quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Separação e divórcio: a criança no centro do conflito conjugal (segunda parte)


Entrevista com a psicóloga Valeria Giamundo sobre as
consequências deste fenômeno na infância
Separações e divórcios, de acordo com inúmeros estudos, são os eventos mais "estressantes" para a vida de uma pessoa, atrás apenas da morte de um parente próximo.
Os danos que esses eventos causam são irrevogáveis e podem ocorrer mesmo depois de muito tempo, especialmente em crianças, com efeitos que vão desde problemas sociais a dificuldade em manter laços duradouros.
Afirmou à Zenit, em entrevista publicada ontem, a Dra. Valeria Giamundo, psicóloga e psicoterapeuta, que nos últimos vem desenvolvendo estudos sobre o desenvolvimento de um modelo de tratamento para crianças e adolescentes na elaboração da separação dos pais. Abaixo está a segunda parte da entrevista.
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Existem regras de comportamento que podem orientar os pais na gestão dos filhos durante a separação?
Dra. Giamundo: De acordo com especialistas, para proteger a criança, os pais devem observar três princípios fundamentais:
1) assegurar as condições de continuidade das situações mais pragmáticas, como os ritmos do sono e das refeições, os compromissos extra-curriculares, etc ..;
2) garantir a previsibilidade, ou dar à criança a capacidade de prever determinados eventos, para aprender a antecipar o que vai fazer;
3) garantir a confiabilidade, dando pontos de referência afetiva para os filhos, para que se sintam realmente amados e apoiados em suas necessidades de crescimento pessoal.

A família alargada é uma questão muito debatida nos últimos anos. Muitos filmes tratam do assunto e, muitas vezes, mostram que superado os problemas, há sempre um Happy End . Na realidade, como as crianças percebem essa mudança?
Dra Giamundo: A transição da família unida para a família separada é muitas vezes acompanhada pela formação de novos núcleos familiares, e isto requer um maior esforço de adaptação para a criança.
A capacidade de aceitar e integrar em uma nova configuração famíliar depende da sensibilidade dos pais e da integração gradual no novo núcleo: eles não devem impor um tempo e uma maneira que não leve em conta as características individuais dos filhos.
Se a criança não aceitou a separação dos pais, pode sentir o novo parceiro como um intruso e sua experiência de abandono pode ser acompanhada por sentimentos de traição ou de exclusão.
O conhecimento e a presença do novo parceiro deve ser gradual e discreta, com um cuidado especial para evitar a "armadilha" da competição e da provocação. Se o pai/mãe que "sofreu" a separação não aceitar a idéia do novo companheiro, a criança ficará presa no conflito de lealdade, e a possibilidade de construir um bom relacionamento será impedida.

Um Happy End, portanto, parece muito difícil ....
Dr. Giamundo: Pelo contrário, os resultados dependem das atitudes dos pais e de seus respectivos companheiros. O final feliz é possível, mas se deve trabalhar. Não apenas com a intervenção profissional, mas refiro-me à vontade do pai em questinar-se, em participar ativamente e com maior consciência do complexo processo de separação.

Qual é a função dos psicólogos nestes casos?
Dr. Giamundo: O profissional deve primeiramente explorar a possibilidade de uma reconciliação, mas se não houver condições que favoreçam a reunificação, sua função será a de facilitar a elaboração do evento; estimular no adulto a consciência das muitas implicações que este evento possa ter sobre a família, tanto em um nível emocional – como no psíquico concreto - organizativo.

E no que diz respeito ao tratamento da criança ?
Dr. Giamundo: No caso da criança, a intervenção deve centrar-se na compreensão, na aceitação, no processamento da separação dos pais.É importante ajudá-la a reconhecer as emoções geradas, incluindo sentimentos de raiva e frustração, ambivalência afetiva ou senso de culpa, porque as crianças muitas vezes se sentem responsáveis ​​pelo evento. Nesse sentido, nos últimos anos eu tenho aplicado a terapia de grupo, que provou ser particularmente eficaz para crianças.

Como funciona essa terapia?
Dr. Giamundo: As crianças enfrentam os problemas relacionados à separação em grupos homogêneos por idade, de 4 ou 5 participantes. Eles compartilham o sofrimento, se confrontam e se apoiam mutuamente. A criança olha para o problema com mais coragem, aproveitando as experiências dos outros. O papel do terapeuta é estimular o confronto recíproco, ajudando a expressar o próprio estado de animo e a encontrar novas soluções para facilitar a adaptação. Para ter sucesso, porém, o tratamento das crianças deve ser acompanhado por intervenções de apoio à figura dos pais.

Quem procura a senhora: os pais por espontanea vontade ou os pais a pedido dos filhos?
Dr. Giamundo: Normalmente os pais procuraram aconselhamento para si ou para seus filhos. Na melhor das hipóteses - estou me referindo a esses pais que são particularmente sensíveis e atentos - a consulta é procurada em um estágio anterior ao da separação, para ser guiado e orientado no processo: para entender, por exemplo, como comunicar aos filhos, como propor a mudança, reorganizar o ritmo de vida e assim por diante.
Mas quando o acompanhamento profissional é requisitado numa fase posterior, as motivações que estão por trás são relacionados as dificuldades para administrar o desconforto da criança, isto é, os pais notaram que são incapazes por si só de aliviar o sofrimento de seu filho .

Quais são os mais comuns?
Dr. Giamundo:
Um caso que muitas vezes se ouve é o de crianças, com idade a partir de 10 anos, que pedem aos pais para lhes fornecer ajuda profissional externa.
Estes, são casos em que se registra maior sofrimento, porque as crianças perceberam que o desconforto não é mais solucionável com a ajuda dos pais; mas também são os casos que têm um prognóstico mais positivo, já que a consciência do desconforto é combinado ao desejo de superá-lo, e a motivação para a mudança facilitará a recuperação de uma condição de serenidade e equilíbrio.
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Por Britta Dörre
(Tradução:MEM)
Fonte: Zenit.org. 29/02/2012
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Como reverter a feminização da pobreza

Stephanie Seguino
Os governos devem implementar leis contra a discriminação e programas de ação afirmativa que ajudem as mulheres a saírem da pobreza, disse em entrevista à IPS a economista Stephanie Seguino. O “financiamento para a igualdade de gênero” está no centro de alguns dos problemas de difícil solução que as mulheres enfrentam no mundo. Também define se existe, ou não, a vontade política de destinar recursos reais para solucioná-los ou simplesmente se fala sem chegar a nada de concreto.
Entre 27 deste mês e 9 de março, ministros e delegados da sociedade civil se reunirão na sede da Organização das Nações Unidas (ONU) por ocasião da 56ª sessão da Comissão sobre o Status da Mulher (CSM). A reunião deste ano é especialmente crucial porque avaliará até que ponto os governos cumpriram as promessas assumidas na 52ª sessão, em 2008, para estimular o financiamento destinado à igualdade de gênero e ao poder das mulheres.
Stephanie Seguino, professora de economia na Universidade de Vermont, nos Estados Unidos, participará dos debates da CSM como integrante de um painel sobre experiências nacionais na implementação dos acordos de 2008. A IPS conversou com Seguino sobre como a atual crise econômica afetará as mulheres e sobre o papel dos governos na elaboração de políticas que promovam não apenas a igualdade, mas também um desenvolvimento sustentável para toda a sociedade.

IPS - Os baixos salários e o desemprego das mulheres são um problema persistente em todo o mundo desde muito antes da atual crise financeira. Como o financiamento da igualdade de gênero pode enfrentar estes assuntos?
Stephanie Seguino - Alguns dos problemas de baixos salários e desemprego das mulheres podem ser tratados por uma perspectiva de gênero ao se abordar os gastos públicos, bem como as políticas antidiscriminatórias. Claramente, são cruciais as políticas para promover a educação das meninas. Entretanto, mais do que isso, as políticas para reduzir a carga que implicam para as mulheres os cuidados de outras pessoas e para promover a participação dos homens nas tarefas de cuidados não remuneradas – como a licença paternidade – liberam tempo das mulheres para realizarem trabalhos pagos. Também ocorre que os investimentos públicos em infraestrutura, que melhoram o acesso das mulheres aos cuidados com a saúde – clínicas rurais, pessoal qualificado – e reduzem o tempo que passam em busca de água e combustível, ou levando produtos ao mercado, as ajudam a participar de atividades produtivas.
Os programas de capacitação dirigido a mulheres, especialmente para postos “masculinos” não tradicionais, são importantes. Nas economias agrícolas, os governos podem oferecer garantias de empréstimos onde as mulheres carecem de títulos de propriedade sobre a terra para facilitar seu acesso a créditos. Contudo, mesmo estas medidas serão insuficientes para combater a desigualdade salarial. Os governos têm que desenvolver e aplicar firmemente legislação antidiscriminação, e programas de ação afirmativa. Os governos podem servir como modelos, garantindo que um mínimo de postos de liderança seja ocupado por mulheres, 30%, ou mais.

IPS - A Declaração do CSM de 2008 expressa preocupação pela “crescente feminilização da pobreza”. Isto é uma tendência com probabilidades de continuar no futuro próximo?
SS - As forças da globalização continuam pressionando para baixo os salários dos trabalhadores, o que faz ajustar os orçamentos do setor público (devido à menor carga tributária corporativa e às reduções das cobranças tarifárias). Assim, é provável que as mulheres tenham um mau desempenho, especialmente no contexto de um alto desemprego. Isto se deve à tendência de se considerar que os homens merecem mais os postos de trabalho quando estes escasseiam. Enquanto não resolvermos estas pressões macroeconômicas negativas, que reduzem o crescimento e causam escassez de emprego e maior desigualdade, será difícil resolver o problema da pobreza das mulheres e das crianças sob seus cuidados.

IPS - A senhora descreveu que “esta crise fornece uma oportunidade para repensar o papel do governo na economia”. Pode explicar brevemente essa ideia?
SS - Esta crise tem suas raízes na desregulação mundial das economias, que conduz a fracassos de mercado, ao aumento da desigualdade, junto com uma maior insegurança econômica. As empresas buscam ganhos frequentemente à custa de um bem-estar comum. Não se trata de condenar as corporações por seu comportamento. As firmas buscam maximizar seus lucros no contexto de normas sociais que regulam suas ações. Isto apresenta dois desafios para os governos.
Primeiro, devem identificar e aplicar uma série de normas e regulações que sejam suficientemente flexíveis para permitir às firmas inovarem, ao mesmo tempo em que exigirem que essas empresas alinhem seus objetivos de lucro com o bem-estar social. Para dar um exemplo, as companhias tentam reduzir seus custos para elevar os lucros. Podem fazer isto baixando salários ou inovando, e, portanto, elevando sua produtividade. Sua opção sobre qual caminho para reduzir custos escolher dependerá da série de incentivos que os governos determinarem. Se um governo fixar e implementar um salário mínimo, as companhias serão obrigadas a inovar para poderem competir, o que é bom para ela, os trabalhadores e a sociedade em sua totalidade.
Segundo, os governos têm um importante papel na hora de investir em áreas cruciais para atrair em grande quantidade os investimentos privados. Por exemplo, os investimentos em infraestrutura e educação são bons para os negócios porque reduzem seus custos. Também é bom para toda a sociedade. O desafio é abordar cuidadosamente estes gastos, para que consigam estimular os investimentos empresariais que levem a maiores rendas. Um desafio relacionado é identificar os investimentos que permitem uma abordagem de gênero.
Como disse antes, há parte do gasto público que antes se pensava como bem-estar social, e que, na realidade, é um investimento em infraestrutura social, por exemplo, em educação, saúde e programas de transferência condicionada de renda. São investimentos porque melhoram a capacidade produtiva da economia, gerando uma corrente de benefícios no futuro, que podem ser usados para pagar a dívida derivada de financiar estes gastos. O conceito de infraestrutura social não está bem desenvolvido. É um conceito importante e uma via importante para promover a igualdade de gênero de maneiras financeiramente sustentáveis.
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Reportagem por Mathilde Bagneres, da IPS

(Envolverde/IPS)
Fonte: http://mercadoetico.terra.com.br/29/02/2012

A carne artificial, o fim dos rebanhos e o meu tomate sem agrotóxico Ok!

Henrique A. Camargo*

Produção de carne em laboratório
A notícia é que um tal de doutor Mark Post, da Universidade de Eindhoven, na Holanda, conseguiu criar carne em laboratório. Ainda não é aquele bifão gordo e suculento que os fãs do churrasco adoram. Na verdade, os bifinhos, se é que podemos chamá-los assim, não passam de pequenas folhas de 3 centímetros de comprimento, 1,5 centímetro de largura e meio milímetro de profundidade. Um selo comemorativo qualquer deve ter mais massa do que isso. Para se fazer um hambúrguer digno de qualquer uma dessas redes de fast food, por exemplo, seriam precisos cerca de 3 mil unidades dessas coisinhas. E mesmo não havendo ainda estudo sobre a capacidade humana de digestão desse novo alimento, já sei que ele não cairia nada bem. O preço dessa guloseima é estimado em cerca de 600 mil reais (isso sem contar o pãozinho, a maionese e a alface). Nunca antes na história deste planeta a expressão “preço salgado” encontrou ocasião que lhe caísse tão bem.
Mas para ser bem honesto, não foi a fileira de zeros que mais me intrigou, até porque a famosa “escala industrial” poderia muito bem dar conta disso. O que me deixou confuso mesmo foi a afirmação de que até vegetarianos poderiam comer esse tipo de carne.
A justificativa é que uma vez não tendo que matar o animal, já que uma simples biópsia poderia retirar as células-troncos necessárias para se criar a carne de laboratório, estaria tudo bem.
Será?
A questão vegetariana vai além da matança animal. Talvez a morte seja o ponto mais cruel da alimentação carnívora, mas há um segmento do vegetarianismo que leva em conta também a escravização dos bichos. E nesse sentido, ainda seriam precisos “escravos” para oferecer suas células para a criação da carne artificial.
Por outro lado, caso o experimento se torne economicamente viável, pode ser que se acabe ou diminua drasticamente com os rebanhos comerciais no mundo. Isso, em teoria, proporcionaria mais terras livres para se plantar e reflorestar, diminuiria o consumo indireto de água e também haveria um corte gigante na emissão de gás metano pelos animais e de CO2 pelo desmatamento irregular.
É uma questão complicada, que ainda precisa de muito debate, inclusive moral. Enquanto isso, eu, ovolactovegetariano que sou, continuarei dando preferência aos meus tomates orgânicos.
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* Henrique é jornalista e pelo exercício da profissão apresenta uma forte tendência ao ceticismo. Para expressar sua busca pela neutralidade, veste roupas de tons neutros e sem estampas – com exceção daquelas belas camisas e camisetas coloridas que sua esposa gosta de presenteá-lo. Mas apesar de cético, acredita nas mudanças climáticas, na possibilidade de sua mitigação e na construção de um mundo mais amigável para a maioria das pessoas. Apesar de ainda não ter nenhum herdeiro, pensa seriamente em deixar um mundo melhor para seu filho, que em momento oportuno virá. No momento está se especializando em Gestão para a Responsabilidade Socioambiental, na Fundação Instituto de Administração (FIA)

O impasse sírio

Immanuel Wallerstein*

Bashar al-Assad carrega o peso de ser um dos homens menos populares do mundo. Quase todos o denunciam como tirano, um muito sangrento tirano. Mesmos os governos que se recusam a denunciá-lo parecem estar a aconselhá-lo a moderar os métodos repressivos e fazer algum tipo de concessões políticas aos seus opositores internos.
Mas então como ignora ele todos estes conselhos e continua a aplicar a máxima força para manter o controle político da Síria? Por que não há intervenção externa para provocar a sua derrubada? Para responder a estas questões, comecemos por avaliar as suas forças. Para começar, ele tem um exército razoavelmente poderoso e, até agora, com poucas exceções, o exército e outras estruturas repressivas do país permaneceram leais ao regime. Em segundo lugar, ainda parece contar com o apoio de pelo menos metade da população, naquilo que está cada vez mais a ser descrito como uma guerra civil.
Os postos-chave do governo e o corpo de oficiais das forças aramadas estão nas mãos dos alauítas, uma ala do Islã xiita. Os alauítas são uma minoria da população e temem evidentemente o que lhes poderia suceder se as forças de oposição, maioritariamente sunitas, tomassem o poder. Além disso, as outras forças minoritárias significativas – cristãos, drusos e curdos – também parecem temer um governo sunita. Por fim, a ampla burguesia mercantil ainda não se voltou contra Assad e o regime do Baath.
Mas isso é suficiente? Se os apoios fossem só esses, duvido que Assad pudesse manter-se por muito tempo. O regime está sendo sufocado economicamente. O Exército Sírio Livre, de oposição, está sendo abastecido de armas pelos sunitas iraquianos e provavelmente pelo Qatar. E o coro de denúncias na imprensa mundial, e de políticos de múltiplas tendências, aumenta de volume a cada dia.
Ainda assim, não creio que num ano ou dois assistamos à saída de Assad do poder, ou à mudança substancial do seu regime. O motivo é que aqueles que mais o denunciam não desejam de fato que ele caia. Vamos analisá-los um a um.
Arábia Saudita: o ministro dos Negócios Estrangeiros disse ao New York Times que “a violência tem de parar e o governo sírio não merece que lhe deem mais hipóteses”. Soa de fato muito duro, até que se descobre que o mesmo ministro acrescentou: “a intervenção internacional deve ser descartada”. O fato é que a Arábia Saudita quer ter o crédito de se opor a Assad, mas tem muito medo do governo que possa suceder-lhe. Sabe que numa Síria pós-Assad (provavelmente, bastante anárquica), a Al Qaeda encontraria uma base. E os sauditas sabem que o objetivo número um da Al Qaeda é derrubar o regime saudita. Logo, “nada de intervenção internacional”.
Israel: sim, os israelenses continuam obcecados pelo Irã. E sim, a Síria baathista continua a ser uma potência favorável ao Irã. Mas na hora de fazer as contas, a Síria tem sido um vizinho árabe relativamente tranquilo, uma ilha de estabilidade para os israelenses. Sim, os sírios ajudam o Hezbollah, mas o Hezbollah também se tem mantido calmo. Por que iriam os israelenses querer correr o risco de uma turbulenta Síria pós-baathista? Quem assumiria o poder? Não iria querer reforçar as suas credenciais ampliando a jihad contra Israel? E a queda de Assad não abalaria a estabilidade relativa que o Líbano parece agora desfrutar? O resultado não acabaria por ser uma renovação do radicalismo do Hezbollah? Israel tem muito a perder, e não muito a ganhar, se Assad cair.
Estados Unidos: a Casa Branca fala em tom elevado. Mas o leitor reparou como é cautelosa, na prática? O Washington Post deu, a um artigo de 11/2, o título: “Perante a carnificina, os EUA não veem ‘boas opções’ na Síria”. O texto sublinha que o governo dos EUA “não tem apetite para uma intervenção militar”. Nenhum apetite, apesar da pressão de intelectuais neoconservadores como Charles Krauthammer, que é suficientemente honesto para admitir que “não se trata apenas de liberdade”. Trata-se, diz ele, de desfazer o regime iraniano.
Mas não é exatamente por isso que Obama e os seus conselheiros não veem boas alternativas? Eles foram pressionados a entrar na operação da Líbia. Os EUA não perderam muitas vidas, mas será que obtiveram alguma vantagem geopolítica? O novo regime líbio – se é que se pode falar em novo regime líbio – é melhor que o anterior? Ou é o começo de uma longa instabilidade interna, como a que abalou o Iraque?
Assim, posso imaginar o suspiro de alívio de Washington, quando a Rússia vetou a resolução da ONU sobre a Síria. A pressão para iniciar uma intervenção de estilo líbio foi suspensa. Obama foi protegido contra o assédio republicano pelo veto russo. E Susan Rice, a embaixatriz dos EUA na ONU, pôde atirar toda a culpa para Moscou. Eles foram “repugnantes”, disse ela, oh, tão diplomaticamente.
França: Sempre nostálgica do papel outrora dominante do seu país na Síria, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Alain Juppé, grita e denuncia. Mas tropas? Deve estar a brincar. Há uma eleição à vista, e enviar soldados não seria nada popular, até porque, ao contrário da Líbia, a ação militar não seria um passeio.
Turquia: na última década, o país ampliou de forma incrível as suas relações com o mundo árabe. Ankara está de fato descontente com uma guerra civil nas suas fronteiras. Adoraria algum tipo de compromisso político. Mas o ministro dos Negócios Estrangeiros, Ahmet Davutoglu, teria garantido que “a Turquia não está a fornecer armas ou a apoiar desertores do exército”. A Turquia deseja essencialmente ter boas relações com todas as partes. Além disso, a Turquia tem a sua própria questão curda e a Síria poderia oferecer apoio ativo a esta minoria – o que, até agora, se absteve de fazer.
Portanto, quem quer intervir na Síria? Talvez o Qatar. Mas o Qatar, por mais rico que seja, está longe de ser uma importante potência militar. A conclusão é que, por mais que seja elevado o volume da retórica e por mais terrível que seja a guerra civil, ninguém quer realmente que Assad saia. Por isso, com todas as probabilidades, ele vai ficar.
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* Immanuel Wallerstein é sociólogoa norte-americano
Tradução, revista pelo autor, de Luis Leiria para o Esquerda.net
(Carta Maior)
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Pai com certificado

MARTHA MEDEIROS*
A primeira vez que escutei sobre a importância do nome do pai no registro de nascimento foi no ano passado, durante uma entrevista do empresário Luiz Fernando Oderich, fundador da ONG Brasil Sem Grades, que luta brava e insistentemente para diminuir a criminalidade atual. Sou admiradora desse cidadão que, a exemplo de outros homens e mulheres que perderam seus filhos de forma estúpida (o filho único de Luiz Fernando foi morto há 10 anos durante um assalto), dedicam grande parte de suas vidas a dignificar a sociedade em que vivemos. É com gratidão e respeito que o menciono.
Agora, o Fantástico inicia uma série em que bate na mesma tecla, a da importância do nome do pai na certidão, citando projetos semelhantes, como o Pai Presente e o Pai Legal. Num país onde cerca de 30 milhões de pessoas não possuem o pai identificado, conscientizar sobre esse assunto pode ajudar a reduzir o número de delinquentes nas ruas.
Claro que importa o tipo de pai que se é, mas antes de tudo: houve um pai? Quem ele é? Por mais que as mulheres estejam ocupando um duplo papel em muitos lares, e dando conta do recado, existe um componente psicológico nessa questão que não pode ser ignorado. Há vários motivos para que o pai esteja registrado na certidão do filho (requisição de amparo material na falta da mãe, por exemplo), porém o mais importante é o sentimento de inclusão em um núcleo familiar completo, sem espaços em branco, e o orgulho e a responsabilidade que disso advém.
O lado bom da história é que, se existem pais-fantasmas, por outro lado há uma infinidade de pais protagonizando cenas impensáveis décadas atrás. No último domingo, estive no supermercado e vi um pai ensinando sua filha de uns 11 anos a avaliar se um tomate está maduro ou passado. Os dois se divertiam fazendo compras juntos, e fiquei pensando que essa garota pode nem vir a ser uma boa cozinheira, mas sua estabilidade emocional promete. No mesmo dia, vi da sacada do meu apartamento (que dá para um clube) um pai brincando com dois filhos na piscina, formando com os braços uma cesta de basquete para que os guris jogassem a bola. A cena pode parecer meio boba, mas garanto que aqueles guris preferirão lembrar disso quando adultos, ao invés de um pai que se mantém na borda, prometendo que verá as cambalhotas do filho na água, mas que assim que a criança mergulha volta a conversar com os amigos, sem ter prestado um segundo de atenção.
A emancipação da mulher gerou um equívoco: a de achar que os pais tornaram-se desnecessários. Absurdo. Bem pelo contrário, nossa emancipação permitiu que o papel dos pais na criação dos filhos fosse ampliado. Eles deixaram de ser meros provedores para tornarem-se essenciais participantes da educação moral, social e afetiva dos pirralhos. Mas é preciso partir do começo: o reconhecimento de que esse pai existe.
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* Escritora. Colunista da ZH
Fonte:ZH on line 29/02/2012
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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Separação e divórcio: a criança no centro do conflito conjugal

A separação e o divórcio crescem cada
vez mais na Itália. São numerosas as
causas deste fenômeno e ainda maiores
as conseqüências no âmbito familiar,
particularmente para filhos.

Entrevista com a psicóloga Valeria Giamundo sobre as consequências deste fenômeno na infância

ZENIT falou com a psicóloga Valeria Giamundo, psicoterapeuta e docente junto a Escola de Psicoterapia cognitivo-comportamental, que realiza atividades de pesquisa com o fim de desenvolver tratamentos inovadores sobre a idade evolutiva.

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Dra Giamundo, quais são as razões deste crescimento?
Dra Giamundo: As separações e divórcios são conseqüências de profundas transformações sociais e culturais, a partir da emancipação feminina, até a chegada da mentalidade individualista da sociedade atual, que promove o interesse pelo bem estar individual e a realização pessoal, em vez daquele familiar e da sociedade como um todo.
A instabilidade do trabalho e da economia, e conseqüentemente o stress e o sentimento de precariedade, parecem diminuir a passagem para a vida adulta e com isso as decisões de formar família, subordinada à busca por estabilidade de renda, da procura por moradia e por ai. A consequência é uma realidade familiar caracterizada por núcleos cada vez menores, com equilíbrio instável e conflitos relacionais.
As estatísticas evidenciam que, junto ao aumento das separações e dos divórcios, se registrada também uma diminuição da taxa de matrimônios, que poderia confirmar uma efetiva propensão a ruptura da ligação.

Muitas pessoas que, vivendo uma separação ou um divorcio, procuram a ajuda de um psicólogo?
Dra Giamundo: Com o aumento do fenômeno com certeza é maior a necessidade de referir-se a um profissional como nós, pois, na verdade, não é possível estar preparado para enfrentar um evento tão estressante. A difusão do fenômeno tende a uma normalidade às vezes excessiva do evento, com o risco de subestimar os resultados do processo de separação.

E quais são as conseqüências?
Dra Giamundo: Estudos demonstram que a separação conjugal está em segundo lugar entre os eventos estressantes na vida do individuo, logo após a morte de um parente próximo. No âmbito clinico, as separações são comparadas ao luto pelas suas características psicológicas e emocionais.
A divisão familiar gera inevitáveis recaídas no bem estar psico-físico de todos os membros da família, e incide significativamente na qualidade dos relacionamentos entre pais e filhos, gerando a necessidade, para todos os membros, de recorrer a um apoio psicoterápico.

Quais são as marcas mais frequentes para uma criança?
Dra Giamundo: Podem ser de diversas naturezas e dimensões: raiva, frustração, ansiedade, depressão, regressão, problemas comportamentais, distúrbios do sono entre outros.
É importante observar as reações da criança também no contexto extra-familiar; os professores, por exemplo, são uma grande fonte de informação em relação aos pequenos. Muitas vezes, são eles que sinalizam um distúrbio, evidenciando, por exemplo, um problema na atenção ou na aprendizagem.
Na criança os sinais do sofrimento não emergem sempre de maneira muito evidente; os pais descrevem crianças que aparentemente protestam, crianças que se fecham em si mesmos, mas também crianças que reagem positivamente e que parecem facilmente adaptados ao evento.
Nestes casos não deve ser negligenciado que poderia tratar-se de formas de pseudo- adaptação, como acontece com crianças que negam a separação dos pais ou inibem a expressão para não intensificar o conflito conjugal.

Quais são os efeitos das separações a longo prazo? As crianças, no decorrer do crescimento, podem ressentir o erro dos pais?
Dra Giamundo: A separação, se não for bem elaborada, pode ter efeitos ao longo do tempo na capacidade de construir e manter ligações afetivas mas, atenção, não é verdade que os filhos de pais separados correm maior risco do que filhos de pais unidos.
O clima familiar e a qualidade das relações é um elemento essencial. O maior dano é, na verdade, devido à perpetuação das condições em que a criança sente-se o objeto de disputa, nesses casos, a criança vai reagir enfatizando os laços com um dos pais, geralmente com quem tem a custódia ou a guarda.
A ligação com apenas um dos pais é quase necessária para a criança que teme posteriores abandonos, mas isso gera experiências carregadas de senso de culpa, conflitos interiores (além de relacionais) que terão inevitavelmente consequências sobre o futuro psico-afetivo.

Porque os pais não conseguem ajudar os filhos neste momento de história familiar?
Dra Giamundo: Os pais também vivem a separação como um evento traumático, muitas vezes a opção pela separação não é partilhada. Nestes casos a raiva, o medo, a sensação de falimento impedem um confronto sereno e voltado a individualizar as melhores soluções para o equilíbrio familiar.
O conflito é sem dúvidas o sintoma mais frequente e se reflete em comportamentos destrutivos não apenas em relação ao companheiro, mas também em relação aos filhos e a si mesmo. São desencadeadas verdadeiras guerras nos tribunais, onde o direito dos filhos de viver serenamente uma relação equilibrada com as duas figuras de referência é confiada à competência de um juiz ou perito.
Estas guerras podem causar a intensificação do desconforto da criança, com consequências agudas e crônicas que impedem o desenvolvimento de uma personalidade saudável e equilibrada. Os adultos de referência para a criança se tornam, ao improviso, frágeis e carentes de ajuda; em alguns casos os filhos assumem o papel de “protetores”, permanecendo atolados em relacionamentos disfuncionais, onde acabam, geralmente, protegendo o genitor considerado mais fraco.

Como deveria ser o comportamento dos pais para minimizar o sofrimento dos filhos?
Dra Giamundo: Nestes casos os pais devem ser ajudados ou apoiados, através da mediação familiar no processo de mudança, que implica uma notável reorganização do funcionamento familiar. A tarefa de um pai é manter íntegra a função parental, limitar o conflito e renovar as redes de relacionamento significativas, para que possam melhor apoiar o crescimento da criança.
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Reportagem por Britta Doerre
(Tradução:MEM)
Fonte: ZENIT.org 28/02/2012
(A segunda parte da entrevista será publicada amanhã, 29 de fevereiro)
Imagem da Internet

O ator de 300 fala à revista Status

Gerard Butler - Imagem da Internet

O ator de 300 ( no papel do rei Leônidas) em entrevista a “Status” de fevereiro. Parte da entrevista feita por Elaine Guerini, de Toronto:

E o que achou do Brasil, onde filmou Duelo de campeões, em 2004?
Amei! Adoro o País, que já visitei várias vezes depois daquela filmagem. No Rio de Janeiro, principalmente, há algo no ar que á difícil de explicar. Há uma energia incrível. Sempre que estou lá, olho para o céu e repito para mim mesmo: Você está no Rio, cara! É o máximo rodar pela cidade e se deparar com as praias de um lado e as montanhas do outro. Me dá vontade de sorrir só de pensar no Rio.

O que pensa da mulher brasileira?
Já tive uma namorada brasileira. Ela foi a minha garota de Ipanema (risos). Nós nos conhecemos durante a filmagem de “Duelo de Campeões”. Depois ela veio passar uma temporada comigo em Londres. Era o tipo de mulher que eu gosto, morena e de cabelo encaracolado. Mas não era uma brasileira típica.

Como assim?
As brasileiras me dão a impressão de terem muito orgulho da sua beleza e sensualidade. Nada de errado com isso, o que as torna muito animadas e descoladas. Isso é bom. O problema é quando elas usam o que têm para manipular os homens. Minha namorada não era assim. Era mais verdadeira e autêntica, sem fazer joguinhos.

Por ser um ator conhecido, como lida com toda a atenção que recebe? Principalmente das mulheres?
Tento aproveitar o máximo que posso (risos). (...) Mas fui acostumando com o assédio e passei a apreciá-lo. (...) Hoje eu aprecio até quando me reconhecem no banheiro público masculino.

Isso sempre acontece?
Outro dia, usando o banheiro de um aeroporto, um dos caras que estavam lá comigo gritou no nada “This is Sparta!” ( o que Leônidas de 300 diz aos berros, antes de empurrar o inimigo no poço). Todos caíram na risada, inclusive eu. Depois todos nós voltamos naturalmente ao que estávamos fazendo.

(...)

O que há de especial nos escoceses?
Somos apaixonados pela vida e temos um lado obscuro, uma qualidade que considero positiva. Nosso senso de humor é um pouco diabólico, e eu gosto muito disso. As melhores risadas da minha vida aconteceram numa roda de amigos escoceses. Nós esculachamos todo mundo, incluindo nós mesmos. Talvez isso venha da nossa história difícil, o que nos deu uma habilidade de rir nos piores momentos. Na Escócia, o humor muitas vezes nasce da tragédia. Nós realmente rimos muito. Até nos funerais (risos).
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Fonte: Revista Status impressa, Ed. Três, fevereiro/2012 pp.60/64.

Abraçar Deus verdade, beleza e ternura

Ermes Ronchi*
Albert Camus, no seu livro A morte feliz, tem uma frase que interpreta um sentimento de Deus e uma busca espiritual, típicos do mundo contemporâneo. Refere-se a uma impressão, sentida em Praga, ao visitar uma igreja barroca, e diz: «O Deus que ali se adorava era o que se teme e se honra, não o que ri com o homem, perante os veementes jogos do mar e do sol. O homem afasta-se de semelhante Deus.»
Porque o homem, em toda a sua cultura, com as suas expressões que são a literatura, a arte figurativa, o cinema, o teatro, a música, busca o rosto de um Deus que ria com o homem ou que com ele chore. Um Deus coenvolvido e coenvolvente. Não nos interessa um divino que não faça florescer o humano.
Análogo é o protesto de Pier Paolo Pasolini: «Tu não queres o canto, mas apenas a fidelidade, / pretendes o jejum e eu receio-o, / anseias pelo esquecimento e eu, ao invés, tremo só com recordações. / Eis porque a tua luz que está em mim / não me conduz a ti.»
Experiência de um crente não-crente que diz: a tua luz está em mim, mas não me conduz, não me subjuga, não me seduz, não me leva a ti. A Verdade sem a verdade dos afetos não persuade o ânimo humano.
«Estou cansado de "dizer" Deus, busco o Deus sensível ao coração.» A experiência de Blaise Pascal é comum a muitos crentes e abre o espaço de uma verdadeira estética teológica. Toda a cultura contemporânea busca um Deus coenvolvido e coenvolvente, sensível ao coração; não gnose ou teoria, mas experiência.
O realizador polaco Krzysztof Kieslowski, no primeiro episódio do seu Decálogo («Não terás outro Deus...»), oferece uma das definições de Deus mais emocionantes, mais «estéticas». O pequeno protagonista, Pawel, órfão de mãe e educado numa fé laica na ciência, pelo pai, engenheiro informático - o seu deus é a ciência -, pergunta à tia: «Como é Deus?» A tia permanece um momento em silêncio, depois, aproxima-se de Pawel, abraça-o, aperta-o contra si e sussurra-lhe: «Pawel, como é que agora te sentes?» «Bem», responde a criança. Em seguida, um silêncio: «Estás a ver, Deus é assim», sugere a tia.
Deus como um abraço, Deus como um estreitar caloroso e afetuoso, como emoção.
É uma das definições mais extraordinárias de Deus que a cultura atual elaborou. Um Deus sensível ao coração, estético, apreendido na experiência, no calor do vivido quotidiano. Um Deus que não é gnose ou conceito, mas proximidade e experiência, um Deus próximo que brinca e ri com os seus filhos, «perante os veementes jogos do mar e do sol».
O verdadeiro e o bem, para convencerem e se fazerem amar, devem também ser aprazíveis. Não é suficiente a veritas, é necessário o veritatis splendor, o esplendor da verdade, o resplandecer da verdade. «Esplendor» não é um termo lógico-racional, mas pertence à linguagem estética e artística, alusiva e emotiva. Escreve Hans Urs von Balthasar: «Onde a beleza se dilui, também o bem perde a sua força de atração, a verdade esgota a sua força de conclusão lógica.»
A verdade, para se tornar parte da vida, para acorrentar a si, para seduzir - do latim secam ducere, ou seja, levar consigo -, para te prender o coração e criar o apreço fiducial que é a fé, deve ser bela e aprazível, uma verdade amável. Deus não nos seduz com a sua eternidade, mas com a beleza dos gestos de amor de Jesus Cristo, com os sulcos traçados na consciência pelos encantos do mundo que existe.
«Estou disposto a respeitar a verdade, contanto que ela se despose com a ternura» (Ezra Pound). A verdade, por si só, pode ser despótica, agressiva, violenta, originar guerras santas e inquisições. Em contrapartida, a ternura, por si só, é estéril emoção casual, sem projeto e, talvez, ainda narcisista; é o benzinho onde tudo se equivale. Benzinho é a bondade sem verdade.
Mas quando verdade e ternura estão entre si ligadas, como na figura do Pai revelado por Jesus, então oferecem a plenitude. Os cristãos são, de facto, os que fazem a verdade no amor, veritatem facientes in caritate (Ef 4,15). A verdade, por si só, pode tornar-se cruel, o amor sozinho pode ser estéril.
A verdade envolve, encanta e convence na medida em que também se faz beleza e ternura. «No mundo pós-moderno, chegou-se a uma impugnação da racionalidade, que surge como fonte de violência, na medida em que as pessoas pensam que a racionalidade possa ser imposta enquanto verdadeira. Eis o motivo por que o Cristianismo não é hoje facilmente acolhido, quando se apresenta como a "verdadeira" religião. Sucede o contrário, quando se diz que o Cristianismo é belo... A beleza é preferível à verdade», na mentalidade do homem contemporâneo (Carlo M. Martini).
Trata-se de uma situação favorável em que o Cristianismo pode mostrar melhor o seu caráter de desafio, de realismo, de criatividade, de religião ligada à vida do corpo e não apenas à mente. O Cristianismo pode repintar o ícone de Deus: um Deus enamorado e continuamente surpreendente adquire maior beleza. A fé entendida como risco e experiência torna-se mais atraente. O dogma não se converte em adesão, mas em fonte de significado para a vida e em ajuda para a compreensão do mistério do viver.
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* Ermes Ronchi In Os beijos não dados / Tu és Beleza, ed. Paulinas
25.02.12
OBS.: Português de Portugal.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O capitalismo em crise e os meios de superá-la

Francisco Louçã*
Em 2009, o Financial Times publicou uma série de artigos de debate sobre um tema comum: o “futuro do capitalismo”. A crise financeira anterior e a recessão desse ano de 2009 levaram o jornal a convidar especialistas, governantes e analistas a discutirem este tema. Três anos depois, o mesmo diário convida-nos a lermos um novo debate, desta vez sobre “o capitalismo em crise”. A mudança do enunciado do tema é por si só reveladora da aflição.
O FT foi fundado em 1888, há portanto 124 anos. Vende agora mais de dois milhões de exemplares por dia, é impresso em 24 cidades pelo mundo fora, é um colosso no mundo digital – é simplesmente o jornal financeiro mais influente do mundo. Podemos tomá-lo como um indicador seguro das tendências ideológicas, das inquietações e das preocupações do mundo financeiro, assim como da evolução da economia e dos seus tomadores de decisão.
Assim, o debate sobre “o capitalismo em crise”, que se tem estendido por Janeiro e Fevereiro, é, a todos os títulos, um retrato das perturbações financeiras e políticas de 2012. Nele participam predominantemente economistas conservadores como Kenneth Rogoff, do FMI, mas também anteriores ou atuais governantes dos Estados Unidos e do Reino Unido (um ex-ministro do ex-presidente Clinton, Robert Reich; o ministro das finanças inglês, George Osborne), governantes de outros países, o movimento Occupy London (citando o ultra-conservador Friedrich Hayek como autoridade literária!), o líder do Partido Trabalhista, Ed Miliband, um banqueiro chinês, Qin Xiao, ou comentadores célebres como Martin Wolf. No final de Janeiro, a revista Newsweek juntou-se também ao debate e publicou um dossier sobre “como remendar o capitalismo”, no mesmo tom.
Neste artigo, limito-me a reportar os temas principais destes debates e a identificar alguns dos seus argumentos, porque eles nos fornecem um guia interessante para a crise atual, nas suas certezas como nas suas hesitações. Parto de uma constatação: vale a pena ler esses textos e pensar sobre eles, porque são um retrato da perturbação que se está a viver. Nos mercados, nas ideias, nas políticas, nos alinhamentos sociais.
Perdoar-me-á o leitor ou a leitora, mas até estou convencido de que esse jornal, porta-voz da finança internacional, se dedica com mais profundidade à análise de algumas das falhas do capitalismo do que os advogados europeus da austeridade, as agências internacionais ou as doutrinas estabelecidas. Se bem que esteja por isso interessadíssimo na nova teoria que descobriu a sua Coreia do Norte na Islândia, o farol luminoso da meia-austeridade e o lugar onde o FMI seria cordato a orientar uma coligação encantadora, peço licença para ouvir antes os representantes do capitalismo em crise.
O debate do Financial Times (e da Newsweek) merece essa atenção, porque revela um sistemático trabalho de desmantelamento dos mitos do capitalismo, o que sugere antes de mais que os defensores do castelo são os primeiros a reconhecer as fragilidades da muralha. De fato, destes artigos resultam argumentos sobre quatro grandes brechas deste capitalismo da era da globalização.

Primeira brecha: o capitalismo cresceu e a desigualdade cresceu mais ainda.

O capitalismo foi um enorme sucesso social à custa de uma enorme tragédia social. Revolveu as entranhas do mundo: “tudo o que é sólido se dissolve no ar”, escreviam Marx e Engels no Manifesto Comunista de 1848. O capitalismo mudou tudo. Destruiu e construiu. E cresceu: segundo os cálculos de Angus Maddison, citados pela Newsweek, o produto mundial cresceu sete vezes desde o ano 1 da nossa era até 1820, ao longo de dezoito séculos, e cresceu setenta vezes nos dois séculos seguintes, até hoje – quase cem vezes mais depressa. A aceleração do tempo do capitalismo é retratada por este crescimento alucinante.
Só que o crescimento foi sempre desigual e é cada vez mais desigual nos dias de hoje. Diz a Newsweek: em 2010, os rendimentos dos administradores das grandes empresas norte-americanas foram 28% superiores aos do ano anterior (uma média de 10,8 milhões de dólares cada), cerca de 325 vezes mais do que média dos seus trabalhadores. Quanto mais grave a crise, mais crescem os rendimentos do topo. O Financial Times testemunha o mesmo, com dados ingleses: o rendimento dos administradores das cem principais empresas, as do índice FTSE100, era em 1980 cerca de 14 vezes a mediana dos salários das suas empresas e, trinta anos depois, passaram a ser cerca de 75 vezes essa mediana.
George Osborne, o ministro das finanças do governo conservador britânico, bem pode dizer que esta desigualdade é o resultado de estupidez e que não concorda que os bancos paguem bónus aos administradores que os conduziram a uma especulação sem freio e a uma crise grave. O facto é que o capitalismo passou a ser um sistema que promove e recompensa o fracasso.
Segunda brecha: a segunda grande depressão mobiliza o autoritarismo social contra alguns dos fundamentos da civilização.

Dois dos participantes do debate do Financial Times argumentam que este modelo de recompensa do fracasso é o resultado de um erro estrutural, porque o capitalismo sabe criar e vender mercadorias, mas não sabe criar e distribuir eficientemente os bens públicos. Vejamos onde nos leva este argumento.
Os bens públicos são a civilização: bens tão diferentes como a segurança, defesa, saúde, educação, segurança social, regulação do trânsito, respeito pela liberdade religiosa ou de não ter religião, liberdade de opinião e de imprensa, direito de manifestação, capacidade eleitoral ativa e passiva, justiça ou investigação científica fundamental, não são produzidos pelas empresas nem resultam diretamente de processos de acumulação de capital. Resultam de decisões políticas que são condições para a vida social, que podem portanto favorecer a acumulação de capital mas que lhe cobram uma prestação: o Estado faz-se pagar por estes serviços e a isso chama-se impostos.
Para Kenneth Rogoff, um economista que fez a sua carreira no FMI e que agora se dedica à análise das crises financeiras ao longo do tempo, o capitalismo é simplesmente pouco eficiente na geração de bens públicos e é por isso que tem de existir o Estado (a tese não é dele e é antiga, mas tem o seu fundamento). Martin Wolff, um dos mais reconhecidos comentadores do Financial Times, escreve que esses bens públicos são ainda mais difíceis de produzir na sociedade da globalização, mesmo que sejam fundamentais para criar ordem na sociedade. Dá-nos o seguinte exemplo da segurança: numa época anterior ao capitalismo, a segurança era garantida por bandidos que aterrorizavam a sua região mas impediam que outros a pilhassem, e a isso chamou-se feudalismo. Depois, a revolução industrial expandiu o Estado de muitas formas; uma delas foi assegurando um modo de segurança às pessoas. Nessa segurança foi incluída, mais recentemente, a garantia dada pelos economistas de que haveria estabilidade econômica: os mercados seriam inerentemente estáveis e a estabilidade seria um bem público garantido automaticamente pelo funcionamento do mercado. Mas, como vimos – e toda a gente se pode aperceber no contexto da grande depressão – os mercados, pelo contrário, criam instabilidade e desigualdade.
A conclusão é minha: se isto é assim, aqui temos a explicação para o autoritarismo social que cresce com as soluções liberais durante a depressão, em particular com a economia da dívida – os bens públicos são desgastados ou destruídos, em nome de um processo de acumulação acelerado que atinge esses fundamentos da civilização. Só o autoritarismo pode permitir impor a perda dessas referências civilizacionais que são as bases da democracia representativa. O “capitalismo em crise” é portanto parteiro da democracia em crise.
A agressividade capitalista na desagregação das funções sociais do Estado é notória em alguns dos contributos para este debate, mas sobretudo na de Qin Xiao, que foi presidente da China Merchants Group e do China Merchants Bank, e que escreve no Financial Times a propósito do seu país: o Estado “deve deixar de interferir nos preços e transações de mercado e retirar-se da regulação da terra, trabalho, energia e preços dos minérios, como dos preços do capital. Deve reformar os monopólios e privatizar eficientemente as empresas públicas”. É um distinto e oficialíssimo banqueiro chinês a escrever o receituário liberal mais tradicionalista.

Terceira brecha: a propriedade não determina a economia, mas há um poder invisível que decide.

Há ainda um outro fator de perturbação que preocupa muitos dos participantes neste debate que estou a citar: a mudança de rosto do capitalismo. Desde a revolução industrial, o capitalismo tinha um centro, os grandes monopólios nacionais e depois as grandes empresas transnacionais. Como nos lembra a Newsweek, os fundadores da teoria econômica consideravam que esses centros eram perigosos: Adam Smith afirmava que a Companhia das Índias Orientais tinha privilégios “prejudiciais a todos os títulos”. Mais perigosos se tornaram, então, quando deixam de ser visíveis.
O Financial Times discute este efeito de desaparecimento dos capitalistas, comparando os administradores de hoje com as grandes dinastias que fizeram a indústria ou a finança modernas: os capitalistas tradicionais, como os Arkwright (um dos inventores e empresários da revolução industrial britânica) e os Rockefeller (um dos grandes financeiros norte-americanos) já não sobrevivem no mundo que criaram; são superados por outros decisores, uma casta de administradores omnipotentes. A propriedade dispersa-se tanto mais quanto mais se concentra o seu poder, e existe uma cabeça que fala por ela, uma nova burocracia. É assim que o FT a descreve: “Os titãs modernos baseiam a sua autoridade e influência na sua posição numa hierarquia, e não na propriedade do capital. Obtiveram as suas posições através das suas competências em política organizacional, do mesmo modo tradicional em que os bispos e generais ganham posições numa hierarquia eclesiástica ou militar” (11 Janeiro).
Estes novos generais e bispos moram nas finanças. Gerem massas colossais de poupanças e de capital, recebem os seus prêmios em função de aplicações de curto prazo, manipulam as contas e as economias para se recompensarem a si próprios, como se queixam Rogoff, o homem do FMI, ou Ed Miliband, o chefe dos trabalhistas britânicos. A especulação deixou por isso de ser uma forma de gerir crédito e de distribuir rendimentos e mais-valias entre os proprietários do capital, passou a ser uma forma de acumular capital em prejuízo dos sectores submetidos da população e mesmo de parte das classes proprietárias.
Ora, a finança tornou-se soberana. Regista o jornal: entre 1977 e 2010, o volume das operações bancárias com câmbios subiu 23000% e os negócios com moedas e títulos de dívida representam agora 80% dos lucros dos maiores bancos. É contra os Estados que se faz a acumulação de capitais, que é sempre protegida pelos Estados. O que tem uma consequência, que não é identificada pelo debate nas páginas que estou a citar: a expropriação do trabalhador, agora como pagador de impostos, torna-se a chave dos rearranjos propostos na vertigem liberal. A captação de impostos para serem absorvidos pela economia da dívida, criando rendas garantidas a longo prazo, tornou-se assim uma forma predominante de apropriação de valor. A isso chama-se, como todos sabemos, “reformas estruturais”.
Quarta brecha: a crise financeira é também uma crise de legitimidade.

No quarto ano da crise – a que alguns economistas começaram a chamar a “segunda grande depressão” – há dois pilares da hegemonia do capitalismo que têm sido atingidos, segundo o debate do FT.
O primeiro desses pilares é a credibilidade social do mercado e do capital como centro diretor da sociedade. O capitalismo tem sido apresentado como uma meritocracia auto-regulada mas, como vimos, os autores que escrevem no FT perderam a fé e descobriram que a capacidade de afetação de recursos e de incentivos por estes mercados é pelo menos deficiente.
Ora, mesmo nos setores mais conservadores, essa descrença está a ir muito longe: a ideia do mercado dominador é agora considerada repugnante. O exemplo mais esclarecedor é o da campanha eleitoral entre os republicanos norte-americanos, em que se destaca um facto sublinhado tanto pelo jornal como pela revista que estou a citar: Mitt Romney, candidato de referência de uma parte da direita republicana, é insultado pelos seus adversários mais conservadores e mais radicais na defesa do liberalismo … porque triunfou no mundo dos negócios. Romney fez carreira e fortuna a dirigir uma empresa de capital de risco, a Bain Capital, que, como é natural, acumulou os seus lucros com base na perda de outros acionistas, empresários ou trabalhadores. O mercado foi usado por Romney para enriquecer, arruinando outros: um exemplo de sucesso, portanto. Mas esse sucesso é agora o seu prejuízo político, usado contra si pelos seus próprios adversários dos mesmos setores da direita, que o acusam de ganancioso (FT, 14-15 Janeiro). O capitalismo tem má fama. A sua aceitação popular está em queda, conclui o FT (9 Janeiro).
Outra expressão dessa desconfiança popular é a sondagem mundial da GlobeScan sobre a credibilidade de economia de mercado, que revela uma perda importante de apoio nos EUA, sendo esse resultado superado pelo maior apoio social do capitalismo … na China.
O segundo dos pilares em crise é a própria credibilidade da teoria econômica em que assenta o neoliberalismo. Como lembra a Newsweek, a teoria econômica tem sido a religião secular da modernidade. É certo: se identificarmos as principais características dessa religião, constatamos que ela desenvolve uma liturgia tranquilizante (os seus textos sagrados), cria um corpo de sacerdotes (os economistas doutrinários) e um conjunto de regras de comportamento imperativo (as regras de mercado). Todos se baseiam num embuste.
A liturgia é uma mistificação: os modelos de análise da economia exigem que os agentes econômicos (que são todas as pessoas, sejam empresários ou assalariados) saibam tudo sobre o futuro e possam assim determinar com toda a certeza o futuro mais promissor. Na era da incerteza, a teoria garante os melhores resultados no pressuposto de que todos têm acesso a uma certeza transcendente.
Os sacerdotes não sabem: com a divulgação recente das minutas dos debates na cúpula da Reserva Federal norte-americana em 2006, ficou-se a saber que o governador, Ben Bernanke, quis registar o seu pensamento dizendo que “Penso que é improvável que o crescimento seja descarrilado pelo mercado imobiliário”. Um ano depois, o mercado imobiliário chamava-se subprime e a finança caía como um castelo de cartas (ainda está a cair). Benanke continua no seu lugar.
E, finalmente, as leis não funcionam. E não funcionam no sistema financeiro, antes de mais. Um artigo do FT, com algum humor, cita um estudo antigo da universidade de Berkeley (existem outros ainda mais sarcásticos), que comparou os resultados de previsões financeiras feitas por macacos que fazem marcas ao acaso num quadro de empresas cotadas na Bolsa, com as sérias previsões feitas por distintos analistas financeiros. Os macacos ganharam (16 Janeiro).
Se a liturgia, os bispos (ou os generais desse poder burocrático) e as leis não funcionam, o que é que funciona? A resposta dada por alguns dos artigos citados é simples. Funciona o autoritarismo. O que nos dá uma lição: segundo estes seus estudiosos e defensores, o capitalismo em crise é o mais perigoso.
Por tudo isto, tenho uma recomendação a fazer a quem luta pelo socialismo. A todos e todas sem exceção. Este é um bom momento para estudar o capitalismo realmente existente. Abandonemos as fantasias cordatas: é mesmo útil saber em que mundo é que se tem os pés assentados, conhecer o poder e as ambições do capital, reconhecer as dificuldades e a vertigem da grande depressão. E, já agora, começar por ler o que a finança escreve sobre si própria. Não há melhor professor do que a realidade.
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* Francisco Louçã é deputado, dirigente do Bloco de Esquerda (Portugal), professor universitário.
Artigo publicado originalmente no portal Esquerda.net
(Carta Maior)
Fonte: http://mercadoetico.terra.com.br 27/02/2012
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Cinco páginas

LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL*

 Noah Lukeman
Noah Lukeman não é de brincadeiras. É agente literário em Nova York. Lá, a vida é dura. Ele tem 39 anos. Sua carteira de clientes inclui autores premiados e reconhecidos pelo público. Não cultiva preconceitos: tanto promove escritores literários como comerciais. No passado foi editor e, portanto, conhece ambos os lados do balcão.
É dele a afirmativa: “Deus ajude o editor profissional que necessite ler 50 páginas para avaliar todos os originais; ele nunca sobreviverá. Não conseguirá dar conta dos 10.000 manuscritos atrás dele, condição para tocar o seu negócio. Este tipo de trabalho ensina você a tomar decisões instantâneas. Algumas pessoas não conseguem – ou não querem – fazer isso, e então deixam o ramo”.
É de Noah Lukeman um best-seller [ele também escreve] chamado de The First Five Pages, saído pelos editores Simon & Schuster, de NY. O enigmático título é acompanhado de chamadas atraentes: Evite os erros comuns nos originais; atraia a atenção de agentes e editores; eleve a qualidade de seu texto. Na contracapa, uma promessa animadora: “Se você está cansado de rejeições [de editores e agentes, of course], este livro é para você”. Bom marketing, sem dúvida.

"A Bíblia é uma das mais eficientes
aulas de bem escrever. A criação do mundo,
 do primeiro homem e primeira mulher,
 é contada em 30 frases."

O livro não se dirige apenas a romancistas ou contistas; serve também para jornalistas, poetas e escritores de não-ficção. Há vários recados de Lukeman. Um destes: não adianta mandar sinopses para as editoras e agentes. O autor diz que e agentes e editores ignoram sinopses. Se eles se dão conta de que o livro é bom, então é que vão ler a sinopse.E quais são os problemas apontados? Lukeman vai direto: uma abertura com um “gancho” fraco; uso exagerado de adjetivos e advérbios; metáforas fracas ou forçadas, e similares; tom melodramático, lugares-comuns e diálogos confusos; caracterizações pouco desenvolvidas e situações “sem vida”; ritmo irregular e falta de progressão da narrativa ou da exposição. Está recheado de exemplos.
Escritores sorriem ao ler esses conselhos. Talvez não fosse o caso. São muito úteis, especialmente para quem começa e, em geral, ninguém lhe diz essas coisas.
Se o livro ainda não resolver, estão aí as cinco páginas iniciais do Gênesis. Não importa se você é ateu ou crente. Com limpidez e singela elegância, a Bíblia é uma das mais eficientes aulas de bem escrever. A criação do mundo, do primeiro homem e primeira mulher, é contada em 30 frases. E isso alguns milênios antes de Lukeman. Leia e constate.
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* Escritor. Prof. Universitário. Colunista da ZH
Fonte:ZH on line, 27/02/2012
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Charge do dia

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Fonte: http://www.conversaafiada.com.br/bessinha/

Minha turma

L. F. VERISSIMO*
Agora que o sangue serenou e todas as garrafas que lancei ao mar com mensagens ao desconhecido voltaram sem resposta, ou com o texto corrigido, agora que nem o eco responde aos meus gritos no precipício, ou responde mas com o tom enfarado de quem não aguenta mais repetir sempre a mesma coisa, sempre a mesma coisa, sempre a mesma coisa, agora que descobri que nenhum dos meus gurus tinha a resposta certa e um até confessou que nem ouvia as minhas perguntas e só fazia sim com a cabeça por boa educação, o que explica ele ter respondido sim quando eu perguntei se deveria seguir o BhagavadGita, o Kama Sutra, O Capital ou uma combinação dos três, agora que já não se distingue a voz de uma secretária de outra no telefone, pois todas são eletrônicas e iguais, e da última vez que implorei por um contato humano, alguma coisa viva – uma hesitação, um erro de concordância, um resfriado, até, em último caso, uma reação irritada – a voz disse “para reação irritada, digite 4”, agora que eu não quero mais respostas, agora que eu desisti, vem você me dizer que eu não estou sozinho, que há outros como eu que já não esperam mais nada salvo a resignação dos mortos num bom sofá com controle remoto e talvez pipoca, que abominam a despersonalização, principalmente das pessoas, a pulverização de todas as certezas, o espargimento de todas as dúvidas, a eterização de todas as coisas – e que eles têm um site na internet!
Mas acho que você me deu o endereço errado pois, na minha caça desesperada a ávidos de resignação e burrice programada como eu, já dei num site que ensina a fazer bombas caseiras, outro de quem tem tara por Matildes, outro de um homem que propõe a troca de fotografias do seu bigode ridículo com as de bigodes ridículos de todo o mundo com a possibilidade de casamento e, veja você, um de alguém que propôs comprar vários dos meus órgãos para comer.
Não que eu fosse aceitar, sou muito apegado a todos os meus órgãos, apesar do que alguns têm me feito passar, mas só por curiosidade perguntei como ele prepararia, por exemplo, meu fígado e, num rasgo de sentimentalismo, sugeri que o servisse acompanhado de um Sauterne de boa safra. Talvez seja esta a autoindulgência que nos reste, no momento do nosso desencanto, antes do último sofá. O tal cara que estava a fim das minhas tripas à moda de Caen não respondeu, mas descobri que eu tinha entrado num fascinante mundo doente, ao entrar na internet atrás da minha turma. Quando tudo se volatiza e vira impulso pelo ar, o que sobra é isso, o ser humano reduzido às suas fomes e às suas esquisitices primevas, livre de qualquer controle ou compunção. A cara mais terrível da liberdade: cara nenhuma, ou apenas a cara que se quiser mostrar na net. Terroristas, fetichistas e canibais são – ou espero que sejam – minorias entre os habitantes deste mundo.
Mas, sei não. Há algo de assustador nessa variedade de prospecções predatórias, de buscas globais por afinidades estranhas, só esperando o toque numa tecla de computador para entrar na nossa casa e na nossa vida. Sei lá se eu não tenho alguma obsessão secreta (pés de noviças, por exemplo) só esperando um correspondente para se manifestar. Desisti de localizar meus similares na internet, os revoltados até com a revolta, começando por secretárias com voz de máquinas, quando me dei conta de que a primeira condição para ser mesmo da minha turma seria não frequentar a internet.
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* Escritor. Cronista da ZH
Fonte: ZH on line, 27/02/2012
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O fio de cabelo de uma mulher

Luiz Felipe Pondé*
Assim como a prostituta é a primeira vocação
da mulher, afirmo: sou lido, logo existo
Dias atrás escrevi que não me preocupo com a África nem com as baleias nem com você. Pânico na bancada da classe média...
Muita gente pergunta o que eu queria dizer com isso. Uma pessoa se indignou porque eu tive a ousadia de dizer que ele não era objeto de minha preocupação.
Se ele me lê, pensa ele, devo me preocupar com ele. Ele, ele, ele. Não. Sou indiferente a sua necessidade de autoestima.
Só levo a sério um argumento como este (quem me lê deve ser objeto de minha atenção) se nele estiver em jogo as leis de mercado e olhe lá. Mas pessoas indignadas normalmente acham que seus sentimentos morais são infinitamente mais caros do que as leis de mercado. Eu, de minha parte, sei que minha fisiologia é parte das leis de mercado.
Assim como a prostituta é a primeira e a mais sublime vocação de toda mulher, afirmo: sou lido, logo existo. Saber que eu tenho um preço é uma das formas mais belas de libertação que conheço.
Mas a queixa de nosso mal-amado está longe disso. É a queixa de um indignado com a maturidade.
Se Freud já dizia que pessoas adultas são uma raridade, hoje ficaria chocado com o fato de que infantilidade se tornou um direito de todo cidadão.
A maior desgraça da democracia, dizia Nelson Rodrigues, é que ela traz à tona a força numérica dos idiotas, que são a maioria da humanidade. Aceitar a idade adulta hoje em dia é tão raro como a virtude de uma mulher que bebeu vinho demais no jantar.
Aliás, devo pedir perdão às mulheres "fáceis", por compará-las a tão miserável condição: a recusa da maturidade.
Ainda bem que nem todo mundo que me lê ou me conhece depende de mim para se sentir amado, porque, antes de tudo, amo muito pouco. E, com os anos, menos ainda. O deserto pode ser uma graça.
Dou hoje uma indicação para os adultos que me leem. "Adulto" aqui, como sempre, não tem a ver com a data de nascimento no RG. Já vi pessoas muito jovens serem capazes de suportar "a hostilidade primitiva do mundo" ("Mito de Sísifo", outro livro de Camus) sem reclamar da gloriosa indiferença do Sol.
Assista à bela e econômica montagem do "O Estrangeiro", uma adaptação feita pelo dinamarquês Morten Kirkskov do livro com o mesmo nome do francês Albert Camus. Ela está em cartaz, até 4/3, no Teatro Cacilda Becker, com Guilherme Leme e direção de Vera Holtz. Uma pérola discreta, como deve ser tudo o que tem valor.
O estrangeiro da história, Meursault, vive em Argel, Argélia (país de Camus). Ele mata um árabe e é preso. Dias antes, sua mãe morrera. Ele não chorou no enterro.
Para muita gente, assim como para o promotor que condena Meursault, não chorar na morte da mãe é prova cabal de "ter o crime no coração" (antes mesmo de ele matar um "homem qualquer"), e é, portanto, o ato de um niilista.
Por isso, o promotor diz que Meursault tornou possível o parricídio ao ser julgado no dia seguinte, e, por isso mesmo, deveria ser julgado por ambos os crimes. Para o promotor, não chorar a morte da mãe é abrir as portas para o parricídio.
O fato de, no dia seguinte à morte da sua mãe, ele ter se deliciado, na praia, nos braços de uma mulher, Marie, cheia de amor para dar, era evidência de sua desumanidade. Pior: fora ao cinema com ela para ver uma comédia.
Vê-se que Camus era um apreciador do sexo frágil (coisa cada vez mais rara) na forma como descreve Marie, linda, cozinhando sua comida, de vestido solto e listrado, enchendo sua vida de desejo, com os cabelos caindo nos ombros. Marie usava aquele tipo de vestido de verão solto, que permitia Meursault tocar, como se fora seu dono, o calor úmido entre suas pernas.
Mas o promotor está enganado. Chorar no enterro da mãe pode ser tão falso como as indignações de hoje em dia.
Como diz Meursault ao padre: "Sua religião não vale um fio de cabelo de uma mulher". Em meio à "doce indiferença do mundo", o desejo por uma mulher pode ser mais difícil do que chorar a morte de uma mãe "distante".
Concluo, com uma ponta de dor, que sou da raça de Meursault.
Prefiro a hostilidade primitiva do mundo e mulheres fáceis com vestidos de verão.
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* Filósofo. Escritor. Prof. Universitário. Colunista da Folhaponde.folha@uol.com.br
Fonte: Folha on lien, 27/02/2012
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O real motivo do trabalho

Gustavo Cerbasi*

Veja a carreira como uma oportunidade
de vender seu tempo para garantir
o desfrute na etapa seguinte
O profissional moderno trabalha hoje pela carreira, pelo "mercado", mas aparenta esquecer que os maiores interessados em seu sucesso não são seu empregador nem esse mercado, e sim sua família.
As pessoas que mais querem o bem do trabalhador abrem mão de sua companhia, de seu papel de pai ou de mãe, de marido ou de mulher, em troca de uma suposta construção de vida melhor.
A ascensão na carreira envolve regras tão complexas que exigem do trabalhador uma série de preocupações que vão muito além do conhecimento técnico de sua área profissional.
Entre elas estão o "networking", a ética, a política, a diplomacia, a moda, a educação continuada, as celebrações de fim de ano, a concorrência, a fofoca, o domínio de idiomas, a organização pessoal, enfim, uma série de elementos que, combinados, determinam a imagem do profissional e definem sua capacidade de evoluir ou sua estagnação.
Manter-se antenado com essas variáveis exige um envolvimento profundo, que aumenta à medida que vamos dominando o conhecimento sobre nossa atividade profissional.
Quanto mais nos envolvemos, mais assumimos as rédeas da carreira, porém mais nos distanciamos da vida. Profissionais antenados e em franco processo de crescimento costumam ter pouco tempo para si e para a família.
De tão valorizado pela sociedade, o trabalho passou a ser desculpa razoável para a falta de tempo, de carinho, de relacionamento, de sexo e de realizações pessoais.
Porém, não se pode esquecer de que a vida não é o mesmo que a carreira. Não vivemos para trabalhar, mas trabalhamos para viver.

"O ócio é bom, mas não é viável
para quem não tem um bom grau
de independência financeira."



O dito popular e o bom-senso rezam isso, mas a prática vai por outro caminho.
Nossa família ocupa, ou deveria ocupar, um espaço muito mais importante em nossa vida do que o trabalho.
Quem tem planos para desfrutar de vários anos de aposentadoria deveria perceber que, na verdade, quer desfrutar é daquilo que lhe é familiar.
Não importa se a família envolve laços sanguíneos ou não.
Pode ser que seus planos de aposentadoria envolvam uma aproximação maior de sua comunidade ou sua tribo, de seu Estado ou país de origem, do clube em que desfruta do lazer ou de qualquer referência que envolva elementos familiares e queridos a vocês.
Mas, independentemente de qual seja o sentido de família para você, o fato é que, se for casado, seu parceiro estará totalmente envolvido nessa reaproximação.
Por isso, veja a carreira não como o plano principal de sua vida, mas apenas como uma fase intermediária, onde aproveitará a oportunidade de vender seu tempo e conhecimento para garantir o desfrute da próxima fase da vida com mais tranquilidade e segurança.
Por essa interpretação, defendo que o foco quase que total no trabalho, se fizer parte dos planos da vida de um dos membros do casal ou de ambos, deveria durar o menor tempo possível, apenas o suficiente para sustentar seu crescimento.
Não se trata aqui de uma defesa do ócio, da vida sem trabalho. O ócio é bom, mas não é viável para quem não tem um bom grau de independência financeira.
Mas, por mais que o trabalho nos consuma, temos de nos esforçar para não perder de vista nossos principais objetivos. Precisamos nos desapegar dos laços de comodismo que o trabalho impõe. E, nesse sentido, ninguém melhor para contar com a ajuda do que a pessoa que escolhemos para ter ao lado nessa jornada. A carreira não deve ser pensada ou planejada como um projeto do indivíduo, mas sim como um projeto do casal.
E esse projeto não pode, de maneira alguma, ser dissociado dos planos de construção de riqueza da família, pois a carreira nada mais é do que um meio de adquirir nossa independência financeira.
De nada adiantará acumular riquezas e conquistar a tranquilidade da aposentadoria se, lá na frente, a única coisa a que você terá acostumado seu corpo e sua mente a sentir falta for o trabalho.
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* GUSTAVO CERBASI é autor de "Casais Inteligentes Enriquecem Juntos" (ed. Gente) e "Como Organizar sua Vida Financeira" (Elsevier Campus).
Fonte: Folha on line, 27/02/2012
Imagem da Internet
@gcerbasi

Trabalho intensivo nas manufaturas irá migrar da China

Entrevista da 2ª Michael Spence
Nobel de economia americano afirma que fenômeno já aconteceu
anteriormente com países como
o Japão e a Coreia do Sul
Para o economista americano Michael Spence, ganhador do Nobel em 2001, o discurso de que a China rouba empregos dos outros países não faz sentido. Para ele, a atração de mão de obra barata não é boa estratégia econômica.
Spence ainda afirma que o país asiático está prestes a deixar de ser a fábrica barata do mundo. Segundo ele, a tendência é que outros emergentes, em fases anteriores de desenvolvimento, assumam esse papel, conforme já aconteceu com outros centros manufatureiros nas décadas passadas.
O especialista também argumenta que os países emergentes estão mais ricos e mais conectados uns com os outros e que tendem a se desassociar da crise na Europa.
Ele diz que o Brasil pode sustentar seu crescimento econômico, mas deve ficar atento à diversificação da economia.
Veja trechos da entrevista que Spence concedeu à Folha, por e-mail.

Folha - A crise econômica de 2008 se espalhou rapidamente em todo o mundo e terminou de forma relativamente rápida em países como o Brasil. O sr. acha que a crise atual será mais longa?
Michael Spence - A crise tinha uma história de alavancagem excessiva, desequilíbrios e problemas estruturais. A crise atual é em parte uma extensão das mesmas questões. Se a Europa avançar, será menos grave. Haverá apenas um período longo e difícil de ajustamento estrutural para restaurar padrões sustentáveis de crescimento e emprego. Mas outro cenário é uma grande recessão na Europa causada por uma incapacidade de lidar com as questões da zona do euro. Nesse segundo cenário, a crise será dura e de longo prazo.

Qual é o caminho para evitar esse cenário mais duro?
Não existe maneira de certamente eliminar os riscos do cenário pessimista. Se a Grécia eventualmente sair, criará riscos de contágio. Mas o fator principal para controlar o risco é conduzir reformas bem-sucedidas na Itália e na Espanha. E ter a Alemanha e o Banco Central Europeu de volta para estabilizar bancos e dívidas dos governos, com o FMI (o que significa o resto do mundo) apoiando. As reformas institucionais para a disciplina fiscal também têm que prosperar. Se todas essas coisas funcionarem, o risco permanece em nível controlável. Mas devo dizer que haverá retração econômica por um ano ou dois, mesmo no cenário mais positivo.

O senhor vê a possibilidade de diminuição no número de países que compõem a zona do euro?
Definitivamente sim. Os líderes estão tentando evitar esse desfecho, mas eu não acho que seja sábio. Nem é bom para Grécia e provavelmente tampouco para Portugal. Uma zona do euro menor e mais homogênea poderia ser um bom resultado. Ela poderia se expandir depois. Mas realmente eles têm que elaborar um mecanismo de ajuste para quando os países deixam de ser competitivos e têm problemas de produtividade. Ninguém tem uma boa resposta para essas questões ainda.

O senhor acha que os países emergentes vão repetir o desempenho que tiveram na crise passada, quando mantiveram a demanda por commodities e garantiram algum crescimento global?
Há desaceleração nas economias emergentes, mas é relativamente leve até agora. Deve haver uma espécie de repetição do desempenho pós-2008, desde que a Europa avance.

Os fatores que garantiram o crescimento de países como China, Índia e Brasil podem ser sustentados agora? E por quanto tempo?
Indefinidamente. São países saudáveis fiscalmente e geridos de forma eficaz do ponto de vista macroeconômico. Eles estão mais ricos, maiores e negociam muito uns com os outros. Estão parcialmente dissociados [da crise], embora não completamente. Ainda dependem de uma quantidade substancial de demanda agregada dos países avançados. O grau de dissociação irá aumentar gradualmente ao longo do tempo.

De que maneira o grau de dissociação aumentará? E caso a Europa não avance e o impasse político impeça a resolução dos problemas econômicos, quais seriam as principais formas de contágio para os emergentes?
Existem dois canais. Um é a economia real. Se a economia decresce, cai a demanda por importações, com consequências para os emergentes. O impacto varia entre os diferentes países porque eles sentem de modo diverso os movimentos de preço das commodities e a demanda por serviços (no caso da Índia). O segundo canal é o financeiro. Os mercados emergentes estão voláteis agora com a combinação de riscos domésticos e globais. Essa volatilidade tornará empresários e consumidores mais cautelosos, o que pode reduzir a demanda doméstica. Tendo dito isso, o nível de dissociação continua aumentando. Só não está completo.

Há rankings em que o Brasil aparece como a sexta maior economia do mundo. Como o senhor analisa a trajetória de crescimento do país?
A trajetória de crescimento do Brasil é excelente. A inclusão está aumentando e ajudando a sustentar o crescimento e a reduzir a desigualdade de renda. É um padrão sustentável. A gestão macroeconômica é muito boa. É preciso cuidado para não permitir que o aumento do preço das commodities, que beneficiou o Brasil, cause uma redução no padrão de diversificação da economia e reduza as oportunidades de emprego. Um fundo soberano bem administrado seria uma boa ideia, eu acho.

No discurso do Estado da União [em que anualmente o presidente americano presta contas ao Congresso], Barack Obama pediu a empresários para trazerem de volta os empregos que haviam deslocado para a China. Esse tipo de apelo é eficaz?
Não faz sentido trazer empregos de baixo valor agregado da China ou de outros países em desenvolvimento. O que podemos fazer é competir em empregos de maior valor agregado -mas não nos empregos muito tops, em que vamos bem de qualquer forma. Os modelos deveriam ser mais a Alemanha, o Japão e a Coreia do Sul.

A base para atrair empresas para a China tem sido a mão de obra barata. Essa situação persistirá?
Isso está prestes a mudar, tal como aconteceu na Coreia do Sul e no Japão no passado. A China irá se mover para rendimentos mais elevados e o trabalho intensivo nas manufaturas irá migrar para emergentes em fases anteriores de desenvolvimento.

A migração já começou? Para onde?
Começou, por exemplo, para o Vietnã, Bangladesh e para a Índia em alguma medida. Isso não é novo. A Coreia costumava fabricar sapatos e vestuário nos anos 1980 e 1990 e isso migrou para Vietnã, China, Indonésia etc. Hong Kong costumava fabricar vestuário e houve mudança para Cingapura e outros países.
Raio-X Michael Spence

IDADE
68
FORMAÇÃO
Bacharelado em artes em Princeton, mestrado em artes em Oxford e doutorado em economia em Harvard
CARGO
Professor emérito na Universidade Stanford, pesquisador da Instituição Hoover e do Council on Foreign Relations
PRÊMIOS
Ganhou o Nobel em economia em 2001 por análises do comportamento do mercado com informações assimétricas, entre outras distinções
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Reportagem por VERENA FORNETTI DE NOVA YORK
Fonte: Folha on line, 27/02/2012
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