-se, como imagino, de um bonito amor terrenal, marcado pelos limites do tempo e pelos enigmas de cada um, num mistério profundo que ninguém consegue penetrar com agudez. Toda relação vem pontuada por enigmas e interrogações, que jamais serão complementadas e realizadas. O que importa é abraçar com alegria o momento e o instante, sem deixar escapar sua luz e reverberação. Ou, como diz de forma tão linda Rilke, nas Elegias de Duíno, poder “contemplar um dia, somente um dia o espaço puro, onde, sem cessar, as flores desabrocham”.

Fonte:  https://www.ihu.unisinos.br/627526-o-amor-e-a-dor-em-suas-diversas-paisagens-cenas-de-um-casamento-de-ingmar-bergman-artigo-de-faustino-teixeira

Inteligência artificial: o poder e o valor das pessoas e das máquinas.

 Artigo de Paolo Benanti

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31 Março 2023

Se a máquina vale em sentido econômico, o ser humano tem um valor que não é mensurável nem em valores numéricos de dados nem em valores econômicos em uma balança.

O comentário é de Paolo Benanti, frei franciscano da Terceira Ordem Regular, professor da Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, e acadêmico da Pontifícia Academia para a Vida. Em português, é autor de “Oráculos: entre ética e governança dos algoritmos” (Unisinos, 2020).

O artigo foi publicado por Avvenire, 30-03-2023. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O mundo das inteligências artificiais (IA) está em agitação. Na semana passada, a OpenAi, líder nesse setor, revelou à humanidade inteira a sua mais recente criação: GPT-4. Um produto com uma sigla incompreensível, mas que, em pouquíssimo tempo, encheu as colunas dos jornais e as páginas dos blogs.

Os resultados obtidos na OpenAi são, sem dúvida, surpreendentes. Se lermos o documento técnico que foi publicado no momento do lançamento, veremos capacidades inimagináveis. O GPT-4 pode partir de uma pergunta textual associada a uma imagem, mostra que sabe reconhecer o que está na imagem e unir os diversos elementos em um quadro de sentido: resolver um problema matemático ou responder ao que há de estranho em uma foto.

O GPT-4 aceita solicitações que consistem tanto em imagens quanto em texto, o que – paralelamente à configuração somente de texto – permite ao usuário especificar qualquer tarefa de visão ou de linguagem.

Em particular, o modelo gera outputs de texto com dados de input constituídos por texto e imagens entrelaçados arbitrariamente. Em uma série de domínios – incluindo documentos com texto e fotografias, diagramas ou capturas de tela – o GPT-4 mostra capacidades semelhantes aos dos inputs somente de texto.

Temos um modelo que, figurativamente, une “audição”, no sentido de que ele ouve o nosso pedido escrito, e “visão”, mostrando uma “percepção artificial” de uma imagem. O mais surpreendente é que o GPT-4 pode fazer coisas que os pesquisadores não esperavam que ele soubesse fazer.

Ainda no documento citado lemos:

“Muitas vezes surgem novas capacidades nos modelos mais poderosos. Alguns deles são particularmente interessantes: a capacidade de criar e agir em planos de longo prazo, de acumular poder e recursos (‘busca de poder’) e de exibir um comportamento que é cada vez mais ‘agêntico’ [agentic]. Nesse contexto, ‘agêntico’ não se refere à humanização dos modelos de linguagem ou à senciência, mas sim a sistemas caracterizados pela capacidade, por exemplo, de alcançar objetivos que podem não ter sido concretamente especificados e que não apareceram no treinamento, pelo foco em alcançar objetivos específicos e quantificáveis, e por fazer planos de longo prazo”.

Se olharmos para a fonte citada nas notas ao texto, lemos, sem meias palavras: “Usamos o termo ‘agência’ para sublinhar o fato cada vez mais evidente de que os sistemas de ML [machine learning] não estão completamente sob o controle humano”.

Portanto, os pesquisadores se dão conta de que o próprio modo como treinaram o sistema – não apenas utilizando dados, mas também premiando algumas respostas e punindo outras mediante interação com humanos e o uso de modelos de recompensa baseados em regras – transmite ao modelo dois elementos: a capacidade de adotar estratégias de longo prazo e a busca de poder e recursos em sua interação com o input.

Os engenheiros que desenvolveram o GPT-4 nos dizem que o sistema poderia ter seu próprio “plano interno e poderia agir para adquirir os recursos e os modos para alcançá-lo”.

Tudo isso não porque ele seja uma espécie de gênio do mal, mas provavelmente porque, na aprendizagem por reforço, os treinadores, ao “premiarem” ou “punirem” o GPT-4 emitem juízos, e estes nunca são construídos apenas sobre uma coisa em si mesma, mas sobre uma coisa em mérito a um fim.

Intuitivamente, podemos pensar que o sistema incorpora esses “microfragmentos” de finalidade das avaliações no processo de reforço, fazendo emergir uma finalidade global de uma maneira análoga àquela com que faz emergir informações a partir dos dados.

Se é isso que sabemos sobre o GPT-4, o Google, com seu PaLM – um sistema do mesmo tipo –, parece ter alcançado resultados ainda mais poderosos e surpreendentes, a ponto de atrasar seu lançamento público por medo dos efeitos.

Mas quanto vale tudo isso? De um ponto de vista comercial, muitíssimo. A Microsoft, depois de adquirir as licenças do sistema, está lançando uma série de produtos nos quais o GPT-4 ajudará o usuário a fazer suas tarefas. Ele chama esses sistemas de Copilot.

Devemos nos acostumar com a ideia de uma transformação abrangente do trabalho, em que teremos um copiloto que nos orienta e nos auxilia em todos os âmbitos da vida? Para além dos problemas sociais, a pergunta que surge, então, é quanto vale o ser humano nesta nova época caracterizada pelas inteligências artificiais.

Essa pergunta foi respondida nos últimos dias pelo Papa Francisco, que, ao falar aos participantes dos Minerva Dialogues – uma mesa de debate na qual estão presentes muitos atores de primeiro plano desse mundo – disse:

“O conceito de dignidade humana – este é o centro – nos impõe que reconheçamos e respeitemos o fato de que o valor fundamental de uma pessoa não pode ser medido por um conjunto de dados. [...] Não podemos permitir que os algoritmos limitem ou condicionem o respeito pela dignidade humana, nem que excluam a compaixão, a misericórdia, o perdão e, sobretudo, a abertura à esperança de uma mudança da pessoa.”

Se a máquina vale em sentido econômico, o ser humano tem um valor que não é mensurável nem em valores numéricos de dados nem em valores econômicos em uma balança.

A dignidade humana, no centro da algorética, pergunta-nos quais relações e qual sociedade queremos.

Fonte: 

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/627527-inteligencia-artificial-o-poder-e-o-valor-das-pessoas-e-das-maquinas-artigo-de-paolo-benanti

Conselhão é um antídoto à polarização

Fernando Luiz Abrucio*

 — Foto: Daniel Caballero

Foto: Daniel Caballero

 

Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável começa a se reunir em 13 de abril e pode construir uma forma mais saudável de governança

A lógica da polarização é o maior empecilho à melhoria da política brasileira. Trata-se de uma armadilha que hoje aprisiona boa parte da ação do governo, radicaliza o principal polo da oposição - o bolsonarismo - e tem força política suficiente para evitar o fortalecimento nacional do centro político. Não há um elixir único para esse problema, mas a recriação do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS), popularmente conhecido como Conselhão, pode ser uma boa vacina contra o modelo polarizador, caso cumpra o objetivo de pluralizar o debate público.

Antes de analisar as potencialidades do Conselhão, é preciso dizer o que é e quais são os efeitos perversos da polarização que domina o jogo político brasileiro. A lógica polarizadora atual não tem nada a ver com a contraposição eleitoral entre forças políticas, algo natural nas democracias. Não é mais a disputa entre PSDB e PT que está em jogo. Quem tinha dúvidas, deixou de ter com a fuga do presidente Bolsonaro do país para não dar posse ao sucessor e, sobretudo, com a intentona de 8 de janeiro, uma tentativa fracassada de golpe de Estado. Em poucas palavras, o padrão polarizador colocou o Brasil em risco autoritário.

A polarização move-se basicamente pela busca incessante de atacar e, se possível, destruir o oponente. Neste modelo não há meio termo ou a possibilidade de diálogo, por vezes até fechando a porta para a incorporação de outras forças políticas que não os polos da equação. No caso brasileiro, é verdade que há uma diferença substantiva básica: um dos lados é democrático, o lulismo, e o outro, não - os bolsonaristas.

Mesmo assim, parcela do atual governo erroneamente se prendeu na armadilha polarizadora, tentando todo tempo fazer ações para se colocar contra o bolsonarismo e seus aliados - como o senador Sergio Moro -, inclusive quando isso o enfraquece ou em situações que vão contra a etiqueta mínima do comportamento republicano e democrático.

Manter esse padrão político atrapalha o aperfeiçoamento de políticas públicas e a inclusão de outros grupos sociais e políticos que vão além dos polos. Só que também pode ser uma forma fácil de manter uma distribuição eleitoral, abarcando quase 70% do eleitorado, que provavelmente ficará com bolsonaristas ou lulistas aparentemente em qualquer circunstância, criando uma barreira de entrada difícil de transpor para os outros partidos.

Ficar nessa toada, porém, é reduzir o alcance de transformação do país e de ampliação da legitimidade. Apesar de algumas escorregadas recentes, é estranho imaginar que o presidente Lula, no seu terceiro mandato, não queira sair maior do que entrou. Além do mais, nada garante que uma parcela do eleitorado será eternamente fiel a uma determinada liderança política.

A recriação do Conselhão, agora com um novo nome que incorpora a questão da sustentabilidade, é uma ideia que pode tirar o governo Lula e o país da armadilha da polarização. Ao ter insistido com essa estrutura de diálogo social e mantido o caráter plural de sua composição, o lulismo deu um passo bastante positivo, construindo uma instituição que pode cumprir cinco funções importantíssimas.

A primeira é abrir o diálogo entre setores sociais muito distintos, que não se orientam por uma mesma régua de ideias. Discordar faz parte da democracia, e em muitas ocasiões é muito saudável. Rejeitar qualquer conversa, negociação ou aprendizado com quem pensa de maneira diferente é um caminho para o desastre de uma nação. A polarização fechou portas para construir consensos em meio a dissensos, que é a grande mágica da democracia pluralista. O sentido da audição do outro tornou-se raro no debate público, e vence quem grita mais, mobiliza mais mais likes ou haters, e tal padrão paralisa o avanço do país.

O sucesso do Conselhão seria bom para nos tirar, como sociedade, dessa lógica polarizadora marcada pelo ressentimento e pelo ódio, que interdita o debate público no plano macro e nas esferas microscópicas da família, do trabalho e até dos jovens na escola. Seu êxito também seria fundamental para o governo Lula deixar o passado para trás, apostando num diálogo amplo para pensar o Brasil para frente. Talvez só haja um avanço maior da ideia de Frente Ampla, com possibilidade de acordos em situações discordantes em relação ao lulismo, usando o Conselhão como fórum de diálogo permanente. É possível que nem todos os grupos queiram dialogar e pensar junto, especialmente setores mais próximos do bolsonarismo, mas isso os isolaria e os enfraqueceria politicamente.

Melhorar a construção da agenda pública do país pode ser uma segunda função positiva do Conselhão. O sistema político e grande parcela da sociedade estão amarrados à polarização, o que gera dificuldades para o trâmite de medidas propostas pelo governo e a abertura da discussão de novas temáticas. Se deixarmos apenas aos atores de Brasília a definição da pauta nacional, o mais provável é que a velocidade das mudanças será menor - isso se estas não forem vetadas. O CDESS não deve ser, em hipótese alguma, um órgão antipolítico, mas um canal de conversa com os políticos eleitos. Isso poderá fortalecê-los, ademais, de modo que esse fórum se tornaria um antídoto contra o descasamento com a sociedade que gera mobilizações como as jornadas de 2013, cujos resultados, ao fim e ao cabo, foram estéreis para a população e para a melhoria do sistema político.

Seguindo essa lógica, o Conselhão poderia ajudar em dois tipos de agenda. O primeiro refere-se àquela definida como prioritária pelo governo e pelo Congresso, dando sua opinião e mostrando outros ângulos para temas que já estão na ordem do dia. De forma paralela e complementar, o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável seria fundamental para trazer novas temáticas que ainda não foram captadas pelos políticos. Seria uma antena parabólica de alta potência porque não se pode entender tudo que ocorre no Brasil estando em Brasília.

Há uma terceira função que diz respeito à forma viciada - e cada vez mais contra a democracia - da produção e discussão de ideias no mundo virtual. O Conselhão pode gerar um mecanismo de debate e mediação social que se coloque como contraponto à truculência e à surdez interpessoal causadas pelas redes sociais. Nenhum país pode definir seus rumos pelas brigas e posicionamentos na internet, como por vezes ocorreu durante o governo Bolsonaro. O encontro presencial e sem “máscaras” no CDESS dos diferentes grupos em torno de pautas relevantes para a sociedade é bem melhor do que o jogo ardiloso dos haters, influenciadores extremistas, perfis falsos e robôs.

Obviamente que o Conselhão não irá substituir as redes sociais, mas a qualidade de seu debate pode realçar os vícios da política hegemônica da internet de hoje. Se cumprir bem seu papel educativo como fórum de discussões, pode ser um espaço ideal para colocar em questão a produção virtual de fake news e outras formas de ódio e violência que se espalham por diversas comunidades, atingindo desde idosos que acreditam em discos voadores que vão dar o golpe, até jovens que preparam virtualmente o assassinato de colegas e professores nas escolas. Em poucas palavras, o Conselhão pode ser um dos melhores remédios contra a epidemia de intolerância que assola o país.

A quarta função do Conselhão deve ser ajudar o país a reconstruir suas instituições políticas principais. Há um processo crescente de crise e transformação errática desde 2013, com seu pior momento no governo de extrema direita de Bolsonaro, mas que não será aprumado apenas porque Lula e o antibolsonarismo venceram a eleição de 2022.

O presidencialismo de coalizão está em frangalhos, com um desequilíbrio entre o Legislativo e o Executivo que precisa encontrar novas formas de respeito, cooperação e responsabilização. O sistema de Justiça também precisa se recuperar, começando por um modelo mais colegiado e parcimonioso de decisões do STF, e terminando por uma nova visão dos órgãos de controle e fiscalização, que não deve adotar o jacobinismo dos promotores da Lava-Jato, e nem ser controlado pelo Executivo de forma autocrática, tal qual ocorreu no período bolsonarista.

Além disso, vai ser preciso fortalecer o aspecto cooperativo da Federação. A agenda é grande e conflitiva, e o CDESS pode ajudar nesse debate, pois a polarização lulismo versus bolsonarismo pode atrapalhar ou retardar o aperfeiçoamento do sistema político.

Por fim, o Conselhão pode ter a quinta função de pensar num projeto de longo prazo para o país. É claro que o Executivo pode utilizar seus técnicos, como os do Ipea, para fazer um diagnóstico amplo e prévio, mas um fórum mais plural como o CDESS tem mais chances de ter isenção e legitimidade para apoiar a construção de caminhos para além do governo de plantão. Essa é uma questão urgente, porque o mundo está passando por enormes transformações, e as nações que não tiverem projeto de futuro ficarão para trás.

Se o Brasil continuar sob o signo da polarização, nossos filhos e netos terão uma vida pior. Por isso, quando o novo Conselhão abrir seus trabalhos no dia 13 de abril, poderemos construir uma forma mais saudável de governança, na qual vigore um diálogo potente entre a sociedade, o sistema político e o Governo Lula.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas, escreve neste espaço quinzenalmente

E-mail: fabrucio@gmail.com

Fonte: https://valor.globo.com/eu-e/coluna/fernando-abrucio-conselhao-e-um-antidoto-a-polarizacao.ghtml

Brasil continua desprovido de uma referência na educação

Por José de Souza Martins*

 — Foto: Carvall

 Foto: Carvall

No país não se conseguiu propor a questão mais importante no mundo de hoje: a descoisificação dos seres humanos

Passam-se os anos, os governos e os palpites e o Brasil continua desprovido de uma referência consistente na definição do que deve ser a educação brasileira. Desde que valores estranhos ao que é propriamente formativo foram afastados das referências de nossa concepção de educação, educar é cada vez mais difícil.

Estamos de novo em face de justos questionamentos a respeito dos rumos de nossa educação, as novas gerações inquietas com uma concepção de educação que separa a sala de aula da vida com ela é e como vai ser.

O Brasil é um país em que todos somos especialistas em tudo, também em educação. A escola concebida como oficina de formatação da mente para os modos de pensar de uma sociedade reduzida ao falso pressuposto da lógica da eficiência e do lucro como nortes da vida. E também o falso pressuposto de que o futuro das novas gerações está no empreendedorismo.

O que é estranho. Aqui a imensíssima maioria do povo não vive de lucro, vive de trabalho. E tampouco é um país eficiente, ineficiente em quase tudo que é. Aqui marcamos encontros e compromissos mais ou menos para tal hora. Diferentemente da Inglaterra, em que os ônibus têm horário de passagem por determinado ponto exatamente a tal hora e tantos minutos. Cuja precisão serve para os passageiros acertarem seus relógios. Empreendedorismo também falso. Porque, se fôssemos um país de empreendedores, o capitalismo brasileiro seria um capitalismo autêntico e eficiente. E não um capitalismo de exclusões sociais e desemprego, dependente de subsídios e favorecimentos, um capitalismo de precipício.

De ensino, quem entende mesmo é aquele professor que ensina aprendendo. São completamente falsos os pressupostos da educação brasileira, de que o professor sabe tudo e o aluno não sabe. A diversidade social e cultural deste país faz do aluno o portador de conhecimentos que o professor não tem, pois socializado em situações sociais outras e diferentes. A suposição de que o modo de viver e de pensar da classe média, que norteia as fabulações educativas de nossa educação burocratizada, é a referência apropriada para modernizar a educação brasileira, é antieducacional.

Embora não tão sofisticada nem tão “metida”, o Brasil já teve uma educação consistente e formativa, pensada por educadores, os conhecedores da educação na perspectiva dos elos e das conexões dela com a vida. A do professor com formação sociológica e antropológica para compreender o aluno como membro de uma sociedade diversificada, caracteristicamente transicional. A de uma população de milhões de pessoas vivendo em situações sociais de duplicidade e marginalidade cultural que lhes pedem o conhecimento dos códigos de referência desencontrados das várias sociedades que somos e das várias personalidades que somos obrigados a personificar.

Se a educação brasileira fosse pensada para trazer para a sala de aula a informação científica que permitisse explicar e decifrar esse Brasil, seria um país fascinante para o professor e o aluno! Justamente por essa diversidade de mundos que atravessa nosso cotidiano e nossos horizontes.

Em linha oposta à dessa realidade, nossa educação tende cada vez mais na direção da formação de personalidades homogêneas e vazias, sem desafios de criatividade, perdidas numa concepção retilínea da vida, quadrada, horizontal e sem graça, sem os desafios da rugosidade do mundo, de montanhas e abismos.

Nunca serão educativas as aventuras educacionais que fazem do estudante cobaia de um docente que é ensinador, mas não professor, sem formação sociológica e e antropológica. Seus alunos nunca terão condições de ter o conhecimento formativo que lhes permitirá desenvolver o que o sociólogo alemão Hans Freyer definia como autoconsciência científica da sociedade.

Único modo para se defenderem de um senso comum idiotizado e manipulado, um conhecimento minimizador da condição humana, cada vez mais difundido, cada vez mais inimigo da escola e do saber. A educação só o será se for uma educação emancipadora, que dê ao aluno a maturidade responsável de viver e agir como membro da sociedade e não como seu inimigo.

A educação brasileira não conseguiu se propor a questão mais importante no mundo de hoje, a da descoisificação dos seres humanos. Independentemente da classe social das famílias dos alunos, eles são cada vez mais vítimas das incertezas e das falsas alegrias de sua coisificação.

A educação que torna adolescentes em adultos precoces, que treina profissionalmente para empregos que não existem ou que vão deixar de existir na semana seguinte à da formatura, que ensina sem educar, abre para os alunos o futuro de descartáveis das incertezas do mercado de trabalho.

 

José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge, e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, é autor de "As duas mortes de Francisca Júlia A Semana de Arte Moderna antes da semana" (Editora Unesp, 2022).

 

Fonte: https://valor.globo.com/eu-e/coluna/jose-de-souza-martins-brasil-continua-desprovido-de-uma-referencia-na-educacao.ghtml

O ministro e a jornalista

 

Por Marina Amaral, Agência Pública.

O ministro-chefe da Secom, Paulo Pimenta, conseguiu piorar a performance da comunicação do governo, uma área sensível e que tem sido incapaz de cumprir o seu papel, que é o de informar a população sobre o que o governo está fazendo. Nesta semana o ministro foi além, ultrapassando um limite que distingue um governo democrático de um governo autoritário: a relação respeitosa com a imprensa.

“Você é jornalista?”, questionou o ministro ao se ver diante de uma pergunta incômoda de Raquel Landim, na CNN. Ela respondeu sem se alterar — é jornalista formada — e depois postou no twitter: “Sou jornalista, sim. Meu papel é fazer as perguntas. O da autoridade pública deveria ser trazer os esclarecimentos”.

Note-se que a pergunta da profissional se referia a uma declaração do presidente da República tão grave quanto nebulosa, já que coloca sob suspeita o trabalho da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça — a de que as ameaças do PCC contra o ex-juiz e senador Sergio Moro (a quem o presidente continua a tratar como desafeto pessoal) seriam uma “armação”. Perguntar por que o presidente fez essa afirmação, contrariando o que foi divulgado até agora sobre as ameaças, é claramente de interesse público. A jornalista cumpriu o seu papel, o ministro não.

A atitude da Secom não ajuda em um momento em que o país parece ávido por resultados, enquanto o governo tenta desarmar as minas que Bolsonaro instalou em toda a administração pública, como notou o jornalista Ricardo Kotscho, na sua coluna de terça-feira no Uol. Se não pode contar com a imprensa para uma cobertura equilibrada sobre as dificuldades que enfrenta também no Congresso, com o Banco Central, com pressões e lobbies de diferentes setores, não melhora nada o governo ferir os princípios democráticos, fundamentais na eleição de Lula.

Ontem, a Abraji divulgou um levantamento sobre agressões contra jornalistas em 2022 que mostra um crescimento de 23% dos ataques em relação a 2021, em curva ascendente desde 2019 – e também o aumento de casos graves de agressão. A modalidade mais comum de ataque — os discursos estigmatizantes — teve o envolvimento direto da família Bolsonaro em 41,6% dos casos. Durante a campanha eleitoral — o período mais violento, segundo os dados — Jair Bolsonaro liderou o ranking de ataques, participando de mais da metade dos casos. “Não foram identificados discursos estigmatizantes publicados durante o período de campanha nos perfis de Lula, Simone Tebet e José Maria Eymael”, conclui a Abraji.

É essa a linha que não se pode cruzar.

A confusão de postura da comunicação do governo Lula facilita a vida da imprensa que busca ressuscitar Bolsonaro — como mostra a cobertura exagerada da volta pouco festiva do ex-presidente ao Brasil — e estabelecer falsas equivalências entre um governo predador e um governo com espírito público, uma especialidade desde a campanha de 2018. Se a comparação da imprensa é descabida, o governo não pode escorregar — sobretudo em um país que ainda não superou as feridas de mais de 20 anos de ditadura militar.

Que esse 31 de março não seja comemorado, mas jamais esquecido.
Democracia, sempre!

Fonte:  https://desacato.info/o-ministro-e-a-jornalista/#more-303382

Democracias não prestam vênia a ditaduras

 Editorial

Imagem ex-libris

Ausência de celebração militar do aniversário do golpe de 64 é retorno à normalidade institucional. Homenagens oficiais do governo Bolsonaro à ditadura eram insubmissão à Constituição

Durante os quatro anos do governo de Jair Bolsonaro, as Forças Armadas comemoraram o golpe de 31 de março de 1964. A orientação para os quartéis celebrarem a data foi um pedido do presidente Bolsonaro, cuja carreira política sempre se valeu do discurso de saudosismo da ditadura militar. Agora, com o governo de Lula da Silva, retorna-se à normalidade institucional. Não haverá nenhuma homenagem oficial à instauração do regime militar.

O tema é importante e merece ser bem compreendido. Não cabe, num Estado Democrático de Direito, realizar homenagens oficiais a períodos ditatoriais, nos quais, entre outros abusos, liberdades fundamentais e direitos políticos foram negados. Nenhuma instituição pública – cuja razão de existir remete, em última análise, ao princípio democrático – tem legitimidade para celebrar golpe militar.

Por isso, foi um passo importante quando, no governo de Fernando Henrique Cardoso, pôs-se fim, nos quartéis, à Ordem do Dia referente à celebração do golpe de 1964. A medida não tinha nenhuma dimensão de vingança ou mesmo de humilhação dos militares. A existência das Forças Armadas está prevista na Constituição, tendo, portanto, o seu lugar no Estado Democrático de Direito. O que não tem cabimento no regime democrático é o envolvimento dos militares em questões políticas. As Forças Armadas estão plenamente submetidas ao poder civil.

A abstenção do Estado de toda e qualquer homenagem ao golpe militar não tem a pretensão de reescrever a história nem de moldar a compreensão da população sobre os fatos passados. A história não pertence ao poder estatal. No ambiente de liberdade próprio de um regime democrático, cada um tem o direito de realizar sua avaliação sobre os fatos políticos pretéritos, o que não significa, por óbvio, afirmar que todas as opiniões têm o mesmo peso. Não dá para negar, por exemplo, que houve censura e tortura durante o regime militar. É tarefa da sociedade, de modo muito concreto dos historiadores, debruçar-se sobre as fontes históricas, de forma a propiciar, com o tempo, um conhecimento cada vez mais acurado sobre o período, o que inclui reconhecer matizes, sombras e também dúvidas.

É preciso advertir, no entanto, que a celebração do golpe militar de 1964 no governo Bolsonaro foi mais do que uma disputa sobre um tema histórico, o que, como se disse acima, é, por si só, um grave equívoco. Não cabe ao Estado escrever a história. Não cabe ao governante de plantão aproveitar-se do aparato estatal para difundir suas versões sobre a história. Na determinação de Jair Bolsonaro para que as Forças Armadas celebrassem o 31 de março, o grande tema em questão não era o que ocorreu em 1964, e sim a rejeição das escolhas feitas pela sociedade brasileira em 1988, com a promulgação da Constituição. Mais do que negacionismo a respeito da história nacional, havia uma insubmissão à ordem jurídica vigente.

Eis o grande problema das celebrações do golpe militar durante o governo Bolsonaro: elas eram uma declaração de afronta ao Estado Democrático de Direito. Ao louvar a ditadura e ao homenagear torturador, Jair Bolsonaro estava, na realidade, desprezando a Constituição de 1988; em concreto, fustigava o livre funcionamento do Congresso e do Judiciário. E ainda transmitia a mensagem subliminar de que, a depender das circunstâncias, as Forças Armadas poderiam ser convocadas para tutelar o poder civil. Ora, tudo isso é rigorosamente inconstitucional.

Mesmo que, por hipótese, tudo isso ficasse “apenas” no plano simbólico, já seria gravíssimo. Constitui evidente abuso de poder valer-se de uma data do calendário nacional para instigar as Forças Armadas contra o regime constitucional. Mas, como se verificou nos ataques ao sistema eleitoral e nos atos do 8 de Janeiro, essa afronta à Constituição não ficou no plano das ideias. Produziu danos concretos.

A não celebração do 31 de março de 1964 é, portanto, um modo de defender e promover o efetivo respeito à Constituição de 1988. Democracias não prestam vênia, nem por um dia, a ditaduras.

Fonte:  https://www.estadao.com.br/opiniao/democracias-nao-prestam-venia-a-ditaduras/?j=511813&sfmc_sub=495497372&l=8503_HTML&u=15540548&mid=534001280&jb=1003&utm_medium=newsletter&utm_source=salesforce&utm_campaign=conectado&utm_term=20230331&utm_content=