segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O poder da gentileza

Eduardo Shinyashiki*
Será que a vida moderna dificulta relações com gentileza,
ou é possível ser uma pessoa ocupada,
 sem abrir mão da delicadeza no trato com o outro?

Buscamos cada vez mais a interatividade, por meio do avanço tecnológico e do desenvolvimento da civilização. Passamos o dia inteiro conectados a pessoas das mais variadas localidades. Somos capazes de estabelecer contato com praticamente todos os cantos do planeta, a hora que quisermos.
Porém, as relações interpessoais próximas parecem cada vez mais superficiais. Seguindo por este caminho, da distância e indiferença, palavras como cortesia, empatia e amabilidade parecem mais além da nossa realidade, dia após dia.
Afinal, será que a vida moderna dificulta relações com gentileza, ou é possível ser uma pessoa ocupada, sem abrir mão da delicadeza no trato com o outro? Como ser gentil enquanto enfrentamos o trânsito caótico das grandes cidades e o dia-a-dia tão cheio de tarefas e obrigações?
São tantos os motivos que podemos facilmente nos convencer de que a falta de cuidado com o próximo não é nossa culpa, assim como a forma como somos tratados.
Estamos acostumados a ver a agressividade exaltada, considerada um meio indispensável para o sucesso, é elogiado o homem forte, o executivo agressivo, duro e arrogante. Será que essas atitudes conquistam a confiança alheia e o sucesso duradouro?
O que acabamos esquecendo é que, antes de tudo, o ato de ser gentil beneficia, mais do que a qualquer outro, a nós mesmos. Uma teoria publicada pelo professor Sam Bowles, do Instituto Santa Fé (EUA), chamada de “sobrevivência do mais gentil”, afirma que a espécie humana sobreviveu graças à gentileza.
Segundo Bowles, os grupos altruístas cooperam e colaboram mais para o bem-estar do próximo e da comunidade, a fim de garantir a sobrevivência. Outro estudo, realizado pela professora Sonja Lyubomirsky, da Universidade da Califórnia, demonstrou também que a gentileza pode nos deixar mais felizes.
Ela pediu a um grupo que praticasse atitudes gentis durante dez semanas, e verificou que a felicidade aumentou consideravelmente no período do estudo.
Gentileza significa uma boa educação emocional, aprendida e desenvolvida em todos os ambientes que convivemos. É o bom tratamento, uma qualidade ou caráter de alguém nobre, generoso, que ajuda a manter e fortalecer os laços entre as pessoas.
As pesquisas nos mostram que ser gentil tem uma finalidade pessoal e coletiva, é a prova de que quando tomamos atitudes em prol do outro, automaticamente, e muitas vezes sem perceber, recebemos de volta o bem que fizemos.
A teoria do professor Sam Bowles pode ser demonstrada por brigas no trânsito, por exemplo, em lugares com uma concentração grande de pessoas, onde vidas se perdem pela simples falta de compreensão com as atitudes alheias.
Vivemos na defensiva, temendo que os outros possam nos machucar. Mas há diversas formas de se comprovar que atitudes mais solícitas e gentis só tendem a melhorar a qualidade de vida e as relações interpessoais.
Sabemos, também, que só temos a ganhar quando privilegiamos a gentileza, ao invés da brutalidade e ignorância. A grande característica da gentileza é que ela está presente, na maioria das vezes, nas atitudes cotidianas e simples.
Ouvir mais, por exemplo, ser paciente, justo e solidário, são atitudes simples, mas importantes para tornar-se uma pessoa mais próxima perante o outro. Estimular a amizade pode ser uma forma de se exercer a generosidade e a gentileza.
O que nunca devemos nos esquecer é que o poder de modificar aquilo que nos cerca está dentro de nós, a parte mais importante do trabalho acontece no interior do nosso ser, purificando nossos corações. Somente nós mesmos transformaremos nossas vidas em existências mais dignas, plenas e verdadeiras.
____________________________________
* Eduardo Shinyashiki (Palestrante, consultor organizacional, escritor e especialista em desenvolvimento das Competências de Liderança e Preparação de Equipes. Presidente da Sociedade CreSer Treinamentos)
Portal HSM - 31/01/2011

Os sete sentidos da comunicação para o líder do futuro

Nancy Assad*
liderança RH sinestesia
A sinestesia, o sétimo sentido, é que transformará e fará diferença nas pessoas,
nos ambientes e no mundo corporativo.

Líderes devem estar à frente, serem superiores em consciência e elevação espiritual, devem abrir caminhos, iluminar mentes, dar o exemplo, sendo coerentes, para motivar, incentivar e estimular novos comportamentos em seus liderados. A figura do líder é importante em qualquer organização, pois sua competência em comunicação condiciona a empresa ao sucesso ou ao fracasso.
Portanto, o desenvolvimento dos sete sentidos para a Comunicação na Liderança é de suma importância para qualidade de vida e longevidade corporativa. Representam os primeiros degraus da escalada para a construção de um mundo humano e empresarial de harmonia e felicidade com resultados pessoais, sociais e corporativos.
O principal requisito do líder contemporâneo é a comunicação e a sua capacitação com os novos instrumentos que serão integrados as Competências Humanas para o desempenho nas modernas práticas de lideranças.
O desafio é arrebatar líderes e organizações aos novos tempos da Comunicação pela conquista da consciência superior que visa à qualidade de vida, harmonia nos relacionamentos interpessoais e, sobretudo, da vida equilibrada de negócios e finanças para a sustentabilidade empresarial.
O ser humano possui cinco sentidos fundamentais, com os quais se relaciona e se comunica e percebe o mundo. São eles: audição, olfato, paladar, tato e visão.
Os cinco sentidos são de extrema importância para se ter uma percepção geral do todo e conseguir se tornar uma pessoa completa. Mas, para uma liderança excelente e inovadora, o foco na espiritualidade e na sinestesia é que transformará e fará diferença nas pessoas, nos ambientes e no mundo corporativo.
O sexto sentido, que corresponde a uma sensibilidade extra-sensorial correspondente à espiritualidade. O tema é novo e polêmico, porém a física e filósofa americana Dana Zohar em seu livro QS – Inteligência Espiritual fala do aumento dos horizontes pessoais, tornando as pessoas mais criativas e abertas para a necessidade de encontrar uma vida de propósitos. Seu trabalho baseou-se em pesquisas de cientistas de várias partes do mundo. Foi descoberto no cérebro o ponto responsável pelas manifestações espirituais.
A espiritualidade é a característica dos líderes que os tornam pessoas sensíveis, espiritualmente sábias e essencialmente comunicativas. Por serem mais sensíveis, esses líderes podem conjugar os cinco sentidos, contando com uma percepção extra-sensorial do mundo ao seu redor.
"Ter alto quociente espiritual implica
ser capaz de ter uma vida mais rica e
 mais cheia de sentido,
adequado senso de finalidade,
direção pessoal e
de equipes."
O sentido espiritual é que coloca os atos e experiências num contexto mais amplo de sentido e valor, tornando-os mais efetivos. Ter alto quociente espiritual implica ser capaz de ter uma vida mais rica e mais cheia de sentido, adequado senso de finalidade, direção pessoal e de equipes.
É o sentido que impulsiona. É com ele que se aborda e solucionam-se vazios de razão de vida e de valor. É ele que usamos para desenvolver valores éticos e crenças que vão nortear nossas ações. Os novos líderes com o uso desse sentido são dotados de uma capacidade comunicacional mais sábia e com maior sensibilidade perante todas as questões da sociedade.
O espírito que tem como pilar a ética, construída com base em valores universais, possui fortalecimento do caráter, inspiração para a qualidade das intenções, atitudes e ações. A ética qualificada é diferente da ética formal e nasce do sentimento e não da razão, o sentimento é uma expressão do espírito.
À visão inovadora desses seis sentidos adiciona-se o sétimo sentido – a sinestesia, incorporando todos esses atributos humanos à formação intelectual, espiritual e de relações interpessoais, expressas pela comunicação, que é a competência essencial do líder do futuro.
A sinestesia aborda a consciência do novo líder e a sua essência. Para ilustrar a definição de sinestesia, invariavelmente temos que retomar os seis sentidos abordados antes, para uma visão integrada das capacidades sensoriais.
Fazendo um paralelo com o mundo corporativo, o olfato permite sentir o ambiente corporativo; já o paladar permite saborear o gosto da vitória e digerir o sabor amargo da derrota. O tato permite ao líder atuar na busca de entendimento e resultados organizacionais em uma situação de conflito, no desenvolvimento da habilidade para situações críticas, busca da criatividade, na promoção da inovação e melhora da coesão dos grupos.
O sentido da visão permite analisar e avaliar formas para transmitir a visão e pontos de vista. Este sentido é chamado de Comunicação centrada no "EU", percebendo a imagem que temos de nós mesmos e os impactos que causamos pelas próprias imagens que construímos.
A audição permite desenvolvermos a capacidade de escutar, compreender o outro e todas as questões envolvidas. Esse sentido é uma arte para os líderes. Porque estimula a comunicação integrada, interativa e total.
O Sinestésico tem a ver com aqueles individuos, que são “sensoriais”, ou seja, capazes de fundir ou misturar diferentes sentidos. Por exemplo, conseguem ouvir atentamente o outro, olham nos olhos, demonstrando interesse e empatia, sentem o próximo pelo olfato, e pelo tato, o que amplia o entendimento. Essas capacidades dos sentidos humanos tornam a percepção mais aguda, afinada e integral elevando a capacidade comunicacional.
__________________________
* Nancy Assad (Diretora executiva da NA Comunicação e Consultoria Associados e Unisomma – Universidade Livre Corporativa)
Fonte: HSM Online - 31/01/2011

Os integrismos

Rafael Navarro-Valls*

Liberdade religiosa versus fundamentalismo irreligioso

Em rápida sucessão, o Senado espanhol (18 de janeiro) e o Parlamento Europeu (20 de janeiro) acabam de aprovar duas resoluções condenando os ataques no Egito, Nigéria, Filipinas, Chipre, Irã e Iraque contra as minorias cristãs. Anteriormente, a França já o tinha feito. Explícita ou implicitamente, nessas declarações é rejeitada a instrumentalização da religião no conflito político, enquanto se faz uma vigorosa defesa da liberdade religiosa.
O que os redatores repelem - em minha opinião - é esta visão ingênua do estado de saúde dos direitos humanos, em que muitas vezes se toma a parte pelo todo: acreditar que, uma vez que o Ocidente tem um reconhecimento aceitável de direitos humanos, isso acontece em todos os lugares. Isto é o que está sendo chamado de "Síndrome de Internet": a confortável ilusão de um mundo agradavelmente globalizado, que ignora que mais de metade dos habitantes da Terra desconhece as novas tecnologias.
"A mente do intolerante é como
 a pupila dos olhos:
quanto mais luz recebe,
mais se contrai".

Holmes

Na verdade, o integrismo é uma sombra ameaçadora que se estende por grande parte do mundo, causando a erosão dos direitos humanos. Sua existência é tentacular, pois tem diversas versões. Há um integrismo supostamente religioso que, na verdade, é uma forma de fanatismo irreligioso. O fanático é irreligioso na medida em que recorre à violência, que uma visão razoável da religião rejeita e odeia. Por esta razão, as recentes condenações do Ocidente contra os ataques integristas aos cristãos do Oriente não podem ser interpretadas como formas de islamofobia, precisamente porque o que é rejeitado é a escura vertente política dos fanáticos, que costumam amparar-se em cortinas de fumaça supostamente religiosas.
Entende-se, assim, que 70 personalidades muçulmanas tenham publicado um manifesto com o expressivo título "Islã, ridicularizado pelos terroristas". Refere-se explicitamente às "atrocidades cometidas em nome do Islã" contra os cristãos no Egito e no Iraque. Afirma que "estes assassinos não são do Islã e não representam em absoluto os muçulmanos". Especificamente, rejeita o que eles veem como a invasão da própria identidade religiosa por parte de "falsários" que empunham a religião como uma arma destrutiva. O melhor teste para avaliar o grau de respeito aos direitos humanos é a liberdade religiosa. Daí que o alarme do Ocidente seja justo.
Mas, junto ao fundamentalismo supostamente religioso, existem outros mais subterrâneos, que costumam se expandir em áreas do Ocidente alegadamente respeitosas dos direitos humanos. Não me refiro tanto ao fundamentalismo de base freudiana, que dissolve a religião em ilusórias manifestações psíquicas, mas ao que Jorge Semprún chama de "fundamentalismo da purificação social". Aquele que, mesmo no dia-a-dia tende a eliminar a disparidade, nas complexas relações entre consciência civil /consciência religiosa, decreta ditatorialmente que a segunda é apenas um resíduo em um horizonte agnóstico.
Uns e outros fanáticos - os do Oriente e os do Ocidente - são os mesmos que colocaram em circulação uma espécie de polícia mental, cujos agentes se dedicam a uma caça às bruxas, na qual a primeira vítima é sempre a liberdade. Como disse Holmes há muito tempo: "A mente do intolerante é como a pupila dos olhos: quanto mais luz recebe, mais se contrai".
_____________________________
*Espanhol Rafael Navarro-Valls, catedrático da Faculdade de Direito da Universidade Complutense de Madri e secretário-geral da Real Academia de Jurisprudência e Legislação da Espanha.
Fonte: Zenit.org. acesso 31/01/2011

Adivinhe quem vem para jantar

LUIZ FELIPE PONDÉ*
--------------------------------------------------------------------------------

Pessoalmente, suspeito fortemente
de gente "legal" e "indignada",
confio mais em gente blasé

--------------------------------------------------------------------------------

VOCÊ NAMORARIA o porteiro do seu prédio? "O quê?!" Assusta-se a leitora, nesta segunda-feira, dia 31 de janeiro.
Hoje, o ano novo já mergulha na corrida sonambúlica de todos os anos velhos. Claro que seus planos para 2011 não darão certo.
Provavelmente você continuará menos amada do que gostaria, ganhando menos do que gostaria, com os mesmos amigos chatos, os mesmos namorados bobos (os melhores já estão "ocupados", como sempre, ainda que você possa, como sempre, tentar tomá-los das suas melhores amigas) e pegando o trânsito idiota de todo feriadão para ir a praias que são cheias de gente brega e mal-educada. Aquelas mesmas que invadem os aeroportos com seus quilos de bagagem e sua alegria de praça de alimentação.
Calma, talvez eu esteja apenas enganado, e em 2011 aconteça tudo que aquela vidente picareta disse para você que ia acontecer.
"Que diabos este colunista está querendo dizer com essa história de eu namorar o porteiro do meu prédio?" Mas, claro, ela não responde a minha pergunta, porque uma pergunta como essa pode revelar que ela não é tão legal quanto gosta de fazer parecer em jantares inteligentes.

"Incrível como, suavemente, todos
os ideais sociais modernos tombam,
como o cristianismo já tombara
desde a Antiguidade tardia,
à hipocrisia social de salão."
Essa pergunta não é minha propriamente, mas de um amigo meu bem esquisito. Ele fez essa pergunta em meio a uma discussão sobre ter ou não ter preconceitos, e achei que era muito bem pensada. Na realidade, a conversa nasceu do meu desgosto com o estilo de vida "praça de alimentação". Esse meu desgosto deixa muita gente "legal" indignada. Pessoalmente, suspeito fortemente de gente "legal" e "indignada", confio mais em gente blasé.
Imagine você, toda bonita, magra na medida certa, dieta de baixo impacto calórico e bem-sucedida na profissão, mãe de um filho de 12 anos preocupado com o aquecimento global, enquanto deixa o quarto sempre desarrumado, até que você se descabele e comece a berrar "arrume esse quarto, menino!". Agora imagine você saindo com o porteiro de seu prédio, de mãos dadas, num desses restaurantes chiquinhos que você frequenta.
Do que vocês conversariam? Que tal sobre sua revolta contra preconceitos e contra injustiça social? Que tal um beijo na boca bem gostoso em nome da igualdade social? Você já viu aquele filme "Adivinhe Quem Vem para Jantar", com Sydney Poitier? Veja.
Antes que o plantão dos humilhados e ofendidos grite, também sou contra injustiça social e contra preconceito. Hoje todo mundo que sabe comer de boca fechada também sabe sofrer pelas criancinhas da África. Atualmente, ser contra injustiça social e contra preconceitos é tão banal quanto ler horóscopo todo dia de manhã.
Incrível como, suavemente, todos os ideais sociais modernos tombam, como o cristianismo já tombara desde a Antiguidade tardia, à hipocrisia social de salão.
Agora, imagine você, caro leitor, homem moderno, sensível, machista nem pensar, que acredita em redes sociais, que diz por aí que não tem medo de mulher (mentiroso, todo homem tem medo de mulher, principalmente quando está interessado nela).
Imagine que sua filha está a fim do porteiro do seu prédio. Imagine ela saindo com ele. Ele dirigindo o carro que você deu para ela. Que tal eles irem a algum churrasco na laje que ele frequenta? Ou, quem sabe, ir a alguma dessas igrejas por aí onde o Espírito Santo "baixa" e as pessoas pulam e gritam feito loucas "Aleluia, aleluia!"?
Que tal se sua filha quiser se casar com ele? Você paga pelo casamento? Que tal um filhinho com a cara dele? Você visitará a família dele no Nordeste?
Mas, atenção: nada de resort cinco estrelas ou pousadinhas de um holandês doidão que se cansou da Europa e veio em busca de uma natureza selvagem. Hospede-se na casa da família dele.
Agora, imagine nosso belo casal, tirando seus filhos dessas escolas chiquinhas que ensinam aos seus filhos "consciência social" ao preço de quase R$ 2.000 mensais, em bairros "nobres". Agora pense neles matriculando seus filhos em 2011 (afinal, ano novo, vida nova) numa escola pública onde o filho do seu porteiro estuda.
Agora convide seu porteiro para jantar. Qual é o nome dele mesmo?
________________________
* Filósofo. Escritor. Prof. Universitário. Cronista da Folhaponde.folha@uol.com.br
Fonte: Folha online, 31/01/2011 
Imagens da Internet

Religião e Política

Renato Janine Ribeiro*
Um dos primeiros atos do regime republicano no Brasil foi separar a Igreja do Estado. No Império, os padres eram funcionários públicos, as religiões diferentes da católica podiam ser praticadas, mas “sem forma externa de culto” e, finalmente, bispos eram nomeados e encíclicas eram seguidas somente se o imperador lhes desse seu acordo. Desde a República, nenhuma Igreja pode ser oficial, ao mesmo tempo em que se garante ilimitada liberdade de culto a todas.
Isso não foi tão fácil de realizar. Os católicos contaram com muito apoio oficial. Quando eu era criança, as aulas de Religião – na escola pública – eram praticamente só da igreja católica. Ela orientava as pessoas sobre os filmes aos quais podiam assistir e até recomendava o voto dos eleitores, apesar de nunca ter atingido a influência de sua congênere italiana – talvez porque a “ameaça comunista” (sic), aqui, nunca tenha sido grande. Alguns padres recomendavam que os fiéis destruíssem bíblias protestantes, caso as tivessem, e não lessem Monteiro Lobato. Nos últimos 50 anos, porém, enquanto aumentava o número dos católicos não praticantes, crescia tremendamente o de cristãos evangélicos, de adeptos de outras religiões e de agnósticos ou ateus. E a igreja católica mudou muito.
Quer isso dizer que se separou a Igreja do Estado, a Religião da política? Não. Quando, na campanha presidencial, a questão do aborto entrou em cena, seus principais porta-vozes foram líderes religiosos. Um assunto que deve ser debatido com calma e tranquilidade foi atirado às paixões e preconceitos. Os candidatos tiveram que dar-lhe uma importância excessiva. Com isso, perdeu o espírito republicano, que exige a discussão dos assuntos com vistas ao bem comum e não a princípios de uma Religião, seja ela qual for.
O direito das religiões. Mas significa isso que as pessoas não devam se manifestar de acordo com sua fé religiosa? Não. É direito de cada um escolher sua Religião – ou sua falta de Religião – e agir em consequência. A única ressalva é que ninguém viole a lei. E também, insisto: que a escolha seja da pessoa, em vez de lhe ser imposta.
Religiões têm muito a ver com moral. Elas incluem dogmas, liturgia, mas também normas de ação. Portanto, é normal que as religiões recomendem ou até ordenem determinadas condutas. Por exemplo, algumas proíbem por completo o aborto, outras o aceitam nos casos em que a lei brasileira o permite (estupro, incesto) e outras, ainda, o admitem com a única limitação de não passar de alguns meses de gestação. É justo que os fiéis levem em conta sua fé religiosa ao moverem-se em assuntos delicados.
Também sucede de Igrejas recomendarem que não se vote em corruptos, que se lute contra a injustiça social e por aí vai. Se aceitamos que elas se exprimam sobre um destes assuntos, devemos admitir que também falem a respeito de outros.
Mas, aqui, há dois pontos importantes a assinalar. Primeiro: mesmo que padres e pastores chamem seus fiéis de “rebanho”, as pessoas estão cada vez menos dispostas a serem ovelhas, a serem rebanho, a serem conduzidas por ordens de qualquer tipo. Fomos nos tornando meio kantianos, isto é, tudo o que é ordenado tem de ser justificado e, cada vez mais, ser examinado por nossa razão. Ninguém mais vai queimar Monteiro Lobato – assim espero! É verdade que essa exigência de autonomia, de cada um decidir sua vida, infelizmente não está presente em todos – uma parte da população segue o chefe de maneira quase maquinal -, mas ela cresce constantemente.
"...mesmo que padres e pastores
chamem seus fiéis de “rebanho”,
as pessoas estão cada vez menos dispostas
 a serem ovelhas,
a serem rebanho,
a serem conduzidas por ordens de qualquer tipo.
Fomos nos tornando meio kantianos,
isto é, tudo o que é ordenado tem de
ser justificado e,
cada vez mais,
ser examinado por nossa razão."
Autonomia. Portanto, ao líder religioso cabe orientar, sugerir, não mandar. E as pessoas devem considerar seus ensinamentos à luz de muitos outros, até mesmo das experiências que tenham na vida. Consta que a maior parte dos abortos proibidos no Brasil é realizada por católicas casadas; isso deve ser difícil para elas, que se veem divididas entre a ordem da Igreja e sua vivência pessoal. Mas não se foge disso negando-se a experiência vivida, culpando-se, martirizando- se. A única saída é pensar muito, com a razão e também com o coração, até se chegar a uma decisão realmente autônoma, que concilie na medida do possível a fé e a independência de cada um. A consciência não é feita apenas de Religião. Ela é antes de qualquer coisa autonomia: capacidade de decidir, só, os caminhos a trilhar.
O segundo ponto é que – mesmo sendo movidos pela moral e mesmo tendo ela, para muitos, um componente religioso – na vida social e pública lidamos com pessoas de outras religiões e até mesmo de outros valores. É claro que não se trata de cair num relativismo moral completo. Acredito que todas as pessoas decentes condenem o assassinato, o estupro, a violência ilegítima. Mas, em sociedade, nem sempre os acordos a que chegamos sobre o que fazer estão baseados nos mesmos princípios.
Com frequência, concordamos sobre ações práticas ainda que os princípios de uns e de outros sejam diferentes. É só assim que a sociedade democrática pode funcionar: pessoas com crenças religiosas e convicções políticas diferentes, todas elas legítimas, mas que concordam sobre um mínimo de regras que valham para todos.
Por isso, os líderes religiosos não devem dar ordens a seus fiéis. Podem orientá- los. Podem dizer que levem em conta a justiça social, a moral dos candidatos, até mesmo sua posição sobre o aborto. Tudo isso é legítimo. Mas não devem ordenar que sigam uma de suas orientações como sendo a única. O mundo é complexo demais para ser medido com um único metro. As pessoas são complexas – e muito ricas – para que sua vida e suas opiniões se reduzam a uma regra apenas.
___________________________________________________________
(*) Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP)
(**) Colaboração do Centro de Estudos Políticos Econômicos e Culturais CEPEC, para o EcoDebate, 31/01/2011
Imagens da Internet

domingo, 30 de janeiro de 2011

A juventude da velhice

Juremir Machado da Silva*
Crédito: ARTE PEDRO LOBO

Fazer aniversário não me fascina. Nem me aborrece. Como diz aquela piada, é algo que pode ser comemorado por qualquer idiota sem que ele tenha feito qualquer coisa em favor do acontecimento, salvo permanecer vivo, o que pode ser, bem pensado, bastante, ou, em outros casos, um excesso e até mesmo um abuso. Não chego a pensar como o filósofo Cioran, que escreveu um livro impressionante, "Do Inconveniente de Ter Nascido", mas também não fico, como se diz lá em Palomas, "me gavando", ainda mais agora que fui rebaixado de aquário para capricórnio. Estou fazendo 49 anos hoje. Segundo a leitora Ruth Wigner, a chegada aos 50 anos de idade representa sair da velhice da juventude para entrar na juventude da velhice. Adorei essa ideia. Viverei meu último ano na velhice da juventude. Ano que vem, voltarei, enfim, a ser jovem.
Com o passar do tempo, a gente aprende que no pronome "eu" quase sempre há um "nós". Na juventude, acreditamos na singularidade absoluta do nosso eu e custamos a nos imaginar no lugar de qualquer outro. Na velhice da juventude, descobrimos que as experiências particulares quase sempre andam na média de um grupo, faixa etária ou sociedade. Ficamos menos narcisistas. Ou definitivamente egocêntricos. É incrível como se pode prever o futuro. Dá até para calcular, salvo acidente de percurso, quanto ainda vai se ganhar em dinheiro até o final da vida, o que só não é preciso por conta da possibilidade de demissão ou pelo rebaixamento das aposentadorias imposto pelo bizarro sistema brasileiro. Da até para especular sobre a doença que um dia nos afetará. É uma questão de sorteio. O destino é quem joga os dados. Um dia, sem mais nem menos, sai o sorteio da gente. Às vezes, tem sinal.
Aquilo que um jovem chama de sinal, começa-se, mais tarde, a chamar de sintoma. Em comunicação, existe uma "teoria" ou hipótese conhecida como "agenda-setting". Ela diz que a mídia não nos diz o que falar, mas sobre o que falar. Deve ser por isso que falamos de futebol. Isso até o momento em que o homem passa a frequentar consultórios médicos e entra na confraria dos pacientes impacientes, ainda dispostos a mudar de assunto, mas cada vez mais monotemáticos e falantes. É uma idade estranha. Surge o interesse pela leitura de bulas, mas a vista está cansada, obrigando a tirar os óculos para enxergar perto e a colocá-los numa tentativa vã de enxergar longe. No fim da velhice da juventude surgem muitos vampiros. Alimentam-se de sangue jovem na esperança de escapar, ainda não do sorteio, mas já da obsessão pela medicina.
Cioran -Imagem da Internet
Chega de pensamentos sombrios, embora eles me pareçam tão divertidos. O trágico pode ser cômico. Vamos comemorar com espumante. Afinal, a vida é uma espuma que passa rápido, exceto a dos detergentes e da raiva dos fanáticos. Como afirma Cioran, "esperar é desmentir o futuro". A minha esperança é desmentir o tempo, esse grande sacana que não nos larga. Quero ser imortal, mas não como gremista, nem como membro da Academia Brasileira de Letras. Eterno enquanto dure. Obrigado ao poeta.
------------------------------------
Deste blog:
OBS: Gosto do CIORAN. Em suas tiradas trágicas a vida sem sentido torna-se fumaça e clama pelos que dizem que a vida tem sentido. Quem é CIORAN? Emil Cioran (Raşinari, 8 de abril de 1911 — Paris, 20 de junho de 1995) foi um escritor e filósofo romeno radicado na França. Em 1949, ao publicar "précis de decomposition", passa a assinar E.M. Cioran, influenciado por E.M. Forster -esse "M" não tem nenhuma relação com outros nomes do filósofo (como Michel, Mihai, etc.)(Fonte: Wikipédia).
___________________
*Filósofo. Escritor. Prof. Universitário. Cronista do Correio do Povojuremir@correiodopovo.com.br
Fonte: Correio do Povo online, 30/01/2011

Imagens do futuro

JUREMIR MACHADO DA SILVA*
Crédito: ARTE PEDRO LOBO

Domingo é ótimo para reflexões sobre o futuro. Aconselho refletir pela manhã, antes do churrasco e da caipirinha. Tem muita gente preocupada com o futuro do livro impresso. Será que vai desaparecer? Fiquem calmos, o que pode desaparecer é a escrita. Estão achando que eu já bebi a caipirinha? Nada disso. Estou lúcido e em pleno domínio das minhas faculdades mentais, que podem não ser muitas, mas funcionam normalmente. O filósofo tcheco Vilém Flusser (1920-1991), que foi professor da Universidade de São Paulo, publicou um livro com este sugestivo título: "A Escrita - Há um Futuro para a Escrita?". Como veem, não sou o único louco deste mundo.
Já no primeiro parágrafo, Flusser dispara um míssil: "Parece não haver quase ou absolutamente nenhum futuro para a escrita, no sentido de sequência de letras e outros sinais gráficos. Hoje em dia, há códigos que transmitem melhor a informação do que o dos sinais gráficos. O que até então foi escrito pode ser mais bem transportado por fitas cassetes, discos, filmes, fitas de vídeo, disco de vídeo (CD-ROM) ou disquetes". Flusser não viveu o suficiente para ver fitas cassetes, disquetes e fitas de vídeo tornarem-se obsoletos. A tecnologia deu mais um salto. A escrita serviu durante séculos como memória, tendo o papel como seu melhor suporte, e como forma de expressão superior. Está superada nisso tudo.
Imagem da Internet
"Com a Internet, acabou o
monopólio da emissão.
Todo mundo pode ser emissor.
Cada um é dono do seu meio de comunicação.
O que pode salvar a escrita?
 O fato de a leitura exigir um
 investimento cognitivo maior?
Pode ser."
Os dispositivos tecnológicos de memória atuais podem armazenar imagens e sons em quantidades infinitas, permitindo o famoso "entrar com busca" para localizar o que se quiser. Muitas empresas já prescindem do papel, gravando as conversas com os ajustes de contratos feitos com seus clientes. Alguns cargos ainda se mantêm como vestígio do passado: taquígrafos, digitadores em sessões legislativas e audiências de tribunais de Justiça e outros profissionais que ainda sobrevivem da escrita como memória, ainda que o suporte seja cada vez menos o papel. Filme de terror? Não. Evolução. Na Internet ainda se usa muito a escrita, mas cada vez mais a comunicação pode ser feita por som e imagem. Aquilo que a imagem não diz, a voz completa. Torpedos vocais são mais rápidos que torpedos digitados. Será que voltaremos à oralidade?
A escrita também teve uma função expressiva e artística importante. As novas gerações, educadas pelo som e pela imagem, expressam-se artisticamente através de filmes, canções, vídeos e fotos cada vez mais fáceis de produzir e baratos. Até pouco tempo, produzir imagens em movimento era muito caro. Tornou-se barato. Está ao alcance de qualquer um. Com a Internet, acabou o monopólio da emissão. Todo mundo pode ser emissor. Cada um é dono do seu meio de comunicação. O que pode salvar a escrita? O fato de a leitura exigir um investimento cognitivo maior? Pode ser. Mas ainda falta provar isso cientificamente. Pelo jeito, vamos resolver definitivamente o problema do analfabetismo. No futuro, seremos todos analfabetos. Só leremos imagens e sons.
______________________________________
* Filósofo. Escritor. Tradutor. Cronista do Correio do Povo
Fonte: Correio do Povo online, 30/01/2011

Pílulas para início de ano

Rubem Alves*
Filosofia de jangadeiro

A Vilma Cloris de Carvalho, maravilhosa educadora aposentada da Unicamp, vive em Recife e descobriu que a literatura circula pelas suas veias. Um dos seus prazeres é caminhar pela praia, pela manhã. Ela me contou o seguinte: "Na minha caminhada passo por uma praia de jangadeiros. É ali que eles trazem os seus peixes. Todos eles já fazem uso do telefone celular para se comunicar. Passei por um jagandeiro que falava no celular. Curiosa, diminui o passo para ouvir a conversa. Ele falava com uma mulher. Foi isso que ele me disse: "Meu bem, quando eu estou com você, sou só seu... Quando estou com a minha mulher, sou só dela. Mas quando estou no mar não sou de ninguém..."

Hokusai (1760-1849)

Considerado, talvez, o maior de todos os pintores japoneses. Aos 74 anos, três anos menos velho do que eu, eis o que ele escreveu: "Desde os 6 anos tenho mania de desenhar a forma das coisas. Aos 50 anos, publiquei uma infinidade de desenhos. Mas tudo que produzi antes dos 70 não é digno de ser levado em conta. Aos 73 anos, aprendi um pouco sobre a verdadeira estrutura da natureza dos animais, das plantas, dos pássaros, dos peixes e dos insetos. Com certeza, quando tiver 80 anos, terei realizado mais progressos; aos 90, penetrarei nos mistérios das coisas; aos 100, por certo, terei atingido uma fase maravilhosa, e quando tiver 110 anos, qualquer coisa que fizer, seja um ponto, ou uma linha, terá vida". Nesse momento passaram pela janela do apartamento em que vivo, 11º andar, vários peixes prateados. Levei um susto. Pensei estar tendo uma alucinação. Mas logo me tranquilizei. Eram os peixes desenhados pelo mestre japonês...

Carta de um presidiário

Ao esvaziar uma gaveta encontre a seguinte carta esquecida, manuscrita com caligraifa invejável: "Prezado escritor; lhe escrevo em nome da Biblioteca e da Pacífica População da Penitenciária de Presidente Bernardes/SP. A biblioteca procura por todos os meios atender e estimular os anseios por leitura, cultura e educação dos mais de mil reeducandos e funcionários da penitenciária. Porém o acervo é deficiente para esta missão. A leitura é um poderoso fator de reeducação e uma útil e piedosa substituta para a liberdade perdida. Recebemos livros seus ( O Retorno Eterno, A magia dos gestos poéticos) como doação em resposta a um pedido como este, dirigido à editora Papirus. Inusitadamente nosso público se encantou com seus textos, os livros não param nas estantes e os pedidos por mais leitura são um rebuliço. Isso me faz pedir-lhe a doação de livros de sua autoria (mesmo que com defeitos gráficos) um único exemplar será uma valiosa contribuição!!! Esteja certo que estará incentivando o bom hábito de leitura e uma sociedade de paz. Todavia, se possível, faça uma dedicatória à biblioteca que será um estímulo a mais para que os leitores e significará ter um magnetizante "ícone no acervo. Assinado: Eduardo Isaac Manzino Israel."
Transcrevo essa velha carta como penitência. Fiz as doações pedidas mas me esqueci de continuar a fazê-las ao correr do tempo. Quero retomar o compromisso. Pergunto ao Diretor da Penitenciária de Presidente Bernardes sobre o destino do Eduardo Isaac Manzino Israel e da biblioteca...
______________________
*Escritor, Teólogo. Educador.
Fonte: Correio Popular online, 30/01/2011
Imagens da Internet

sábado, 29 de janeiro de 2011

E o tal do capitalismo não se acabou

STEFAN COLLINI*
NOS CALDEIRÕES DO FUTURO
Aos 93 anos, historiador britânico Eric Hobsbawm lança coletânea de ensaios que apresentam um panorama das vicissitudes do marxismo nos últimos 130 anos“Até agora, os filósofos tentaram entender o mundo. Trata-se, porém, de transformá-lo.” A celebrada máxima de Marx tinha por objetivo construir o que hoje seria chamado de “exigência de impacto” na avaliação do pensamento abstrato: a prova da validade das ideias teria de ser encontrada na sua capacidade de transformar o mundo. Essa desaforada declaração pode ser vista retrospectivamente como uma tensão que percorre tudo na própria obra de Marx e esteve na origem da recorrente crise de identidade que vitimou o desigual corpo de pensamento e ação subsequentemente chamado de “marxismo”.
Um corpo de ideias extraordinariamente rico e sofisticado desenvolveu-se, e continua a se desenvolver, sob esse rótulo, e tanto adeptos quanto críticos estão prontos a insistir que a extensão e importância dessas ideias deve ser buscada em termos de sua performance na transformação do mundo. Os adeptos frequentemente gostam de sugerir que o júri ainda está em andamento, mas eles têm, desgraçadamente, de reconhecer que o caso vai mal; os críticos apontam com júbilo para os milhões de vítimas de Stalin e para a prosperidade sem paralelo proporcionada (a alguns) pelo capitalismo, e então consideram o caso encerrado.
Esse caráter dual do marxismo impõe obrigações especiais a qualquer um que tentar lidar com sua história. As ideias em si mesmas são complexas e exigem que o historiador seja, preferencialmente, capaz de se mover com confiança das filigranas da metafísica hegeliana aos detalhes da teoria do valor do trabalho. Mas, além disso, uma história efetiva tem de abraçar as conquistas dos movimentos trabalhistas e as atitudes das facções partidárias, a construção de economias planificadas e a repressão da opinião dissidente, e muito mais. O historiador ideal do marximo tem de ser em parte teórico, em parte polímata; em parte crente, em parte cético; poliglota, mas não Poliana.
Eric Hobsbawm costuma ser identificado como “historiador marxista”, ainda que devesse mais apropriadamente ser visto como historiador de notável amplitude e poder analítico que absorveu mais inspiração intelectual de Marx do que de qualquer outra fonte isolada. Mas ele é com menos frequência visto como historiador do marxismo. Isso deve ser atribuído em parte ao fato de terem tomado a forma de ensaios e capítulos, e em parte porque, dado seus laços cosmopolitas, foram publicadas em outras línguas que não o inglês.
A publicação de How To Change the World – Tales of Marx and Marxism (Como Mudar o Mundo – Contos de Marx e Marxismo) pode ajudar a equilibrar esse balanço – e não era sem tempo: é o seu 16º livro e aparece, significativamente, em seu 94º ano de vida.
A Parte 1 contém diversos estudos sobre aspectos do pensamento de Marx e Engels, transitando de uma relativamente leve introdução para A Situação da Classe Operária na Inglaterra, do último, à densa explicação sobre a teoria de Marx acerca das formações pré-capitalistas na obra inacabada conhecida como Grundrisse.
A Parte 2, que deve ser de mais interesse para o leitor contemporâneo, chega perto de oferecer um panorama das vicissitudes do marixmo nos (quase) 130 anos desde a morte de Marx em 1883. São esses capítulos que mais notavelmente exibem a marca registrada de Hobsbawm de combinar análise lúcida e informação de fôlego. Quase todos os historiadores parecem paroquiais em sua companhia. Quem mais poderia, ao fazer uma resenha detalhada da história dos maiores movimentos políticos marxistas em países como Alemanha e França, fazer também uma pequena e autorizada observação sobre as diferenças entre os marxismos dinamarquês e finlandês? Em quem mais acreditaríamos que, tendo listado as traduções de O Capital do azeri ao iídiche, concluísse: “A outra única grande extensão linguística de O Capital ocorreu na Índia independente, com edições em marathi, hindi e bengali nos anos 1950 e 1960”?
"E se perguntarmos qual pode ser
sua própria visão sobre a
perspectivas de mudar o mundo, estaremos,
felizmente, em posição de adaptar
 a resposta de Chu En-lai sobre
a Revolução Francesa
– ainda é muito cedo para dizer."
Ao longo do século passado ou mais, o status dos escritos de Marx pode ser definido como uma oscilação entre dois polos. De um lado, há a então ortodoxa posição comunista de que Marx era o infalível guia para a ação política e a criação, via revolução, do tipo de sociedade que sucederia ao capitalismo. De outro, há o que poderíamos chamar de visão “civilização ocidental”, onde Marx é tratado, ao lado de figuras como Nietzsche e Freud, como autor de um infinitamente fascinante corpo de escritos, que pode ser estudado ou simplesmente degustado mas que não leva à ação mais do que A Montanha Mágica, de Thomas Mann, ou A Terra Devastada, de T.S.Eliot.
Hobsbawm, tipicamente, evita os dois extremos: sua atitude é mais distanciada que a primeira, mas consideravelmente mais engajada que a segunda. Ele recomenda a história do marxismo a nossa atenção porque “nos últimos 130 anos tem sido um tema dominante na música intelectual do mundo moderno e, por meio de sua capacidade de mobilizar forças sociais, uma presença crucial, em alguns períodos decisiva, na história do século 20”.
Mas o que dizer do século 21? Desde seus inícios nos anos 1840, o marxismo tem sido submetido a punhados de especulação prematura. Marx e Engels repetidamente convenceram a si mesmos (e a outros) de que o fim da sociedade burguesa estava próximo, e desde a morte de Marx têm havido anúncios regulares da “crise do capitalismo”. Mas a cada ocasião o paciente tem, de alguma forma, se recuperado e mesmo se tornado mais forte. Talvez mesmo Hobsbawm, o mais desapaixonado e judicioso dos analistas, não seja totalmente imune a essa febre quando especula que o colapso financeiro de 2008 pode assinalar o começo do fim do capitalismo como o conhecemos. Ele certamente acredita que esse evento marcou o fim daquele período de 25 anos (desde o centenário da morte de Marx) durante o qual Marx pareceu ter perdido a relevância e, para muitos na geração mais jovem, o interesse. “Mais uma vez”, anuncia com convicção pouco usual, “chegou a hora de levar Marx a sério”.
Mesmo durante os mais triunfantes anos do neoliberalismo, houve quem continuasse a levar Marx muito a sério como fonte de conceitos e esquemas para análise do funcionamento de sociedades nas quais o capital está nas mãos de poucos e a força de trabalho é vendida pela maioria. Mas, além disso, Hobsbawm pensa que deveríamos agora levar Marx a sério como um guia para mudar o mundo? Aqui ele lança uma nota cuidadosa, às vezes mesmo ambígua. Ele afirma, em uma bela frase, que com a queda da União Soviética “o capitalismo perdeu seu memento mori (expressão latina destinada a lembrar da transitoriedade de toda existência)”. Mas, ao mesmo tempo, “aqueles que ainda se apegam à esperança socialista original de uma sociedade construída em nome da cooperação em vez da competição tiveram de recuar novamente para a especulação e a teoria”.
Agora, a globalização e a retirada do Estado têm, observa ele, privado partidos socialdemocratas e movimentos trabalhistas de sua arena natural: essas entidades “não têm até agora sido muito bem-sucedidas em operar transnacionalmente”. Em outro escritor se poderia suspeitar de sarcasmo nessa sentença deliberadamente branda, mas “até agora” e “não muito” podem justamente assinalar os mecanismos da habitual prudência literária de Hobsbawm. Entretanto, que tipo de oportunidade representa a atual turbulência financeira? Alguns têm comparado a situação aos anos 1930, mas é difícil saber quanto, para aqueles com inclinações radicais, isso poderia ser visto como um paralelo encorajador. Hobsbawm se limita à judiciosa observação de que, diferentemente dos anos 1930, “os socialistas” (de quem ele soa estranhamente distante nesse ponto) “não podem apontar nenhum exemplo de regimes comunistas ou socialdemocratas imunes à crise, nem eles têm propostas realistas para mudança socialista”.
Talvez a verdade seja que o marxismo sempre tem, em que pese a famosa proclamação de seu fundador, contribuído mais para entender o mundo do que para mudá-lo. Certamente, Eric Hobsbawm tem feito mais do que a maioria para ampliar essa compreensão. E se perguntarmos qual pode ser sua própria visão sobre a perspectivas de mudar o mundo, estaremos, felizmente, em posição de adaptar a resposta de Chu En-lai sobre a Revolução Francesa – ainda é muito cedo para dizer.
--------------------------------------------
* POR STEFAN COLLINI CRÍTICO LITERÁRIO, PROFESSOR DE LITERATURA INGLESA NA UNIVERSIDADE DE CAMBRIDGE, AUTOR DE “THAT’S OFFENSIVE – CRITICISM, IDENTITY, RESPECT” (SEAGULL E UNIVERSITY OF CHICAGO PRESS, NO PRELO). THE GUARDIAN. TRADUÇÃO DE LUIZ ANTÔNIO ARAUJO
Fonte: ZHCULTURA online, 29/01/2011

Ainda sobre Life in a Day

ENTREVISTA
“Agora, os portões da inundação estão abertos”

Johannes Schaff, especialista em cinema

O especialista alemão em cinema Johannes Schaff, que colaborou com o processo de pesquisa e de escolha de vídeos em Life in a Day, não chega a considerar que o usuário de blogs e do YouTube já tenha sido narcisista, mas admite, no entanto, que na colaboração entre internautas está o futuro da rede e, no que se firma com o sucesso do documentário, do cinema também.

Zero Hora – Como surgiu sua colaboração com Life in a Day? Você foi creditado como um dos pesquisadores. Como a produção do documentário o contactou, e como foi o processo de pesquisa?
Johannes Schaff – Fui um num time de cerca de 20 pesquisadores internacionais. Todos trabalhamos no escritório principal, em Londres. Nossa tarefa era assistir a todos os vídeos enviados e selecionar aqueles que considerávamos interessantes para o projeto. Essa coleção foi então usada pelo editor, Joe Walker, e pelo diretor, Kevin MacDonald, para montar o filme final. Eu também enviei um clipe, mas não chegou a figurar no corte final. Além de nossos próprios parâmetros de valor artístico para cada clipe, tínhamos regras rígidas sobre copyright, obscenidade, crueldade animal, racismo e ódio. Algumas pessoas chamavam o trabalho de escravatura digital. E tenho de dizer que assistir 200 vídeos por dia, cada um deles entre um e 10 minutos, era mais difícil do que se podia imaginar, mas eu aproveitei a experiência a cada passo. Me senti verdadeiramente abençoado em observar uma fatia da humanidade a cada dia. Acho que seria muito interessante para um cientista social. Já que eu falo alemão, os vídeos nesse idioma caíam para mim. No dia designado para a filmagem, houve um grande desastre na Love Parade, em que cerca de 20 pessoas morreram. Esses vídeos eram difíceis de assistir, mas então eu achava um vídeo de um homem bêbado em um banco proclamando:
– Este é o melhor dia da minha vida, sabem por quê? Porque é o melhor dia da minha vida!
E então o equilíbrio do carma se reinstalava. Os produtores queriam manter o interesse da comunidade online durante o processo de edição. Eles tiveram a ideia de filmar seis virais e lançá-los no período entre o dia da filmagem e o lançamento em Sundance. Os virais tinham de ser inspirados pelo tema “a vida em um dia”. Eu tive uma ideia, que tive de vender entre outras 15 ou mais pessoas. Eles selecionaram seis, e o meu estava entre eles. Queria fazer meu viral o mais YouTube possível. Fazia sentido para esse projeto que se fizesse algo no espírito do YouTube e do projeto. Para mim, chegar a uma estética YouTube significava filmar algo pessoal, espontaneamente. Há muito tempo, eu tenho jogado bolas de golfe no Tâmisa com um velho amigo. Ele é um personagem muito luminoso e adora conversar sobre o local em que está para encontrar pistas históricas na arquitetura. Ele parecia a pessoa certa para filmar espontaneamente. Também era muito importante para mim fazer algo inspirador, divertido, extrovertido e interessante.
ZH – Por que você escolheu fazer parte do projeto?
Schaff – Tenho seguido o YouTube muito de perto desde que começou, há cinco anos. Sou fascinado por ele. Aprendi a fazer filmes da maneira antiga. Quando chegou o YouTube, eu percebi que tudo havia mudado. Iluminar uma cena em um estúdio, usando uma câmera 35 mm como a Panaflex Gold, editar filmes à mão, tudo isso é tecnologia inútil agora. O YouTube me incitou desde o início. Havia uma abordagem tão radical de se fazer filmes que, de repente, pessoas simplesmente sentavam em seus quartos e usavam uma webcam! Pensei muito sobre maneiras de criar um filme por meio do YouTube, mas a fórmula de Life in a Day infelizmente não me ocorreu. Minha suspeita é de que o YouTube possa, no futuro, ser visto como uma virada fundamental na história do cinema. O YouTube foi o último passo na democratização da imagem em movimento. Eu sugeriria que esse processo começou com a introdução de câmeras 8mm no mercado consumidor na década de 1960. Agora, o YouTube cuidou da parte de distribuição no processo de se fazer filmes. Acredito que esse filme é um dos mais importantes de nosso tempo. Quando apareceu a oportunidade de fazer parte do projeto, fiquei animadíssimo, e, honestamente, a excitação ainda não se foi completamente.

ZH – Esse modelo colaborativo de juntar conteúdo via internet é algo para ser feito uma vez apenas, ou propostas diferentes podem ser pensadas no mesmo princípio?
Schaff – Acredito que realmente não haja fim às variações dessa forma de cinema. Agora, os portões da inundação estão abertos. Já há outro filme como esse sendo feito agora mesmo. O tempo dirá o quão bem-sucedido é este processo. Mas meu palpite é de que haverá mais filmes seguindo o modelo.
___________________________
Fonte: ZHCULTURA,online, 29/01/2011

O apelo da cultura colaborativa

REDE CRIATIVA

Projetos como o filme “Life in a Day”, que permitiu a milhares de internautas se associar a Ridley Scott, dão o tom de uma revolução na qual a internet faz as vezes de bazar culturalU ma ideia simples: e se todos filmassem um fragmento de suas vidas em um determinado dia? Com a motivação certa – a participação de dois grandes cineastas, Ridley Scott e Kevin MacDonald – e uma rede mundial de colaboradores – os usuários do YouTube –, o projeto, batizado de Life in a Day, recebeu 4,5 mil horas de filmagens do dia 24 de julho de 2010, vindas de todos os cantos do mundo.
O documentário, que teve as muitas horas de filmagem iniciais reduzidas a apenas 90 minutos, foi lançado na quinta-feira, com direito a transmissão ao vivo via YouTube. Marca um experimento histórico: o maior filme já feito com conteúdo user-generated. É você, anônimo, que captura uma parte de seu dia em vídeo. O que for atraente para você, como autor. Uma inversão de ordem intermediada pela vocação colaborativa da Web 2.0.
Joe Walker, o editor, e Kevin MacDonald, o diretor do documentário, surpreenderam-se com a resposta do público ao projeto da cápsula do tempo audiovisual:
– Originalmente, o YouTube nos disse que teríamos algo em torno de 12 mil a 15 mil clipes – diz MacDonald. – No final, ficamos com 81 mil clipes, mais 5 mil de câmeras de qualidade inferior.
O lema da iniciativa, diz o produtor executivo Ridley Scott, é o “just do it”. No vídeo em que convida os internautas a participar do projeto, ele explica que a filmagem deve ser pessoal – você pode filmar qualquer coisa, desde que tenha algum significado íntimo – e desmistifica a criação cinematográfica em três frases:
– Se você quer fazer o que eu faço, então pegue a câmera, reúna alguns amigos e faça um filme. Se você quer fazer filmes, nada deve desviá-lo de seu objetivo, nada deve tirar sua motivação. Então faça isso.
Não é só no documentário de Scott e Macdonald, no entanto, que se pode ver exemplos de colaboração virtual. É possível dizer que a representante primeira da tendência colaborativa foi a Wikipedia, que teve seus 10 anos festejados na Campus Party 2011, em São Paulo. A alcunhada “enciclopédia livre” começou com descrença mesmo dos criadores, Jimmy Wales e Larry Sanger, que acreditavam em uma abordagem mais tradicional da proposta de enciclopédia – a Nupedia, escrita somente por especialistas.
Dez anos depois, o sucesso estrondoso da Wikipedia (são cerca de 400 milhões de visitantes únicos ao mês) comprova que a internet trilha o caminho de uma revolução cultural altamente antecipada: a substituição do modelo catedral pelo modelo bazar. Os dois modelos, apresentados em ensaio de 1997 pelo hacker e ícone do movimento open source Eric S. Raymond, eram aplicados inicialmente apenas à engenharia de software. Vão, no entanto, mais longe do que isso – e ajudam a explicar iniciativas como Life in a Day, a Wikipedia e mesmo os portais de jornalismo colaborativo como o OhmyNews.
"A reunião de corpos físicos tendo
a internet como mediadora criou
talvez uma das iniciativas mais fascinantes
dos últimos tempos:
a Orquestra do YouTube."
Softwares cujo código não pode ser alterado pelo usuário são enquadrados no modelo catedral. No modelo bazar, o conteúdo pode ser revisado, alterado e aprimorado pelos usuários via internet, resultando em um produto menos passível de apresentar erros. A tese se aplica a qualquer colaboração digital: segundo Raymond, “dado um número de olhos suficiente, todos os erros são triviais”. Quanto mais mãos trabalhando, melhor o produto final.
Cultura colaborativa, porém, não diz respeito apenas a trabalho remoto. A reunião de corpos físicos tendo a internet como mediadora criou talvez uma das iniciativas mais fascinantes dos últimos tempos: a Orquestra do YouTube. Milhares de músicos enviaram vídeos em que improvisavam em cima de uma peça composta especialmente para o projeto pelo americano Mason Bates. A primeira triagem foi feita por especialistas em música representando as melhores orquestras no mundo. Os semifinalistas passaram depois pelo crivo da comunidade YouTube, que selecionou os 101 finalistas. Os músicos então rumaram a Sidney para a maratona de ensaios que acabará apenas no próximo mês de março, em apresentação transmitida mundialmente direto da Casa de Ópera. No ano passado, a Real Academia Espanhola e o YouTube colocaram em prática também a primeira leitura global de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, com a participação de mais de 2,1 mil pessoas.
O fenômeno marca também uma mudança de comportamento digital. Se, num primeiro momento, o internauta preferia simplesmente marcar sua existência, com blogs, fotografias e espaços essencialmente egocêntricos, a tendência agora é de colaborar com projetos maiores. O internauta quer dividir não só sua intimidade, mas também informação.
__________________________________
* POR FERNANDA GRABAUSKA ESTUDANTE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA FAMECOS-PUCRS.
Fonte: ZH online, 29/01/2011

A revolta dos povos árabes

Editorial*
Um jovem camelô que vendia comida nas ruas de uma pequena cidade da Tunísia teve seu carrinho apreendido pela polícia. Humilhado pelas autoridades, imolou-se banhado em álcool. As imagens desse ato de desespero desencadearam protestos de rua e revoltas em vários países árabes. Na Tunísia, duas semanas de manifestações levaram à queda do ditador Zine al-Abidine Ben Ali, que se exilou na Arábia Saudita - não sem antes esvaziar o Tesouro do país que governou com mão de ferro durante 23 anos.
As manifestações na Tunísia não tiveram uma coordenação única. Foram convocadas, pela internet, por estudantes, grupos de donas de casa, associações de moradores, etc. A maioria dos políticos assistiu, atônita, à mobilização do país. Os tunisianos, afinal, se insurgiam não motivados por uma ideologia, um programa político ou um ideal religioso, mas para exigir o respeito a alguns direitos básicos e o cumprimento de algumas exigências concretas: o fim da corrupção governamental, a instituição do império da lei e a redução das dificuldades econômicas.
Nenhum grupo político ou religioso conseguiu controlar a insurreição. A fuga de Ben Ali e a formação de um novo governo não acalmou, inicialmente, as ruas de Túnis. Os rebeldes não aceitaram a permanência de ministros do ex-ditador no governo "de união nacional". Atendida em parte essa nova exigência e anunciadas a criação de comissões para investigar a corrupção e a violação dos direitos humanos, a elaboração de reformas políticas, a libertação dos prisioneiros políticos e a convocação de eleições para daqui a seis meses, a paz voltou às ruas da capital.


Enquanto isso, a "Revolução de Jasmim"** espalhava-se por vários países árabes. Na Arábia Saudita, um homem ateou fogo às próprias vestes, mas a eficiente polícia do reino tratou de sufocar no nascedouro qualquer possibilidade de contestação do regime. No Iêmen, na Argélia, na Jordânia, em Omã, na Líbia, no Sudão e na Mauritânia, houve manifestações de rua, mas os governos não chegaram a ser ameaçados.
Ameaçado está o ditador do Egito. Lá houve pelo menos cinco casos de pessoas que se imolaram em protesto contra o governo. Desde a terça-feira passada, as ruas do Cairo estão tomadas pelos manifestantes. Os chamados "dias de fúria" estão sendo marcados por grande violência, provocada pela repressão policial. Ao contrário da polícia tunisiana, que é apenas corrupta, a polícia egípcia é bem treinada e experiente.
O resultado da repressão, porém, não foi a contenção dos protestos. Ao contrário do que ocorreu na Tunísia, no Egito, passado o primeiro momento de espontaneidade das manifestações, os políticos de oposição trataram de aproveitar a onda. O primeiro foi o Prêmio Nobel da Paz Mohamed El-Baradei, que voltou ao Egito dizendo que o presidente Hosni Mubarak, que está no poder há 30 anos, deve abdicar e que está pronto para liderar um governo de transição. Depois, a proscrita Irmandade Muçulmana abandonou a neutralidade que vinha mantendo, passando a apoiar as manifestações contra Mubarak, embora recomendando a seus militantes que não se envolvam em atos de violência.
Na Tunísia, quando as manifestações de rua começaram a se tornar incontroláveis, os militares - que sempre foram politicamente neutros naquele país - "aconselharam" o presidente Ben Ali a deixar o país. No Egito ainda não se chegou a esse ponto - até porque Mubarak é considerado um herói militar, por seu desempenho na Guerra do Yom Kippur. Mas militares da reserva, com ascendência tanto sobre a tropa como sobre os meios políticos, já fizeram chegar ao presidente a sua posição a respeito das causas e da condução da crise. Segundo se informa, foram muito claros a respeito da sucessão de Mubarak. Ou seja, não apoiarão os planos do presidente, que pretende fazer de seu filho Gamal o seu sucessor. Para os militares, o próximo ras deve ser um deles.
Em boa parte do mundo árabe, os atuais governos opressores estão com os dias contados. Infelizmente, não se pode esperar que sejam substituídos por regimes democráticos.
-------------------------
*O Estado de S.Paulo online, 29/01/2011
**Revolução do jasmim que é a flor associada a uma imagem turística da Tunísia.
Imagens da Internet

Provocativo Artigo do Nikkei Sobre a China

Paulo Yokota*

Prêmio Nobel chinês dissidente Liu Xiaobo


Tentando aproximar a Ásia da América do Sul e vice-versa
Provocativo Artigo do Nikkei Sobre a China


Um artigo do jornalista Tadanori Yoshida foi publicado no jornal econômico japonês Nikkei apresentando alguns paralelos entre a China atual e o Japão da época que ultrapassou a Alemanha, em torno de 1968, tornando-se a segunda economia no mundo. A questão fundamental continua sendo a liberdade política, que apesar de admitida e crescente na China atual, ainda não consegue absorver um Prêmio Nobel concedido a um seu dissidente. Ao mesmo tempo em que se mantém um regime de partido político único.
O autor apresenta como desafio para a atual China a criação de uma sociedade justa que pode ser vista sob diversos ângulos. Alguns entendem que a disparidade de renda, sem uma adequada defesa de um padrão mínimo para seus cidadãos mais desfavorecidos, é um problema acentuado nas sociedades entendidas como capitalistas, ainda que as acelerações dos crescimentos provoquem fenômenos semelhantes nos países emergentes. Parece ser da natureza humana a aspiração por mais liberdade, na medida em que o mínimo econômico está atendido.
O autor admite que a economia chinesa deva continuar a manter um crescimento acelerado por muito tempo, mas ainda existe uma diferença econômica importante entre a população urbana e a rural, sem que os benefícios sociais estejam disseminados. O controle centralizado do Partido Comunista vem sendo eficiente para manter a China fora da crise econômica que continua abalando o resto do mundo.
Ele entende que a China deve enfrentar, no futuro, algumas cruciais opções, pois para manter a sua estabilidade deve ampliar os seus benefícios sociais, que são desafios importantes.
"A China deve enfrentar problemas
diferentes do Japão, que é um arquipélago
 onde as diferenças sociais
foram resolvidas em nível razoavelmente aceitáveis.
A China é um continente com diferenças regionais,
 étnicas e culturais que
precisam ser enfrentadas
de forma diversa."
O que se pode discutir é que os processos de desenvolvimento econômico sempre apresentam obstáculos a serem transpostos, não sendo iguais em todos os países, e nem ocorrem de forma semelhante ao longo do tempo. Na revolução industrial no Ocidente, certamente, os problemas enfrentados pelos operários devem ter sido cruciais.
A China deve enfrentar problemas diferentes do Japão, que é um arquipélago onde as diferenças sociais foram resolvidas em nível razoavelmente aceitáveis. A China é um continente com diferenças regionais, étnicas e culturais que precisam ser enfrentadas de forma diversa.
Não parece que existem grandes países, desenvolvidos ou emergentes, que possam ser facilmente comparados, principalmente ao longo da história. Há que se admitir que as cargas culturais que estes países carregam também os tornam mais ou menos sensíveis a temas diferentes. O problema vai se complicar quando se compara a China com a Índia ou com o Brasil.
________________________________
* Paulo Yokota é formado em Economia e Administração pela USP, foi professor da FEA-USP.
Fonte: Site do autor: http://www.asiacomentada.com.br/2011/01/28

Filme "Life in a Day" é obra de antropologia

CRÍTICA DOCUMENTÁRIO
Produção de Ridley Scott e Kevin MacDonald
estreiou no mesmo dia na internet
e no festival de Sundance

Na última quinta-feira (27), o Youtube exibiu pela primeira vez "Life in a Day" (vida em um dia, na tradução livre), o filme colaborativo produzido por Ridley Scott ("Blade Runner") e dirigido por Kevin MacDonald ("O Último Rei da Escócia") com imagens enviadas por usuários do site em todo o mundo.
Os produtores pediram a usuários que enviassem imagens captadas em um dia específico, 24 de julho de 2010. A ideia era traçar um panorama abrangente da vida do planeta em diversas regiões.
MacDonald disse que esperava receber entre 10 e 12 mil clipes. Chegaram mais de 81 mil, num total de 4.500 horas de material, enviados de 192 países.
Kevin MacDonald e o montador Joe Walker, auxiliados por uma equipe de editores, trabalharam no material bruto e chegaram a um filme de 94 minutos, que fez sua estreia virtual simultaneamente no YouTube e no Festival de Sundance, um dos mais importantes eventos de cinema alternativo nos Estados Unidos.
"Como experiência antropológica,
"Life in a Day" é interessante.
Como filme, não.
A menos que você ache divertido
ver pessoas escovando os dentes na África,
na Europa, na Ásia e na Oceania."

"Life in a Day" parece um imenso e confuso videoclipe, com imagens de estilos e temas diversos. O diretor bem que tentou agrupá-las em algum tipo de ordem que fizesse sentido narrativo, mas era uma tarefa realmente impossível, dada a variedade de assuntos abordados.
Como experiência antropológica, "Life in a Day" é interessante. Como filme, não.
A menos que você ache divertido ver pessoas escovando os dentes na África, na Europa, na Ásia e na Oceania.
O diretor optou por não identificar os locais onde as cenas foram filmadas. Numa entrevista coletiva após a exibição, disse que fez isso para não atrapalhar o andamento da história. O problema é que o filme não tem história.
"Life in a Day" traz sequências interessantes, como a vida de um engraxate em algum país da Ásia, fazendeiros produzindo leite de cabra num local que parece a Mongólia, e russos fazendo "parkour", espécie de ginástica em que os participantes sobem em muros, escalam telhados, etc.
Há uma cena que parece ter sido filmada no Brasil: durante um parto, o homem que filma o nascimento sofre um desmaio e cai no chão do hospital. Dá para ouvir nitidamente um dos médicos dizendo: "Deita, deita!" Outras sequências são absolutamente supérfluas, como a de um adolescente de 15 anos fazendo a barba pela primeira vez, ou um japonês usando o banheiro.
"Life in a Day" nada mais é que uma versão luxuosa dos incontáveis clipes caseiros que são postados no YouTube todo dia. É editado com rapidez e tem uma música eficiente. Mas isso não o torna um "filme".
E diz muito sobre a nossa cultura corporativa o fato de ele estar sendo exibido, com pompa e circunstância, num festival de prestígio como Sundance. Se Ridley Scott não estivesse envolvido, a recepção teria sido a mesma?

LIFE IN A DAY
DIREÇÃO Kevin MacDonald
PRODUÇÃO EUA, 2011
CLASSIFICAÇÃO não informada
AVALIAÇÃO regular
_________________________
Reportagem por ANDRÉ BARCINSKI CRÍTICO DA FOLHA
Fonte: Folha online, 29/01/2011

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Deus, uma lembrança

Alves: "Se Deus amasse realmente o mundo, ele tomaria uma providência"

Literatura: Abalado com as tragédias provocadas pelas chuvas, o filósofo e teólogo Rubem Alves desabafa: a ideia de um ser supremo é apenas uma nostalgia.

Onde estava Deus enquanto as encostas da serra fluminense despencavam, acabando com a vida de tanta gente? "Se é onipotente, onisciente e onipresente, por que nada fez? Estava dormindo?", pergunta um indignado Rubem Alves, teólogo, filósofo, psicanalista, colunista da "Folha de S. Paulo" e ex-pastor protestante.
Esta entrevista é para falar sobre coisas boas - tema de seu novo livro, segunda edição atualizada de "Livro sem Fim", lançado em 2002 pelas Edições Loyola. Agora, é editado pela Planeta. Em "Variações sobre o Prazer", Alves passeia por ideias de Santo Agostinho, Friedrich Nietzsche e Karl Marx e pela sabedoria da protagonista do filme "A Festa de Babette" para refletir sobre teologia, filosofia, economia e culinária e chegar às coisas que realmente importam - a beleza do voo do sabiá, o cheiro da manga, a contemplação artística e as crianças. Mas a tragédia está por toda parte, e o autor parece querer desabafar. "Não, não estou com raiva de Deus, porque ele não existe. Se existisse, ia fazer alguma coisa."
A indignação não estaria mirando o alvo errado? Não são os seres humanos os responsáveis pela tragédia, por causa de decisões erradas? "É engano dizer que as coisas estão acontecendo apenas por nossa responsabilidade - isso é coisa da natureza -, o mundo inteiro está assim - na China é o gelo, na Europa, as chuvas -, o mundo está de cabeça para baixo! Se Deus amasse realmente o mundo, ele tomaria uma providência. Em primeiro lugar, ele mataria as pessoas certas. Ele está com a pontaria péssima - se fosse meu empregado, já estaria demitido há muito tempo - incompetência administrativa."
Para o escritor Rubem Alves, Deus, hoje, é apenas uma nostalgia. É curioso notar que com seus mais de 100 livros - dentre os quais 35 para crianças, ele inspira ainda hoje seminaristas e pastores evangélicos progressistas, que encontram em seus textos uma teologia mais liberal e autêntica.
O escritor cita o verso de "Pedaço de Mim", de Chico Buarque, para ilustrar o que quer dizer: "A saudade é arrumar o quarto pro filho que já morreu". E pergunta: "Qual é a mãe que ama mais, aquela que arruma o quarto para o filho que vai chegar amanhã ou a que arruma para o filho que não vai chegar? Você pode amar uma coisa que não existe. Para mim, é assim, Deus é meu filho que não existe, é meu pai que não existe".
Alves esteve doente, muito doente. O ano passado foi pesado: lutou contra um câncer no estômago - fez uma cirurgia para remover o órgão -, trocou uma válvula do coração e teve um sério problema de coluna. Nem todo esse sofrimento fez que se voltasse para o Deus dos cristãos, que um dia seguiu. "Fé para curar o câncer eu não tenho. Sabe o que é fé? É estar no avião com um paraquedas nas costas e de repente dar um salto no abismo, acreditando que o paraquedas vai abrir", afirma. "Ser generoso, honesto, não porque Deus está mandando ou por esperar uma recompensa."
"Os cristãos têm um problema com o prazer.
Você não vê ninguém fazendo
uma promessa a Deus e dizendo assim:
 'Oh, Deus, se tu me deres esta bênção,
prometo tocar toda manhã um CD de Bach,
ou tomar toda noite uma taça de bom vinho'.
As pessoas oferecem a Deus cascas de ferida
porque elas acham que Deus fica feliz
quando a gente está sofrendo.
Têm uma ideia sádica de Deus."
Muitos cristãos, acredita o escritor, são ensinados hoje num tipo de Evangelho interesseiro, que iria, como Alves define no livro, direto para a "caixa de ferramentas". O autor toma emprestado um conceito de Agostinho e separa os elementos da vida em duas caixas - uma para as coisas feitas para dar prazer e ser contempladas (a caixa dos brinquedos) e outra para tudo o que é objetivo e utilitário. Santo Agostinho escreveu que todas as coisas do mundo estavam guardadas em duas feiras - a feira das utilidades e a feira da fruição. A primeira, segundo a releitura do autor, é a feira do poder. "A feira da fruição é o lugar do amor."
Resgatar o prazer que há em, por exemplo, lambuzar-se ao comer um caqui ou uma manga entra, segundo o escritor, na experiência erótica do tato. "Come-se por prazer. Comer uma fruta é uma alegria. Não foi por acidente que os escritores sagrados, profundos conhecedores da alma humana, escolheram uma fruta como o lugar onde os deuses depositaram o seu saber. O saber dos deuses é comestível, saboroso, é 'sapientia'", escreve no livro.
O erotismo do tato, da contemplação estética ou mesmo do olfato é algo estranho ao universo de muitos cristãos, segundo Alves. "Os cristãos têm um problema com o prazer. Você não vê ninguém fazendo uma promessa a Deus e dizendo assim: 'Oh, Deus, se tu me deres esta bênção, prometo tocar toda manhã um CD de Bach, ou tomar toda noite uma taça de bom vinho'. As pessoas oferecem a Deus cascas de ferida porque elas acham que Deus fica feliz quando a gente está sofrendo. Têm uma ideia sádica de Deus."
Essa dimensão erótica precisa ser resgatada também no campo da economia, da filosofia e da culinária. "Marx tinha a ver com prazer - ele fala que a economia é para produzir prazer. Nos manuscritos de 1844, já fala disso, que a economia é para tornar os homens felizes, para gozar a vida, a arte. Nós eliminamos tudo isso da tradição marxista - eu adoro Marx, mas tenho raiva dos marxistas, porque eles não lidam com a dimensão erótica de Marx."
No capítulo sobre Nietzsche, Alves observa que o filósofo foi mal traduzido em seu conceito sobre o "super-homem". Na visão de Rubem Alves, a melhor tradução para o termo alemão "übermensch" seria o "homem transbordante", um ser humano tão rico interiormente que chega a transbordar, como se fosse uma fonte. "Qual é o ideal desse homem transbordante? A criança."
O ideal, então, é uma utopia - tornar-se como as crianças "para herdar o reino", como prega o Deus dos cristãos, que um dia Rubem Alves seguiu, mas hoje é apenas uma lembrança.

OBS. O texto ONDE ESTÁ DEUS? do Rubem Alves, vc encontra-o no dia 25/01/2011 aqui no Blog.
________________________
Reportagem por Marília de Camargo César, de São Paulo
Fonte: Valor Econômico online, 28/01/2011
Foto Régis Filho/Valor