quarta-feira, 31 de março de 2010

A Páscoa da Terra Crucificada

LEONARDO BOFF*

A páscoa é uma festa comum a judeus e a cristãos e encerra uma metáfora da atual situação da Terra, nossa devastada morada comum. Etimologicamente, páscoa significa passagem da escravidão para a liberdade e da morte para a vida. O Planeta como um todo está passando por uma severa páscoa. Estamos dentro de um processo acelerado de perda: de ar, de solos, de água, de florestas, de gelos, de oceanos, de biodiversidade e de sustentabilidade do próprio sistema-Terra. Assistimos estarrecidos aos terremotos no Haiti e no Chile, seguidos de tsunamis. Como se relaciona tudo isso com a Terra? Quando as perdas vão parar? Ou para onde nos poderão conduzir? Podemos esperar como na Páscoa que após a sexta-feira santa de paixão e morte, irrompe sempre nova vida e ressurreição?

Precisamos de uma olhar retrospectivo sobre a história da Terra para lançarmos alguma luz sobre a crise atual. Antes de mais nada, cumpre reconhecer que terremotos e devastações são recorrentes na história geológica do Planeta. Existe uma "taxa de extinção de fundo" que ocorre no processo normal da evolução. Espécies existem por milhões e milhões de anos e depois desparecem. É como um indivíduo que nasce, vive por algum tempo e morre. A extinção é o destino dos indivíduos e das espécies, também da nossa.

Mas além deste processo natural, existem as extinções em massa. A Terra, segundo geólogos, teria passado por 15 grandes extinções desta natureza. Duas foram especialmente graves. A primeira ocorrida há 245 milhões de anos por ocasião da ruptura de Pangeia, aquela continente único que se fragmentou e deu origem aos atuais continentes. O evento foi tão devastador que teria dizimado entre 75-95% das espécies de vida então existentes. Por debaixo dos continentes continuam ativas as placas tectônicas, se chocando umas com as outras, se sobrepondo ou se afastando, movimento chamado de deriva continental, responsável pelos terremotos.

A segunda ocorreu há 65 milhões de anos, causada por alterações climáticas, subida do nível do mar e aquecimento, eventos provocados por um asteróide de 9,6 km caído na América Central. Provocou incêndios infernais, maremotos, gases venenosos e longo obscurecimento do sol. Os dinossauros que por 133 milhões de anos dominavam, soberanos, sobre a Terra, desapareceram totalmente bem como 50% das espécies vivas. A Terra precisou de dez milhões de anos para se refazer totalmente. Mas permitiu uma radiação de biodiversidade como jamais antes na história. O nosso ancestral que vivia na copa das árvores, se alimentando de flores, tremendo de medo dos dinossauros, pôde descer à terra e fazer seu percurso que culminou no que somos hoje.

Cientistas (Ward, Ehrlich, Lovelock, Myers e outros) sustentam que está em curso um outra grande extinção que se iniciou há uns 2,5 milhões e anos quando extensas geleiras começaram a cobrir parte do Planeta, alterando os climas e os níveis do mar. Ela se acelerou enormemente com o surgimento de um verdadeiro meteoro rasante que é o ser humano através de sua sistemática intervenção no sistema-Terra, particularmente nos último s séculos. Peter Ward (O fim da evolução, 1977, p.268) refere que esta extinção em massa se nota claramente no Brasil que nos últimos 35 anos está extinguindo definitivamente quatro espécies por dia. E termina advertindo:"um gigantesco desastre ecológico nos aguarda".

O que nos causa crise de sentido é a existência dos terremotos que destroem tudo e dizimam milhares de pessoas como no Haiti e no Chile. E aqui humildemente temos que aceitar a Terra assim como é, ora mãe generosa, ora madrasta cruel. Ela segue mecanismos cegos de suas forças geológicas. Ela nos ignora, por isso os tsunamis e cataclismos são aterradoras. Mas ela nos passa informações. Nossa missão de seres inteligentes é descodificá-las para evitar danos ou usá-las em nosso benefício. Os animais captam tais informações e antes de um tsunami fogem para lugares altos. Talvez nós outrora, sabíamos captá-las e nos defendíamos. Hoje perdemos esta capacidade. Mas para suprir nossa insuficiência, está ai a ciência. Ela pode descodificar as informações que previamente a Terra nos passa e nos sugerir estratégias de autodefesa e salvamento.

Como somos a própria Terra que tem consciência e inteligência, estamos ainda na fase juvenil, com pouco aprendizado. Estamos ingressando na fase adulta, aprendendo melhor como manejar as energias da Terra e do cosmos. Então a Terra, através de nosso saber, deixará que seus mecanismos sejam destrutivos. Todos vamos ainda crescer, aprender e amadurecer.

A Terra pende da cruz. Temos que tirá-la de lá e ressuscitá-la. Então celebraremos uma páscoa verdadeira, e nos será permitido desejar: feliz Páscoa.
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*Leonardo Boff - Autor de Nossa ressurreição na morte, Vozes 2007

Fonte: Adital

Família: Papel do homem mudou mais do que o da mãe


Confira entrevista com psicanalista especializado no tema paternidade

De maternidade, todo mundo fala. Uma profusão de artigos e reportagens é publicada todos os meses em revistas femininas e, diariamente, em jornais. Mulher, é fato, gosta mais de discutir a relação, seja ela qual for, com quem for. Talvez por isso se fale tão pouco sobre paternidade.

– Há muito pouco conhecimento sobre paternidade – atesta o psicanalista Rubens de Aguiar Maciel, da USP e do Hospital das Clínicas, um dos poucos especialistas do país. – Quando comecei o doutorado, em 2006, havia só uma tese sobre o tema. Quatro anos depois, era só aquela e mais a minha. O tema é escasso inclusive em publicações internacionais.
No entanto, sustenta, o pai é uma figura fundamental na estruturação da personalidade da criança e seu papel, diferentemente do da mãe, mudou radicalmente nos últimos 100 anos.
Nesta entrevista, Maciel fala sobre seu estudo inédito com homens prestes a se tornarem pais pela primeira vez, os anseios e inseguranças que os acometem. E também sobre as suas próprias incertezas como pai de duas filhas. "Eu fiz o possível para ser um bom pai, mas acho que a minha filha de 17 anos não concorda com isso."

DA CAVERNA PARA O APARTAMENTO

A MUTAÇÃO DO PAI

"Há 100 anos, o papel do homem era o de provedor financeiro da família. Ele se relacionava com o filho na transmissão do ofício em alguns outros aspectos da educação. Mas se limitava a isso. Os cuidados e a educação do dia a dia eram função da mãe. Hoje, há outro tipo de participação, há mais intimidade. O papel do pai autoritário, dominador, que ditava normas de procedimento e comportamento vem sendo abandonado."

A FAMÍLIA CRESCE

"Quando uma criança chega numa família em que é bem-vinda, ela cria uma experiência interna de que o mundo a aceita. Isso é fundamental porque, nos primeiros anos de vida, a criança cria sua estrutura emocional, adquire confiança em si própria e no mundo. Pais inseguros, ansiosos, imaturos, ambivalentes em relação ao filho, geram uma criança com dúvidas, inseguranças, necessidade de ser e agir de acordo com expectativa dos pais. Isso gera na criança um medo de que o mundo não vai recebê-la bem, de que é preciso ficar preocupada em agradar ou não será bem recebida."

O PRIMEIRO FILHO

"A chegada do primeiro filho tem um impacto emocional muito grande. Gera fantasias e expectativas únicas que, a partir do segundo, são diferentes."

PAPEL X FUNÇÃO

"Temos que distinguir entre o papel e a função de pai. O papel é mais normativo, tem a ver com as obrigações morais que ele deve ter diante de sua família. A função é algo mais profundo, diz respeito ao mundo interno da criança, à sua personalidade, seu lado emocional."

FUNÇÃO DE PAI

"É função do pai estabelecer limites à criança, passar a ideia de que existem limites na vida. Por sua natureza, a criança vai desejar exclusividade da mãe, tê-la à sua disposição o tempo todo, ser o centro das atenções. Essa é uma postura apropriada para um bebê, mas precisa amadurecer e entender que não pode ser tão egoísta e egocêntrico ou não vai funcionar no mundo. O pai surge como aquele que deve intervir, que vai dizer "não vai dar para ficar com a mamãe o tempo todo porque ela é minha mulher e temos nossas necessidades".

Essa é uma das principais funções do pai, mostrar os limites. No começo, a criança vai espernear, mas depois começa a aceitar que, embora não tenha a mãe o tempo todo, tem a boneca, a amiga, o namorado e assim por diante, ao longo da vida. A função do pai é justamente estabelecer essa noção de que a criança não é o centro do Universo, que ela convive em sociedade. É o pai quem, amorosamente, vai dizer, "olha, fica na tua, aguenta um pouco a tua frustração que daqui a pouco seus pais estarão junto contigo de novo".
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Reportagem: Roberta Jansen
Fonte: ZH DONNA online, 30/03/2010
AGÊNCIA O GLOBO

Em defesa dos advogados

Roberto Romano*

Na semana passada ocorreu um espetáculo produzido por agentes da mídia. O fato é a violência física contra o defensor do casal Nardoni, Roberto Podval. Ele foi agredido diante do Fórum, recebeu vaias e insultos: “advogado de assassino”. Certo manifestante lhe aplicou um soco no estômago e fugiu. Antes, o chamou de “psicopata, monstro e demônio”, afirmando ser ele defensor de “um monstro”. Analisei tal comportamento desprezível em meu livro Moral e Ciência, a monstruosidade no século 18 (Editora Senac, parte do livro pode ser lido no Google Acadêmico).

Cito um jurista cujo texto é lúcido e sólido em doutrina. Trata-se do professor João Paulo Orsini Martinelli, da PUC-Campinas. O escrito se intitula Presunção de inocência e direito a ampla defesa (Jus Navigandi, 2000). Vamos ao Dr. Martinelli: “A presunção de inocência é uma das mais importantes garantias constitucionais, pois, através dela, o acusado deixa de ser um mero objeto do processo, passando a ser sujeito de direitos dentro da relação processual. (...) Trata-se de uma prerrogativa conferida constitucionalmente ao acusado de não ser tido como culpado até que a sentença penal condenatória transite em julgado (...), evitando, assim, qualquer consequência que a lei prevê como sanção punitiva (...) antes da decisão final. Diz o texto da Constituição Brasileira de 1988 em seu artigo 5, inciso LVII: “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. Dessa forma, o acusado de ato ilícito tem o direito de ser tratado com dignidade enquanto não se solidificam as acusações, já que se pode chegar a uma conclusão de que o mesmo é inocente. Pode-se notar, facilmente, que a presunção de inocência encontra-se implícita, pois o texto constitucional não coloca claramente o pressuposto de ser o réu inocente, mas tão somente que este não carrega consigo a culpa pelo fato que lhe é imputado pela acusação. Deste princípio emergem outros de mesmo crédito: o direito à ampla defesa, o direito de recorrer em liberdade, o duplo grau de jurisdição, o contraditório, entre outros. Em síntese, todos esses princípios constitucionais exercem função de alicerce do sistema democrático, pois no centro de todos os procedimentos judiciais o réu mantém sua integridade, sendo-lhe assegurado o devido processo legal e os riscos de uma decisão precipitada do magistrado são menores”.

Termino a reflexão do jurista e passo à indignação. O agressor fugiu. Prova evidente de que ele mesmo dependeria de um advogado. Imaginemos: um soco mais forte traria danos à vida de Roberto Podval. O justiceiro, em metamorfose que pode ocorrer com todo ser humano, seria “réu”, “monstro”, “demônio. E seu defensor receberia apupos, socos, ferimentos. Tal é o absurdo gerado por jornalistas que ousam interpelar advogados, “por defenderem bandidos”. Jornalistas pagos para incentivar o linchamento, espalham fedor de sangue. Depois da Escola de Base, eles deviam assumir prudência. Não, e basta seguir o rádio e a TV para ouvir o contrário.

A massa que, por sua vez, apupou Podval, elege ladrões públicos, certamente assassinos — bilhões são desviados das políticas públicas de saúde, segurança, educação, controle do trânsito — e assiste programas pornográficos no pior estilo voyeur. A massa é covarde ao ponto de pedir favores a narcotraficantes. Ela os premia como “beneméritos da comunidade”. A massa emudece diante dos espancamentos, aos milhares, de esposas e filhos, por covardes que vão ao Fórum bater em advogados. Silencia a massa diante da morte de dissidentes políticos em Cuba.

A massa acha que seus integrantes jamais sofrerão acusações, justas ou injustas. Incêndio do edifício Andraus. De repente surge a voz do inferno. Era a massa: “pula, pula, pula!!!”. Corpos tombavam para horror dos seres humanos, minoria na reunião de hienas. Spinoza, diante de fatos assim, saiu pelas ruas desafiando os bichos da massa os chamando “Ultimi barbarorum”. Infelizmente, esta é uma parte considerável do nosso povo, movida por irresponsáveis ignorantes do direito conquistado contra a ditadura de 31/3/1964. Apoiada pela massa.
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*Roberto Romano é professor de Ética e Filosofia Política na Unicamp
Fonte: Correio Popular online, 31/03/2010

As coisas

Jorge Luis Borges*


A bengala, as moedas, o chaveiro,

A dócil fechadura, as tardias

Notas que não lerão os poucos dias

Que me restam, os naipes e o tabuleiro,

Um livro e em suas páginas a ofendida

Violenta, monumento de uma tarde,

De certo inesquecível e já esquecida,

O rubro espelho ocidental em que arde

Uma ilusória aurora. Quantas coisas,

Limas, umbrais, atlas e taças, cravos,

Nos servem como tácitos escravos,

Cegas e estranhamente sigilosas!

Durarão muito além de nosso olvido:

E nunca saberão que havemos ido.
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*Jorge Luís Borges nasceu a 24 de Agosto de 1899, em Buenos Aires. Ficcionista, poeta, ensaísta, é sobretudo como escritor de contos que consegue maior notoriedade
Tradução: Ferreira Gullar

Por Conceição Freitas
Fonte: Correio Braziliense online, 31/03/2010

terça-feira, 30 de março de 2010

A Última Ceia: a mudança de imagem

MOACYR SCLIAR*
O que foi servido na Última Ceia? O Novo Testamento só menciona o pão e o vinho, que a Jesus inspiraram as pungentes metáforas (“Este é meu corpo, este é meu sangue”). Sabemos que mais alimentos deveriam estar sobre a mesa, pois se tratava da Páscoa judaica, uma comemoração em que a refeição costuma ser abundante, até como forma de apagar as penosas recordações da miséria resultante da escravidão no Egito e da travessia do deserto. Por outro lado, certamente não teria sido um banquete: Jesus e seus discípulos eram pobres, faltava-lhes dinheiro para os víveres. De qualquer modo, a dúvida ficou e, através dos séculos, artistas usaram a imaginação para dar uma resposta a esta questão através dos pratos que aparecem em quadros retratando a Última Ceia: obras não raro famosas, como as de Leonardo da Vinci, Lucas Cranach, Peter Paul Rubens.

Graças a este acervo artístico, surge agora uma nova e original abordagem do tema divulgada em artigo publicado no International Journal of Obesity. Especialistas em nutrição da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, estudaram 52 das pinturas mais famosas tendo como tema a Santa Ceia. Constataram que o conteúdo dos pratos cresceu 66% entre o quadro mais antigo analisado (datando de cerca do ano 1000) e a pintura mais recente (século 18). O tamanho do pão, segundo estas análises, teve um acréscimo de cerca de 23%.

Os aumentos maiores foram vistos em pinturas criadas depois de 1500. O que é muito significativo: esta é a época que marca o advento da modernidade. A disponibilidade de alimentos aumentou muito, graças à melhora nas técnicas agrícolas e ao incremento no comércio internacional de alimentos. Havia mais dinheiro para comprar comida. E, sobretudo, o ascetismo que tinha sido a regra na Idade Média desapareceu; a busca do prazer, seja do prazer sexual, seja do prazer da mesa, era uma constante, sobretudo entre os ricos. Nascia uma nova era. E, com ela, nascia a obesidade, que até hoje nos acompanha.

O aumento das porções, sobretudo em alimentos industrializados, geralmente muito gordurosos e calóricos, é uma realidade. Comentando o trabalho, uma nutricionista inglesa observou que há 20 anos batatas fritas vinham em pacotes de 20 gramas. Agora vêm em pacotes de 30 , 50 ou 60 gramas. E, como sabemos, o pacote inteiro é ingerido. Resultado: a epidêmica obesidade de nosso mundo. A Última Ceia lembra que uma celebração também pode ser feita com porções modestas de alimento.

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A cancha de basquete é um bom lugar para conhecer as pessoas que, no calor da peleja, muitas vezes revelam seu lado oculto. Mas o José Fortunati com quem joguei basquete na Associação Cristã de Moços mostrou-se um grande ser humano: companheiro leal, pessoa amável e gentil. Verdade que, apesar da altura, nunca foi exatamente um craque: havia uma certa incompatibilidade entre ele e a cesta. O que, pensando bem, foi benéfico para Porto Alegre. Se Fortunati fizesse carreira no esporte, nós não o teríamos como prefeito de nossa cidade. E garanto que aqui ele vai marcar muito mais pontos do que em qualquer quadra, nacional ou internacional.
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*Médico. Escritor. Cronista.
Fonte: ZH online, 30/03/2010

"A ciência não pode negar nem provar a existência de Deus"

As discussões sobre a existência de Deus não são científicas, a não ser entre interpretações de filosofias religiosas ou ateias, disse o professor de filosofia da Universidade Pontifícia de Cracóvia, o sacerdote polonês Michael Heller, que em 2008 recebeu o prêmio Templeton, o de maior valor econômico do mundo.


Michael Heller afirmou durante uma entrevista que a ciência não pode negar a existência de Deus porque simplesmente tem um método que se baseia na análise matemática e na experimentação e acrescentou que, matematicamente, não se pode provar a existência de Deus, "e muito menos empiricamente".

A ciência também não pode negar a existência de Deus, afirmou o também cosmólogo, que explicou que o certo é que a ciência pode ser interpretada de acordo com uma filosofia religiosa ou ateia, e é nesse âmbito que se produzem as discussões.

Discussões que, continuou Michael Heller, ocorrem sempre entre interpretações, entre pontos de vista e não tanto no âmbito da ciência, que é, insistiu, neutra com relação à existência de Deus.

Michael Heller recebeu o prêmio Templeton em 2008, e muitas pessoas interpretaram que ele ganhou a homenagem por oferecer, por meio da matemática, provas indiretas da existência de Deus, algo que para ele não tem sentido. O prêmio é concedido a pessoas que constroem pontes entre a ciência ou a mentalidade científica e a religião, afirmou.

Michael Heller disse que o certo é que a fé é mais importante para chegar a Deus, mas tem que ser de um modo racional, pois afirmou que a fé irracional "simplesmente não tem valor", e acrescentou que, em geral, pensa-se que a fé é uma coisa emotiva e até irracional, mas afirmou que ela deve estar baseada nos princípios do racional.

Esse filósofo e cosmólogo esteve em Tenerife, na Espanha, para participar de um curso sobre a cosmologia moderna e a inteligibilidade do Universo, organizada pela Universidade Menéndez Pelayo em colaboração com o Instituto Superior de Teologia de Canarias.

Durante a entrevista, Michael Heller também falou da incerteza, algo com o que nos encontramos tanto no âmbito da fé, como no da ciência. Ele indicou que, na ciência, também não existe algo que seja absolutamente seguro, inclusive a aritmética, que, acrescentou, é algo fundamental na matemática, mas que tem suas limitações.

Nesse sentido, ele lembrou que, na primeira metade do século passado, produziu-se um certo "terremoto" quando o matemático austríaco Kurt Gödel formulou um teorema segundo o qual, se a aritmética não é contraditória, então não é completa.

Além disso, Michael Heller disse que a fé religiosa é, em certo sentido, um risco intelectual, e a questão é que esse risco seja intelectualmente fundamentado.

No âmbito da cosmologia, Michael Heller comentou que existe um modelo para o qual estamos em um Universo aberto que irá se expandir de maneira infinita até morrer, algo para o qual as últimas observações apontam, acrescentou.

Mas só se fala de um ciclo, pois não se sabe o que aconteceu antes do Big Bang, ou da Grande Explosão com a qual a vida no Universo teria começado, e também não sabemos o que irá ocorrer depois da expansão.

No congresso em que Michael Heller participou, também estava o doutor em cosmologia Eeric Aris Stengler e também o professor de filosofia da Universidade Pontifícia de Cracóvia, Janusz Maczka, dentre outros
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A reportagem é da agência Efe, 29-03-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Fonte: IHU, 30/03/2010

segunda-feira, 29 de março de 2010

O espírito do capitalismo

Denis Lerrer Rosenfield*
O Brasil está sendo objeto de um cerceamento progressivo da liberdade de escolha, que atinge contextos tão díspares como a escolha propriamente individual até uma presença cada vez maior do Estado na esfera econômica. A Anvisa, por exemplo, crê-se autorizada - e edita uma resolução - proibindo a venda de remédios que não necessitam de receita na frente do balcão, local de livre opção. Proíbe também a venda de balas e chocolates. Os cidadãos são tomados como idiotas, incapazes de decidir por si próprios. Ao mesmo tempo, o governo edita um decreto, o PNDH-3 que, em nome da democracia, procura minar as bases mesmas da democracia representativa, visando a instituir no Brasil uma espécie de República sindical ou dos conselhos.

O perigo está no enfraquecimento do espírito do capitalismo, pois ele pode levar consigo as instituições democráticas. O capitalismo não reside apenas no seu "corpo", constituído pela economia de mercado, mas também na sua "alma", formada pela liberdade de escolha e por um conjunto de atitudes, hábitos e instituições que lhe dão sustentação. Pode perfeitamente ocorrer que um Estado autoritário capture o espírito do capitalismo tornando-o socialista, enquanto etapa preliminar de um controle maior dos cidadãos e da própria economia de mercado. Um corpo sem alma seria uma presa fácil.

Durante esse período de captura, empresários podem até se sentir muito confortáveis, desenvolvendo seus negócios e ganhando privilégios do Estado, que se apresenta como encarnando um novo modelo nacional de desenvolvimento. As palavras podem até mudar, porém o que conta é o processo de captura do espírito capitalista, que vê reduzido progressivamente o seu espectro de atuação. A captura do espírito capitalista pode, por parte dos seus beneficiários do setor econômico, ser uma espécie de servidão voluntária, traduzindo-se por lucros crescentes, que, no imediato, provocam a adesão desse setor aos que estejam conduzindo tal política governamental. O problema, no entanto, está no longo prazo, pois a servidão voluntária poderá traduzir-se por correias cada vez mais opressivas, inviabilizando que estas possam, depois, vir a ser rompidas. Os elos da corrente serão forçosamente de maior resistência, pois o que terá sido quebrado é a espinha dorsal do espírito capitalista.

Isso é particularmente claro no que diz respeito à liberdade de escolha. Pode-se dizer que a liberdade de escolha é o princípio mesmo do espírito capitalista. Liberdade de escolha que se opera sobre bens materiais e imateriais, bens tangíveis e intangíveis. A liberdade de escolha de bens materiais é aquela que se torna mais visível nas operações de uma economia de mercado, quando um cidadão compra ou vende algo. Temos o conjunto de transações que constituem a economia mesma de mercado, ancorada que está neste significado da liberdade de escolha.

A liberdade de escolha no sentido imaterial concerne à escolha de crenças, de um(a) parceiro(a) amoroso(a), de objetos de gosto em geral; concerne também a uma determinada religião ou, mais genericamente, ao que uma pessoa estima como o seu próprio bem. Articula-se um conjunto de atitudes, de comportamentos, todos eles baseados na liberdade de escolha, que encontra suas formas mais elaboradas na liberdade de pensamento, de imprensa, de eleição dos governantes, também denominada liberdade política. Há todo um conjunto de hábitos que, de tão naturais, escapam a nosso ângulo de visão, como se não pudessem ser mudados, como se seu espírito fosse, por assim dizer, eterno.

Acontece, porém, que esse segundo conjunto de atitudes, o da liberdade de escolha imaterial, começa a ser enfraquecido e progressivamente limitado, enquanto o livre-arbítrio na acepção material continua intacto ou aparentemente intocado. Os cidadãos podem estar contentes com seus benefícios materiais, suas rendas, seus salários, empregos e lucros, enquanto o cerceamento da liberdade se faz em sua acepção imaterial. O paradoxo que se esboça é o do enfraquecimento do espírito do capitalismo no momento mesmo em que a economia capitalista mantém o seu crescimento e pujança.

Na verdade, uma situação desse tipo termina, a longo prazo, reverberando sobre a própria liberdade material, porém quando isso acontece o jogo, por assim dizer, da liberdade já se encontra jogado, tendo o seu desfecho na eliminação da liberdade em suas duas acepções. Acontece que o processo é lento, gradativo, fazendo-se mesmo por meio do contentamento das pessoas. Por exemplo, o governo começa a estabelecer uma série de restrições relativas a escolhas individuais ou de propostas em relação às instituições e ao Estado de Direito. O conjunto dessas medidas se faz em nome do bem do indivíduo, em nome de sua saúde, como se coubesse ao Estado ditar aos cidadãos o que é melhor para eles. As propostas podem ser também ditas de aperfeiçoamento da democracia, quando esta, na verdade, está sendo posta em causa.

A questão, porém, consiste em que o Estado começa a invadir competências que não deveriam ser suas. Ele começa a monopolizar um saber que diz ser seu, o de decidir em lugar dos próprios indivíduos. E termina impondo ao cidadão o que entende como o seu próprio bem. Num primeiro momento, ele toma o lugar do cidadão, determinando o que ele pode fazer ou não relativamente à sua própria saúde. Num segundo momento, procurará impor o que entende ser a "boa" matéria jornalística, estabelecendo a censura aos jornais. Em outro momento, passará a determinar o que os indivíduos deveriam ouvir ou não no rádio, ver ou não num canal de televisão, em nome daquilo que também vem a considerar como o bem. Processo semelhante poderá ocorrer na educação, com livros didáticos que terminarão impondo um credo político ou religioso. Propostas essas já contempladas no PNDH-3. É o espírito mesmo do capitalismo que se esfacelaria e, com ele, a democracia representativa.
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*PROFESSOR DE FILOSOFIA NA UFRGS.
Fonte: Estadão online, 29/03/2010

Quem seremos nós na internet? Qual o login que escolheremos?


Há duas semanas, Evan Williams e Biz Stone, dois dos três fundadores do Twitter, anunciaram o programa @anywhere. É um tapa na cara do Facebook – e o início de mais uma batalha pelo futuro da internet. A batalha pela identidade na rede.

Nossa identidade.

Eles não deram muita informação. Mas, quando for lançado, @anywhere já estará funcionando em uma penca de grandes sites incluindo o do jornal The New York Times, o da loja virtual Amazon e o blog The Huffington Post.

Basta que se tenha uma conta no Twitter para ver um site parceiro do @anywhere diferentemente. Será possível seguir um jornalista do Times clicando em seu nome. Ou indicar um produto à venda na Amazon via Twitter também por um clique. A descrição de como @anywhere funcionará ainda não está clara.

O que está claro é o detalhe do login via Twitter.

Quem somos nós na internet? Somos, cada vez mais, nossos perfis nas redes sociais. Não para aí. Somos, ora, nossos logins. É só pensar: quantas senhas memorizamos, quantas contas abrimos, quantos webmails, bancos online, lojas eletrônicas, portais?

Um ano e meio atrás, o Facebook pôs na rua seu Facebook Connect. Permite a qualquer blogueiro ou dono de site pequeno oferecer como login para o leitor sua conta na rede social. De dentro do blog, ele terá acesso a ferramentas sofisticadas.

Ganha o blogueiro, que não aporrinha seu leitor com novo login e ainda abre um espaço de projeção no Facebook, já que seu conteúdo pode facilmente ser divulgado por quem estiver logado. Ganha o Facebook, que aprende mais sobre por onde andam seus usuários quando não estão no site.

Este último ponto é importante. Sempre que preenchemos o login do Facebook fora do Facebook, nossos passos são acompanhados. E a informação sobre nosso comportamento online é devidamente armazenada para ser transformada em ferramenta de venda.

O Twitter escolheu bem o momento de lançar o @anywhere. Estavam no palco da South by Southwest (SXSW), o mais importante encontro anual de música, cinema e tecnologia independentes dos EUA. É o coração da contracultura. O centro da vanguarda, em Austin, Texas. Quem explora as novas possibilidades da arte, quem está antenado, vai lá. E foi lá, portanto, que Ev Williams falou de suas novidades.

O que ele não disse é que suas cartas talvez sejam melhores do que as do Facebook. O Twitter pode ser um site muito menor, mas é uma rede social diferente por ser aberta. Não somos amigos de estrelas de Hollywood no Facebook, mas podemos estar conectados a elas no Twitter. Isso vale para escritores, intelectuais, gente interessante e distante. Via Twitter, temos acesso a elas; via Facebook, não.

Com @anywhere, o concorrente do Facebook Connect, a turma do Twitter quer firmar sua plataforma como a melhor forma de distribuir informação na rede. Eles dizem: carregamos nossa identidade de Twitter de um site para o outro porque, em um site e no outro e no terceiro poderemos encontrar gente interessante que queremos continuar seguindo.

E talvez estejam mesmo certos.

Dave Winer, o empresário ranzinza considerado por muitos pai fundador da blogosfera, batizou este momento de a Guerra pela Identidade na rede.

Não faz muito tempo, o Google lançou o Google Buzz, uma tentativa de concorrer com o Twitter usando as contas de Gmail. Ao que parece, não decolou. Existe uma velha iniciativa no ar, razoavelmente popular, chamada OpenID. A conta com a qual nos logamos no Google é um possível concorrente para Facebook Connect e @anywhere. O sitema OpenID, em geral só conhecido por geeks, também.

A corrida começou e tem tudo para se ampliar de forma cada vez mais agressiva. Os olhos piscam e de repente a Apple aposta na conta de sua popular loja de músicas e apps de celular, iTunes.

Quem seremos nós na internet? Qual o login que escolheremos? Nos facilita a memória, nos permite acesso a ferramentas para distribuir a informação que temos. E dá para uma empresa o mapa de nossas caminhadas online.
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Fonte: Estadão online, 29/03/2010
http://www.estadao.com.br/noticias/tecnologia+link,quem-seremos-nos-na-internet-qual-o-login-que-escolheremos,3500,0.shtm

O olhar da câmara

LUIZ FELIPE PONDÉ
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E por qual razão nós não conseguimos fazer filmes
como nossos primos argentinos?

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O OSCAR DO filme "O Segredo dos Seus Olhos" foi um prêmio mais do que justo para o cinema argentino. O cinema de "los hermanos" é melhor do que o nosso. E digo isso com lágrimas nos olhos porque sou envolvido diretamente na formação de novos cineastas no Brasil. E por que não conseguimos fazer filmes como nossos primos argentinos?

Resumidamente, eu diria que nosso cinema é, em grande parte, imaturo, sem tradição estética, obcecado por certos temas monótonos, quase amador em termos de conteúdo, e se vê como instrumento de transformação social.

Começaria perguntando o seguinte: a arte deve ser política? Não. Muitas vezes isso atrapalha. E mesmo quando o for, deve ir além desse lero-lero de luta de classes, como no caso do "Segredo dos Seus Olhos" e o tratamento do ambiente pré-ditadura na Argentina, que não é foco principal do enredo. A política mata a arte, tornando-a datada como um panfleto qualquer. A política como tema da arte acaba sempre banal como a política o é na realidade: arranjos pragmáticos de violência e interesses. Quando ela se faz mais do que isso, fica mentirosa ou ridícula.

Nosso cinema varia entre cinema político chato e uma verborragia psicanalítica adolescente. Com exceções.

Outro problema é o culto dispensado a figuras como Glauber Rocha. Se ele foi "revolucionário" em algum momento, o foi apenas no aspecto formal (ainda que eu o tenha sempre achado apenas cansativo e presunçoso, e essa coisa de "cinema novo" sempre me pareceu sobrevalorizada), mas quanto ao conteúdo, acho-o apenas datado e equivocado. Sua intenção revolucionária banhada em marxismo condenou sua visão de mundo a uma "historinha" que parece ter sido escrita em centros acadêmicos de gente de 18 anos (nos anos 60 e 70), que pouco revela da vida real e a sangria moral e existencial que ela realmente é.

Lembremos que foi o próprio Glauber que escreveu em meados dos anos 60 que Machado de Assis seria esquecido porque não captou a luta de classes no período do Segundo Império no Brasil. Meu Deus, tenha piedade dele, porque não sabia a besteira que falava! Machado de Assis é eterno, enquanto ele, assim que a maioria dos formadores dos jovens cineastas pararem de idolatrá-lo, poderá ser confundido com a lata de lixo da história do cinema nacional.

Algumas obsessões de conteúdo, ao meu entender, travam a produção nacional no nível de cineclube de centro acadêmico estudantil. Nada mais aborrecido do que alunos que acham que mudam o mundo: normalmente isso nada mais é do que uma forma chique de matar aula e estudar pouco. Com raras exceções. A força do jovem está no ato de emprestar aos dramas humanos ancestrais a beleza de seu encantamento, desprendimento, coragem e futuro desencantamento.

Para além de chanchadas requentadas, o pressuposto de que o cinema seja instrumento de consciência social, enche o saco de qualquer pessoa que gosta de cinema. Nada mais monótono do que cinema com consciência social, além do mais, porque sabemos que a "indústria do bem" não passa de um disfarce. Os agentes de transformação social pela arte são mero produto, como qualquer outro produto da indústria cultural.

Cinema deve contar histórias, onde o olhar da câmera deve estar no lugar da voz. O conteúdo deve se alimentar de questões eternas, por isso, melhor se alimentar de temas morais do que de políticos, quando não for apenas bom entretenimento. E deve falar à alma e não a pseudodramas políticos de época.

Muitos de nossos futuros cineastas vêm da elite econômica (fazer cinema demanda muito dinheiro e disponibilidade de tempo), e muitas vezes são torturados com falsos dramas de consciência justamente porque são membros da elite. Como se devessem se redimir do que são, dando voz apenas aos pobres, bandidos e miseráveis do país.

E aí vem a repetição: Nordeste, fome, miséria, bandido (como se só por ser bandido, alguém fosse necessariamente vítima de alguma forma de injustiça, quando na realidade muitos bandidos o são porque são maus mesmo), ditadura (essa, então, no cinema, é uma enorme indústria de vítimas bem-sucedidas), favela. E daí, nós recomeçamos: Nordeste, fome, miséria, bandido, ditadura, favela... Nordeste, fome...

Voltemos a Shakespeare, Dostoiévski, Machado de Assis, deixemos Foucault, Glauber e Bourdieu "dormirem" um pouco no formol, para ver se eles sobrevivem ao tempo.
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Fonte: Folha online, 29/03/2010

domingo, 28 de março de 2010

Como se livrar daquele refrão que não sai de sua cabeça



A cantora americana Lady Gaga pode estar mais interessada em revolucionar a imagem do pop atual. Mas ouvir algumas vezes a canção “Bad romance”, de sua autoria, faz qualquer um ficar com seus grunhidos estranhos – como Rah-rah-ah-ah-ah/Roma, Roma-ma/Gaga, ooh lala – ecoando na cabeça. Seria uma maldição repetitiva da diva Gaga? Ou uma ideia tão genial que gruda no cérebro para sempre? Nada disso. Segundo cientistas que pesquisam a memória humana, ter uma melodia presa na mente é um fenômeno recorrente chamado earworms (literalmente, larvas de ouvido). Apesar do nome, que vem da palavra alemã “ohrwurm”, não são vermes nem minhocas que causam os pensamentos musicais repetitivos. Tais pragas melódicas se alimentam da própria memória para infectar o pensamento de cerca de 99% da população.

“Metade do problema é as pessoas não quererem pensar na canção”, diz o psicólogo Philip Beaman, pesquisador da Universidade de Reading, na Inglaterra, que estuda o fenômeno. “Desse modo, é mais comum que músicas irritantes empaquem em nossas mentes.” Assim, fica mais fácil entender o sucesso de “Bad romance” e de tantas outras canções pop. A música brasileira é especialmente pródiga em refrões e melodias pegajosos. No ano passado, a banda cearense Calcinha Preta fez sucesso com o refrão Você não vale nada, mas eu gosto de você. Se a canção parou de tocar no rádio, ela continua a ecoar no ouvido de muita gente (leia mais vermes no quadro abaixo) .

Os earworms começaram a ser estudados no fim do século XIX. “Naquele tempo, o fenômeno não era tão frequente como nos dias atuais”, afirma Beaman. Isso porque o cotidiano não era tão exposto à música. Atualmente, mesmo que involuntariamente, escutamos música que vem da televisão, de lojas, da internet, do rádio do carro etc. E a repetição de uma canção é fundamental para que ela possa se tornar um earworm, o que pode explicar muito do funcionamento da indústria fonográfica. “Um sucesso só existe se ele tiver uma execução maciça”, diz o empresário da área e ex-compositor Tom Gomes, que foi parceiro de Roberto Carlos nos anos 60. “A cantora Maria Gadu não teria feito sucesso tão rapidamente se sua música ‘Shimbalaiê’ não tivesse virado tema de novela.”

A repetição também está relacionada ao fenômeno de forma técnica. Melodias repetitivas e simples tendem a colar melhor à mente. Outro fator que aumenta o grau de “aderência” é o uso de letras.

Não é possível precisar o que gera os grudes auditivos. O fenômeno pode ser ativado de diversas maneiras: uma palavra, um pensamento, uma lembrança ligada de alguma maneira a uma canção. Ouvir as primeiras notas de uma melodia conhecida também pode ser um pretexto, já que o cérebro tende a completá-la automaticamente.

O fenômeno das canções que grudam na mente é chamado de earworms (larvas de ouvido)

Pesquisas realizadas na Universidade de Cincinnati, nos Estados Unidos, revelaram que as mulheres tendem a sofrer mais do que os homens com esse tipo de coceira mental. Fazem parte ainda dos mais vulneráveis à verminose sonora pessoas com tendências neuróticas, além de músicos e fãs de música. Os estudiosos americanos descobriram que algumas circunstâncias tendem a aumentar as chances de pegar um verme de ouvido: ao acordar, antes de dormir e em situações de estafa.

Há formas de se livrar dos earworms. Se você está cansado de acordar com a melodia de “Bate o sino” na cabeça mesmo estando a meses do próximo Natal ou não consegue se livrar do tema de Missão impossível toda vez que alguém menciona o filme, há algumas táticas que podem ajudar a exterminar essas pragas. Para Philip Beaman, há uma regra básica. “Tente não pensar no assunto”, diz. Parece um conselho óbvio, mas os earworms são como chiclete e a definição dada por uma piada: quanto mais você pisa, mais gruda. É como tentar não pensar na cor vermelha. A própria intenção de negar a cor já faz com que o cérebro produza sua imagem.

Outro método é colocar para tocar outra música. Cantar uma canção diferente também pode neutralizar o efeito virótico, mas há aí o risco de contrair uma nova larva sonora com a segunda melodia. Outra estratégia que tem efeitos colaterais é compartilhar a canção com um amigo, pois ele pode ficar bravo por se contaminar também. Caso o problema seja lembrar apenas uma parte da letra ou da melodia, ouvir a canção inteira ajuda. Como último recurso, tente movimentar a musculatura bucal de alguma maneira: falando ou mastigando. “Há uma relação entre a percepção auditiva e os mecanismos de produção do som”, afirma Beaman. “Não é tão fácil imaginar sons quando usamos nossa boca em outras atividades.”

Se nenhuma dessas técnicas funcionar – ainda não se encontrou a cura total para o earworm –, há alguns consolos. Na pesquisa de Beaman, ele descobriu que o fenômeno tem duração média de 27 minutos. Se as larvas sonoras voltarem a seu ouvido, devem ter recorrência por apenas um dia. Mas não se anime demais. Se depender da capacidade da indústria musical de produzir pestes sonoras, todos voltaremos a sofrer com as minhocas melódicas em breve.
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Reportagem :Mariana Shirai
Fonte: Revista ÉPOCA onlins, 25/03/2010

Sobre a crença e a ciência

Marcelo Gleiser*

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Respeito os que creem. A ciência não tem agenda contra a religião

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A pergunta que mais me fazem quando dou palestras, ou mesmo quando me mandam e-mails, é se acredito em Deus. Quando respondo que não acredito, vejo um ar de confusão, às vezes até de medo, no rosto da pessoa: "Mas como o senhor consegue dormir à noite?".

Não há nada de estranho em perguntar a um cientista sobre suas crenças. Afinal, ao seguirmos a velha rixa entre a ciência e a religião, vemos que, à medida em que a ciência foi progredindo, foi também ameaçando a presença de Deus no mundo. Mesmo o grande Newton via um papel essencial para Deus na natureza: Ele interferia para manter o cosmo em xeque, de modo que os planetas não desenvolvessem instabilidades e acabassem todos amontoados no centro, junto ao Sol. Porém, logo ficou claro que esse Deus era desnecessário, que a natureza podia cuidar de si mesma. O Deus que interferia no mundo transformou-se no Deus criador: após criar o mundo, deixou-o à mercê de suas leis.

Mas, nesse caso, o que seria de Deus? Se essa tendência continuasse, a ciência tornaria Deus desnecessário?

Foi dessa tensão que surgiu a crença de que a agenda da ciência é roubar Deus das pessoas. Um número espantoso de pessoas acha mesmo que esse é o objetivo dos cientistas, acabar com a crença de todo mundo. Os livros de Richard Dawkins e outros cientistas ateus militantes, que acusam os que creem de viverem num estado de delírio permanente, não ajudam em nada a situação. Mas será isso mesmo o que a ciência pretende? Será que esses fundamentalistas ateus falam por todos os cientistas?

De modo algum. Eu conheço muitos cientistas religiosos, que não veem qualquer conflito entre a sua ciência e a sua crença. Para eles, quanto mais entendem o Universo, mais admiram a obra do seu Deus. (São vários.) Mesmo que essa não seja a minha posição, respeito os que creem. A ciência não tem uma agenda contra a religião. Ela se propõe simplesmente a interpretar a natureza, expandindo nosso conhecimento do mundo natural. Sua missão é aliviar o sofrimento humano, aumentando o conforto das pessoas, desenvolvendo técnicas de produção avançadas, ajudando no combate às doenças. O "resto", a bagagem humana que acompanha e inspira o conhecimento (e que às vezes o atravanca), não vem da ciência como corpo de saber, mas dos homens e das mulheres que se dedicam ao seu estudo.

É óbvio que, como já afirmava Einstein, crer num Deus que interfere nos afazeres humanos é incompatível com a visão da ciência de que a natureza procede de acordo com leis que, bem ou mal, podemos compreender. O problema se torna sério quando a religião se propõe a explicar fenômenos naturais; dizer que o mundo tem menos de 7.000 anos ou que somos descendentes diretos de Adão e Eva, que, por sua vez, foram criados por Deus, é equivalente a viver no século 16 ou antes disso. A insistência em negar os avanços e as descobertas da ciência é, francamente, inaceitável. Por exemplo, um número enorme de pessoas se recusa a aceitar que o homem pousou na Lua. Quando ouço isso, fico horrorizado. Esse feito, como tantos outros, deveria ser celebrado como um dos marcos da civilização, motivo de orgulho para todos nós.

Podemos dizer que existem dois tipos de pessoa: os naturalistas e os sobrenaturalistas. Os sobrenaturalistas veem forças ocultas por trás dos afazeres dos homens, vivendo escravizados por medos apocalípticos e crenças inexplicáveis. Os naturalistas aceitam que nunca teremos todas as respostas.

Mas, em vez de temer o desconhecido, abraçam essa ignorância como um desafio e não uma prisão. É por isso que eu durmo bem à noite.
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*MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA) e autor do livro "Criação Imperfeita"
Fonte: Folha online, 28/03/2010

sábado, 27 de março de 2010

Um ovo de Páscoa

Rubem Alves*


O corpo se alimenta de comida. A alma se alimenta de palavras. Quem disse isso foi Jesus, no seu conhecido debate com o Tentador. A comida engorda e faz o corpo pesar. E o peso o faz afundar. As palavras, ao contrário tornam leve a alma e a fazem voar.

Eu estava chegando ao meu escritório. Ele, maltrapilho, se aproximou e disse: “O senhor tem uma feliz páscoa para mim?” Respondi: “Tenho. Mas eu gostaria que você respondesse uma pergunta: Páscoa, o que é?” Ele me olhou com um sorriso e disse: “Páscoa é o dia em que a gente come chocolate...” Essa era a feliz páscoa que ele me pedia: chocolate.

Não foi a resposta de um ignorante; foi a resposta simples, imediata e universal que as nossas crianças e os seus pais dariam. Páscoa não é um dia de ouvir estórias. É um dia de comer chocolate (ou bacalhau... Por que bacalhau?). As histórias não são mais contadas porque as esquecemos. Somos um povo que perdeu a memória. E porque perdemos a memória perdemos também a experiência de transcendência.

Você entenderá o que é transcendência olhando para um pássaro em vôo. Fernando Pessoa olhou, sentiu e escreveu:

“Ah, quanta vez,
Na hora suave em que me esqueço,
Vejo passar um vôo de ave
E me entristeço!
Porque é ligeiro, leve, certo
No ar do amavio?
Porque vai sob a céu aberto
Sem um desvio?
Porque ter asas simboliza
A liberdade
Que a vida nega e a alma precisa?
Sei que me invade um horror de me ter
Que cobre como uma cheia meu coração,
E entorna sobre minh’alma alheia
Um desejo, não de ser ave,
Mas de poder ter não sei que do vôo suave
Dentro do meu ser.”

Vou repetir uma história que já contei. Alguns acham que um escritor não deveria repetir coisas que já escreveu. Mas tenho a alma de músico e a minha alma deseja sempre a repetição das melodias que já ouvi. Os jornais e suas notícias não suportam a repetição. Mas a beleza pede para ser repetida. A estória é esta:

“Era uma vez um bando de patos selvagens que voavam nas alturas. Lá em cima era o vento, o frio, os horizontes sem fim, as madrugadas e os poentes coloridos. Tudo tão bonito! Mas era uma beleza que doía. O cansaço do bater das asas, o não ter casa fixa, o estar sempre voando e as espingardas dos caçadores... Foi então que um dos patos selvagens, olhando lá das alturas para a terra aqui em baixo viu um bando de patos domésticos. Eram muitos. Estavam tranqüilamente deitados à sombra de uma árvore. Não precisavam voar. Não havia caçadores. Não precisavam buscar o que comer: o seu dono lhes dava milho diariamente. E o pato selvagem invejou os patos domésticos e resolveu juntar-se a eles. Disse adeus aos seus companheiros, baixou seu vôo e passou a viver a vida mansa que pedira a Deus. E assim viveu por muitos anos. Até que... Até que, num ano como os outros chegou de novo o tempo da migração dos patos. Eles passavam nas alturas, no fundo do azul do céu, grasnando, um grupo após o outro. Aquelas visões dos patos em vôo, as memórias de alturas, aqueles grasnados de outros tempos começaram a mexer com algum lugar esquecido dentro do pato domesticado, o lugar chamado saudade. Uma nostalgia pela vida selvagem, pelas belezas que só se vêem nas alturas, pelo fascínio do perigo... Até que não foi mais possível agüentar a saudade. Resolveu voltar a ser o pato selvagem que fora. Abriu suas asas, bateu-as para voar, como outrora... mas não voou. Caiu. Esborrachou-se no chão. Estava gordo demais. E assim passou o resto de sua vida: em segurança, gordo de barriga cheia, protegido pelas cercas e triste por não poder voar... Um dia fora pato selvagem. Agora era pato doméstico.”

Talvez essa pudesse ser uma história a ser contada na manhã de hoje, na hora do café. Mas sei que será difícil. Há tantos ovos de páscoa a serem trocados, há tantos ovos de páscoa a serem descobertos pelas crianças! O fascínio do chocolate é maior que o fascínio da estória. E assim a alma fica com fome...

A Páscoa é o capítulo final da história de um homem que que jamais se deixou intimidar, nunca se deixou domesticar e morreu selvagem. Por fidelidade à sua verdade fez-se uma contradição em cada encruzilhada e um escândalo em cada esquina! Por isso o mataram. Os gordos patos domésticos o mataram. Não puderam suportar a sua leveza e a sua liberdade.

Há muito os estudiosos da alma do nosso mundo notaram que ela estava passando por um processo a que deram o nome de “desencantamento do mundo.” Para explicar o que isso significa vou me valer de uma outra estória a que volto sempre... O Pequeno Príncipe se encontrou com a raposa. A raposa lhe pediu: “Me cative, vá...” “O que é cativar?”, perguntou o princepezinho. “É assim: eu me assento lá longe e você se assenta aqui. Aí nós olhamos um para o outro. No dia seguinte nos assentamos mais perto, depois mais perto, até estarmos juntinhos...” O Pequeno Príncipe cativou a raposa. Mas chegou o dia da partida e a raposa disse: “Vou chorar...” O Pequeno Príncipe retrucou: “A culpa é sua. Foi você que quis que eu a cativasse. Agora você vai chorar. O que é que você ganhou com isso?” “Ganhei os campos de trigo... Você sabe, sou uma raposa, como galinhas, os campos de trigo nada significam para mim. Mas agora, porque você me cativou, ao olhar para os campos dourados de trigo pensarei nos seus cabelos louros e ficarei feliz...”

Os campos de trigo deixaram de ser simples campos de trigo. Tornaram-se o lugar de uma ausência. É isso que é encantamento. E porque os campos de trigo ficaram encantados a raposa ganhou asas na imaginação que a faziam voar para o Pequeno Príncipe, ausente. O trigo deixou de ser trigo. Ficou transparente. Transformou-se em metáfora poética.

Desencantar é fazer com que o trigo seja apenas trigo, coisa para se fazer pão para o corpo! Desencantar é tirar a poesia do mundo...

As histórias que se contavam, e eram tantas, incluindo as histórias da Páscoa e do Natal, cobriam o mundo inteiro com as nostalgias dos homens e das mulheres. A raposa via o Pequeno Príncipe ao ver os campos de trigo. Que coisas as nossas crianças vêem ao comer um ovo de chocolate? Mundo bobo. Do tamanho de um ovo de chocolate.
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*Teólogo. Educador. Escritor
Fonte: Correio Popular online - Coluna RUBEM ALVES, acesso 27/03/2010

quinta-feira, 25 de março de 2010

As transgressões de Jesus

Juan Arias*

Em seu novo livro, El grand secreto de Jesús [O grande segredo de Jesus],
publicado na Espanha pela Editorial Aguilar,
Juan Arias disseca os enigmas e a marginalidade do profeta de Nazaré.

Ainda se oculta algum segredo nos Evangelhos, os textos mais traduzidos do mundo e sobre os quais já se publicaram milhões de livros? Ainda se pode dizer algo novo sobre Jesus de Nazaré, o profeta maldito, que foi crucificado como louco e subversivo? Jesus sempre foi apresentado como um líder religioso que deu origem a uma nova Igreja, nascida do Judaísmo, o que não é correto. Em momento algum Jesus em fundar uma nova religião, já que ele combatia todas por estarem baseadas na violência e nos ritos sacrificiais, na dor e na falta de liberdade.

Analisando, contudo, os textos antigos sob outra luz, se pode deduzir que, apesar de que usava a linguagem e a cultura de seu tempo, que eram fundamentalmente religiosos, Jesus olha mais longe. Tem outras intuições que não são puramente religiosas, mas de transformação da espécie humana. Fala aos homens de seu tempo como se dirigisse a uma sociedade diferente, que superou as fragilidades e os limites do humano. Talvez por isso muitos analistas bíblicos costumam afirmar que sua mensagem é “utópica”. Na realidade é muito mais que isso. Sempre foi intrigante que tanto as palavras como os atos de Jesus traçam uma linha de ruptura absoluta com o atual. (...) Sua mensagem transcende o cotidiano e talvez por isso não o entendem, nem sequer quando fala com parábolas. Seus próprios familiares acreditavam que estava louco. As autoridades judaicas do Templo e as civis e políticas também não o compreendem e por isso acabam se unindo para condená-lo à morte. Diante dele Pilatos fica perplexo e confessa não ver naquele profeta crime algum. (...) Era o homem do antipoder e da antiviolência. O paradoxo é que os únicos que pareciam entendê-lo, ou pelo menos intuir sua originalidade, eram os marginalizados da sociedade, aqueles que não tinham nada a perder: aleijados, leprosos, coxos, cegos, mudos, endemoniados, prostitutas e, em geral, todas as mulheres. Mesmo que uma em especial, a agnóstica Madalena, pode ter sido sua companheira sentimental e inclusive a mãe de seus filhos e a qual os apóstolos olhavam com desconfiança, porque sabiam que ela conhecia os segredos do Mestre que ele escondia deles.

Não é possível analisar os quatro Evangelhos canônicos, os únicos que a Igreja considera inspirados por Deus, sem ter em conta também os Evangelhos gnósticos, descobertos há pouco mais de sessenta anos, ainda pouco estudados e que o catolicismo classifica como hereges, talvez porque intui que guardam segredos ainda não desvelados sobre a verdadeira personalidade do profeta de Nazaré e de sua doutrina. Os escritos gnósticos podem oferecer uma nova leitura dos Evangelhos canônicos no que tange ao anúncio de Jesus de um novo reino. Este conceito, visto à luz destes escritos, já não se refere a uma nova forma religiosa nem sequer a uma nova ética superior à judaica, mas a algo muito mais inédito e revolucionário: um salto da atual espécie humana a outra diferente que não se funde nos cânones da violência. Jesus seria então o encarregado de desvelar o reluzente rosto desta humanidade conforme o conhecimento e a sabedoria gnósticos e o fez em parte nos segredos que revelou exclusivamente a Maria Madalena.

(...) Não há dúvida de que Jesus quebra e desobedece todas as regras e paradigmas da sociedade. O obscuro profeta da minúscula aldeia palestina de Nazaré parece dirigir-se a homens e mulheres de outra espécie humana ainda por vir. Talvez ele, com a força do amor desinteressado que movia sua vida, se sentia um cidadão desse novo mundo sem violência da qual acabou sendo vítima inocente e inevitável. Significa isso que Jesus não se dirigia aos homens de sua época, a esta raça humana? De modo algum. Jesus falou também para nós, os humanos violentos e ambiciosos, inclinados a usar os mecanismos do amor em proveito próprio. O ser humano pode melhorar. E de fato, alguns, começando pelo próprio Jesus vítima da violência, alcançaram a sublimidade do amor por ele proposto. Contudo, suas intenções e olhares iam além e nos indicou que o grande segredo que estava desvelando era que aquela loucura de um mundo sem violência não era pura utopia. Algum dia outros seres humanos, independentemente do nome, poderão consegui-lo.

(...) Um dos episódios mais obscuros dos Evangelhos é o da formação intelectual e social daquele profeta que, saído das sombras de uma aldeia sem prestígio, é capaz de discutir e polemizar com os intelectuais de seu tempo, com os fariseus e os sacerdotes, uma casta à qual não pertenceu. Jesus era, com efeito, um secular. Onde estudou? Era realmente um agnóstico? Havia viajado para fora da Palestina? A este respeito existe um incrível vazio nos Evangelhos que os escritos apócrifos preencheram apenas em parte. Nenhum dos quatro Evangelhos oficiais dedica uma única palavra ao que Jesus fez desde os 12 anos, quando se perde no Templo e sua mãe o repreende pela dor que havia causado aos seus pais, até os 30 anos, momento em que aparece na vida pública como profeta. No total, 18 anos de silêncio absoluto.

De 2.000 anos atrás até hoje, esse vazio inaudito tem sido a origem das hipóteses mais diversas sobre este período. Situa-se Jesus viajando pela Índia ou pelo Egito e entrando em contato com os magos de seu tempo. Qualquer situação é possível menos pensar que tivesse permanecido todos esses anos trancafiado na minúscula aldeia de Nazaré, tão insignificante que nem aparece nos mapas da época. Mais, quando se faz alusão a ela é de forma depreciativa: “Pode sair algo bom de Nazaré?”, se perguntavam os judeus da época.
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*Teólogo. O artigo é de Juan Arias e está publicado no El País, 14-03-2010. A tradução é do Cepat
Fonte: IHU, 25/03/2010

Livro digital no mercado

Rosely Boschini*


Na Feira do Livro de Frankfurt 2009, na qual o Brasil esteve presente com 1.640 títulos e 50 editoras, cuja participação foi organizada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), um dos temas recorrentes foi o advento do e-book. Dentre os 7.373 expositores, 361, ou 5%, o incluíram em seus estandes. A novidade apresentada no maior evento do mercado editorial em todo o mundo referenda uma realidade ascendente do mercado. Em 2008, o livro digital movimentou US$ 100 milhões nos Estados Unidos, onde mais de 80 editoras já atuam no segmento. Na Alemanha, venderam-se 65 mil unidades no primeiro semestre deste ano.

Não há dúvida de que se trata de uma tendência irreversível o surgimento de um consistente mercado de equipamentos de leitores eletrônicos, que cativarão parte dos consumidores. Isto não significa o fim do livro impresso, cujo encanto, praticidade e caráter lúdico continuarão determinando a preferência de bilhões de pessoas em todo o planeta. Portanto, mais do que uma preocupação, o e-book deve ser visto como oportunidade de ampliar o universo do público leitor e desenvolver uma nova vertente de negócios.

A convivência de distintos processos é uma realidade em todos os setores de atividade. Saber explorar o imenso potencial aberto pela convergência significa multiplicar as possibilidades mercadológicas, criar novas alternativas e atender de maneira mais eficaz à demanda. No tocante ao livro impresso, a mescla de tecnologias já significou um avanço importante. Um exemplo: a impressão digital, viabilizando tiragens pequenas, com qualidade quase idêntica à do offset, possibilita lançar e testar, na realidade do mercado, maior número de títulos, sem onerar de modo demasiado as editoras. O e-book, que reforça a capacidade de atender com precisão cirúrgica à demanda real, também abre novas perspectivas, como agregar imagens e som ao conteúdo.

Cabe ao setor livreiro aproveitar tais possibilidades, desenvolvendo uma vertente mercadológica promissora e capaz de contribuir para o aumento do número de leitores. As editoras, num futuro não muito distante, serão provedoras de conteúdos, disponibilizados para o público consumidor em diferentes mídias, seja a comunicação gráfica ou eletrônica. As livrarias, do mesmo modo que vendem com sucesso CD e DVD, terão espaços para os equipamentos de livro digital, certamente com distintos pacotes de conteúdo.

Obviamente, será necessário um novo ordenamento dos direitos autorais. Sem tal providência, a ser normalizada internacionalmente, ficará difícil desenvolver e consolidar o mercado do e-book. Segurança quanto à autenticidade e legalidade dos conteúdos também será fundamental. Vejam o que acontece no mercado de filmes e música em CD e DVD, muito prejudicado pela pirataria. Não há dúvida de que a digitalização de conteúdos editoriais sob a tutela de direitos legais suscitará facilidades para a falsificação e reprodução ilegal, ampliando a ameaça de falsificação muito além das máquinas copiadoras que enfrentamos hoje.

As dificuldades e problemas a serem superados, contudo, não devem impedir o avanço da tecnologia. É preciso conviver com as transformações, adaptar-se a elas e as converter em real oportunidade. Claro que esse processo de adequação é mais fácil quando o mercado atua de maneira coesa e sinérgica. Nesse sentido, é fundamental o trabalho das entidades de classe, como tem feito a Câmara Brasileira do Livro, por meio de seu Grupo Digital.

Do mesmo modo que sua atuação ajudou o setor editorial a assimilar e usufruir os benefícios e oportunidades da impressão de títulos sob demanda, a entidade está mobilizada no caso do e-book. O intercâmbio de informações com os mercados mais avançados, promoção de estudos, debates, análise de experiências bem-sucedidas, palestras e a defesa intransigente dos direitos de todos contribuirão para que o livro digital seja mais um meio para o sucesso de nossa meta de converter o Brasil num país de leitores.
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*Rosely Boschini é presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL)
Fonte: Correio Popular online, 25/03/2010

terça-feira, 23 de março de 2010

Pensar a crise com Emmanuel Mounier

"Emmanuel Mounier, fundador da revista Esprit, prematuramente falecido aos 45 anos, no dia 22 de março de 1950, se dedicou, diante da 'grande crise', a uma análise espectral da desordem econômica, tendo ao mesmo tempo a preocupação de perscrutar suas causas profundas, que são, a seu ver,
da ordem do 'espiritual'."
Essa é a opinião de Guy Coq, presidente da Association des Amis d'Emmanuel Mounier, Jacques Delors, ex-presidente da Comissão Europeia, e Jacques Le Goff, professor de direito público da Universidade de Brest, em artigo para o jornal Le Monde, 22-03-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Michel Serres compara a crise atual a "uma falha gigantesca no nível das placas profundas que se movem lentamente e se rompem imprevistamente nos abismos tectônicos invisíveis". Seria um erro, diz, localizar seu epicentro na superfície, no "visível" financeiro e econômico. Situa-se em um nível muito mais profundo, na escolha dos valores de orientação que constituem o ethos de um tipo de sociedade, no sentido contrário de "acreditar que uma sociedade viva só de pão e de jogos, de economia e de espetáculo, de poder de aquisição e de mídia". Uma opção tão indigente expõe fatalmente um grave desvio.

Lendo Michel Serres, pensa-se em Emmanuel Mounier, fundador da revista Esprit, prematuramente falecido aos 45 anos, no dia 22 de março de 1950. Diante da "grande crise", ele se dedicou a uma análise espectral da desordem econômica, tendo ao mesmo tempo a preocupação de perscrutar suas causas profundas, que são, a seu ver, da ordem do "espiritual".

Sem conotação religiosa explícita, essa palavra designa o conjunto das escolhas antropológicas que estão no fundamento de uma sociedade. Responde à pergunta que quase se perdeu de vista: que tipo de existência individual e coletiva queremos, que não se feche na busca vã de uma "felicidade" reduzida à maximização do prazer, do poder, do dinheiro, do corpo ou do conforto? De onde deriva o fato de que as condições de acesso ao bem-estar tenham se transformado em fins tirânicos?

Um discurso de uma "boa alma", se dirá, indiferente ao drama daqueles que se chocam com as dificuldades da existência! Nada disso. "Geralmente só aqueles que não são mais obsessionados pela neurose do pão cotidiano desprezam o aspecto econômico", lembra Mounier. "Para convencê-los, seria preferível um passeio pela periferia do que argumentos". Mas logo acrescenta: "Disso não deriva que os valores econômicos sejam superiores aos outros: o primado do aspecto econômico é uma desordem histórica da qual é preciso sair".

E essa "desordem estabelecida" resulta, a seu ver, de um erro inicial sobre o homem, de uma terrível subversão, da qual ele encontra três manifestações patológicas:

1. O autismo do mercado que, sob a aparência de uma pseudoneutralidade moral, se elevou a timoneiro da sociedade com a usurpação das funções de governo. Se lhes cabia contribuir com a regulação dos fluxos, por que então esse motor cego por natureza se arrogou a condução das coisas humanas, senão graças à abdicação do político em nível nacional e internacional e à renúncia da sociedade? Tendo se tornado um barco à deriva, não é preciso se admirar que "a economia capitalista tenda a se organizar completamente, fora da pessoa, sobre um fim quantitativo, impessoal e exclusivo".

Privado de uma direção razoável e de esfriamento pelo social, pelo ecológico, pelo cultural, pelo ético, esse motor chegou naturalmente a se levantar como instância suprema de sentido, ao preço de um nonsense destrutivo que está quase hipotecando o próprio futuro do planeta. "O homem contemporâneo se crê absurdo. Talvez seja só insensato".

2. Nada revela melhor essa falta de regras do que a tendência tão geral de eliminar qualquer pergunta sobre o que Mounier chamava de "ordem das necessidades", sobre o conteúdo da riqueza. Quais são as necessidades humanas cuja satisfação contribui com a realização da nossa "vocação" em uma perspectiva de cumprimento?

Pergunta estranha, se dirá! Na democracia, não cabe talvez a qualquer um saber onde se encontra a sua própria "felicidade"? E com qual direito uma sociedade se atribuiria a competência em um âmbito que cabe à livre disposição de cada cidadão? Viu-se qual resultado se obteve nos regimes que pretendiam impôr uma nova hierarquia das necessidades que se considerava derivar de um projeto libertador!

Não se trata disso. A preocupação de Mounier, como mais tarde a de Jacques Ellul, de Ivan Illich ou até de Jean Baudrillard, objetivava destruir o quieto torpor que nos faz considerar como "livre" o que, na realidade, é só uma normalidade imposta por uma mecânica louca, que se joga sobre o duplo registro da sedução e do sentido de culpa. E isso ao preço de uma corrida desenfreada a satisfações sempre mais fictícias e ao preço do esquecimento das necessidades fora do mercado, fora das relações monetárias: a atenção, a disponibilidade, a qualidade das relações interindividuais e sociais, a presença e o empenho na pólis, todos valores que fogem à ordem do quantificável e que se referem ao essencial.

A força de reflexão do fundador da Esprit está na sua capacidade de sacudir e de desencantar para nos arrancar do sonho de olhos abertos gerador de inquietação, de tensão estéril, de indisponibilidade seja com relação aos outros, seja com relação a si mesmo, em resumo, da alienação, para recolocar os pés sobre o chão do indispensável, sobre o núcleo duro da pessoa, em que o "espiritual", verdadeira "infra-estrutura", diz ele, encontra o seu lugar. Sem ponto de vista externo ao sistema, nada é possível.

3. É também a condição de libertação com relação ao trabalho. De onde vem de fato a manutenção da sua influência anormalmente intensa sobre a sociedade senão, por uma parte essencial, da espiral constantemente ascendente das necessidades e dos desejos infinitos? "Trabalhar mais para ganhar mais" é a sua máxima. Mas para que serve tudo isso quando o nível de vida alcançado é satisfatório? "Para que serve?", dizia Jacques Ellul. É o problema não da frugalidade, mas da moderação dos desejos materiais além de um certo limiar. Mounier indicava a direção. "Regular o consumo sobre uma ética das necessidade humanas recolocada na perspectiva total da pessoa".

Essas afirmações remontam a 1936. A sua pertinência provavelmente nunca foi tão forte.
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Fonte: IHU, 23/03/2010

Uma lição de humildade

Moacyr Scliar*

Graças à Academia Brasileira de Letras estou usando um leitor óptico. Trata-se de um modelo relativamente modesto, diferente do Kindle, por exemplo, por meio do qual pode-se receber milhares de textos. Mas, mesmo modesto, esse leitor óptico permite o acesso a dezenas de obras-primas da literatura brasileira e da literatura universal: Machado está ali, e José de Alencar, e Euclides, e Mark Twain… Trata-se de um equipamento relativamente fácil de usar. Permite, inclusive, aumentar o tamanho das letras, tornando a leitura mais confortável. Fica de imediato a impressão de que o leitor óptico veio para ficar, como aconteceu com o livro impresso nos tempos de Gutemberg. Mas uma série de perguntas perturbadoras nos ocorrem, a começar por uma crucial: trata-se apenas de uma variante do livro tal como o conhecemos ou é uma revolução no hábito da leitura?
Por enquanto é cedo para dizer, mas de imediato dúvidas surgem. Qual será, nessa tecnologia, o papel das livrarias, das bibliotecas — das editoras? Alguém já deve estar pensando que a comunicação do texto agora é coisa direta: do produtor para o consumidor. O escritor termina um romance, clica no “envia”, e pronto, ali está a obra no leitor óptico das pessoas que figuram em sua lista. Mas essa possibilidade é perturbadora, exatamente porque pressupõe a eliminação de uma série de etapas clássicas. Afinal, a edição não significava apenas embalar o texto para a venda: era um processo que envolvia o exame e a discussão do próprio texto, o planejamento gráfico, e a elaboração de uma capa. Tudo isso pode permanecer, obviamente, mas em caráter virtual — e já falaremos sobre o que significa esse caráter virtual.
O mesmo se pode dizer da livraria. Que não é apenas um lugar de venda de um produto. A livraria é um centro de referência: ali estão os livros, expostos, permitindo a comparação. E a livraria é um centro de convivência. Não por outra razão muitas delas têm poltronas e um café, onde o alimento para o corpo complementa a nutrição espiritual, e onde se pode encontrar outros leitores e trocar ideias com eles.
Mais que isso, muita gente já falou sobre o significado sensorial e simbólico do livro, um objeto que pode ser tocado, folheado, cheirado, degustado, na última Feira do Livro de Porto Alegre, um programa patrocinado pela Caixa Econômica Federal distribuía textos impressos em papel comestível. Isso mesmo, comestível. Nada posso dizer sobre o gosto, porque não experimentei (ainda que um dos textos fosse de minha autoria, ou justamente por isso: podia ser um texto de mau gosto) nem sobre o valor calórico. Mas que a experiência permitia uma assimilação real da literatura, ah, isso permitia.
Existe finalmente um outro aspecto perturbador no texto. Apertamos um botão e ali está Machado; apertamos o mesmo botão, e Machado já não está. “Now you see it, now you don’t”, como dizem os mágicos nos Estados Unidos. Agora você vê, agora você não mais vê. Nada demais, vocês dirão, essa é uma regra da vida: as coisas passam, as coisas são fugazes. Verdade. Mas, em relação ao texto impresso, a gente sempre teve a ilusão da persistência, da perenidade. O livro, na nossa prateleira, era uma presença reasseguradora: estou aqui, à tua espera, quando precisares de mim é só vir até aqui. O mesmo acontece com o livro virtual? Mais ou menos. Porque o livro virtual só existe… virtualmente. Aperta-se o botão e as letras somem. No caso do escritor, é um tremendo golpe no ego, esse ego que a modernidade se encarregou de afirmar ao lançar as condições para o individualismo burguês. E não deixa de ser irônico o fato de que o leitor óptico a que me refiro, foi fornecido pela ABL, cujo lema é Ad imortalitatem. Onde está a imortalidade, no mundo virtual?
Mas vamos olhar a coisa pelo seu lado róseo, otimista. Afinal, o leitor óptico dá prosseguimento ao processo de democratização iniciado pelo livro de Gutemberg. E, para o escritor, é uma lição de humildade. Não se trata do “lembra que és pó, e que ao pó retornarás”, mas é quase: lembras que és virtual, e que ao virtual retornarás. Machado, que nunca esqueceu sua origem humilde, gostaria disso. E seria o primeiro a acessar sua obra no leitor óptico da ABL.
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*Médico. Escritor. Colunista.
Fonte: Correio Braziliense online 23/03/2010

segunda-feira, 22 de março de 2010

Deus e a tecnologia

Fábio Toledo*


Lembro-me de uma frase de um professor do então colegial que foi suficiente para abalar a fé, ao menos de um imaturo aluno do Ensino Médio. Dizia ele: “Deus é uma fuga. O cientista aprofunda na busca do conhecimento até que, quando chega ao seu limite e não consegue explicar algum fenômeno, diz simplesmente que isso ou aquilo é assim porque Deus quis”. Mas será mesmo que a fé e a ciência são coisas incompatíveis e inconciliáveis? Pior ainda, é a fé um entrave para a ciência e a ciência um obstáculo para a propagação da fé religiosa?

A frase, ao menos numa análise superficial, é sedutora. Com efeito, explicar que o mundo, as pessoas e o Universo são como são porque Deus quis pode justificar uma postura desleixada do cientista. Mas pode também, se encarada de outra forma, ser um estímulo para o próprio progresso da ciência. É que, quanto mais se descobrem as perfeições do universo e dos seres criados, tanto mais se ressalta a perfeição de quem os criou. E então o bom cientista busca cada vez mais aprimorar os conhecimentos para o bem da humanidade, sem perder a perspectiva de que, quanto mais avança, mais se desenha e se faz evidente a sabedoria do Criador.

Isso nos remete, porém, para outra indagação: haverá limites éticos nessa corrida pelo conhecimento? É evidente que sim. E o limite está, essencialmente, na dignidade da pessoa humana. Não contribuem para fazer uma humanidade melhor os inventores das bombas químicas e de outros equipamentos de destruição em massa, como igualmente não promove a dignidade humana as pesquisas e a manipulação das células embrionárias humanas. E a razão disso é muito simples. É que a vida humana é um valor absoluto, perene e universal, de modo que não é verdadeira ciência a que é feita para destruí-la, ainda que com o falso pretexto de salvar outras vidas.

A dicotomia entre a fé e a ciência talvez assuma modernamente uma tensão mais dramática na postura com que as pessoas em geral encaram as adversidades e a doença. Os avanços tecnológicos são sensíveis em toda parte. Maravilhamo-nos com eles no setor de transportes, nas telecomunicações e especialmente na medicina. Com isso, muitas pessoas passam a confiar na tecnologia como o único recurso para a sua cura e também para as livrarem de toda sorte de dor e sofrimento. Mas também aqui a contradição entre Deus e a ciência é apenas aparente, embora muito se insista — em minha opinião, de má-fé — em sustentar o contrário.

É fantástico que a medicina tenha evoluído e a tecnologia muito contribua não apenas para salvar milhares de vida, mas também para permitir que se viva com dignidade por mais tempo. Contudo, a tecnologia não conseguirá jamais eliminar o sofrimento das pessoas nem impedir o que é absolutamente inevitável: a morte. Qual seria, então, o equilíbrio?

Penso que o vice-presidente da República, José de Alencar, deu-nos uma lição fantástica que merece ser meditada. Evidentemente que ele foi tratado de sua doença com o que há de mais moderno na medicina e ansiamos pelo momento em que isso esteja disponível a todo cidadão brasileiro. Mas depois de se valer de todos esses recursos tecnológicos, disse ele de si para si em voz alta, para que todos nós pudéssemos aprender do seu exemplo de fé bem vivida: “Se Deus quiser me levar, Ele não precisa de câncer. Se Ele não quiser que eu vá, não há câncer que me leve”. Alguém já imaginou alguma quimioterapia mais maravilhosa para curar as doenças da alma?
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Fábio Henrique Prado de Toledo é juiz de Direito em Campinas
E-mail: fabiotoledo@apamagis.com.br
Fonte: Correio Popular online, 22/03/2010