quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Feliz ano-novo, segundo a novela

Eugênio Bucci*

De todas as mensagens de feliz ano-novo que inundam a televisão nestes dias de festas, a mais persistente é a que nos chega todas as noites ao fim dos capítulos da novela Viver a Vida (Rede Globo, 21 horas). Terminado o episódio, entra em cena o depoimento de alguém da vida real, com a sua própria história de vida. São pequenas histórias de superação, como ficou na moda dizer, que servem para corroborar o tema central da ficção.

Viver a Vida, escrita por Manoel Carlos, gira em torno do drama de Luciana (interpretada por Aline Moraes), cuja carreira de modelo profissional é interrompida por um acidente que a deixa tetraplégica. De um dia para o outro, ela passa a conviver com limitações físicas severas e precisa se reprogramar, ou, em outras palavras, precisa superar sua tragédia se quiser reencontrar o caminho da felicidade. A superação é o mote central da novela: é a ideia de superação que orienta o percurso de todos os personagens. Cada um a seu modo, eles tentam vencer seus limites. Para a namorada do médico o desafio é se curar do alcoolismo. Para a garçonete bonita que vive na casa do dono do restaurante o obstáculo é vencer os fantasmas do passado e as consequências dos erros que cometeu. Para outros a principal barreira é aceitar uma crueldade do destino caprichoso e encontrar um modo de seguir adiante.

Aí é que entram as pessoas reais que dão seus depoimentos ao final dos capítulos. Todas elas narram episódios traumáticos por que passaram e contam como, em meio a adversidades, tiveram de reinventar a vida. A mensagem é sempre a mesma: viver é superar e superar-se. Assim, por meio dos depoimentos, a realidade entra em cena para dizer que a ficção está certa.

O lastro de "vida real" reforça a identidade do público com a trama fictícia, com uma autoridade praticamente inquestionável. Às vezes, ele já vem embutido na própria obra. Em 1982, por exemplo, um autor estreante, Marcelo Rubens Paiva, comoveu o País com um best-seller que era, ele mesmo, um depoimento de vida real. Explicitamente autobiográfico, Feliz Ano Velho relatava, sem meias palavras, como o autor-protagonista reaprendeu a viver numa cadeira de rodas e venceu. Agora, na TV, o sofrimento da modelo Luciana é fictício, mas os "personagens reais", com suas falas na primeira pessoa, conferem à ficção o mesmo lastro de realidade. Aconteça o que acontecer, nós temos de acreditar que o novo ano será mais feliz que o ano velho. É disso que Luciana e todos aqueles depoimentos de final de capítulo nos tentam convencer.

O diálogo entre ficção e realidade vem-se aperfeiçoando velozmente na indústria do entretenimento, com resultados cada vez mais potentes. O mesmo recurso - inserir falas de gente como a gente no fecho de cada episódio - já foi testado pelo próprio Manoel Carlos numa novela anterior, Páginas da Vida, de 2006. Agora, porém, o procedimento mostra-se mais certeiro. A sintonia entre as falas das personagens fictícias e o discurso das pessoas reais é tão bem calibrada que parece que a realidade começou a falar a língua da ficção. A tal ponto que cabe perguntar: é a realidade que inspira a ficção ou a ficção que ordena a realidade?

À primeira vista, fica no telespectador a impressão de que a novela apenas toma por base as tragédias anônimas para transformá-las numa peça ficcional de grande força. No entanto, à medida que se vão sucedendo os depoimentos, noite após noite, outra percepção ganha corpo: a de que os relatos das diversas pessoas reais parecem reeditar um texto mais ou menos igual. Aquelas pessoas nunca conversaram entre si, mas, é estranho, elas falam o mesmo texto: a minha vida transcorria normalmente, veio uma fatalidade, eu não me entreguei, lutei, e hoje sou mais feliz do que antes.


De onde vem esse texto único? Já sabemos que todos os melodramas se parecem: moça pobre, príncipe encantado, vilões, o bem contra o mal, o paraíso do amor eterno, etc. Sabemos também que a saga do herói dá a estrutura narrativa, com poucas adaptações, das novelas de TV e dos filmes de Hollywood. Mas agora estamos vendo algo de sutilmente novo: gente de carne e osso que, ao falar de sua trajetória individual, reproduz a narrativa do melodrama. Isso não invalida a verdade que esses relatos nos transmitem, nem reduz o seu valor, ou sua autenticidade, mas deveria fazer-nos pensar.

Será que, sem as categorias narrativas do entretenimento, nós teríamos os recursos linguísticos para descrever as nossas próprias subjetividades? Será que, sem buscar as imagens da ficção, seríamos capazes de dizer quem somos, ou como nos vemos? É bem provável que não. E antes que alguém se apresse a dizer que desde sempre o humano se apoia nos mitos para se compreender e para se comunicar, é preciso lembrar que, na nossa era, os mitos não vêm mais da religião ou da literatura, nem mesmo da arte propriamente dita, mas da indústria que promove a diversão. A novela, assim como retrata o nosso tempo, sintetiza a linguagem pela qual aprendemos a dizer quem somos. Não estamos mais na era da chamada indústria cultural: estamos na era em que cada sujeito anônimo, ao falar de si, fala as narrativas da indústria cultural, que, por sua vez, vai se abastecer exatamente dessas muitas falas. E a isso muitos vêm chamando, inadvertidamente, profusão de individualidades. Ora, como falar em profusão de individualidades se as individualidades se copiam umas às outras em escala industrial?

Fora tudo isso, que o novo ano seja melhor que o ano velho. E que sejamos felizes, mesmo sabendo que, na vida real, ser feliz nada mais é que a ilusão de nos darmos bem no melodrama que, precariamente, inventamos para nós mesmos.

*Eugênio Bucci, jornalista, é professor da ECA-USP
FONTE: Estadão online, 31/12/2009

Mulheres serão maioria no trabalho


Revista 'Economist' aponta que ainda é difícil conciliar carreira e filhos

As mulheres serão mais da metade da força de trabalho dos Estados Unidos nos próximos meses, segundo a edição desta semana da revista britânica Economist. Em outubro, eram 49,9% do total. "O fortalecimento econômico das mulheres no mundo rico é uma das mais extraordinárias revoluções dos últimos 50 anos", afirma a revista, que tem sua capa dedicada ao tema.
Elas já são a maioria entre as pessoas que saem das universidades nos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e ultrapassam os homens nos postos de trabalho intelectual em diversos países ricos, incluindo os EUA.
Apesar disso, a revolução ainda está incompleta. "Somente 2% dos dirigentes das maiores empresas americanas e 5% dos seus pares na Inglaterra são mulheres", aponta a revista. "Elas ainda recebem, na média, significantemente menos do que os homens." Segundo o semanário britânico, esse problema está estreitamente relacionado a um outro: muitas mulheres ainda são obrigadas a escolher entre a carreira e os filhos. Nos EUA, mulheres sem filhos ganham o mesmo que os homens, mas mães ganham bem menos.

A capa da revista é a imagem de uma campanha do governo dos EUA durante a Segunda Guerra, para incentivar as mulheres a trabalharem nas fábricas, enquanto os homens estavam nos campos de batalha estrangeiros. A trabalhadora com mangas arregaçadas vinha acompanhada do slogan "somos capazes" (we can do it). A Economist trocou a frase por "conseguimos" (we did it).
Na revolução feminina, "o aspirador de pó cumpriu o seu papel", segundo a revista. "Mas a inovação mais importante foi a pílula anticoncepcional." A pílula permitiu que as mulheres se casassem mais tarde, e que investissem mais tempo em educação. "Saber que não teriam que, por exemplo, deixar a faculdade de direito para ter um bebê tornou a faculdade de direito mais atrativa", diz a Economist.
A revista é contrária a grandes intervenções do Estado, mas aponta que o governo pode acelerar essa revolução, com políticas mais simples e baratas, como a dos países escandinavos. Todos eles têm muitas creches financiadas pelo Estado. A ideia seria facilitar a vida das mães que trabalham, atualizando as políticas públicas. "As escolas alemãs, por exemplo, fecham ao meio dia", diz a reportagem. "As escolas americanas fecham por dois meses no verão. Essas coisas podem ser mudadas sem alto custo."
Segundo a revista, muitas crianças pagaram o preço de crescer em uma casa com duas fontes de renda, e lidar com as consequências da revolução feminina será um "desafio para os próximos 50 anos".

"Mulher não é escrava" diz papa


De acordo com Bento XVI, o papel feminino é de ser
uma companheira para o homem

Deus quis que a mulher fosse a companheira do homem e não sua escrava ou dominadora, declarou ontem o papa Bento XVI durante sua última audiência-geral do ano.

"Deus criou a mulher a partir da costela de Adão e não, por exemplo, a partir de sua cabeça, para que ela não seja nem dominadora, nem escrava, e sim sua companheira", afirmou o papa, citando o teólogo medieval Pierre Lombard.

Os temas da família são recorrentes nos discursos de Bento XVI. No domingo passado, o papa elogiou a "família fundada no matrimônio entre um homem e uma mulher", que deve ser mantido e protegido, de acordo com Bento XVI, "porque é de fundamental importância para o presente e o futuro da humanidade". O papa recomendou ainda aos fiéis que aprofundem a "fé harmoniosa e vida sacramental, porque os sacramentos constituem uma força que sai do corpo de Cristo". Dessa forma, disse o papa, a "verdade da fé aparecerá como uma sinfonia".

PERDÃO

O papa Bento XVI poderá conceder clemência à ítalo-suíça Susanna Maiolo, de 25 anos, que o derrubou na quinta-feira passada no início da Missa do Galo, de acordo com Giuseppe Dalla Torre, presidente do Tribunal da Santa Sé.

Foi a segunda vez que ela tentou atacar o pontífice durante a tradicional missa de Natal. No ano passado, a agressora, que tem cidadania italiana e suíça, foi detida pela segurança. Após o incidente, Bento XVI, de 82 anos, levantou-se e celebrou a missa normalmente, sem mencionar o ocorrido. Foi a primeira vez que um potencial agressor entrou em contato direto com o papa durante seus quase cinco anos de pontificado. Três dias depois do ataque, ele fez uma aparição pública e ficou rodeado por milhares de fiéis.
FONTE: Estadão online, 31/12/2009

Desejos (rabugentos) de fim de ano

PASQUALE CIPRO NETO*


Se muita gente não consegue absorver o significado de signos corriqueiros,
que mundo da informação é esse?

JÁ DEVO TER dito neste espaço (mais de uma vez) que, não fosse pelo aniversário de minha mãe, o 31 de dezembro seria apenas mais um dia, como qualquer outro. Não acredito -nem um pouco, um pouquinho que seja- nessa coisa de virada de ano, show da virada, arroz com lentilhas, roupa branca etc.

Bem, se alguém me dissesse que a virada de ano poderia trazer a concretização de alguns pedidos, eu até me atreveria a fazer os meus. Rabugento que sou, ousaria pedir aos céus que o novo ano trouxesse, por exemplo, o fim das perguntas inúteis e da distorção do que se diz. Quer um belo exemplo de pergunta inútil? Você está dentro do elevador, que para antes de chegar ao destino que você lhe determinou.

A(s) porta(s) se abre(m), e a criatura que está do lado de fora faz uma das seguintes perguntas (irritantes e inúteis): "Tá subindo?"; "Tá descendo?" Detalhe: do lado de fora, há setas luminosas indicativas do sentido do elevador. Bastaria ver o que indica a seta acesa para evitar a pergunta.


É bom dizer que essa seta é um signo (não verbal, no caso), ou seja, um elemento que carrega um significado, assim como a imagem de um cigarro aceso cortado por uma linha oblíqua (que significa "Proibido fumar") ou a cor do semáforo (signo cujo significado muitos motoristas brasileiros não entendem...).

Bem, voltando ao caso do elevador, o pior é que, muitas vezes, antes de fazer a tola pergunta ("Tá subindo?"), o cidadão dá outra demonstração de dificuldade para lidar com esses signos. Traduzo: em muitos painéis externos, ao lado da(s) porta(s) dos elevadores, há dois botões: um para "chamar" para subir; outro, para descer. A maioria aperta os dois, independentemente do sentido desejado. O resultado, é claro, é perda de tempo, de dinheiro, de energia elétrica, desgaste das peças do elevador etc. Resumindo: não saber ler (sim, ler; ler a mensagem desses signos não verbais) faz mal ao bolso, à saúde, ao ambiente etc.

Temos aí apenas um dos exemplos das dificuldades que muitas pessoas têm para captar a mensagem de signos não verbais. Quer mais um? Vamos para o mais do que subdesenvolvido trânsito brasileiro e seus incríveis motoristas, incapazes de decifrar o significado de uma rotatória. Em todos os países que conheço (e não são poucos), os motoristas sabem que tem preferência quem já está na rotatória (e dão essa preferência). Por aqui... Haja analfabetismo e subdesenvolvimento!

No Brasil, a rotatória é apenas mais um dos tantos signos desconhecidos, incompreendidos, inexplicados. Aí, as pessoas não cumprem a regra e alegam desconhecimento. Mas como é que obtiveram a CNH? Não leram o código de trânsito? Não aprenderam o significado dos signos (sinais) de trânsito?


Quer outra pergunta inútil? Fui fazer exame de sangue, e a atendente me fez a irritante pergunta: "Está em jejum?". A pergunta dela me faz supor que ou há mentecaptos que, sem estarem em jejum, vão a um laboratório para fazer certos exames de sangue que requerem jejum ou há médicos incompetentes que não informam aos pacientes que determinados exames requerem jejum. É por essas e outras que dou de ombros quando ouço ou leio coisas relativas ao mundo de hoje, em que a informação é isto ou aquilo. Se muita gente não consegue nem traduzir um signo corriqueiro ou não consegue absorver informações básicas, que mundo da informação é esse? Feliz ano novo, caro leitor. É isso.



inculta@uol.com.br

Um provérbio romano

Paulo Nogueira Batista Jr.*

"Nomen est omen"
("O nome é um presságio'),
 diziam os romanos

LEITOR, LEITORA , esta época do ano é verdadeiramente tenebrosa para os colunistas de jornal. Não há assunto que se apresente. É um deserto de temas e ideias. O jeito é apelar. Abundam balanços de fim de ano e perspectivas para o ano novo. Cada um aproveita para reciclar, sem muita convicção, as suas teses e bordões favoritos.

Se eu fizesse um artigo desse tipo, poderia falar do câmbio valorizado em 2009 e dos riscos do desequilíbrio externo em 2010. Ou, ainda, dos juros elevados. Ou, melhor ainda, poderia dar mais um teco na turma da bufunfa. Os bufunfeiros -mais os internacionais do que os locais- bem que andam merecendo algumas descomposturas adicionais.

Mas, não. Vou tentar inovar um pouco. Acontece que tenho um tema guardado há muito tempo na algibeira. É o seguinte. Há mais de dez anos, visitei o ateliê de um artista plástico mineiro, em Belo Horizonte. Já não me recordo o seu nome, sei apenas que era amigo do meu primo Roberto Senna (grande figura, aliás), que foi quem lá me levou. Um dos seus quadros trazia uma inscrição em latim: Nomen est omen. "O nome é um presságio", traduziu o artista.

Aquilo ficou. O tempo foi passando e fui percebendo, aos poucos, o quanto o provérbio romano podia ser verdadeiro. Por exemplo, em 2001, El Salvador adotou o dólar como moeda, tornando-se "ipso facto" colônia monetária dos Estados Unidos. Nome do ministro da Economia salvadorenho: Miguel Lacayo. Em 2003, Walfrido dos Mares Guia foi nomeado ministro do Turismo pelo presidente Lula -convenhamos, é um nome arejado, paisagístico, perfeitamente adaptado ao cargo. Outro exemplo: o diplomata Antônio Patriota era até recentemente embaixador brasileiro em Washington -em nenhum outro posto o patriotismo é tão indispensável. Um diplomata de nome Patriota estava como que fadado a servir na capital dos Estados Unidos.

Tivemos também o tesoureiro nacional do Partido Liberal na época do "mensalão": Jacinto Lamas -esse parece saído diretamente da coluna do Macaco Simão. E ainda: David Dollar é o atual attaché do Tesouro dos Estados Unidos em Pequim -uma provocação mandar o sr. Dollar logo para a China, país tão preocupado com a solidez das suas imensas reservas aplicadas na moeda americana. Outro caso notável é Bernard Madoff, responsável por uma das maiores, senão a maior fraude financeira da história de Wall Street. "Madoff Madness" virou um chavão na cobertura jornalística americana da crise financeira de 2008-2009. E as iniciais do meu próprio nome? PNB -Produto Nacional Bruto, sigla que predestina à macroeconomia.

Tudo isso, reconheço, pode parecer inteiramente arbitrário, gratuito etc. Mas nem tanto. Consta que os grandes escritores escolhem com cuidado o nome dos seus personagens. O historiador Golo Mann relata que seu pai, Thomas Mann, acreditava na existência de uma ligação íntima entre pessoa e nome. E, no entanto, o seu próprio nome pode ser visto como um contraexemplo irônico ao provérbio romano. Mann (homem, em alemão) tinha tendências homoeróticas, que transparecem claramente em sua obra, em "Morte em Veneza" e "Tonio Kröger", por exemplo.

Leitor, leitora, todos os exemplos mencionados são rigorosamente verdadeiros, até mesmo o Jacinto Lamas. Não inventei nada. Deu certo o artigo? Acho que não. Paciência.
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*PAULO NOGUEIRA BATISTA JR. , 54, escreve às quintas-feiras nesta coluna. É diretor-executivo no FMI, onde representa um grupo de nove países (Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago), mas expressa seus pontos de vista em caráter pessoal.
FONTE: Folha online, 31/12/2009

Feliz ano novo

FREI BETTO*

O ano será novo se, em nós e à nossa volta,
superarmos o velho,
aquilo que já não contribui para
tornar a felicidade
direito de todos

 POR QUE DESEJAR feliz ano novo se há tanta infelicidade à nossa volta? Será feliz o próximo ano para afegãos, iraquianos e para os soldados americanos sob ordens de um presidente que qualifica de "justas" guerras de ocupações genocidas? Serão felizes as crianças africanas reduzidas a esqueletos de olhos perplexos pela tortura da fome? Seremos todos felizes, conscientes dos fracassos de Copenhague, que salvam a lucratividade e comprometem a sustentabilidade?

O que é felicidade? Aristóteles assinalou: é o bem maior a que todos almejamos. E alertou meu confrade Tomás de Aquino: mesmo ao praticarmos o mal. De Hitler a madre Teresa de Calcutá, todos buscam, em tudo o que fazem, a própria felicidade.

A diferença reside na equação egoísmo/altruísmo. Hitler pensava em suas hediondas ambições de poder. Madre Teresa, na felicidade daqueles que Frantz Fanon denominou "condenados da Terra".

A felicidade, o bem mais ambicionado, não figura nas ofertas do mercado. Não se pode comprá-la, há que conquistá-la. A publicidade empenha-se em nos convencer de que ela resulta da soma dos prazeres. Para Roland Barthes, o prazer é "a grande aventura do desejo".

Estimulado pela propaganda, nosso desejo exila-se nos objetos de consumo. Vestir esta grife, possuir aquele carro, morar neste condomínio de luxo, reza a publicidade, nos fará felizes.


Desejar feliz ano novo é esperar que o outro seja feliz. E desejar que também faça os outros felizes? O pecuarista que não banca assistência médico-hospitalar para seus peões e gasta fortunas com veterinários para o seu rebanho espera que o próximo tenha também um feliz ano novo?

Na contramão do consumismo, Jung dava razão a são João da Cruz: o desejo busca, sim, a felicidade, "a vida em plenitude" manifestada por Jesus, mas ela não se encontra nos bens finitos ofertados pelo mercado. Como enfatizava o professor Milton Santos, acha-se nos bens infinitos.

A arte da verdadeira felicidade consiste em canalizar o desejo para dentro de si e, a partir da subjetividade impregnada de valores, imprimir sentido à existência. Assim, consegue-se ser feliz mesmo quando há sofrimento. Trata-se de uma aventura espiritual. Ser capaz de garimpar as várias camadas que encobrem o nosso ego.

Porém, ao mergulharmos nas obscuras sendas da vida interior, guiados pela fé e/ou pela meditação, tropeçamos nas próprias emoções, em especial naquelas que traem a nossa razão: somos ofensivos com quem amamos; rudes com quem nos trata com delicadeza; egoístas com quem nos é generoso; prepotentes com quem nos acolhe em solícita gratuidade.

Se logramos mergulhar mais fundo, além da razão egótica e dos sentimentos possessivos, então nos aproximamos da fonte da felicidade, escondida atrás do ego. Ao percorrer as veredas abissais que nos conduzem a ela, os momentos de alegria se consubstanciam em estado de espírito. Como no amor.

Feliz ano novo é, portanto, um voto de emulação espiritual. É claro que muitas outras conquistas podem nos dar prazer e a alegre sensação de vitória. Mas não são o suficiente para nos fazer felizes. Melhor seria um mundo sem miséria, sem desigualdade, sem degradação ambiental, sem políticos corruptos!

Essa infeliz realidade que nos circunda, e da qual somos responsáveis, por opção ou por omissão, se constitui num gritante apelo para nos engajarmos na busca de "um outro mundo possível". Contudo, ainda não será o feliz ano novo.


O ano será novo se, em nós e à nossa volta, superarmos o velho. E velho é tudo aquilo que já não contribui para tornar a felicidade um direito de todos. À luz de um novo marco civilizatório, há que se superar o modelo produtivista-consumista e introduzir, no lugar do PIB, a FIB (Felicidade Interna Bruta), fundada numa economia solidária.

Se o novo se faz advento em nossa vida espiritual, então, com certeza, teremos, sem milagres ou mágicas, um feliz ano novo, ainda que o mundo prossiga conflitivo; a crueldade, travestida de doces princípios; o ódio, disfarçado de discurso amoroso.

A diferença é que estaremos conscientes de que, para ter um feliz ano novo, é preciso abraçar um processo ressurrecional: engravidar-se de si mesmo, virar-se pelo avesso e deixar o pessimismo para dias melhores.
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*CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO, o Frei Betto, 65, frade dominicano, é assessor de movimentos sociais e escritor, autor de "Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros. Foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004).
FONTE: Folha online, 31/12/2009

Iinvasões dos EUA no mundo...

Alberto da Silva Jones*


Entre as várias INVASÕES que as forças armadas dos Estados Unidos fizeram nos séculos XIX, XX e XXI, podemos citar:

1846 - 1848 - MÉXICO - Por causa da anexação, pelos EUA, da República do Texas

1890 - ARGENTINA - Tropas americanas desembarcam em Buenos Aires para defender interesses econômicos americanos.

1891 - CHILE - Fuzileiros Navais esmagam forças rebeldes nacionalistas.

1891 - HAITI - Tropas americanas debelam a revolta de operários negros na ilha de Navassa, reclamada pelos EUA.

1893 - HAWAI - Marinha enviada para suprimir o reinado independente anexar o Havaí aos EUA.

1894 - NICARÁGUA - Tropas ocupam Bluefields, cidade do mar do Caribe, durante um mês.

1894 - 1895 - CHINA - Marinha, Exército e Fuzileiros desembarcam no país durante a guerra sino-japonesa.

1894 - 1896 - COREIA - Tropas permanecem em Seul durante a guerra.

1895 - PANAMÁ - Tropas desembarcam no porto de Corinto, província Colombiana.


1898 - 1900 - CHINA - Tropas dos Estados Unidos ocupam a China durante a Rebelião Boxer.

1898 - 1910 - FILIPINAS - As Filipinas lutam pela independência do país, dominado pelos EUA (Massacres realizados por tropas americanas em Balangica, Samar, Filipinas - 27/09/1901 e Bud Bagsak, Sulu, Filipinas 11/15/1913) - 600.000 filipinos mortos.

1898 - 1902 - CUBA - Tropas sitiaram Cuba durante a guerra hispano-americana.

1898 - Presente - PORTO RICO - Tropas sitiaram Porto Rico na guerra hispano-americana, hoje 'Estado Livre Associado' dos Estados Unidos.

1898 - ILHA DE GUAM - Marinha americana desembarca na ilha e a mantêm como base naval até hoje.

1898 - ESPANHA - Guerra Hispano-Americana - Desencadeada pela misteriosa explosão do encouraçado Maine, em 15 de fevereiro, na Baía de Havana. Esta guerra marca o surgimento dos EUA como potência capitalista e militar mundial.

1898 - NICARÁGUA - Fuzileiros Navais invadem o porto de San Juan del Sur.

1899 - ILHA DE SAMOA - Tropas desembarcam e invadem a Ilha em conseqüência de conflito pela sucessão do trono de Samoa.

1899 - NICARÁGUA - Tropas desembarcam no porto de Bluefields e invadem a Nicarágua (2ª vez).

1901 - 1914 - PANAMÁ - Marinha apóia a revolução quando o Panamá reclamou independência da Colômbia; tropas americanas ocupam o canal em 1901, quando teve início sua construção.

1903 - HONDURAS - Fuzileiros Navais americanos desembarcam em Honduras e intervêm na revolução do povo hondurenho.

1903 - 1904 - REPÚBLICA DOMINICANA - Tropas norte americanas atacaram e invadiram o território dominicano para proteger interesses do capital americano durante a revolução.

1904 - 1905 - COREIA - Fuzileiros Navais dos Estados Unidos desembarcaram no território coreano durante a guerra russo-japonesa.

1906 - 1909 - CUBA -Tropas dos Estados Unidos invadem Cuba e lutam contra o povo cubano durante período de eleições.

1907 - NICARÁGUA - Tropas americanas invadem e impõem a criação de um protetorado, sobre o território livre da Nicarágua.

1907 - HONDURAS - Fuzileiros Navais americanos desembarcam e ocupam Honduras durante a guerra de Honduras com a Nicarágua.

1908 - PANAMÁ - Fuzileiros Navais dos Estados Unidos invadem o Panamá durante período de eleições.

1910 - NICARÁGUA - Fuzileiros navais norte americanos desembarcam e invadem pela 3ª vez Bluefields e Corinto, na Nicarágua.

1911 - HONDURAS - Tropas americanas enviadas para proteger interesses americanos durante a guerra civil invadem Honduras.

1911 - 1941 - CHINA - Forças do exército e marinha dos Estados Unidos invadem mais uma vez a China durante período de lutas internas repetidas.


1912 - CUBA - Tropas americanas invadem Cuba com a desculpa de proteger interesses americanos em Havana.

1912 - PANAMÁ - Fuzileiros navais americanos invadem novamente o Panamá e ocupam o país durante eleições presidenciais.

1912 - HONDURAS - Tropas norte-americanas mais uma vez invadem Honduras para proteger interesses do capital americano.

1912 - 1933 - NICARÁGUA - Tropas dos Estados Unidos com a desculpa de combaterem guerrilheiros invadem e ocupam o país durante 20 anos.

1913 - MÉXICO - Fuzileiros da Marinha americana invadem o México com a desculpa de evacuar cidadãos americanos durante a revolução.

1913 - MÉXICO - Durante a Revolução mexicana, os Estados Unidos bloqueiam as fronteiras mexicanas em apoio aos revolucionários.

1914 - 1918 - PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL - Os EUA entram no conflito em 6 de abril de 1917 declarando guerra à Alemanha. As perdas americanas chegaram a 114 mil homens.

1914 - REPÚBLICA DOMINICANA - Fuzileiros navais da Marinha dos Estados invadem o solo dominicano e interferem na revolução do povo dominicano em Santo Domingo.

1914 - 1918 - MÉXICO - Marinha e exército dos Estados Unidos invadem o território mexicano e interferem na luta contra nacionalistas.


1915 - 1934 - HAITI- Tropas americanas desembarcam no Haiti, em 28 de julho, e transformam o país numa colônia americana, permanecendo lá durante 19 anos.

1916 - 1924 - REPÚBLICA DOMINICANA - Os EUA invadem e estabelecem um governo militar na República Dominicana, em 29 de novembro, ocupando o país durante oito anos.

1917 - 1933 - CUBA - Tropas americanas desembarcam em Cuba, e transformam o país num protetorado econômico americano, permanecendo essa ocupação por 16 anos.

1918 - 1922 - RÚSSIA - Marinha e tropas americanas enviadas para combater a revolução Bolchevista. O Exército realizou cinco desembarques, sendo derrotado pelos russos em todos eles.

1919 - HONDURAS - Fuzileiros norte americanos desembarcam e invadem mais uma vez o país durante eleições, colocando no poder um governo a seu serviço.

1918 - IUGOSLÁVIA - Tropas dos Estados Unidos invadem a Iugoslávia e intervêm ao lado da Itália contra os sérvios na Dalmácia.

1920 - GUATEMALA - Tropas americanas invadem e ocupam o país durante greve operária do povo da Guatemala.

1922 - TURQUIA - Tropas norte americanas invadem e combatem nacionalistas turcos em Smirna.

1922 - 1927 - CHINA - Marinha e Exército americano mais uma vez invadem a China durante revolta nacionalista.

1924 - 1925 - HONDURAS - Tropas dos Estados Unidos desembarcam e invadem Honduras duas vezes durante eleição nacional.

1925 - PANAMÁ - Tropas americanas invadem o Panamá para debelar greve geral dos trabalhadores panamenhos.

1927 - 1934 - CHINA - Mil fuzileiros americanos desembarcam na China durante a guerra civil local e permanecem durante sete anos, ocupando o território chinês.

1932 - EL SALVADOR - Navios de Guerra dos Estados Unidos são deslocados durante a revolução das Forças do Movimento de Libertação Nacional - FMLN - comandadas por Marti.

1939 - 1945 - SEGUNDA GUERRA MUNDIAL - Os EUA declaram guerra ao Japão em 8 de dezembro de 1941 e depois a Alemanha e Itália, invadindo o Norte da África, a Ásia e a Europa, culminando com o lançamento das bombas atômicas sobre as cidades desmilitarizadas de Iroshima e Nagasaki.

1946 - IRÃ - Marinha americana ameaça usar artefatos nucleares contra tropas soviéticas caso as mesmas não abandonem a fronteira norte do Irã.

1946 - IUGOSLÁVIA - Presença da marinha americana ameaçando invadir a zona costeira da Iugoslávia em resposta a um avião espião dos Estados Unidos abatido pelos soviéticos.

1947 - 1949 - GRÉCIA - Operação de invasão de Comandos dos EUA garante vitória da extrema direita nas "eleições" do povo grego.

1947 - VENEZUELA - Em um acordo feito com militares locais, os EUA invadem e derrubam o presidente eleito Rómulo Gallegos, como castigo por ter aumentado o preço do petróleo exportado, colocando um ditador no poder.

1948 - 1949 - CHINA - Fuzileiros americanos invadem pela ultima vez o território chinês para evacuar cidadãos americanos antes da vitória comunista.

1950 - PORTO RICO - Comandos militares dos Estados Unidos ajudam a esmagar a revolução pela independência de Porto Rico, em Ponce.

1951 - 1953 - CORÉIA - Início do conflito entre a República Democrática da Coréia (Norte) e República da Coréia (Sul), na qual cerca de 3 milhões de pessoas morreram. Os Estados Unidos são um dos principais protagonistas da invasão usando como pano de fundo a recém criada Nações Unidas, ao lado dos sul-coreanos. A guerra termina em julho de 1953 sem vencedores e com dois estados polarizados: comunistas ao norte e um governo pró-americano no sul. Os EUA perderam 33 mil homens e mantém até hoje base militar e aeronaval na Coréia do Sul.

1954 - GUATEMALA - Comandos americanos, sob controle da CIA, derrubam o presidente Arbenz, democraticamente eleito, e impõem uma ditadura militar no país. Jacobo Arbenz havia nacionalizado a empresa United Fruit e impulsionado a Reforma Agrária.


1956 - EGITO - O presidente Nasser nacionaliza o canal de Suez. Tropas americanas se envolvem durante os combates no Canal de Suez sustentados pela Sexta Frota dos EUA. As forças egípcias obrigam a coalizão franco-israelense-britânica, a retirar-se do canal.

1958 - LÍBANO - Forças da Marinha americana invadem apoiam o exército de ocupação do Líbano durante sua guerra civil.

1958 - PANAMÁ - Tropas dos Estados Unidos invadem e combatem manifestantes nacionalistas panamenhos.

1961 - 1975 - VIETNÃ. Aliados aos sul-vietnamitas, o governo americano invade o Vietnã e tenta impedir, sem sucesso, a formação de um estado comunista, unindo o sul e o norte do país. Inicialmente a participação americana se restringe a ajuda econômica e militar (conselheiros e material bélico). Em agosto de 1964, o congresso americano autoriza o presidente a lançar os EUA em guerra. Os Estados Unidos deixam de ser simples consultores do exército do Vietnã do Sul e entram num conflito traumático, que afetaria toda a política militar dali para frente. A morte de quase 60 mil jovens americanos e a humilhação imposta pela derrota do Sul em 1975, dois anos depois da retirada dos Estados Unidos, moldou a estratégia futura de evitar guerras que impusessem um custo muito alto de vidas americanas e nas quais houvesse inimigos difíceis de derrotar de forma convencional, como os vietcongues e suas táticas de guerrilhas.

1962 - LAOS - Militares americanos invadem e ocupam o Laos durante guerra civil contra guerrilhas do Pathet Lao.

1964 - PANAMÁ - Militares americanos invadiram mais uma vez o Panamá e mataram 20 estudantes, ao reprimirem a manifestação em que os jovens queriam trocar, na zona do canal, a bandeira americana pela bandeira e seu país.


1965 - 1966 - REPÚBLICA DOMINICANA - Trinta mil fuzileiros e paraquedistas norteamericanos desembarcaram na capital do país São Domingo para impedir a nacionalistas panamenhos de chegarem ao poder. A CIA conduz Joaquín Balaguer à presidência, consumando um golpe de estado que depôs o presidente eleito Juan Bosch. O país já fora ocupado pelos americanos de 1916 a 1924.

1966 - 1967 - GUATEMALA - Boinas Verdes e marines americanos invadem o país para combater movimento revolucionário contrario aos interesses econômicos do capital americano.

1969 - 1975 - CAMBOJA - Militares americanos enviados depois que a Guerra do Vietnã invadem e ocupam o Camboja.

1971 - 1975 - LAOS - EUA dirigem a invasão sul-vietnamita bombardeando o território do vizinho Laos, justificando que o país apoiava o povo vietnamita em sua luta contra a invasão americana.

1975 - CAMBOJA - 28 marines americanos são mortos na tentativa de resgatar a tripulação do petroleiro estadunidense Mayaquez.

1980 - IRÃ - Na inauguração do estado islâmico formado pelo Aiatolá Khomeini, estudantes que haviam participado da Revolução Islâmica do Irã ocuparam a embaixada americana em Teerã e fizeram 60 reféns. O governo americano preparou uma operação militar surpresa para executar o resgate, frustrada por tempestades de areia e falhas em equipamentos. Em meio à frustrada operação, oito militares americanos morreram no choque entre um helicóptero e um avião. Os reféns só seriam libertados um ano depois do seqüestro, o que enfraqueceu o então presidente Jimmy Carter e elegeu Ronald Reagan, que conseguiu aprovar o maior orçamento militar em época de paz até então.*

1982 - 1984 - LÍBANO - Os Estados Unidos invadiram o Líbano e se envolveram nos conflitos do Líbano logo após a invasão do país por Israel - e acabaram envolvidos na guerra civil que dividiu o país. Em 1980, os americanos supervisionaram a retirada da Organização pela Libertação da Palestina de Beirute. Na segunda intervenção, 1.800 soldados integraram uma força conjunta de vários países, que deveriam restaurar a ordem após o massacre de refugiados palestinos por libaneses aliados a Israel. O custo para os americanos foi a morte 241 fuzileiros navais, quando os libaneses explodiram um carro bomba perto de um quartel das forças americanas.

1983 - 1984 - ILHA DE GRANADA - Após um bloqueio econômico de quatro anos a CIA coordena esforços que resultam no assassinato do 1º Ministro Maurice Bishop. Seguindo a política de intervenção externa de Ronald Reagan, os Estados Unidos invadiram a ilha caribenha de Granada alegando prestar proteção a 600 estudantes americanos que estavam no país, as tropas eliminaram a influência de Cuba e da União Soviética sobre a política da ilha.

1983 - 1989 - HONDURAS - Tropas americanas enviadas para construir bases em regiões próximas à fronteira invadem o Honduras


1986 - BOLÍVIA - Exército americano invade o território boliviano na justificativa de auxiliar tropas bolivianas em incursões nas áreas de cocaína.

1989 - ILHAS VIRGENS - Tropas americanas desembarcam e invadem as ilhas durante revolta do povo do país contra o governo pró-americano.

1989 - PANAMÁ - Batizada de Operação Causa Justa, a intervenção americana no Panamá foi provavelmente a maior batida policial de todos os tempos: 27 mil soldados ocuparam a ilha para prender o presidente panamenho, Manuel Noriega, antigo ditador aliado do governo americano. Os Estados Unidos justificaram a operação como sendo fundamental para proteger o Canal do Panamá, defender 35 mil americanos que viviam no país, promover a democracia e interromper o tráfico de drogas, que teria em Noriega seu líder na América Central. O ex-presidente cumpre prisão perpétua nos Estados Unidos.

1990 - LIBÉRIA - Tropas americanas invadem a Libéria justificando a evacuação de estrangeiros durante guerra civil.

1990 - 1991 - IRAQUE - Após a invasão do Iraque ao Kuwait, em 2 de agosto de 1990, os Estados Unidos com o apoio de seus aliados da Otan, decidem impor um embargo econômico ao país, seguido de uma coalizão anti-Iraque (reunindo além dos países europeus membros da Otan, o Egito e outros países árabes) que ganhou o título de "Operação Tempestade no Deserto". As hostilidades começaram em 16 de janeiro de 1991, um dia depois do fim do prazo dado ao Iraque para retirar tropas do Kuwait. Para expulsar as forças iraquianas do Kuwait, o então presidente George Bush destacou mais de 500 mil soldados americanos para a Guerra do Golfo.

1990 - 1991 - ARÁBIA** SAUDITA - Tropas americanas destacadas para ocupar a Arábia Saudita que era base militar na guerra contra Iraque.

1992 - 1994 - SOMÁLIA - Tropas americanas, num total de 25 mil soldados, invadem a Somália como parte de uma missão da ONU para distribuir mantimentos para a população esfomeada. Em dezembro, forças militares norte-americanas (comando Delta e Rangers) chegam a Somália para intervir numa guerra entre as facções do então presidente Ali Mahdi Muhammad e tropas do general rebelde Farah Aidib. Sofrem uma fragorosa derrota militar nas ruas da capital do país.


1993 - IRAQUE -No início do governo Clinton, é lançado um ataque contra instalações militares iraquianas, em retaliação a um suposto atentado, não concretizado, contra o ex-presidente Bush, em visita ao Kuwait.

1994 - 1999 - HAITI - Enviadas pelo presidente Bill Clinton, tropas americanas ocuparam o Haiti na justificativa de devolver o poder ao presidente eleito Jean-Betrand Aristide, derrubado por um golpe, mas o que a operação visava era evitar que o conflito interno provocasse uma onda de refugiados haitianos nos Estados Unidos.

1996 - 1997 - ZAIRE (EX-REPÚBLICA DO CONGO) - Fuzileiros Navais americanos são enviados para invadir a área dos campos de refugiados Hutus onde a revolução congolesa iniciou? Marines evacuam civis?

1997 - LIBÉRIA - Tropas dos Estados Unidos invadem a Libéria justificando a necessidade de evacuar estrangeiros durante guerra civil sob fogo dos rebeldes.

1997 - ALBÂNIA - Tropas americanas invadem a Albânia para evacuarem estrangeiros.

2000 - COLÔMBIA - Marines e "assessores especiais" dos EUA iniciam o Plano Colômbia, que inclui o bombardeamento da floresta com um fungo transgênico fusarium axyporum (o "gás verde").

2001 - AFEGANISTÃO - Os EUA bombardeiam várias cidades afegãs, em resposta ao ataque terrorista ao World Trade Center em 11 de setembro de 2001. Invadem depois o Afeganistão onde estão até hoje.

2003 - IRAQUE - Sob a alegação de Saddam Hussein esconder armas de destruição e financiar terroristas, os EUA iniciam intensos ataques ao Iraque. É batizada pelos EUA de "Operação Liberdade do Iraque" e por Saddam de "A Última Batalha", a guerra começa com o apoio apenas da Grã-Bretanha, sem o endosso da ONU e sob protestos de manifestantes e de governos no mundo inteiro. As forças invasoras americanas até hoje estão no território iraquiano, onde a violência aumentou mais do que nunca.

Na América Latina, África e Ásia, os Estados Unidos invadiam países ou para depor governos democraticamente eleitos pelo povo, ou para dar apoio a ditaduras criadas e montadas pelos Estados Unidos, tudo em nome da "democracia" (deles).
*(professor da UFSC

FONTE; Recebido por e-mail, 31/12/2009

O ano de 2010 será 10?

Adilson Luiz Gonçalves*


O ano de 2010 será 10? Bem, isso depende de nossas predisposições e de como nós nos empenharemos em construí-lo. E isso deve ser pensado individualmente, porque somos singulares neste mundo; e coletivamente, pois não estamos sós nele e todo ato tem consequências difusas.

Persistir é importante, mas também é preciso saber o limite das obstinações, para que delas não advenha maior frustração. Mesmo o desencanto, no entanto, é melhor do que a monotonia pacata de uma vida sem aspirações. Quem vive sem elas ou apenas em função dos sonhos de outros pode até sentir a segurança de estar num rebanho. Mas será que sabe realmente para onde vai ou apenas está transferindo a responsabilidade de sua vida para terceiros?

O importante é que nossas esperanças não sejam fugas alienantes, mas projetos de conquista da liberdade das muitas escravidões a que somos submetidos para realizar as intenções nem sempre explícitos de outros!

É verdade que essa vontade às vezes é tanta que nos sentimos impotentes diante do que parece uma tarefa impossível. Alguns procuram força adicional recorrendo a promessas, fetiches.

Pular sete ondas! Mas, e onde não tem mar ou rio?

Comer lentilhas! Mas isso não deu sorte a Esaú, que perdeu sua primogenitura para Jacó por um prato delas.

Cada cultura, com fundamento religioso ou não, tem suas fórmulas para atrair bons fluídos ou pleitear benesses divinas, que quase sempre se resumem na mesma coisa: mentalização que não dispensa ação!

Acreditar é básico, só que nem tudo cai do céu. Daí, agir para realizar é o processo em si, embora nossos desejos possam esbarrar nas pretensões de outrem, e nem sempre o merecimento vence esse embate. Mas lutar contra as adversidades é da natureza do ser humano! Cada calmaria nada mais é do que um intervalo entre as muitas batalhas que precisamos travar em busca da felicidade.

Um ano nota dez, qualquer que seja seu número, também é feito de desafios! Nele, só não há lugar para desesperança! E a esperança vem sob forma de desejos próprios e dos sinceros votos dos outros, ainda mais num ano em os votos de todos voltarão a definir nosso futuro coletivo. Eis os meus:

Que 2010 seja um ano de semear boas sementes, mas também de colher infinitas safras de bons frutos! Que o dinheiro ganho honestamente cresça nas contas bancárias, mas sem subir à cabeça! Que haja menos fanatismo e mais fé! Que o que Deus uniu: a humanidade, o ser humano pare de separar! Que não descuidemos das próximas gerações! Que não haja obstáculos nas escadas que conduzem ao merecido sucesso, mas que seus degraus não sejam feitos de pessoas justas! Que a vida dos bons seja leve e os leve a felicidades cada vez maiores! Que a vida dos maus os leve ao arrependimento e correção! Que a gente possa ir a todos os lugares do mundo, sem que isso nos torne arrogantes! Que apreciar os bons prazeres do mundo seja motivo de satisfação pessoal e não de ostentação esnobe perante o próximo! Que ricos e políticos tenham consciência de que seu poder vem e depende dos humildes, e passem a respeitá-los, em vez de subjugá-los ou iludi-los! Que os amores sinceros sejam infinitos! Que o ódio e as guerras descansem em paz! Que ninguém pregue a ignorância ou a morte! Que o brilho de uns não ofusque o desenvolvimento dos outros! Que haja trabalho digno para todos! Que o Brasil seja hexa!

São tantos votos que sua somatória poderia ser resumida numa única palavra: utopia! Mas o que impede que nossa vida, família, cidade, estado, país e o próprio mundo sejam ideais?

Cabe a cada um de nós, conscientemente, descobrir, desejar e agir, para transformar.

Feliz 2010!

*Adilson Luiz Gonçalves é mestre em Educação, escritor, engenheiro, professor universitário e compositor
FONTE: Correio Popular online, 31/12/2009

Sobre a escola para gays

Tiago Duque*


Nos últimos dias, soubemos da iniciativa do governo Estadual e federal em apoiar o projeto do Grupo E-jovem de criar a primeira escola gay em Campinas, na qual, conforme e-mail divulgado em várias listas de militantes LGBT do País, as atividades terão sempre “foco no jeito de ser e agir das lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros”. Através da matéria jornalística do Correio Popular do último dia 22/12, também soubemos que “o objetivo da instituição (...) é valorizar e difundir a Cultura LGBT”.

É sabido que o Grupo E-jovem vem lutando corajosamente contra o preconceito que envolve adolescência e sexualidade subalterna. Através dessa ONG, vários adolescentes conseguiram ajuda para ser mais fortes diante do preconceito de familiares, professores e amigos. As iniciativas de visibilizar a intersecção dessas temáticas ou de criar espaços de sociabilidades mais acolhedores são fundamentais na luta por uma sociedade justa. Porém, há um perigo que devemos considerar na proposta da tal escola. Ela em si não é o que deveríamos atentar, inclusive, não deixa de ser louvável por ser voltada à questão da diversidade sexual, mas o que deveria ser objeto de crítica é o que ela vai ensinar. A mesma postura deveríamos ter em relação aos outros espaços de formação, oficiais ou não. A questão não é onde e nem quem educa, mas o que se aprende.

Não é possível ensinarmos um “jeito de ser” gay, sem criarmos distinções que levarão a mais preconceito, afinal, sobre qual jeito gay será ensinado? Sobre aquele mais discreto e “cidadão” ou sobre aquele, não menos importante, da confusão e da polêmica? Sobre o jeito hetero de ser gay ou sobre o jeito gay de ser como os heretos? Por exemplo, as pesquisas nas áreas das ciências sociais já afirmam que o desejo homo-erótico vivenciado por muitos gays é homofóbico e sexista, afinal, valoriza homens másculos que em nada podem parecem com o feminino.

A homossexualidade é vivida de múltiplas e inclassificáveis formas, assim como a heterossexualidade, e, apesar das insistências identitárias de ambos os lados que afirma o contrário, são inseparáveis, não existe uma sem a outra e, em cada uma destas categorias, há aquelas mais ou menos valorizadas e respeitadas.

Nestes termos, não é possível falar em uma “cultura gay ou hetero”, mas em expressões de gênero e sexualidade que se fundem ou se borram uma na outra e que nunca se dão em oposição, a não ser nas normas que são cotidianamente reiteradas para nos fazer crer que uma coisa está separada “naturalmente” da outra. Todo ensinamento de um modo de ser é frágil, cria-se falsos modelos do jeito de ser gay ou ser hetero, que no fundo são impossíveis de serem vivenciados em sua totalidade.

Além disso, os modelos são comumente perigosos, porque, se aceitos socialmente, replicarão em outras tantas experiências que serão alocadas como alvo de violências, por serem diversas, distintas e diferentes.

O maior desafio da escola gay é não ser ela mesma homofóbica, por isso, deve fazer com que os seus alunos e professores entendam que não existe apenas uma “cultura gay”, à base de maquiagem ou ao som da Madona, mas que a sociedade é mais complexa do que as divisões binárias e fixas.

Nesse aprendizado de fugirmos das ciladas das divisões identitárias e simplistas em prol do reconhecimento, todos somos alunos.

Que o Grupo E-jovem continue corajoso na luta contra o preconceito e crítico o suficiente para não reproduzir as lógicas identitárias, separatistas e preconceituosas da nossa cultura. Não basta ter hetero nas escolas dos gays, como não é o suficiente ter gays assumidos nas escolas da maioria heterossexual. As estruturas de opressões estão para além da visibilidade de nossas identidades, que muitas vezes nascem calcadas em valores a serem transformados em busca de uma sociedade mais acolhedora.

*Tiago Duque é mestre em Sociologia pela UFSCar e militante do Identidade – Grupo de Luta pela Diversidade Sexual de Campinas
FONTE: Correio Popular online, 31/12/2009

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Infidelidade masculina para ajudar o casamento



Psicóloga francesa defende infidelidade masculina para ajudar o casamento

Livro de Vaillant diz que 39% dos homens franceses já foram infiéis
Uma das mais famosas psicólogas francesas causou polêmica ao defender, em um livro recém-lançado, que a infidelidade masculina é boa para o casamento.
No livro Les hommes, l’amour, la fidélité ("Os homens, o amor, a fidelidade"), Maryse Vaillant diz que a maioria dos homens precisa de “seu próprio espaço” e que para eles “a infidelidade é quase inevitável”.
Segundo a autora, as mulheres podem ter uma experiência “libertadora” ao aceitarem que “os pactos de fidelidade não são naturais, mas culturais” e que a infidelidade é “essencial para o funcionamento psíquico” de muitos homens que não deixam por isso de amar suas mulheres.
Para Vaillant, divorciada há 20 anos, seu livro tem o objetivo de “resgatar a infidelidade”. Segundo ela, 39% dos homens franceses foram infiéis às mulheres em algum momento de suas vidas.

Fraqueza de caráter

“A maioria dos homens não faz isso por não amar mais suas mulheres, Pelo contrário, eles simplesmente precisam de um espaço próprio”, diz a psicóloga.
“Para esses homens, que são na verdade profundamente monógamos, a infidelidade é quase inevitável”, afirma.
Para Vaillant, os homens que não têm casos extraconjugais podem ter “uma fraqueza de caráter”.
“Eles são normalmente homens cujo pai era fisicamente ou moralmente ausente. Esses homens têm uma visão completamente idealizada da figura do pai e da função paternal. Eles não têm flexibilidade e são prisioneiros de uma imagem idealizada das funções do homem”, afirma ela.

FONTE: BBC BRASIL ONLINE, 30/12/2009

Rabinos de Israel dizem que aborto atrasa vinda do messias


Os rabinos-chefes calculam em torno de 50 mil as interrupções anuais da gravidez no Estado de Israel


JERUSALÉM - Os dois grandes rabinos de Israel dirigiram uma carta às comunidades judaicas locais dizendo que os abortos no país "atrasam a chegada do messias", informa a edição digital do jornal Yedioth Ahronoth.

"A imensa maioria dos abortos é desnecessária e está proibida pela Halajá (lei religiosa judia)", assinalam Yona Metzger e Shlomo Amar na carta.

No escrito, o rabinato superior anuncia que estuda renovar a luta contra o aborto com a criação em seu seio de um comitê especial para tratar de impedir o "assassinato de fetos no ventre das mães".

Trata-se de uma "autêntica epidemia que leva a cada ano a vida de dezenas de milhares de judeus" e que "além da gravidade do pecado, atrasa a chegada do messias".

Metzger e Amar baseiam sua relação entre abortos e o atraso do messias na crença de que ele não virá até que cheguem ao mundo todas as almas que deveriam provir de mães judias.

Os rabinos-chefes calculam em torno de 50 mil as interrupções anuais da gravidez em Israel, 20 mil delas "de forma ilegal e contra a lei".


"Malditos aqueles que não se assustem com essas informações" em um país de 7 milhões de habitantes, assinalam os líderes religiosos judeus na carta.
EFE
FONTE: Estadão online, 30/12/2009

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Alegria, saúde e paz

BENJAMIN STEINBRUCH*

O país não iniciava um ano com expectativas socioeconômicas tão boas havia muito tempo;
 mas há gargalos e temores

MAIS ALGUMAS horas e entraremos em 2010. Fica para trás um ano aflitivo, que afinal não foi tão desastroso quanto se esperava. E vem aí um novo momento.

Havia muito tempo o país não iniciava um ano com expectativas socioeconômicas tão positivas. Está "contratado", como dizem os economistas, um crescimento entre 5% e 6% na produção, puxado pelo mercado interno, o que deve garantir aumento do emprego. A inflação segue comportada, apesar da alta do consumo decorrente da ascensão das classes C e D, uma das marcas mais gratas do atual momento brasileiro.

Não deve haver nenhum problema no cumprimento das obrigações externas do país em 2010. Com reservas bilionárias em moeda estrangeira, o Brasil tem prestígio e crédito internacional e atrai investimentos. Esse prestígio abre também espaço para voos externos das grandes empresas num momento em que a economia mundial deverá voltar a crescer -de acordo com o FMI, 3,1% em 2010.

O que há de especial no cenário interno para o ano novo é a perspectiva de vigorosos investimentos em infraestrutura, uma necessidade urgente. Será um ano de eleições gerais, o que normalmente leva os governos a acelerar obras. Além disso, começarão as obras para a Copa de 2014 e para a Olimpíada de 2016. E terão sequência os programas do PAC. O setor imobiliário também estará aquecido e animado com a volta do crédito para a casa própria, que em 2009 deve atingir a marca recorde de R$ 32 bilhões.

Por tudo isso, pode-se esperar um bom nível de oferta de emprego, porque os vários setores da construção, para onde serão carreados os maiores investimentos, são grandes absorvedores de mão de obra. A própria indústria de transformação, embora deva continuar algemada pelo real sobrevalorizado, que dificulta exportações, poderá ampliar a demanda de pessoal para manter seu crescimento previsto de quase 9%.

Em meio a tantos prognósticos positivos, há gargalos e temores. A algema cambial é uma preocupação. O superavit comercial deve cair para algo próximo a US$ 10 bilhões, em comparação com US$ 28 bilhões neste ano. O deficit em conta corrente deve pular para US$ 40 bilhões, mas será compensado pela entrada de investimentos diretos e financeiros.

Há também a algema monetária, explicitada na taxa de juros básica ainda absurdamente alta de 8,75% ao ano. Muito papel, tinta e saliva já foram gastos para combatê-la, até agora com poucos resultados.

Outro temor é que as pressões eleitoreiras possam incentivar gastos correntes (não investimentos) exagerados do governo, com despesas de pessoal, Previdência e custeio da máquina pública. O aumento dos gastos, que em 2009 será de 16%, deve ser destinado cada vez mais a investimentos. Essa é a despesa virtuosa, que gera produção e cria empregos.

Algumas reformas modernizadoras também deveriam entrar no radar de 2010. Elas já se tornaram lugar-comum, mas são essenciais: trabalhista, política e tributária. Será necessário ainda pensar seriamente na educação e na formação de mão de obra qualificada, ações essenciais para que o país possa sustentar no longo prazo taxas de crescimento como a que teremos em 2010.

Quando se coloca tudo isso na balança, felizmente, ela pende para o lado positivo. Que todas as boas previsões para 2010 se realizem e que você, leitor, viva um ano de muita alegria, saúde e paz.

*BENJAMIN STEINBRUCH, 56, empresário, é diretor-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional, presidente do conselho de administração da empresa e primeiro vice-presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).
FONTE: Folha online, 29/12/2009

Tempo e tempestade: uma visão do futuro

Moacyr Scliar*

Dificilmente encontraremos, no pensamento contemporâneo, um autor mais original do que Walter Benjamin. Michael Löwy que, no Brasil e no exterior, publicou vários livros sobre a obra benjaminiana, diz que ele é “inclassificável”: um marxista, sim, mas um marxista que não recusa o misticismo, a alegoria; um marxista messiânico. Vivendo na época do nazifascismo, porém, Benjamin não podia partilhar com esquerdistas a visão de ingênuo otimismo, que quase sempre resultou em severa desilusão. E o pessimismo foi uma causa, ainda que indireta, de sua morte: fugindo da França, ele tentou entrar na Espanha. Ao saber que a fronteira estava fechada, suicidou-se (a fronteira foi aberta em seguida).

Pouco antes de morrer, Walter Benjamin concluiu uma série de textos intitulada Sobre o conceito de história e redigida sob a forma de curtos capítulos, as teses. Destas, a mais famosa é a Tese IX. Nela, Benjamin reporta-se a um famoso quadro de Paul Klee, intitulado Angelus novus. O anjo nele retratado — uma figura patética, olhos arregalados, asas abertas — é visto, na tese, como o “anjo da História”. Do paraíso, diz Benjamin, vem uma tempestade que propele inexoravelmente a estranha criatura para o futuro. Mas é para o passado que o anjo está voltado; e o que ele vê, em sua alucinante trajetória, não é nada animador: trata-se de uma “catástrofe” resultando em “escombros sobre escombros”. O anjo “bem que gostaria de demorar-se, de despertar os mortos, de juntar os destroços”; mas não pode, porque o vento furioso, soprando em suas asas, não o permite. Conclui Benjamin: “O que chamamos de progresso é esta tempestade”.

É curioso que Benjamin tenha escolhido uma metáfora climática (como alias é o dilúvio) para defender seu ponto de vista: ele parecia estar antecipando a conferência de Copenhage e a questão ambiental: o desmatamento, os buracos na camada de ozônio, o efeito estufa. Não era só isso, contudo. Para Benjamin, o progresso, em geral, resultava da exploração e do sofrimento de milhões de seres humanos. Quanto melhor para alguns, pior para muitos outros.

Mas há um problema com o anjo que só vê o passado. Um problema que o deus romano Jano (de onde vem o nome do primeiro mês do ano) não tinha. Porque esse deus, vamos recordar, era bifronte, como convém a alguém que preside a passagem do ano: ele podia olhar o passado, mas também ver o futuro. Mais que isso: as duas faces faziam parte da mesma cabeça. Seu cérebro podia, portanto, processar as imagens vistas, analisá-las e delas extrair conclusões. O futuro, diz o provérbio, a Deus pertence; a Deus ou à bola de cristal, ao tarô, aos búzios. Mas é possível introduzir um elemento de racionalidade na previsão do futuro, assim como é possível introduzir um elemento de racionalidade na análise do passado.

E essa racionalidade nos mostra que as coisas não são tão ruins assim. O Brasil melhorou, o mundo melhorou. As pessoas estão vivendo mais e em melhores condições (tanto que, em muitos lugares, a obesidade já superou a desnutrição como problema de saúde pública). A verdade é que, bem ou mal, o ser humano aprende com seus erros. Os escombros de que fala Walter Benjamin podem ser usados para novas construções, mesmo que feias, mesmo que precárias, como são as casas de favela. Walter Benjamin achava que só a revolução (socialista, bem entendido) poderia deter o desastre que angustia o anjo da história; mas o que se viu é que muitas vezes foi a revolução que resultou catastrófica. De outra parte a evolução, mesmo que lenta, dá resultados.

Vamos entrar em um novo ano. É melhor fazer isso de frente, sem olhos arregalados e sem asas abertas, sem sustos nem ilusões. Nesses momentos é bom ser otimista, mas é bom também não ser anjinho.

*Escritor. Médico. Colunista do CB, ZH...
Fonte: Correio Braziliense online, 29/12/2009

A loucura nossa de cada dia

SAMANTA SALLUM*


Divina, maldita, combustível da sobrevivência, inspiradora, destruidora e acolhedora. O humano não é humano sem a dose da loucura. Não és louco, então és robô. Não escrevo sobre a loucura patológica, diagnosticada por psiquiatras. Mas a que explica tantas ações dos homens, das mais belas às mais repulsivas. No momento em que vivemos, quando os conceitos de certo e errado na nossa sociedade se alternam conforme a conveniência de seus protagonistas, me vem à cabeça a abordagem da loucura em três clássicos da literatura.

Cervantes, em Dom Quixote de La Mancha, nos conta a história de um louco apegado a valores como dignidade, decência e nobreza de caráter do cavaleiro medieval. Quantos de nós somos ridicularizados e chamados de Dom Quixote ao acreditar que existe algum político honesto? Na vida como ela é, há espaço para acreditarmos em sociedades mais justas? Ora, acreditar no certo é ser ingênuo. Quantas vezes nos fazem sentir-nos loucos por acharmos algo errado, mas que é tão praticado que se torna normal?
Lembremos o dr. Simão Bacamarte, em O alienista, de Machado de Assis, que na sua insanidade de procurar insanos conclui que os justos e os honestos são loucos e devem ser internados. Mas a insanidade a ser combatida é a que se instala na hipocrisia do ser humano que só se preocupa com o próprio prestígio.

Já na contagem regressiva para o fim do ano, vale buscar aquela deusa que Erasmo de Rotterdam nos apresenta em Elogio da loucura (1509). Ela fala em primeira pessoa no livro, defendendo sua imagem e ponto de vista. Mostra quão presente e importante é, conduzindo as ações humanas. A loucura está nos costumes e atos como o casamento e a guerra. Forma cidades, mantém os governos.

O autor faz uma crítica incisiva e irônica à sociedade e principalmente à Igreja de sua época por meio do discurso da loucura. Mas fico com aquela que ele mesmo discorrre, a que está na alegria da infância. E que, quando buscada em pitadas na vida adulta, afasta a velhice da alma. Com a loucura da esperança, aquela inofensiva que nos ajudar a tornar a vida um pouco mais agradável. Que ela esteja presente entre nós em 2010. Feliz ano-novo.

*Postado Correio Braziliense, 29/12/2009

samantasallum.df@dabr.com.br

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

À nossa volta

Tarcisio Padilha Junior*





A estratégia moderna consiste em fatiar os temas que transcendem o poder do homem em tarefas menores – por exemplo, a substituição da luta contra a morte inevitável pelo tratamento eficaz de muitas doenças evitáveis.
A velocidade da mudança dá um golpe decisivo no valor da durabilidade. A ideia de valor permanente, imune ao fluxo do tempo, parece não ter fundamento na experiência humana. O antigo ou de longa duração se torna sinônimo de fora de moda, ultrapassado, algo que sobreviveu à sua utilidade, e, portanto, está destinado a terminar em breve numa pilha de lixo.
Quando comparada ao tempo de vida dos objetos que servem à existência humana e às instituições que a estruturam, a vida humana parece ter hoje a maior expectativa de duração.
Na verdade, a vida humana parece ser a única entidade com expectativa crescente de duração, e não em rápido processo de encurtamento. Há cada vez menos coisas à nossa volta – excetuando aquelas que são recortadas da vida quotidiana – que tenham visto o tempo anterior ao nascimento do indivíduo.
Concentramos as nossas atenções e nossas energias em tarefas de acordo com o nosso alcance, a nossa competência e capacidade de consumo. As coisas devem estar prontas para consumo imediato. As tarefas devem produzir resultados antes que a atenção se desvie para outros esforços. Os assuntos devem gerar frutos antes que o entusiasmo por eles termine.
A história moderna é um esforço contínuo para afastar os limites do que pode ser mudado à vontade pelos seres humanos e aperfeiçoado para melhor se adequar às necessidades e desejos destes. Se no passado a arte da vida consistia principalmente em encontrar os meios adequados para atingir determinados fins, agora se trata de testar, um após o outro, todos os fins que se possam atingir com a ajuda dos meios que se possui ou que estão ao alcance.
Não vivemos o fim da história, nem tampouco o princípio do fim. Estamos no limiar de uma grande transformação. Que formas institucionais essa transformação efetivamente produzirá é difícil conjeturar: a história não pode ser realmente objeto de uma aposta antecipada.
É bastante improvável que qualquer modelo com base em um único fator seja capaz de dar conta da complexidade do mundo em que vivemos e abranger a totalidade da experiência humana.
A força da sociedade moderna sobre os indivíduos se baseia agora em sua atitude evasiva, na imprevisibilidade desorientadora de seus movimentos e na habilidade com que desafia expectativas e volta atrás em suas promessas – declaradas sem rodeios ou engenhosamente insinuadas.
Na vida moderna, os relacionamentos tendem a ser o foco da mais aguda ambivalência: o preço da companhia que todos nós ardentemente desejamos é invariavelmente o abandono, pelo menos parcial, da independência, não importa o quanto possamos desejar aquela sem este.
Hoje, expostos às facilidades da tecnologia eletrônica, perdemos a habilidade de nos engajar em interações espontâneas com pessoas reais. Escrevemos mensagens no celular para escapar de interações complexas e difíceis de abandonar com pessoas reais que estão à nossa volta.
*Tarcisio Padilha Junior é engenheiro.
Fonte Jornal do Brasil -  27/12/2009

domingo, 27 de dezembro de 2009

10 Livros brasileiros


Romances ousados, narrativas autobiográficas,
ensaios e livros-reportagem sobre a história do Brasil
atraíram os leitores e
solidificaram carreiras literárias

Redação Época

1. Budapeste, 2003

Depois de uma trajetória como ídolo na música popular, Chico Buarque (ao lado) se destacou na ficção. Seu principal romance narra as desventuras do ghost-writer José Costa, dividido entre duas mulheres e duas cidades: uma húngara e uma carioca, Budapeste e Rio de Janeiro.

2. As ilusões armadas (quatro volumes), 2002-2004

O experiente jornalista Elio Gaspari mergulha nos arquivos da ditadura militar brasileira (1964-1985) para produzir um painel monumental do período.

3. Nove noites, 2002

Um dos autores de maior relevância na década, o carioca Bernardo Carvalho conjugou ficção com texto jornalístico em seu sexto romance. Trata-se de uma investigação sobre a morte do antropólogo americano Buell Quain, que, sem motivo aparente, enforcou-se na floresta diante de dois índios.

4. Dois irmãos, 2000

O amazonense Milton Hatoum ganhou status de mestre da ficção em língua portuguesa com este romance. A narrativa aborda uma saga familiar contada por um menino, filho de uma empregada.

5. Onze minutos, 2003

O romance narra a busca pelo autoconhecimento de Maria, personagem real que sai do interior do Brasil para acabar se tornando prostituta na Suíça. É o livro de maior sucesso de Paulo Coelho. Foi traduzido para 40 idiomas.

6. 1808, 2008

O jornalista paranaense Laurentino Gomes escreveu uma história saborosa sobre a chegada da família real portuguesa ao Brasil, em 1808. Foi vendido meio milhão de exemplares em 2008. Um êxito para um livro de história.

7. O filho eterno, 2007

O relato poderoso em primeira pessoa do catarinense Cristóvão Tezza sobre a convivência com seu filho primogênito que sofre de síndrome de Down.

8. Não somos racistas, 2006

Com este ensaio o jornalista e sociólogo carioca Ali Kamel lança um ataque contundente ao sistema de cotas raciais criado pelo governo brasileiro. Para ele, em vez de prover a igualdade, geram o ódio racial.

9. Pico na veia, 2002

O escritor Dalton Trevisan atingiu com este livro o ápice da concisão. São 205 contos em 242 páginas. O último se resume a um enigmático travessão: “-”. O leitor que o decifre.

10. O doce veneno do escorpião, 2005

O livro resultou do blog de Bruna Surfistinha, uma adolescente de classe média paulistana que se prostitui. Vendeu 250 mil exemplares no ano de lançamento e vai virar filme em 2010.

FONTE: Revista ÉPOCA - 23/12/2009 - Edição nº 606