quarta-feira, 30 de junho de 2010

São João, uma festa cósmica

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão*
RIO - Ao observar as variações periódicas de clima ao longo do ano, o homem primitivo procurou associá-las ao movimento aparente do Sol no céu, descobrindo, com auxílio dos seus monumentos megalíticos, as direções do nascente e poente do Sol durante todo um ano. Com esses observatórios de enormes menires alinhados, os astrônomos da Idade da Pedra descobriram que o Sol, em quatro bem determinadas épocas do ano, nascia e se punha em quatro pontos diferentes do horizonte, que correspondiam ao início das estações – quatro grandes alterações climáticas. Com tais conhecimentos, aproveitavam-se os sacerdotes das tribos primitivas para anunciarem e preverem o ponto exato do aparecimento do Sol, no horizonte, o que lhes fornecia o poder de dominar seus discípulos ou crentes. Mais uma vez o conhecimento – o saber do cosmo – iria ser usado para favorecer os governantes. Assim, criaram-se os altares de menires e, mais tarde, as catedrais de pedra, onde os sacerdotes, que já haviam previsto a ocorrência daqueles fenômenos astronômicos, solicitavam aos crentes com antecedência a necessidade de alguns atos religiosos com os quais seria possível alterar os desígnios da natureza.

Assim, a descoberta dos solstícios deu origem às festas coletivas nas quais o Sol era honrado com o fogo, a luz suprema, que o homem oferecia às divindades pagãs.

Surgiram, desse modo, duas festas dedicadas ao fogo: a festa de verão, que tem lugar no solstício de verão, em 21/22 de junho, e a outra de inverno, em 21/22 de dezembro. Em virtude da inclemência do clima, em dezembro, nos países do Hemisfério Norte, a festa de São João passou a ser a mais praticada. Por uma transposição essencialmente cultural, os povos do Hemisfério Sul passaram a comemorar a festa do Sol, em junho, durante o dia de São João. Esta manifestação pagã, atualmente dedicada a um santo da Igreja Católica, atravessou milênios sem sofrer grandes alterações, pois o culto do Sol, através do fogo, permaneceu profundamente associado à mente humana. É a procura do Sol, ente máximo da verdadeira renovação de vida, a que assistimos diária e anualmente.

Na realidade, todas essas festas célticas sazonais datam do Neolítico e estão intimamente ligadas ao conhecimento dos equinócios e dos solstícios. Constituem um prolongamento dos rituais agrários que marcavam as estações do ano.

Estudando o calendário lunissolar dos celtas, descobrimos a existência de quatro festas ao longo do ano. Todas essas comemorações dão lugar a ritos religiosos, assim como a diversões e jogos, alguns dos quais atravessaram os tempos e chegaram até os nossos dias, como tradições do rico folclore dos povos de todo o mundo.

Para os habitantes do Hemisfério Norte, onde tiveram origem quase todas as festas e comemorações sazonais do mundo ocidental, a correspondência das estações é oposta. Assim, quando durante o solstício do verão se comemora a festa do Sol, com as fogueiras de São João no Hemisfério Norte, com todo o acerto; ao contrário, no Brasil comemoramos o mesmo acontecimento, se bem que aqui estejamos no inverno. Trata-se de uma dependência da tradição cultural boreal.

No século passado, na França, era hábito, ao pôr do Sol do dia 23 de junho, cada habitante da cidade levar lenha para uma enorme pirâmide de gravetos que se construía na praça principal. Ao anoitecer, o pároco da igreja mais próxima chegava em procissão e ateava fogo à pirâmide de madeira. Os chefes de família passavam pelas chamas um ramo de flores que, na manhã seguinte, antes da aurora, era colocado na porta do estábulo. Só depois deste ritual, os jovens podiam dançar ao redor do fogo e em seguida saltar por cima das brasas, cujos restos eram levados para casa. No dia seguinte, ao anoitecer, levavam para o alto de uma colina um enorme cilindro de palha. Com uma longa vara, guiavam o cilindro em chamas, durante a sua descida. Quando a roda de fogo passava, as mulheres e as moças que haviam ficado em casa à espera, gritavam saudando os homens e o fogo. Nas regiões montanhosas, é hábito ainda subir, antes da aurora, no dia 24 de junho, aos pontos mais elevados das colinas, para esperar o nascer do Sol. Quando o astro aparece, grita-se de alegria. Nos vales vizinhos, os sinos das igrejas começam a soar, acordando toda a população. Os que estavam esperando a chegada do Sol, nas colinas, voltam para as cidades com ramos de ervas aromáticas, às quais atribuem virtudes de cura para os doentes.

As tradições folclóricas das festas pagãs de São João, em 24 de junho, possuem até hoje ecos mais pagãos e místicos que todas as outras.
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*Astrônomo e autor de mais de 85 livros, entre outros, 'Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica'.
Jornal do Brasil online - 30/06/2010

Polêmico e fascinante

Jornalista norte-americano escreve biografia sobre Steve Jobs e
revela detalhes sobre o crescimento profissional do
mago dos computadores.
Moritz era amigo do dono da Apple e
acompanhou a criação da empresa e momentos de sua vida pessoal
Universo dos Livros/Divulgação
O fascinante império de Steve Jobs
Michael Moritz
Editora:Universo dos Livros
Páginas: 367
Preço: R$ 27,90

Quase tudo que ele fala ecoa nos quatro cantos do mundo. Steve Jobs, 55 anos, parece ser uma daquelas pessoas que seguem a máxima: falem mal, mas falem de mim. Mesmo quando solta alguma bobagem — vide a mais recente dica sobre como segurar o iPhone para que o aparelho não apresente falhas no sinal — o fundador e poderoso chefão da Apple consegue chamar a atenção, seja por seu talento ao conduzir uma das maiores empresas de eletrônicos do planeta, seja por seu jeitão peculiar.

Peculiar a ponto de evitar qualquer contato com jornalistas desde 1982, exceto, é claro, para divulgar ideias e lançamentos. Naquele ano, Steve Jobs teve uma briga com o então amigo jornalista Michael Moritz. Moritz escreveu um perfil de Jobs para a revista norte-americana Time, quando a publicação decidiu eleger o computador como a pessoa do ano. O texto de Moritz, no entanto, passou por uma edição que não agradou ao jornalista e, menos ainda, a Steve Jobs. “Steve não fez segredo de sua raiva e deixou uma enxurrada de mensagens na secretária eletrônica de meu chalé (…). Ele, compreensivamente, baniu-me da Apple e proibiu a todos em sua volta de falar comigo”, conta Michael Moritz no prólogo do livro O fascinante império de Steve Jobs (Universo dos Livros), relançado em outubro passado nos Estados Unidos e traduzido para o português do Brasil este ano.

A indignação de Jobs não impediu que Moritz publicasse as histórias do fundador da Apple ainda na década de 1980 e completasse o material em 2009. A biografia não autorizada revela, em detalhes, como Jobs se tornou um dos principais empresários do ramo de eletrônicos e conseguiu mudar a relação dos consumidores com os computadores pessoais. Jobs, que por pouco não se tornou um hippie, se rendeu ao capitalismo e alcançou a proeza de fazer com que seus produtos se tornassem objetos de desejo. “Na Apple, eles veem o que as pessoas precisam antes mesmo de elas precisarem”, diz Heinar Maracy, editor-chefe das revistas Windows e Mac e responsável pela tradução do livro no Brasil.

Carona certa

O texto de Michael Moritz se diferencia de outros sobre a vida do todo-poderoso da Apple porque o jornalista foi testemunha ocular de boa parte das experiências de Jobs. “Ele é extremamente detalhista, viu os grandes produtos da Apple nascerem e conta coisas no livro que sequer precisavam estar lá”, diz Heinar. Algumas dessas histórias derrubam lendas sobre a vida pessoal de Steve Jobs, outras confirmam o temperamento difícil e a persistência do presidente da Apple. “Steve sempre teve a alma inquisitiva de um poeta — alguém um pouco distante de todos nós que, desde a tenra infância, andou por seu próprio caminho(1). Se tivesse nascido em outros tempos, teria pulado em trens de carga e seguido sua estrela”, escreve Moritz na obra.
Mas, como nasceu na época em que os computadores começaram a se tornar imprescindíveis — e no lugar mais propício para isso, o Vale do Silício, na Califórnia — Jobs pegou carona na tendência e soube aproveitar o talento de seu amigo de infância, Steve Wozniak, cofundador da Apple. “Wozniak desenvolveu um hardware bem mais avançado que os disponíveis até então e eles conseguiram rapidamente dominar o mercado”, destaca Heinar Maracy. “No começo de 1977, quando Jobs, Wozniak e Markkula (que também dirigia a empresa) tentaram avaliar o inventário de peças de sua garagem e o design do Apple II, eles chegaram a uma soma de US$ 5.309. Um ano depois, quando três firmas de capital de risco adquiriram ações da Apple, ela já era avaliada em US$ 3 milhões”, escreve o autor de O fascinante império de Steve Jobs.

O boom da empresa, fundada em 1º de abril de1976, trouxe muita riqueza a Jobs e ao time que administrava o negócio, jovens que logo ganharam o adjetivo de “zilionários” na região . Isso não impediu, porém, que a Apple entrasse em um colapso durante o desenvolvimento do Apple III, no começo da década de 1980. “A arrogância se infiltrou na empresa e conseguiu afetar todos os aspectos do negócio: o estilo com que tratava os fornecedores, as empresas de software e as revendas, sua atitude frente à concorrência e o jeito com que encarava o desenvolvimento dos produtos”, conta Michael Moritz no livro.

Para o editor Heinar Maracy, o epílogo da obra valeria outro livro inteiro. Nessa parte, Moritz relembra a saída e a volta de Jobs para a Apple. Em 1985, ele foi demitido da empresa e ficou afastado por 11 anos. Em 1996, a Apple passava por dificuldades e tentava desenvolver um novo sistema operacional. Seus dirigentes perceberam que, para a coisa toda funcionar, precisariam do talento de Jobs. A solução foi comprar a empresa criada por ele no período, a NeXT. “Muitos conhecem a história do ressurgimento da Apple. O que eles podem não saber é que ela tem poucas similares, se tiver alguma. Quando um fundador voltou à empresa que o expulsou rudemente para elaborar uma retomada tão completa e espetacular quanto a da Apple?”, pergunta Moritz. A resposta parece óbvia. É confirmada pelos iPads, iPhones, iPods e outros tantos objetos que hoje são mais que necessários para muita gente.

1 - Visão de futuro
Nos anos em que Steve Jobs ficou afastado da Apple, ele financiou o surgimento da Pixar, estúdio de animação responsável por sucessos como Toy Story, Carros e Monstros S.A. Jobs também bancou, já de volta à Apple, o filme No Direction Home, de 2005, uma homenagem do diretor Martin Scorcese ao compositor Bob Dylan.

Três perguntas para Heinar Maracy

Heinar Maracy, tradutor do livro O Fascinante Império de Steve Jobs

O que difere essa biografia das outras lançadas no Brasil até então?
O Michael Moritz estava na Apple na época em que a empresa começou. Ele acompanhou reuniões, viu a coisa toda acontecendo. O autor fala em primeira pessoa, com detalhes, viu o Steve Jobs lá, dando bronca nos funcionários. O mais bacana é que ele conseguiu transmitir a personalidade das pessoas. Há muita lenda sobre o início da Apple, sobre o relacionamento do Jobs como o Steve Wozniak, principalmente sobre como eles eram na vida real, e ele consegue quebrar isso. Traduziu para o leitor aquele momento único da história, em que um bando de malucos mexia com computadores e não sabia direito no que isso iria dar.
Na sua opinião, qual é a passagem mais marcante do livro?
A hora em que o Jobs decide montar a Apple. Ele ficou um tempo naquela dúvida entre virar um cara místico, depois de voltar da Índia, ou criar a empresa. Ele percebeu que, para montar o negócio, precisava negar um monte de coisas nas quais ele acreditava. Há uma outra parte interessante também que conta rapidamente a história da volta de Jobs à Apple. É um capítulo grande que daria até outro livro. Há, inclusive, outras tantas obras sobre esse assunto.
Por que a Apple deu tão certo?
O principal é que eles estavam na hora certa, no lugar certo e com as ideias certas. O Wozniak desenvolveu um hardware bem mais avançado que os disponíveis até então e eles conseguiram rapidamente dominar o mercado. Além disso, eles tinham e têm uma filosofia de poder oferecer para as pessoas aquilo que elas querem. Claro que hoje todo mundo quer um aparelho portátil, que acesse a internet, esses caras praticamente reinventaram a videoconferência! É isso que é o iPhone 4. A Apple continua dominando, há sempre inovações acontecendo. Raramente isso é fruto de uma pessoa só, mas há um cara muito bom por trás que consegue dar a visão do negócio.
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Reportagem de :Carolina Vicentin
Fonte: Correio Braziliense online, 30/06/2010

A senha da memória

Enzima subestimada há 30 anos pela ciência,
a calpain pode ajudar cientistas a desvendar mistérios
sobre doenças como o Alzheimer e
o transtorno bipolar,
indica estudo norte-americano

Houston — A memória, com suas intrigantes e desafiadoras funções, tem desvendado um de seus principais mecanismos, graças ao trabalho de uma equipe de cientistas da Universidade do Sul da Califórnia (USC), nos Estados Unidos. A chave de muitos segredos é uma enzima, chamada calpain. A substância, que permaneceu esquecida por muitos anos, agora revela uma face surpreendente: é uma das principais responsáveis pelo armazenamento de informações em nossa memória.

Por trás dessa enzima, antes subestimada, podem estar escondidas respostas para inúmeras doenças e síndromes como o autismo, o mal de Alzheimer, o transtorno bipolar e até o câncer, que sozinho pode afetar aproximadamente 400 mil brasileiros este ano, conforme estimativa do Instituto Nacional do Câncer (Inca). “Na década de 1990, tínhamos pistas de que havia conexão entre a calpain e a memória, mas não conseguimos provar essa relação, na época. Agora, quase 30 anos depois, demonstramos que a ligação existe e é fortíssima”, afirma um dos responsáveis pelo Programa de Pesquisa de Neurociência da USC, o francês Michel Baudry.

Segundo o cientista, mais do que criar espaços para armazenar memória, a calpain — presente na maioria das células humanas — é responsável também pelos principais movimentos de uma célula, como o de migração, expansão e crescimento. Portanto, também é a substância que detém a previsão de quantos anos podemos viver.

Baudry observa que a enzima em estudo tem como função catalisar proteínas e, consequentemente, modifica suas funções. “O que tentávamos descobrir era como, onde e em quais circunstâncias a calpain era ativada. Escolhemos trabalhar com as células nervosas e adicionamos várias proteínas à enzima”, conta. Diferentemente da frustração de 30 anos atrás, desta vez os cientistas conseguiram provar como a reação ocorre, graças a um novo método, que possibilitou fotografar a ativação da calpain ao mesmo tempo que mostrava a multiplicação de sinapses em um neurônio, as ligações entres as células neurológicas.

Cerca de 10 substâncias foram testadas e a que mais ativou a calpain foi a proteína BDNF (Brain Derived Neurotrophic Factor, ou fator neurotrófico derivado do cérebro) que é considerada um ativador de crescimento bem conhecido pela comunidade científica. “Já se sabe que doenças como Alzheimer, autismo e outras inabilidades mentais têm em comum a falta de BDNF no organismo. Mas não se sabia que sem a calpain, o BDNF se torna subutilizado. Portanto, a calpain é tão importante quanto o BDNF. Uma precisa da outra”, afirma Baudry. Em poucos minutos, depois da calpain ser ativada, milhares de conexões de sinapses foram observadas. “A rapidez do processo foi incrível. Constatamos que a ativação da calpain é responsável por tornar as sinapses maiores e, consequentemente, mais poderosas. Então, sinapses mais largas podem armazenar mais memória e informação”, diz o cientista.

Michel Baudry reforça que as duas substâncias juntas funcionam como se fosse uma chave que se encaixa perfeitamente numa fechadura. “A porta não é aberta sem a senha correta”, compara o cientista. Ele observa que a calpain e a BDNF são produzidas pelo corpo humano e ainda não há medicamentos que disponibilizem sinteticamente as substâncias. “Assim como a BDNF, a calpain também é uma proteína e suas moléculas são de difícil absorção pelo organismo. É possível que no futuro sejam desenvolvidas moléculas que imitem as funções da calpain e da BDNF e que possam ser administradas por via oral. Mas, para isso, são necessários mais estudos”, afirma Baudry.

Com a descoberta, o quebra-cabeça da memória, composto por uma infinidade de dúvidas e um labirinto de caminhos tem agora uma peça fundamental encaixada. “Ao sabermos que a calpain é responsável pela migração e pelo crescimento de células, podemos supor que a célula cancerígena precisa muito dessa enzima para invadir tecidos e se movimentar pelo corpo humano. Isso é uma informação importantíssima para o desenvolvimento de pesquisas que possam culminar na descoberta de cura ou, pelo menos, no controle de doenças”, salienta o cientista.

O próximo passo é justamente mapear, passo a passo, o mecanismo de reação da calpain. “Essa enzima é parte da máquina chamada memória. Ainda faltam peças para que esse quebra-cabeça seja finalizado. No entanto, estamos um pouco mais perto da compreensão de como a nossa memória é formada no cérebro”, diz Baudry.
Homens e mulheres

A guerra dos sexos, quem diria, também pode ser afetada pela pesquisa do Departamento de Neurociências da Universidade do Sul da Califórnia (USC). Durante o experimento, a doutora em neurociências Sohila Zadran, coautora da pesquisa, adicionou diferentes substâncias à calpain, entre elas os hormônios testosterona, estrogênio e progesterona, este último produzido somente pelas mulheres.

Para sua surpresa, as três estimularam consideravelmente o crescimento local do neurônio. Então, a inteligência de homens e mulheres já pode ser medida? Para essa pergunta, Sohila pede calma. “Entre todos esses hormônios, percebemos que a enzima calpain sofre uma reação significativa quando adicionamos o estrogênio. No entanto, a progesterona e a testosterona também ativaram a enzima. Além disso, testosterona e estrogênio são produzidos por ambos os sexos. Se as mulheres são mais inteligentes que os homens ou vice-versa, ainda não sabemos, mas podemos afirmar que esses hormônios são importantes para a memória”, constata.

De origem afegã, Sohila, 23 anos, teve participação fundamental para conseguir provar a ativação da calpain. Foi ela quem conseguiu confirmar a reação química no neurônio. “Foi um avanço expressivo na pesquisa nos últimos três anos. Desde o início, trabalhamos com neurônios de ratos, cujas células se assemelham muito com as humanas”, explica a doutora, acrescentando que os estudos serão direcionados para o entendimento de doenças como o autismo.
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Reportagem: Ingrid Furtado Especial para o Correio Fonte: Correio Braziliense online, 30/06/2010

Bento XVI e o Tribunal americnao

''Levarei Bento XVI para o tribunal'',
afirma advogado das vítimas norte-americanas

Ele havia prometido e vai cumprir: "Levarei o Papa para o tribunal". Mas no dia em que celebra a vitória – "Caiu um novo muro de Berlim" – Jeff Anderson (foto), 62 anos, o advogado das vítimas dos padres nos Estados Unidos, o homem que descobriu que sua filha também foi abusada por um ex-sacerdote, pensa acima de tudo no próximo movimento: uma "missão na Itália" para ouvir os depoimentos dos cardeais Angelo Sodano e Tarcisio Bertone, que ele considera responsáveis pelo "cover up", pelo encobrimento do escândalo da pedofilia.

A reportagem é de Angelo Aquaro, publicada no jornal La Repubblica, 29-06-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Advogado, a Suprema Corte não acolheu o apelo do Vaticano. O seu processo pode seguir em frente.
É uma grande vitória, uma vitória enorme. Para a história dos abusos sexuais dos padres, é a queda do muro de Berlim, a queda da separação entre a Alemanha Oriental e a Alemanha Ocidental, entre o Leste e o Ocidente...

Mas o que isso quer dizer concretamente?
É uma vitória legal enorme. Para as vítimas desses crimes, é uma extraordinária oportunidade de finalmente fazer justiça. E de fazer com que o Vaticano seja considerado responsável pela sua negligência: pela sua negligência criminosa. E pelo seu papel no encobrimento dos crimes dos padres.

Porém, não houve sentença. A Corte se limitou a não acolher o apelo do Vaticano.
Mas é uma vitória enorme que a Corte tenha nos dado luz verde, finalmente o caminho livre: depois de oito anos de impedimentos levantados desde o início da causa, em 2002, depois de oito anos de obstáculos.

Neste ponto, o senhor pensa em verdadeiramente levar o Papa Ratzinger ao tribunal, como anunciou?
Sim, essa é uma das coisas que faremos. Mas primeiro começaremos pelo cardeal Sodano e pelo cardeal Bertone. Chegaremos ao Papa. Certamente, não quero começar por aí: quero antes ouvir particularmente os seus depoimentos. Porque eles – um como secretário de Estado, o outro como chefe do Colégio Cardinalício – foram os "top guys", os personagens chaves.

Por que eles?
Porque nas suas posições, eles estiveram no centro dos encobrimentos durante um longo período. Assim como o cardeal Joseph Ratzinger, o atual Papa Bento XVI, quando tinha responsabilidades na Cúria. Ele mesmo é o chefe supremo e não partirei dele na investigação: mas chegarei nele.

Como fará para recolher esses depoimentos? Pensa em organizar interrogatórios na Itália?
Sim, deveremos ir para o Vaticano, organizaremos os depoimentos, organizaremos uma missão.

Primeiro passo, o senhor diz, Bertone e Sodano, para chegar a levar o Papa sob processo?
Veja, procuraremos, como disse, ter também o depoimento do Papa. Eu não penso que será possível processar o Papa enquanto Papa: mas o Vaticano, sim. Pela primeira vez, teremos a possibilidade de fazer um processo, aqui nos EUA, em que o Vaticano pode ser considerado responsável pelo encobrimento desses crimes que são os abusos dos padres. É apenas uma decisão que se refere a um caso, mas abre as portas para outros casos e principalmente para o princípio de responsabilidade. E isso é a coisa mais importante.

Como se sentiu assim que recebeu a notícia da decisão da Suprema Corte?
Extasiado...
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Fonte: IHU online, 30/06/2010

''Esse caso é uma caricatura, uma paranoia anti-Bélgica''


Fantasmas vaticanos rondam os palácios de Bruxelas. Pierre Mertens (foto), jurista e escritor considerado por muitos como o intelectual independente mais importante da Bélgica, acredita nisso. Ele, antes mesmo de entrar na questão, enquanto pendem acusações e deplorações, usa um termo pesado para definir todo o episódio ocorrido na Bélgica: "é um caso de paranoia".

A reportagem é de Dario Fertilio, publicada no jornal Corriere della Sera, 29-06-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Pode parecer estranho, porque nessa história não faltam fatos: investigações de bispos, confisco de documentos, violação dos túmulos de prelados por parte de juízes em busca de provas ocultas com relação à pedofilia.
Mas essa simplificação dos fatos é paranoia, até se delinear um episódio à la Dan Brown no estilo 'Código da Vinci'. É paranoica a representação de um país como completamente laicizado, intolerante, anticlerical. Esses esquematismos se assemelham aos que atingem periodicamente a Itália, quando se quer fazer crer que a democracia está em perigo por causa de Berlusconi, ou que o país está por cair aos pedaços. Ou também quando se retratam de um certo modo a Áustria, os Estados Unidos, a Irlanda....

Deixando de lado a "paranoia", resta porém o porte do choque em curso entre o Estado belga e o Vaticano. São fatos indiscutíveis a deploração do Papa, a comparação do secretário de Estado entre o modo de agir na Bélgica e as perseguições soviéticas.
Porém, a intervenção de Joseph Ratzinger me pareceu sem equilíbrio e até patético. Aqui na Bélgica, os seus posicionamentos sempre foram discutidos com espírito crítico, mas tolerante, também aqueles mais discutíveis, por exemplo sobre a interrupção da gravidez, a contracepção etc. Até a intenção de beatificar Pio XII foi considerada sem preconceitos. Desta vez, porém, a sua reação não contribuiu para difundir uma boa imagem do Vaticano. E no entanto os belgas são sinceramente alérgicos aos extremismos.

E a Igreja belga?
Não diria que tenha se refugiado por trás do silêncio, pelo contrário, ela buscou a transparência. Com a qual, dentre outras coisas, tem tudo a ganhar.

Então, todo o episódio pode se liquidar simplesmente como um equívoco? Transformou-se um episódio normal em um drama?
Não, é preciso distinguir. Não se discute na Bélgica a separação dos poderes, naturalmente, e a autonomia da magistratura. A excepcionalidade do caso, ao invés, está aqui na iniciativa empreendida pelo juiz instrutor com relação a uma associação privada, a Igreja de Roma. Ora, conhece-se o porte das investigações, mas não o seu êxito: se as informações recolhidas se revelarem úteis para encontrar a verdade sobre alguns crimes, então não haverá nada a se dizer. Senão, será preciso preciso se desculpar pelo que ocorreu. Enfim: deixemos o julgamento para depois e, principalmente, evitemos a escalada verbal, que sempre chamam os fantasmas.

Mas não lhe impressiona a violação dos túmulos dos prelados?
Não. A expressão "violação dos túmulos" é uma caricatura. Foi feito um furo para introduzir uma câmera, não se violou nada. Nem se pode falar de uma falta de respeito pelas sepulturas.

Fica a imagem de um país, a Bélgica, traumatizado pelas acusações de pedofilia.
Isso é verdade. Há 20 anos, as pequenas Julie e Melissa, entre nós, foram martirizadas, e seguiu-se uma Marcha Branca para protestar contra a impotência das autoridades, incapazes de chegar aos responsáveis. Para não falar depois do caso Dutroux. Certamente, sobre esse ponto, nós, belgas, somos hipersensíveis, e como!

O senhor é considerado, justamente, o teórico da "belgitude". Em que consiste?
Na liberdade religiosa, certamente. Mas também, infelizmente, em uma certa separação entre o mundo da cultura e a "política politicante". Muitos foram em exílio para Amsterdã, Paris ou Nova York por causa disso. Agora, a ferida foi curada, mas o nosso país continua sendo afligido por um sistema e por uma classe política pletóricos. Representamos, em suma, o que há de melhor e de pior, uma metáfora da Europa.
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Fonte: IHU online, 30/06/2010

''Sexo não: somos norte-americanas''


O Viagra rosa, a pílula que deveria estimular o desejo feminino, causa discussão entre médicos e psicólogos. Mas a queda da libido, defende Camille Paglia, não tem nada a ver com a química: pelo contrário, é o resultado de uma cultura difundida do "eficientismo" que atormenta a classe média branca.
Camille Paglia, ensaísta e escritora norte-americana, é doutora em língua inglesa pela Universidade de Yale e professora da University of the Arts in Philadelphia, na Pensilvânia. Seu livro "Sexual Personae: Art and Decadence from Nefertiti to Emily Dickinson" é um best-seller mundial.
O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 28-06-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

As mulheres terão em breve o seu Viagra? Recentemente, uma comissão da Food and Drug Administration rejeitou um pedido de comercialização do Flibanserin, um remédio para as mulheres com baixa libido, mas pedindo um aprofundamento da pesquisa. Mas depois da revolução sexual dos anos 60, a sociedade norte-americana se tornou sempre mais secularizada, com um ambiente midiático banhado em sexo.

O verdadeiro culpado vem do século XIX, e é a propriedade burguesa. Quando a respeitabilidade se transformou no valor central da classe média, censura e repressão se tornaram a norma. O puritanismo vitoriano deu fim à cômica franqueza sexual (tanto dos homens quanto das mulheres) da era agrária, uma licenciosidade relatada pelas comédias de Shakespeare até o romance inglês do século XVIII. Os pedantescos anos 50, que apagaram da memória cultural as "flappers", as meninas emancipadas da Era do Jazz, foram simplesmente um retorno à normalidade.

Só o difundido movimento New Age, inspirado em práticas asiáticas focalizadas na natureza, preservou a visão radical da moderna revolução sexual. Mas o poder concreto está nas mãos da tecnocracia carreirística dos EUA, que cresce sobre o solo das escolas de elite, com a sua visão ideológica do gênero enquanto construto social.

No reino circunspecto dos colarinhos-brancos, homens e mulheres são permutáveis e desenvolvem o mesmo tipo de trabalhos intelectuais. A fisicidade é suprimida. No espaço higienizado dos escritórios, as vozes são diminuídas, e os gestos, contingenciados. Os homens devem se autocastrar, enquanto as mulheres ambiciosas postergam o momento da procriação. A androginia é fascinante na arte, mas na vida real pode levar ao aborrecimento e à estagnação, que nenhuma pílula pode curar.

Enquanto isso, a vida familiar colocou os homens burgueses em uma situação difícil. Eles são simplesmente engrenagens de uma máquina doméstica dirigida pelas mulheres. As mães contemporâneas são virtuosas superadministradoras de uma complexa organização centrada no cuidado e no transporte das crianças. Mas não é tão fácil passar com um estalar de dedos do controle apolíneo ao êxtase dionisíaco.

Os maridos também não oferecem um grande estímulo: visivelmente, os homens norte-americanos continuam sendo eternos meninos, como demonstram as camisetas largas, as calças frouxas e os tênis que usam da pré-escola até a meia idade. Os sexos, que tempos atrás ocupavam mundos intrigantemente distintos, estão sofrendo com o excesso de familiaridade, uma maldição da cotidianidade. Não há mais mistérios.

O poder elementar da sexualidade também diminuiu na cultura popular norte-americana. Quanto estava em vigor o código de conduta tão denegrido dos estúdios cinematográficos, Hollywood produzia filmes que transbordavam flerte e romantismo. Mas a partir do início dos anos 70 em diante, chegou a nudez, e aquela tensão sexual crescente foi perdida. Uma geração de cineastas perdeu a habilidade de insinuações sofisticados. A situação piorou nos anos 90, quando Hollywood começou a roubar ideias dos videogames, para transformar mulheres em superheroínas cartunisticamente espirituais e androides de ficção-científica, figuras de fantasia, sem a complexidade psicológica ou as necessidades eróticas das mulheres reais.

Além disso, graças a uma cultura burguesa branca que privilegia os corpos eficientes sobre os voluptuosos, as atrizes norte-americanas se dessexualizaram, confundindo atletismo estéril com poder feminino. Sua aparência atual afinada pelo Pilates é esticada e tensa – membros e quadris estreitos de um menino magro, combinados com seios ampliados. Um vivo contraste com o gosto latino e afro-americano, que corre em direção à silhueta saudável e "bem dotada" da Beyoncé.

A energia sexual é uma questão de classe, e isso pode ser indicado pela aparente popularidade marcante da Victoria's Secret e suas lingeries atrevidas entre as classes baixas e média-baixas multirraciais, mesmo em shoppings suburbanos, que apontam principalmente para a classe média branca. A música country, com a sua história enraizada no sul e no sudoeste rural dos EUA, ainda é cheia de cenários incrivelmente vulgares, onde os sexos continuam sendo dinamicamente polarizados de uma maneira antiquada

Por outro lado, a música rock, uma vez pioneira da libertação sexual, está mal de saúde. O rhythm and blues negro, nascido no Delta do Mississippi, era a força motriz por trás das grandes bandas de hard rock dos anos 60, cujas versões cover de canções de blues eram preenchidas com eletrizantes imagens sexuais. A hipnótica gravação dos Rolling Stones de "Little Red Rooster", de Willie Dixon, com o seu excitante exibicionismo fálico, é de uma sensualidade impressionante.

"Os maridos também não oferecem um grande estímulo:
visivelmente, os homens norte-americanos continuam sendo
eternos meninos,
como demonstram as camisetas largas,
as calças frouxas e
os tênis que usam da pré-escola
até a meia idade."

Mas com o enorme sucesso comercial do rock, o blues deixou de ser uma influência direta sobre jovens músicos, que simplesmente imitavam os deuses brancos da guitarra, sem explorar as suas raízes. Aos pouvos, o rock perdeu sua crueza visceral e sua sensualidade sedutora. O rock das grandes estrelas, com o seu público endinheirado da classe média, agora é todo superego, sem id.

Nos anos 80, a música comercial impulsionou uma série atraente de musas pop como Deborah Harry, Belinda Carlisle, Pat Benatar e uma Madonna encantadoramente deliciosa. Depois, no entanto, Madonna se tornou burguesa e esquelética. A assistente de dança de Madonna, Lady Gaga, com a sua inclinação compulsiva ao excesso, é uma fabricação de alta qualidade, sem um pingo de erotismo genuíno.

As empresas farmacêuticas nunca vão encontrar o Santo Graal de um Viagra feminino – não nesta cultura orientada e consumida por valores da classe média. As inibições são teimosamente interiores. E a luxúria é demasiadamente impetuosa para ser deixada nas mãos do farmacêutico.
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Fonte: IHU online, 30/06/2010

“Fazer o que te toca sem prejudicar ninguém”

O jornalista Martin Granovsky relembra uma entrevista feita em 2005 com Pepe Mujica para destacar a alegria dos uruguaios na Copa do Mundo da África do Sul. O técnico da seleção uruguaia resumiu: "os jogadores deram uma semana de felicidade aos uruguaios". É a mesma idéia expressa por Mujica em 2005: fazer o que te toca sem prejudicar a ninguém e ir somando momentos de felicidade. "A única coisa que vou fazer é manter minha forma de ser. Para tanto comprarei umas tantas brigas".
Martin Granovsky - Página 12

Blog de Martín Granovsky

O Uruguai ganhou. E falou Tabárez (técnico da seleção de futebol). Modesto, não disse que agora mudará a história. Disse, ao invés: "Os jogadores deram uma semana de felicidade aos uruguaios". No dia 1° de março de 2005, fiz uma reportagem com Pepe Mujica em seu sítio. Reli esse texto depois da partida com a Coréia. E vejo que a idéia é a mesma: ir somando momentos de felicidade. Recomendo de coração a leitura dessa reportagem. Não por mim, mas por Pepe.

"Fazer o que te toca sem prejudicar a ninguém"

Ele é o político mais popular do Uruguai. Como senador, presidiu a Assembléia Legislativa e pouco depois se tornou ministro da Agricultura, Pecuária e Produção, seu primeiro cargo no governo depois de mais de 50 anos de militância política. Página/12 foi o último veículo de comunicação que o entrevistou antes dessa mudança histórica.
O sítio está na estrada que vai da capital a Colônia, depois do Cerro, o bairro mais pobre de Montevidéu. É preciso passar por uma servidão e para chegar basta perguntar a qualquer um onde fica a casa de Pepe. Ninguém perguntará de que Pepe se trata e alguém informará que é preciso passar pelo açougue “El cimarrón” e por ali, próximo a uma parabólica, está o portão para entrar na casa do político mais popular do Uruguai, José “Pepe” Mujica.
São nove e meia da manhã quando os enviados da Pagina12 ligam uma pergunta a outra até passarem pela parabólica. Conseguirão a última entrevista com Mujica antes que este deixe a oposição, deixe o Senado e assuma, como ministro da Agricultura, Pecuária e Pesca, prestes a completar 70 anos? Um rapaz que ajuda Pepe Mujica e Lucia, sua mulher, deputada nacional pela Frente Ampla, no cultivo de hortaliças informa depois de uma pergunta que o caminho está livre.
Como em todo rancho que se preze, o portão fica fechado e se passa por uma falha no alambrado. Ao longe começam a aparecer as colinas da paisagem típica do Uruguai. À esquerda há um galinheiro. À direita, uma casa maior.
- Estamos reformando o teto. O velho tinha 60 anos e estava todo esburacado com goteiras – informam.
Ao lado do caminho de entrada, uma casinha fechada com a porta tapada com uma lona. Mujica está dentro.
- Não tem nada o que fazer para virem aqui? - quase grita.
Parece mal humorado o senador. Se o está de verdade, passa rápido, porque um segundo depois se senta numa mesa da cozinha, perto de dois cachos de cebola e de maçãs.
Lucia caminha todo o tempo ao redor da mesa forrada com uma toalha com desenhos de quadrados de plástico. Com um jornal enrolado nas mãos mata moscas, uma por uma. A explicação vem depois:
- Pepe está doente e não podemos usar inseticida nenhum.
O senador teve um problema renal. Foi logo antes de começar sua disputa judicial e a de todos os dirigentes da esquerda que tem entre 60 e 70 anos e foram militantes formados no começo dos anos 60. Em 15 de fevereiro, o Senado o designou presidente provisório. Mujica tomou o juramento de Eleutério Fernández Huidobro, que junto com ele fundou o Tupamaros. E Fernández Huidobro tomou-lhe juramento. Alberto Couriel (senador, nove anos de exílio) o chamou “ilustre presidente”. Também, com uma pequena vingança da política, Julio Maria Sanguinetti, que tinha feito uma campanha macartista contra a Frente Ampla, teve de juramentar ante Mujica.
No momento da entrevista faltavam poucas horas para que Mujica tomasse o juramento do primeiro presidente de sua força política, Tabaré Vázquez. Já estava com um terno novo, o mesmo terno azul que usou para o Senado. E comprou uma camisa branca. A camisa está aqui, bem passada.

Qual é a primeira coisa que será notada no governo da Frente Ampla?
Temos que fazer o plano de emergência. São 100 milhões de dólares por ano. Parece pouco, mas de juros da dívida, pagamos 650 milhões. São seis planos e bico por ano. Assim se entendem bem as cifras. Do mesmo modo, eu acho que este país é um pouco econométrico, não?

Por que econométrico?
Exato. Quando o poder aquisitivo aumenta se compra comida. E isso é muito reativador da economia e do trabalho. Sei que estamos submetidos às ações do mundo, mas também à marcha da região. E se o aumento do trabalho é duradouro, a economia será sustentável.

Qual a expectativa exata dos uruguaios que votaram, na sua percepção?
Ser um pouco melhor. 70% espera mudanças, mas não espetaculares nem imediatas. Isso fala de um povo em termos globais, mede bem as coisas.

"Quando o poder aquisitivo aumenta
 se compra comida"


Ou seja, coincide com a medida.
Sim. Haverá mudanças, mas não espetaculares.

Que identidade terá o governo?
Não sei se é o caso de lutar pela identidade. Há que ser não mais do que se é. Sim. O Uruguai é o país mais pecuário do mundo, por suas exportações. A única coisa que vou fazer é manter minha forma de ser. Para tanto comprarei umas tantas brigas.

Por onde começarás?
Pelo aparato estatal. Este é um país pecuário, como disse, mas concentrado em Montevidéu. O Estado está em Montevidéu e tem secretarias dispersas no resto do país, onde se produz. Temos mais vacas e ovelhas que cristãos, mas a Faculdade de Veterinária está em Pocitos (1).

Disse isso aos veterinários durante a campanha?
Claro. Falei com eles e com os estudantes, porque o aparato do Estado está envelhecido. Isso ocorre com a saúde e com todos os departamentos. E está envelhecido porque também os veterinários estão velhos. Há que se renovar. Estimular os guris para que tirem todo o conhecimento dos velhos. Têm de aprender antes que os velhos caiam aos pedaços.

Você insiste muito na conexão entre as pessoas. É um de seus motes?
Aqui um organismo não fala com outro pelo telefone. Temos quatro caminhonetes, cujo uso não é coordenado. Bom, escolhamos oito a dez questões, e trabalhemos a partir dali. Mas pensando nas pessoas em termos concretos, a pobreza não será combatida só pelo ministério da Ação Social. Eu seria tonto se não me desse conta de que parte de meu trabalho é melhorar a vida no campo. Há 15 mil campesinos vivendo abaixo da linha da pobreza. E nas mesmas condições estão 60 a 70 mil peões rurais. Não esperes empresas prósperas rodeadas de pessoas mortas. Para tudo isso que estamos trabalhando em equipe, e temos companheiros de uma solidez técnica brutal. Uns de organizações internacionais e outros daqui.
Quero que fique uma equipe sólida que se comprometa com a tarefa. Gente com talento. A política não é só um trampolim. Gente com mais peso faz falta. Difícil. Mas sim, vamos estar muito mal. Não há política sem introduzir a matemática. Basta de conversas linguarudas que não sabem de nada.

Por esse caminho se fica com muita matemática e pouca política.
A tecnocracia? Sim, é uma boa saída. Mas eu não vejo um perigo aí, porque estamos na América Latina.

Não há tecnocratas no continente?
Sim, claro, mas predominam os advogados. São tantos que não há perigo de que os tecnocratas sejam mais. Até agora ficamos com advogados e exportamos os engenheiros. Aqui estão os vendedores de verso. Certo que para alguns isso é ruim. Mas há que ser um pouco herege para fazer essas mudanças. Os meninos odeiam a matemática. Quando os professores falam, parece que não tiveram qualquer responsabilidade nisso. A culpa é sempre das crianças. Depois, por isso, ocorre de nos venderem uma caixinha de remédios e em troca os vendemos um barco carregado. O desenvolvimento do conhecimento é parte da liberação. Dirão a mim: os velhos revolucionários se tornaram reformistas.

Se são reformistas, bom, não estão mal, não?
Fazemos uma reforma porque já não podemos fazer outra coisa. Mas não o digo com tristeza. Ou ficamos nos anos 60 ou assumimos o desafio de fazer a história de outro tempo. Acreditávamos que mudando as relações de propriedade mudaríamos o mundo. As relações mudaram, mas o mundo não mudou. Falo muito disso. É um problema de civilização. Assim vemos o homem marchar para o desastre. É preciso construir sociedades mais justas e felizes, mas não vamos conseguí-las se não tivermos uma relação muito audaz e muito ativa com o passado. Não é só mais riqueza o que faz falta.

Falas do mundo...
Do mundo e do Uruguai. Mais riqueza e melhor distribuída. Se não, esta civilização é de mentira. Se os hindus comprarem tantos carros como os alemães, não restará oxigênio para respirar no mundo. Por isso a promessa de maior consumo é mentirosa quando vem com esta perspectiva: prometem-nos algo que não existe e eque será impossível. Essa geladeira que está ali (Mujica mostra uma General Electric pintada de azul), assim como a vês, tem 57 anos. Paguei por 12 pesos ao mês. Funciona. Não a fabricam mais assim porque precisam tirar tempo de vida de mim.

Qual é a relação do tempo com a solidez da geladeira?
Se se quebra algo e necessito comprar algo, e comprar o novo produto, pago com meu tempo de vida. Ser avaro com o tempo de alguém é uma luta pela liberdade. Tu só és livre quando tens tempo para fazer o que queres. Quanto mais margem de tempo se tem, sem prejudicar ninguém, mais livres és. Dizem que Euclides, um dia, enquanto fazia cálculos para uma estrada, encheu um copo e o usou como medida. Ao passar a medida o líquido transbordava. Tinha limite. Querem pôr limites à liberdade do homem. Temos de fazer como Euclides e pôr limites, nós mesmos. Se não, com esta civilização não valerá a pena construir. Eu me lembro de, em 63, na Universidade Lomonov de Moscou, os soviéticos se matarem para me comprar uma camisa horrorosa. De nylon. Falemos de valores. Se não, “hay unos que trabajan de trueno y es para otros la llovida" (2) [algo como: alguns trabalham debaixo de mau tempo, enquanto chove na horta de outros]. Há que discutir com os deuses. Com o Lênin careca, com o velho Marx...

Com Marx nem tanto. Ou não vem daí sua idéia de lutar para defender o ócio?
Claro que sim. Vou confessar que me sinto mais próximo de Marx que de Lênin. Não renego nada. Não mudo de lado. O capitalismo é um sistema cada vez mais atroz, mas não tenho respostas mágicas para seu contrário. Quando se está num túnel e não se vê a luz, olha para trás em busca da luz que conheceste. Mas a história não anda para trás. Veremos isso também quando passar o tempo do cowboy unipolar. Porque vai passar. Nesta região começou a tremedeira. Embora outros tenham tanta paciência. Os chineses são muuuuuuito pacientes. Os europeus estão preocupados com a Europa central. E nós necessitamos que haja mais pólos no mundo.

Já que fala de tremedeira...
Digo que estou muito contente com a negociação da dívida argentina. E estou muito triste com a covardia das chancelarias da América Latina. Não tiveram qualquer gesto de solidariedade na negociação. Se portaram com covardia, cada qual na sua, e também a nossa chancelaria. Agora, da parte da Argentina, os organismos financeiros poderiam ter um espaço para visões mais heterodoxas.

(1) Bairro de classe média alta de Montevidéu. Ver: http://pt.wikipedia.org/wiki/Pocitos

(2) Essa expressão ocorre numa célebre composição de Atahualpa Yupanqui, conhecida como El payador perseguido, neste verso: “El trabajo es cosa buena/ Es lo mejor de la vida;/ Pero la vida es perdida/ Trabajando en campo ajeno./Uno trabaja de trueno/Y para otro es la llovida”. N.deT.
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Tradução: Katarina Peixoto
Fonte: www.cartamaior.org.br - 27/06/2010

O outro lado da Copa

Newton Carlos*

A Copa na África do Sul inspirou vários livros e um artigo de fundo no prestigioso jornal inglês Guardian. Tratam o evento como algo ajustado a interesses de uma “elite europeia”, representada pela Fifa e por clubes que administram enormes somas de dólares com contratos de jogadores de fora da Europa. Com isso, montam espetáculos que estão entre os que mais mobilizam multidões ao largo do universo, especialmente na Europa e América Latina e agora na África. Com ela, num continente açoitado pela pobreza, a Fifa faturou, segundo o Guardian, US$ 3,3 bilhões, principalmente com as vendas de imagens.

Abrigaria componentes históricos o fato de que a América Latina já foi sede de várias Copas e a África está em sua primeira. Os países latino-americanos ficaram independentes no século 19 e a descolonização africana teve seu impulso forte e definitivo somente nos anos 60 do século passado. A Fifa teria levado isso em consideração, mas se supõe que estiveram em campo outras considerações. A extrema pobreza de uma África, por exemplo, sem condições de montar um espetáculo ao gosto e de acordo com as exigências da “elite europeia” futebolística. O arsenal africano do futebol já inclui, no entanto, mecanismos de decolagem, um deles muito nosso conhecido, as contratações a peso de ouro de jogadores que se deslocam dos campos da periferia para os do centro.

Camarões, Gana e Costa do Marfim têm seus craques quase todos em clubes, sobretudo, europeus. Mesmo assim, a África do Sul pós-apartheid foi obrigada a lutar arduamente para conseguir o aval europeu. Peter Alegi, em seu livro África World Coup, publica a carta que o presidente sul-africano na época da escolha, Taboo Mbeki, mandou aos cartolas da Fifa. “A África alcança finalmente status global”, em matéria de futebol, foi um dos argumentos usados por Mbeki. “Queremos sediar um evento que produzirá confianças da Cidade do Cabo ao Cairo”, enfatizou o então presidente sul-africano. Ele fez, em seu empenho por eliminar resistências, uma aposta de alto risco. Com o 2010 a África tomará outro rumo, irá enterrando séculos de pobreza e conflitos.

O que a Copa atesta de modo claro, disse o Guardian, é que a África passa a ocupar lugar de destaque no universo do futebol, chamado de “mina de ouro”. Os países africanos não tiveram nenhuma presença em Copas até 1974, quando foi classificada uma única seleção para as finais, a do Zaire, hoje República Popular do Congo. Em 1970, a África do Sul quis mandar ao México uma seleção toda de negros, mas foi impedida; o apartheid ainda estava vigente. Antes, em 1966, tentou enviar à Inglaterra um time todo de brancos. Também não conseguiu. O Zaire, em 1974, era governado por um ditador corrupto e cruel. Um dos vários livros sobre as copas, The story of the World Cup, conta que Mobutu se reuniu-se com os jogadores e fez um aviso. Não garantiria as vidas deles se apanhassem de quatro a zero do Brasil. Ou, é claro, de ainda mais.

Em 1990, foi a erupção dos Camarões. Em The ball is rounds, David Goldblat, com base num longo histórico, conclui que, nas copas, nem sempre o melhor é o vencedor. Em 2010 se impõe uma nova ordem no universo do futebol, pela presença simbólica de seis países africanos nas finais. O que ainda é considerado insuficiente, tendo em vista as ausências de países com destaque na agenda das relações internacionais, como China, Índia, Indonésia, Filipinas, Paquistão, Vietnã, Iraque, Israel etc. É como se as Worlds Cups, a mina de ouro da Fifa, ainda segundo o Guardian, não se encaixasse numa espécie de ONU do futebol. É notada, de modo especial, a ausência da China, que teve presença destacada na Copa Africana das Nações, realizada este ano em Angola. Toda a infraestrutura foi bancada pelos chineses, incluindo as construções de quatro estádios.

Um raro momento do futebol como instrumento de interesses estratégicos, a China procurando fortalecer sua presença numa África recheada de matérias-primas das quais ela se ressente em sua ascensão como potência. Em How football explains África, o autor, Steve Bloomfield, cita as razões que questionam os sonhos transformadores de Mbeki. É verdade que a Copa promove mudanças na África do Sul, onde o futebol era tratado, na época do apartheid, como esporte de negros, como se fosse coisa de raça inferior. Sobressaiam o críquete e o rúgbi, esportes de brancos. É importante a constatação de como o futebol acompanhou o desmonte do regime racista sul-africano, ao ponto de colocá-lo num telão com dimensão universal.

Talvez Mbeki tenha pensado sobretudo nisso, em seu empenho por fazer com que a África do Sul fosse a sede da Copa de 2010. Mas é preciso olhar o reverso da medalha. Mbeki foi o segundo presidente pós-apartheid, e em seu governo já surgiram sintomas de que a África do Sul não se encaminhava na direção sonhada por Nelson Mandela. O próprio Mbeki escandalizou o mundo com seus palpites sobre causas da Aids, em oposição aos avanços das ciências médicas. A Aids castiga os africanos e a visão de Mbeki continha ingredientes capazes de deixar campo livre a epidemias. Seu sucessor, Zuma, envolveu-se em escândalos sexuais e enfrentou acusações de corrupção. Também a South African Football Association entrou por maus caminhos, segundo Bloomfield.

"O jornal inglês fala de um
”sistema de livre mercado de tráfico humano”.
Empresários montam academias de futebol,
treinam jovens jogadores e os “exportam”.
Já existem centenas dessas academias espalhadas
pela África"

Tornou-se um Estado dentro do Estado. Com isso, os recursos que administra se refugiam em caixas-pretas. Não existem, ainda segundo Bloomfield, prestações de contas. Os mandatos de dirigentes se tornam perpétuos. Em vez de sanar tal situação, a Copa tende a agravá-la, tendo em vista o montante de recursos em jogo. A própria Fifa injetou US$ 100 milhões nos cofres da South African Football Association, em caráter de emergência, para que a Copa africana pudesse afinal acontecer. A África do Sul, diz o Guardian, já dispõe de um bom sistema futebolístico, capaz de realizar campeonatos nacionais, mas não de melhorá-los. A tendência é que se instale na África do Sul o que já acontece em vários países africanos, a “exportação” de jogadores, sobretudo para a Europa.

Fazem contratos inimagináveis em clubes africanos. O jornal inglês fala de um ”sistema de livre mercado de tráfico humano”. Empresários montam academias de futebol, treinam jovens jogadores e os “exportam”. Já existem centenas dessas academias espalhadas pela África. Os formandos, em busca do sonho europeu, são em geral muito jovens. Em 2003, a média etária foi de 18 anos. Não existem dados mais recentes. Um clube holandês, o Ajax, de Amsterdã, instalou sua própria academia na África do Sul, com o objetivo de formar craques no futebol em países africanos de modo mais responsável e com doses reduzidas de exploração. A Copa deve voltar à África em 2026. Mas já existem rumores de que a Índia pretende reivindicá-la. Afinal, se trata de um superemergente. Mais ainda: de potência atômica.
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*Jornalista
Fonte: Correio Braziliense online, 30/06/2010

Mudar ou continuar

Marcos Coimbra*

A democracia não está na ideia abstrata de alternância.
Para o ideal democrático, o relevante não é o conteúdo da escolha.
Tanto faz que os cidadãos prefiram continuar ou mudar.
O que torna uma sociedade democrática é haver instituições que assegurem,
 a cada cidadão,
a possibilidade real de escolher
                                                                                                                          Maurenilson/CB D.A Press
Já faz algum tempo, começou a se generalizar no meio político a convicção de que Dilma vai ganhar as eleições. Embora nem todos admitam, é o que pensam até as principais lideranças da oposição, assim como a quase totalidade dos formadores de opinião e da imprensa. Para consumo externo, continuam a dizer que o processo está aberto, que nada está definido. Mas não é o que, no íntimo, acreditam que vai acontecer.

Do lado governista, nem se fala. Não é de agora que os principais estrategistas do Planalto e do PT trabalham com o cenário de crescimento e vitória da candidata de Lula. A rigor, é nisso que apostam desde 2008, quando o presidente deixou claras duas coisas: que ele próprio não tentaria mudar as regras do jogo para disputar um terceiro mandato; e que achava que conseguiria ganhar as eleições com alguém que o representasse.

Tudo que está acontecendo na sua sucessão, até o momento, confirma seu cálculo. Ele não se baseava no que diziam as pesquisas sobre as intenções de voto do conjunto do eleitorado. Ao contrário, o raciocínio sempre foi sobre o potencial de crescimento de uma candidatura identificada com ele e com o governo, avaliados, pela grande maioria da população, como ótimos ou bons.

Nunca foi relevante considerar os resultados agregados das pesquisas (normalmente os que a imprensa divulga), pois misturavam respostas de quem sabia e quem não sabia qual era a candidatura apoiada por Lula. Enquanto não aumentasse a proporção dos que tinham essa informação, a vantagem de Serra era ilusória e não preocupava quem, no PT, sabia fazer as contas.

É de se notar que, na oposição, as pessoas pensaram de maneira oposta. A opção por Serra, em detrimento de Aécio, mostrou que ela preferia escolher em função do desempenho presente dos pré-candidatos, deixando em segundo plano seu potencial de crescimento. Serra prevaleceu pelo patamar de largada, não pela perspectiva de chegada.

Há quem defenda que é cedo para decretar que a eleição está resolvida. De fato, é preciso admitir que muita água ainda pode rolar por baixo da ponte. Não é impossível que Dilma, sua campanha, seus apoiadores e o vasto conjunto de forças políticas mobilizadas para elegê-la cometam erros calamitosos. É, apenas, pouco provável.

Em função da possibilidade cada vez mais concreta de que Dilma venha a ganhar (talvez já no primeiro turno), alguns setores da oposição andam à cata de novos argumentos para tentar convencer os eleitores a mudar de ideia. Um dos mais engraçados tem a ver com o conceito de alternância do poder.

Trata-se da tese de que é bom, para a democracia, que as eleições ensejem a mudança do partido ou da coalizão que está no poder, assim permitindo que ocorra uma salutar alternância de pontos de vista e de prioridades. A continuidade seria ruim, ao impedir que novas agendas sejam discutidas e que outras políticas, mais adequadas a um novo momento, sejam formuladas.

O ápice dessa argumentação aconteceu outro dia, quando uma importante revista semanal entrevistou o candidato do PSDB e perguntou “por que é positivo” para “a democracia brasileira” experimentar “uma alternância de poder depois de oito anos de governo Lula”.

Difícil imaginar algo mais sem sentido, a começar pelo fato da pergunta ser feita ao candidato interessado na alternância. É o mesmo que perguntar ao macaco se quer banana. Ou alguém supõe que Serra diria que o melhor, para o país, é a continuidade?

Mas o importante não é isso. A democracia não está na ideia abstrata de alternância. Para o ideal democrático, o relevante não é o conteúdo da escolha. Tanto faz que os cidadãos prefiram continuar ou mudar. O que torna uma sociedade democrática é haver instituições que assegurem, a cada cidadão, a possibilidade real de escolher.

Se a maioria da sociedade brasileira quer a continuidade e votará em Dilma, é bom que todos se acostumem — incluindo os que querem a alternância. Em si, ela só é importante como uma possibilidade. Se não, nem seria preciso haver eleições. Bastaria trocar o governo a cada período estipulado. (O problema é que ninguém saberia como fazê-lo.)
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*Sociólogo e Presidente do Instituto vox Populi

marcoscoimbra.df@dabr.com.br
Fonte: Correio Braziliense online, 30/06/2010

Coisas que eu queria saber aos 21

Cineasta Heitor Dhalia fala sobre formação acadêmica e profissional

'A dramaturgia é a vida sem a parte chata' - Heitor Dhalia, cineasta

"A reflexão de um cara de 40 anos sobre aquele de 21 é curiosa, porque quem eu vejo agora é diferente do que existiu. Mas olho para trás com carinho e vejo tanto a semelhança quanto a diferença na visão de mundo.

Aos 21 anos eu fazia Jornalismo na Universidade Federal de Pernambuco, estava no fim do 2º ano, mas já começava a trabalhar com publicidade. Evidentemente, ainda procurava saber quem eu era, mas já tinha certeza de que queria fazer cinema. Escrevia contos e tinha trabalhado como figurante no filme Kuarup, do Ruy Guerra. Tinha sido assistente de produção e ator de teatro em Recife ? apaixonei-me por uma atriz e entrei no grupo. Também fiz um curta, mas não editei.

Na verdade, eu achava que o cinema ficava muito longe de mim, e a publicidade estava bem mais perto. Pouco tempo depois, eu com 23, já estava em São Paulo, morando em uma quitinete na Praça Roosevelt e trabalhando em uma grande agência. Nem cheguei a terminar a faculdade.

Analisando hoje, acho que queria a chance de ter feito cinema mais cedo. Mas até pela época, do Collor, não tinha jeito, nem existia o cinema brasileiro. Além disso, no Recife nem escola tinha.

O cinema é minha grande paixão, meu objetivo de vida, o que me motiva. Talvez não tenha perdido tempo não me envolvendo mais cedo, mas você fica pensando que perdeu. Porque as coisas só começam a existir quando você acha o significado.

O cara de 20 anos quer muitas coisas, ele é o próprio crescimento. Isso tem muito a ver com a substância do drama: essa diferença entre a expectativa e o resultado. Eu sempre tive vontade de fazer teatro e literatura. Sempre me considerei uma pessoa ligada ao ato de contar histórias, de compartilhar experiências.

Gosto de peças, livros, nasci com a televisão... Mas o cinema é uma coisa muito do nosso tempo. E a dramaturgia é a vida sem a parte chata. O drama acontece em momentos muito significativos da vida, que são momentos em que você existe. Mesmo que os resultados não estejam intimamente ligados a acontecimentos significativos.

A grande diferença que a idade traz é a experiência. Por isso acho importante estar o mais acordado possível para a vida, estar vivendo intensamente. Eu queria ter tido essa consciência sempre.

A memória é esse rio, a vida é essa constante transformação. Por mais que houvesse algo que eu gostaria de ter aprendido aos 21, não tem como voltar."
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Fonte: Estadão online, 29/06/2010

Fazendas verticais

Fábio Teixeira - Universiade do Futuro

No último post, falei um pouco sobre os projetos voltados à produção de alimentos. Mas deixei uma dúvida: o que é uma fazenda vertical? Poderiam ser prédios, ou até mesmo arranha-céus, e cada andar abrigaria uma plantação ou a criação de pequenos animais. A água seria reutilizada, haveria painéis solares para captação de energia e até mesmo o lixo serviria como fonte de energia, caso não pudesse ser reciclado. Tudo seria reaproveitado. Brilhante!

Também falaram de projetos mais audaciosos. Um cara chamado Lane Patterson lidera um projeto de produção de vegetais no Polo Sul. É isso mesmo: cultivo de alfaces, pimentões, girassóis, enfim, uma horta embaixo do gelo! É uma câmara projetada para oferecer a iluminação certa, temperatura adequada e irrigação programada. Ele visita a câmara ocasionalmente.

Durante o resto do ano, ele monitora a produção remotamente de seu escritório na Universidade do Arizona. A pesquisa de Patterson vai longe: prevê a possibilidade de criar câmaras na lua! A chamada “agricultura espacial” é um projeto surpreendente que envolve até a revitalização de ar.

Inimaginável, não? Mas, por enquanto, a lua continua apenas um sonho
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Fonte: Estadão online - blog -  30/06/2010

Raça, religião e economia

Wilhelm Hofmeister*

"Caucasiano." Esta ? assim aprendi ? é, no meu caso, a resposta correta se me perguntam por minha raça. Na Ásia devo responder a essa pergunta com frequência. Na entrada em um ou outro país, no formulário de registro de um hotel ou numa clínica. Mesmo quando deveria preencher um pedido de licença para conduzir um carro, em Cingapura, tinha de especificar a minha raça. Raça importa. Essa é uma consequência da diversidade cultural do continente. Como em nenhuma outra parte da Terra, nos países da Ásia vivem juntas pessoas de cor de pele, línguas e religiões muito diferentes. Para distinguir essa variedade habitualmente o conceito de raça é utilizado. Para um europeu ? e, especialmente, um alemão, como eu ? o termo em si já é altamente delicado. Afinal, a História mostra que muitas vezes, com a atribuição a uma pessoa de determinada raça, o "valor" dessa pessoa também é determinado. Isso não é diferente na Ásia. Japão e Coreia, por exemplo, são países que têm fama de ser particularmente reservados com estrangeiros por aspectos raciais.

Pelo fato de a cor da pele ou a posição dos olhos nem sempre indicarem automaticamente a raça, em muitas sociedades asiáticas a afiliação religiosa serve como outra característica distintiva. Budistas, muçulmanos, hindus, cristãos, animistas e ateus há séculos vivem juntos em muitos países do continente. De fato, muitas pessoas já aprenderam a tolerar a religião diferente dos seus vizinhos. Não obstante, pessoas de filiação religiosa diferente, às vezes, são vistas como representantes de outra raça. E a partir dessa mistura de raça e religião surge um solo fértil para reiteradas explosões de conflitos sociais.

Na Índia, os constantes enfrentamentos entre pessoas de religiões diferentes provocam muitas vítimas de morte. Nos países do Sudeste Asiático, particularmente na Tailândia, nas Filipinas, na Indonésia e na Malásia, a mistura de raça e religião também leva a permanentes conflitos.

A Malásia é um caso particularmente exemplar pela combinação explosiva de raça e religião ? e os problemas que pode causar uma política de ação afirmativa em favor de determinados grupos da população de um país inteiro.

Na década de 80 do século passado, a Malásia ganhou a atenção internacional como um dos tigres asiáticos que alcançaram taxas de crescimento elevadas pela abertura dos seus mercados e orientação para as exportações. O investimento estrangeiro direto, sobretudo na indústria eletrônica e têxtil, combinado com os baixos salários, a repressão dos sindicatos e dos direitos trabalhistas, juntamente com a intervenção do Estado em praticamente todos os setores da economia foram a base desse progresso.

Mesmo assim, o crescimento acelerado não serviu para resolver os conflitos étnicos e religiosos existentes dentro do país desde a independência, em 1957. A Malásia é uma sociedade multiétnica, multirreligiosa e multicultural, com 58% de malaios (todos muçulmanos), 27% de chineses (que são principalmente budistas, cristãos ou taoistas), 8% de indianos (hindus, cristãos ou muçulmanos) e 7% de populações indígenas (cristãos, muçulmanos ou filiados a religiões indígenas). O islamismo, no entanto, é a religião oficial do Estado. Embora os outros grupos étnicos vivam há gerações no país e tenham passaporte da Malásia, somente os muçulmanos são considerados "corretos" malaios. E esses malaios "corretos" desfrutam tratamento preferencial por parte dos programas governamentais de assistência, como os de ação afirmativa em muitas áreas, no sistema escolar e universitário e na aplicação para uma posição no governo, por exemplo. Membros de outros grupos étnicos e comunidades religiosas são discriminados. Critérios de concorrência estão suspensos. Em vez de capacidade, inteligência ou esforço, a raça e a religião são os critérios-chave de seleção.

Em tempos de prosperidade econômica geral, tal política de ação afirmativa podia passar despercebida. Mas o país há muitos anos enfrenta uma competição internacional mais rigorosa. A última crise econômica internacional e, especialmente, o declínio nos preços mundiais de matérias-primas levaram a perdas significativas de receitas do governo, das quais quase a metade vem da empresa nacional do petróleo e gás Petronas. A desigualdade da distribuição de renda fica cada vez mais evidente. Isso levou a uma crescente crítica à política de discriminação racial positiva e negativa, o que, por sua vez, incentivou a radicalização do Islã, porque os muçulmanos malaios defendem os seus privilégios. Em consequência, a repressão à oposição política e à sociedade civil, a censura da mídia, a centralização, o nepotismo e a corrupção também são resultados dessa política discriminatória.

O primeiro-ministro Najib Razak anunciou agora um "novo modelo econômico" para combater a crise. Mas o fim dos programas de ação afirmativa não é previsto. Na perspectiva do governo, no futuro eles deveriam ser mais transparentes e orientados por critérios de mercado. Detalhes dessa nova política ainda não são conhecidos. Mas os grupos privilegiados já preparam a sua resistência para se protegerem contra a concorrência. Enquanto o governo vê as consequências fatais da política racial para a harmonia social e a economia do país e procura alternativas viáveis, os grupos conservadores aumentam a sua pressão contra mudanças e a intolerância religiosa se torna mais forte.

A Malásia já foi um exemplo dos efeitos positivos de uma economia dinâmica e voltada para o exterior. Hoje, para os seus vizinhos, é sobretudo um exemplo de uma política de integração social e étnica falida. Por sobre o contexto regional, o caso da Malásia indica a problemática e as limitações de programas de ação afirmativa para superar as disparidades raciais e étnicas dentro das sociedades.
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*DIRETOR DO CENTRO DE ESTUDOS DA FUNDAÇÃO KONRAD ADENAUER EM CINGAPURA
Fonte: Estadão online, 30/06/2010

'Le Monde' de pernas curtas...

Trio de empresários conquista controle do jornal
 'Le Monde'

Ben Hall, Financial Times, de Paris

Um trio de empresários venceu, ontem, a disputa pelo controle do "Le Monde", o mais influente jornal diário francês, depois que um consórcio rival que incluía a France Télécom e a Prisa da Espanha retirou sua proposta.

Matthieu Pigasse, um banqueiro do Lazard; Pierre Bergé, ex-sócio da Yves Saint Laurent; e Xavier Niel, o bilionário das telecomunicações, concordaram em investir € 110 milhões (US$ 135,5 milhões) no jornal, em troca de seu controle.

A France Télécom e Claude Perdriel, dono da revista "Le Nouvel Observateur", disseram que vão desistir da proposta conjunta com a Prisa, a companhia de mídia espanhola, depois que ela foi rejeitada em votação feita pela equipe do "Le Monde" na sexta-feira.

O conselho supervisor do "Le Monde" não tinha muita escolha, ontem, a não ser aceitar a proposta restante, uma vez que o diário corre o risco de ficar sem caixa no mês que vem se não for recapitalizado urgentemente.

O "Le Monde" teve prejuízo de € 25 milhões no ano passado e seu endividamento é de cerca de € 100 milhões. Assim como outros jornais de várias partes do mundo, ele foi vítima da queda das receitas com anúncios e da mudança dos hábitos de leitura. Mas seus problemas também foram agravados pelo endividamento pesado e por uma estrutura de controle complexa pelos seus jornalistas, o que garantia a independência editorial, mas tornou o jornal lento nas necessidades de adaptação.

Os jornalistas do "Le Monde" esperavam originalmente perder a tão prezada independência editorial como resultado do takeover, mas parecem ter garantido um bom acordo.

O consórcio prometeu preservar o poder de veto da equipe sobre as escolhas do editor e de qualquer takeover posterior. Os jornalistas poderão manter uma minoria com poder de veto no conselho, através de uma fundação. A circulação paga do "Le Monde" caiu para menos de 300 mil exemplares, mas o jornal continua influente, especialmente entre a elite.

A vitória de Pigasse, Bergé e Niel é um golpe para Nicolas Sarkozy, o presidente francês que interferiu na recapitalização para tentar frustrar a proposta dos três. Sarkozy convocou Eric Fottorino, o editor do "Le Monde", ao palácio do Eliseu este mês e ameaçou retirar os subsídios estatais à impressão do jornal se o trio vencesse a disputa. Sarkozy tinha objeções a Niel, que começou a fazer sua fortuna investindo na área de entretenimento adulto. Mas os motivos do presidente provavelmente eram mais de ordem política, dada a simpatia nutrida por Pigasse e Bergé pelos oponentes socialistas de Sarkozy, e sua determinação de não aceitar ordens do palácio do Eliseu.

Os jornalistas ficaram furiosos com a interferência de Sarkozy e desconfiados do envolvimento da France Télécom, que é controlada em 26% pelo governo francês.
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Fonte: Valor Econômico online, 29/06/2010

terça-feira, 29 de junho de 2010

A terceira depressão

Paul Krugman*
Recessões são comuns; depressões são raras. Pelo que sei, houve apenas duas eras na história econômica qualificadas como “depressões” na ocasião: os anos de deflação e instabilidade que acompanharam o Pânico de 1873, e os anos de desemprego em massa, após a crise financeira de 1929-31.

Nem a Longa Depressão do século 19, nem a Grande Depressão, no século 20, registraram um declínio contínuo. Pelo contrário, ambas tiveram períodos em que a economia cresceu. Mas esses períodos de melhora jamais foram suficientes para desfazer os danos provocados pela depressão inicial e foram seguidos de recaídas.

Receio que estamos nos estágios iniciais de uma terceira depressão. Que provavelmente vai se assemelhar mais à Longa Depressão do que a uma Grande Depressão mais severa. Mas o custo – para a economia mundial e, sobretudo, para os milhões de pessoas arruinadas pela falta de emprego – será imenso.

E esta terceira depressão tem a ver, principalmente, com o fracasso político. Em todo o mundo – e, mais recentemente, no profundamente desanimador encontro do G-20, no fim de semana -, os governos se mostram obcecados com a inflação quando a verdadeira ameaça é a deflação, e insistem na necessidade de apertar o cinto, quando o problema de fato são os gastos inadequados.

Em 2008 e 2009, parecia que tínhamos aprendido com a história. Ao contrário dos seus predecessores, que elevavam as taxas de juros para enfrentar uma crise financeira, os atuais líderes do Federal Reserve e do BCE (Banco Central Europeu) cortaram os juros e partiram em apoio aos mercados de crédito. Ao contrário dos governos do passado, que tentaram equilibrar os orçamentos para fazer frente a uma economia em forte declínio, os governos hoje deixam os déficits aumentarem. E melhores políticas ajudaram o mundo a evitar o colapso total: podemos dizer que a recessão provocada pela crise financeira acabou no verão (no hemisfério norte) passado.

Mas os futuros historiadores irão nos dizer que esse não foi o fim da terceira depressão, da mesma maneira que a retomada econômica em 1933 não foi o fim da Grande Depressão. Afinal, o desemprego – especialmente o desemprego a longo prazo – continua em níveis que seriam considerados catastróficos há alguns anos e não dão sinal de queda. E tanto Estados Unidos como Europa estão próximos de cair na mesma armadilha deflacionária que atingiu o Japão.

Diante desse quadro sombrio, você poderia esperar que os legisladores tivessem entendido que não fizeram o suficiente para promover a recuperação. Mas não. Nos últimos meses observamos o ressurgimento da ortodoxia do equilíbrio orçamentário e da moeda forte.

O ressurgimento dessas teses antiquadas é mais evidente na Europa, onde as autoridades parecem estar usando os discursos de Herbert Hoover para fundamentar sua retórica, incluindo a afirmação de que elevar impostos e cortar gastos vai expandir a economia, melhorando a confiança nos negócios. Mas, em termos práticos, os EUA não estão agindo muito melhor. O Fed parece consciente dos riscos de uma deflação – mas o que propõe fazer com relação a esses riscos é, bem, nada.

O governo Obama entende os perigos de uma austeridade fiscal prematura – mas como os republicanos e democratas conservadores do Congresso não aprovam uma ajuda adicional aos governos estaduais, essa austeridade se impõe de qualquer maneira, com os cortes no orçamento estaduais e municipais.

Por que essa virada equivocada da política? Os radicais com frequência referem-se às dificuldades da Grécia e outros países na periferia da Europa para justificar seus atos. E é verdade que os investidores atacaram os governos com déficits incontroláveis. Mas não há nenhuma evidência de que uma austeridade a curto prazo, face a uma economia deprimida, vai tranquilizar os investidores. Pelo contrário: a Grécia concordou com a adoção de um plano severo de austeridade, mas viu seus riscos se ampliarem ainda mais; a Irlanda estabeleceu cortes brutais dos gastos públicos e foi tratada pelos mercados como um país com risco maior do que a Espanha, que até agora reluta em adotar medidas drásticas propugnadas pelos radicais.

É como se os mercados financeiros entendessem o que os legisladores aparentemente não compreendem: que, embora a responsabilidade fiscal a longo prazo seja importante, cortar gastos no meio de uma depressão vai aprofundar essa depressão e abrir caminho para a deflação, o que é contraproducente.

Portanto, não acho que as coisas tenham a ver de fato com a Grécia, ou com qualquer apreciação realista sobre o que priorizar, déficits ou empregos. Em vez disso, trata-se da vitória de teses conservadoras que não se baseiam numa análise racional e cujo principal dogma é que, nos tempos difíceis, é preciso impor o sofrimento para outras pessoas pra mostrar liderança.

E quem irá pagar o preço pelo triunfo dessas teses conservadoras? A resposta é: dezenas de milhões de trabalhadores desempregados, muitos deles sujeitos a ficar sem emprego por anos e outros que nunca mais voltarão a trabalhar.
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*é um economista norte-americano. Autor de diversos livros, também é desde 2000 colunista do The New York Times.Fonte: Estadão online, 28/06/2010
Atualmente é professor de Economia e Assuntos Internacionais na Universidade Princeton. Em 2008, recebeu o Prémio de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel por um trabalho anterior à atuação como colunista do The New York Times, que tratava da dinâmica da escala - quantidade de produção - na troca de bens entre os países.