quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O melancólico fim do papado de Bento XVI

Às 8 horas da noite deste 28 de fevereiro, Ratzinger deixará de ser papa e abandonará o Vaticano. Regressará dentro de dois meses para viver no convento de monjas que está dentro da cidade papal. Neste período, será nomeado o próximo sumo pontífice e no Vaticano conviverão dois papas: o demissionário e o novo. Os vaticanistas acreditam que ele não vai embora de verdade, que exercerá sua influência para seguir depurando as águas de uma igreja que só vive pela pureza de seus fieis que ainda acreditam na sagrada providência, enquanto a igreja dos homens afunda nas vilanias terrestres. 

Roma - Há um momento na vida de um ser humano em que tudo o que ele tem que fazer é a última vez de algo. Desde o papa Bento XVI anunciou, dia 11 de fevereiro, que renunciaria a seu pontificado, tudo o que ele faz a caminho de voltar a ser Joseph Ratzinger, é o último: o último Ângelus no domingo e, na quarta-feira, a última audiência pública das quartas, a número 348, sob um generoso sol matinal e com uma Praça São Pedro lotada de gente. Essas audiências são realizadas no interior do Vaticano e são de acesso livre, mas nesta quarta havia tantos pedidos que ela foi feita na praça, com toda a pompa com que o Vaticano cerca essas cerimônias. Outra vez estavam eles ali para sustentar a estrutura terrestre com a qual a Igreja Católica maculou seus atos: o apetite pelo poder, a pedofilia, os negócios confusos do Banco do Vaticano, a guerra entre grupos e congregações. Eles são os fieis, cerca de cem mil.

Emocionados, com lágrimas nos olhos ou com olhar beato, seguem crendo com fé nesse Deus tão mal representado por muitos dos cardeais sentados na estrada do Vaticano. Momento estranho, surrealista, embebido de emoção e desencanto. Com uma voz às vezes rasgada e gutural, o papa evocou a dúvida, o poder da fé, sua missão e o cansaço que, disse, o levou a uma renúncia cuja “gravidade” assumia plenamente.

Talvez por ter sido o último encontro, bento XVI pareceu mais humano, mais simples, mais compreensível, mais transparente em sua complexidade. “Nos últimos meses senti que minhas forças tinham diminuído e, com insistência e na oração, pediu a Deus que me iluminasse para que eu tomasse a decisão mais justa, não para o meu bem, mas sim pelo bem da igreja. Dei esse passo com a plena consciência de sua gravidade, e também de sua novidade, mas com uma profunda serenidade”. Muitos séculos o separam do papa Celestino. Eleito papa em julho de 1294, Celestino renunciou ao papado no mesmo mês. Celestino não falava latim, desconhecia o direito canônico e era um péssimo teólogo. Tudo ao contrário de Ratzinger, que é um grande teólogo, fala seis idiomas, conhece outros cinco, toca Mozart ao piano e deixou, apesar das reservas dos anti-vaticanistas, uma obra escrita de considerável interesse.

O homem que se despediu nesta quarta-feira está marcado por uma complexidade mutante: reacionário e, em alguns períodos da história, nem tanto; membro do aparato mais denso da igreja, mas também capaz de provocar a abertura de segredos e atingir a proteção dos intocáveis, expondo os casos de pedofilia, condenando os culpados, depurando as contas sujas da igreja e rompendo o cerco que protegia o fundador dos Legionários de Cristo, o padre mexicano Marcial Maciel, pedófilo, alcoólatra e ladrão. Seu último movimento nesta direção foi a destituição do cardeal primaz da Escócia, Keith O’Brien, envolvido igualmente em abusos sexuais.

Ratzinger é um personagem com muitos rostos e deixa um legado a partir do qual a igreja não poderá mais ser a mesma. Seu pontificado é uma mancha de escândalos. Sua saída de cena é igualmente paradoxal. Os papas não se despedem em vida, como aconteceu na quarta. Ratzinger, sim. Ele falou de seu mandato, desses anos nos quais “houve dias de sol e de brisa suave, mas também dias nos quais as águas estiveram agitadas, o vento soprava contra e Deus parecia estar adormecido”.

Às 8 horas da noite deste 28 de fevereiro, Ratzinger deixará de ser papa e abandonará o Vaticano. Regressará dentro de dois meses para viver no convento de monjas que está dentro da cidade papal. Neste período, será nomeado o próximo sumo pontífice e no Vaticano conviverão dois papas: o demissionário e o novo. “Não abandono a cruz, sigo ao lado do senhor crucificado, mas de uma nova maneira”, disse Razinger. Os vaticanistas acreditam que ele não vai embora de verdade, que exercerá sua influência para seguir depurando as águas de uma igreja que só vive pela pureza de seus fieis que ainda acreditam na sagrada providência, enquanto a igreja dos homens afunda nas vilanias terrestres.
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O artigo é de Eduardo Febbro, direto de Roma.
Tradução: Marco Aurélio Weissheimer
Fonte:  http://www.cartamaior.com.br/28/02/2013

Slogans

Luis Fernando Veríssimo* 


Durante 15 anos, trabalhei como redator na MPM Propaganda. No fim dos 15 anos, sabia tanto sobre como funciona ou deixa de funcionar a publicidade quanto no meu primeiro dia. Amiúde (sempre quis usar a palavra “amiúde”!), me surpreendia com o resultado de uma campanha publicitária ou de marquetchim. Não entendia como, muitas vezes, boas campanhas não davam resultado enquanto outras, medíocres, tinham efeito imediato. Mas mesmo sem, literalmente, saber o que eu estava fazendo durante os 15 anos, foram 15 anos, alguma coisa eu aprendi.

Aprendi, por exemplo, que o bom slogan publicitário é o que com poucas palavras tem mais de um sentido. Quando eu estava lá, a MPM ganhou a conta da Riocell, uma empresa de celulose que, do outro lado do Guaíba, o rio que não é rio, mandava maus odores sobre Porto Alegre, revoltava a população e provocava críticas ferozes da imprensa. Dependendo da direção do vento, o cheiro de ovo podre era mesmo insuportável. Para se defender, a Riocell começou a instalar um sistema antifedor – filtros, ou coisa parecida – e contratou a MPM. Para melhorar a sua imagem. Bolamos uma campanha convidando os porto-alegrenses a visitarem a fábrica e descobrirem o que estava sendo feito para acabar com o mau cheiro e ouvir as explicações dos seus técnicos. O slogan da campanha era “Conheça o outro lado”. O outro lado do Guaíba e os argumentos contra os ataques que a Riocell sofria, o outro lado da questão. Hein? Hein? Está bem, não era genial. Mas funcionou.

Se alguém me pedisse (ninguém pediu) um exemplo perfeito do duplo sentido que vende, eu responderia sem hesitar: o nome do xampu anticaspa Head and Shoulders, ou “cabeça e ombros”. Como sabe quem tem, a caspa não é um problema só dos cabelos, é também dos ombros, quando se está vestindo roupa escura. E em inglês, quando se quer dizer que alguma coisa é muito superior a outras, se diz que está cabeça e ombros acima das outras, “head and shoulders”. O xampu vende sua eficiência contra a caspa nos cabelos e nos ombros e ao mesmo tempo a sua superioridade sobre as outras marcas, com um sutil autoelogio.

Isto tudo é para comentar o slogan – se é que é um slogan para durar e não uma frase de ocasião – do PT, “O fim da miséria é apenas um começo”. Não sei se o slogan acabará como exemplo de propaganda enganosa ou se a realidade vai confirmá-lo, mas de um ponto de vista puramente publicitário é ótimo.
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* Jornalista. Escritor. Colunista da ZH
Fonte: ZH on line, 28/02/2013
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Nossa vã filosofia

Carlos Heitor Cony*

 

Para nós, ocidentais, o livro-base continua sendo a Bíblia, em seus dois Testamentos. A ela devemos o relato da criação, escrito não se sabe por quem, apesar de os judeus atribuírem os cinco primeiros livros a Moisés. 

Nela está escrito que o espírito de Deus pairava sobre as águas, até que ele deu uma ordem ou expressou um pedido: "Fiat lux". E a luz foi feita. Primeira pergunta: a quem ele deu essa ordem ou expressou esse desejo? A ele mesmo, ou havia alguém ou alguma coisa capaz de atendê-lo? 

Ainda no processo da criação, Ele teria dito: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança". Usou o plural. Haveria alguém ao lado ou acima dele? Bem, a linguagem --qualquer linguagem-- é metafórica ou simbólica, traduzindo em letras aleatórias uma realidade espiritual ou física para a transmissão de um conhecimento. 

Será que o Deus cultuado no Ocidente é um Deus menor, um demiurgo como queria Platão, com jurisdição limitada ao que nós chamamos de Universo? A mesma pergunta transcende ao Deus criado por judeus, árabes e cristãos em oposição aos deuses do paganismo, responsáveis por civilizações antigas, como a dos persas, a dos egípcios, a dos gregos e a dos romanos. Paganismo que fez Abraão abandonar sua cidade natal --qualquer entendido em palavras cruzadas sabe que ele saiu de Ur, na Mesopotâmia, porque acreditava e fez seus descendentes acreditarem num único Deus. 

Ele teria usado o plural para fazer o homem à sua imagem e semelhança. Seria Ele o responsável pelo antropomorfismo, dando à sua criatura as características ontológicas de seu Ser, sendo Ele "ens ut ens"? Daí o nome de Deus em hebraico ser plural: Elohim.
São perguntas que não sei responder, como não sei se Lula tinha ou não domínio do fato que resultou no mensalão. 
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* É membro da Academia Brasileira de Letras desde 2000. Sua carreira no jornalismo começou em 1952 no "Jornal do Brasil". É autor de 15 romances e diversas adaptações de clássicos. Cronista da Folha.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/26/02/2013
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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

As finanças secretas e caóticas da Igreja Católica

 

A investigação por lavagem de dinheiro do Banco do Vaticano, as indenizações pelos escândalos sexuais e o número decrescente de fieis e doações são alguns dos problemas que o próximo pontífice herdará. Em entrevista à Carta Maior, o jornalista Jason Berry, fala sobre as finanças secretas da Igreja Católica, tema que foi objeto de sua investigação nos últimos 25 anos. Essa história, segundo ele, remonta à guerra fria e à massiva injeção de dinheiro da CIA no Vaticano para neutralizar a ameaça do Partido Comunista Italiano. 


Londres - O Papa Bento XVI abandona o barco em meio a sérios problemas financeiros. A investigação por lavagem de dinheiro do Banco do Vaticano, as indenizações pelos escândalos sexuais e o número decrescente de fieis e doações são alguns dos problemas que o próximo pontífice herdará. Ninguém sabe exatamente quanto gasta a Igreja Católica em nível mundial, mas segundo uma investigação da revista inglesa The Economist, publicada no ano passado com base em dados de 2010, a cifra rondaria os 170 bilhões de dólares. Em um livro sobre as finanças secretas da Igreja Católica, o jornalista Jason Berry, que investigou o tema nos últimos 25 anos, afirma que a estrutura financeira da igreja é “caótica” e “opaca”.

Em entrevista à Carta Maior, Berry falou das dificuldades econômicas do Vaticano que, para ele, remetem à guerra fria e à massiva injeção de dinheiro da CIA no Vaticano para neutralizar a ameaça do Partido Comunista Italiano, então o mais poderoso da Europa ocidental.

Carta Maior: Como é a estrutura financeira da Igreja Católica em nível mundial?

Jason Berry: A Igreja Católica é muito hierárquica, monárquica eu diria, com o Papa como líder e dioceses dirigidas por arcebispos e bispos em todo o globo. Mas, em virtude de seu próprio tamanho, é internamente caótica e ingovernável. Cada bispo trabalha em sua diocese como se estivesse comandando um principado.

CM: O que sabemos de concreto sobre a riqueza do Vaticano?

JB: Há uma absoluta opacidade nas contas. Quando o vaticano declara suas rendas e gastos anuais não inclui o Instituto para as Obras de Religião, o IOR, mais popularmente conhecido como o Banco do Vaticano, cujos fundos são estimados em cerca de 2 bilhões de dólares. O IOR tem sido administrado em um clima de absoluta falta de transparência, o que o converteu em um veículo perfeito para o trânsito de todo tipo de fundos. Mas agora, com a investigação do Banco Central da Itália sobre lavagem de dinheiro, isso está mudando.

CM: Segundo algumas informações, o Vaticano tem interesses em uma empresa de espaguete, no setor financeiro, aviação, propriedades e uma companhia cinematográfica. Diz-se, inclusive, que controla entre 7 e 10% da economia italiana. Mas, dada a opacidade de suas contas, até onde é possível confirmar essas informações?

JB: Há informação disponível a instituições que nos permite saber onde está o dinheiro do Vaticano. Na Itália, o Vaticano investiu muito no Banco de Roma, que foi fundamental na reconstrução da Itália depois do “Risorgimento” no século XIX. Também tem negócios na área dos transportes públicos. A isso deve-se somar propriedades na própria Itália, na Europa e nos Estados Unidos. O Vaticano chegou a ser um dos proprietários do edifício Watergate, do famoso escândalo que provocou a renúncia de Richard Nixon. O grande tema hoje em dia é averiguar até onde prestou serviços a clientes que o utilizam como um banco “off shore”.

CM: Que impacto econômico os escândalos sexuais tiveram nas finanças da igreja?

JB: Nos Estados Unidos esse impacto foi muito forte. As dioceses e ordens religiosas pagaram mais de dois bilhões de dólares. Em muitas cidades tiveram que fechar igrejas. Los Angeles, Chicago e Boston, três das mais importantes arquidioceses, tiveram um rombo médio de 90 milhões de dólares em seus fundos de pensão.

CM: Em seu livro “Vows of Silence” você fala do fundador dos Legionários de Cristo, o mexicano Marcial Maciel que chegou a controlar um império de 650 milhões de dólares e contou com a proteção do Papa João Paulo II, apesar das denúncias de abusos sexuais. Maciel teve fortes vínculos com o governo de Pinochet no Chile e com os governos da América Central. Há alguma figura equivalente na igreja de hoje?

JB: Maciel foi o mais bem sucedido coletor que a igreja teve. Começou no final dos anos 40 buscando apoio de milionários católicos no México, Venezuela e Espanha durante a perseguição dos padres no México e pouco depois da guerra civil espanhola. Com este dinheiro, Maciel formou sua própria base de poder em Roma e se converteu no porta-voz do setor mais conservador e militante da igreja. Assim como fez com Franco, se vinculou muito com Pinochet no Chile. Nos Estados Unidos o próprio diretor da CIA durante os anos Reagan, William Casey, fez uma doação de centenas de milhares de dólares aos legionários. Maciel comportava-se como um político que viajava pelo mundo arrecadando fundos para fazer avançar a causa do catolicismo conservador e a agenda política conservadora. Mas a verdade era que toda sua ideologia encobria um delinquente sexual com poderosos contatos.

Apesar de ter sido acusado de abusar de seminaristas, o Vaticano não o investigou até 2004, a pedido do cardeal Ratzinger, quando João Paulo II estava morrendo. Graças a isso sabemos que teve filhos com duas mulheres no México e que manteve ambos os lares com dinheiro da Legião de Cristo. O escândalo é que o Vaticano demorou tanto para investigá-lo e deixou que ele se transformasse em um Frankenstein. Não há hoje uma figura equivalente no que diz respeito à arrecadação de fundos.

CM: Há uma longa história de escândalos nas finanças do Vaticano. Nos anos 80 houve o escândalo do Banco Ambrosiano e seu presidente, Roberto Calvi, que apareceu enforcado debaixo da ponte de Blackfriars em Londres. Calvi tinha fortes vínculos com o então presidente do Banco do Vaticano, o arcebispo estadunidense Paul Marcinkus. Há uma continuidade entre esses escândalos e os atuais problemas do banco?

JB: Creio que na realidade é preciso retroagir à Segunda Guerra Mundial quando a CIA começou a transferir grandes somas para o Banco do Vaticano. Em 1948, foi a primeira eleição na qual o Partido Comunista italiano, convertido no mais importante da Europa, buscava o poder. Neste momento houve uma grande campanha nos Estados Unidos, patrocinada pelo governo, da qual participou Frank Sinatra, para financiar a democracia cristã. Este foi o começo da história do dinheiro que círculos dos serviços de inteligência estadunidenses para o Vaticano. Uma geração depois, com Roberto Calvi e Marcinkus, o banco havia se convertido em uma via muito lucrativa para a passagem de dinheiro. No final dos anos 80, o banco teve que pagar uma multa de 250 milhões de dólares. Já ali o banco funcionava como uma “off shore” para seus clientes privilegiados. Mas ainda falta muito por documentar sobre essa história.
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A reportagem é de Marcelo Justo.
Tradução: Marco Aurélio Weissheimer
Fonte:  http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21667&boletim_id=1550&componente_id=26523
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Lipovetsky vem à Capital falar sobre a mundialização do mercado de luxo

Lipovetsky vem à Capital falar sobre a mundialização do mercado de luxo Graziela Gillioli/Divulgação 
 "Estamos na era do luxo hipermoderno"

Em entrevista a Zero Hora, falou sobre hiperconsumo e hiperindividualização

Autor de O Império do Efêmero, A Era do Vazio e Os Tempos Hipermodernos, o filósofo francês Gilles Lipovestky é convidado na quarta-feira (27), em Porto Alegre, do evento The New World of Luxury. Lipovestky falará sobre como o mercado de luxo passa por uma mundialização. 

Terça-feira, antes de chegar à Capital, o professor da Universidade de Grenoble, na França, falou a Zero Hora sobre os fenômenos atuais da moda, o hiperconsumo e a hiperindividualização e sobre como essas tendências se refletem em nossas vidas.
– Antes, os pobres tinham vergonha de ser pobres. Hoje os pobres têm vergonha de não poder viver na moda. 

Quarta, ainda na Capital, ele deve visitar o POP Center, o camelódromo, para conhecer seu projeto de inclusão social. 

O teórico da hipermodernidade conversou por telefone, do Rio de Janeiro, com ZH. A seguir, confira trechos da entrevista: 

Zero Hora –  O senhor diz que a moda pode ser dividida em três momentos, e que o atual se caracteriza pela separação entre o luxo supremo e a moda. Em que direção caminha a moda agora? Qual seria a próxima etapa?
Gilles Lipovetsky – Não, porque a fase atual ainda é muito recente. Estamos na era do que eu chamo de luxo hipermoderno, marcada pela mundialização do luxo. Cada vez mais as marcas de luxo investem em lojas no Brasil, na China e na Índia. Antes, o luxo era para um grupo reduzido, para as pessoas extremamente ricas e para os europeus e norte-americanos. Agora, se torna mais acessível. Tenho certeza de que você, de quando em quando, compra, por exemplo, um perfume Guerlain, Hermès, Jean Paul Gaultier. Mesmo se você não é extremamente rico, pode fazer essas compras por preços nem tão elevados uma vez ou outra. E o luxo está se diversificando, não está só na moda. Está no café, como o Nespresso, nos carros, em sorvetes como Häagen-Dazs. 

ZH – Vivemos num período de incertezas, de medo, de riscos. Isso se reflete no consumo?
Lipovetsky – Sim, porque o consumo permite esquecer. Se você tem problemas, muitos já não recorrem, como no passado, às orações. O consumo é uma maneira de se dar prazer. É como se dissessem: temos muitos problemas, mas temos direito a ter um pouco de felicidade, de tranquilidade. Se você está com problemas no relacionamento ou no trabalho, pode fazer uma viagem de final de semana, ir ao cinema ou escutar música no smartphone. O consumo permite respirar e se torna terapêutico. É por isso que há uma grande apetite pelo consumo, porque permite completar, compensar o que você não tem. Mas atenção: o mais importante é como você se sente em relação a você mesmo, e não o consumo. É como se fosse um medicamento, que tá dá um pouco de felicidade num momento de ansiedade. 

ZH – Nós caminhamos cada vez mais rumo à hiperindividualização? O que contribui para esse fenômeno?
Lipovetsky – Quase tudo. O mercado, o consumo e o trabalho, porque você é obrigado a gerir seu próprio trabalho e está em uma competição permanente para garantir seu lugar. Por outro lado, a cultura hedonista, de consumo, força as pessoas a quererem estar felizes, reforçando o hiperindividualismo. Antes, as mulheres eram controladas e comandadas pela Igreja, pela tradição, pela moral, pela família. As instituições dirigiam a vida das pessoas, especialmente das mulheres. Hoje, as mulheres não são obrigadas a se casar, nem ter filhos, podem viver como quiserem porque as instituições coletivas não têm mais força. Mas a liberdade gera também muita inquietude. O hiperindividualismo está na decisão de ter um filho sozinha, fora do casamento e até sem relação sexual. As novas técnicas de procriação são um exemplo extremo desse fenômeno. Há mulheres de 60 anos que querem fazer inseminação porque querem ter um filho, como se quisessem uma bolsa Gucci. 

ZH – No Brasil, o mercado está cada vez mais atento ao consumidor da classe C, com shoppings voltados a esse público. Foi noticiado a construção de um centro no Complexo do Alemão, no Rio. Qual sua impressão sobre isso?
Lipovetsky – Há uma mudança. Antes, as pessoas pobres queriam sobreviver. Hoje, com TV, internet, os pobres também querem viver bem, com a moda, com as marcas. Economizam em certos gastos para comprar coisas mais hedonistas. E os jovens pobres não querem apenas um calçado. Querem um tênis Nike. Antigamente, os pobres tinham vergonha de ser pobres. Hoje, os pobres tem vergonha de não poder viver na moda. O consumo foi integrado ao comportamento de todas as classes sociais. 

ZH – Nós nos tornamos cada vez mais hiperconsumistas?
Lipovetsky – Quase a totalidade das experiências da vida cotidiana passa pelo mercado, isto é, você deve comprá-las. Antes, se ia ao mercado para comprar os produtos para uma salada. Hoje, se compra uma salada pronta. Antigamente, para falar, você ia à igreja e se confessava com um padre. Hoje, se vai ao psicanalista. Esse fenômeno não tem freios. É irreversível. 
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Reportagem por 
Laura Schenkel
Fonte: ZH on line, 26/02/2013

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Uma nova idiotia

Paulo Ghiraldelli Jr.

Machado de Assis
Há um novo tipo de idiotia na praça. Ela atinge muita gente, mas nascidos mais recentemente, principalmente no Brasil, estão mais sujeitos a tal deterioração do entendimento. Trata-se de uma disfunção cerebral que eu chamaria de “ILGLD”: Inabilidade para a Leitura de Gêneros Literários Distintos.

O indivíduo atingido por esse tipo de idiotia não necessariamente é desinformado. Pode ser, inclusive, que em algumas atividades humanas ele se mostre até inteligente. Todavia, ele é dono de uma burrice muito específica: ele é aquele garoto que por ter ouvido do professor de cursinho que “Machado de Assis fez uma crítica ao positivismo com o seu conto O Alienista”, lê o conto e então, citando (citar é fácil!) Deleuze e outros filósofos de modinha carioca, conclui do alto de seus 28 ou 38 ou 42 anos: “Machado não detectou os problemas todos do positivismo”. Desse modo, o grande Machado de Assis, nosso maior escritor, é posto de lado. Faltou a Machado muita coisa, diz o nosso garoto.

Essa idiotia aparece em graus variados, mas a característica principal do comportamento de quem está sob tal patologia é este aí: ele não consegue entender o gênero literário “conto” ou “romance” uma vez que ele aprendeu já um outro gênero literário, no caso, o da (má) “sociologia da literatura” ou coisa parecida.  Mutatis mutandis trata-se do mesmo caso daquele indivíduo que se tornou ateu aprendendo a criticar a Bíblia porque nela há inverdades factuais ou “incoerência lógica” (ele se acha diferente do leitor fundamentalista!). Também nesse rol aparecem os que não conseguem compreender que a filosofia e a ciência são, em certo sentido, gêneros literários e, enfim, compõem uma tradição de leitura e escrita. A filosofia é uma tradição literária inventada por Platão e a ciência moderna uma outra que deve muito a Galileu.

Nesse mesmo rol de vítimas dessa idiotia específica, estão os que se defrontam com o cinema e não conseguem perceber que o cinema, ele próprio, é um gênero literário e que nele há subgêneros. Nesse campo de vítimas da nova patologia estão os que dizem “nossa, Tarantino é muito sanguinolento!”, mas também estão os que, vendo “Django Livre”, disseram: “ah, se é para ver Western Spaguetti, um filme B, eu veria os próprios”. Assim, a idiotia é uma doença que pode pegar os que se acham sofisticados e que, por profissão, deveriam ser mesmo.

A filosofia que faço tem uma preocupação, ainda que lateral, com essa doença. A ideia que tenho, de sair da filosofia crítica para abraçar o pragmatismo e, com ele, vir construindo esse meu modo próprio de filosofar, que é resumido na frase “desbanalização do banal”, tem de se preocupar com tal idiotia. É que o meu modo de filosofar implica em ampliar narrativas sobre questões que se tornaram banais. A ampliação de narrativas e perspectivas exige que se possa transitar entre gêneros literários, e aí entra uma necessidade de fazer esse trânsito reconhecendo as especificidades de cada campo.

Dou alguns outros exemplos. Vamos ao leitor de Nelson Rodrigues que o lê acreditando literalmente na frase “a vida como ela é”. Ou então aquele leitor que escuta o professor de filosofia política dizer que Hobbes e Maquiavel, diferentemente de Rousseau, são autores “realistas”, e então passa a acreditar que os dois primeiros nos contam o real e Rousseau, “tadinho”, era ingênuo. Ou pior ainda, quando a patologia já está em estado avançado: “Ao dizer que o homem é o lobo do homem”, Hobbes nos mostrou verdadeiramente quem é o homem, o que é o homem, enquanto que Rousseau nos quis enganar ao dizer que “o homem nasce bom”.

O próprio não entendimento da palavra “utopia” já mostra, também, mais uma característica da idiotia. O rapaz diz: “isso é meio utópico”, e com tal frase quer dizer que o descrito não se ligou ao que teria de se ligar, ou seja, ao Nelson Rodrigues, que ao mostrar que um homem pode dar umas boas bolachas na mulher que ama estaria representando muito mais fidedignamente o homem que aquele que descreve uma sociedade em que nenhum homem daria uma bolacha em uma mulher.

Richard Rorty, um filósofo amigo e por quem tenho apreço não só como um renovador da filosofia pragmatista, culpou o platonismo por muito desse tipo de idiotia. Ele não teve a pretensão, é claro, de por nas costas de Platão os casos patológicos. Mas, em certo sentido, ele acabou fazendo isso. Nisso, foi justo com o platonismo e injusto com Platão. O criador da filosofia, ele próprio, foi um brigador contra si mesmo. Ele criou tudo que se podia criar em termos de idolatria de um mundo substancial perene. Com ele nasceram perguntas que fomentam a idiotia, essas que pedem que encontremos a essência da sociedade, do homem, da natureza etc. Mas, também com ele – e isso é o esquecido – nasceram as revisões dessa posição, e isso sempre que uma tal assunção fazia água. Uma boa parte da crítica aristotélica a Platão já está nas obras de Platão, às vezes até mais desenvolvidas que aquilo que Aristóteles nos apresenta.

Platão perguntou por essências imutáveis e acreditou nelas, ou seja, no chamado “mundo das formas”. Nisso, ele forçou a filosofia a ser uma narrativa que viria cobrir todas as outras, uma narrativa que seria a base de todas as outras, pois esta sim falaria do imutável em um mundo mutável. A filosofia seria uma maneira de vencer as cosmologias de Heráclito e Parmênides. Não raro, alguns estudantes de filosofia se tornam professores de filosofia e, por conta de um platonismo meio que esquisito, caem vítimas dessa idiotia, a ILGLD. Mas já tenho visto gente que nunca leu filosofia com essa doença. É uma doença que talvez tenha a ver com a fisiologia de cada um. Há alguns que são predispostos mesmo a pular de gênero em gênero e não perceber que se está viajando de país em país, e que o idioma está mudando, e que não há um idioma básico que unifique todos.
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* Prof. Universitário. Filósofo.
Fonte: http://ghiraldelli.pro.br/2013/02/uma-nova-idiotia/

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Porque é que o inútil é importante?

José Tolentino Mendonça*
 
Sei os riscos que corro ao propor um tema como este: o elogio da inutilidade. Por um lado, estamos claramente perante um termo ambíguo. A inutilidade parece à primeira vista um valor negativo ou um contravalor. Quando é que a inutilidade é boa e libertadora? Por outro lado, a nossa cultura, que idolatra a produção e o consumo, assumiu o útil como um dos critérios máximos para avaliar as nossas vidas. Se é útil, é bom. Quando nos sabemos úteis, sentimo-nos compensados. A vida tornou-se uma espécie de grande maratona da utilidade. Contudo, o termómetro que assinala a nossa vitalidade interior não pode dispensar a pergunta pelo lugar que saudavelmente damos ao inútil.

Porque é que o inútil é importante? Porque o inútil subtrai-nos à ditadura das finalidades que acabam por ser desviantes em relação a um viver autêntico. Condicionados por esta finalidade, e aquela, e aquela acabamos simplesmente por não viver, por perder o sentido da gratuidade, a disponibilidade para o espanto e para a fruição. Recorrendo a uma expressão do teólogo Dietrich Bonhoeffer, a inutilidade é que nos dá o acesso à “polifonia da vida”, na sua variedade, nos seus contrastes, e na sua realidade escondida e densa. E a polifonia da vida outra coisa não é que a sua inteireza, tantas vezes sacrificada à prevalência contínua do que nos é vendido por útil. 

Neste sentido, Jesus de Nazaré é verdadeiramente o Mestre do inútil! Quando lemos os Evangelhos a partir desta chave, encontramos esta preocupação contínua nas palavras de Jesus: a recondução de cada um, não àquelas finalidades subjetivas que se interpõem como obstáculos, mesmo que a gente as veja como grandes oportunidades, mas à abertura fundamental a uma vida segundo o próprio ser. A isso Jesus desafia os discípulos: “Não vos preocupeis quanto à vossa vida, com o que haveis de comer, nem quanto ao vosso corpo como que haveis de vestir, pois a vida é mais que o alimento, e o corpo é mais que o vestuário. Reparai nos corvos… Reparai nos lírios, como crescem. Não trabalham nem fiam… Pois eu digo-vos: nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles” (Lc 12, 22).

Num tempo de aperto, em que o útil nos constringe ao máximo empenho, é importante não esquecer o lugar que, precisamente nestes dias difíceis, temos de conceder ao inútil.

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* Teólogo português. Escritor. Poeta.
Fonte: http://www.snpcultura.org/paisagens_porque_e_que_o_inutil_e_importante.html 24.02.13

O tempo e nós: a parábola da despedida.

  Gianfranco Ravasi*

O Deus do Saltério é o Senhor da história, a qual, 
portanto, deixa de ser apenas uma nomenclatura de 
datas e de dados, mas se transforma em história santa.

Publicamos aqui uma das intervenções do cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, nos Exercícios Espirituais da Cúria Romana, com a presença de Bento XVI, encerrados no último sábado.

Eis o texto.

Uma parábola judaica imagina que, quando Deus criou o mundo, os anjos se aproximaram dele para servi-lo. Um deles trazia em uma bandeja dez porções de beleza: o Senhor entregou nove delas a Jerusalém e uma apenas a todo o resto do mundo. Outro se aproximou com a bandeja da sabedoria e as suas dez quantidades: também neste caso, o Criador atribuiu nove à cidade santa nove, e apenas uma para o resto da terra. Assim ocorreu com muitos outros dons criaturais. Chegou, no fim, também o anjo que trazia a grande bacia da dor. E aqui o leitor pensa que as proporções devem se inverter, mas, em vez disso, Deus jogou igualmente sobre Jerusalém nove porções de sofrimento e deu uma só para o resto da humanidade.

Evocamos esse relato porque ele nos introduz ao quarto lugar onde podemos encontrar o rosto de Deus e a sua revelação, depois da Palavra, da criação, do templo com a liturgia.

Trata-se do horizonte em que se desenvolve a história humana, isto é, o rio do tempo: lá vivem-se a alegria, a festa, o bem-estar, os sorrisos, a beleza, a luz, mas também estão à espreita o mal, o luto, a tristeza, a desgraça, as lágrimas, a fealdade e as feiuras, as trevas.

Todas essas realidades estão igualmente distribuídas em todas as vicissitudes pessoais e sociais, entre crentes e incrédulos, entre homens e mulheres, permeando os séculos e os eventos.

Pois bem, a Bíblia – de modo bastante original em todas as culturas – privilegia o tempo como categoria religiosa: você não deve procurar Deus em primeiro lugar no espaço onde, como se viu, ele também se mostra, mas deve descobri-lo sobretudo enquanto ele entra na história humana, tornando-se verdadeiramente o Emanuel, o Deus-conosco.

Ele escolhe, portanto, a realidade que mais adere a nós, que é intrínseca ao nosso existir. Nascendo, saímos do útero da nossa mãe para sermos acolhidos por dois imensos ventres, o do espaço e o do tempo. Mas este último se apega mais intimamente a nós, principalmente na sua forma – como diziam os gregos – de kairós, isto é, de tempo pessoal vivido, e não tanto de chrónos, ou seja, de passagem temporal objetiva marcada atualmente pelos relógios atômicos.

Deus, o Eterno por excelência, se comprime no tempo humano, que é desenvolvimento sucessivo, e se apresenta nas encruzilhada da história, além dos cruzamentos do espaço, um pouco como acontece nos quadros bíblicos de Chagall, que introduzem anjos e presenças divinas na cotidianidade modesta do shtetl, o vilarejo judaico da Europa Central (imagem acima).

Gandhi, de maneira feliz, chamava a oração de "a chave da manhã e o cadeado da noite". Ela busca e encontra Deus justamente na existência do orante. Ela o encontra nos grandes eventos da história da salvação, onde até mesmo Deus caminha com a sua criatura. Com o cristianismo, ela o descobre em um homem que também é Deus, Jesus Cristo, cuja história é, por isso, irradiada de eterno. Por fim, ela o intui no próximo e nos simples fatos da cotidianidade.

O Deus do Saltério é o Senhor da história, a qual, portanto, deixa de ser apenas uma nomenclatura de datas e de dados, mas se transforma em história santa. E isso acontece na linha da tradição bíblica que professa o chamado "Credo histórico". Ele é proclamado, por exemplo, pelo judeu fiel na primavera, ao apresentar ao templo o cesto da oferta das primícias (Dt 26, 5-9), é proposto solenemente por Josué a todo o Israel, recém-entrado na Terra Prometida com a assembleia de Siquém (Js 24, 1-13), e é cantado também na liturgia do Templo de Sião. Análogo também será o Credo cristão, fundamentado na encarnação do Filho de Deus na história.

Nós, agora, nos confiaremos a um Credo cantado no culto do templo, lendo o Salmo 136, que o judaísmo chamou de "o Grande Hallel", um hino de louvor pascal para solista e coro. Entra em cena justamente um solista levita que, após o convite ao louvor ao "Deus dos deuses, ao Senhor dos senhores, porque ele é bom", entoa com asserções lapidares os eventos da história da salvação em 22 dísticos, tantos quantos as letras do alfabeto hebraico: é quase uma síntese alegre de todas as ações divinas e de todas as nossas palavras de agradecimento.

A assembleia responde constantemente, a cada asserção, com uma antífona fixa: kî le‘olam hasdô, "porque o seu amor é para sempre". Aflora o vocábulo hesed, "fidelidade, amor, graça", particularmente caro ao Saltério, que o usa 127 vezes. É difícil tornar a trama alusiva aos significados desse termo com uma única palavra nossa.
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Fonte: IHU on line, 25/02/2013. -  O texto foi publicado no jornal Corriere della Sera, 24-02-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Por que eu deveria ser papa.

 James Martin*

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Ele não é um novato em textos de efeito: é um grande comunicador e possui uma boa dose de humorismo, começando sobre si mesmo. O padre jesuíta James Martin, redator da revista America, dos jesuítas dos EUA, escreveu uma carta endereçada aos cardeais eleitores para convencê-los a votar... nele mesmo. Uma espécie de Habemus Me.

O artigo foi publicado no sítio da revista America, 21-02-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Caros Cardeais,

Eminências, eu sei que vocês tem um trabalho duro pela frente no conclave. Vocês têm que fazer o impossível: eleger alguém que seja supersanto, superinteligente, que fale uma dúzia de idiomas e que possa dirigir um conglomerado internacional. E, se eu posso ser um pouco brusco, as probabilidades são de que vocês não podem conhecer todos que estarão na sala naquele dia.

Especialmente se vocês recém-receberam aquele barrete vermelho, vocês poderão estar sentados na Capela Sistina, ouvindo alguém falando em francês sobre aggornamiento e ressourcement, e ficar muito envergonhados ao dizer a quem estiver do seu lado esquerdo: "Que diabos é isso?". Além disso, todos meio que parecem iguais: cabelos grisalhos, barrete vermelho, óculos. É difícil diferenciá-los, não importa quantos desses acessíveis infográficos "Quem é Quem" vocês possam ter estudado.

Então, para facilitar as coisas, eu gostaria de sugerir um candidato sobre o qual vocês podem não ter pensado, mas, após alguns segundos de reflexão, vocês saberão que ele é quem vocês estavam procurando: eu.

Aqui estão 12 razões pelas quais vocês devem me eleger papa:

1. Eu sou homem. Isso já é metade do caminho, certo?

2. Eu sou batizado. E tenho os documentos para provar. Não há nenhuma controvérsia de origem aqui.

3. Eu falo diversas línguas. Não muito bem, mas, vocês sabem, quem realmente fala bem? Eu falo inglês, como vocês podem ver a partir deste pequeno ensaio. E adivinhem: Bonjour! É isso mesmo: francês! Eu comecei a estudar français quando eu estava na sétima série. (Reparem que eu usei aquela coisinha embaixo do "c"). Isso significa que eu posso falar com praticamente toda a África ocidental e a França: isso é um monte de católicos. Infelizmente, se eu tiver que usar o subjuntivo ou o imperfeito, estamos sem sorte, mas tudo o que tenho a fazer é evitar dizer "Se eu fosse" em qualquer uma das minhas encíclicas, e estamos feitos. Mas há mais: Hola! É isso mesmo: eu falo espanhol. Mais ou menos. Ou, "Más o menos", como dizemos. Agora, nesse caso, eu realmente não posso lidar com os tempos passados ou futuros, mas tudo bem, porque isso significa que eu falarei tudo no presente – o que vai me fazer soar como alguém forte e confiante. Vocês sabem, "Agora é a hora!". Ou "Ahora es la... bem, ora, eu acho". De qualquer forma, há muitos e muitos católicos de língua espanhola e, assim que ouvirem a minha versão de De Colores, eles ficarão vidrados no Servo dos Servos de Deus muy rapido.

4. Eu sou meio italiano. Eu quase ia me esquecendo: Ciao! Eu sou meio italiano. Pelo lado da minha mãe. Então, assim que eu for Bispo de Roma, eu facilmente serei capaz de lidar com quaisquer problemas da Cúria, porque todas as autoridades curiais italianas irão instantaneamente reconhecer-me como um paesan. Escândalos? Finito! Má gestão? Basta! A minha eleição também irá satisfazer quem procura um papa italiano: ou seja, todos os cardeais italianos, que vocês definitivamente querem do seu lado. A outra metade de mim, a propósito, é irlandesa, o que ajuda muito nos Estados Unidos, podem acreditar.

5. Eu trabalhei na África. Eu quase me esqueci da minha outra língua. Jambo! É isso mesmo! Eu falo suaíli. Ou kiswahili. (Isso é suaíli em suaíli.) Bem, ao menos eu costumava falar. Eu trabalhei no Quênia por dois anos. Então, para todas aquelas pessoas que querem um papa do mundo em desenvolvimento, bem, eu não sou exatamente de lá, mas há três bebês que foram batizados com o meu nome enquanto eu trabalhava no Quênia. (Eles não são meus, se isso for uma preocupação). Isso deve contar para alguma coisa.

Agora que vocês sabem que eu falo inglês, espanhol, francês e suaíli, vocês provavelmente devem estar pensando: "Puxa, por que não o Jim como Pontifex Maximus?". Por que vocês não compartilham esse pensamento com o homem de vermelho sentado ao seu lado?

6. Livros. Vocês provavelmente querem um papa que seja literato, mas talvez não alguém que passe tanto tempo escrevendo livros, com todas as coisas com as quais ele tem de lidar. Eu sei que essa era às vezes uma crítica ao Papa Bento XVI – não que eu esteja atirando pedras! Mas eu já escrevi os meus livros, por isso, quando eu estiver no Vaticano, eu vou estar 100% trabalhando. Nove horas, cinco dias por semana. Os fins de semana também, se as coisas ficarem realmente cheias. Domingos, é claro, eu estarei disponível para as missas.

7. Experiência de trabalho. Falando em trabalho – adivinhem! –, eu tenho uma graduação pela Wharton School. Essa é uma das maiores faculdades de negócios aqui nos Estados Unidos. Além disso, eu trabalhei na General Electric por seis anos. Então, aqui vai uma boa notícia: digam arrivederci a quaisquer problemas de gestão na Cúria. Já ouviram falar da Administração por Objetivos? A propensão marginal ao consumo? Os "4 Ps" do marketing? Vocês ouvirão falar, depois que eu for Sumo Pontífice. Esse lugar vai funcionar como uma máquina. Uma máquina que faz dinheiro, também.

8. Eu sou ordenado. Quase me esqueci: eu já sou um sacerdote ordenado. Isso significa que, como eu correspondi com todos os outros requisitos, a única coisa que faltava para mim era estar disposto a ser ordenado bispo. E adivinhem: eu estou disposto. Agora, deixem-me antecipar uma objeção menor. Aposto que vocês sabem que eu fiz um voto como jesuíta a não "lutar por ambição" por qualquer alto cargo na Igreja, mas eu tenho uma forma apropriada, fácil e canonicamente factível para contornar esse obstáculo. Assim que vocês me elegerem papa, eu vou ser o meu próprio superior! Depois que eu vestir aquelas vestes brancas, eu posso chamar o superior-geral dos jesuítas e dizer: "Ei, que tal você me deixar aceitar essa ordenação como bispo e a minha eleição como papa?". E eu acho que ele vai ter que dizer que sim, porque ele recebe ordens de mim. Problema resolvido. Além disso, eu não estou lutando por ambição, de qualquer forma. Estou fazendo campanha.

9. Formação. O processo de formação jesuíta é muito, muito, muito longo. Eu nem me lembro quantos anos eu estudei. Isso significa que eu estudei filosofia (bom saber), teologia (muito bom saber) e um monte de outras coisas como história da Igreja, o que eu acho que seria muito útil como papa. E adivinhem? Eu sei grego antigo, também. Isso realmente impressiona os tipos acadêmicos da Igreja. Por exemplo, quando os estudiosos me perguntarem: "Qual tradução do Novo Testamento você está usando?", eu vou dizer: "A minha tradução". Eles adoram esse tipo de coisa. E mais, isso também tem apelo junto à demografia de fala grega antiga da qual a Igreja pode ter desistido.

10. Disposto a viajar. Ok, eu admito. Eu não sou louco por viagens aéreas, por todos os atrasos e pelo fato de ter que tirar os sapatos e de sentar ao lado de alguém que fica tossindo o pulmão para fora, mas eu me dei conta de que isso não será um problema. O pontífice tem o seu próprio avião: Shepherd One. Então, quando vocês instalarem filmes grátis no meu avião dourado e branco, eu vou ficar dourado e branco de tão feliz. Eu irei aonde vocês quiserem que eu vá. Até os confins da terra, se for preciso. Contanto que eu ganhe um pacotinho extra de amendoins.

11. Humildade. Eu já posso prever qual será a última objeção de vocês: a minha campanha para ser papa pode me fazer parecer um pouco menos humilde do que se poderia esperar. Mas o fato de eu estar disposto a fazer campanha não é um sinal da minha humildade? Um cara menos humilde assumiria que todo mundo já sabe que ele seria um bom candidato e, por isso, não diria nada mais do que o seu orgulho. Meio contraintuitivo, não? Isto é: como eu estou fazendo campanha, sou o máximo no que se refere a humildade.

12. Nome legal. Todo mundo sabe que a primeira grande decisão do papa é escolher o seu nome. E mais, eu sei que todo mundo está sempre preocupado com a continuidade. Com isso em mente (eu gosto de pensar no futuro, o que é uma boa característica), eu já escolhi o meu nome. Como vocês sabem, o sucessor do Papa Paulo VI escolheu o nome "João Paulo I" para mostrar a sua continuidade com o Papa João XXIII e com Paulo VI. Todo mundo ficou muito impressionado com isso. Depois, vocês tiveram João Paulo II. Mais continuidade. E, claro, em seguida, tivemos (ou temos, dependendo de quando vocês estiverem lendo isso) Bento XVI. Se vocês me elegerem, e eu espero que o façam, depois de eu dizer "Accepto" (vejam que eu também falo um pouco de latim), eu escolheria o meu nome: João Paulo Bento I. Isso leva em consideração todo mundo, de João XXIII a Bento XVI. Mais continuidade. É claro que pode demorar um pouco para que alguns se acostumem a dizer "JPB1", mas os católicos são bastante flexíveis, e eu aposto que em pouco tempo haverá muitos bebês batizados com o nome de João Paulo Bento.

Enfim, espero que isso lhes ajude a facilitar uma decisão difícil, Suas Eminências. Será que eu não deixei nada de fora? Bem, eu sou um rápido digitador, posso desenhar muito bem e sei contar algumas piadas realmente engraçadas. Por exemplo, aqui está uma boa: "O que o jesuíta disse quando foi eleito papa?"

Só há um jeito de descobrir.
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* O padre jesuíta James Martin, redator da revista America, dos jesuítas dos EUA.
Fonte: IHU on line, 2013
Imagem da Internet

"Este é um momento muito delicado para a Igreja".

Entrevista especial com Massimo Faggioli

"Essa mudança de pontificado em 2013 – que é a primeira nos tempos modernos após uma renúncia papal – poderia modificar muitas coisas, e poderia até pôr a Igreja em um estado de preparação para um novo concílio ecumênico", avalia especialista 
em assuntos do Vaticano.

“A decisão de renunciar é surpreendente, mas não está em contradição com a identidade teológica de Ratzinger. Pode-se classificar Bento XVI como “teologicamente conservador”, mas ele está consciente da eclesialidade do ministério papal – na tradição e no Vaticano II”, afirma Massimo Faggioli, em entrevista por e-mail à IHU On-Line. Em sua opinião, ser papa no catolicismo global se tornou uma “tarefa muito moderna e desafiante, e é provável que um teólogo conservador a sinta como um fardo insuportável (além das razões relacionadas à sua saúde)”. Faggioli pontua que em certos aspectos o Concílio Vaticano II veio “cedo demais”, e questões silenciadas pela Santa Sé, como o papel das mulheres na Igreja, o casamento dos sacerdotes e a ordenação de homossexuais, devem ser revistas.
Massimo Faggioli (foto) é doutor em História da Religião e professor de História do Cristianismo no Departamento de Teologia da University of St. Thomas, de Minnesota, Estados Unidos. Seus livros mais recentes são Vaticano II: A luta pelo sentido (Paulinas, 2013) e True Reform: Liturgy and Ecclesiology in Sacrosanctum Concilium (Liturgical Press, 2012) e, em espanhol, Historia y evolución de los movimientos católicos. De León XIII a Benedicto XVI, (Madrid: PPC Editorial), 2011.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Sob quais aspectos deve ser compreendida a renúncia de Bento XVI?
Massimo Faggioli O papa pode renunciar, e certamente esse ato não é ilegal. Mas ele também deve ser entendido como um ato de governo e como uma decisão pessoal do papa, que tem a ver com seu estado de saúde, mas também com o caos existente no Vaticano e em algumas áreas do catolicismo. Chama a atenção que Bento XVI tenha dito que tomou essa decisão sozinho, sem consultar ninguém. Esse é um elemento muito interessante. Uma decisão tomada pelo papa após uma consulta com alguém outro teria levantado questões canônicas, mas também teria sido um sinal de colegialidade na Igreja – e a colegialidade é algo que foi aprovado pelo Vaticano II, mas jamais chegou a fazer parte do governo da Igreja, com exceção de alguns poucos casos.
IHU On-Line – Quais foram suas principais motivações?

Massimo Faggioli
Paulo VI foi o papa que concluiu o Vaticano II; João Paulo II foi o último papa que também foi padre conciliar no Vaticano II; Bento XVI é o último papa que esteve no Vaticano II (como teólogo, não como bispo). Essa mudança de pontificado em 2013 – que é a primeira nos tempos modernos após uma renúncia papal – poderia modificar muitas coisas, e poderia até pôr a Igreja em um estado de preparação para um novo concílio ecumênico ou colocar em pauta muitas questões que, durante demasiado tempo, foram consideradas “resolvidas”.

IHU On-Line – Em que sentido a renúncia do papa e a escolha de um novo pontífice podem representar uma mudança nos rumos da Igreja Católica?

Massimo Faggioli
– A renúncia é o acontecimento principal, porque nas leis da Igreja havia um cânone que permitia isso ao papa, mas não dispunha o que aconteceria depois da renúncia. Nesse sentido, trata-se de uma decisão que cria um precedente, mas ainda há muitas coisas que não sabemos como irão se desdobrar, e este é um momento muito delicado. Trata-se de um conclave excepcional, e não normal. Também é uma situação perigosa, porque o papa disse que a “Sede vacante” começa em 28 de fevereiro, mas, em certo sentido, desde seu anúncio em 11 de fevereiro a Sé de Pedro já está vacante na prática.

IHU On-Line – A renúncia de Bento XVI ocorre 50 anos depois do Concílio Vaticano II e 600 anos depois da última renúncia papal. Podemos dizer que se trata do principal acontecimento no Vaticano nas últimas décadas? Por quê?

Massimo Faggioli
– A decisão de renunciar é surpreendente, mas não está em contradição com a identidade teológica de Ratzinger. Pode-se classificar o papa Bento XVI como “teologicamente conservador”, mas ele está consciente da eclesialidade do ministério papal – na tradição e no Vaticano II. Suas concepções conservadoras são coerentes com a renúncia, já que o papa Bento XVI provavelmente sabia que o ministério papal tinha se tornado algo diferente do que ele achava que devia ser: exposição excessiva à mídia, excesso de responsabilidades para com o mundo e a política, excesso de tarefas administrativas. Ser papa no catolicismo global se tornou uma tarefa muito moderna e desafiante, e é provável que um teólogo conservador a sinta como um fardo insuportável (além das razões relacionadas à sua saúde).

IHU On-Line – Como explicar que um papa, reconhecidamente conservador, tenha tomado uma atitude tão moderna?

Massimo Faggioli
– A tentativa de Bento XVI não foi exatamente restaurar o poder da Igreja na sociedade moderna, e sim restaurar o ensinamento coerente (segundo sua concepção) da Igreja sobre questões centrais. Nesse aspecto, Joseph Ratzinger nunca foi ingênuo a ponto de acreditar que pudesse recristianizar um mundo secular. João Paulo II era mais confiante nesse sentido; o papa Bento sempre foi menos “romântico” e mais realista.

 "Só há liberdade na verdade, e, 
para o papa Bento, o que é típico 
da modernidade é a tentativa de “decidir” 
o que é a verdade. Na concepção dele, 
a verdade é revelada por Deus, 
e você tem de entendê-la e aceitá-la, 
e não decidir a respeito dela. 
Isso é típico de suas concepções 
de modernidade, democracia 
e mudanças sociais."

IHU On-Line – O senhor considera que o desafio para o novo pontífice é, de alguma forma, restaurar a autoridade da Igreja em um mundo contemporâneo? Como fazer isso em uma sociedade pós-moderna e, em grande parte, secularizada?

Massimo Faggioli
– Para essas questões a Igreja necessita de um momento de debate conciliar – um concílio ou sínodo que tenha real liberdade para falar. Esse é um dos pontos da pauta do conclave de 2013. Quanto a essas questões, há um aspecto de conteúdo do ensino da Igreja, e há um aspecto de estilo do ensino. Ambos são muito urgentes. Os primeiros assuntos que são teologicamente menos desafiadores do que outros são a ordenação de viri probati e o diaconato para mulheres.

IHU On-Line – A igreja tem ouvido aos sinais dos tempos? Como essa instituição pode dialogar sobre temáticas como casamento homoafetivo, métodos contraceptivos, fim do celibato, aborto e ordenação de mulheres, por exemplo?

Massimo Faggioli
– Em muitos aspectos, o Vaticano II ainda não foi implementado, por exemplo no que diz respeito à colegialidade na Igreja. No tocante a outras questões, o Vaticano II veio cedo demais, de modo que temos de explorar soluções para novas questões sobre as quais o Vaticano II silencia, tais como o papel das mulheres na Igreja, sacerdotes casados. Uma abordagem hermenêutica correta do Vaticano II consiste em fazer a ele perguntas que o Concílio de 1962-1965 pode responder, e não perguntas que o Vaticano II não pode responder.

IHU On-Line – Qual é a atualidade do Concílio Vaticano II na Igreja Católica frente aos problemas contemporâneos?

Massimo Faggioli
– Na alocução de 22 de dezembro de 2005, o papa fez uma distinção entre “hermenêutica da continuidade e reforma” e “hermenêutica da descontinuidade e ruptura”. Essa alocução foi também uma reação às novas contribuições para o debate teológico acadêmico, particularmente uma reação à historicização do Concílio empreendida pela obra em cinco volumes intitulada História do Vaticano II, editada por Alberigo e pela “Escola de Bolonha” (concluída em 2001 e publicada em sete línguas), e ao Comentário teológico do Vaticano II, em cinco volumes, que teve origem em Tübingen e foi editado por Peter Hünermann (que tinha presenteado ao papa exemplares dele poucas semanas antes da alocução à Cúria Romana). A reputação do Vaticano II foi profundamente afetada pelo papa Bento e pela alocução de 2005, em especial pelas interpretações simplistas e ideológicas do Concílio. Um primeiro elemento visível é a mudança da linguagem usada para falar do Vaticano II nos últimos oito anos. A partir de fins de 2005, um papa, Bento VI, sentiu-se no direito de questionar o que tinha sido alcançado pelos estudos históricos e teológicos sobre o Vaticano II publicados pela comunidade científica internacional desde a década de 1980, ao menos. Por um lado, Bento XVI pôs fim ao “nominalismo do Vaticano II” típico de João Paulo II – o Vaticano II usado como cobertura ou manto para dar legitimidade a muitas coisas que não provinham dele. Por outro lado, Bento XVI também começou a remover programaticamente da mensagem proveniente do Vaticano aquelas “improvisações” feitas por João Paulo II (judaísmo, islã, inculturação) que tinham permitido aos teólogos católicos não falar de um repúdio completo do Vaticano II por parte dos papas pós-conciliares. Por fim, é difícil negar que o movimento contra a reforma litúrgica do concílio é produto do pontificado de Bento XVI (veja o motu proprio intitulado Summorum Pontificum de 7 de julho de 2007 e a nova tradução do missal para o inglês): a “reforma da reforma litúrgica” nunca foi um problema sob Paulo VI e João Paulo II, mas se tornou um problema sob Bento XVI.

IHU On-Line – Como analisa os discursos de Bento XVI quando assumiu, em 2005, e quando anunciou sua renúncia? Tomando em consideração o Concílio Vaticano II, que leituras podem ser feitas dessas duas falas?

Massimo Faggioli
– O pontificado foi muito influenciado por esse legado. O papa Bento é um teólogo neoagostiniano, com uma profunda percepção da diferença entre a Igreja e o “mundo” numa compreensão metafísica. Ele não acredita que a Igreja possa e deva ser um agente de transformação social, e essa ideia é típica de suas concepções sobre a relação entre a Igreja e a política e a Igreja e a cultura. Nesse aspecto, temos uma diferença profunda entre ele e seus predecessores Paulo VI e João Paulo II.

IHU On-Line – Como a formação agostiniana do papa se revelou à frente de seu pontificado?

Massimo Faggioli – Essa análise é típica de um teólogo neoagostiniano, especialmente de um teólogo neoagostiniano que se criou na Alemanha nazista e viu o lado muito perigoso da modernidade. Dito isso, Joseph Ratzinger tem uma compreensão profunda das contradições da modernidade, especialmente entre a ideia de modernidade e o acesso à verdade. Só há liberdade na verdade, e, para o papa Bento, o que é típico da modernidade é a tentativa de “decidir” o que é a verdade. Na concepção dele, a verdade é revelada por Deus, e você tem de entendê-la e aceitá-la, e não decidir a respeito dela. Isso é típico de suas concepções de modernidade, democracia e mudanças sociais.
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Fonte: IHU on line, 25/02/2013

Uma 'pintura de jogada' de Goya, ou uma prévia para a sociologia dos esportes


Jogos e brincadeiras são cenas retratadas por Goya em ‘El Pelele’ e ‘Los Zancos’. Como avançamos dessas imagens do século XVIII para os esportes modernos, com regras, juízes, recordes, prêmios e tudo o mais que se configuraria a partir dos anos 1850? Este é o tema que passa a ser debatido pela coluna ‘Deixa Falar: o Megafone do Esporte’ a partir desta semana

Para Johan Huizinga, historiador holandês, autor do clássico “Homo Ludens”, a brincadeira precede a cultura posto que os animais também brincam; porém não jogam e tampouco praticam esportes, eis aí uma questão central para pensar o esporte moderno. Iniciemos pelos jogos e brincadeiras.

“El Pelele” de Goya
 
“El Pelele” é um dos mais populares e conhecidos cartões de tapeçaria de Goya (1746 – 1828). Carlos IV da Espanha, fez esta encomenda para sua sala de despachos solicitando quadros com temas campestres e jocosos. Este tema carnavalesco retrata um jogo no qual quatro jovens executam movimentos ritmados com uma manta, de tal maneira que um boneco, neste caso uma figura masculino, é manuseado, ou manipulado, sendo jogado para o ar sucessivamente.

Não é uma atividade competitiva. Pelo contrário, é solidária, pois é imperativa a coordenação motora entre as participantes no sentido de executar a brincadeira. A presença de um juiz é absolutamente dispensável, bem como não existem regras, embora possam ser sugeridas tentativas de movimentos diferenciados para o boneco, o que implica em um grau de coordenação crescente, já próximo de malabarismos. Talvez aqui possamos compreender a distancia entre uma atividade de passa tempo da elite, e uma atividade que implica em treinamento e, em um futuro próximo, uma certa dose de profissionalismo (esporte?). Brincar ou jogar para, e com o seu grupo, é diferente, nesta medida de buscar espectadores para uma determinada habilidade possivelmente profissional.

O vestuário elegante das participantes indica um modo de vida refinado, com expressões de prazer e intensa participação, brincam tendo ao fundo um possível bosque de um castelo, divisando uma de suas torres. Sintomaticamente quatro mulheres, e apenas mulheres, manipulam um boneco vestido como palhaço. Tal situação seria simbolicamente impensável em passado não muito remoto. Nitidamente temos um universo onde a posição da mulher é indicadora de uma participação mais acentuada no jogo de poder entre os gêneros. Neste quadro, os passatempos sugerem um requinte e uma sofisticação que nem de longe apontam para qualquer participação popular.

Modelos desenvolvidos por Goya, também para tapeçaria, neste mesmo período, sugerem uma outra abordagem quando os estratos urbanos da população são focalizados, no caso seguinte, o grupo ou ação que centraliza o evento é apresentado tendo em segundo plano uma pequena multidão, a vida e a emoção das pessoas comuns tem um universo de compartilhamento permeado pela presença de inúmeros outros homens comuns, anônimos ou não, frequentadores do cotidiano e das ruas das cidades.

Vejamos mais detidamente esta questão relativa aos jogos/brincadeiras populares, em relação à forma pela qual a elite foi retratada no quadro anterior. Na decoração da mesma sala de despachos, Goya pinta “Los Zancos” (imagem disponível no álbum de fotos acima), onde dois jovens usando longas pernas de pau, e acompanhados de dois outros a pé, tocando cornetas, se movimentam no interior de uma cidade, aparentemente anunciando um evento ou portando uma mensagem digna de se tornar pública. A ação retratada é, nitidamente, focada no sentido de chamar a atenção, do maior número de pessoas possível para o intento das quatro figuras em primeiro plano.

No segundo plano, observando a cena, temos uma grande quantidade de pessoas. O vestuário, os trajes e a atitude indicam claramente tratar-se de trabalhadores em atividades do seu dia a dia, contrastando com a auto-suficiência do grupo em foco no desenho anterior.

Neste quadro há um elemento novo que é a presença de pessoas envolvendo a cena, alguns, como as duas crianças mais centradas na movimentação da pintura, participando ativamente, outros, apenas olhando à distância e com distância. É visível um misto de participação e distanciamento das pessoas envolventes, estabelecendo-se assim uma nítida diferenciação entre o segundo plano de ‘Los Zancos’ em relação a ‘El Pelele’, onde a natureza é retratada inicialmente como moldura mais inóspita e depois já civilizada, este recurso à natureza que permite sobrelevar os altos estratos da elite é no último quadro substituído pela presença da população movimentando-se no seu cotidiano. Contudo, aqui também não temos atividade competitiva, tampouco regras ou mesmo a perspectiva de um eventual árbitro.

As emoções retratadas são diferentes das presentes no quadro anterior. Essencialmente a presença dos tocadores de corneta em ação, visa chamar mais ainda a atenção do entorno para a presença dos dois figurantes com as pernas de pau, todos os quatro convenientemente trajados, como se fossem uniformizados, de tal maneira que a performance em pauta deve referir-se a algum ritual encomendado, eventualmente até mesmo pago.

Há uma percepção pela direção das imagens segundo a qual os “Zancos” estariam se dirigindo a jovem no balcão, poder-se-ia supor que a ela alguma mensagem pudesse estar sendo entregue, da mesma maneira, e o conjunto do movimento retratado assim o sugere, trata-se de uma atividade para a qual o grupo necessitaria ter algum tipo de treinamento, dada a presença de elementos de imprevisibilidade no decorrer da ação motriz retratada.

Como avançamos destas imagens do século XVIII para os esportes modernos, com regras, juízes, recordes, prêmios e tudo o mais que se configuraria a partir dos anos 1850?

O nascimento dos esportes modernos na segunda metade do século XIX será abordado aqui no ‘Deixa Falar: o Megafone do Esporte’, em paralelo a outras transformações econômicas, sociais, políticas e culturais.

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*Ademir Gebara - graduado em História e Educação Física, mestre em História pela USP, PhD em História pela London School of Economics and Political Science, ex-diretor e coordenador de Pós da FEF Unicamp, professor visitante da Universidade Federal da Grande Dourados.


Dois toques do Megafone:

1) Ademir Gebara ao lado de José Sebastião Witter faz parte do time dos precursores da análise e da pesquisa dos esportes/futebol na Universidade brasileira.

Gebara é autor de diversos artigos e livros, dentre os quais indicamos:

- Considerações para uma história do lazer no Brasil. In: BRUHNS, Heloísa Turini (org.). Introdução aos Estudos do Lazer. Campinas, São Paulo. Unicamp. 1997

- Conversas sobre Norbert Elias (depoimentos para uma História do Pensamento Sociológico), com apresentação de Eric Dunning - Biscalchin Editor - 2005.

2) Na apresentação mencionada diz Eric Dunning: "a publicação de Ademir
Gebara Conversas sobre Norbert Elias é, sob qualquer aspecto imaginável, um evento notável e significativo. O livro sinaliza o fato de que, sob a liderança do Professor Gebara, os historiadores e sociólogos brasileiros colocaram-se na dianteira, no continente americano, do envolvimento acadêmico com o pensamento de Elias".

Por fim além do que já foi dito acrescentamos que Ademir Gebara é torcedor apaixonado do São Paulo e um churrasqueiro de primeira.

'Deixa Falar: o Megafone do Esporte': criação e edição de Raul Milliet Filho.

Fonte:  http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21655&boletim_id=1544&componente_id=26378

"O alto comissário do Golbery não toma jeito"

Tarso Genro (*)

O jornalista Elio Gaspari defende as suas teses principalmente a partir da falsificação da posição dos seus adversários de opinião. Para defendê-las, sempre desqualifica os seus adversários com textos de estilo ferino, que não raro beiram a difamação. Já fui alvo algumas vezes das suas distorções e falsificações, mas sobre este tema da reforma política preciso responder formalmente, porque se trata de um assunto extremamente relevante para o aperfeiçoamento democrático do país. Elio Gaspari quer que os eleitores não saibam quem vão eleger. 

Como Elio Gaspari foi do velho Partidão e depois se tornou confidente do General Golbery, fazendo, a partir daí, uma carreira de jornalista mordaz e corregedor de todos os hábitos do país, ele se dá o direito de não só inventar tolices nas suas colunas, como também enganar os mais desavisados.

Defende as suas teses principalmente a partir da falsificação da posição dos seus adversários de opinião. Para defendê-las, Elio sempre desqualifica os seus adversários com textos de estilo ferino, que não raro beiram a difamação. Os que se sentem agredidos raramente se defendem, não só porque ele não publica as respostas na sua coluna, mas porque talvez temam despertar nele uma ira ainda maior, que também não abre espaços para o contraditório.

Já fui alvo algumas vezes das suas distorções e falsificações, mas sobre este tema da reforma política preciso responder formalmente, porque se trata de um assunto extremamente relevante para o aperfeiçoamento democrático do país, sobre o qual existem divergências elevadas, tanto dentro da esquerda como da direita democrática.

A estratégia usada por Elio Gaspari para promover suas crônicas foi muito comum na época da ditadura, quando o SNI - através de articulistas cooptados - recheava de informações manipuladas a grande imprensa, sobre a “subversão” e as “badernas estudantis”. O regime tentava, desta forma, tanto manter o controle da opinião pública, como dividir a oposição legal e a clandestina, num cenário em que povo já estava cansado do regime. Elio Gaspari parece que se contaminou com este vício e combinou-o com uma arrogância olímpica: desqualifica todo mundo, não respeita ninguém, o que pode significar uma volúpia de desrespeito a si mesmo, ensejada pela sua trajetória como jornalista com idéias muito próximas de um ceticismo anarco-direitista.

Vários dirigentes políticos, tanto da oposição como da situação - da direita e da esquerda - que não estão satisfeitos com o sistema político atual, debatem uma saída: uma reforma política para melhorar a democracia no país. Todos sabemos que não existe um sistema ideal e perfeito, mas que é possível uma melhora no sistema atual, que pode tornar mais decente a representação e os próprios partidos. Este debate para melhorar a democracia e dar maior coerência ao sistema de representação tem despertado a santa ira de Elio Gaspari, que dispara para todos os lados, mas nunca diz realmente qual é a sua posição sobre o assunto.

No seu artigo “O comissariado não toma jeito”, no qual sou citado nominalmente como defensor de fisiologismos, ele atinge o auge na deformação das opiniões de pessoas que ele não concorda. Vincula, inclusive de maneira sórdida estas opiniões a dirigentes políticos condenados na ação penal 470, para aproveitar a onda midiática que recorre diariamente a estas condenações, não só para desmoralizar a política e os partidos, mas para tentar recuperar os desastrados anos do projeto neoliberal no país, nos quais, como todos sabemos, não ocorreu nenhuma corrupção ou fisiologismo.

As deformações de Elio são explícitas quando ele examina dois pontos importantes da reforma política: o “voto em lista fechada” e o “financiamento público” das campanhas eleitorais. Sobre o voto em lista “fechada” ele argumenta, em resumo, que a “escolha deixa de ser do eleitor”, que vota numa lista preparada pelo Partido, que captura o seu direito de escolha.

Pergunto: será que Elio não sabe que a escolha na “lista aberta” (sistema atual), é feita, também, a partir de uma relação de nomes que é organizada pelos Partidos? E mais: será que Elio não sabe que a diferença entre um e outro sistema é que, no atual, o voto vai para a “fundo” de votos da legenda e acaba premiando qualquer um dos mais votados da lista, sem o mínimo nexo com a vontade do eleitor? Repito, qualquer um da lista, sem que o eleitor possa saber quem ele está ajudando eleger!

Na lista fechada é exatamente o contrário. O eleitor sabe em quem ele está votando. E sabe da “ordem de preferência”, que o seu voto vai chancelar, a partir do número de votos que o Partido vai amealhar nas eleições. O eleitor faz, então, previamente, uma opção partidária - inclusive a partir da qualidade da própria lista que os Partidos apresentaram - e fica sabendo, não só quem compõe a lista do seu partido, mas também a ordem dos nomes que vão ter a preferência do seu voto.

Na lista aberta, ao invés de crescer o poder político dos partidos - que Elio parece desprezar do alto da sua superioridade golberyana - o que aumenta é o poder eleitoral pessoal de candidatos que, neste sistema de lista aberta, carreiam os votos dos eleitores para qualquer desconhecido. Por mais respeito humano que se tenha por figuras folclóricas que ajudam eleger pessoas com meia dúzia de votos, não se pode dizer que a sua influência pessoal possa ser melhor que a influência das comunidades partidárias, por mais defeitos que elas tenham.

A tegiversação sobre o financiamento público das campanhas não é ridícula, porque é simplesmente uma falcatrua argumentativa. Elio diz que este tipo de financiamento não acabará com o “caixa 2” e que tal procedimento vai levar a conta para o povo, que ele chama gentilmente de “patuléia”. Vejamos se estes argumentos são sérios.

Primeiro: ninguém tem a ilusão de acabar com o “caixa 2”, que acompanhará as campanhas, enquanto tivermos eleições. O que devemos e podemos buscar é um sistema que possa diminuí-la, substancialmente, através - por exemplo - de um controle “on line”, de todos os gastos das campanhas, num sistema financiado por recursos conhecidos e previamente distribuídos aos partidos.

Este sistema certamente diminuirá a dependência dos partidos em relação aos empresários e permitirá um controle mais detalhado dos gastos, pois cada partido terá um valor previamente arbitrado, para ser fiscalizado à medida que os recursos forem sendo gastos. Reduzir, portanto, a força do poder econômico sobre as eleições, este é o objetivo central do financiamento público.

Quanto à transferência das despesas para o povo, qualquer aluno do General Golbery - digo aqui da modesta situação de fisiológico que me foi imputada - sabe que as contribuições dadas pelas empresas aos partidos e aos políticos, são “custos” de funcionamento de uma empresa, que integram o preço dos seus produtos e serviços, que são comprados pelo consumidor comum ou pelo Estado.

Quem paga por tudo, sempre, é o povo que trabalha e compra e o Estado que encomenda, compra e paga. O defensor da patuléia, portanto, não está defendendo nem a “viúva” metafórica nem o Estado concreto. Está, sim, defendendo a atual influência do poder econômico sobre os processos eleitorais, de uma forma aparentemente moralista, mas concretamente interessada: acha que o sistema assim está bem. Uma forma de fisiologismo altamente disfarçado. O alto comissário do Golbery não toma jeito.
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(*) Governador do Rio Grande do Sul
Fonte:  http://www.cartamaior.com.br/
Imagem da Internet

Como a coruja consegue girar a cabeça 270º?

Cientistas da Universidade de Medicina Johns Hopkins, nos Estados Unidos, afirmam ter descoberto os “segredos” por trás da capacidade das corujas de girar a cabeça quase totalmente no corpo - até 270º, segundo o estudo. Usando tomografia computadorizada, angiografia e outras técnicas clínicas, os pesquisadores analisaram a anatomia de 12 corujas. Foram descobertas grandes adaptações biológicas [sic] que permitem que o animal não se machuque ao girar a cabeça. As adaptações estão ligadas à estrutura óssea e à rede de vasos sanguíneos dos animais, segundo o estudo, publicado nesta sexta-feira (1º) na renomada revista Science. Vasos sanguíneos na base da cabeça das corujas, logo abaixo da mandíbula, possuem espessura considerável conforme avançam no sistema circulatório, alguns chegando a ser bem grossos, e mantêm essa estrutura mesmo quando o animal gira a cabeça, diz o estudo.
“Manipular a cabeça de seres humanos é realmente perigoso, porque nós não 
temos as estruturas de proteção aos 
vasos sanguíneos que 
as corujas possuem"
 - Cientista Philippe Gailloud -
O fenômeno é diferente do que acontece com os seres humanos, em que as artérias tendem a se “capilarizar” quanto mais extensas são nessa região, segundo os cientistas. Isso torna a estrutura vascular dos humanos muito mais frágil que a das corujas nesse ponto - um giro de cabeça de 270º em humanos tem efeitos extremamente nocivos e pode até levar à morte.

Em outra adaptação [sic], algumas artérias abaixo da cabeça das corujas possuem “reservatórios” que permitem que o sangue seja armazenado. A “vantagem” biológica permite que o sangue chegue ao cérebro e aos olhos do animal mesmo quando ele gira a cabeça. Essas adaptações [sic] ajudam a minimizar interrupções da circulação sanguínea das corujas, de acordo com o estudo.
“Manipular a cabeça de seres humanos é realmente perigoso, porque nós não temos as estruturas de proteção aos vasos sanguíneos que as corujas possuem”, disse o cientista Philippe Gailloud, um dos autores do estudo.
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Fonte:  http://www.criacionismo.com.br/2013/02/24

A erosão das fontes de sentido

 Leonardo Boff*
Já foi dito, com verdade, que o  ser humano é devorado por duas fomes: de pão e de espiritualidade. A fome de pão é saciável. A fome de espiritualidade, no entanto, é insaciável. É feita de valores intangíveis e não materiais como a comunhão, a solidariedade, o amor, a compaixão, a abertura a tudo o que é digno e sagrado, o diálogo e a prece ao Criador.

Esses valores, secretamente ansiados pelos seres  humanos, não conhecem limites em seu crescimento. Há um apelo  infinito que lateja dentro de nós. Somente um infinito real pode nos fazer repousar. A excessiva centralização na acumulação e no desfrute de bens materiais acaba por produzir grande vazio e decepção. Foi o que concluiram analistas da universidade Lausane. Algo em nós grita por algo maior e mais humanizador.

É nesta dimensão que se coloca a questão do  sentido da vida. É uma necessidade humana encontrar um sentido coerente. O vazio e o absurdo produzem angústia e  sentimento de estar só e desenraizado. Ora,  a sociedade industrialista e consumista, montada sobre a razão funcional, colocou no centro o indivíduo e seus interesses particulares. Com isso, fragmentou a realidade, dissolveu qualquer cânon social, carnavalizou as coisas mais sagradas e ironizou ancestrais convições, chamadas de “grandes narrativas”, consideradas metafísicas essencialistas, próprias de sociedades   de outro tempo. Agora funciona o “anything goes”, o vale tudo dos vários tipos de racionalidade, de posturas e de leituras da realidade.  Criou-se o relativismo que afirma que nada conta definitivamente.

A isso se chamou de pós-modernidade que para mim representa a fase mais avançada e decadente da burguesia rica mundial. Não satisfeita de destruir o presente, quer destruir também o futuro. Ela se caracteriza por um completo descompromisso de transformação e de um professado desinteresse por uma humanidade melhor. Tal postura se traduz por uma ausência declarada de solidariedade para com o destino trágico de milhões que lutam por terem uma vida minimamente digna, de poderem morar melhor do que os animais, de terem acesso aos bens culturais que lhes enriqueçam a visão do mundo. Nenhuma cultura sobrevive sem uma narrativa coletiva que confira dignidade, coesão, ânimo e sentido à caminhada coletiva de um povo. A pós-modernidade nega irracionalmente esta dado originário.

No entanto, por todas as partes do mundo, as pessoas  estão elaborando significados para suas vidas e padecimentos, buscando  estrelas-guias que lhes dêem   um norte e lhes abram um porvir esperançador. Podemos viver sem fé, mas não sem esperança. Sem ela se esta está a um passo da violência, da banalização da morte e, no limite, do suicídio.

Ora as instâncias que historicamente representavam a construção permanente do sentido, entraram modernamente em erosão. Ninguém, nem o Papa, nem Sua Santidade o Dalai Lama podem dizer seguramente o que é bom ou mau para esta quadra planetária da história humana.

As filosofias e outros caminhos espirituais respondiam por esta demanda fundamental do humano. Mas elas, em grande parte, se fossilizaram e perderam o impulso criador. Sofisticam-se cada vez mais sobre o já conhecido, sempre de novo repensado e redito mas desfibradas de coragem para projetar novas visões, sonhos promissores e utopias mobilizadoras. Vivemos um “mal-estar da civilização”, semelhante àquele do ocaso do império romano, descrito por Santo Agostinho em “A Cidade de Deus”.  Nossos  “deuses”  como os deles já não são mais críveis. Os novos “deuses” que estão despontando não são vigorosos o bastante para serem reconhecidos, venerados e lentamente ganharem os altares.
Estas crises só são superadas quando se fizer uma nova experiência do Ser essencial de onde se deriva uma espiritualidade viva. Vejamos alguns lugares onde os “novos deuses” se anunciam  e uma nova percepção do Ser aparece.

Por mais críticas que lhe devemos fazer no seu aspecto econômico e político, a globalização é, antes de tudo, um fenômeno antropológico que se expressaria melhor por planetização: a humanidade se descobre uma espécie, habitando uma única Casa Comum, o planeta Terra, com um destino comum. Tal fenômeno vai exigir uma governança global para gestionar os problemas coletivos. É algo novo.

Os Fórums Sociais Mundiais que a partir do ano 2000 começaram a se realizar a partir de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, revelam uma particularíssima irrupção de sentido. Pela primeira vez na história moderna, os pobres do mundo inteiro, fazendo contraponto às reuniões dos super-ricos na cidade suiça de Davos, conseguiram acumular tanta força e capacidade de articulação que acabaram aos milhares se encontrando primeiro em Porto Alegre, depois em outras cidades do mundo, para apresentar suas experiência de resistência e de libertação, para trocar experiências de como  criam microalternativas ao  sistema de dominação imperante, como alimentam um sonho coletivo para gritar:um outro mundo é possível, um outro mundo é necessário. É algo novo.

Nas várias edições dos Fóruns Sociais Mundiais, em níveis regional e internacional, se notam os brotos do novo paradigma de humanidade, capaz de organizar de forma diferente a produção, o consumo, a preservação da natureza e a inclusão de toda a humanidade num projeto coletivo que garanta um futuro de vida e de esperança para todos. Dai a sua importância: do fundo do desamparo humano está emergindo uma fumaça que remete a um fogo interior do lixo ao qual foram condenadas as grandes maiorias da humandiade. Esse fogo é inapagável. Ele se transformará numa brasa e num clarão a iluminar um novo sentido para humanidade. Oxalá.
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*Leonardo Boff teólogo e filósofo é autor de Tempo de transcendência, Vozes 2010.
Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com/2013/02/25/a-erosao-das-fontes-de-sentido/
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