segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Diferença entre Marxismo, Comunismo e Socialismo.

Bruno Cava*

Há muitas formas de apelar num debate. Uma comum se dá com as expressões assassinas. Por exemplo. Está-se discutindo a pena de morte e pinta aquele "e se fosse a sua filha?!". O tema é política e de repente "sou contra radicalismo porque é sempre perigoso". Frequentemente, a expressão assassina começa com o famoso "todo mundo sabe que....". Em geral, essas expressões embutem um componente ideológico, preconceitos disfarçados de bom senso.
Como assim se fosse a minha filha? Em primeiro lugar, não é... e se fosse a madre Teresa de Calcutá? Em segundo, a lei não pode conceder tratamento desigual entre os meus filhos e qualquer cidadão. E terceiro, e se fosse a sua filha que cometesse o crime? Qualquer radicalismo é perigoso? Ora, como se combate um radicalismo ruim? Como se luta contra fanáticos? Com moderação? Hipótese: existe um grupo radicalmente a favor do direito das mulheres e um outro que as oprime com o rótulo "feminazi". Ambos os radicalismos estão igualmente errados, porque são... radicais? Absurdo. Quero radicalmente pipoca doce e você, salgada. Ok, não sejamos radicais. Vamos ser moderados e pôr açúcar e sal na pipoca.
A introdução acima é para tratar do tema socialismo. Palavra saturada que pode conduzir numa velocidade incrível às mais variadas expressões assassinas. "Socialismo é igual a nazismo". "Socialismo morreu, não funcionou, águas passadas". "Os socialistas não passam de radicais estatistas fracassados sectários ingênuos deslumbrados que, no fundo, não têm mérito pra atuar na iniciativa privada". "Todo socialista aos 20 acaba caindo na realidade e adere ao capitalismo aos 40". E por aí vai...
É preciso diferenciar. Contornar as simplificações interessadas. Qualificar o debate, tirando os conceitos do saco de gatos. Ao redor do socialismo, há uma Torre de Babel de escolas, movimentos, autores, personagens históricos e fenômenos políticos. O caso não é fazer apologia disto ou daquilo, mas compreender o que está em jogo. Compreender é melhor do que sucumbir à ladainha e suas expressões assassinas, tão à disposição do "crítico" de primeira hora e tão vazias.
Vale começar a brincadeira pela diferença entre marxismo, comunismo, socialismo e socialismo real.
Marxismo é um conjunto de discursos e práticas de alguma forma ancorado na obra de Karl Marx. Óbvio, né? Teve e tem uma influência tão grande que mereceu o sufixo "ismo", tal qual darwinismo, cristianismo, maquiavelismo. Sim, o marxismo é uma tradição, mas uma tradição sincrética. Só de história do marxismo, Eric Hobsbawm organizou nada menos do que doze volumes de pelo menos 300 páginas cada um. Um tronco enormemente complexo e labiríntico, com vasta cobertura geográfica e histórica. Nos seus 150 anos de vida, o marxismo se ramificou em correntes com personalidade própria, cada qual com a sua interpretação de Marx. Daí derivam subprodutos: marxismo-leninismo, marxismo crítico, trotskismo, estalinismo, maoísmo, anarcomarxismo, situacionismo, eurocomunismo, marxismo aberto etc --- tem até grouchomarxismo (adotado por Woody Allen).
Definir a essência histórica do marxismo já é tomar uma posição dentro dessa tradição. Quer seja uma posição ortodoxa, alinhada ao tronco principal, quer revisionista, subversiva, contra-hegemônica. Lênin, por exemplo, acreditava que a essência do marxismo era se organizar para tomar o poder e fazer a revolução. Ele não apenas escreveu cartilhas militantes, em que defendia a formação de vanguardas de revolucionários profissionais, como efetivamente tomou parte relevante na Revolução Russa. Há muitas outras posições. Tem até quem diga que o marxismo, como um todo, deturpe a mensagem original de Marx, daí se dizer "marxiano".

Penso que o marxismo tenha por cerne dois aspectos:
1) O primado da luta de classes na interpretação do mundo. O marxista vê o antagonismo entre dominantes e dominados como o motor da história. E não propõe conciliações, mas luta. Sem revolta diante do estado das coisas, não pode haver marxismo. Reparar que a luta não é entre o bem e o mal, mas entre as classes concretas. E notar também que não basta pregar uma utopia qualquer. É preciso interpretar este mundo, nas suas relações de poder materiais.
2) O compromisso ético e político com a transformação deste mundo. Não basta a adesão às teorias de Marx para ser marxista. O marxista necessariamente é militante e deve agir. Qualquer teoria marxista reclama por pôr-se em prática, e dela depende para se aprimorar e se retificar. O contrário disso tem vários nomes: socialismo de salão, marxismo de cátedra, academicismo de esquerda etc.
Comunismo descreve a situação pós-revolucionária, quando as classes são abolidas, o trabalho liberta-se, a luta termina e os produtores passam a gozar plenamente do que produzem. É a linha de chegada. Todo o tempo passa a ser tempo livre, para viver e fazer o que se deseja. Esse, o sonho comunista, no seu conteúdo utópico. O comunismo serve como idéia reguladora do marxismo, mas também de outros socialismos.
Sou da opinião que o comunismo não precisa ser utópico. Pode ser que a luta nunca culmine num idílio de paz. Porque o desejo não tem fim, sempre quer mais e diferente do que já se é. Não haverá sabedoria coletiva. "Quem alcança o seu ideal, vai além dele". O comunismo, nesta concepção, é menos uma utopia distante do que um desejo palpitante de consumação no agora.
Socialismo é tão sincrético e vago que pode ser qualquer coisa. Pode abarcar toda a tradição marxista e muitas outras, dos anarquismos mais desvairados à socialdemocracia apaziguada. Veja-se o Brasil hoje, com partidos/correntes completamente distintos sob a mesma alcunha socialista: Partido Popular Socialista (PPS), Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Partido Socialista Brasileiro (PSB), Democracia Socialista (DS) do Partido dos Trabalhadores (PT) etc.
Socialismo real, por sua vez, é uma expressão que gosto. Surgiu na linha oficial da União Soviética como resposta aos marxismos revisionistas, principalmente o trotskismo (que arrepiava a espinha de Stálin). O recado era claro: real mesmo só o nosso, o socialismo de vocês não passa de elucubração e conto-de-fada. Nos anos 1970, contudo, os revisionistas voltaram a expressão contra esse socialismo tosco e opressivo.
Socialismo real, então, designa o regime dos países do outrora "Segundo Mundo", amarrados ideológica e militarmente ao redor do Pacto de Varsóvia (URSS e Leste Europeu). Eram economias maciçamente planificadas, controladas com mão de ferro pelo todo-poderoso Partido Comunista da União Soviética (PCUS), que fazia as vezes de estado, governo e sociedade civil organizada. Baseou-se num regime politicamente fechado, militarizado, sob a vigília insopitável das polícias secretas. O socialismo real, por um lado, levou a Rússia feudal e periférica de 1917 a derrotar um dos mais impressionantes exércitos da história, de 1943 a 1945. Logo a seguir, alçou-a à condição de superpotência nuclear, pioneira em satélites e submarinos. Por outro lado, culminou em assassinato em massa, paranóia e estagnação.
Seu colapso deveu-se ao cerco militar e econômico que o mundo ocidental lhe assacou, de 1917 a 1991, bem como à asfixia da produtividade de sua população, subjugada pela elite burocrática, coibida de pensar, criar, desejar e se organizar economicamente. A maior fração da produtividade do trabalhador terminava alienada em proveito do gigantesco complexo militar-industrial. Assim, menos do que socializar a produção, a planificação soviética conduziu a uma acumulação ainda mais injusta que a do Primeiro Mundo. Eis a ética do homem de mármore soviético: duro, leal, obediente, abnegado no trabalho, viril, circunspecto.
Sobre o fracasso do socialismo real e suas razões, junto da análise de novas perspectivas para a esquerda global, sugiro o ótimo Adeus Sr. Socialismo - A crise da esquerda e os novos movimentos revolucionários (NEGRI, Antônio; Porto: Ambar, 2007 [2006]), de quem, aliás, usei algumas ideias neste post.

PS. Sobre o assunto, recomendo também o artigo Cesare Battisti, Adeus Sr. Socialismo e New Thing, no Passa Palavra.
___________________________
*Bruno Cava é escritor, cineclubista, roteirista, colunista do Le Monde ...

Fonte: http://quadradodosloucos.blogspot.com/ 18/12/2010

Um comentário:

  1. Ótimo artigo. Bastante elucidativo. Pena que os partidos de hoje em dia, mesmo os pretensamente revolucionários (e dentre estes alguns que se declaram socialistas) não dão mais cursos de formação política. Então o militante acaba dependendo quase que unicamente de si mesmo para poder formar alguma consciência histórica ou crítica sobre tudo isso.

    Pessoalmente prefiro me declarar libertário por ter afinidade com Maurício Tragtenbeg que tinha lá suas críticas ao marxismo. Mas não deixo de negar a importância do marxismo enquanto crítica social e política.

    Sou da opinião de que hoje em dia as pessoas abstraem demais as coisas, a economia passou a ser vista hegemonicamente como uma técnica, e o caráter político e social se tornou meramente marginal. As pessoas se esquecem de que o principal fator determinante da política é a economia, e acabam abraçando idéias das mais estapafúrdias por causa disso.

    ResponderExcluir