segunda-feira, 22 de maio de 2017

'Se quiserem, me derrubem', afirma Temer ao negar de novo a renúncia

 Resultado de imagem para Michel Temer - Folha de sao paulo maio 2017
Enfrentando a mais grave crise de seu governo, o presidente Michel Temer (PMDB) diz que renunciar seria uma admissão de culpa e desafia seus opositores: "Se quiserem, me derrubem". 

Em entrevista à Folha no Palácio da Alvorada, Temer afirma que não sabia que Joesley Batista, que o gravou de forma escondida, era investigado quando o recebeu fora da agenda em sua residência em março –embora, naquele momento, o dono da JBS já fosse alvo de três operações. 

Sobre o ex-assessor Rodrigo Rocha Loures, flagrado correndo com uma mala de dinheiro, Temer diz que mantinha com ele apenas "relação institucional". A atitude de Loures, para o presidente, não foi "aprovável". Mas ele defende o caráter do ex-assessor. "Coitado, ele é de boa índole, de muito boa índole." 


O sr. estabeleceu que ministro denunciado será afastado e, se virar réu, exonerado. Caso o procurador-geral da República o denuncie, o sr. vai se submeter a essa regra?
Michel Temer Não, porque eu sou chefe do Executivo. Os ministros são agentes do Executivo, de modo que a linha de corte que eu estabeleci para os ministros, por evidente não será a linha de corte para o presidente. 

Mas o sr. voluntariamente poderia se afastar.
Não vou fazer isso, tanto mais que já contestei muito acentuadamente a gravação espetaculosa que foi feita. Tenho demonstrado com relativo sucesso que o que o empresário fez foi induzir uma conversa. Insistem sempre no ponto que avalizei um pagamento para o ex-deputado Eduardo Cunha, quando não querem tomar como resposta o que dei a uma frase dele em que ele dizia: "Olhe, tenho mantido boa relação com o Cunha". 

[E eu disse]: "Mantenha isso". Além do quê, ontem mesmo o Eduardo Cunha lançou uma carta em que diz que jamais pediu [dinheiro] a ele [Joesley] e muito menos a mim. E até o contrário. Na verdade, ele me contestou algumas vezes. Como eu poderia comprar o silêncio, se naquele processo que ele sofre em Curitiba, fez 42 perguntas, 21 tentando me incriminar? 

O Joesley fala em zerar, liquidar pendências. Não sendo dinheiro, seria o quê?
Não sei. Não dei a menor atenção a isso. Aliás, ele falou que tinha [comprado] dois juízes e um procurador. Conheço o Joesley de antes desse episódio. Sei que ele é um falastrão, uma pessoa que se jacta de eventuais influências. E logo depois ele diz que estava mentindo. 

Não é prevaricação se o sr. ouve um empresário dentro da sua casa relatando crimes?
Você sabe que não? Eu ouço muita gente, e muita gente me diz as maiores bobagens que eu não levo em conta. Confesso que não levei essa bobagem em conta. O objetivo central da conversa não era esse. Ele foi levando a conversa para um ponto, as minhas respostas eram monossilábicas... 

Quando o sr. fala "ótimo, ótimo", o que o sr. queria dizer?
Não sei, quando ele estava contando que estava se livrando das coisas etc. 

Era nesse contexto da suposta compra de juízes.
Mas veja bem. Ele é um grande empresário. Quando tentou muitas vezes falar comigo, achei que fosse por questão da [Operação] Carne Fraca. Eu disse: "Venha quando for possível, eu atendo todo mundo". [Joesley disse] "Mas eu tenho muitos interesses no governo, tenho empregados, dou muito emprego". Daí ele me disse que tinha contato com Geddel [V. Lima, ex-ministro], falou do Rodrigo [Rocha Loures], falei: "Fale com o Rodrigo quando quiser, para não falar toda hora comigo." 

Ele buscou o sr. diretamente?
Ele tentou três vezes me procurar. Ligou uma vez para a minha secretária, depois ligou aquele rapaz, o [Ricardo] Saud, eu não quis atendê-lo. Houve um dia que ele me pegou, conseguiu o meu telefone, e eu fiquei sem graça de não atendê-lo. Eu acho que ele ligou ou mandou alguém falar comigo, agora confesso que não me recordo bem. 

Por que não estava na agenda? A lei manda.
Você sabe que muitas vezes eu marco cinco audiências e recebo 15 pessoas. Às vezes à noite, portanto inteiramente fora da agenda. Eu começo recebendo às vezes no café da manhã e vou para casa às 22h, tem alguém que quer conversar comigo. Até pode-se dizer, rigorosamente, deveria constar da agenda. Você tem razão. 

Foi uma falha?
Foi, digamos, um hábito. 

Um hábito ilegal, não?
Não é ilegal porque não é da minha postura ao longo do tempo [na verdade, está na lei 12.813/13]. Talvez eu tenha de tomar mais cuidado. Bastava ter um detector de metal para saber se ele tinha alguma coisa ou não, e não me gravaria. 

É moralmente defensável receber tarde da noite, fora da agenda, um empresário que estava sendo investigado?
Eu nem sabia que ele estava sendo investigado. 

O sr. não sabia?
No primeiro momento não. 

Estava no noticiário o tempo todo, presidente [Joesley naquele momento era investigado nas operações Sepsis, Cui Bono? e Greenfield].
Ele disse na fala comigo que as pessoas estavam tentando apanhá-lo, investigá-lo. 

Um assessor muito próximo do sr. [Rocha Loures] foi filmado correndo com uma mala pela rua. Qual sua avaliação?
Vou esclarecer direitinho. Primeiro, tudo foi montado. Ele [Joesley] teve treinamento de 15 dias, vocês que deram [refere-se à Folha], para gravar, fazer a delação, como encaminhar a conversa. 

A imagem dele correndo com dinheiro não é montagem.
[Irritado] Não, peraí, eu vou chegar lá, né, se você me permitir... O que ele [Joesley] fez? A primeira coisa, o orientaram ou ele tomou a deliberação: "Grave alguém graúdo". 

Depois, como foi mencionado o nome do Rodrigo, certamente disseram: "Vá atrás do Rodrigo". E aí o Rodrigo certamente foi induzido, foi seduzido por ofertas mirabolantes e irreais. 

Agora, a pergunta que se impõe é a seguinte: a questão do Cade foi resolvida? Não foi. A questão do BNDES foi resolvida? Não foi. 

O Rocha Loures errou?
Errou, evidentemente. 

O sr. se sente traído?
Não vou dizer isso, porque ele é um homem, coitado, ele é de boa índole, de muito boa índole. Eu o conheci como deputado, depois foi para o meu gabinete na Vice-Presidência, depois me acompanhou na Presidência, mas um homem de muito boa índole. 

Ele foi filmado com R$ 500 mil, que boa índole é essa?
Sempre tive a convicção de que ele tem muito boa índole. Agora, que esse gesto não é aprovável. 

O sr. falou com ele desde o episódio?
Não. 

O sr. rompeu com ele?
Não se trata de romper ou não romper, não tenho uma relação, a não ser uma relação institucional [com ele]. 

Quando o sr. diz para o Joesley que ele poderia tratar de "tudo" com o Rodrigo Rocha Loures, o que o sr. quer dizer?
Esse tudo são as matérias administrativas. Não é tuuudo [alongando o "u"]. Eu sei a insinuação que fizeram: "Se você tiver dinheiro para dar para ele, você entregue para ele". Evidentemente que não é isso. Seria uma imbecilidade, da minha parte, terrível. 

O sr. o conheceu há quantos anos?
Quando ele era deputado, portanto, há uns dez anos. 

E mesmo o conhecendo há dez anos, ele tendo sido seu assessor...
Mas espera aí, eu conheço 513 deputados há dez anos. 

Mas apenas ele foi seu assessor próximo.
Como são próximos todos os meus assessores. 

E mesmo próximo era apenas uma relação institucional?
Institucional, sem dúvida. 

Nos últimos dias, o sr. veio numa escalada nas declarações. Acha que a Procuradoria-Geral armou para o sr.?
Eu percebo que você é muito calma [risos]. Espero que você jamais sofra as imputações morais que eu sofri. Eu estava apenas retrucando as imprecações de natureza moral gravíssimas, nada mais do que isso. Agora, mantenho a serenidade, especialmente na medida em que eu disse: eu não vou renunciar. Se quiserem, me derrubem, porque, se eu renuncio, é uma declaração de culpa. 

No pronunciamento o sr. foi muito duro com o acordo de delação.
Não faço nenhuma observação em relação à Procuradoria. Agora, chamou a atenção de todos a tranquilidade com que ele [Joesley] saiu do país, quando muitos estão na prisão. Ou, quando saem, saem com tornozeleira. Além disso, vocês viram o jogo que ele fez na Bolsa. Ele não teve uma informação privilegiada, ele produziu uma informação privilegiada. Ele sabia, empresário sagaz como é, que no momento em que ele entregasse a gravação, o dólar subiria e as ações de sua empresa cairiam. Ele comprou US$ 1 bilhão e vendeu as ações antes da queda. 

Se permanecer no cargo, em setembro tem de escolher um novo procurador. O sr. acha que tem condição de conduzir esse processo sem estar contaminado depois de tudo isso que está acontecendo?
Contaminado por esses fatos? Não me contamina, não. Aliás, eu tiro o "se". Porque eu vou continuar. 

É preciso alguma mudança na maneira como esses acordos são feitos? Mudança na lei?
Acho que é preciso muita tranquilidade, serenidade, adequação dos atos praticados. Não podem se transformar em atos espetaculosos. E não estou dizendo que a Procuradoria faça isso, ou o Judiciário. Mas é que a naturalidade com que se leva adiante as delações... Você veja, as delações estão sob sigilo. O que acontece? No dia seguinte, são públicas. A melhor maneira de fazer com que eles estejam no dia seguinte em todas as redes de comunicação é colocar uma tarja na capa dizendo: sigiloso. 

Esse processo dá novo impulso ao projeto de lei de abuso de autoridade?
É claro que ninguém é a favor do abuso de autoridade. Se é preciso aprimorar toda a legislação referente a abuso de autoridade, eu não saberia dizer. Abusar da autoridade é ultrapassar os limites legais. 

O sr. falou muito do Joesley. Mas qual a culpa que o sr. tem?
Ingenuidade. Fui ingênuo ao receber uma pessoa naquele momento. 

Além dos áudios, há depoimentos em que os executivos da JBS fazem outras acusações. Por exemplo, que o sr. pediu caixa dois em 2010, 2012 e 2016. Inclusive para o [marqueteiro] Elsinho Mouco, para uma campanha da internet.
No caso do Elsinho, ele fez a campanha do irmão do Joesley, e por isso recebeu aquelas verbas. Fez trabalhos para a empresa. Diz que até recentemente, esse empresário grampeador pediu se o Elsinho poderia ajudá-lo na questão da Carne Fraca. 

Empresário grampeador?
Mas qual é o título que ele tem de ter? Coitadinho, ele tem de ter vergonha disso. Ele vai carregar isso pelo resto da vida. E vai transmitir uma herança muito desagradável para os filhos. 

Nos depoimentos, há conversa do Loures com o Joesley sobre a suposta compra do Cunha que é muito explícita.
Por que é explícita? 

Porque eles conversam sobre pagamentos.
Você está falando de uma conversa do Joesley com o Rodrigo. De repente, você vai me trazer uma conversa do Joesley com o João da Silva. 

O Rocha Loures não é um João da Silva.
[Irritado] Eu sei, você está insistindo nisso, mas eu reitero que o Rodrigo era uma relação institucional que eu tinha, de muito apreço até, de muita proximidade. Era uma conversa deles, não é uma conversa minha. 

Um desembarque do PSDB e do DEM deixaria o sr. em uma situação muito difícil. O sr. já perdeu PSB e PPS.
O PSB eu não perdi agora, foi antes, em razão da Previdência. No PPS, o Roberto Freire veio me explicar que tinha dificuldades. Eu agradeci, mas o Raul Jungmann, que é do PPS, está conosco. 

Até onde o sr. acha que vai a fidelidade do PSDB?
Até 31/12 de 2018. 

Até que ponto vale a pena continuar sem força política para aprovar reformas e com a economia debilitada?
[Irritado] Isso é você quem está dizendo. Eu vou revelar força política precisamente ao longo dessas próximas semanas com a votação de matérias importantes. 

O sr. acha que consegue?
Tenho absoluta convicção de que consigo. É que criou-se um clima que permeia a entrevista do senhor e das senhoras de que vai ser um desastre, de que o Temer está perdido. Eu não estou perdido. 

O julgamento da chapa Dilma-Temer recomeça no TSE em 6 de junho. Essa crise pode influenciar a decisão?
Acho que não. Os ministros se pautam não pelo que acontece na política, mas pelo que passa na vida jurídica. 

Se o TSE cassar a chapa, o sr. pretende recorrer ao STF?
Usarei os meios que a legislação me autoriza a usar. Agora, evidentemente que, se um dia, houver uma decisão transitada e julgada eu sou o primeiro a obedecer. 

O sr. colocou ênfase no fato de a gravação ter sido adulterada. Se a perícia concluir que não há problemas, o sr. não fica em situação complicada?
Não. Quem falou que o áudio estava adulterado foram os senhores, foi a Folha [com base em análise de um perito feita a pedido do jornal]. E depois eu verifiquei que o "Estadão" também levantou o mesmo problema. Se disserem que não tem modificação nenhuma eu direi: a Folha e o "Estadão" erraram. 

Como o sr. vê o fato de a OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] ter decidido pedir o seu impeachment?
Lamento pelos colegas advogados. Eu já fui muito saudado, recebi homenagens da OAB. Tem uma certa surpresa minha, porque eles que me deram espada de ouro, aqueles títulos fundamentais da ordem, agora se comportam dessa maneira. Mas reconheço que é legítimo. 

Em quanto tempo o sr. acha que reaglutina a base?
Não sei se preciso reaglutinar. Todos os partidos vêm dizer que estão comigo. É natural que, entre os deputados... Com aquele bombardeio, né? Há uma emissora de televisão [TV Globo] que fica o dia inteiro bombardeando. 

Essa crise atrasou quanto a retomada da economia?
Tenho que verificar o que vai acontecer nas próximas semanas. [Henrique] Meirelles [Fazenda] me contou que se não tivesse acontecido aquele episódio na quarta [dia da divulgação do caso], ele teria um encontro com 200 empresários, todos animadíssimos. causam um mal para o país. 

Como o sr. está sentindo a repercussão de seus dois pronunciamentos, mais incisivo?
Olha, acho que eles gostaram desse novo modelito [risos]. As pessoas acharam que "enfim, temos presidente". 
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 Reportagem por:
FÁBIO ZANINI
EDITOR DE "PODER"
DANIELA LIMA
EDITORA DO "PAINEL"
MARINA DIAS
DE BRASÍLIA
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/05/1886163-se-quiserem-me-derrubem-afirma-temer-ao-negar-de-novo-a-renuncia.shtml

Legamos a nossos filhos mais sintomas do que valores

Luiz Felipe Pondé*





Os inteligentinhos hoje devem ir brincar no parque porque vamos falar coisa de gente grande.

Você quer saber se você é inteligentinho? Se começar a ficar incomodado e, para resolver isso, convencer-se de que a "educação que está dando para seu filho" fará dele uma pessoa mais tolerante, mais evoluída e mais ética, você é um inteligentinho.

Se acreditar que "a educação que está dando para seu filho" fará ele escolher sua religião e seu "gênero" de forma "autônoma e consciente", você é um inteligentinho.

Dizer frases do tipo "a educação que estou dando para meu filho" já é coisa de gente boba. Mas, quando você de fato acredita nisso, você é mesmo inteligentinho.

Legamos a nossos filhos mais sintomas do que valores. A psicanálise sabia disso, mas hoje, como tudo mais, aderiu ao marketing existencial e político. Em termos de ferramenta para pensar a realidade histórica, a psicanálise hoje é parte do sintoma e não da solução. Mais atrapalha do que ajuda.

 "O projeto da modernidade era matar o pai 
como uma repetição festiva do macabro assassinato do pai da horda primitiva do mito freudiano "Totem e Tabu".
 Matamos o pai para sermos livres."


De certa forma, a literatura de autoajuda é mais honesta do que psicanalistas pensando o mundo para salvá-lo. Pelo menos a autoajuda se sabe barata e vulgar. Os psicanalistas se acham chiques e sólidos em sua histeria cega (uso histeria aqui no sentido freudiano do termo –quem não souber o que é que olhe no Google).

O parricídio é um tema clássico na literatura especializada. Freud e Dostoiévski são dois dos maiores exemplos de quem pensou nisso.

Freud achava que "Os Irmãos Karamázov", de Dostoiévski, era o maior romance da literatura ocidental porque havia compreendido plenamente o complexo de Édipo. Dostoiévski pensava o parricídio tramado por seu filósofo Ivan Karamázov como profecia acerca da modernidade.

O projeto da modernidade era matar o pai como uma repetição festiva do macabro assassinato do pai da horda primitiva do mito freudiano "Totem e Tabu". Matamos o pai para sermos livres.

Para Dostoiévski, Ivan preconizava o projeto moderno de matar o pai: a tradição, a herança ancestral humana, Deus, o significado da vida herdado dessa herança, enfim, todo o arcabouço organizado da vida humana que alguns lacanianos chamaram um dia de "nome-do-pai".

Freud, por sua vez, sabia da entropia moderna: sabia que a modernidade na sua fúria carregava em si o projeto escondido da pulsão de morte, que é "a destruição do eu".

 "A simples aniquilação de toda referência 
que não a do dinheiro e a da autonomia individual 
produziu uma devastação do mundo."

Hoje, "somos todos o pai". Toda a demonização do patriarcalismo como culpado até da poluição da Lua é apenas a parte ridícula disso.

A simples aniquilação de toda referência que não a do dinheiro e a da autonomia individual produziu uma devastação do mundo. A promessa era que a cultura e a política tomariam o lugar dos deuses e do pai. Hoje sabemos que a cultura é "fast food" e a política é histérica.

Sou um descendente direto de Ivan Karamázov, portanto, que os inteligentinhos não me venham com o eterno blá-blá-blá de que este seria um discurso nostálgico. Não.

Falo do lugar mais niilista possível: aquele de quem participa do ritual do assassinato do pai da horda primitiva a cada dia. Não há retorno para lugar nenhum. O estrago está feito. E, como sabia muito bem Freud, o pai era terrível.

 "Ninguém quer ter filhos, exceto quem 
não tem opção melhor. Ou gays, 
para se sentirem "normais"."

O passado nunca foi feliz, como idealizaram os românticos. Faltam aos psicanalistas de hoje profundidade e coragem de não fazer parte do marketing existencial e político. Se vivessem na época de Freud, iriam condená-lo por falar obscenidades sexuais a serviço da depravação. A psicanálise se tornou histérica.

Veremos agora o matricídio. Se matamos o pai em nome da liberdade, agora afogaremos a mãe na eliminação pura e simples da maternidade a serviço da emancipação feminina e do mercado de carreiras.

Enquanto a verborragia sobre crianças e sobre valores femininos do "cuidar" cresce, as maternidades quebram por falta de mercado.

A maternidade prática desaparece sob o salto da maternidade teórica. Ninguém quer ter filhos, exceto quem não tem opção melhor. Ou gays, para se sentirem "normais". Os meninos se derretem de medo e as meninas se tornam fálicas sob as palmas da psicanálise rendida à histeria.
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* Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência. 
 Imagem: Ricardo Cammarota/Folhapress
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2017/05/1886174-legamos-a-nossos-filhos-mais-sintomas-do-que-valores.shtml

domingo, 21 de maio de 2017

Monja Coen: Piadas e memes ajudam a sobreviver à crise política, diz líder budista.

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Quando foi chamada para fazer um livro sobre depressão, a Monja Coen Roshi, 69, tratou de escrever o mais rápido possível. Um dos principais nomes do budismo no Brasil, ela passou por duas depressões e percebeu que, ao mergulhar no assunto de novo, estava ficando para baixo. "Comecei a me sentir deprimida, não queria sair da cama. Aí terminei rapidinho", conta, com um sorriso alegre, à repórter Letícia Mori.
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Nascida Cláudia Dias Baptista de Sousa, a brasileira conheceu o budismo em 1978, quando morava na Califórnia com o marido –um dos cinco que teve. Sua conversão foi imediata e anos depois ela foi ordenada no Japão. Nos anos 1990, tornou-se a primeira pessoa sem ascendência japonesa e a primeira mulher a ser presidente da Federação das Seitas Budistas do Brasil.
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Hoje é conhecida pela presença em eventos ecumênicos e pelo sucesso de seus vídeos na internet. Em época de crise, os convites para palestras em eventos e empresas tiveram um pico. "Me chamam porque as pessoas estão amedrontadas e não conseguem trabalhar", diz.
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"Mas é claro! Estão com receio de perder o emprego, sem esperança de galgar uma posição melhor e sendo bombardeadas de notícias ruins o tempo. Aí aumenta a depressão, a síndrome do pânico", diz ela, que vai lançar a obra "O Sofrimento é Opcional" nos próximos dias. Embora pouco retratadas no livro, suas experiências pessoais serviram de inspiração.
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Na primeira vez que teve depressão, aos 20 e poucos anos, ela chegou a tentar suicídio. Era jornalista. "Ficava muito perto da dor, dos problemas. Tinha um relacionamento amoroso complicado e a gente bebia muito. A vida era um drama profundo", conta, suspirando e apertando os olhos. "Uma hora eu cansei e tomei um monte de remedinhos lá, mas não morri", conta ela, que depois foi passar um tempo na Europa e chegou a ser presa por traficar LSD.
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Na última crise de depressão, anos depois de ter se convertido, o gatilho foi um problema com a comunidade japonesa tradicional no templo onde ela atuava, no bairro da Liberdade. "Fizemos um novo estatuto para brasileiros e mulheres poderem votar na eleição para a direção. Acharam que estávamos querendo tomar o templo."
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"Foi um período difícil. Quando tinha folga eu só dormia. Eu pensava: essa realidade está feia, está ruim. Então não quero participar disso, quero fugir, quero sonhar. Foi um desencanto. Eu sentava para meditar e não conseguia ficar 5 minutos. Aquilo que seria um remédio, eu não conseguia tomar", conta. "Grandes místicos cristãos também falam sobre isso: um momento na vida que a gente tem que atravessar esse grande deserto. Que você perde a crença, que você duvida de tudo."
"Aí foram vindo certas forças. Um grupo de amigos me chamou para dar meditação. Ele me ajudou muito", diz, apontando para a foto de um monge japonês na parede
–seu último marido, Shozan Murayama, que morreu há alguns anos. Foi depois desse episódio, quando tinha 50 e poucos anos, que ela montou o templo no Pacaembu –onde hoje recebe discípulos e mora com cinco cachorros.
*
Um deles late ao fundo enquanto ela reflete: "Meu caso foi pontual, nem precisei tomar remédio. Mas às vezes é uma questão da mente, um desequilíbrio químico, e é preciso buscar ajuda profissional", diz ela, reforçando que o budismo não substitui tratamento médico.
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Diz que é preciso cuidar para não chegarmos a esse ponto –aprendendo a lidar com o sofrimento. Critica a mídia por "mostrar sempre só o lado ruim da realidade". "Os mentirosos, os ladrões e a sujeira têm muita visibilidade. E esquecemos as coisas boas. Não tem um país no mundo onde há políticos honestos? Soluções inteligentes para os problemas? O que podemos aprender com tudo isso?"
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"Se não vemos isso, só o que fica é essa sensação de impotência, essa desesperança. E aquela pessoa que achou dinheiro e devolveu? E a que ajudou quem tinha necessidade? Parece tão sem importância, mas nos lembra que a gente pode ser bom, pode se unir e cooperar. Porque, como diz o [teólogo] Leonardo Boff, ou nós ganhamos todos juntos, ou perdemos todos juntos."
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"Olha essas brincadeiras lúdicas, engraçadas", diz, se referindo aos memes e piadas na internet sobre a gravação em que o presidente Michel Temer fala de propina. "Diz aqui: para que vou ver Netflix? A ficção não consegue competir com a realidade", lê, rindo. "São leves. Nos ajudam a lidar com a indignação."
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Diz que os "mentirosos e ladrões" precisam responder na Justiça, mas que ficar com raiva não vai resolver. E conta uma parábola: "Buda encontrou um monge que tinha sido torturado e perguntou o que foi pior: o frio, as dores, o desespero, a escuridão? O monge respondeu: 'o pior foi que, por um instante, quase deixei de sentir compaixão pelos meus torturadores'".
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"Não é fácil sentir compaixão, pena, da miséria espiritual dessas pessoas. Mas bom não é aquele que está julgando, pedindo vingança, ou que está delatando. Quem assumiu dizendo que é o salvador da pátria também está envolvido com as mesmas coisas."
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"O único jeito de acabar com essa violência é se ela for compensada com a não-violência. Tem gente escolhendo um vilão e querendo matá-lo. Que horror! A mudança só vai vir se cada um de nós aprender a viver coerentemente com nosso princípios éticos. Quando eu me transformo para o bem, eu transformo a sociedade." 
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Fonte: Blog de Mônica Bergamo:    http://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2017/05/1885736-piadas-e-memes-ajudam-a-sobreviver-a-crise-politica-diz-lider-budista.shtml  
Imagem da Internet

"JusInjustiça"

ROBERTO DELMANTO JUNIOR*

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Os cidadãos brasileiros encontram-se, com toda a razão, visceralmente indignados com o teor das delações premiadas que têm exposto a magnitude da corrupção 
e do caixa dois nas campanhas. 

A mais famosa delação de nossa história deu-se no julgamento de Tiradentes em 1792, com Joaquim Silvério dos Reis. Com a Independência, o instituto desapareceu. 

Foi só em 1990 que a delação foi incorporada ao ordenamento brasileiro, chegando ao seu ápice com a lei n° 12.850/2013. 

Veio ao Brasil por influência da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), sediada em Paris, lembrando-nos o utilitarismo do inglês Jeremy Bentham e o pragmatismo norte-americano. 

Quando a investigação é bem-feita, está acompanhada de provas e, na avaliação do defensor e do acusado, possui alta probabilidade de punição severa, a delação se transforma em um meio de defesa. Uma rendição para "casos perdidos", com "redução de danos". 

Em face do enorme número de colaborações, fato é que o processo penal virou uma espécie de mercado de negociação de delações: leve a impunidade ou grande diminuição de sua pena, mediante a contrapartida de confessar o crime, devolver o dinheiro quando houver, ser traidor e delatar os outros, trazendo provas e novidades. 

Se puder gravar áudios clandestinamente, melhor ainda. Quanto mais importante o delatado, maior a recompensa -poderá nem ser acusado. 

Nessas barganhas, feitas sempre com os advogados, um aspecto sintomático é o aumento das prisões provisórias. Caso não houvesse o instituto da delação, teria sido decretada a prisão do investigado?
A pergunta é perturbadora; a depender da resposta, as consequências, gravíssimas, podem configurar medieval ilícito. 

Por outro lado, o Brasil viu um ex-funcionário de uma grande empreiteira afirmar às autoridades, com um sorriso: "Eu quero curtir a minha vida quando vocês tirarem esse negócio do meu pé [referindo-se à tornozeleira eletrônica]... Curtir os 40 anos que trabalhei...". 

Assistimos também a proprietários da maior empresa de proteína animal do mundo, com aportes do BNDES de mais de R$ 8 bilhões, irem morar em Nova York e de lá comandarem suas empresas, após confessarem graves crimes. 

Esse é o custo/benefício da delação premiada. Nunca o Ministério Público teve tanto poder na história do Brasil -seus membros tornaram-se senhores de quem poderá ou não ser beneficiado com a delação, a depender do "tamanho da presa" a ser entregue, capturada em armadilhas bem armadas, com áudios clandestinos. 

E os delatados serão punidos? Provavelmente algumas acusações são injustas. Buscarão demonstrar que não existem provas, que os delatores se contradizem ou mentem para agradar a acusação, que a prisão lhes impôs coação e que o acordo é nulo. 

Vivenciamos uma metamorfose pragmática e autofágica no ideal de justiça, retratada no neologismo "JusInjustiça". Na condenação de delatados há a impunidade dos delatores; é a injustiça dentro da justiça. 

A imagem é a do Coliseu romano: os gladiadores são os delatores e seus advogados, lutando com os delatados e seus defensores. As armas são as gravações, as provas, os detalhes e as contradições.
O público brada por Justiça, e o juiz assiste à luta lá do alto. Já o Ministério Público não mais está ao seu lado direito, mas em um degrau acima. Tornou-se, afinal, o senhor da delação e, portanto, da Justiça e da "JusInjustiça". 

* ROBERTO DELMANTO JUNIOR, doutor em direito pela USP, é advogado criminalista. É coautor de "Código Penal Comentado" e "Leis Penais Especiais Comentadas", entre outras obras 
Fonte:  www1.folha.uol.com.br/opiniao/tendenciasdebates/?cmpid=menutopo 21/05/2017

Didi-Huberman: 'O artista se tornou figura da liberdade'

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O cineasta Daniel Augusto (D) e o filósofo francês Georges Didi-Huberman (E) em seu apartamento, em Paris Foto: Rodrigo Menck/Grifa Filmes

Em entrevista, pensador francês avalia importância da psicanálise na arte e o papel do artista na promoção da liberdade

Daniel Augusto*, Colaboração para o Estado
20 Maio 2017 

“Hoje, a liberdade e a autoridade do artista são fetiches, coisas que escondem a ausência de liberdade de todos os outros”, disse-me o filósofo e historiador da arte francês Georges Didi-Huberman. Autor de dezenas de livros e professor universitário, ele é um dos mais importantes pensadores contemporâneos sobre a arte, cujas reflexões abrangem desde o estatuto da criação e da recepção em geral até a obra particular de diversos artistas. No seu apartamento em Paris, ele me recebeu para a série de entrevistas Incertezas Críticas, produzida pela Grifa Filmes e em exibição no Canal Curta, onde falou de psicanálise, história da arte, do excesso e da falta de liberdade na arte, entre outros assuntos. 

Qual é a importância da psicanálise em sua obra?
A psicanálise é importante para mim, mas não para fazer uma psicobiografia do pintor. A tradicional história da arte reflete em termos de consciência: Donatello viu um sarcófago romano, imitou-o, temos o Renascimento. Isso chama-se tradição: uma coisa que se transmite de maneira consciente. O que Freud estabeleceu é a existência do inconsciente, que funciona de outra maneira. Há um historiador da arte que levou isso a sério, Aby Warburg, que formulou um conceito diferente, da transmissão de formas, não somente no nível da tradição consciente, mas também num nível subterrâneo. Portanto, sempre há dois níveis, que se contradizem um ao outro.

Qual a consequência de se observar arte nesses dois níveis?
A psicanálise é interessante para se ver onde, nas maiores belezas, há coisas terríveis. Há o desejo, a morte, a crueldade, o mal, a doença. É o avesso, a outra face da moeda. Você tem, por exemplo, dois modos de ver Botticelli: ou você vê a primavera, a Vênus, tudo isso é muito lindo; ou vai um pouco mais longe e lembra que o nascimento da deusa é uma história aterrorizante. O sexo de um deus que foi cortado e cai no mar, com sangue e esperma.  

Como a psicanálise ajuda a pensar a relação entre as imagens e a política? 
Não se pode ir muito longe numa reflexão sobre a política das imagens sem colocar em jogo a questão psíquica. Pensadores como Marcuse, Adorno ou Benjamin sempre associaram essas duas coisas. É preciso sempre ver o desejo em ação. Quando há desejo, há memória; quando há memória, há recalque; quando há recalque, há conflito; quando há conflito, há sintoma. O mundo das imagens é um enorme campo de batalha subterrâneo. Por cima, vemos a beleza, que é muito importante. Mas, na verdade, a beleza não é nada repousante.  

A arte é livre no capitalismo atual?
Hoje, o artista se tornou a própria figura da liberdade. De uma certa maneira, é ainda mais livre que o patrão. Não tem horários marcados, faz o que quer. Falo, evidentemente, de um artista reconhecido. Ele chega num museu, diz que quer uma parede vermelha e se manda imediatamente pintar. É uma figura de liberdade e de autoridade, mas no interior do funcionamento capitalista, e aí a coisa começa a se complicar. Pasolini fazia uma reflexão a Andy Warhol: “Você foi tão longe na vanguarda que entrou no território do seu inimigo. Esqueceu a linha de conflito. O que significa sua liberdade para você, o artista Warhol, enquanto tudo ao seu redor está privado de liberdade? Para que serve ser o único livre? Não serve para nada”. Portanto, a liberdade e a autoridade do artista hoje, infelizmente, são fetiches, coisas que escondem a ausência de liberdade de todos os outros. Isso não está certo. Felizmente, acontece de artistas se darem conta disso e procurarem estratégias para falar da falta de liberdade dos demais.  

Vivemos uma situação trágica para a arte?
Um pensador “radical” hoje tenderia a dizer que essa situação da arte, separada do pensamento e da poesia, é trágica, e então algo morreu. Eu falo exatamente o contrário. No âmbito da cultura, nada está morto. Sempre há sobrevivências. É nessa direção que devemos ir. Não sabemos lhes enxergar, mas elas existem. Uma vez, no Rio de Janeiro, eu fui visitar o Parque Lage. Estava emocionado porque o filme Terra em Transe, de Glauber Rocha, que adoro, foi filmado lá. Estava andando pelo parque, no qual há árvores com raízes que vão para todos os lugares. Naquele momento, refleti sobre o que quer dizer ser radical. Os filósofos “radicais” são pessoas como Badiou. O que eles fazem? Eles pensam que a raiz é um bastão em linha reta na terra. Quando eles são radicais, vão até a raiz. Mas é algo unilateral, uma coisa só. No entanto, quando você anda no Parque Lage, é possível notar que as raízes são iguais ao que Warburg descreveu: coisas que passam por baixo, por cima, aqui, lá, em toda parte. Então, se você cortar uma, nem tudo morre. Não se pode desesperar. A filosofia desesperada, “radical”, que diz que tudo morreu, não é verdade. Sempre há um desvio, uma raiz que vai aguentar o tranco e persistir.

] É CINEASTA, DIRETOR DA SÉRIE ‘INCERTEZAS 
CRÍTICAS’, EXIBIDA PELO CANAL CURTA
Fonte:  http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,o-artista-se-tornou-figura-da-liberdade-diz-filosofo-didi-huberman,70001793303

Carlo Rovelli: “aceitar a ciência é reconhecer nossa ignorância”

Rovelli é um dos principais pesquisadores da Gravidade Quântica em Loop | Foto: Luiz Munhoz / Fronteiras dos Pensamentos / Divulgação / CP

 

Rovelli é um dos principais pesquisadores da Gravidade Quântica em Loop | Foto: Luiz Munhoz / Fronteiras dos Pensamentos / Divulgação / CP
Um dos autores da teoria da Gravidade Quântica em Loop, que busca unir as incompatibilidades da física quântica e da relatividade geral, o cientista italiano Carlo Rovelli se popularizou com o livro “Sete Breves Lições de Física”, no qual faz uma retomada das principais descobertas científicas da modernidade. A linguagem simples e didática fez com que a obra se tornasse um best-seller: foi traduzida para mais de 50 idiomas e, na Itália, vendeu mais que “50 Tons de Cinza”. Neste ano, ele lançou no Brasil o livro “A Realidade não É o que Parece”, no qual esclarece os pontos da teoria em que trabalha. Rovelli esteve em Porto Alegre para abrir o Fronteiras do Pensamento 2017 e, em entrevista ao Correio do Povo, falou sobre as relações entre ciência, política e filosofia, o sucesso de suas publicações e a visão de mundo proposta pela Gravidade Quântica em Loop.

Correio do Povo: Nos anos 1970, o senhor esteve envolvido com política, participou de movimentos estudantis de protesto na Itália e até fundou uma rádio livre. Entretanto, a formação do senhor é na área da física. Por que essa mudança?
Carlo Rovelli: Primeiro, simplesmente crescer. Houve também um momento de desilusão com a política. Eu, e muitas pessoas, achávamos que era fácil mudar o mundo e fazê-lo mais justo e gentil. Nós pensávamos que era um caminho natural, que viria se lutássemos, mas no final não foi tão fácil. Foi um período de forte reação do sistema policial italiano contra todo o movimento que reivindicava mudanças políticas. Então eu comecei a ler sobre ciência e descobri que há mais revolução na ciência e há mais mudança nesta área do que na política. Eu não era particularmente fascinado com a física antes, escolhi estudá-la um pouco por acaso. Não sou como muitos dos colegas que desde criança sempre quiseram ser cientistas: eu não sabia o que queria ser. Então eu me apaixonei pela ciência em um momento de desilusão. Só depois dos meus vinte anos eu vi a sua beleza. O que me atraiu foi a possibilidade de mudar o mundo. Einstein mudou a maneira como nós o vemos talvez mais do que qualquer político.

CP: Há pontos de contato entre essas duas áreas?
Rovelli: Não, mas isso é um ponto profundo, porque a civilização muda. Nós não vivemos como egípcios, com um faraó, e política é a arte de governar esta mudança. Mudanças são necessárias, porque se não mudássemos, ainda estaríamos vivendo em cavernas e ignorando o progresso. Já a ciência é a arte de mudar o nosso pensamento. Em essência, é mais fácil, porque você pode fazer isto sozinho e com poucos amigos, mas a política tem que ser feita em conjunto.
Se formos falar sobre esquerda e direita, acho que não há um lado claro que seja mais pró ou contra ciência. Alguns governos de esquerda têm se empenhado em desenvolver o campo e outros não. Olhe para a União Soviética, que era muito pró-ciência, mas fez coisas muito estúpidas durante a era de Stalin. No espectro da direita, é a mesma lógica, alguns são a favor; outros, contra. Neste momento, os republicanos que dirigem os Estados Unidos são um desastre em termos de pensamento científico. No que diz respeito ao pensamento político dos cientistas, geralmente são da esquerda, mas não são todos.

CP: Nos Estados Unidos, Donald Trump foi eleito com um discurso cético em relação ao aquecimento global. Na era da pós-verdade e das tão chamadas fake news, existe alguma explicação para a ciência ser ignorada?
Rovelli: Eu não sei por que está acontecendo. Acredito que muitas pessoas se sentem deixadas de fora da riqueza do mundo moderno e estranhamente não apenas os pobres. Então, em vez de se rebelarem contra um sistema que não é justo, eles se rebelam de uma maneira tola, contra algo que acham que não está relacionado com sua vida diária. Além disso, aceitar a ciência é reconhecer nossa ignorância, que sabemos muito pouco sobre tudo. E as pessoas optam por acreditar no que querem porque não querem admitir que são ignorantes. Quanto mais aprendemos, mais entendemos que sabemos pouco. As pessoas que sabem pouco acreditam que sabem tudo. A rebelião contra o pensamento científico é muito perigosa para todos. Você mencionou as mudanças climáticas, se não as levarmos a sério, vamos pagar caro. Anos atrás eu não acreditava nisso, mas eu mudei de ideia. É verdade, está acontecendo. Isso é o que a ciência é sobre, mudar mentes e ajudar a entender as coisas que você não acreditava. Se não agirmos juntos, será um desastre.

CP: Atualmente o senhor leciona na Universidade Aix-Marseille, no sul da França. O que esperar para a ciência no país com Emmanuel Macron na presidência?
Rovelli: Uma das primeiras coisas que Macron disse é que ele vai investir muito em ciência. Ele inclusive convidou cientistas de todos os países para desenvolverem pesquisa na França. Isso é muito bom. O fato dele ter dito isso me agradou muito. Contudo, nós sabemos como o sistema funciona: políticos falam coisas e muitas vezes não as cumprem. O cenário é positivo, veremos o que vai acontecer, mas sem dúvidas é melhor do que seria com Marine Le Pen. Uma das propostas dela era o referendo para sair da União Europeia, e eu sei que no Reino Unido cientistas estão apavorados com o Brexit e as questões de financiamento de pesquisa.

CP: Tentativas de abordar teorias científicas se tornaram bastante comuns nos últimos anos em filmes como “Interestelar” e “A chegada”. O que o senhor pensa sobre a forma como as relações de espaço e tempo, noções básicas da ciência, são retratadas?
Rovelli: Eu assisti a esses filmes e há coisas boas e ruins. Por exemplo, “Interestelar” é muito bom porque traz para o grande público algumas descobertas que as pessoas não sabiam, como o fato de você poder viajar no tempo e ver sua filha muito mais velha do que você. Isso é verdade, e as pessoas não sabiam disso. Então o tempo é diferente do que pensávamos. É um grande avanço a ciência ser mostrada como algo positivo. Mas os filmes tornam as coisas muito mais simples e às vezes mais bobas e encantadoras, especialmente os americanos.

CP: É justamente um movimento de aproximação da ciência com o público leigo o que o senhor faz nos seus livros; tratam do assunto de maneira poética, com grande habilidade de escrita, mas sem perder a precisão inerente à área. Como foi adaptar esse conhecimento técnico para uma linguagem mais popular e universal?
Rovelli: Alguns livros são feitos para pessoas que amam a ciência e querem aprender mais. Os meus são diferentes, são escritos para pessoas que não sabem sobre o assunto e não estão realmente interessadas. O que eu tento fazer é não dar a elas muitos fatos e detalhes, tento capturar a ideia principal, o núcleo, e eu acho que é por isso que as pessoas amam “Sete Breve Lições de Física”. Eu também tento reunir o que aprendemos na ciência com nossa própria cultura, com o resto de nossas vidas, porque a ciência não está separada destes, é um componente do nosso conhecimento. Vivemos em uma civilização que foi construída devido aos avanços que cientistas possibilitaram. Então, se eu puder falar sobre ciência e o que preocupa as pessoas, elas vão se relacionar.

 "As pessoas optam por acreditar 
no que querem porque não querem 
admitir que são ignorantes. 
Quanto mais aprendemos, 
mais entendemos que 
sabemos pouco. 
As pessoas que sabem pouco acreditam que sabem tudo. 
A rebelião contra o pensamento científico 
é muito perigosa para todos."

CP: Sabemos que “Sete Breves Lições de Física” vendeu mais que “50 tons de Cinza” na Itália e foi traduzido para 51 idiomas, se tornando um best-seller. Como foi a aceitação da academia?
Rovelli: Eu não esperava que fosse um best-seller. Na época do lançamento, discutimos quantas cópias imprimir; eu imaginava algo entre três e cinco mil, mas estamos quase chegando a um milhão de cópias vendidas. A academia está muito feliz também. A maioria dos meus colegas me elogiou e expressou muita solidariedade e felicidade porque quanto mais o grande público aprecia a ciência, melhor para todos nós. Muitos colegas disseram: “ótimo que você fez isso, obrigado”. Entretanto, todos somos humanos e às vezes há ciúme e críticas sem fundamento.

CP: No primeiro capítulo deste livro, o senhor faz algumas críticas ao ensino. Numa passagem, escreve que é “fora da escola que nos tornamos verdadeiros cientistas”. O que falta e como melhorar o ensino de ciências nesse ambiente?
Rovelli: Para ensinar ciência, você precisa de pessoas que amem a ciência. Os assuntos são fáceis, as pessoas podem lê-los em um livro e obter as respostas. Um professor precisa mostrar paixão e excelência no que faz, porque isso motiva os alunos. Se eles veem a paixão, eles facilmente percebem que é bom e vale a pena estudar algo. Muitas vezes os professores têm dificuldades como grandes turmas e não são bem pagos. A fim de ter uma melhor educação, a primeira ação seria aumentar o salário dos professores, para que trabalhassem com mais entusiasmo. Além disso, acho que a ciência deve ser ensinada por pessoas que a estudaram. Em muitos países aqueles que ensinam física são graduados em matemática. Isso não é bom, porque eles são campos diferentes, mesmo compartilhando uma grande quantidade de números. Especialmente nas escolas públicas nos países mais pobres, onde você precisa ter dinheiro para ter uma boa educação. A escola deve se destacar em todas as áreas. É bom que os cientistas conheçam a filosofia e é bom que as pessoas de humanas também conheçam a ciência.

CP: O senhor dedicou quase toda sua vida com física ao estudo da Gravidade Quântica em Loop. Como entrou em contato com essa teoria?
Rovelli: Eu estava no começo da faculdade. Eu estudava muito sozinho na Itália, porque eu penso que uma pessoa não precisa estar cercada de outras para fazer boa ciência. Em certo ponto, eu comecei a viajar com o dinheiro que eu tinha guardado e pedia ajuda para o meu pai. Participava de congressos em Londres, nos Estados Unidos, pesquisava sobre os cientistas mais interessantes da época. Nos anos 1980, eu conheci Abhay Vasant Ashtekar (um dos fundadores da teoria) e comecei a pesquisar sobre ela. Na época, não pensávamos que a teoria cresceria tanto. No começo, havia um pequeno grupo trabalhando nela, hoje há pessoas ao redor de todo o mundo.

CP: Uma das ideias centrais da teoria da Gravidade Quântica em Loop é a de que precisamos parar de ver o tempo como uma linha na qual os acontecimentos se sucedem, e a de que o espaço precisa ser compreendido como uma forma granular. Essa desconstrução de como entendemos tempo e espaço parece ser uma tarefa bastante filosófica.
Rovelli: Sim, é também uma ideia filosófica. A ciência pede que revisemos nossos pontos de vista do mundo e pensemos de novo essas grandes questões: “O que é o espaço?”, “O que é o tempo?”. Tivemos muitas mudanças nas percepções desses dois aspectos durante a história. A ciência não é a resposta final, mas a melhor que temos até agora. Reconceptualizar é um processo que a filosofia e a ciência compartilham. A separação feita pela grande massa é boba. Todos os grandes cientistas sabiam muito de filosofia, Einstein lia Kant. E todos os filósofos dominavam as teorias científicas de sua época.

CP: Então como você entende o tempo?
Rovelli: São três passos. Primeiro, descobrimos que o tempo é diferente das nossas ideias habituais. Por exemplo, o tempo passa mais rápido na montanha e mais devagar no mar, o que é contraintuitivo, mas é verdade, nós testamos e verificamos. Então eu digo que temos que repensar o tempo. Segundo, na dinâmica elementar do mundo, podemos não usar a noção de tempo, na equação principal não deve haver tempo. O tempo é uma noção aproximada, não é algo que seja universal. Assim, a Gravidade Quântica em Loop é escrita sem tempo. O terceiro passo é o mais difícil, porque precisamos entender qual é o nosso tempo e reconstruí-lo. Isso é difícil porque não temos ideias claras. Einstein descobriu que entre o que é comumente chamado de passado futuro há uma duração que não pode ter anos, não se trata de um agora. É um “presente estendido”. Além disso, o tempo tem a ver com a termodinâmica, com o calor, com nós mesmos, porque somos muito criaturas. Eu acho que entender o tempo não é compreender a natureza, mas como nos relacionamos com o mundo, que tipo de sistema somos.

CP: Um dos tópicos mais importantes hoje em dia, que permanece um mistério, é a matéria escura. Como a teoria que o senhor estuda aborda isso?
Rovelli: A matéria escura é algo real e misterioso que não sabemos o que é. Há muita evidência de que há algo estranho, mais coisas no universo do que sabemos. Há muitas soluções possíveis, mas nenhuma convincente. É um lembrete de que somos ignorantes, não sabemos o que está lá. A matéria escura pode ser muitas coisas, há muitas hipóteses, nenhuma muito boa. Uma delas fala a matéria escura é feita de buracos negros, então nesse caso haveria uma conexão estreita entre os dois. A Gravidade Quântica em Loop não oferece uma solução para o problema da matéria escura. É uma teoria que reúne a mecânica quântica e a relatividade geral. Não é a última teoria do mundo.

CP: O senhor já escreveu em alguns ensaios que não tem a pretensão de ser uma Teoria de Tudo.
Rovelli: Exato, não é uma Teoria de Tudo e acredito que estamos longe disso. Há muita coisa que não sabemos, e a matéria escura é a evidência.

CP: Também disse que quer “apenas” entender o Big Bang e o interior dos buracos negros. Falando sobre o último, eles têm sido muito pesquisados ​​ultimamente e a Gravidade Quântica em Loop é altamente apreciada por prever a entropia destes. Por que estudá-los é tão importante?
Rovelli: É enormemente importante. Quando eu estudei na escola, nos anos 70, me disseram que os buracos negros não existiam. As pessoas não acreditavam que fossem reais. Então houve a descoberta de alguns deles e de repente todo mundo estava tão animado e todos sabiam que havia muitos deles. E descobrimos imensos buracos negros no centro das galáxias, milhões de vezes maiores que o sol. Claramente, não encontramos todos eles, e eles desempenham um papel fundamental na cosmologia. Agora algumas pessoas suspeitam que eles podem ter sido atores na formação de galáxias. Há muito de física ainda a ser descoberta sobre eles e estamos desenvolvendo tecnologias que podem ser capazes de olhar e fotografá-los em breve. Vai ser emocionante. Tudo está mudando muito rapidamente e os buracos negros são o centro dessa mudança.

CP: Os livros do senhor mostram ao leitor as razões intelectuais que o fizeram dedicar sua vida inteira a uma teoria que ainda não tem apoio empírico. Você prevê testes experimentais?
Rovelli: Espero que venham, eles têm que acontecer, caso contrário não podemos confiar na teoria. Neste momento, estamos trabalhando na possibilidade de observar com telescópios e radiotelescópios um possível efeito da gravidade quântica, a explosão de buracos negros. Esperamos que explodam e esperamos que isso seja visto no céu. Isso pode ser um bom teste. Outro teste possível é observar a radiação de fundo cósmica e assim entender melhor o Big Bang. Na história da ciência, houve grande questionamentos, mas forma resolvidos. Eu sou bastante otimista.

O senhor está preparado para uma refutação da Gravidade Quântica em Loop?
Rovelli: Claro, não tenho ideia, não tenho certeza de que está certa. Pode estar, e espero que esteja. Pode ser que seja parcialmente correta e vá contribuir para o conhecimento, mas há algumas coisas a serem mudadas. Ou pode estar completamente errada, o que eu acho difícil acontecer, porque ela, no mínimo, é uma prova de que podemos juntar a gravidade quântica e a relatividade geral. Mesmo que a resposta final não seja exatamente como a Gravidade Quântica em Loop propõe, será algo nessa linha.

CP: Que consequências a Gravidade Quântica em Loop, se comprovada, pode trazer para o modo como entendemos o mundo e para a vida cotidiana?
Rovelli: São duas perguntas diferentes, porque na nossa vida diária eu não vejo nenhuma. Elas podem surgir, mas é muito difícil dizer isso antes. Por exemplo, quando eu estudei a relatividade geral, ninguém esperava que ela seria usada no GPS. Einstein nunca teria imaginado que sua ideia simples, porém genial, seria usada em uma tecnologia desse porte. Ou quando Maxwell fez sua teoria, ele nunca esperou que criássemos o rádio e a televisão. Sobre a forma como vemos o universo, traria grandes mudanças, porque se o espaço e o tempo não são coisas fundamentais, isso muda a base da física. Acho que o aspecto mais interessante é que a Gravidade Quântica em Loop descreve o mundo em termos de relações, não de entidades, coisas. Então, isso nos leva a pensar que o mundo é uma rede de relações e isso pode ter efeitos sobre a forma como a ciência é feita.

CP: Em uma citação de seu segundo livro, “A realidade não É o que Parece”, o senhor diz precisamente que realidade é interação.
Rovelli: Sim, nós só existimos porque nós interagimos. As pessoas falam, veem, ouvem, amam. Se você pega um ser humano e o isola, ele não é nada. No entanto, ele ainda vai ter alguma interação: come, respira. Este é um ponto geral da ciência. E no núcleo da física quântica, isso se mostra muito forte. De alguma forma, a física quântica não descreve como as coisas são, mas como elas interagem umas com as outras.

CP: Em uma seção dessa mesma obra, o senhor detalha o trabalho de Henrietta Leavitt. Em toda a história do Nobel, apenas duas mulheres receberam o prêmio, Marie Curie, em 1903, e Maria Goeppert-Mayer, em 1963. Como está a participação das mulheres hoje na sua área?
Rovelli: Está mudando muito, muito rapidamente, mas ainda depende do domínio da ciência. Em alguns já há equidade, em outros ainda há poucas mulheres e alguma forma de machismo. Espero que seja uma questão de tempo. É importante que a educação em todo o mundo perceba que as meninas têm todas as potencialidades dos meninos, em qualquer área. Na minha, a dificuldade geralmente vem do fato de que todo mundo em torno das mulheres assume que os homens serão melhores, então elas são ensinadas a não acreditarem em si mesmas, e isso é muito ruim.

CP: E a contribuição brasileira?
Rovelli: A versão atual da equação principal da Gravidade Quântica em Loop tem o nome de duas pessoas importantes e um deles é o do brasileiro Roberto Perreira. Um estudante meu que é um aluno brilhante. Em geral, é muito boa, porque a ciência está saindo do centro tradicional de pesquisa e se tornando mais democrática. No Brasil há bons teóricos e pesquisadores em todas as áreas.
* Por Eric Raupp
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Fonte:  http://www.correiodopovo.com.br/blogs/dialogos/2017/05/1137/carlo-rovelli-aceitar-a-ciencia-e-reconhecer-nossa-ignorancia/

As coisas humanas

Lya Luft* 
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Quando me chamaram para voltar à ZH e pertencer de novo à família RBS, em começos de 2016, fiquei feliz, era um momento de certa orfandade, e me reintegrar aqui foi uma alegria. É uma alegria. Fui recebida feito filha da casa, meu ego desinflado melhorou e, mesmo que eu não vá à Redação habitualmente, de coração estou entre colegas, funcionários e amigos queridos. Um dos pedidos ao fazermos os acertos foi antes uma sugestão: não escrever sobre política como vinha fazendo nos últimos anos em uma revista. Na verdade, nunca fui uma entendida ou comentarista política. Aliás, o tema me assusta. Sempre afirmei, e escrevi, apenas como uma brasileira comum moradora deste planeta complicado que se chama Brasil. Agora a Zero Hora afirmava que escrever o que acho de “coisas humanas” era o que o leitor mais queria de mim.

Achei meio engraçado, meio comovente, me surpreendi um pouco – porque, afinal, política é coisa muito humana e muito nos atinge, aflige ou anima –, mas compreendi que se tratava dessas coisas humanas essenciais: afetos, amizades, colegas, família, otimismo, sofrimento, esperança, decepção, educação, convívio, segurança, moralidade, enfim. Tenho feito isso, e isso tem me feito muito bem. Não posso deixar (ou: posso, mas não quero) de comentar aqui brevemente que a nossa realidade política, que tanto corrói a economia e tanto nos afeta em nossa lida cotidiana, roubando esperanças e jogando aflição sobre todos, mexe extraordinariamente com cada pessoa.

Porém, é preciso reconhecer que, mais do que nunca – como eu disse outro dia a um grupo de funcionários aqui da casa, que me receberam com tanto afeto que me emocionei –, ao fim e ao cabo, no meio das maiores loucuras, confusões e medo, cada vez mais importam as pessoas: clientes, amigos, patrões, funcionários, família, colegas, até meros conhecidos. Se cada um tentar, com simplicidade, o seu melhor nesses lugares e ocasiões, se cada um fizer na vida e no trabalho o melhor que puder, é possível que este mundo, este Brasil, esta cidade melhorem um pouco. Que a gente se sinta mais confortável, mais amparado, mais otimista, mais importante.

Alguém certa vez me fez entender que todo mundo precisa saber-se importante: não em cargos, dinheiro, grandes façanhas, mas pelo menos no seu grupo, seja ele qual for. Eu sei, não é fácil conviver bem. Há pessoas naturalmente irritantes e desagradáveis. Traições acontecem. Afastamentos incompreensíveis também. Mas ser importante para uma pessoa que seja já vale muito. Ser benquisto entre seus colegas é muito. Ser bem-visto e respeitado por clientes, patrões, empregados, ser considerado uma pessoa confiável, um ser humano decente, é muitíssimo. E nos faz bem. E nos estimula.

Ninguém é inteiramente amado, totalmente compreendido, absolutamente respeitado: faz parte do aprendizado da vida. Mas ser uma pessoa decente é o essencial, porque, neste momento caótico e preocupante, muitas vezes desanimador, saber que existe alguém bom, honrado, atento, digno, é uma dádiva.

Apesar de todas as nossas dificuldades e imperfeições, as coisas humanas são o melhor de tudo – e isso nem um Everest de dinheiro, de grandeza, de importância ou de poder poderá substituir.
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* Escritora. Tradutora. Colunista da ZH
 lya.luft@zerohora.com.br
Fonte: http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a9797090.xml&template=3916.dwt&edition=31212&section=70
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A mesa das crianças

 Martha Medeiros*
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Nunca escondi que meu maior desejo de criança era me tornar adulta. Desde pequena, intuía que seria a parte mais divertida da minha história

Outro dia li um artigo que denunciava como alienante uma prática familiar: a de excluir as crianças da mesa dos adultos na hora das refeições, preparando uma separada para elas.

Quando eu era criança, isso acontecia apenas em dia de festa, quando havia muitos convidados. Nos almoços e jantares diários, em casa, comíamos todos juntos, lógico. Porém, o artigo condenava até mesmo que se fizesse essa separação em ocasiões especiais. Segundo o autor, a prática é traumática e impede a criança de estreitar o vínculo com o pai e a mãe.

Eu devo estar virando matusalém antes do tempo, pois já entrei na fase de achar que tudo isso é mimimi, que estão promovendo besteiras como se assunto sério fosse.

Nunca escondi que meu maior desejo de criança era me tornar adulta. Desde pequena, intuía que seria a parte mais divertida da minha história (uma amiga, outro dia, escutou eu dizer isso e me olhou com uma candura que até me comoveu, ela chegou a murmurar um “coitada” entre os lábios, mas cada qual com seu defeito de origem, esse é um dos meus e nem é dos mais graves). Brincar de boneca, andar de balanço, pedalar, subir em árvore: tudo muito emocionante, eu adorava. Mas o que dizer sobre viajar para Londres, namorar, pegar uma estrada, ver filmes até tarde, beber vinho, ler livros sem figuras – tem comparação? A mim sempre pareceu um confronto desleal. Se alguém aí levantar a questão da inocência perdida, a boa notícia é que a minha segue firme e forte. Somos todos crianças grandes, só as brincadeiras é que mudaram.

Pensando assim, seria de se esperar que eu não aprovasse a ideia de sentar numa mesa só para crianças, sendo excluída do mundo adulto, mas eu sentia justamente o contrário: estando em meio aos adultos, eu teria alguém para servir meu prato, para me mandar repetir a lasanha, para vigiar meus modos, e eles conversariam entre si em voz baixa ou através de metáforas sobre algo que considerassem impróprio aos meus ouvidos, o que era humilhante.

Numa mesa sem a presença deles, eu poderia brincar de ser gente grande, enfim.

A mesa era menor, improvisada, exclusiva para meus primos e eu, todos mais ou menos com a mesma idade – pouca. Eu me sentia num restaurante entre amigos, sem nenhuma vigilância, exercendo um papel que eu não via a hora de estrear pra valer: o de estar sob minha própria responsabilidade. E conversando sobre assuntos que os adultos não poderiam escutar, claro. Direitos iguais.

Pelo visto, ainda sou bem infantil, pois quase tudo que a pedagogia considera um trauma, eu encaro como aventura.
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* Escritora. Colunista da ZH
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a9796569.xml&template=3916.dwt&edition=31212&section=1026
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sábado, 20 de maio de 2017

Juan Pablo Escobar: “Agradeço aos meus inimigos terem-me tirado todo o dinheiro do meu pai”

 

Juan Pablo Escobar só há pouco voltou a usar o apelido. Escreve livros que dão conta da violência, da solidão, do perigo que envolveu a sua infância. Luta agora contra a glorificação do narcotráfico.
Como numa espécie de distopia futurista, passada nos primórdios do assalto televisivo dos reality shows, Juan Pablo Escobar ficou a saber da morte do seu pai através de um jornalista que lhe apontava ao rosto jovem, vermelhusco e saudável, uma câmara de televisão pronta a captar os primeiros momentos do choque.

Juan Pablo tinha 16 anos e, logo ali, em direto para toda a Colômbia, que tinha acabado de saber da morte do maior traficante de droga de que algum dia aquele país tinha ouvido falar, jurou vingança aos culpados. Fez uma pausa, a câmara ainda em cima dele, e retirou o que tinha dito, poucos minutos depois. Não se queria vingar, só queria paz; se é que paz é coisa que se possa pedir quando se carrega o nome Escobar.

O pai de Juan Pablo terá matado, ou encomendado a morte, a cerca de três mil pessoas. Trinta e nove anos passados e é Juan Pablo — agora Sebastian Marroquín, um nome falso tirado de uma lista telefónica por falta de tempo para escolher outro — que anda a fazer as pazes em nome da sua família junto dos milhares de pessoas que perderam familiares numa guerra entre cartéis de droga rivais, na qual Escobar foi um dos maiores estrategas.

Garante que ninguém apanhou o pai, ele é que escolheu “ser apanhado”. Até porque o local onde se encontrava só foi descoberto pelas autoridades depois da triangulação de uma chamada a partir do radiotelefone de Pablo Escobar, aparelho que ele quase nunca usava — “O telefone é a morte”, costumava dizer Escobar. No dia 2 de dezembro de 1993, falou com a família durante longos minutos. “Ele sabia o que ia acontecer. Estava farto de ter a sua família ameaçada e suicidou-se, como sempre me disse que ia fazer. Dizia-me ‘filho o meu revólver tem 15 balas, 14 para os meus inimigos e uma para mim’ “. Para a posteridade ficam as imagens do pai de Juan Pablo encurralado num prédio de Medellín, “vitória” que as autoridades americanas — e também as colombianas — reclamam, mas Juan Pablo não tem dúvida que ele se deixou apanhar.
“Poderia, com uma grande facilidade, ou pelo menos com mais facilidade do que outra pessoa qualquer, ser uma espécie de versão 2.0 de Pablo Escobar“, disse Juan Pablo ao Observador numa entrevista em Lisboa, uma das centenas de cidades que anda a visitar para promover o seu livro Pablo Escobar — O que o meu pai nunca me contou. Hoje vive na Argentina, é arquiteto, e corre o mundo a falar a favor a descriminalização das drogas e contra a “criminalidade organizada” da classe política. Este livro é o sucessor de Pablo Escobar, o Meu Pai, editado em 2015, no qual Juan Pablo descreve como foi ser criança no seio do temível cartel de Medellín, ter como melhores — e únicos — amigos um bando de assassinos a soldo, e uma coleção de motas de competição antes de entrar na adolescência.

Neste livro, as histórias são outras. O foco passa da vida familiar para as histórias de toda a gente que se meteu no caminho de Pablo Escobar: uns com um fim trágico, outros, menos, tornaram-se confidentes do barão e embarcaram com ele em loucuras que Juan Pablo conta em jeito policial. São as cenas que nunca chegaram a entrar em “Narcos”, a série norte-americana do Netflix baseada na vida do seu pai que Juan Pablo despreza. Ele já vai explicar porquê.

Começa o seu livro com uma dedicatória às mulheres na sua vida. Que papel tiveram elas no caminho que escolheu, tão diferente do do seu pai?
Vocês trazem paz. O mundo deveria estar nas vossas mãos e não nas nossas. As mulheres são mais maternais, mais respeitadoras, mais visionárias, mais sensíveis. Nós somos brutos, toscos, não vemos além do nosso ego.

Será que uma mulher poderia ter feito o que seu pai fez? Poderia ter existido uma mulher capaz de gerir um negócio tão violento, uma teia tão crua de interesses?
O meu pai dizia que as missões mais difíceis sempre tinham sido encomendadas a mulheres.

Diz outra coisa também logo no início, quando começa a enumerar aquilo de que o seu pai abdicou ao escolher a vida que escolheu. A certa altura diz: “Ele perdeu a oportunidade de passar muito mais anos ao lado da minha mãe”. A sua mãe sempre apoiou o seu pai?
Sempre, sempre. Hoje é diferente, as mulheres são mais independentes, mas na altura era uma sociedade ainda muito machista e até as mulheres aceitavam esse machismo como parte da sua cultura. Eu lembro-me de a minha avó me dizer que não lavasse os pratos, dizia ‘deixa isso, deixa isso, isso é trabalho para as mulheres’, ‘mas que mal tem lavar um prato?’, pensava eu. Mas era assim. A minha mãe não concordava com a violência, claro, nunca quis uma arma, e estava preocupada com a família, mas foi-lhe sempre leal. Mantinha-nos o mais “normais” possível, tentando sempre escudar-nos da vida paralela do meu pai, que sempre foi um pai carinhoso e protetor à maneira dele. Dizia sempre que a pessoa que fosse apanhada a consumir droga à frente da família era uma pessoa morta.

"Conheci os assassinos mais sanguinários que podes imaginar nos teus pesadelos e fiz as pazes com todos eles. Eles querem a paz porque é uma necessidade, a partir de um certo ponto. A experiência que tenho tido mostrou-me que as pessoas e as famílias que sofreram a violência da guerra que o meu pai travou com os seus inimigos, apesar de serem aquelas que poderiam ter mais ódio, mais sede de vingança nos seus corações, afinal são as que mais disposição têm para lutar pela paz, pela reconciliação, pelo amor."
Sebastian Marroquín, arquiteto, escritor e filho de Pablo Escobar 
 
Ao longo do livro diz muitas vezes, por estas ou outras palavras, que “a paz e a reconciliação não são utopias”. Nem na Colômbia depois de 50 anos de guerra civil?
Não são, em nenhuma parte do mundo. Conheci os assassinos mais sanguinários que podes imaginar nos teus pesadelos e fiz as pazes com todos eles. Eles querem a paz porque é uma necessidade, a partir de um certo ponto. A experiência que tenho tido mostrou-me que as pessoas e as famílias que sofreram a violência da guerra que o meu pai travou com os seus inimigos, apesar de serem aquelas que poderiam ter mais ódio, mais sede de vingança nos seus corações, afinal são as que mais disposição têm para lutar pela paz, pela reconciliação, pelo amor. Imagino que sejam assim porque não querem que o mesmo suceda aos seus filhos e a outras famílias.

Pergunto-lhe isto porque a Colômbia começou há menos de um ano, em força, a reintegração dos guerrilheiros das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). É possível esse perdão total?
É muito necessário. E é possível porque os colombianos estão cansados da guerra. Há seis milhões de refugiados internos. Estamos fartos, não queremos mais histórias de violência. E todos temos responsabilidade no próximo capítulo. Se dificultarmos a integração dos militares, se nos tornamos violentos, então eles também vão ser violentos.

Os colombianos estão cansados? O país votou contra os acordos de paz…
Acho muito triste que as pessoas tenham votado contra a paz. Preferiram a violência e isso é uma vergonha para mim. Como é que é possível pensarmos que é através da violência que iremos solucionar qualquer problema? É uma esperança de submissão, não de paz. É uma loucura. Mas há uma coisa que considero ainda mais louco. Que tenha passado pela cabeça do governo perguntar aos colombianos se queriam paz ou guerra. Que pergunta é esta? Isto não se pergunta, anuncia-se. A paz é mais constitucional do que qualquer direito.

Apesar de ter seguido um caminho completamente diferente do do seu pai, o seu nome, que está na capa deste livro, ainda continua a ter um grande peso, ainda “vende”, basta olhar para os filmes e as séries feitas com base na sua vida. Recebe algum desse dinheiro?
(Risos) Não, claro que não. É uma história conhecida, qualquer pessoa a pode utilizar, mas não posso é aceitar a forma como os factos são contactos. “Narcos” foi um enorme sucesso, mas aquilo não é a história da minha família, não é a história do meu pai, é uma glorificação do narcotráfico que não tem nada de romântico. A Netflix, a cadeia de televisão Caracol, jornais, todos fizeram fortunas com a vida do meu pai, eu só tenho os livros. Sou a pessoa que menos dinheiro viu, que menos dinheiro fez, que menos usufruiu.
Já muitas vezes falou contra “Narcos”. Chegou a oferecer-se para ser consultor na série, mas recusaram. O que é que não está bem contado?
Há várias coisas pouco factuais, mas o mais importante é a ausência de certos episódios que eu decidi contar neste livro que mostram como os norte-americanos também estavam metidos no tráfico e, claro, os Estados Unidos não querem que isso se saiba. Esqueceram-se de contar a história do seu próprio Pablo Escobar, o homem da CIA. Que estranho que justamente os Estados Unidos se esqueceram de Barry Seal [piloto, traficante e informador da Drug Enforcement Administration — DEA]. Que curioso, não? Pablo Escobar e Barry Seal eram o mesmo, cada um no seu país. Mas a CIA e a DEA, que foram consultores na série “Narcos” [Steve Murphy e Javier Pena, agentes da DEA aparecem como os arquitetos do cerco a Escobar] esqueceram-se da sua existência? Incrível. Primeiro agente da CIA assassinado por homens de Pablo Escobar em solo americano e não contam essa história? Interessante…

A história de Barry Seal

“Adler Barriman Seal, que preferia ser conhecido por Barry Seal, foi um conhecido jovem piloto norte-americano que trabalhou para várias companhias aéreas comerciais e teve a ousadia de, ao mesmo tempo, ser agente infiltrado da CIA, informador da DEA e piloto do meu pai nos primeiros tempos década de 1980, na época dourada do cartel de Medellín. Aos 24 anos de idade, Seal foi o mais jovem piloto a voar sozinho pela companhia norte-americana TWA. Era tão audaz que se tornou membro ativo da Civil Air Patrol, uma organização criada em 1930 por aviadores civis que ofereciam o seu talento para defender voluntariamente o território norte-americano com os seus próprios aviões.
(…)
Depois de vários anos como piloto comercial, Seal ajudou a CIA com voos ilegais que entraram nos Estados Unidos carregados com heroína para financiar diferentes conflitos no mundo, principalmente operações anticomunistas. Mas a ambição rapidamente o levou à cadeia: em 1979 foi detido nas Honduras, acusado de tráfico de droga. Ficou nove meses numa prisão em Tegucialpa, onde conheceu o piloto colombiano Wiliam Rodríguez, que foi quem lhe propôs trabalhar para o cartel de Medellín. Já em liberdade, Seal destacou-se como piloto dos seus próprios aviões e dos aviões do meu pai e notabilizou-se pela sua audácia na transferência de toneladas de coca da Colômbia para o sul da Florida. 

Pelo que me contaram de Seal, é fácil entender porque conseguiu ganhar o afeto do meu pai: porque era capaz de tudo e porque, de certa forma, foi percursor de vários métodos para introduzir drogas e armas no coração dos Estados Unidos (…).

Mas a meteórica carreira de Seal foi interrompida pela agência anti-droga dos Estados Unidos, a DEA, que o deteve nos primeiros meses em 1984, em Miami, sob a acusação de lavagem de dinheiro e venda de Quaalude, um poderoso sedativo com propriedades hipnóticas que os jovens na altura utilizavam como droga recreativa (…).

Perante a possibilidade de passar vários anos na prisão, Seal não teve outra opção a não ser assinar um acordo com a justiça para denunciar os seus sócios colombianos. (…) Os norte-americanos montaram uma temerária operação na qual Seal pilotaria um avião com uma potente máquina fotográfica escondida na fuselagem. A ideia era fazer prova das ligações do regime sandinista [movimento revolucionário do Nicarágua que deve o nome ao líder esquerdista Augusto César Sandino] à máfia colombiana. (…)

Na noite de 25 de Maio de 1984, Seal aterrou e ordenou ao co-piloto que acelerasse a fundo enquanto ele esperava pelo momento adequado para tirar as fotografias. Berry Seal acabou por obter, às escondidas, as imagens reveladoras do exato instante em que o meu pai, o “Mexicano” [aliado de Escobar] e Federico Vaughn, um funcionário de alto nível do Ministério do Interior da Nicarágua, colaboravam com vários soldados nicaraguenses para fazer subir a bordo quatro sacas com 600 quilos de cocaína. (…) 

Seal aterrou nessa mesma noite no aeroporto da base aérea de Homestead, no extremo sul da Flórida. Naquela altura, o meu pai e o “Mexicano” eram ambos foragidos da justiça na Colômbia, onde eram procurados para responder pelo assassinato do ministro da Justiça Rodrigo Lara Bonilla, a 30 de abril de 1984. A sequência fotográfica, na qual aparecem o meu pai e o “Mexicano”, foi publicada em meados de julho em vários jornais dos Estados Unidos. O documento gráfico era incontestável, uma vez que tinham apanhado o meu pai com as mãos na massa. Barry Seal tinha-o atraiçoado e isso custar-lhe-ia a vida.

(…)
Finalmente, Barry Seal foi assassinado às seis da tarde de dia 19 de fevereiro de 1986 pelos homens enviados pelo meu pai, que o tinham localizado num parque de estacionamento numa filial do Exército da Salvação quando se preparava para estacionar o seu Cadillac branco modelo de 1979. Luis Carlos Quintero disparou uma rajada da pistola-metralhadora Ingram MAC-10 calibre 45 com silenciador (…)”

A história do filho de Barry Seal, Aaron, também é muito triste. Ele não fala com a irmã dele porque ficou com alguns dos lucros por ter sido consultor em um filme sobre o pai. Sofreu muito também e a mãe dele nunca recuperou… A sua família, por outro lado, mantém-se unida?
Sim, é verdade. É um grande exemplo de como, estando viva, uma família pode nunca mais recuperar do trauma de ter tido um membro envolvido — e morto — por culpa do narcotráfico. A minha família é muito unida, a que tenho agora, mas não falo com a família do meu pai. A minha família é a minha irmã, a minha mãe, a minha mulher e os meus filhos. Eles entregaram o meu pai, foram desleais ao meu pai. Ajudaram a que o meu pai, no final, não visse mais nenhuma saída.

"Acho muito triste que as pessoas tenham votado contra a paz. Preferiram 
a violência e isso é uma vergonha para mim. Como é que é possível pensarmos 
que é através da violência que iremos solucionar qualquer problema? É uma esperança de submissão, não de paz. É uma loucura."
Sebastian Marroquín, arquiteto, escritor e filho de Pablo Escobar 
 
Fala também na glorificação da atividade do seu pai. Os adolescentes com quem vai contactando, dizem-lhe que querem ser o seu pai…
É impressionante. Tenho centenas de fotos, centenas de vídeos de jovens de todo o mundo, dos Estados Unidos ao México, de Itália ao Irão. Enviam-me e-mails a dizer que querem ser “narcos”, perguntam-me como se faz, quais os passos a seguir. É muito triste. Enviam-me fotos onde se vestem como o meu pai, cortam o cabelo como o meu pai, deixam crescer um bigode como o dele, fazem tatuagens alusivas à série Narcos. Eles têm milhões de dólares para gerar um milhão de fanáticos que querem ser Pablo Escobar, eu tenho poucos dólares e 700 páginas para os convencer que não o façam.

E a si, nunca lhe passou pela cabeça tomar o lugar do seu pai? Voltar a erguer o cartel de Medellín, ter esses milhões todos?
As pessoas não sabem o que é estar lá dentro. Tive tanto dinheiro e nunca me senti tão pobre como na altura em que mais dólares entravam naquela casa. Passei fome, frio, solidão, medo, tudo isto enquanto chegavam milhões e milhões de dólares a casa do meu pai. Tínhamos sacos de dólares mas vivíamos em esconderijos sem condições sanitárias. Tínhamos sacos de dólares mas não podíamos pegar neles para ir ao supermercado.

Os cartéis dissiparam-se ou continuam a existir?
Apenas mudaram de nome, não é Samsung é Apple, entendes? Não é cartel de Medellín é outro grupo com outro nome. E isto só acontece porque as drogas são proibidas. O meu pai dizia sempre que não lhe interessavam negócios legais, só os ilegais. Porquê? Porque só assim se ganha dinheiro.

Qual é a solução?
As drogas têm que passar a ser legais. Os recursos dos traficantes têm que passar para as autoridades só que as autoridades também ganham muito dinheiro com isso. Cem anos de proibição e cada vez mais violência, mais corrupção, mais droga disponível, mais venda de armas, mais organizações criminosas que até submarinos têm.

"Tenho milhares de fotos, centenas de vídeos de jovens de todo o mundo, 
dos Estados Unidos ao México, de Itália ao Irão. Enviam-me e-mails a dizer que querem ser "narcos", perguntam-me como se faz, quais os passos a seguir. É muito triste. Enviam-me fotos onde se vestem como o meu pai, cortam o cabelo como o meu pai, deixam crescer um bigode como o dele, fazem tatuagens alusivas à série."
Sebastian Marroquín, arquiteto, escritor e filho de Pablo Escobar 
 
A proibição, na sua opinião, piora as coisas. Porquê?
Nós confiamos nos nossos governantes, que supostamente elegemos para nos protegerem. Não será um traficante que se preocupará com o povo. Primeira regra de um grande negócio: proíbe o teu produto. Se proibissem os meus livros eu venderia o triplo. Se proibires a pizza vai haver uma guerra pela pizza. A proibição é a forma mais eficaz de gerar violência. Não conheço outra tão boa. Há muita gente que ganha muito dinheiro com isto, não lhes importa as pessoas que morrem e que as que ficam vivas fiquem com as vidas destruídas. Desde que os seus bolsos estejam cheios isso basta-lhe para estarem felizes. O verdadeiro crime organizado é a política. Não creio que os políticos sejam um bom exemplo para a sociedade. A sua corrupção e as suas políticas só os fazem parecer-se a mafiosos, mais do que a funcionários públicos. Os bandidos ao menos assumem esse papel, os outros andam escondidos debaixo de um fato.

Tem falado em várias conferências…
Permanentemente.

Sempre junto de públicos jovens?
Não, também em empresas públicas e privadas como bancos privados, por exemplo. E também junto de várias forças de segurança, públicas ou privadas.

Dos jovens que conheceu, através da internet, nas suas conferências, há alguma história que o tenha marcado, alguém a quem tenha “convencido” que a vida de um narcotraficante não era a ideal?
Há uma história de um rapazinho pequeno, talvez de uns doze anos que, numa das apresentações que fiz nos Estados Unidos, veio ter comigo e deu-me uma carta. No fim da sessão li a carta e ele dizia que tinha visto muitas coisas sobre o meu pai e que a brincadeira preferida deles era fingir que eram narcotraficantes. Ele decidiu ler os meus livros e explicou aos amigos que coragem a sério era não ser criminoso porque passar por cima dos outros para chegar longe é fácil, competir com os melhores é que é difícil.

O que é que diz a uma plateia de bancários?
Que quando não dão uma conta bancária a uma pessoa como eu estão a convidar à ilegalidade. Porque eu quero entrar num banco não é para roubar o banco nem lavar dinheiro. Quero ir a um banco para que as minhas contas sejam claras, para que possam ver o dinheiro que tenho e o que faço com ele e de onde vem. Não vou ser tão estúpido para ir a um banco tentar fazer trafulhices com o nome que tenho. É um insulto à minha inteligência. Essa medida discrimina muitas pessoas como eu. A banca está a incitar a criminalidade, e é também sua responsabilidade, não apenas nossa, dos que estamos a tentar encontrar o caminho da legalidade, promover a integração das famílias com um passado como o meu ou de ex-reclusos, por exemplo.

Ainda não pode entrar nos Estados Unidos…
Nem poderei, depois deste livro. A menos que eu acredite na vida depois da morte…
"Se proibires a pizza vai haver uma guerra pela pizza. A proibição é a forma mais eficaz de gerar violência. Não conheço outra tão boa. Há muita gente que ganha muito dinheiro com isto, não lhes importa as pessoas que morrem e que as que ficam vivas fiquem com as vidas destruídas."
Sebastian Marroquín, arquiteto, escritor e filho de Pablo Escobar 
 
O seu pai esteve sempre rodeado de pessoas que lhe juravam lealdade mas é impossível saber quem são mesmo os amigos num mundo desses, ou guarda alguns?
A maneira de eu definir o meu pai e a sua família é a seguinte: se me perguntares qual era o membro mais correto de toda a família do meu pai eu diria Pablo Escobar, imagina o resto. O meu pai era uma pessoa terrível com os inimigos, a sua ambição estava acima de quase qualquer coisa e por isso ele fazia coisas terríveis, mas a família estava um pouco acima disso ainda. Foi um bom pai. Ele sabia quem era a família dele, no fim disse-me isso, que sabia que o trairiam. Guardo alguns amigos, mas uma mão chega para os contar.

Uma das coisas que mais marca o seu livro são as histórias que demonstram a impunidade com que os membros do cartel de Medellín operavam na cidade: comprava-se um polícia para ele deixar passar um carro em direção à fronteira, compravam-se juízes, advogados, chefes de polícia e até há uma história que relata os maços de notas que os homens do seu pai foram dando a toda a gente que viam à frente até chegarem ao local onde estava preso um dos colaboradores que o seu pai queria reaver.
Todos nós adoramos ao Deus dinheiro, você não? O que se passa é que alguns de nós têm limites e não querem dinheiro a qualquer preço.

O resgate de Orelhas

[O contexto em que acontece o resgate de Orelhas é relatado primeiro por Juan Pablo que depois coloca em discurso direto um dos intervenientes na operação]

“(…) Agentes do Departamento Administrativo de Segurança, o DAS, capturaram, em Medellín, o Orelhas, encarregado de lavar, no Panamá, boa parte do dinheiro que a cocaína rendia em Miami. O Orelhas era tão importante na engrenagem da organização que os Estados Unidos imediatamente solicitaram a sua extradição. A sua detenção significava um golpe para o cartel de Medellín, porque o Orelhas tinha os contactos para abrir contas correntes nos bancos da Cidade do Panamá, onde depositava os recursos que o tesoureiro do meu pai tinha à sua guarda em Miami, e que depois transferia — por canais normais — para os bancos de Medellín (…).

Através de um contacto no DAS, o meu pai soube que o Orelhas seria enviado para os Estados Unidos às cinco da manhã do dia seguinte e decidiu resgatá-lo. Para o fazer, encarregou o Kojack, um dos homens mais audazes do grupo de sicários que o rodeava. Mas a operação implicava um grande risco, porque o Orelhas estava em reclusão na sede do DAS, no setor de Ayacucho, uma velha casa onde nunca estavam menos de 20 funcionários em turnos de 12 horas. Por isso o meu pai deu 62 milhões de pesos a Kojack para subornar quem quer que fosse preciso para resgatar o Orelhas.
(…)

Claro que os funcionários se assustaram quando eu disse ‘vamos lá ver quantos maricas há aqui. Não comecem com parvoíces que há aqui muita massa!’ Todos ficaram em silêncio e começámos a distribuir o dinheiro. Aos técnicos das impressões digitais, que eram seis, demos um milhão a cada um; ao encarregado das chaves do calabouço, demos 500 mil; a dois datilógrafos, 800 mil; à telefonista, um milhão e meio, para que não atendesse as chamadas; à senhora da cafetaria, que ficou toda feliz, 200 mil; e foi assim com todos, até chegar ao chefe do escritório, um inspetor do DAS, a quem dei oito milhões. Mas quando fomos buscar o Orelhas, quase não o encontramos, porque estava escondido, bem enroscado, debaixo de uma secretária. Pensava que o vinham matar porque já o tinham ameaçado. Dissemos aos que estavam armados que começassem a disparar para o teto quando saíssemos, que nós responderíamos com disparos para o ar, para que parecesse um resgate com muitos tiros.

Pode ir à Colômbia?
Posso. Mas não devo ficar muito tempo.

Ainda teme pela sua vida ou que atentem contra a sua família?
Nunca se sabe.

Ainda procuram dinheiro ou dinheiro e vingança?
Os que têm o poder de tirar-me esse dinheiro já o tiraram.

Todo? Falamos de um homem que no auge do seu poder dominou 80% do tráfico de cocaína e heroína que entrava nos Estados Unidos e é o próprio Juan Pablo que diz no livro que o seu pai fazia cerca de 70 milhões de dólares por fim de semana.
O meu pai ganhava e gastava. Não há violência grátis. Nenhum outro traficante ficou tanto tempo no poder como o meu pai e isso compra-se a preços proibitivos, a impunidade é o bem mais precioso para um homem como o meu pai mas paga-se muito por ela. O Estado, os inimigos, a família dele, ficaram com o que restou. A mim fizeram-me o favor de mo tirar.

Acho que entendo, mas explique nas suas palavras: favor porquê?
Porque me deram a liberdade de ser o que sou. Se eu tivesse esse legado comigo estaria morto, ou louco ou seria dono de uma ilha e não deixaria entrar ninguém, estaria isolado. Agradeço aos meus inimigos que mo tenham tirado. O meu nome ainda pode valer alguma coisa, mas agora é mais por amor do que por violência. Eu considero o amor mais poderoso.

Era preciso ser louco para se ser bom na Colômbia nos anos 80 e 90?
Uh! Tinhas que ser completamente chanfrado! Mesmo fora desse circuito dos cartéis não dizer nada é pactuar. E eu não quis fazer isso e não te sei dizer como sobrevivi. O caminho para a sobrevivência, e, ao mesmo tempo, para a morte, era converter-me em Pablo Escobar. O mais fácil era ser o meu pai apesar de tudo. Eu creio que destruir é mais fácil, muito mais fácil que fazer o bem, por isso fazer o bem é um ato de rebeldia às vezes, em certos países e em certos momentos históricos.
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REPORTAGEM POR ANA FRANÇA
Fonte:  http://observador.pt/especiais/juan-pablo-escobar-agradeco-aos-meus-inimigos-terem-me-tirado-todo-o-dinheiro-do-meu-pai/