sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O “U” da felicidade

CLÁUDIA LAITANO*

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A edição especial de Natal da sisuda publicação britânica The Economist estampa na capa um saltitante Papai Noel e a manchete: “A alegria de envelhecer (ou por que a vida começa aos 46)”. Como eu completo 45 este ano, fiquei especialmente interessada. Se a vida começa aos 46, pensei, 2011 será o intervalo antes da segunda parte do filme (de longuíssima metragem, espero) – aquela hora em que todo mundo levanta para esticar as pernas, fazer xixi e checar as mensagens no celular. Já em 2012, tudo pode acontecer, inclusive o mundo acabar, o que seria uma enorme injustiça com todos nós que íamos começar a viver justamente ali, onde a profecia maia e um filme-catástrofe instalaram um cataclismo.
O tema da reportagem não é o envelhecimento em si ou uma nova técnica de cirurgia plástica que vai permitir que Susana Vieira interprete a própria neta na próxima novela das oito, mas um assunto que tem atraído cada vez mais pesquisadores de diferentes áreas: a felicidade. Todo mundo tentando entender o que, afinal, faz uma pessoa, uma família, uma empresa ou mesmo um país mais feliz do que o outro.
A felicidade, porém, não é uma ciência exata. Países ricos, por exemplo, tendem a ser mais felizes, mas a correlação entre dinheiro e felicidade nem sempre é linear – confirmando a tese de que fatores culturais desempenham um papel importante na percepção de felicidade. Europeus e norte-americanos estão próximos, e os latinos vêm logo em seguida, mas o melancólico Portugal se distancia do grupo. Asiáticos são bem menos felizes do que escandinavos (os mais contentes), e o sofrido Haiti anda perto da Bulgária, o lugar mais triste do mundo na relação entre renda e felicidade.
Aparentemente, a distribuição de felicidade ao longo das diferentes fases da vida às vezes também contraria o senso comum. A imagem de jovens de 30 anos cheios de energia e contentamento convivendo com pais ou chefes de 60 ou 70 amargurados com as rugas e os limites da idade é contestada pelas pesquisas apresentadas na reportagem. A felicidade, dizem esses estudos, desenha uma curva em U: somos muito felizes na juventude, mas os compromissos da vida adulta (amores, carreira, filhos...) vão roubando nossas energias até chegarmos ao “fundo do U”, que, em média, chega por volta dos 46 anos (olá, desgraça!). Dali em diante, o inesperado acontece: a vida fica melhor.
Pessoas mais velhas tendem a evitar bate-bocas, já aprenderam a controlar suas emoções e a aceitar melhor o que dá errado e são menos propensas a acessos de raiva repentinos. A capacidade, que só os humanos têm, de reconhecer a própria mortalidade e de monitorar o próprio tempo no horizonte faz com que os mais velhos se concentrem no presente e no que é essencial, deixando de sofrer por bobagem ou por aquilo que não tem conserto – e é mais ou menos até aí que vai o que a gente entende por felicidade.
Portanto, em 2011, faça como sua vó: desencane e trate de ser feliz.
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* Jornalista. Escritora. Cronista ZH
Fonte: ZH online, 31/12.2010

Abrem-se as portas para vivermos mais um ano.

Ao abrir-se o ANO NOVO
que haja PAZ e muitos abraços...
Que a existência harmoniosa e feliz, que depende só do que somos,
seja sinal nos 365 dias que se mostram um a um
no calendário que inicia...

O que conta na vida é a PAZ INTERIOR,
a HARMONIA com a VIDA, com os OUTROS,
CONOSCO MESMOS e, em última análise,
com DEUS.
Segundo a concepção bíblica,
a PAZ é a síntese de todos os bens,
aparece associada
 à justiça,
à bondade,
ao perdão,
à boa relação.

Aos blogueiros/as que me acompanharam

FELIZ ANO NOVO!!!!!!!!!!!!!!

Marilena Chauí - Entrevista

“Sem comunicação não há democracia”

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Participaram Bárbara Mengardo, Baby Siqueira Abraão, Cecília Luedemann, Débora Prado, Gabriela Moncau, Hamilton Octavio de Souza, Lúcia Rodrigues, Otávio Nagoya, Renato Pompeu, Tatiana Merlino, Wagner Nabuco. Fotos: Jesus Carlos.

Mais uma vez a professora Marilena Chauí, filósofa e titular da Universidade de São Paulo, é a entrevistada da capa da Caros Amigos. Em 1999 e em 2005, ela proporcionou aos leitores excelentes análises sobre universidade, democracia e eleições. Agora, a renomada professora retoma a análise da última campanha eleitoral e, mais uma vez, critica a atuação da grande imprensa empresarial, que, segundo ela, ignorou ou criminalizou a candidatura de Dilma Rousseff. Vinculada ao PT desde os anos 80, defensora entusiasmada dos governos Lula, Marilena Chauí apresenta a sua visão sobre o atual momento de transição, as questões mais candentes em relação à necessária e urgente democratização da comunicação.

Tatiana Merlino – Em 2006, a senhora ficou profundamente descontente com a postura da mídia durante o período eleitoral, e agora a imprensa teve novamente um comportamento bem complicado. A gente ueria que a senhora começasse falando sobre a sua avaliação da cobertura da mídia nas eleições presidenciais.
Marilena Chauí – Eu diria que não houve cobertura. Houve a produção midiática da campanha eleitoral e das eleições. Cobertura significaria mostrar o que efetivamente estava se passando no primeiro turno com todos os candidatos e no segundo turno com os dois candidatos que restaram. E não foi isso que aconteceu. A candidata Dilma não teve em instante nenhum a sua campanha coberta pela mídia. Ela teve a sua campanha ou ignorada, ou deformada ou criminalizada. E do lado do candidato Serra, também não houve uma cobertura da campanha dele. Porque se tivesse havido uma cobertura da campanha dele, o que a mídia deveria ter mostrado? Essa coisa extraordinária que eu nunca vi acontecer em lugar nenhum de um candidato se autodestruir. Primeiro, o vice, ele não conseguiu escolher o vice e depois deu uma escolha que não foi feita por ele e insignificante. Em seguida, ele começa a campanha descendo a lenha no governo Lula, o qual, entretanto, numa pesquisa de opinião, tinha tido quase 90% de ótimo e bom, e, provavelmente, as pessoas que acompanhavam o programa do Serra, aquelas que opinam, devem ter dito que não era uma boa, aí ele passou a dizer que ia fazer o que o Lula estava fazendo, mas melhor. Aí, quando ele começou a explicar o que era melhor, começou a fazer propostas completamente alucinadas, foi uma alucinação que ele propôs. Bom, mas quando nós chegamos nesse ponto, você tem a entrada em cena do segundo turno. Ora, na hora que entra em cena o segundo turno, o que é que vem como uma avalanche? O famoso dossiê. O dossiê que foi atribuído ao PT, disseram que a Dilma tinha mandado fazer, que foi o famoso dossiê que o Aécio fez. Foi o dossiê que invadiu todos os planos da vida do Serra, e mais, atingiu diretamente a filha dele, que eles tinham dito que o PT que tinha violado a menina, a Verônica. Foi uma completa produção do Aécio, em Minas. Ora, isto que destruiria qualquer candidatura em qualquer tempo e lugar, o servilismo da mídia foi tal, que isto, ou não apareceu, ou apareceu em pequenas notícias e de uma maneira tão confusa que ninguém sabia do que se tratava. E, depois, quando entrou em cena o aborto, em primeiro lugar a mídia nunca disse que quem introduziu o tema do aborto foi a Marina, que fez um discurso conservador dos evangélicos para os evangélicos, introduziu os temas religiosos e o tema do aborto. Como ela não entra no segundo turno, o Serra se apropria desse tema. Ora, uma imprensa que está defendendo a liberdade de expressão, que está defendendo o espaço público, que está defendendo a opinião pública, está defendendo a liberdade de pensamento, como é que ela pode embarcar na entrada em cena como tema eleitoral de uma questão que pertence ao espaço privado, e é uma questão de religião, que é o aborto? A plena cobertura que foi dada a isso, contradizendo o próprio significado daquilo que a imprensa deveria de entender por coisa pública, espaço público, opinião pública e liberdade de pensamento e de expressão! Bom, então, depois, no caso da Dilma, é mais interessante do que a não cobertura da campanha do Serra, porque no caso da Dilma, tentou-se primeiro a guerrilheira. É a guerrilheira, a guerrilheira... E eu tinha dito a uns amigos, este é um caminho perigoso. É um caminho perigoso, porque, em termos de história pessoal, é muito paralela à história do próprio Serra. Se você pega o comício dos cem mil, no Rio [de Janeiro], em 1961, o discurso mais radical do comício não foi o do Jango, não foi o do Brizola, não foi o do Julião, foi o do Serra como presidente da UNE. Ele fez o discurso afirmando... o núcleo do discurso do Serra em 1961 foi revolução armada. Então, eu dizia [é] um perigo, porque se eles enveredarem pela figura da Dilma guerrilheira, eles vão ter que dizer que o Serra pregou em 1961 para cem mil brasileiros a revolução armada.

Tatiana Merlino - A senhora acha que foi diferente essa cobertura da cobertura de 2006 e da cobertura de 1989? O que há de diferente?
Eu acho que a diferença não é de natureza, a diferença é de grau. Eu diria que, desta vez, tudo aquilo que se realizou num grau um pouco menor, um pouco mais prudente, desta vez, o véu caiu de uma vez só e atingiu o grau máximo de procedimento. Então, eu diria, não é diferente se eu considerar o modo de proceder, mas é diferente se eu considerar o grau em que isto foi feito.

Gabriela Moncau - Você levantou alguns elementos que usaram para difamar a campanha dela. E aí você colocou que um, que durou inclusive até o final, foi que parecia que ela estava à sombra do Lula o tempo inteiro. Você acha que qualquer candidato teria isso ou você acha que foi por ela ser mulher?
Ah, qualquer candidato teria. Teria sido isso, pelo seguinte, porque a gente não tem analisado muito o que aconteceu com a figura do Lula, já quase no final do segundo turno. Quando se percebeu que a possibilidade de vitória da Dilma era grande, e havia as pesquisas de opinião sobre o governo e sobre o próprio Lula, a mídia, e quem começou isso foi a própria Globo com uma clareza... Ela começou a produzir a figura mítica do Lula. E é através da mitificação da figura do Lula que se vai, agora, falar da Dilma. Então, eu diria que é preciso fazer operar juntos o tratamento dado à Dilma com a mudança no tratamento dado ao Lula: “Isso é o Lula, isso é o mito do Lula, ele a não vai poder, porque isso é o Lula que é capaz.” Isso é o analfabeto beberrão. Durante oito anos era o analfabeto beberrão, que agora é o mito político inigualável que ninguém é capaz de alcançar. Mas, ao lado disso, você tem o que? Durante oito anos, nós tivemos que aguentar que era um problema o Lula aparecer nos lugares os mais diferentes e improvisar. Tinha mania de improvisar os discursos e aí dizia muita bobagem. Quanta bobagem ele disse por causa de improvisar. Então, Dilma ganha e vai à televisão, leva um discurso e lê. O que você vê nos comentadores da televisão, nos comentadores do rádio e no dia seguinte nos jornais? “Ah, não tem a capacidade de improviso do Lula, ela precisa ler, coitada, tudo dela é preparado... Você vê, ela teve que vir preparada, ela não é capaz de improvisar.” Eu tinha vontade de atravessar os fios eletrônicos e bater nas pessoas, porque chegou num grau de perversidade, num sentido psicanalítico do termo. No nível do discurso, não dá mais, porque quando você vira na direção da perversão, a primeira característica da perversão é a de que ela é impermeável ao discurso. O grande problema da terapia psicanalítica na hora em que ela é impermeável ao discurso, porque a psicanálise opera no nível da linguagem. E você tem um evento que está ou aquém ou além do discurso. Então, a perversidade e a perversão dos comentários sobre o fato de ela ter o discurso escrito foi tal que eu falei: Já temos aqui o que serão os próximos quatro anos. Os próximos quatro anos vão ser um inferno como foram os oito do Lula, e sobretudo os quatro primeiro anos do Lula. Vai ser um inferno e não tem jeito.

Lúcia Rodrigues - Como é que a senhora explica que o PT tenha ido mais para a direita, ele fez alianças com partidos de direita, com o Sarney, com Maluf, com Renan Calheiros, com Jader Barbalho?
Não, eu acho que é uma coisa interessantíssima que é... E isso é um elemento curioso da origem sindical do Lula e dos seus próximos. E que foi muito criticada: “Sindicalista nunca é radical, sindicalista gosta de negociar, é um negociador, faz concessão...” É verdade. A peculiaridade, entretanto, do sindicalista negociador é que ele negocia com duas características: ele negocia, mas deixa uma ponta sem negociar para a ação seguinte que ele vai realizar. Ele não negocia por completo, ele deixa outra por negociar para exigir mais. O segundo traço, ele não negocia sem o aval da classe. Bom, então, vamos pegar o governo de um sindicalista. A primeira coisa é: fez todas essas alianças. Por que? Desde 2005, desde a maldição do mensalão (eu não aguento mais bater nessa tecla), já falei muito isto: se você não fizer uma reforma política, se você não mudar o sistema político-partidário do Brasil, essas alianças permanecerão para sempre, porque o sistema partidário está montado de tal maneira que quem tem a maioria no poder executivo nunca terá a maioria no poder legislativo.

Lúcia Rodrigues - Por que?
Por causa do sistema da representação. Você tem super-representação, você tem a sub-representação. Você tem a proliferação de siglas de aluguel, você tem a desigualdade regional. E uma série de outros pequenos mecanismos no interior do sistema partidário. Eu não me conformo, porque foi um sistema deixado pelo Golbery [do Couto e Silva], quando percebeu que a ARENA corria o risco de perder para o PMDB. Ele deixou um sistema que, primeiro, fazia algum sentido ao bipartidarismo, mas que não faz nenhum sentido no pluripartidarismo. E que, além disso, tem uma série de traços deixados pela ditadura que tornam inviável você operar, efetivamente, com a representação que tem um alicerce no seu respectivo partido. Isso pegou todos os presidentes da República: Tancredo, Sarney, Collor, Fernando Henrique e Lula. Eu diria que é um elemento de distorção institucional e de freio na democracia, sem falar nas práticas republicanas que são postas em jogo. Porque, o núcleo da democracia que o Executivo e o Legislativo negociem: eu faço x e você faz y. É constitutivo de uma democracia que haja essa negociação contínua. Mas, no nosso caso, você vai da negociação para a negociata, porque o sistema é tal que há um hiato entre o Executivo e o Legislativo. Tem que fazer a reforma política. Eu estou muito contente, porque eu estou ouvindo a Dilma dizer que vai fazer. Vamos examinar as realizações do governo Lula e ver se o sistema político que forçou essas alianças impediu as coisas essenciais do governo Lula. Não impediu. Você tem 18 milhões que saíram da linha da miséria, 32 milhões que saíram da linha da pobreza, 40 milhões de empregos novos com elevação salarial. Você tem 73 Conferências Nacionais com 70 mil pessoas participando para decidir sobre todos...

Lúcia Rodrigues - Mas, no caso da Comunicação, as 672 propostas não saíram do papel até agora...
Nós vamos chegar lá, nós vamos chegar lá, espera um pouquinho. Você pega o modo como a economia foi concebida, de demanda interna, de crescimento interno, de impedir o processo de desindustrialização que tinha sido iniciado, de controlar o poder financeiro e de investir pesadamente no conjunto das políticas sociais que produzem a inclusão econômica. (...)
(...)

Hamilton Octávio de Souza - Professora, eu queria insistir na comunicação, por que a comunicação faz parte da democracia?
Sem isto não há democracia. Sem comunicação não há democracia. Por isso eu só escrevo sobre a mídia, a mídia, a mídia.
(...)

Renato Pompeu - A senhora acha que o caminho seria uma regulação estatal da mídia ou seria a esquerda ter as suas publicações?
Eu acho que são essas duas coisas e mais outras. Eu acho a regulação indispensável. Todo mundo tem regulação. Eu vou fazer um parênteses: é que nem o caso do aborto. O aborto é legalizado em dois dos países católicos da península: Espanha e Portugal...

Wagner Nabuco - E na Itália.
E na Itália. Os países católicos da penísula legalizarm o aborto. E não aconteceu nada... ou melhorou muito a condição feminina.
Então, eu diria que a regulamentação da mídia é indispensável. É claro que a cabeça deles é a cabeça [dos que estão] na Venezuela, que é a cabeça do monopólio; no máximo, um oligopoliozinho, mas se puder ser um monopólio da comunicação, melhor ainda... Então, você tem que quebrar isso. E a única maneira de quebrar é através da regulamentação. E o Estado tem que fazer. E essa regulamentação não é ação do poder executivo. O poder executivo apresenta o projeto, o legislativo, que representa a sociedade tem que discutir, e todos os movimentos legados à área de comunicação e de informação, e mais toda a coisarada da internet, tem que discutir e participar. É um processo longo, mas em que a sociedade inteira tem que participar da discussão. Mas, a iniciativa de propor tem que vir do executivo, porque o legislativo não terá essa iniciativa.

Wagner Nabuco - Eu gostaria de ouvir a sua opinião sobre a questão do Monteiro Lobato.
A questão do Lobato é igual à de Mark Twain, nos Estados Unidos. Mark Twain tem lá o lugar que o Lobato tem aqui e tem o racismo na obra de Mark Twain. Bem, eu entendo que os movimentos negros tenham decidido de uma vez por todas dizer que não dá para suportar paternalismo e racismo, seja lá onde for. Eu compreendo isso, mas não pode censurar o livro. Não pode. Você tem que ter a formação de professores, tal, que o professor se ele dá o livro para os alunos possa discutir com os alunos o racismo, mas censurar o livro, não. Então, eu entendo que o movimento negro faça isso e ele tem o direito e obrigação de fazer isso, mas nós temos que contrabalançar, porque não pode censurar.
(...)

Tatiana Merlino - Professora, a senhora disse que nós tivemos mudanças estruturais no país. A senhora acha que é possível fazer uma mudança estrutural sem fazer uma reforma agrária efetiva?
Não, mas você tem bolsões de mudança. Veja a educação. São mudanças importantes. A gente não pode ter um mecanismo economicista, de dizer: a base da economia é a terra, se não mexe na terra não mexe na indústria, se não mexe na indústria não mexe na finança, se não mexe na finança, não mexe na escola. Não é verdade.

Tatiana Merlino - Mas resolver a questão agrária sem a reforma agrária é possível?
É possível, é possível. Foram feitas coisas inacreditáveis! Foram feitas. É que você tem que pensar a sociedade não como um sistema de ordens hierárquicas. Você tem que pensar a sociedade como uma rede, como nós, e foram tocados alguns nós da estrutura da sociedade e outros, não. Eu acho que o fato da Dilma ter uma proposta que é a questão da infra-estrutura ela vai mudar nisso. Eu não sei o que vai dar, porque a fala dela, o discurso dela, ela enfatiza a questão da infra-estrutura, do PAC. Na infra-estrutura, o nó é a propriedade da terra. Então, vamos ver o que vai acontecer. Então, você tem que pensar nos diferentes nós, alguns que foram desatados, outros que foram reatados de outra maneira, outros que foram desfeitos, que no caso, eu acho que o governo que vai enfatizar a infra-estrutura vai ter que enfrentar isso de uma outra maneira.
(...)
"E aborto passa, aborto vai passar...
Porque as mulheres vão
botar a boca no trombone."

Otávio Nagoya - A senhora acha que a questão da reforma agrária, a própria comunicação, houve, de fato, uma vontade política do governo Lula de levar isso a frente ou ele abriu mão para conseguir outra coisa?
Isso eu não sei. Eu não sei se foi um ponto negociado ou se foi um ponto que foi proposto e encontrou umm limite, objetivamente. Eu tive, por exemplo, várias conversas com o Marco Aurélio Garcia e ele dizia: na semana que vem ele vai me mandar tal coisa, assim, assim e assim.

Otávio Nagoya - É a pressão?
Mas, tem coisa que não foi, sequer, enviada.

Débora Prado - Então, nesse cenário que você colocou, o papel dos movimentos históricos é colocar na pauta, é fazer pressão?
Sim. Eu acho que precisa de reforma política e pressão clara dos movimentos, porque agora tem tudo para fazer, porque tem os Conselhos, os Conselhos Nacionais. Do ponto de vista institucional, está tudo montado, tem que usar a institucionalidade para fazer isso.

Lúcia Rodrigues - Quando a senhora coloca, o governo logicamente apresenta ao congresso e o congresso aprova, mas o governo construiu, a duras penas, uma maioria no congresso. Ele poderia aprovar, sem, aborto, reforma agrária, a democratização da comunicação. Esses temas, para o governo, não acabam caindo no ralo como temas secundários.
Olha, eu não sei, não sei se... a reforma agrária não pode ser considerada secundária, mesmo para o governo, de jeito nenhum, num país como este, de jeito nenhum. Mas, o aborto, talvez, seja considerada uma questão secundária. A mídia é uma incompetência histórica nossa para lidar com essa questão, ora por não achar importante, ora fazendo tudo errado. Então, não, nem que considerou secundário, não se mexer com isso, é incompetência nossa. O aborto não é uma questão prioritária e a reforma agrária encontra uma barreira do agronegócio. Então, são coisas diferentes. São prioridades diferentes, percepções diferentes, capacidades diferentes.

Lúcia Rodrigues - Mas, aí, não entra aquela questão da aliança à direita, a aliança com o agronegócio. O Lula enaltece o agronegócio, o Lula fala bem do agronegócio, com ele vai combater e propor a reforma agrária se ele está aliado no congresso...
É isso, é uma contradição. Tem que fazer uma reforma política, se você não mudar esse sistema de alianças, a atuação é muito limitada, em certas coisas fundamentais, como o caso da reforma agrária. Eu acho que a comunicação vai passar, viu? Precisa de arranjar umas pessoas que entendam do assunto e fazer passar. E aborto passa, aborto vai passar... Porque as mulheres vão botar a boca no trombone.
(...)
"Se você não legalizar as drogas,
você não acaba com o crime organizado."


Hamilton Octavio de Souza - Eu gostaria de saber a sua opinião sobre o que está acontecendo no Rio de Janeiro. A senhora apóia essa ação policial que cerca e ocupa os morros?
Eu apoio, mas vou discutir as limitações de tudo isso. Eu acho que a intervenção é uma intervenção necessária, porque o Estado tem que estar presente em todo o território e o Estado está ausente no território das favelas, está ausente no território do crime organizado e o Estado tem que estar presente, porque a população desses territórios é refém do crime organizado. Então, a intervenção é, ao mesmo tempo uma repressão, uma interrupção do tráfico, mas é também uma liberação da população. Por isso, eu sou favorável. Dito isso... Quais são as limitações desse processo? Primeira limitação: o Estado só poderia estar presente e ser senhor do território se não estivesse presente sob a forma militarizada, com educação, saúde, abastecimento, saneamento e cultura. Essa é a maneira pela qual o Estado tem que estar presente. Então se faze presente, nesse momento, através da ação repressiva, porque ele precisa liberar essa população. Não é essa a maneira pela qual o Estado tem que estar presente no território, através das instituições afirmativas. Segunda limitação, as UPPs que são pouquíssimas, são 13 para 2 mil favelas, mas equipadas, e com um pessoal não preparado para o serviço que é pedido a eles, que tenderá, portanto, ou à prática da violência, ou à conivência com a transgressão. Mas, sobretudo, a limitação maior, e que não se trata de uma ação visando efetivamente a ocupação estatal de territórios que estavam nas mãos do crime organizado. Primeiro, porque você não alcança o crime organizado, você não pega o núcleo dos cartéis, você pega os lambaris. Você não alcança efetivamente o objetivo. Esse é o primeiro ponto. Chamem o Paulo Sergio Pinheiro para explicar: para alcançar esse objetivo tem que controlar as fronteiras por terra. E que tal a Marinha tomar conta da baía da Guanabara, onde tudo isso entra? Isso é a ação visando o crime organizado, efetivamente, seu núcleo de poder. Então, além de todas essas limitações, desta ação, há duas outras que são importantes. O governo do Estado quer que o Exército fique por tempo indeterminado e a resposta do ministro de defesa é muito sugestiva, depois de corrigir. A correção foi: o Exército não fica, porque o Exército não tem função de polícia. Mas, a primeira resposta dele não foi essa. Ele disse não pde ficar por tempo indeterminado, porque o Exército vai ser contaminado. Então, isso diz tudo. Isso é uma característica da sociedade brasileira o fato de que é uma sociedade na qual é impossível você estabelecer de uma maneira clara e precisa a distinção entre a política e o crime. É uma convivência institucional. E, finalmente, a grande limitação é, você se encontra em um momento: por que ocupar o território nesse momento agora? Está sendo feito agora por causa da Copa de 2014, por causa das Olimpíadas de 2016, e onde está sendo feito é o lugar onde vai haver investimento privado de construções para o turismo do período da Copa e das Olimpíadas.
Então, eu sou a favor, porque os depoimentos da população aterrorizada me impressionaram muito. Muito. Então, o Estado tem a obrigação de livrar a população desse controle do crime. Mas, eu só vejo limitações. Limitações dos modos de ação, limitações da época, limitação dos procedimentos, tudo, tudo, tudo... Aqui, eu não tenho otimismo nenhum.

Gabriela Moncau - O que a senhora acha da legalização das drogas?
Tem que ter. É o único jeito. Não há outra solução. Se você não legalizar as drogas, você não acaba com o crime organizado.

Baby Siqueira Abraão - Mas, os cartéis não permitem...
Eu sei que eles não permitem. Os cartéis não permitem a legalização, aí é papo num outro nível. Eles não permitem isso, eles operam na esfera dos poderes globais, não é nem aqui, nem na Venezuela, nem na Bolívia, nem no Paraguai, é lá mesmo onde eles mandam, mandam mesmo no planeta. Sobretudo, porque, está articulado ao tráfico de armas. E o grande poder nem é o das drogas, é o de armas. Então, se você não acaba com o tráfico de armas, você também não acaba com o tráfico de drogas. Mas, eu não vejo outra saída. Se você não legalizar, você não acaba com isso nunca.

Wagner Nabuco - E o lado da demanda?
Então, se você legalizar, a demanda vai cair lá embaixo. Pega a lei seca, nos Estados Unidos, na hora que ela acabou, a demanda foi lá para baixo.

Débora Prado - É um bom argumento.
Se você pegar a lei seca, todo crime que se organizou nos Estados Unidos, em particular em Chicago, está ligada à lei seca, quando ela acaba, tudo isso desmorona.
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Para ler a entrevista completa e outras matérias confira a edição de dezembro da revista Caros Amigos, já nas bancas.
Fonte: Revista Caros Amigos online e impressa - Nº 165/dezembro 2010

A volta do MH

Luis Fernando Verissimo*
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O Marciano Hipotético tem vindo seguidamente ao Brasil e sempre sai perplexo com o que vê e ouve por aqui. Na sua última visita, o Lula acabava de ser eleito pela primeira vez, mas ainda não tinha sido empossado. As perspectivas não eram boas. Empresários preparavam-se para fugir em massa do País se suas piores conjeturas sobre o PT no poder se confirmassem. Banqueiros tremiam, temendo estatização sem indenização. Donas de casa escondiam a prataria. Anunciavam-se anos de privação e sacrifício sob o socialismo iminente.
Oito anos depois, o MH volta e, para começar, não encontra vaga para estacionar a sua nave. A movimentação de Natal nas ruas e nas lojas é tamanha que o deixa transtornado. Onde está? Certamente não na Grande Cuba preconizada oito anos antes.
MH entrevista pessoas na rua com seu português de novela, aprendido nas ondas da TV, e descobre que a maioria está contente, está empregada, teve dinheiro ou crédito para as compras e julga que as coisas vão melhorar ainda mais.
- Quer dizer que, qui, il socialismo ha funzionato? - pergunta MH, com sotaque do Tony Ramos.
- O sociaque?
A perplexidade de MH aumenta. O Lula foi deposto, será isso? O PT não conseguiu implantar seu programa, a reação venceu e o Lula foi corrido do governo. Que nada, lhe informam. Lula ficou oito anos e ainda escolheu sua sucessora. Sucessora?! Sim, uma mulher. Dilma, ex-ativista política, ideologicamente mais à esquerda do que Lula e que, todos esperam, só completará o seu trabalho de consolidação do capitalismo no Brasil. A esta altura MH decidiu que precisava de um drink. Entrou num bar e pediu "Amoníaco. Duplo!"
Sempre impressionou muito ao MH a quantidade de siglas de esquerda na política brasileira. Em nenhum outro lugar do mundo há tantas graduações de "esquerda" para se escolher, e tantas já chegaram a ser governo, com ou sem coligações, sem que isso afetasse muito o conservadorismo dominante. MH pretende desenvolver uma tese, na viagem de volta ao seu planeta. A esquerda brasileira é estilhaçada desse jeito de tanto bater na cidadela do poder real sem conseguir penetrá-la. É uma tese complexa, mas a viagem é longa.
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* Jornalista. Escritor. Cronista
Fonte: Estadão online, 30/12/2010

Sem tempo para morrer

Série "1001", que reúne sugestões de atividades
para fazer antes de morrer,
 já vendeu 225 mil cópias no Brasil;
editora diz que "as listas não são feitas para acabar ,
até porque a pessoa estará pronta para morrer"
Danilo Zamboni
A cena é hipotética.

Um casal jovem, frondoso, caminha de mãos dadas em um fim de tarde à beira-mar, nas Ilhas Virgens Britânicas. O rapaz saca da bolsa um Château Haut-Brion, safra 1989 e, enquanto o serve, cita trechos de "A Educação Sentimental", de Gustave Flaubert. A moça se enternece.
Recostam-se na areia, lado a lado, contemplando as estrelas que insistem em aparecer. Riem quando escutam, distante, uma gravação de Nat King Cole cantando "Unforgettable." Então, na sincronia que só o amor é capaz de fabricar, profetizam, em uníssono: "Agora podemos morrer em paz".
Não podem. Para que isso ocorra, precisam completar, ao menos, outras 6.000 atividades no porvir.
Em 2007, a editora Sextante lançou, no Brasil, os livros "1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer" e "1001 Maravilhas Naturais Para Ver Antes de Morrer" -traduções de uma série publicada nos Estados Unidos e Inglaterra, desde o começo da década, pela Quintessence.
O sucesso instantâneo fez com que a editora brasileira traduzisse outros quatro títulos: "Filmes Para Ver", "Vinhos Para Beber", "Comidas para Degustar" e, recentemente, "Livros para Ler"-todos acompanhados do metafísico aposto "Antes de Morrer". (Na cola do filão, a Ediouro e a Best Seller também publicaram "101 Bares Para Beber Antes de Morrer" e "101 Lugares Para Fazer Sexo Antes de Morrer", respectivamente.)
No total, um leitor da série "1001..." preocupado em padecer nos trinques terá 6.006 atividades para completar em vida. Conhecerá as Cataratas Vitória, no Zimbábue; assistirá a "O Expresso de Xangai", de Josef Von Sternberg; beberá um Château Beauséjour, de Bordeaux; ouvirá "Let it Bleed", dos Rolling Stones; lerá "Anna Kariênina", de Tolstói; comerá um fugu, peixe venenoso do Japão.
A série já vendeu 225 mil exemplares no Brasil. No mundo, 5,1 milhões, segundo a Quintessence. Como as 27 traduções são impressas simultaneamente na China, as edições, ainda que fornidas (todas têm 960 páginas), são comercializados a R$ 60, valor relativamente baixo.
EXAGERO

Virginie Leite, diretora editorial da Sextante, diz que o sucesso dos livros a surpreendeu. "Não era um segmento que explorávamos. A Sextante vem de um histórico de livros de autoajuda", contou, por telefone, de seu escritório no Rio de Janeiro.
Ela atribui parte dos louros ao número 1.001: "Graficamente, ele é bonito. Entre um livro com 1.000 ou 1.001 sugestões, escolho a segunda opção. O apelo é maior." Ela admite que dicas na casa do milhar podem soar exageradas. "O número 101 é mais acessível. Mas essas listas não servem para serem completadas, e sim para criar desejos, despertar interesses."
A tese é amparada pelos organizadores das próprias edições. No prefácio de "1001 Vinhos Para Beber Antes de Morrer", o editor Neil Becket escreve: "É claro que poucos de nós conseguem conhecer 1.001 exemplares seja do que for; ainda assim, esperamos que você compre e experimente o maior número que puder desses vinhos".
Já em "1001 Maravilhas Naturais Para Ver Antes de Morrer", o editor Michael Bright faz um mea-culpa: "Se você não puder sair de casa para admirar o mundo real, sempre terá "1001 Maravilhas Naturais". Consultá-lo é como planejar uma viagem imaginária por toda a vida."
Virginie Leite resume da seguinte forma: "Se a pessoa completar as 1.001 sugestões, ela estará pronta para morrer, o que não é nada bom. A lista é feita para não acabar".
FINITUDE

Talvez preocupada com a possibilidade da finitude, a Quintessence tem despejado cada vez mais títulos nas livrarias. Quem procurar pela série "1001..." no mercado americano, encontrará "Edifícios Para Ver" (com um museu de Oscar Niemeyer na capa), "Sítios Históricos Para Visitar", "Jogos de Videogame Para Brincar", "Discos de Música Clássica Para Ouvir" e "Campos de Golfe Para Jogar Antes de Morrer".
Há, também, uma versão para os pequenos: "1001 Livros Infantis Para Ler Antes de Crescer".
E pensar que, na mitologia grega, Hércules levou uma vida inteira para cumprir doze trabalhos.
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REPORTAGEM POR ROBERTO KAZ DE SÃO PAULO
Fonte: Folha online, 31/12/2010

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

MINHAS MÃOS, ESSAS MÃOS, TUAS MÃOS

Dom Pedro Casaldáliga*


Minhas mãos, essas mãos, Tuas mãos
fazemos este gesto, compartida
a mesa e do destino, como irmãos:
As vidas em Tua Morte em Tua vida.

Unidos no pão os muitos grãos
iremos aprendendo a ser a unida
Cidade de Deus, Cidade dos humanos.
Comendo-te saberemos ser comida.

O vinho de tuas veias nos provoca.
O pão que eles não têm nos convoca
a ser contigo o pão de cada dia.

Chamados pela luz de Tua memória,
marchamos para o Reino fazendo História,
fraterna e subversiva Eucaristia.

(Do livro “Todavia estas palavras”, p.80)

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*Dom Pedro Casaldáliga CMF, Balsareny (Barcelona), 16 de fevereiro de 1928, é  bispo católico  emérito nascido na Espanha, com dupla nacionalidade espanhola e brasileira. Poeta. Escritor

Uma Fábula Judaica

Imagem da Internet
Três mulheres conversando ao lado de um poço. Um velho as escutava.
A primeira mulher dizia:
 - Meu filho é muito forte, corre e pula.
A segunda dizia:
- O meu filho canta como os passarinhos.
A terceira mulher nada dizia, então o velho perguntou:
 - Você não tem filhos?
Ela respondeu: - Tenho, mas ele é um menino normal como todas as crianças.
As três mulheres pegaram seus potes cheios de água e foram caminhando. No meio do caminho, elas pararam para descansar e o velho homem sentou ao lado delas.
Logo elas viram seus filhos voltando para perto delas.
O primeiro vinha correndo e pulando, o segundo vinha cantando lindas canções. O terceiro não vinha pulando nem cantando, ele correu em direção a sua mãe e pegou o pote cheio de água e levou para casa.
Então as três mulheres perguntaram para o velho homem:
 - O que o senhor achou dos nossos filhos?
E o velho homem respondeu:
- Realmente, eu acabei de ver três meninos, mas vi apenas um filho.
(Fonte: Jornal o Lutador impresso - 11 a 20 - janeiro - 2011)

Ano-Novo, vida nova

CONTARDO CALLIGARIS*
Imagem da Internet
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Voto para o ano novo:
que encontremos jeitos de desejar
 sem transformar nosso desejo em obrigação

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UMA LEITORA, que me autoriza a citar seu e-mail, mas prefere que seu nome não seja mencionado, pergunta: "Gostaria de saber sua opinião sobre parceiros que simplesmente somem, desaparecem mesmo, sem deixar rastro. Cancelam telefones, e-mail, conta no Skype e somem, sem se despedir, sem nem mesmo um MSN. E não falo de um relacionamento de alguns dias, mas de anos. Oito para ser mais precisa. Nem falo de um adolescente, mas de um homem de 57 anos.
Ele foi trabalhar no Oriente Médio, num alto cargo, a empresa fechou e ele desapareceu. Não morreu, não foi sequestrado por terroristas. (...) O que leva alguém a agir assim? Obrigações econômicas não estão em jogo".
A cada ano, mundo afora, há centenas de milhares de pessoas que somem e nunca mais dão notícias a familiares e amigos.
Quando se trata de adultos sem obrigações jurídicas (dívidas ou pensões alimentícias, por exemplo), a polícia descobre, eventualmente, o novo paradeiro ou a nova identidade de quem sumiu, mas só o próprio desaparecido pode autorizá-la comunicar estas informações aos parentes e amigos de sua vida, digamos assim, "anterior".
No passado, nesta página, se me lembro direito, já assinalei o fato de que, estranhamente, em geral, quem some não vai longe: acaba numa cidade parecida com a que ele abandonou, a poucos quilômetros de distância. Também, na maioria dos casos, o desaparecido reconstrói uma vida próxima da vida da qual ele fugiu -encontra um ofício parecido com o que ele praticava e cria uma família similar à que deixou.
Essa "constância" nos surpreende porque imaginamos que, em regra, alguém suma por querer uma vida nova. Por alguma razão, o caminho gradativo, que consistiria em se despedir, fazer as malas, fechar as contas etc., pareceria impraticável ou insuficiente aos olhos de nosso fugitivo: talvez ele tenha esperado demais e sua paciência excessiva (para com os outros ou para consigo mesmo) exija, de repente, uma explosão, um corte sem conversa alguma. De qualquer forma, supomos (ingenuamente) que, se alguém decidiu sumir, foi para mudar radicalmente.
De fato, como disse antes, os desaparecidos acabam reconstruindo uma vida parecida com a anterior ao seu sumiço, e isso nos leva à conclusão oposta: talvez quem some não queira mudar de vida -então, ele some por quê?
Conheci pouquíssimos que sumiram, mas conheço muitos que expressam a vontade de sumir. Todos explicam sua vontade da mesma forma: trata-se de fugir de exigências impossíveis de serem satisfeitas. Mas, cuidado: "Eles me pedem demais" é a tradução projetiva de "eu me peço demais". Quem foge das exigências do mundo está quase sempre fugindo das exigências que seu próprio desejo lhe coloca.
Vamos agora ao que acontece com quem decide sumir apenas para alguém -um familiar (se não a família inteira) ou um parceiro.
Às vezes, é justificada a sensação de que, sem um sumiço, uma relação se eternizaria pela simples dificuldade de qualquer um dos dois reconhecer que acabou. Onde está a covardia, e onde a coragem? Não sei. Talvez haja covardia em não conseguir declarar que um amor terminou, assim como talvez haja covardia na incapacidade de escutar essa declaração. Há a covardia de quem some e também de quem sobra, quando ambos parecem precisar do sumiço de um dos dois para aceitar que a história chegou ao fim.
Há covardia também em fingir que a relação continua, quando ela já morreu. Alguém, aliás, pode sumir para fugir de sua própria covardia, que o mantém calado, ou para fugir da covardia do outro, que não quer ouvir uma frase de despedida.
Seja como for, muitas vezes, alguém acaba uma relação e some porque o que era (e talvez ainda seja) seu desejo se transformou numa exigência intolerável.
Funciona assim: um dos jeitos de nos autorizarmos a querer o que desejamos consiste em transformar nosso desejo numa obrigação. Desejar é mais fácil (embora menos alegre) quando imaginamos desejar a mando de algum outro. O problema é que esse desejo, facilitado por ser mandatário, logo aparece como uma exigência da qual, eventualmente, vamos querer fugir.
Meu voto para o Ano Novo: que nos preocupemos menos em mudar nossas vidas e encontremos jeitos de conseguir desejar o que já desejamos sem transformar nosso desejo em obrigação.
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* Psiquiátra. Escritor. Colunista da Folhaccalligari@uol.com.br
Fonte: Folha online, 30/12/2010

François Houtart - molestou primo

Padre anticapitalista admite ter cometido abuso sexual


Um dos fundadores do Fórum Social Mundial,
teólogo belga François Houtart (foto) diz
que molestou primo de oito anos de idade

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

O padre e sociólogo belga François Houtart, 85, um dos idealizadores do Fórum Social Mundial, admitiu por escrito ter abusado sexualmente de um primo menor nos anos 70.
Em carta divulgada ontem pelo jornal belga "Le Soir", Houtart corrobora algumas denúncias feitas pela irmã da vítima para impedi-lo de concorrer ao Nobel da Paz.
Houtart é um dos líderes do altermundialismo, movimento que pede uma alternativa ao capitalismo.
Na carta, o padre conta que os abusos ocorreram quando ele esteve hospedado na casa de tios, nos arredores da cidade de Liège.
"Ao atravessar o quarto de um dos filhos, toquei as suas partes íntimas por duas vezes, o que o acordou e o assustou", descreve Houtart.
"Foi evidentemente um ato inconsequente e irresponsável", acrescenta.
O menino, que tinha oito anos de idade, relatou o ocorrido aos pais.
O caso foi denunciado duas vezes pela irmã da vítima -ambas as identidades são mantidas em sigilo.
O primeiro relato foi feito em meados do ano passado a uma comissão da Igreja Católica belga que investigou casos de abusos, mas o nome do padre não foi citado no relatório final.
A prima, que qualifica o caso como "estupro", só decidiu citar Houtart nominalmente em outubro, em meio a uma campanha mundial de simpatizantes pela candidatura ao Nobel.
A denúncia foi feita à ONG anticapitalista belga Cetri, da qual Houtart era membro.
A organização disse ontem ter expulsado o padre logo após o relato da prima e insistiu em que o caso só não veio a público a pedido dela.
A candidatura de Houtart ao Nobel da Paz, que era apoiada pela Cetri, foi engavetada em novembro sob a alegação oficial de que a idade avançada e os projetos pessoais do clérigo marxista eram incompatíveis com a campanha.
Na carta divulgada ontem, o sacerdote diz que a ideia de se candidatar ao Nobel não partiu dele, mas de dezenas de simpatizantes.
Houtart afirma estar profundamente arrependido pelo ocorrido e conta que a hierarquia da igreja, ao ouvir a sua confissão, o incentivou a continuar o trabalho social.
Houtart garante no texto ter obtido o perdão dos pais do menino, hoje mortos.
O caso é o mais recente golpe contra a Igreja Católica, atingida desde 2006 por denúncias de abusos na Irlanda, Alemanha, Áustria, Holanda e Estados Unidos.

Brasileiros se dizem surpresos com confissão


DE SÃO PAULO

François Houtart é um dos mais respeitados líderes do chamado movimento altermundialista.
Filho de aristocratas, passou boa parte da vida defendendo causas chamadas "progressistas", culminando com a idealização do primeiro Fórum Social Mundial, ocorrido em 2001 em Porto Alegre.
Houtart sempre dedicou especial atenção ao Brasil, onde tem amigos. Um dos entusiastas da candidatura do padre ao Nobel da Paz 2011 era Plínio de Arruda Sampaio, candidato derrotado do PSOL na última eleição presidencial.
A candidatura também era apoiada pelo teólogo dominicano Frei Betto. "Estou estarrecido", afirmou Betto à Folha ao saber da confissão de abuso.
O empresário e militante social Oded Grajew também se disse chocado.
"Conheço o trabalho social do Houtart, que é muito respeitado. Não podia imaginar uma coisa dessas envolvendo sua vida pessoal", afirmou.

Quem é
François Houtart (Bruxelas, 1925) é um sacerdote católico e sociólogo marxista belga, fundador do Centro Tricontinental (CETRI) que funciona na Universidade Católica de Lovaina e da revista "Alternatives Sud". É uma figura reconhecida do movimento altermundista.
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Fonte: Folha online, 30/12/2010

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Que raios estou fazendo aqui?

MARTHA MEDEIROS*

Não há revista ou jornal que não traga matérias sobre lugares encantadores para se conhecer. Viajar deixou de ser um luxo para se tornar quase obrigatório. São tantas promoções e pacotes, que fica mesmo difícil resistir.
Adoro viajar e adoro livros de viagem, incluindo os de ficção. Geralmente, as narrativas confirmam a ideia de que viajar abre horizontes, traz novos conhecimentos e nos aperfeiçoa como seres humanos. Compensa suportar voos atrasados, cansaço e imprevistos, pois receberemos o Éden em troca. Quanto às roubadas, ninguém dá um pio. É proibido falar “antipatizei com Paris” ou “achei o Caribe um tédio”. É de bom-tom gostar de tudo e, se a viagem for para um destino exótico, convém gostar mais ainda, para não passar recibo de preconceituoso.
Deve ser por isso que me diverti com o livro Eu, Minha (Quase) Namorada e o Guru Dela, do inglês William Sutcliffe. O livro conta a história de um garoto de 19 anos que é pressionado pelos amigos a sair de Londres para fazer uma viagem de aventura em seu período de férias. Por quê? Ora, porque todo mundo faz. Bem que ele gostaria de passar as férias em casa se empanturrando de porcaria em frente à TV, mas acaba conhecendo uma guria que está de partida para a Índia e, muito refinado, pensa: “Essa mina está me dando mole, vou viajar com ela e me dar bem”.
A “mina” quer encontrar o próprio eu, enquanto que o garoto, nos primeiros cinco minutos em Délhi, quer encontrar uma pousada com ar condicionado. A moça encara todas as privações com enlevo, já que está num tour espiritual, enquanto nosso amigo inicia um tour pelo inferno, e cabe a nós, leitores, não ligar para o fato de não estarmos com um Balzac ou Tchekhov nas mãos. Ler as aventuras de um estudante que declara ódio à Índia assim que aterrissa, e que odeia todos os mochileiros que lá estão, e também todos os viajantes sem dinheiro que escolhem ir para lugares insalubres com o intuito de procurar o próprio eu, nos faz viajar com ele para o adorável mundo do politicamente incorreto, que hoje é quase um ponto esquecido do mapa. O livro é engraçadíssimo. Certamente já entramos em alguma roubada que nos fez lamentar ter nascido, porém, muito ponderados que somos, catalogamos o incidente como “uma experiência de vida”. Mas o personagem não tem essa condescendência. Ele quer cortar os pulsos e engolir três caixas de veneno pra rato. E tem motivo.
Nunca embarquei numa fria colossal, mas já passei alguns maus momentos em viagens, quase sempre por falta de informação. Mas quando sobra humor e presença de espírito, mesmo a mais medonha das viagens rende algumas risadas na volta. Ou inspira um livro cômico e despretensioso para ser lido numa tarde de verão.
Em tempo: não conheço a Índia. Me atrai mais ou menos. Sei de pessoas que veneram a cultura e as peculiaridades locais. E de pessoas que não voltariam a colocar os pés lá nem para salvar um filho. Por ora, ainda não incluí o país na lista dos “100 lugares que não posso morrer sem conhecer”, mas vá saber. Tudo é uma experiência de vida.
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* Escritora. Cronista da ZH. Edita livro de suas crônicas.
Fonte: ZH online, 29/12/2010
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A ideia em torno do socialismo ecológico

Marcus Eduardo de Oliveira *

Mudar radicalmente a racionalidade econômica; aproximar as preocupações da ciência econômica para a necessidade de libertar o homem; criar um novo ambiente propício para a vida de todos os seres humanos, sem a divisão costumeira que privilegia alguns em detrimento de muitos e reconhecer, definitivamente, a existência de limites ao crescimento. São esses alguns pontos centrais da discussão em torno do que se convenciona chamar socialismo ecológico; ou como alguns preferem de ecossocialismo.
Socialismo, sim, no sentido de enaltecer os laços sociais e políticos que respeitam, primeiramente, a Mãe Terra. Socialismo no sentido de fazer a crítica verdadeira ao "deus-capitalismo" que se afirma consoante a ideia básica de que o mercado, altar sagrado do dinheiro, pode tudo. Esse socialismo, aqui defendido, se põe em posição contrária a essa premissa, pois entende que o mercado é incapaz de resolver tudo e que o mundo não pode viver apenas de consumo e mais consumo, como o "deus-capitalismo" sempre quis que assim fosse e quer que assim seja.
Quem tem olhos para ver sabe que a contradição entre capital e natureza aí está posta e deve ser repensada à luz de uma nova perspectiva que inclua, essencial e preferencialmente, o ser humano dentro do objeto de análise dos modelos econômicos, partindo da premissa que o mundo não é, como dissemos, um objeto, uma simples e qualquer mercadoria pronta para ser digerida por bocas ávidas. Se o consumo consome o consumidor, o socialismo ecológico, o ecossocialismo, vem para refutar o deus-mercado e pôr novas regras no jogo, defendendo as bases de sustentação da vida, condenando, primeiramente, o consumo artificialmente induzido pela publicidade que faz a sobrevivência daquele "deus" que ora mencionamos.
 Talvez seja por isso que Enrique Leff acertadamente pontua que "a economia está gerando a morte entrópica do mundo". Essa "morte", em nosso entendimento, é cada vez mais explícita quando se percebe que a única preocupação dos "Senhores da Economia Mundial" é em salvar o grande capital, não em salvar o planeta e a vida. Por sinal, melhor seria dizer em salvar a vida, pois o planeta saberá viver sem nós uma vez que não depende de nossa presença para sobreviver.
Pelo lado da economia voraz e consumista, base do deus-mercado, que a tudo destrói em nome de atender aos ditames mercadológicos, somos sabedores de que a ordem da macroeconomia comandada por esses "Senhores" é uma só: fazer crescer e crescer e crescer cada vez mais a economia mundial. Do outro lado, para o bem da sobrevivência e do respeito às leis da vida, a ordem da ecologia também é una: lutar pela possibilidade de assegurar a sobrevivência de nossa espécie.
Conquanto, o fato é que já não é mais possível aceitar a prédica mercadológica que faz com que uma minoria prospera enquanto uma maioria conheça de perto o drama da exclusão numa sociedade que parece não ser de outra natureza além daquela consumista, insuflada pela propaganda, financiada pelo capital, destruidora da natureza.

"Esse socialismo ecológico,
defendido pelo economista mexicano Enrique Leff,
pelo sociólogo Michael Lowy, por Victor Wallis,
 John Bellamy Foster, Jean-Marie Harribey,
 Raymond Willians, David Pepper e
tantos outros nomes de destaque na academia,
 aponta para a necessidade
de incutir no imaginário coletivo
a verdade de que toda vez que o capital
se constrói sob as ruínas da natureza
 é a vida de todos nós que entra em perigo."

Os que defendem o modelo de fazer a economia crescer sem limites para assim promover a "felicidade geral", como se isso fosse exequível, e como se não houvesse nenhum tipo de diferença sócioeconômica, se equivocam ao ignorar que esse "crescimento" é dependente das leis da natureza e a natureza, em toda sua amplitude, não é (e nunca será) capaz de dar conta dessa política de crescimento.
Nesse sentido, a economia parece ser completamente míope em relação à necessidade de se regular a produção. Para o bem daqueles que se encontram ao lado da ecologia, contra a economia destruidora, cabe atentar aos preceitos desse novo pensamento que ganha, cada vez mais, contorno de paradigma que veio para ficar. Consoante a isso, analisemos a seguir o que tem dito Lowy e Bellamy Foster que trabalham a ideia de "ecossocialismo".

O ecossocialismo

Afinal, o que é o ecossocialismo? Para Lowy, "Trata-se de uma corrente de pensamento e de ação ecológica que toma para si as conquistas fundamentais do socialismo - ao mesmo tempo livrando-se de suas escórias produtivistas".
Já o sociólogo John Bellamy Foster definiu o ecossocialismo como sendo "a regulação racional da produção, respeitando a relação metabólica entre os sistemas sociais e os sistemas naturais, de forma a garantir a satisfação das necessidades comuns das gerações presentes e futuras".
Portanto, a definição dada por Foster não está muito distante da recomendação feita pelo Relatório Brundtland. Para melhor ilustrar-se essa questão, três aspectos realçam o posicionamento de Foster. São eles:
* O reconhecimento dos limites ao crescimento e a ruptura com a lógica produtivista que associa o aumento do bem-estar a um aumento da produção. Colocar o prefixo eco na palavra socialismo implica conciliar a igualdade intrageracional com a igualdade intergeracional;
* A reformulação do sistema produtivo de forma a torná-lo dependente unicamente do uso de recursos renováveis, articulando com o princípio anterior. Cumpre ressaltar que a sustentabilidade exige um uso dos recursos renováveis a um ritmo que garanta a sua renovação;
* O uso social da natureza, privilegiando a gestão comunitária de recursos comuns.
Como visto, os termos ecossocialismo e socialismo ecológico estão longe de serem apenas modismos ou meras retóricas românticas. São, ademais, conceitos que ganham contornos relevantes num mundo que vive intensamente a mais grave crise ecológica de toda a história. Para o bem de todos nós, o pensamento em defesa da sustentabilidade se fortalece no dia a dia. A natureza e a vida agradecem.
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* Economista brasileiro, especialista em Política Internacional. Articulista do site "O Economista", do Portal EcoDebate e da Agência Zwela de Notícias (Angola)
Fonte: Adital, 28/12/2010
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Crise neoliberal e sofrimento humano

Leonardo Boff*
O balanço que faço de 2010 vai ser diferente. Enfatizo um dado pouco referido nas análises: o imenso sofrimento humano, a desestruturação subjetiva especialmente dos assalariados, devido à reorganização econômico-financeira mundial.
Há muito que se operou a “grande transformação”(Polaniy), colocando a economia como o eixo articulador de toda a vida social, subordinando a política e anulando a ética. Quando a economia entra em crise, como sucede atualmente, tudo é sacrificado para salvá-la. Penalisa-se toda a sociedade como na Grécia, na Irlanda, em Portugal, na Espanha e mesmo dos USA em nome do saneamento da economia. O que deveria ser meio, transforma-se num fim em si mesmo.
Colocado em situação de crise, o sistema neoliberal tende a radicalizar sua lógica e a explorar mais ainda a força de trabalho. Ao invés de mudar de rumo, faz mais do mesmo, colocando pesada cruz sobre as costas dos trabalhadores. Não se trata daquilo relativamente já estudado do “assédio moral”, vale dizer, das humilhações persistentes e prolongadas de trabalhadores e trabalhadoras para subordiná-los, amedrontá-los e, por fim, levá-los a deixar o trabalho. O sofrimento agora é mais generalizado e difuso afetando, ora mais ora menos, o conjunto dos países centrais. Trata-se de uma espécie de “mal-estar da globalização” em processo de erosão humanística.
Ele se expressa por grave depressão coletiva, destruição do horizonte da esperança, perda da alegria de viver, vontade de sumir do mapa e até, em muitos, de tirar a própria vida. Por causa da crise, as empresas e seus gestores levam a competitividade até a um limite extremo, estipulam metas quase inalcançáveis, infundindo nos trabalhadores, angústias, medo e, não raro, síndrome de pânico. Cobra-se tudo deles: entrega incondicional e plena disponibilidade, dilacerando sua subjetividade e destruindo as relações familiares. Estima-se que no Brasil cerca de 15 milhões de pessoas sofram este tipo de depressão, ligada às sobrecargas do trabalho.

"Organização Mundial de Saúde estima
 que cerca de três mil pessoas
se suicidam diariamente,
muitas delas por causa
da abusiva pressão do trabalho."
A pesquisadora Margarida Barreto, médica especialista em saúde do trabalho, observou que no ano passado, numa pequisa ouvindo 400 pessoas, que cerca de um quarto delas teve idéias suicidas por causa da excessiva cobrança no trabalho. Continua ela: “é preciso ver a tentativa de tirar a própria vida como uma grande denúncia às condições de trabalho impostas pelo neoliberalismo nas últimas décadas”. Especialmente são afetados os bancários do setor financeiro, altamente especulativo e orientado para a maximalização dos lucros. Uma pesquisa de 2009 feita pelo professor Marcelo Augusto Finazzi Santos, da Universidade de Brasília, apurou que entre 1996 a 2005, a cada 20 dias, um bancário se suicidava, por causa das pressões por metas, excesso de tarefas e pavor do desemprego. Os gestores atuais mostram-se insensíveis ao sofrimento de seus funcionários, acrescentando-lhes ainda mais sofrimento.
A Organização Mundial de Saúde estima que cerca de três mil pessoas se suicidam diariamente, muitas delas por causa da abusiva pressão do trabalho. O Le Monde Diplomatique de novembro do corrente ano, denunciou que entre os motivos das greves de outubro na França, se achava também o protesto contra o acelerado ritmo de trabalho imposto pelas fábricas causando nervosismo, irritabilidade e ansiedade. Relançou-se a frase de 1968 que rezava:”metrô, trabalho, cama”, atualizando-a agora como “metrô, trabalho, túmulo”. Quer dizer, doenças letais ou o suicídio como efeito da superexploração capitalista.

Nas análises que se fazem da atual crise, importa incorporar este dado perverso que é o oceano de sofrimento que está sendo imposto à população, sobretudo, aos pobres, no propósito de salvar o sistema econômico, controlado por poucas forças, extremamente fortes, mas desumanas e sem piedade. Uma razão a mais para superá-lo historicamente, além de condená-lo moralmente. Nessa direção caminha a consciência ética da humanidade, bem representada nas várias realizações do Fórum Social Mundial entre outras.
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* Teólogo. Filósofo. Escritor. Autor de Proteger a Terra-Cuidar da vida: como evitar o fim do mundo, Record 2010.

Fonte: Adital, 29/12/2010
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FHC diz ter 'dificuldade' para entender o que Dilma fala


'É uma dificuldade minha, você sabe que
eu sou curto em inteligência.
Às vezes eu não consigo,
 ela não termina o raciocínio e eu não tenho imaginação suficiente
 para saber o que ela iria dizer',
ironizou
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O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) afirmou ter sérias dificuldades para entender o que fala a presidente eleita, Dilma Rousseff (PT). Em entrevista ao programa Manhattan Connection, exibido no domingo, 26, à noite pelo canal de TV por assinatura GNT, FHC ironizou a petista e disse não ter "imaginação suficiente" para adivinhar o que Dilma quer dizer quando começa algum raciocínio e não o conclui.
"Não, não entendo não, eu confesso a você que tenho uma série dificuldade (para entendê-la)", afirmou. "É uma dificuldade minha, você sabe que eu sou curto em inteligência. Às vezes eu não consigo, ela não termina o raciocínio e eu não tenho imaginação suficiente para saber o que ela iria dizer."
FHC disse que Dilma assumirá um País em condições muito melhores que as que encontrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que o sucedeu no cargo. Na avaliação dele, o principal problema a ser enfrentado pela presidente eleita é a questão fiscal. "A Dilma vai pegar uma economia em bom momento, mas vai pegar uma situação fiscal bastante difícil também. Os gastos públicos aumentaram muito e é difícil você aumentar mais o imposto. Vai ter que ter algum ajuste."
Porém, o ex-presidente afirmou que não prevê um cenário pessimista para Dilma e enalteceu as conquistas que o País obteve nos últimos anos, principalmente durante seu governo (1995-2002). Ao falar de si mesmo, FHC fez um autoelogio. "Eu mudei o Brasil, vamos dizer com clareza aqui, sem falsa modéstia. O Brasil era um antes da consolidação da economia e passou a ser outro", afirmou.
"Vamos ser francos, o Brasil está melhorando, está melhorando muito, há muito tempo vem melhorando e vai melhorar mais. Depois que você põe em movimento uma máquina, você começa a pedalar e ela vai. Não sou pessimista nesse sentido, mas acho que ela (Dilma) vai ter que fazer alguns ajustes", afirmou.
FHC também aproveitou para criticar o presidente Lula. "O ano em que ele (Lula) pegou (assumiu o governo) piorou por causa dele, por causa do medo que os mercados tinham do que ele dizia que iria fazer e que, para a sorte de todos nós, não fez."

Dossiê

O tucano condenou a montagem de um dossiê sobre seus gastos e os de sua mulher, Ruth Cardoso (morta em 2008), durante sua gestão na Presidência. O dossiê teria sido feito em 2008 pela então secretária-executiva da Casa Civil Erenice Guerra a pedido da então ministra Dilma, quando o Congresso manifestou interesse em investigar os gastos do presidente Lula e de sua família com cartões corporativos.
"Realmente foi grave aquilo, porque ela (Dilma) telefonou pra a Ruth e disse que não estava fazendo nada", afirmou. "Era simplesmente para justificar os gastos que nunca foram explicados, até hoje, da primeira parte do governo Lula. Inventaram que nós tínhamos gastos que não tínhamos, não havia nem cartão corporativo, não havia nenhum gasto de coisa nenhuma, mas fizeram aquela onda, aquele chantagem toda, foi bastante desagradável."
FHC disse esperar que o ato não se repita durante o governo Dilma. "Mas se quiserem fazer espionagem da minha vida podem fazer à vontade, não tenho nada para esconder, mas espero que não", afirmou. "Eu digo não é o procedimento correto ficar fazendo dossiê." A entrevista com FHC foi a última do programa Manhattan Connection na GNT, que disponibilizou alguns trechos em seu site na internet.
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REPORTAGEM POR Anne Warth / SÃO PAULO - Agência Estado
Estadão, 29/12/2010

Cérebro tem que ser estimulado - vestibulandos

Cérebro não pode ficar sem estímulo, diz psicólogo


Para o psicólogo Fernando Elias José, especializado em concursos, provas e vestibulares, as festas de fim de ano não devem ser encaradas como férias pelos estudantes. "A gente está trabalhando com uma maquininha que é o cérebro, e ele não pode ficar sem estímulo por muito tempo", afirma. A dica que ele dá para quem ainda enfrenta vestibulares em janeiro é equilibrar descanso e estudos.

Folha - Adianta o aluno estudar neste fim de ano ou é melhor descansar?
Fernando Elias José - Minha recomendação é para o estudante que se preparou ao longo do ano. Ele precisa dar uma descansada neste momento das festas para chegar tranquilo à prova. E o que eu quero dizer com descansar é aproveitar as festas com a família, porque, às vezes, o candidato só fica trancado no quarto. No outro dia, sem exageros, ele pode voltar a estudar um pouco.

Alguns professores recomendam que os estudantes parem de estudar no dia 24 [de dezembro] e só voltem depois do Ano-Novo. Qual dica o senhor daria?
A gente está trabalhando com uma maquininha que é o cérebro, e ele não pode ficar sem estímulo por muito tempo. As férias são realmente para depois que terminar tudo. O que eu recomendo que ele faça neste período é um estudo que costumo chamar de "Mônica e Cebolinha", ou seja, que ele possa fazer algo mais lúdico, um estudo não tão puxado como antes [das festas], mas que ele não deixe de estudar. Que ele não se considere em férias, porque este não é o momento.

Como a família deve agir neste momento? O que os pais devem fazer?
O importante é olhar para trás e ver como foi ao longo do ano. Se o pai cobra, naturalmente esse filho vai estar esperando essa cobrança, independentemente da época. O pai não pode mudar de comportamento nesta "finaleira", senão dá uma confusão na cabeça desse estudante. Mas [é importante] que ele esteja mais próximo do seu filho nesta reta final.

Se os pais forem viajar, o estudante pode ir junto?
Pode, claro, sem paranoias, desde que ele seja coerente com aquilo que organizou [para estudar]. O mais importante nesta hora é o equilíbrio entre estudo e descanso. Só o que eu sempre recomendo é [não beber] nada de álcool, porque isso pode afetar a memória. (AT)
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Fonte: Folha online, 29/12/2010
Imagem da Internet

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Educação literária

Editoriais

Ler também pode ser muito perigoso, como deve saber qualquer adolescente que tenha prestado vestibular. Se ao final do ensino médio o estudante ainda não domina o mínimo do cânone literário, corre sério risco de não conseguir entrar na faculdade desejada.
Para maximizar as chances dos alunos nos processos seletivos, os colégios adaptam seus programas à lista de autores consagrados, cujas obras são impostas aos discentes da forma aparentemente mais lógica -ou melhor, cronológica.
O resultado é que um jovem recém-egresso do primeiro grau pode se defrontar, sem maior preparo, com Camões. Isso não deixa de ser um início grandioso, mas é também muito difícil para quem está habituado às mensagens curtas do Twitter e das redes sociais.
"Aos sete anos, no interior do Nordeste,
 ignorante da minha língua,
fui compelido a adivinhar,
 em língua estranha, as filhas do Mondego,
a linda Inês, as armas e os barões assinalados...
 Deus me perdoe.
Abominei Camões".
(Graciliano Ramos)
A dificuldade, todavia, não é de hoje. Graciliano Ramos revelou, em "Infância", o quanto o aprendizado dos clássicos pode ser doloroso: "Foi por esse tempo que me infligiram Camões, no manuscrito", lembra ele. "Aos sete anos, no interior do Nordeste, ignorante da minha língua, fui compelido a adivinhar, em língua estranha, as filhas do Mondego, a linda Inês, as armas e os barões assinalados... Deus me perdoe. Abominei Camões".
É inegável que a escola não pode descartar o patrimônio cultural do país, nem lhe cabe atribuir à linguagem cotidiana um valor estético que esta não possui: sua tarefa consiste em conectar a realidade do aluno à memória da coletividade, para que ambas possam se vivificar e se desenvolver.
O contato com a tradição literária só pode produzir resultados consistentes se o estudante consegue divisar algum sentido nas obras que lhe são apresentadas. Se estas se resumem a uma carga que tem de ser suportada até o vestibular, e depois abandonada com alívio, então o sistema educacional não atingiu seu objetivo.
Nenhum processo de aprendizagem pode alcançar êxito se não se conectar com o presente, com a existência dos indivíduos que precisam ser socializados. A tradição e a norma culta não são o ponto de partida, mas o ponto de chegada.
Como se discutiu em reportagem publicada ontem pela Folha, não se trata de reduzir o ensino literário a uma fôrma que gira no sentido horário ou no anti-horário, e sim de buscar nos livros do passado e do presente elementos que despertem o interesse dos jovens estudantes -e os tornem aptos a descobrir o prazer da leitura.
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Fonte: Editorial da Folha online, 28/12/2010
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O mundo é pequeno

JOÃO PEREIRA COUTINHO*


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Campanhas nos dizem o que
devemos ser, pensar, comer, dizer,
como nos devemos comportar

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OS MEUS amigos me abandonaram. Uns moram no Brasil. Outros partiram para o Brasil. Para passar o Natal e a virada do ano.
Que barbaridade. Haverá maior sacrilégio? Como é possível viver a quadra natalícia, esse tempo arcádico que Charles Dickens praticamente inventou no século 19, nas areias de uma praia? Alguém imagina o Papai Noel de bermuda e chinelos, bebendo uma caipirinha? E as renas? Quem acredita que esses pobres bichos sobreviveriam no calçadão de Ipanema? Natal no Brasil é um erro de casting.
A Europa, pelo contrário, cumpre o papel. Chuva. Frio. Neve. Atrasos nos aeroportos. Mortos nas estradas. Um Natal tradicional. Exatamente como deve ser.
E, para além de tudo isso, até a chuva, o frio e a neve têm direito a tratamento jornalístico especial. Não sei quando começou essa moda. Talvez com a histeria ignara do aquecimento global. O que sei é que não existe jornal ou programa de TV que não seja um longo show de meteorologia.
Começa com coisas banais. É dezembro. Os termômetros desceram em todo lado. E os repórteres europeus saem para as ruas para noticiar o fato: faz frio, chove, cai neve. Os fatos são comunicados à nação como se estivesse iminente uma invasão alienígena. A nação treme. Não de frio, mas de medo.
Alguns jornalistas, não contentes com o medo, apostam no pânico. E questionam o cidadão comum: "O que pensa do frio?" O cidadão comum, perante as câmeras, não ri nem agride o jornalista. Inicia uma longa dissertação sobre a problemática do frio.
Faz sentido. O frio é um problema. Só em Portugal, o Instituto de Meteorologia tem por hábito lançar "alertas" de acordo com o estado do tempo. Existem "alertas" para todos os gostos. E de todas as cores. Vermelhos. Amarelos. Laranjas. Desconheço o que significam. Mas sei que se multiplicam. Lisboa pode estar sob "alerta vermelho" e, horas depois, passar para amarelo. Ou vice-versa. Aceitam-se apostas.
"Essa infantilização absoluta dos cidadãos
 não é apenas praticada por autoridades democraticamente eleitas,
que aconselham roupa quente
quando faz frio ou guarda-chuva
quando cai chuva."


Mas o melhor não é a cor dos "alertas", são os conselhos que vêm atrelados. Se faz frio, por exemplo, as autoridades aconselham o uso de roupa quente. Se chove, aconselham guarda-chuva. Parece óbvio, mas não é: um povo infantilizado começa a perder a capacidade básica para distinguir fatos básicos. Se não houvesse "alertas", desconfio que a população seria como o Papai Noel brasileiro: pronta para enfrentar a tempestade de bermuda e chinelos.
Porque a triste verdade é que estamos mais infantis do que nunca. O jornalista britânico Michael Bywater, em livro sobre a matéria ("Big Babies, Or: Why Can't We Just Grow Up?", grandes bebês, ou por que não podemos simplesmente ficar adultos), já tinha alertado para o fato: a todas as horas, em todos os lugares, são infindas as campanhas que tratam o parceiro como criança.
Campanhas que nos dizem o que devemos ser, pensar, comer, dizer, como nos devemos comportar, vestir e até se despir, ou não fosse o sexo o prato principal das sociedades adolescentes em que vivemos.
Essa infantilização absoluta dos cidadãos não é apenas praticada por autoridades democraticamente eleitas, que aconselham roupa quente quando faz frio ou guarda-chuva quando cai chuva.
Encontra-se na quantidade obscena de publicações que determinam "estilos" e "tendências" como se um ser adulto precisasse de ter um "estilo" e cultivar uma "tendência". Escreve Bywater, em frase primorosa: "O meu pai não tinha estilo de vida. Ele tinha uma vida." Curioso. O meu também. E o seu, leitor?
No Ocidente balofo e pós-ideológico, ninguém tem uma vida para viver em paz. Porque só é possível ser adulto quando somos deixados em paz: nós, confrontados com as nossas escolhas e responsabilidades, sem uma mão paternalista a guiar as nossas existências.
O circo em volta impede essa autonomia ao prolongar perpetuamente a infância. Quando somos tratados como crianças, dificilmente deixaremos de ser crianças.
Hoje é o frio. Amanhã será a forma correta de inspirar e expirar o ar, conhecida antigamente como "respiração". Um dia, quem sabe, haverá uma autoridade qualquer para aconselhar o uso de fraldas 24 horas por dia. É mais seguro e, além disso, nem sempre existem banheiros ao virar a esquina.
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* José João Pereira Coutinho (Porto, 1 de Junho de 1976) é um jornalista e comentador político português.
jpcoutinho@folha.com.br
Fonte: Folha online, 28/12/2010