sábado, 25 de janeiro de 2020

Contos da psiquiatra Natalia Timerman tratam das neuroses cotidianas

Mateus Baldi* 
 
Natalia Timerman 
A escritora e psiquiatra Natalia Timerman, autora de 'Rachaduras' e 'Desterros' Foto: Mariana Vieira

'No exato instante em que uma mãe está escrevendo, ela não está cuidando de seus filhos. É uma escrita culpada', afirma a escritora em entrevista ao 'Estado'

Em Desterros, sua estreia na literatura, a psiquiatra Natalia Timerman foi bastante elogiada pela forma como humanizou as prisioneiras do sistema carcerário de São Paulo. Rachaduras, seu novo livro, o primeiro de ficção, subverte essa ideia e parte rumo ao oposto – nos contos frenéticos, cheios de fluxo de consciência e vozes sobrepostas, Timerman aguçou o olhar da cidade e pôs uma lente de aumento nas neuroses cotidianas. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Natalia fala de seu processo criativo e explica sua reconciliação com São Paulo.

Os personagens de ‘Rachaduras’ parecem o tempo todo expostos aos problemas da vida cotidiana, como se a fissura estivesse no banal, e não no extraordinário. Como foi o seu processo de escrita? 
A escrita deste livro se deu ao longo de muitos anos. Percebi que se tratava de uma unidade – rachada – quando notei se repetir o tropeço, o não pertencimento. A própria estrutura do livro remete a isso, dividindo em três eixos a recorrência de apelos de personagens que tentam com urgência fazer parte das coisas como são: a vida banal, transcorrendo como “deve” ser. Mas assumir a impossibilidade, as rachaduras, é, como no poema de Leonard Cohen, entender que é pela quebra que pode entrar a luz. 

Você começou escrevendo sobre a realidade das mulheres encarceradas e agora se volta para a ficção. Como é transitar por esses eixos? O que a ficção pode aprender com a não ficção, e vice-versa?
A escrita literária me parece ser dos poucos meios de que dispomos para acessar a complexidade do real; e a ficção consegue aumentar a abrangência desse acesso, porque inventa a si e se dá de volta ao real. A não ficção exige um freio, uma certa reverência às pessoas que nasceram, que existem; a ficção pede uma entrega por meio da qual os personagens passam a existir e falar por si. 

O fluxo de consciência é uma das estratégias narrativas mais presentes no livro. A forma precede o conteúdo ou é um encaixe? Como foi encontrar a voz de cada personagem?
Como cada conto surgiu de uma maneira, talvez não haja uma precedência, mas um acontecer simultâneo de forma e conteúdo servindo-se reciprocamente. O ímpeto de escrever pode servir a algo vago até que seja escrito: uma ideia esfumaçada, uma frase isolada que pede amparo de quem a possa dizer. Me parece que foram perguntas feitas pelos personagens, por sua voz, e a resposta, se existe, se dá em seu dizer. 

São Paulo é quase uma personagem do livro. Que cidade é essa e qual a sua relação com o caos urbano?
São Paulo é minha matriz, meu repertório de imaginação, onde cresci e de onde sempre quis sair. Curioso é que, depois que comecei a escrever, minha vontade de morar em outro lugar se apaziguou. Parece que as palavras me conciliaram com ela, me permitindo sair de mim e então da cidade – escrevendo sobre e a partir dela. 

Sheila Heti, em ‘Maternidade’, diz que ‘Só duas pessoas ficam ao lado do réu — sua mãe e seu advogado’. Em ‘Desterros’, as mães exercem um papel fundamental no documento que você pretendia construir, e muitos dos contos de ‘Rachaduras’ são protagonizados por mães em profunda agonia. Qual é o principal desafio de narrar a maternidade?
No exato instante em que uma mãe está escrevendo, ela não está cuidando de seus filhos. É uma escrita culpada: mãe é culpa, é insuficiência, pois uma mãe é sempre também uma mulher, que, já dizia Simone de Beauvoir, não encontra nas funções de engendrar e aleitar uma afirmação da sua existência, e sim a passividade de suportar seu destino biológico. Escrever sobre maternidade é, apesar e por meio da culpa, superar o que há de passivo no mero cumprimento de um fato biológico: é conciliar o chamado desse destino com a possibilidade de realização de si como mulher. 

 
RACHADURAS
AUTORA: NATALIA TIMERMAN
EDITORA: QUELÔNIO
152 PÁGS., R$ 37,40
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*MATEUS BALDI É ESCRITOR E CRÍTICO LITERÁRIO, FUNDADOR DA PLATAFORMA ‘RESENHA DE BOLSO’
Fonte:  https://alias.estadao.com.br/noticias/geral,contos-da-psiquiatra-natalia-timerman-tratam-das-neuroses-cotidianas,70003161815 Acesso 25/01/2020

Uma sociedade plural

Martha Medeiros*

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Nunca esqueci a letra de Jesus Cristo, gravada por Roberto Carlos (Quem poderá dizer o caminho certo é você, meu Pai). E continuo a me emocionar com os versos de Se eu quiser falar com Deus, de Gilberto Gil, que definiu sua canção como agnóstica (Tenho que me ver tristonho/ Tenho que me achar medonho/ E apesar de um mal tamanho/ Alegrar meu coração). Entre a crença e a dúvida, aumento o volume em Sympathy for the Devil, dos Stones, que alguns traduzem por Simpatia pelo Demônio, outros por Compaixão pelo Demônio: ou seja, ele também está no meio de nós. E agora? Preciso urgente de uma cultura nacionalista, heroica, que exalte as virtudes da luta contra o mal. Uma tarefa para o governo, que foi eleito para salvar esta alma perdidona aqui.

"Quando a cultura adoece" foi um dos termos usados naquele fatídico pronunciamento que, espero, tenha ficado pra trás. Cultura adoece? Sim, adoece. Uma cultura doente é uma cultura aprisionada, asfixiada. Uma cultura baseada em preceitos religiosos - e de uma única religião, sem considerar as outras. Uma cultura que visa orientar e tutelar o povo, e não diverti-lo e apresentá-lo a formas diversas de enxergar o mundo. Uma cultura totalitária, escolhida por um pequeno grupo que acha que sabe o que é melhor para você, para mim e nossos filhos. A gente só precisa dizer amém.
Este é o quadro clínico de uma cultura doente.

O episódio Alvim uniu direita e esquerda no mesmo espanto porque não foi uma patuscada a mais. Descortinou-se uma ambição: reger a cabeça dos brasileiros. Talvez você esteja preocupado apenas em conseguir um emprego e colocar comida na mesa. Seu desejo é muito justo. Aliás, é o mesmo de 220 milhões de habitantes. Mas estão querendo em troca que você apenas trabalhe, coma, reze e durma. Trabalhe, coma, reze e durma. Trabalhe, coma, reze e durma.

Não durma. Cultura é arte expandida, democrática, plural. Também alimenta o espírito. É o que nos torna mais humanos e menos preconceituosos. Faz a gente fantasiar, sonhar, se arrepiar. E também choca, surpreende, perturba. Arte é o que liberta da bolha e exercita a amplitude do olhar. A arte não precisa ser boazinha, papai-e-mamãe. Ela pode ser o que quiser. Insana, bonita, violenta, sagrada, profana, regional, universal. Você é que escolhe o que quer conhecer e o que não quer. Um presidente é um servidor público, não é o Messias, não decreta o que é certo e errado para você, apenas promove a abertura de mentalidade para que todos se sintam incluídos. Você pode se emocionar com Roberto Carlos, com Gil, com Mick Jagger e com mais uma centena de diferentes artistas, simultaneamente, e estará tudo bem, pois vida é a explosão de sensações contraditórias que fazem você transcender a rotina escravizante de apenas trabalhar, comer, rezar e dormir.
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* Jornalista. Escritora. Colunista da ZH
Fonte: https://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=0597d98d8412ccb9d0e236d3763a2970 25/01/2020
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Nós, os ferozes

Lya Luft*

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Gosto das redes sociais, no que têm de útil, de bom, 
prazeroso e humano.

Fui talvez dos primeiros escritores a usarem computador, incrível facilitador do meu trabalho. Uso redes sociais, muito moderadamente, até por timidez quem sabe. Tenho Face, dois ou três pequenos grupos de amigas, uso Whats com moderação, sou de modo geral retraída.

Mas eu aprecio isso da comunicação. Converso com netos na Nova Zelândia ou Estados Unidos, acompanho um pouco sua vida e trabalho, conversava com filho na África, converso com amigos e amigas aqui perto, falo com pessoas com as quais raramente me encontraria. Aprendo muitíssimo no YouTube, vejo excelentes documentários, enfim também aí vou crescendo. Mas um aspecto me impressiona negativamente: a livre saraivada de insultos, em geral errados ou gratuitos, xingamentos de nível duvidoso, brigas ásperas por política ou qualquer opinião, com que tantos se digladiam. Expor a cara a qualquer objeto que nos joguem não é fácil. Os desastres de que se tem notícia nesse território, traições, engodos, armadilhas, negócios fraudulentos, difamações... a lista é grande. Como se, na tela, não importassem educação, gentileza, ninguém se constrangesse de magoar ou ofender outros.

Uma conhecida jornalista, minha amiga, com quem não necessariamente concordo sempre, tem sido insultada de maneiras degradantes, acusada de coisas hoje irrelevantes, mas graves se postas em público, difamada de graça por ódios ideológicos. Outra amiga, artista conhecidíssima, é xingada por ter usado legitimamente benefícios monetários criados para artistas poderem exercer seu ofício. Nada de ilegal, ou fraudado, nenhum roubo ou exagero. O príncipe Harry, nesse conflito certamente doloroso de se apartar da família real, tem sido chamado de "bundão", que valoriza a sua mulher mais do que a realeza, e "vai ver o que é bom". Por que o príncipe seria bundão, se na verdade sempre teve um lado rebelde, problemas emocionais que agora admite, relacionados com a morte brutal da mãe, se foi destacado duas vezes na guerra do Afeganistão onde serviu com distinção e valentia na Marinha e onde é muito respeitado? E por que de repente Regina Duarte é chamada de "Porcina"...?

Sei que é democrático usarmos de todos os meios e armas a nosso dispor. Sei que é democrático que figuras públicas sejam sujeitas a difamação, insulto, inverdades. Mas democracia deveria significar respeito: pela decência, pelos costumes, pela honra, pela verdade. E assim lembro esse ser predador que reside em todos nós, pronto a destruir, esmagar e sujar o outro, como se todos fossem adversários possíveis e iminentes.

E como se, embora humanos, tivéssemos licença de agir feito ferozes criaturas de uma selva primitiva e sombria.
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* Escritora. Colunista da ZH.
Fonte:  https://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=3735f534900d953a93802b34d6360b65 25/01/2020
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quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Preconceito e discriminação são venenos contra os direitos humanos

Frei Betto*
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 Precisamos tomar cuidado como o consumismo 
afeta a nossa alma

Os fatores ideológicos que criam, hoje, os piores venenos à prática dos direitos humanos são o preconceito e a discriminação. 

Somos todos filhos da loteria biológica. Qualquer um de nós poderia ter nascido no Afeganistão, onde a população civil é bombardeada por drones made in USA; na África, onde somalis morrem de fome; no Haiti, onde predomina a miséria. Somos um sopro divino nessa breve vida que temos. Tudo tem começo, meio e fim. Todos haveremos de morrer. E, no entanto, alimentamos preconceito, discriminação, ressentimento...

Ao sair de quatro anos de prisão, muitos perguntavam se eu nutria ódio aos torturadores. Respondia que no início sim, mas logo me curei, ao descobrir, não por virtude, mas por comodismo, que o ódio destrói apenas quem odeia. O ódio é um veneno que se toma esperando que o outro morra. Graças à meditação, consegui harmonia interior.

O grande problema é que o sistema consumista e hedonista se impregna em nossa alma. Quando vejo certos programas e vídeos, penso que o movimento feminista ainda terá que lutar muito, porque exibem o escracho total da mulher. Enquanto crianças e jovens conceberem a mulher como subalterna ao homem, não haverá delegacia suficiente para coibir a violência doméstica. Como querer que o meu filho respeite a mulher se na publicidade ela faz papel de objeto, mera isca erótica para fomentar o consumismo? Isso só terá fim quando mudar essa cultura.

Faço parte do conselho do Instituto Alana (alana.org.br), que defende uma reivindicação importante: proibir, como acontece em vários países capitalistas ricos (mas não se fala disso no Brasil), que qualquer criança trabalhe em publicidade ou que haja publicidade voltada ao público infantil. Muitas guloseimas adoecem nossas crianças por conterem substâncias quimicamente letais. Não é de se espantar quando ocorrem diversos tipos de câncer, obesidade precoce, distúrbios glandulares.

Cada vez que visito uma escola, faço duas perguntas: como é a aula de educação nutricional? Normalmente, há certo espanto, porque inexiste. As crianças comem na merenda a mesma porcariada que o camelô vende na calçada. Daí tantas crianças com excesso de peso, não só por ingerir muito açúcar e gordura saturada, mas também pela falta de brincar na rua e fazer exercícios. Cresce o sedentarismo. A geração da cadeira fica sentada diante do celular, da internet e da TV.

Em seguida, pergunto como é a aula de educação sexual. Os professores esclarecem, mas rebato: não, isso que vocês descrevem é aula de higiene corporal para evitar doenças sexualmente transmissíveis. Em nenhum momento usaram duas palavrinhas chaves para uma boa aula de educação sexual - amor e afeto.

Hoje, a nova geração transa antes de perguntar o nome do outro. Um rapaz que se gabava de “ficar” com tantas moças contou à família na mesa de almoço: “Vocês podem não gostar, mas comunico que vou ser pai.” Um dos irmãos ironizou: “E tem mais ou menos ideia de quem é a mãe?” Essa é uma geração que ainda não chegou à margem socrática da ética. Por isso não levanta do assento para dar lugar aos idosos no transporte público.

A minha geração, que tinha 20 anos na década de 1960, tinha princípios éticos baseados na noção de pecado. A religiosidade nos incutia ética. Isso acabou. Hoje, quem conhece um jovem de 15 anos preocupado com pecado? Pode haver uma exceção. Mas não chegamos ainda à proposta de Sócrates, para quem a ética tem de estar baseada na razão, e não em oráculos divinos.

A ética deveria ser disciplina transversal em todas as escolas. É espantoso constatar que há escolas de medicina nas quais ela não figura como matéria prioritária. Muitos julgam que corrupção se resume a embolsar dinheiro público. Ignoram que ter como meta o enriquecimento pessoal de costas para os direitos e as necessidades da coletividade é tão grave quanto roubar. É reforçar as bases de uma sociedade fundada na competitividade, e não na solidariedade.
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*Frei Betto é escritor, autor de “Parábolas de Jesus – ética e valores universais” (Vozes), entre outros livros.
Fonte:  https://oglobo.globo.com/sociedade/preconceito-discriminacao-sao-venenos-contra-os-direitos-humanos-24203250 acesso: 22/01/2020
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Um livro incendeia o Vaticano

Gilles Lapouge*
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Um flagelo assola o clero: a guerra entre dois adversários da ordenação de padres


Um livro está sendo lançado em Paris. Tem tudo para bombar. O tema é apaixonante: diáconos casados podem ser ordenados padres? O livro é assinado por duas personalidades: o cardeal Robert Sarah, um dos principais nomes da cúria romana, e – principalmente – Bento XVI, de 82 anos, que renunciou ao cargo em 2013 e se tornou papa emérito, nomeando o sucessor, o atual papa, Francisco.
Esse panorama literário foi varrido subitamente por um tufão teológico-psicológico de rara violência. Como explicar essa tempestade? Uma guerra teológica entre os partidários do celibato e os que o combatem com unhas e dentes? Não. Uma luta entre reformistas e conservadores? Também não. Um choque de egos? Tampouco. Tempestade em copo d’água? Não. Pode ser tudo isso, mas não apenas isso. 

Vamos dar uma olhada nos sombrios bastidores do espetáculo que se desenrola em Roma. 

Em suma: o Sínodo da Amazônia, há alguns meses, acendeu o rastilho ao sustentar que alguns diáconos possam ser ordenados padres na Amazônia, considerando-se a penúria de sacerdotes na região. A decisão do papa Francisco a respeito é, pois, esperada com impaciência. 

Se essa regra derrogatória tivesse sido aprovada por Francisco, uma fratura escancararia a disciplina do celibato, obrigatório, desde a Idade Média na Igreja latina. Sabemos, por palavras codificadas, que o papa Francisco e seu predecessor, o papa emérito Bento XVI, divergem. Bento é mais intransigente, menos laicista que Francisco. 

Mas um outro flagelo assola o Vaticano: a guerra entre dois adversários da ordenação de padres casados. E os dois assinam o livro que opõe um o papa emérito e o cardeal Sarah. Ambos rejeitam a tese do sínodo, mas um com delicadeza, outro com fúria. Bento se exprime com contenção, enquanto Sarah, prefeito da Congregação do Culto Divino, golpeia como um ferreiro da Idade Média.  

Num texto anterior, ele pôs no mesmo saco “as ideologias ocidentais da homossexualidade e do aborto, de um lado, e o fanatismo islamista (islâmico?) de outro”. Agora, no livro em questão, o cardeal Robert Sarah escreveu esta frase: “Alguns bispos do Ocidente e da América Latina usam o desespero de povos empobrecidos como laboratório para seus projetos de aprendiz de feiticeiro, visando a impor sacerdotes de segunda classe”. 

Embaixadores estão tentando alinhavar uma trégua entre os dois homens. O tom do diálogo tem sido amargo. Um diplomata, aparentemente da brigada de Bento, disse: “É evidente que o fato de aparecerem na capa do livro dois textos, um de Bento, outro de Sarah, não significa que se trate de uma obra conjunta. Bento e Sarah não escreveram um texto a quatro mãos. Bento estava completamente alheio”. 

A resposta do cardeal Robert Sarah, no Twitter, foi cortante. “Bento sabia que nosso projeto tomaria forma de livro”. O campo de Bento exigiu que seu nome seja retirado da coautoria, da introdução e da conclusão do livro. Por enquanto, esperamos, impacientes, a volta do papa Francisco à arena.

TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ
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* GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS
Fonte:  https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,um-livro-incendeia-o-vaticano,70003165336 20/01/2020
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LIVRAMENTOS

Roberto DaMatta* 
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Faz algum tempo que eu descobri que não tenho mais que carregar o meu futuro

Deixem-me repetir: um dos mais surpreendentes triunfos de ficar velho (velhice é outra coisa) é descobrir, com um sorriso irônico e um enorme alívio, que não se tem futuro.  

Uma analogia batida é imaginar o final de uma viajem de trem quando passamos pelos subúrbios e pelas zonas mais pobres da cidade e, em seguida, entramos no enxame de gente ansiosa da estação. Neste momento, a viagem termina, não há mais trilho a ser trilhado. Acabar é ficar com um absoluto presente no colo. Um presente que não será mais vivido e transmitido para ninguém.

Faz algum tempo que eu descobri que não tenho mais que carregar o meu futuro. E eu lhes confesso: ele foi pesado, cheio de coisas escondidas e de memórias empoeiradas como é comum acontecer com o reprimido, o ocultado e o aprisionado, que imploram livramento.  

Quando mencionei isso numa aula, alguns jovens me olharam intrigados, mas nenhum ficou decepcionado. Acho até que alguns me invejaram por ter consciência de que estou mais próximo do fim da linha, mas – e esse ponto é absolutamente fundamental – não finalizei o gosto da viagem. O fim tem uma vantagem: ele torna o presente algo único e precioso. Se para os jovens o futuro demanda múltiplas escolhas imperiosas, que podem ou não dar certo – sobretudo com o poderoso preocupar-se com o que se “vai ser”, essa exigência do individualismo que, no caso americano, é muito mais obsessiva do que entre nós e faz com que o futuro assuma uma tremenda e muitas vezes agoniada proporção.  

Nesses tempos globalizados e um tanto sinistros, eu – no papel de pai, avô e professor – sei como é complicado sair da verdadeira prisão de um Brasil no qual a gente só tinha futuro como médico, advogado, engenheiro e oficial das Forças Armadas (com ênfase no oficial) e em uma elitista carreira diplomática, para poder ser “alguém”. Hoje, porém, pode-se até ser polícia, dono de bar, motorista e garçom. 

Convenhamos que esse naipe de escolhas se tornou muito amplo e, certamente, demasiado democrático no contexto de um universo profissional preciso e estruturado para as camadas médias, um leque no qual o futuro invariavelmente deveria repetir o passado.

Quando, nos anos 50, entrei numa Faculdade de Filosofia, um amigo decretou que ia estudar numa escola para mulheres e veados. De lá, disse ele, você sai professor o que, no Brasil, é pior do que ser lixeiro, pois não aprender algo novo, descobrir o que ninguém sabe, é uma dimensão indesejada. Pode-se ser do contra, mas é crime, pecado e tabu falar em alternativas e liberdade. Até hoje, pagamos salários de merda aos lixeiros, mas não há verbas previstas para conferências e palestras acadêmicas que, obviamente, não precisam de honorários.  

Quando virei um leitor aplicado, disseram-me que poderia enlouquecer, pois é justamente isso o que ocorre com quem relativiza costumes estabelecidos e prisões culturais solidamente construídas. Como duvidar ou questionar se o caminho já estava traçado primeiro pelo catolicismo e depois pelo chamado “pensamento crítico”?  

Tornei-me, Deus e eu sabemos como, antropólogo social. Um profissional da dúvida, um investigador do por que gostamos de comer misturando arroz com feijão e o que isso teria a ver com a mestiçagem mascaradora e criadora de hierarquias. Pesquisei ainda como os chamados “índios”, que andam sem roupa, inventam seus mundos. Um conhecido me perguntou se eles não ficavam excitados vendo aquelas mulheres nuas. 

Questão tão esdrúxula quanto válida quando descobrimos por que a “política” foi transformada num espaço de enriquecimento e aristocratização, porque não se resiste aos dinheiros públicos que até anteontem, sendo de todos, não seriam de ninguém... 

Um dia ouvi num ato falho que, além de louco, era antropófago. Fiquei feliz. Descobri o meu futuro pesquisando sociedades modestas, muito mais pobres do que a pobreza que vive ao nosso lado e é mantida pelo nosso estilo de vida. Encontrei futuro no Museu Nacional que, não obstante, pegou fogo.  

Lamento ver instituições como a Casa de Rui Barbosa serem atingidas. Para mim, elas deveriam ser independentes. Pesquisadores e professores não podem ser funcionários públicos – os papéis não combinam.  

Ponto final: sem liberdade, amor e perseverança não há, mesmo velho, nenhum futuro. Aliás, o que está para chegar depende de lucidez intelectual: o verdadeiro livramento.
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* Antropólogo, conferencista, consultor, colunista de jornal e produtor brasileiro de TV
Fonte:  https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,livramentos,70003167414 22/01/2020
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Para que serve a história?

Leandro Karnal*
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História revela o processo de construção de cada cultura e deve ser desafio ao autoritarismo

Sua história pessoal, a história da sua família e a do nosso país são partes essenciais da identidade de cada um. Quero pensar três perguntas para saber de história: utilidade, escrita e propriedade. Não escrevo para colegas de profissão, porém para o público leitor com sensibilidade e interesse. Começo pela primeira, a que lança a incômoda questão sobre o valor da História.  

Vivemos em uma época de profunda polarização. Basta olharmos para os índices de aprovação e rejeição de Donald Trump, que se mantiveram praticamente inalterados desde sua eleição, para entendermos como há dois EUA no mesmo país. Os dois lados vociferam grande indisposição um com o outro. Situações similares podem ser observadas mundo afora. Em épocas eleitorais, tal tensão fica mais evidente, todavia se engana quem acredita que enterramos as machadinhas nos interstícios. Estarmos permanentemente polarizados já seria ruim, um sintoma de doença na democracia, segundo o livro Como as Democracias Morrem (de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, 2018). O pior é nossa falta de vontade ou incapacidade de superarmos os polos. Vou chamar esse fenômeno de “bolharização”. Escolho viver em bolhas, em ilhas, isolado, apenas com meu mundinho, minhas coisas e pessoas. Outra ilha/bolha só pode ser povoada por gente ruim e perigosa, pois, na minha, apenas os anjos vivem. 

História é sempre essencial. Em momentos assim, a História é ainda mais fundamental. E para que serve a História? Quem é historiador já ouviu essa pergunta de forma direta ou amenizada. Quando os EUA estavam em seu início, pobres e endividados, o futuro presidente John Adams (1735-1826), negociando acordos comerciais em Paris, escreveu para sua esposa, Abigail. Na carta, dizia que estava encantado com a corte francesa, seus luxuosos palácios, seus corredores e salões lotados de arte e história. Por outro lado, tomado pelo pragmatismo que marcaria parte da história nacional daquele nosso vizinho do Norte, mas também por certa inveja, refutava que aquilo não era o presente de sua nação. Afirmava que a geração dele deveria ser de engenheiros, de trabalhadores braçais estratégicos, pois tudo ainda estava por ser feito. Se essa geração triunfasse, a seguinte, dos filhos do casal, seria de arquitetos, mais despojados do peso de erguer a base, poderiam dar acabamento fino ao novo que ali se desenhava. Por fim, os netos poderiam ser artistas. Karl Marx, curiosamente, também dividiu o mundo assim: primeiro as necessidades materiais, depois o resto. A economia, depois a política. Ao fim, uma pátina de arte, um verniz de cultura. De forma mais comum, ainda existe o pensamento de que o essencial e prático estaria nas áreas de exatas e biológicas. As ciências humanas seriam adereço, “perfumaria”. Nada mais enganoso. Algoritmos e novas tecnologias têm tornado obsoleto muito do que fazíamos. Porém, entender a natureza humana, suas variações em grupos ao longo do tempo e do espaço, é algo que está cada vez mais necessário. De perfumaria, passamos a artigo de primeira necessidade. Somos, nos dias de hoje, um valor fundamental em grandes centros de pensamento.  

Vou desenvolver a ideia. É fundamental dar às coisas alguma perspectiva histórica. Isso quer dizer que um mesmo fato sempre pode ser lido de vários ângulos; que os agentes históricos se movem em um misto daquilo que podem fazer no contexto que lhes permite que algo seja feito. Em outras palavras, que muito pouco é natural quando se trata de humanidade. A vasta maioria de nossas ações e pensamentos é moldada por cultura, logo muda com o tempo. Além dessa desnaturalização, a perspectiva histórica nos ensina alguma humildade. Podemos estudar grandes homens e mulheres do passado, ou os mais humildes, e, inequivocamente, todos morreram. Assurbanipal foi grande em seu tempo, se sentia o homem mais poderoso da Terra. Quem é ele hoje em dia? Em que suas ideias prosperaram? As lentes da história ajudam-nos a ajustar o foco e dar aos fatos ocorridos dimensão e perspectiva para além do impacto imediato. Algumas questões somem, como as polêmicas diárias de mídias sociais, ao passo que a extrema relevância de outras pode nos ser despercebida.  

Pôr as coisas em perspectiva, admitir que tudo tem mais de um lado e que todos precisam ser ouvidos, não significa, contudo, que vale qualquer coisa em História ou que rever o passado para que ele me diga o que me interessa seja possível. História “desnaturaliza” o que parece inscrito no livro das leis físicas e biológicas. História revela o processo de construção de cada cultura. História sempre deve ser um desafio ao autoritarismo, ainda que muitos historiadores tenham se tornado defensores de ditaduras, infelizmente. Como há maus médicos, há maus profissionais da área da memória. História insere os conceitos no seu significado de época, evita anacronismos, revisita valores e desmancha dogmas pela sua própria natureza de perguntar e colocar em perspectiva. Historiadores críticos incomodam sistemas totalitários e foram perseguidos em regimes muito variados. Há muito mais para pensar e dizer, mas, por enquanto, precisamos dar espaço para a esperança e encerrar por aqui. 
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* Historiador brasileiro, professor da Universidade Estadual de Campinas, especializado em história da América.
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Fonte:  https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,para-que-serve-a-historia,70003167626 22/01/2020