quinta-feira, 27 de julho de 2017

Reforma trabalhista e a Carta Del Lavoro

Gustavo C. Guiotto *
 Resultado de imagem para empregado no sistema capitalista

A absorção do indivíduo pelo Estado, atributo de regimes totalitários, é marca característica no desenvolvimento do direito trabalhista brasileiro. Ainda hoje, existem aqueles que negam a influência direta do fascismo italiano na criação da legislação trabalhista brasileira. A inspiração na Carta Del Lavoro, editada no ano de 1927 pelo Gran Consiglio del Fascismo, na Itália, é evidente e pode ser atestada nas transcrições ipsis litteris de artigos em nossa Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). 

De origem fascista, a Justiça do Trabalho brasileira ainda é vista por boa parte dos magistrados e advogados ativistas como um instrumento de luta de classes. Quase como em um conto Robinwoodiano, o objetivo é tirar do vilão empregador (supostamente rico) para dar para ao pobre empregado. 

Engana-se quem pensa que o empregador brasileiro faz parte do lado rico do conto mítico inglês. Quem já se aventurou a abrir uma empresa no Brasil sabe a dificuldade de gerir o próprio negócio, tendo que superar o excesso de legislação, a alta carga tributária e o dificílimo acesso ao crédito bancário. 

De cada 10 empresas que abrem as portas no Brasil, seis não sobrevivem após cinco anos de atividade. Em pesquisa divulgada pelo Sebrae, 99% dos negócios no País são gerados por micro e pequenas empresas, e elas representam quase 20% do PIB nacional. 

Além disso, essas empresas aumentam consideravelmente a geração de empregos no País, já que são responsáveis por 60% dos quase 100 milhões de empregos existentes no Brasil, possuindo, portanto, um papel fundamental no crescimento econômico da nação. Longe de modificar estruturalmente a CLT, a nova legislação trabalhista apresenta um certo fôlego nas relações de trabalho, trazendo maior competitividade, valorizando a meritocracia, diminuindo os riscos nas contratações, simplificando e resultando em maior segurança jurídica nos vínculos laborais. 

Ser empresário no Brasil é se aventurar nas florestas medievais carregando as suas suadas moedas de ouro, suportando a tirania dos coletores de impostos, fugindo dos ladrões e saqueadores para, ao final, não caindo nas mãos de Robin Wood, com sorte, alimentar sua família. 
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* Advogado - 
Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/07/opiniao/575986-reforma-trabalhista-e-a-carta-del-lavoro.html)
Imagem da Internet

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Como Jane Austen passou de uma anônima para um mito da literatura


Anne Hathaway interpreta Jane Austen em 'Becoming Jane'

Passados 200 anos de sua morte, autora de 'Orgulho e Preconceito' e outros clássicos figura na nota de 10 libras

The Economist, O Estado de S.Paulo
22 Julho 2017 | 16h00

Com seus traços abreviados e indistintos, ela olha com expressão vazia para o nada. Uma touca de renda mantém presos os cabelos escuros, com exceção de algumas mechas que emolduram o rosto. Às suas costas, vê-se um palacete rural e uma ilustração de Elizabeth Bennet, sua mais célebre criação. Esse é o retrato de Jane Austen que aparece na nova cédula de 10 libras, divulgada pelo governo britânico na terça-feira, 18, data do bicentenário da morte da escritora. É só mais um exemplo do processo de reconfiguração e reinterpretação a que ela foi submetida, e que resultou em sua ascensão à condição de sensação literária mundial. 

Austen nasceu em 16 de dezembro de 1775. Foi à escola por algum tempo, mas a despesa se mostrou excessiva e acabou se educando na biblioteca de seu pai. Passou a adolescência escrevendo histórias de uma alegria anárquica e espalhafatosa, em que personagens femininas se envolviam em episódios de embriaguez e violência. Acredita-se que tenha recebido uma proposta de casamento, mas acabou optando pela condição financeiramente precária de solteira. Escreveu seis romances, dois dos quais publicados postumamente; a renda que obteve com eles foi ínfima. Morreu aos 41 anos, tendo sido sepultada no cemitério da Catedral de Winchester. 

Depois de sua morte, apesar de Austen ter demonstrado tino comercial ao optar por permanecer como detentora dos direitos autorais de suas obras mais maduras, a família passou a retratá-la como uma mulher tímida e recatada, que escrevia por prazer, não para auferir lucros. Sua irmã Cassandra tornou ilegíveis trechos de muitas de suas cartas e destruiu outras tantas. O epitáfio de Austen, escrito por seu irmão James, não faz menção a sua carreira literária, registrando apenas sua “bondade, devoção, fé e pureza”. Naquela que é considerada a primeira biografia da escritora, seu sobrinho James Edward Austen-Leigh afirma que a “boa vida cristã” de Austen foi “singularmente desprovida” de grandes acontecimentos.
O que fez com que essa mulher aparentemente tão sem graça viesse a se tornar uma das mais bem conhecidas escritoras britânicas? Num primeiro momento, foi o fato de ela ter sido a precursora de um novo tipo de romance: uma narrativa realista inteiramente derivada do cotidiano. O editor John Murray recusava obras como Frankenstein, de Mary Shelley, mas aceitou publicar Emma porque não encontrou em suas páginas “nenhum corredor sombrio, nenhuma câmara secreta, nenhuma galeria varrida por ventos uivantes, nenhuma gota de sangue brilhando na lâmina de uma adaga enferrujada”. Mas o que há de excepcional em Austen é o modo como ela combina esse realismo com um novo estilo narrativo, em que a voz do narrador se alterna habilidosamente com os pensamentos mais íntimos dos personagens. Esse “discurso livre indireto” permite ao leitor ver, pensar e sentir exatamente como o personagem, ao mesmo tempo em que mantém um distanciamento crítico e viabiliza a alternância entre diversos pontos de vista. Trata-se de recurso original e inventivo. 

Em princípios do século 20, o movimento sufragista incluiu Austen em seu panteão de heroínas, exibindo nas passeatas faixas com seu nome, como símbolo e prova da excelência intelectual das mulheres. Como diz a professora da Universidade Estadual do Arizona, Devoney Looser, em The Making of Jane Austen (“A Construção de Jane Austen”), publicado em maio, algumas ativistas a reinventaram, transformando-a numa “rebelde discreta”, que desferia seus ataques com sutileza e discrição. “É  impossível imaginar Austen se manifestando numa assembleia, e muito menos interrompendo um orador”, escreveu a sufragista Bertha Brewster, “mas é perfeitamente possível imaginá-la ironizando os discursos do (jornalista e deputado conservador) Arnold Ward.” Ao invocar o nome de Austen — que era admirada por homens e mulheres de todas as inclinações políticas —, as sufragistas não apenas ganhavam um reforço de peso para seu movimento —, como também reafirmavam o gênio singular da escritora. Se as mulheres tiveram historicamente de lutar para se fazerem ouvidas, Austen se impunha por seu talento inegável. Leitores de ambos os lados do debate debruçaram-se mais uma vez sobre seus livros. 

Fizeram isso de novo durante a 1.ª e a 2.ª Guerras Mundiais, como observa a professora Kathryn Sutherland, da Universidade de Oxford. Os romances de Austen, com suas narrativas delicadas, aparentemente marcadas pela insularidade, eram recomendados para soldados traumatizados pela guerra. Numa das fases mais sombrias da 2.ª Guerra, Winston Churchill encontrou consolo na releitura de Pride and Prejudice (“Orgulho e Preconceito”). O mundo ficcional de Austen era tido como um refúgio, um anteparo contra a realidade; os leitores encontravam ali um retrato da Inglaterra antes da queda. 

No entanto, foi na década de 1990 que a Austenmania alcançou dimensões inauditas, graças a uma série de adaptações para a TV e o cinema. Algumas delas — como Metropolitan (1990) e Clueless (“As Patricinhas de Beverly Hills”, 1995) — reencontravam os temas da prosperidade econômica e do status social, tão caros a Austen, nos EUA do século 20. As adaptações de Pride and PrejudiceSense and Sensibility (“Razão e Sensibilidade”), Persuasion(“Persuasão”) e Emma, que chegaram aos cinemas entre 1995 e 1996, não mediam esforços no trabalho de reconstituição de época. 

É comum que roteiristas e diretores abram mão da narração irônica — amortecendo o poder de Austen — e apimentem sexualmente o enredo. A cena em que o Darcy interpretado por Colin Firth sai de um lago com a camisa branca encharcada não está em nenhuma das páginas escritas por Austen. A festejada série Pride and Prejudice, de Andrew Davies, teve audiência semanal de mais de 11 milhões de espectadores no Reino Unido. Quase 4 milhões assistiram à estreia da série nos EUA. 

De Chawton House a Chongqing. Embora seja vista como quintessencialmente britânica, a obra de Austen ressoa pelo mundo afora. Na Europa inteira realizaram-se eventos para celebrar o bicentenário da morte da escritora. A Sociedade Jane Austen da América do Norte diz contar com mais de 5 mil sócios; há clubes de leitura em diversos países latino-americanos. 

Em 2006, foi criada a Sociedade Jane Austen do Japão. Pride and PrejudiceEmma e Sense and Sensibility tiveram versões em mangá publicadas entre 2015 e 2016. Omangwa Pyungyeon, adaptação em 21 episódios de Pride and Prejudice, ambientada no sistema judiciário da Coreia do Sul, bateu recordes de audiência para o horário em que foi exibida, entre 2014 e 2015. Muitos críticos apontam a influência de Darcy nos protagonistas do teatro coreano. 

Em The Genius of Jane Austen (“O Gênio de Jane Austen”), publicado no mês passado, Paula Byrne diz que os chineses veem grande afinidade entre Austen e sua cultura, onde a etiqueta ainda é tão importante quanto era na Inglaterra georgiana. Pride e Prejudice já teve mais de 50 edições na China. Isso talvez reflita o fato de que, no país asiático, a expressão “mercado matrimonial” não é mera figura de linguagem. Em Xangai, os pais de jovens solteiros afluem semanalmente a um evento — descrito como “cruzamento de match.com com feira livre” — onde buscam candidatos a genros e noras. Para as mulheres chinesas, um considerável patrimônio imobiliário e um elevado nível educacional ainda são atributos que fazem um “bom partido”. Byrne observa que o diretor taiwanês Ang Lee foi considerado perfeito para conduzir a adaptação de Sense and Sensibility (1995), uma vez que seus filmes anteriores exploravam “conflitos familiares num contexto de valores chineses tradicionais”. 

Mas é na Índia e no Paquistão que o entusiasmo pelos romances de Austen chega a causar assombro. Em ambos os países há sociedades dedicadas ao estudo de sua obra. Adaptações para o cinema acrescentam à atmosfera regencial dos livros de Austen a verve de Bollywood. Bride and Prejudice (“Noiva e Preconceito”, 2004), que se passa na cidade de Amritsar, substitui Elizabeth Bennet por Lalita Bakshi e as danças típicas do campo inglês por casamentos indianos. Kandukondain Kandukondain (2000), produção romântica tâmil, e Kumkum Bhagya (2014), novela da TV indiana, são ambas baseadas em Sense and Sensibility; Aisha (2010) é uma adaptação de Emmaambientada entre a alta classe de Délhi. 

A posição econômica e social das mulheres e sua reputação são temas facilmente adaptáveis a diferentes contextos culturais, mas há também especificidades que ressoam de forma particularmente aguda na sociedade paquistanesa, como a importância dos laços familiares, a preferência concedida aos herdeiros masculinos, o sistema de dotes nupciais e a atividade casamenteira de mães e tias zelosas. 

E é isso que explica a transformação da pouco conhecida escritora solteirona em superstar literária. Para os leitores ocidentais talvez já não faça muito sentido a urgência atribuída ao casamento ou a ideia de que um relacionamento amoroso pode ser subitamente interrompido por questões pecuniárias. Mas todo mundo um dia conheceu uma namoradeira como Isabella Thorpe ou um sujeito tão encantador quanto sórdido como Henry Crawford. Passados 200 anos, as argutas observações de Austen sobre a vaidade e a insensatez humanas continuam acertar o alvo.
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Fonte:  http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,como-jane-austen-passou-de-uma-anonima-para-um-mito-da-literatura,70001899746

terça-feira, 25 de julho de 2017

Os ingênuos creem em 'idealismos' contra a monstruosa realidade

Luiz Felipe Pondé*




Ilustração da coluna de Luiz Felipe Pondé da Ilustrada de 24/7/2017

"Nosso vazio enxerga Deus melhor 
do que nosso orgulho."
 
Lembro-me que a primeira vez que li a Bíblia, por volta dos 13 anos de idade, achava estranho Abrãao, um dos heróis de Deus, referir-se a si mesmo dizendo "Eu, que sou pó e cinzas...".

Com o passar dos anos, fui cada vez mais entendendo como esse autorreconhecimento, na verdade, era o passo necessário e eficiente (como se diz na mais alta filosofia) para o restante do enredo: a convivência com o Deus de Israel só é possível se você fizer a experiência "esmagadora" da verdade de si mesmo.

Esse é o preço para se viver ao lado do Santo. Sendo Ele pleno, e nada resistindo a esta plenitude, a única forma de plenitude possível aos seu heróis era o reconhecimento de sua própria insuficiência. Perceber-se insuficiente é uma libertação.

Daí decorre muito do mau entendimento desse enredo e de seus personagens. A suposta "humilhação" que muitos pensam ver na relação com o Deus de Israel é apenas fruto de má leitura, ou de pouca leitura, ou, simplesmente, como diria um dos meus filósofos preferidos, Santo Agostinho (354-430), "orgulho, revolta e cegueira".

Parece-me que a correta interpretação dessa confissão de insuficiência presente na imagem de "pó e cinzas" é o encontro libertador com a humildade. Georges Bernanos (1888-1948), outro autor que me forma intelectualmente e espiritualmente continuamente, dizia que a humildade é, de todas as virtudes, a única imbatível.

Abraão, ao se reconhecer como pó e cinzas, simplesmente, encontrava sua libertação definitiva. A humildade bíblica é a mais profunda forma de libertação já descrita na literatura ocidental. O "rochedo da humildade" é imbatível como experiência existencial e espiritual.

A libertação não habita a boçalidade da assertividade treinada em workshops movidos a ressentimento "caché" (em francês, é mais chique dizer "escondido"). Nem tampouco em fórmulas neurolinguísticas a serviço desse pequeno ditador chamado "eu". Menos ainda em formas de espiritualidade quântica para consumo.

Diante desse fato, sinto-me um pouco como o filósofo judeu russo Lev Chestov (1866-1938), que se dizia um ateu convicto de que a mensagem bíblica é essencial para o conhecimento do lugar do homem em constante busca de dar sentido a uma vida em si insustentável.

Os ingênuos creem nas mais distintas formas de "idealismos", como dizia Chestov, contra a monstruosidade da realidade. "Sofremos a existência" e narrar esse sofrimento talvez seja a forma mais sublime de sinceridade que alguém que tem como profissão a escrita pode ter para com seus semelhantes.

Outro russo, filósofo também, Nicolas Berdiaev (1874-1948), influenciado diretamente por Dostoiévski (1821-1881), como Chestov, via a aventura espiritual humana como um combate entre o Nada do qual fomos tirados, e que nos habita intimamente, e a possibilidade de sermos criadores, como o Criador.

Para isso, a coragem de fugir da "cotidianeidade" banal é essencial. Essa banalidade se dá por meio de uma vida vivida com o espírito de rebanho, longe da "aristocracia espiritual" de que tanto falou Berdiaev, conceito retirado de Nietzsche (1844-1900), claro.

A vida espiritual como enfrentamento desse Nada, manifesta-se, entre outras formas, na superação do orgulho moral, traço clássico das almas ressentidas, incapazes de reconhecer o "nada do pecado" em si mesmas. Ao contrário do que prega nossa vã teologia da autoestima espiritual, o pecado é um dos conceitos mais libertadores na tradição ocidental.

A beleza de Deus nos impacta de formas distintas. Nosso vazio enxerga Deus melhor do que nosso orgulho. A passagem do Novo Testamento, em que Jesus está ao lado de dois ladrões no Gólgota, é paradigmática. Enquanto um, o mau ladrão, exige que Jesus use seus "superpoderes" de filho do Deus todo poderoso para tirá-los da cruz, o outro, o bom ladrão, pede que Jesus simplesmente se lembre dele, um ladrão que merece a cruz, quando entrar em Seu reino.

Por isso, no judaísmo, na oração "Nosso Pai e nosso Rei", falada no Dia do Perdão, se diz: "zachur ki afar anáchnu": Lembra-Te de que nada mais somos do que pó.
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*  Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência. Escreve às segundas.
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2017/07/1903689-os-ingenuos-creem-em-idealismos-contra-a-monstruosa-realidade.shtml 
Imagem:  Ricardo Cammarota/Editoria de Arte/Folhapress

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Ser e nem saber que se sabe quem se é

 Eugénia de Vasconcellos*
 Resultado de imagem para O ser
"Estou convencida de que a ideia de eu, este ser que trazemos 
para fazer a vida, começa quando o corpo não 
está separado do pensamento e é mais do 
que o intermediário entre nós e mundo."

No colégio católico e exclusivamente feminino onde andei até ao secundário, ninguém era expulso. Era-se convidado a sair em situações de excepção com carácter de extrema gravidade: ser-se apanhada a fumar um cigarro. Foi, portanto, pasmoso ter sido convidada a sair logo aos três anos acabados de fazer, mês e meio depois de ter entrado – o regresso foi outra aventura. O colégio era publicidade enganosa: tinham-me prometido alfabeto, ler e escrever… e o que recebi? Irmãs em preto asa de corvo dos pés à cabeça, canções de põe, põe, põe galinhita o ovo com coreografia infeliz e pintar com as mãos. Pior, queriam que dormisse a sesta. Odiei tudo, chorei muito, e como era um bicho nervoso, não aguentava a comida no estômago. Sentia-me triste e condenada – assim mesmo, era dramática. Em desespero, fugi – fui rapidamente encontrada. E convidaram a minha mãe a retirar-me. Lá fui recambiada para casa da minha avó. Céus! Que alegria, maravilha do mundo, felicidade!

A casa da minha avó era grande, velha, e com três lugares proibidos. A varanda no alto. No pátio ladrilhado, uma casinha que parecia de bonecas, mas não, guardavam-se lá ferramentas alinhadas numa bancada. Era proibido entrar – havia até uma serra perfeitamente igual à que o senhor ilusionista do circo usava para cortar a sua mulher em duas e com que o palhaço tocava uma espécie de violino aflito.

Entre o proibido que já disse e o proibido que vou dizer, um imenso alpendre, onde o meu avô, meu grande aliado, pendurou um baloiço para os dias de chuva – amor é assim, leva-nos a tocar o céu seja lá em que tempo for.

Do outro lado, fechado à indiscrição, a todo o comprimento da parede, o outro lugar proibido: o antigo tanque de lavar a roupa em pedra de sabão. Ai quem me dera poder ir nadar lá para dentro, mas aposto que me penduram pelas orelhas, no estendal, com as molas da roupa – a minha avó havia de ter sido a filha dilecta de Drácon, se Drácon fosse seu pai.

Em pequenina tinha duas devoções. Uma era a minha avó. A outra era a água. Começava a ladainha: oh como as minhas bonecas precisam de banho. Vou dar-lhes um belo banho.

Molhei-me, é melhor tirar este vestido que as mangas estão encharcadas… Oh não, agora molhei a barriga e estou cheia de champô. É melhor que eu tome banho com as bonecas. Pode desfazer o nó dos cordões das minhas botas? Não é preciso avisar a avó, foi só um pequenino acidente.

Sem botas ortopédicas, despida, na água fresquinha rodeada de bonecas muito bem lavadas… que vida boa! Cereja em cima do bolo, tinha um quadro negro emoldurado a madeira e pintado um lindo alfabeto, e giz para fazer letras.

Estou convencida de que a ideia de eu, este ser que trazemos para fazer a vida, começa quando o corpo não está separado do pensamento e é mais do que o intermediário entre nós e mundo. Nem pensamos nele, ele é eu. É o prazer antes do prazer. É o verbo Ser.

Publicado na edição Inverno 2016
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*  Poeta por condição, com o vício da crónica, a paixão pelo ensaio e o amor pelo romance. 
Fonte:  http://epicur.pt/ser-e-nem-saber-que-se-sabe-quem-se-e/ -Acesso 24/07/2017
Imagem da Internet

domingo, 23 de julho de 2017

A funcão social da religião

 Rodrigo Constantino*
 
“Nossa Constituição foi feita apenas para pessoas morais e religiosas. Ela é totalmente inadequada para o governo de qualquer outro povo”
– John Adams

Em tempos de excessivo materialismo no Ocidente e até mesmo de confusão entre estado laico e estado antirreligioso, especialmente com o cristianismo e o judaísmo sendo os alvos dos mais duros ataques da esquerda, que prefere poupar o Islã, vale a pena ler o que Jonathan Haidt diz sobre o assunto em seu excelente The Righteous Mind. Haidt é um cientista que segue a psicologia moral e busca entender a sociedade com base nas teorias evolutivas. Para ele, os ateus modernos erram no alvo quando descrevem as religiões como “vírus”, ou só focam no lado violento de seu subproduto.

Recentemente, tivemos uma série de livros atacando com veemência as religiões, a ponto de se falar em um Novo Ateísmo, bem mais militante e radical. O primeiro deles foi The End of Faith de Sam Harris, seguido de The God Delusion de Richard Dawkins, Breaking the Spell de Daniel Dennett e, com o título mais explícito de todos, God is not Great de Christopher Hitchens. Estes quatro autores são conhecidos como os quatro cavaleiros do novo ateísmo.

Para Haidt, tentar entender a persistência e a paixão da religião ao estudar as crenças sobre Deus é como tentar entender a persistência e a paixão do futebol ao estudar os movimentos da bola. Você deve ampliar o escopo. Você deve olhar para as maneiras pelas quais as crenças religiosas trabalham com as práticas religiosas para criar uma comunidade religiosa. Elas têm implicações claras para a mudança social.

Se a religião é um vírus ou um parasita que explora um conjunto de subprodutos cognitivos para seu benefício, não o nosso, então devemos nos livrar dela. Cientistas, humanistas e o pequeno número de outros que escaparam da infecção e ainda são capazes de raciocinar devem trabalhar juntos para quebrar o feitiço, derrubar a ilusão e levar ao fim da fé. Essa parece ser a crença desses autores.

Mas se os deuses evoluem (culturalmente) para condenar comportamentos egoístas e divisivos, eles podem então ser usados ​​para promover a cooperação e a confiança dentro do grupo. Você não precisa de um cientista social para lhe dizer que as pessoas se comportam menos eticamente quando pensam que ninguém pode vê-las. Esse foi o ponto de Glauco sobre o anel de Gyges, na filosofia grega, e um grande número de cientistas sociais provaram que ele estava certo. O poder corrompe, como sabia Lord Acton, Tolkien com O Senhor dos Anéis e H.G. Wells com O homem invisível. O poder da impunidade, da invisibilidade, corrói a alma, e é preciso um esforço quase desumano de um santo para resistir às tentações e se manter ético.

Criar deuses que podem ver tudo, e que odeiam trapaceiros e quebradores de juramentos, é uma boa maneira de reduzir trapaças e desvios. Os deuses irritados tornam a vergonha mais efetiva como meio de controle social. Há, de fato, uma grande evidência de que as religiões, na verdade, ajudam os grupos a coexistir, a resolver problemas de “caronas grátis” e a vencer a competição pela sobrevivência em um nível grupal, coletivo.

Quando as organizações seculares exigem sacrifício, cada membro tem o direito de pedir uma análise de custo-benefício, e muitos se recusam a fazer coisas que não fazem sentido lógico. Em outras palavras, as práticas muito rituais que os novos ateus descartam como dispendiosas, ineficientes e irracionais se tornam uma solução para um dos problemas mais difíceis que os humanos enfrentam: a cooperação sem parentesco.

O sagrado une as pessoas e depois as cega para a arbitrariedade da prática. Mas a prática em questão pode ser positiva para a comunidade, como quando jovens estão dispostos ao sacrifício de uma guerra para lutar pela Pátria, pela liberdade, pela comunidade. Como E.O. Wilson diz: “As religiões existem principalmente para que as pessoas consigam juntas o que elas não conseguem por conta própria”. Se o comportamento religioso teve consequências, para indivíduos e para grupos, de uma forma que foi estável ao longo de alguns milênios, então quase certamente houve algum grau de evolução da cultura genética para “mentes justas” que acreditavam em deuses e depois usavam esses deuses para criar comunidades morais.

Deuses e religiões, em suma, são para Haidt adaptações em um nível de grupo para produzir coesão e confiança. Pedir às pessoas que desistam de todas as formas de pertencimento sacralizado e que vivam em um mundo de crenças puramente “racionais” pode ser como pedir às pessoas que abandonem a Terra e vivam em colônias orbitando a Lua. Isso pode ser feito, mas seria preciso uma grande engenharia cuidadosa, e mesmo depois de dez gerações, os descendentes desses colonos podem encontrar-se com desejos incipientes de gravidade e vegetação.

Estudos de doações de caridade nos Estados Unidos mostram que as pessoas na faixa menos religiosa da população fornecem apenas 1,5% do seu dinheiro para a caridade. As pessoas na faixa mais religiosa (com base na presença na igreja, não crença) dão uma enorme parcela da renda para caridade: 7%. E a maioria dessas doações é para organizações religiosas, mas também dão tanto quanto ou mais do que pessoas seculares a instituições de caridade seculares, como a American Cancer Society. Eles passam muito tempo em serviço para suas igrejas e sinagogas, mas também passam mais tempo do que os povos seculares trabalhando em associações de vizinhança e cívicas de todos os tipos.

Putnam e Campbell fizeram vários estudos sobre o assunto, e colocaram suas descobertas sem rodeios: por muitas medidas diferentes, os americanos religiosos são melhores vizinhos e melhores cidadãos do que os americanos seculares – eles são mais generosos com seu tempo e dinheiro, especialmente em ajudar os necessitados, e são mais ativos na vida comunitária. Do ponto de vista estritamente social, portanto, não parece ser muito racional odiar tanto as religiões “irracionais”.
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* É economista e colunista brasileiro. É graduado pela PUC-RJ e possui MBA pela Ibmec. Foi articulista da revista "Voto"e escreveu regularmente para os jornais "Valor Econômico" e "O Globo".
Fonte:  http://www.gazetadopovo.com.br/rodrigo-constantino/artigos/funcao-social-da-religiao/?utm_medium=feed&utm_source=feedpress.me&utm_campaign=Feed%3A+rconstantino 22/07/2017

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Pós-capitalismo: a dimensão sensível

170718-Cartier
Qualquer projeto político precisa propor, também, outros modos de sentir e desejar. Como superar a competição perpétua, acumulação obsessiva e banalização dos afetos 
que caracterizam o neoliberalismo?

Por Amador Fernández-Savater | Tradução: Inês Castilho | Imagem: Henri Cartier-Bresson

Nos anos 70, o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini propôs pensar o conflito político como uma disputa fundamentalmente antropológica: entre diferentes modos de ser, sensibilidades, ideias de felicidade. Uma força política não é nada (não tem nenhuma força) se não se enraiza em um “mundo” que rivalize com o dominante em termos de formas de vida desejáveis.

Enquanto os “homens políticos” de seu tempo (dirigentes de partido, militantes de vanguarda, teóricos críticos) miravam o poder estatal como o lugar privilegiado para a transformação social (toma-se o poder e muda-se a sociedade a partir de cima), Pasolini advertia – com sensibilidade poética, isto é, sismográfica – que o capitalismo estava avançando mediante um processo de “homologação cultural” que arruinava os “outros mundos” (campesinos, proletários, subproletários), contagiando os valores e modelos de consumo “horizontalmente”: através da moda, da publicidade, da informação, da televisão, da cultura de massas etc. O novo poder não emana, irradia ou desce de um lugar central, antes se propaga “indiretamente, na vivência, no existencial, no concreto”, dizia Pasolini.

No vestir e no andar, na seriedade e nos sorrisos, na gesticulação e nos comportamentos, o poeta decifrava os signos de uma “mutação antropológica” em marcha: a revolução do consumo. Freá-la a partir do poder político seria como tratar de conter uma inundação com uma mangueira. Não é possível impor outros conteúdos ou finalidades a um mesmo marco de acumulação e crescimento. É antes o contrário: o modo de produção-consumo será o que determina as margens do poder político. Só se interrompe uma civilização com outra. São necessários outros vestires e outros andares, outra seriedade e outros sorrisos, outra gesticulação e outros comportamentos.

A disputa política (a que não é simples jogo de tronos) expressa um “desacordo ético” entre diferentes ideias sobre a vida, ou melhor, a boa vida. Não ideias que flutuam por aí ou se enunciam retoricamente, mas ideias práticas encarnadas, materializadas, inscritas nos gestos e dispositivos mais cotidianos (Facebook, Uber ou Airbnb são expressões do desejo, daí sua força). O que poderia nos contar um olhar antropológico sobre a política? Que mundos chocam-se hoje? Em que desacordos éticos sobre a vida boa poderiam aflorar ações políticas transformadoras?

O velho espírito do capitalismo

Vamos primeiro dar um passo atrás. Onde nasceu a ideia de organizar a vida inteira em torno do trabalho, a eficiência e a produtividade? Segundo Max Weber, a cultura burguesa teve sua origem, motor e combustível na ética protestante (sobretudo do protestantismo ascético). Através da reconceituação do trabalho como “profissão” e da teoria da predestinação (só no êxito terreno podemos encontrar sinais de nossa salvação), gera-se uma subjetividade que coloca no centro da vida o dinheiro e o enriquecimento, que aspira à “racionalização” de toda a existência (a relação com o tempo, o corpo, a honra, a educação dos filhos), que condena a pobreza como o pior dos males (“escolher a pobreza é como escolher a doença”), etc.

Essa subjetividade não é um “reflexo automático” da objetividade econômica, mas um elemento decisivo da “cultura capitalista”, sem a qual simplesmente não há capitalismo. Somente um novo tipo de imaginário e subjetividade (uma nova organização do desejo) poderia ter a força suficiente para quebrar a “mentalidade tradicionalista” (então dominante). Segundo esta, não se vive para trabalhar (isso seria absurdo), antes trabalha-se para viver; e quem dispõe de riqueza (por trabalho próprio, alheio ou boa sorte), dedica-se à contemplação ou à guerra, a brincar ou a caçar, a dormir tranquilo ou ao gozo sensual da vida, mas não lhe passa pela cabeça reinvesti-la para continuar acumulando.

A cultura burguesa nasce portanto da potência de um imaginário religioso que logo abandona, laicizando seus valores: o sentido da responsabilidade individual, o self made man, a meritocracia, o crédito, o progresso, a sensibilidade puritana e severa etc. A modernidade foi predominantemente uma “cultura do Norte”: anglo-saxã, masculina, branca e protestante. Mas o domínio deste imaginário (viver para trabalhar, investir os lucros para obter mais lucros, submeter todos os aspectos da vida a um controle regulamentado e sistemático etc.) nunca foi completo.

A sociabilidade do Sul

Segundo o sociólogo (da vida cotidiana) Michel Maffesoli, sempre existiu, insistiu e resistiu uma “sociabilidade do Sul”. Uma sociabilidade difusa, submersa e oculta, difícil de ver porém presente, capaz de revelar-se e ativar-se quando está ameaçada. Uma dinâmica informal (formas de vínculo, de pertencimento subjetivo, de fazer prático) determinante na vida diária, como substrato ou “manto freático” da existência coletiva.

Em que consiste essa sociabilidade do Sul? Em primeiro lugar, é um impulso vital, não-racional. Uma vontade de viver, um querer viver. Mas não viver de qualquer modo, e sim afirmando um tipo de vínculo, um tipo de existência, uma certa ideia de felicidade: um estar-juntos antropológico. É também um conjunto de saberes e estratégias para reproduzir esses vínculos, essas formas de vida.

Esse “Sul” refere-se original e historicamente aos países mediterrâneos e latino-americanos, mas converte-se em seguida na obra do autor numa noção mais movediça que aponta para “valores” e “climas afetivos”, mais que a uma localização geográfica. Nesse sentido, há “Sul no Norte”, como também há “Norte no Sul”. Colônia (viva, alegre, falante, proletária) seria o “Sul” na Alemanha;  Frankfurt, das finanças, o “Norte”.

Podemos agora enunciar cinco “valores” (o que vale) para esta sociabilidade do Sul:

– em primeiro lugar, o presente: a vida não se projeta “para diante” (um futuro de salvação, de perfeição), mas se afirma “agora”. Esta certa despreocupação quanto ao amanhã não exclui (paradoxalmente?) uma obstinação por reproduzir-se e durar. A temporalidade da sociabilidade do Sul é intensa e não extensa, mas ela se empenha em “perseverar em seu ser”.

– em segundo lugar, o vínculo. A vida se dá em continuidade com os outros, entrelaçada com outros, enredada com outros. Não somente por necessidade, mas também pelo prazer de compartilhar. O vínculo mais apreciado é o vínculo estreito, próximo, ao alcance da mão (o tátil como valor). Este “aqui” não nos separa do que está “ali” (o distante), antes pelo contrário: a partir do que vivemos “aqui” nos pode ressoar algo “ali”.

– em terceiro lugar, o trágico, a assunção da anarquia do que há, do que é. Não se trata de “solucionar” ou “superar” o que está dado (incerto, obscuro, múltiplo), antes muito mais de saber “compor-se” com ele. Outra relação, pois, com o mal, o risco ou a morte, que não são algo a ser erradicado (segundo as lógicas reinantes do controle, da segurança e da previsibilidade total), mas um lado da vida (e também podem ser força, alavanca, se sabemos como nos compor).

– em quarto lugar, o dionisíaco, não a vida encerrada em si mesmo (trabalho, sucesso, progresso), mas a vida “enlevada” que busca sair de si através do gozo do corpo, o gosto pela máscara e o disfarce (as aparências), a fusão com o outro nas celebrações coletivas (musicais, esportivas, religiosas) etc. Excesso, desperdício, vertigem, entrega, destruição: o “dionisíaco” é uma exploração da alteridade.

– por último, o jogo duplo, não a paixão pelo direto, frontal e explícito, mas pelo desvio, a astúcia, o rebuscado, a burla, a duplicidade, a dissimulação, o jogo com a lei e a norma, as estratégias informais de conservação e sobrevivência (minha de dos meus). Não a paixão por corrigir e endireitar, mas por sortear, regatear, driblar e enganar.

A crise como ocasião

Os economistas neoliberais fazem sua própria leitura “antropológica” do mundo e concluem que a crise econômica de 2008 tem a ver com a “insuficiente mobilidade geográfica”, o “espírito empreendedor limitado”, a “rede de proteção familiar”, o “trabalho informal” ou a “indiferença (inclusive a repugnância) com relação ao enriquecimento” ainda muito presentes nos países do Sul (os chamados PIGS: Portugal, Itália, Grécia, Espanha, nenhum deles um país protestante, por certo). À luz dessa análise, vemos a sociabilidade do Sul em ação.

Podemos ler a gestão neoliberal da crise como a tentativa de suprimir por fim todas essas “inadequações culturais” e acelerar assim “o devir mundo do capital” (Laval y Dardot)? A crise da dívida seria, desse modo, a ocasião perfeita para desatar a “destruição criativa” de tudo aquilo que, dentro e fora de nós mesmos, nos indispõe para pensarmos e atuarmos como simples átomos sociais, partículas egocêntricas desvinculadas, máquinas de cálcula egoísto. Costumes e vínculos, apegos e solidariedades.

Eliminando as proteções sociais, fragilizando os direitos associados ao trabalho, favorecendo o endividamento geral dos estudantes e das famílias, precarizando, reduzindo os salários e o investimento social, trata-se de fomentar o “salve-se quem puder” e destruir tudo aquilo que permita às pessoas qualquer margem de liberdade com relação ao mercado. Tudo o que há “entre” os seres e faz deles algo mais que “partículas elementais” em competência: laços de mil tipos, direitos conquistados, lugares vivos, recursos públicos e comuns, redes de solidariedade e apoio, circuitos não mercantis de bens e serviços etc. A base material de qualquer autonomia. Governar hoje consiste precisamente em corroer esse “entre”, essa rede densa de laços, afetos, apoio mútuo…

Mas bem quando se queria “extirpá-la”, a sociabilidade do Sul estende-se e ativa-se. Na Espanha da crise proliferaram por exemplo os microgrupos informais de solidariedade e apoio mútuo (familiares, de vizinhança, de amizade) que suavizaram os efeitos devastadores da gestão neoliberal da crise: medo, solidão e desamparo. Uma proliferação que contradiz em si mesma o paradigma liberal-individualista: “cada um tem sua vida”.

Bem quando nos dizem que “havíamos vivido acima de nossas possibilidades” e devíamos expiar e pagar, os valores do Sul vingam-se, afirmando e difundindo outras ideias de riqueza e felicidade: mais baseadas no presente que no futuro, nos vínculos que na solidão, no tempo disponivel e não na vida para o trabalho, na empatia e não na competição, no desfrute da graça, mais que na culpa pela dívida.

O novo espírito do capitalismo

Mais difícil ainda. Segundo alguns autores, estaríamos hoje atravessando a passagem para a superação (intensificação? radicalização?) do antigo “espírito” do capitalismo, cujas origens Max Weber estudou.

Por exemplo, segundo Franco Berardi, a burguesia ainda “vivia nos vínculos” (com uma comunidade, alguns lugares, alguns bens físicos, uma classe trabalhadora que não podia suprimir, a relação entre valor e tempo de trabalho). Porém, o capitalismo financeiro é muito mais abstrato: não se identifica com nenhum lugar, com nenhuma população concreta, qualquer tipo de trabalho, com nenhuma regra, embora suas decisões tenham consequências (devastadoras) sobre lugares, populações, trabalhadores etc.

Por outro lado, segundo Christian Laval e Pierre Dardot, essa lógica de acumulação infinita do capital tornou-se hoje uma “modalidade subjetiva”. Que quer dizer isso? Pois que o “homo economicus” (definido pela prudência, a ponderação, o equilíbrio nos intercâmbios, a felicidade sem excessos, a paridade dos esforços e dos prazeres) é substituído o “empresário de si mesmo” (definido pela competência e a autossuperação constante: viver no risco, ir além de si mesmo, assumir um desequilíbrio permanente, não descansar ou parar jamais, colocar todo o gozo na autossuperação). Uma expressão resume, segundo os autores franceses, o tipo subjetivo do capitalismo atual: “sempre mais”. O gozo da falta de limite.

Nessa transformação seria necessário por certo reavaliar a resistência que apresenta a “sociabilidade do Sul”, quando por exemplo a cultura capitalista já não exige hoje a repressão do afetivo/passional, mas antes sua completa instrumentalização a serviço da lógica do lucro: a instrumentalização do íntimo. Mas sem dúvida a afirmação de uma “vida que se basta a si mesma” continua sendo absolutamente subversiva (mais que nunca?). Uma vida que não tenta extrair e acumular “sempre mais”, mas que se vive no gozo de cuidar e compartilhar, o mais proximamente possível, aquilo que nos foi dado, aqui e agora.

A insurreição da sociabilidade do Sul consistiria em afirmar politicamente esta outra ideia de felicidade, esta potência subterrânea, estas vagas oceânicas.

Referências

-Cartas luteranas (Trotta) e Escritos corsarios (Ediciones del Oriente y el Meditarráneo), de Pier Paolo Pasolini.
-A nuestros amigos e Ahora (ambos em Pepitas de Calabaza), do Comitê Invisível.
-A ética protestante e o “espíritu” do capitalismo (Alianza), de Max Weber.
-A sublevação (edições castelhanas em Hekht y Artefakt), de Franco Berardi, Bifo.
-O pesadelo que nunca acaba (Gedisa), de Christian Laval e Pierre Dardot.
– O tempo das tribos (Icaria), A fatia do diablo (Siglo XXI) e A transfiguração do político (Herder), de Michel Maffesoli.
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Fonte:  http://outraspalavras.net/capa/pos-capitalismo-a-dimensao-sensivel/ 20/07/2017

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Quando eu estiver louco, SE AFASTE

 Martha Medeiros*
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Há que se respeitar quem sofre de depressão, distimia, bipolaridade e demais transtornos psíquicos que afetam parte da população. Muitos desses pacientes recorrem à ajuda terapêutica e se medicam a fim de minimizar os efeitos desastrosos que respingam em suas relações profissionais e pessoais. Conseguem tornar, assim, mais tranquila a convivência.

Mas tem um grupo que está longe de ser doente: são os que simplesmente se autointitulam “difíceis” com o propósito de facilitar para o lado deles. São os temperamentais que não estão seriamente comprometidos por uma disfunção psíquica – ao menos, não que se saiba, já que não possuem diagnóstico. São morrinhas, apenas. Seja por alguma insegurança trazida da infância, ou por narcisismo crônico, ou ainda por terem herdado um gênio desgraçado, se decretam “difíceis” e quem estiver por perto que se adapte. Que vida mole, não?

Tem uma música bonita do Skank que começa dizendo: “Quando eu estiver triste, simplesmente me abrace/ quando eu estiver louco, subitamente se afaste/ quando eu estiver fogo/ suavemente se encaixe...”. A letra é poética, sem dúvida, mas é o melô do folgado. Você é obrigada a reagir conforme o humor da criatura.

Antigamente, quando uma amiga, um namorado ou um parente declarava-se uma pessoa difícil, eu relevava. Ora, estava previamente explicada a razão de o infeliz entornar o caldo, promover discussões, criar briga do nada, encasquetar com besteira. Era alguém difícil, coitado. E teve a gentileza de avisar antes. Como não perdoar?

Já fui muito boazinha, lembro bem.

Hoje em dia, se alguém chegar perto de mim avisando “sou uma pessoa difícil”, desejo sorte e desapareço em três segundos. Já gastei minha cota de paciência com esses difíceis que utilizam seu temperamento infantil e autocentrado como álibi para passar por cima dos sentimentos dos outros feito um trator, sem ligar a mínima se estão magoando – e claro que esses “outros” são seus afetos mais íntimos, pois com colegas e conhecidos eles são uns doces, a tal “dificuldade” que lhes caracteriza some como num passe de mágica. Onde foi parar o ogro que estava aqui?

Chega-se a uma etapa da vida em que ser misericordioso cansa. Se a pessoa é difícil, é porque está se levando a sério demais. Será que já não tem idade para controlar seu egocentrismo? Se não controla, é porque não está muito interessada em investir em suas relações. Já que ficam loucos a torto e direito, só nos resta se afastar, mesmo. E investir em pessoas alegres, educadas, divertidas e que não desperdiçam nosso tempo com draminhas repetitivos, dos quais já se conhece o final: sempre sobra para nós, os fáceis.
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* Escritora. Jornalista.
Fonte:  https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=1573693655200632246#editor/target=post;postID=4701260873973661068 Acesso 17/07/2017
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Melhor nem saber

 Lya Luft*
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Impressionante nossa obstinação por entender, por resolver, por não ter dúvidas, por obter todas as explicações. Um mundo totalmente explicado seria como um deserto sem graça, sem desenhos de luz e sombra, sem vento levando areia, sem um oásis aqui e ali. Mas nós desesperadamente insistimos: “Como é que eu não entendo isso? Espera um pouco, ainda não entendi. Pode explicar de novo? O que significa isso? O que você, ou ela, ou ele, queria dizer?”.

A não ser em questões de ciência, isso me parece obtusidade mental ou delírio. Pior: mesmo numa obra de arte, nos espantamos se tudo não for de uma obviedade pobre e rala: o que significa? Como você explica isso? (E a obra de arte nem foi feita por nós...) Talvez a arte não se deva dissecar feito cadáver, mas nos fazer sentir, recriar, nos instigar? Mesmo alunos, até universitários, às vezes detestam aulas em que as coisas os levam a pensar, em vez de serem oferecidas mastigadas e regurgitadas na mesa... embora educar deva ser, sobretudo, ensinar a pensar.

Freud, o Velho, sorriu com aquele seu jeito de velho pai divertido com as maluquices dos filhos, respondendo à pergunta mais boba do mundo – se o seu inseparável charuto era um objeto fálico: “Às vezes, meus caros, um charuto é só um charuto”. Virginia Woolf, com seus enigmas e labirintos, pressionada, quase tentou se desculpar porque não era explicável: “Eu trabalho com símbolos e emoções. Se tudo for desvendado, não terei mais por que escrever”. Clarice, a Lispector, durante um evento literário no Rio, sentada na primeira fila enquanto doutores em Teoria Literária discorriam sobre sua obra, se levantou, segurou a bolsa nas duas mãos, virou-se para o público e disse naquela sua voz rascante com erres singulares: “Essa de que aí estão falando não sou eu”. Virou-se e saiu, acompanhada de dois ou três de seus jovens admiradores. Na calçada, disse laconicamente: “Quero comer camarão”. Ferreira Gullar, querido, sofrido, brilhante, sarcástico e sutil, diz essa maravilhosa frase, “a arte existe porque a vida não basta”. Não faltará quem proteste: “Mas o que ele quis dizer com isso?”.

E esta que aqui lhes fala escreveu há décadas: “Se digo flor é flor, se digo água é água. Mas pode ser disfarce de um segredo. Não me queiram prender como a um inseto no alfinete da interpretação”.

Mas nós queremos tudo claro, simples, fácil. Pensar cansa! Mil vezes escutamos ou afirmamos, em tom de protesto, quase indignação: “Não entendi. Não entendo mais nada. O que quer dizer isso?”. O obscuro, o nebuloso, por pouco que seja, nos ofende. Queremos sol batendo de chapa, nada de nuvens ou névoas. As bizarrices ou banalidades nos dão ímpeto de desmontar, examinar, esfolar, quem sabe roubar o que nos intriga, isto é, matar.

Pois eu começo a achar que nestes confusos dias pode ser melhor não querer explicar. Logo, tudo há de se complicar ainda mais, e se fundir, se confundir, se desfazer e desdizer: ações humanas, loucuras públicas, vexames pessoais ou enigmas transcendentes, andam mudando como a brisa, recuando como a maré vazante. Desistam de entender: ou tudo perde o restinho de graça e interesse que ainda nos ilude.
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* Escritora
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a9842268.xml&template=3916.dwt&edition=31500&section=70 - Acesso 17/07/2017
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Jovens poupados de responsabilidades enfrentam o fim do amadurecimento

Luiz Felipe Pondé*

 
 "Não há amadurecimento sem sofrimento e esse é o foco de todo o esforço moderno: eliminar o sofrimento."
 
Existem alguns efeitos nefastos que são claramente derivados da sociedade avançada de mercado em que vivemos. Aliás, minha principal razão de crítica à esquerda é sua incapacidade atávica de perceber a realidade. Ao contrário do que parece, a esquerda investe numa visão infantil da realidade, negando o fato de que ela mesma, a esquerda, é um dos fetiches mais chiques do capitalismo avançado.

Se a esquerda é utópica em sua crítica infantil, os liberais tampouco nos ajudam com sua utopia de que o mercado resolve tudo. Falta aos liberais reverência ao fracasso.

Falta à esquerda a humildade de se assumir como um produto do capitalismo como uma Louis Vuitton. O sucesso do melhor método de produzir condições razoáveis de vida (o capitalismo) é nosso próprio cadafalso: gente bem de vida fica, na maioria das vezes, boba.

Mas vamos ao que interessa. O fim do amadurecimento. Mas, antes, um detalhe de que não tratarei hoje: o fim do afeto. Este está em extinção devido ao seu caráter necessariamente dolorido. Não existem paixões alegres sem paixões tristes.

O fim do afeto ocorrerá em breve e ele está intimamente associado ao fim do amadurecimento porque este implica naquele. Não há amadurecimento sem sofrimento e esse é o foco de todo o esforço moderno: eliminar o sofrimento.




Calma. Não estou aqui a fazer um elogio à agonia. Nem ao sofrimento. Não precisamos procurá-los, eles nos encontram de forma inevitável. Toda pessoa normal, como diziam utilitaristas como Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill (1806-1873), foge da dor e busca o bem-estar. Estou a dizer que o utilitarismo transformado em comportamento sistemático produziu o momento mais infantil da espécie: nossa era.

Pode-se notar claramente o fim do amadurecimento tanto no comportamento dos mais jovens como no dos mais velhos. O amadurecimento não é algo que se busca ou se compra. Ele está mais perto do fracasso do que do sucesso. É aquele tipo de estado de espírito que se revela mais no silêncio do que no ruído da autoafirmação. Pede paciência, como o conceito pede, diria Hegel (1770-1831).

E levanta voo no final do dia, como a coruja da filosofia, segundo o mesmo Hegel. Por isso sempre associamos o amadurecimento aos mais velhos. Quando se vê avós querendo imitar netas, pode apostar que o contrário do amadurecimento, o retardo mental, se instalou como modo de vida.

Nos jovens, o estrago é cada vez pior. Chegam a universidade atolados em "políticas de vulnerabilidade". Você não sabe o que é isso? Explico.

Em 2004, o sociólogo inglês Frank Furedi, no seu "Therapy Culture", ainda sem tradução no Brasil, apontava, a partir de uma pesquisa empírica na mídia impressa britânica, o crescimento de termos psicológicos que descrevem vulnerabilidade: angústia, necessidade de aconselhamento, ansiedade, distúrbios de atenção, e outros.

Nas escolas e universidades, o impacto é enorme. Pais e profissionais, de forma disfarçada, pressionam as instituições de ensino para "aprovarem" seus filhos em nome de seus diagnósticos. A vulnerabilidade clínica deve ser critério, pensam o ideólogos dessas políticas de vulnerabilidade, para aprovação. Usam termos como "inclusão" para justificar velhas práticas de negação dos resultados ruins de seus filhos e pacientes.

O resultado, entre outras coisas, é que os jovens são cada vez mais frágeis, com quase nenhuma "resiliência" (nome da moda pra se referir à velha força de caráter, fora de moda). Sendo uma avaliação algo além de mera devolutiva de conteúdo da matéria, essa mesma avaliação passa a ser um instante de enorme stress patológico. Algum dia desses, um professor será processado por reprovar um aluno.

E o problema é que a pedagogia, muitas psicólogas e parte do Ministério Público endossam esse desastre para o amadurecimento.

O ganho secundário, como diria Freud (1856-1939), dessa neurose da vulnerabilidade é que esses jovens são "poupados" de qualquer responsabilidade moral. Uma catástrofe em nome da vulnerabilidade. Uma geração inteira de medrosos com iPhones.
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*  Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência. Escreve às segundas.
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2017/07/1901759-jovens-poupados-de-responsabilidades-enfrentam-o-fim-do-amadurecimento.shtml
Imagem:  Ricardo Cammarota/Folhapress

domingo, 16 de julho de 2017

Amós Oz: 'Fanatismo está baseado em respostas rápidas'


 Escritor israelense Amos Oz que lanca o livro 'Mais de Uma Luz' posa na Fundacao Ema Klabin  
Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Escritor israelense esteve no Brasil para lançar seu novo livro 'Mais de Uma Luz'

O escritor israelense Amós Oz acredita no poder da palavra – não apenas pelo dever de ofício, mas principalmente por ter nisso a principal arma disponível pelo seu povo em muitos anos de luta. Ele fundou o movimento Paz Agora, mas, antes de se definir como um pacifista, prefere ser chamado de “peacenick”: “o pacifista acredita que a guerra é o pior dos males, e que deve ser evitada a qualquer custo. Já o peacenick sustenta que o pior dos males é a agressão, e que, por vezes, ela tem que ser repelida pela força”, sustenta. São argumentos como esse que inspiram os três ensaios contidos em Mais de Uma Luz, lançado agora pela Companhia das Letras. 

Dos textos, o mais impactante é justamente o primeiro, Caro Fanático, em que Oz (que significa “coragem” em hebraico) detalha a perigosa proliferação dos fanáticos pelos países, lembrando que o simples fato de alguém impor uma ideia a outro, por mais inocente que seja, já é um ato perigoso. “Um fanático é um ponto de exclamação ambulante que não escuta, só fala. Um ser humano desesperado e mais interessado em você do que nele, porque não tem vida própria. A síndrome deste início de século não é o choque entre muçulmanos e cristãos, Ocidente e Oriente, Europa e mundo árabe, mas, sim, entre fanáticos e nós. E eles estão em todos os lugares e em todas as culturas. Vejo isso no dia a dia, quando uma pessoa quer mudar a outra ‘para o bem dela’”, escreve. 

Em junho, Oz esteve em São Paulo, onde participou do projeto Fronteiras do Pensamento. Durante sua passagem, conversou com o Aliás na Fundação Ema Klabin, local escolhido por ele, que queria conhecer o belo acervo montado pela empresária e mecenas, morta em 1994. A seguir, os principais trechos da conversa. 

Qual é o trabalho de pensar o mundo, como o senhor costuma fazer em seus artigos?
Não sou especialista em nada – talvez, um especialista em especialistas. Mas observo com cuidado o que acontece, a ponto de preservar minha independência de pensamento. Talvez meu segredo seja o de olhar mais de um lado de cada problema. Sou cético, mas não pessimista. Eu me preocupo muito com a condição humana em geral. 

Por que o mundo está cada vez mais complicado?
Quanto mais o mundo se complica, mais as pessoas se agarram a respostas simples. Uma espécie de slogans, algo que explique tudo de forma simplista: “isso é provocado por causa do sionismo, da globalização, da esquerda, dos patrões.” Todos têm uma resposta direta e definitiva para o que acontece com o fanatismo. A essência do fanatismo está baseado em respostas rápidas. Muitas vezes, o diagnóstico para problemas do Oriente Médio pode não funcionar para o Brasil, da mesma forma que a medicina que é útil na África seja útil também na Palestina, e assim por diante. 

É, como o senhor afirma em seu livro, o eterno confronto entre o certo e o certo.
Exato, todos têm razão. Isso explica, de certo modo, o conflito entre Israel e Palestina: o combate entre o certo e o certo. Nos últimos anos, tem sido o embate entre injustiçados. Essa é a definição de nossa tragédia. Nos filmes de faroeste de Hollywood, há sempre uma divisão clara entre os mocinhos e os vilões e algumas pessoas, incluindo intelectuais, seguem o mesmo raciocínio ao apontar, no conflito entre israelenses e palestinos, quem é o vilão e quem é o protagonista. Como se isso fosse fácil, como se mundo se parecesse com um filme hollywoodiano. Não é assim. Conflitos anteriores eram analisados pelo relativismo, ou seja, eram até fáceis de se entender, como a Guerra do Vietnã, o apartheid, colonialismo, mas o mesmo não acontece com o conflito entre palestinos e israelenses. 

O senhor acredita no poder da palavra?
Como não acreditar se são apenas de palavras que disponho? Também era o que tiveram os judeus durante centenas de anos, época em que viveram sem armas, sem exército, sem sua terra, apenas com a força de sua palavra. Acredito que as palavras podem ajudar, mas não acredito em fórmulas para redenção. Não acredito em salvação, mas em soluções pensadas. 

Muitos dos líderes mundiais de hoje são contestados mundialmente, como Trump e Putin, para ficar em apenas dois. O que o senhor diz disso?
Sim, entendo o que você quer dizer, mas lembro que nasci em uma época em que o mundo era controlado por Hitler, Mussolini, Franco, Stalin. Impossível de se esquecer. Há diferentes graus de maldade. E um dos piores erros morais é colocar todos os tipos de maldade num mesmo cesto. É o que fazem intelectuais preguiçosos, para quem capitalismo, sexismo, sionismo, globalização, todos estão também num mesmo cesto. Há diferentes variações, é necessário que isso seja notado. O que me preocupa é que isso também norteia muitas pessoas em uma eleição, pois distinguem apenas o melhor e o pior candidato. 

E o que dizer do governo de Barack Obama?
Bem, ele causou menos estragos que seus antecessores. Obama colocou a economia dos EUA e mesmo a do mundo em um certo controle – lutando contra a crise criada por outros governantes. Também evitou promover guerras, ao ponto que, durante seu governo, houve uma expressiva queda no número de covas sendo abertas para soldados ante a administração Clinton ou Bush. Seu sistema de saúde era imperfeito, mas ainda assim uma opção melhor que a disponível para os americanos. Enfim, ainda que marcada por vários defeitos, acredito que Obama foi um dos melhores administradores do mundo nos últimos anos.
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Capa do livro 'Mais de uma Luz', de Amós Oz
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Reportagem por  Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo 08 Julho 2017
Fonte: http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,fanatismo-esta-baseado-em-respostas-rapidas-analisa-amos-oz,70001881018

A ética do Magistrado:J.B.P. Herkenhoff

Hoje assistimos a muitos julgamentos especialmente ligados à corrupção, colocando no banco dos réus grandes empresários e personalidades políticas. Discute-se se há ou não imparcialidade nos julgamentos. Qual a ética que deve orientar um Magistrado? Temos aqui a palavra de um conhecido Magistrado que pode nos orientar nesse debate. É um grande humanista e um defensor incansável dos direitos humanos: LBoff


A palavra ética provém do grego ethos, que significa modo de ser, caráter.

A Ética busca aquilo que é bom para o indivíduo e para a sociedade.

A Ética não brota espontânea. É fruto de um esforço do espírito humano para estabelecer princípios que iluminem a conduta das pessoas, grupos, comunidades, nações, segundo um critério de Bem e de Justiça.

O Bem e a Justiça constituem uma busca.

Um dos mais importantes desdobramentos da Ética refere-se à Ética das profissões. Toda profissão tem sua ética. Vamos citar alguns exemplos. Seja o motorista reservado quanto ao que ouve dentro do carro quando transporta seus clientes. Seja o comerciante ético cobrando o justo preço pelas mercadorias que vende. Seja o profissional da enfermagem ético tratando com respeito o corpo do enfermo. Seja o advogado ético, fiel ao patrocínio dos direitos do seu cliente. Seja o médico ético servindo à vida e procurando minorar o sofrimento humano.

E a magistratura tem uma Ética?

Neste capítulo defendo que o ofício de magistrado deve guiar-se por uma ética e sugiro veredas para a efetivação dessa ética.

A magistratura é mais que uma profissão. A Ética do Magistrado é mais que uma Ética profissional.
A função de magistrado é uma função sagrada. Daí a advertência do Profeta Isaías:

“Estabelecerás juízes e magistrados de todas as tuas portas, para que julguem o povo com retidão de Justiça”.

Somente com o suplemento da Graça Divina pode um ser humano julgar.

A sociedade exige dos magistrados uma conduta exemplarmente ética. Atitudes que podem ser compreendidas, perdoadas ou minimizadas, quando são assumidas pelo cidadão comum, essas mesmas atitudes são absolutamente inaceitáveis quando partem de um magistrado.

Tentarei arrolar alguns princípios que suponho devam orientar a ética do magistrado:

1) A imparcialidade. Nada de proteger ou perseguir quem quer que seja. O juiz é o fiel da balança, a imparcialidade é inerente à função de julgar. Se o juiz de futebol deve ser criterioso ao marcar faltas, ou anular gols, quão mais imparcial deve ser o Juiz de Direito que decide sobre direitos da pessoa.

2) O amor ao trabalho. O ofício do juiz exige dedicação. A preguiça é sempre viciosa, mas até que pode ser tolerada no comum dos mortais. Na magistratura, a preguiça causa muitos danos às partes.

3) A pontualidade, o zelo pelo cumprimento dos prazos. É certo que há um acúmulo muito grande de processos na Justiça. O juiz não é o responsável por esse desacerto mas, no que depende dele, deve esforçar-se para que as causas não contem tempo por quinquênio ou decênio, como verberou Rui Barbosa. Se por qualquer razão ocorre atraso, no início de uma audiência, o juiz tem o dever de justificar-se perante as partes. Não pode achar que é natural deixar os cidadãos plantados numa sala contígua, esperando, esperando, esperando.

4) A urbanidade. O magistrado deve tratar as partes, as testemunhas, os serventuários e funcionários com extrema cortesia. O juiz é um servidor da sociedade, ter boa educação no cotidiano é o mínimo que se pode exigir dele. A prepotência, a arrogância, o autoritarismo são atitudes que deslustram o magistrado.

5) A humildade. A virtude da humildade só engrandece o juiz. Não é pela petulância que o juiz conquista o respeito da comunidade. O juiz é respeitado na medida em que é digno, reto, probo. A toga tem um simbolismo, mas a toga, por si só, de nada vale. Uma toga moralmente manchada envergonha, em vez de enaltecer.

6) O humanismo. O juiz deve ser humano, cordial, fraterno. Deve compreender que a palavra pode mudar a rota de uma vida transviada. Diante do juiz, o cidadão comum sente-se pequeno. O humanismo pode diminuir esse abismo, de modo que o cidadão se sinta pessoa, tão pessoa e ser humano quanto o próprio juiz.

7) Razão e coração. Julgar é um ato de razão, mas é também um ato de coração. O juiz há de ter a arte de unir razão e coração, raciocínio e sentimento, lógica e amor.

8) A função de ser juiz não é um emprego. Julgar é missão, é empréstimo de um poder divino. Tenha o juiz consciência de sua pequenez diante da tarefa que lhe cabe. A rigor, o juiz devia sentenciar de joelhos.

9) As decisões dos juízes devem ser compreendidas pelas partes e pela coletividade. Deve o juiz fugir do vício de utilizar uma linguagem ininteligível. É perfeitamente possível decidir as causas, por mais complexas que sejam, com um linguajar que não roube dos cidadãos o direito, que lhes cabe, de compreender as razões que justificam as decisões judiciais.

10) O juiz deve ser honesto. Jamais o dinheiro pode poluir suas mãos e destruir seu conceito. O juiz desonesto prostitui seu nome e compromete o respeito devido ao conjunto dos magistrados. Peço perdão às pobres prostitutas por usar o verbo prostituir, numa hipótese como esta.
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Obs: O autor  é magistrado aposentado (ES), escritor, professor, palestrante. 
Fonte:  https://leonardoboff.wordpress.com/2017/07/16/a-etica-do-magistradoj-b-p-herkenhoff/

sábado, 15 de julho de 2017

Luto pelos animais de estimação pode ser tão penoso quanto o luto por outras pessoas?

Cemitério de animais de Casa Rosa (Itália). ALBERTO PIZZOLIAFPGetty Images

Cemitério de animais de Casa Rosa (Itália). ALBERTO PIZZOLI/AFP/Getty Images

Às vezes, o impacto provocado pela morte de um animal é comparável ao luto por um ser humano



Quando Ada Menéndez perdeu seu gato Rodolfo depois de uma longa convalescença, tomou a decisão de procurar ajuda psicológica para lidar com a ausência do animal de estimação com o qual viveu por quase 12 anos. Depois de se despedir dele e de guardar suas cinzas, Menéndez foi ao Espacio Ítaca, um centro espanhol onde psicólogos e terapeutas ajudam aqueles que acabaram de perder um animal de estimação. “Eu fiquei muito mal porque o Rodolfo ficou comigo durante toda a vida dele, vivemos só nós dois durante muito tempo e tínhamos uma relação muito especial”, conta Menéndez ao Verne. “Para mim, não era apenas um animal de estimação, era parte da minha família”.



Durante cerca de quatro meses, Menéndez fez terapia duas vezes por semana até que conseguiu integrar a morte do seu gato. “Fiquei deprimida, muito afetada, e como é algo que muitas pessoas não entendem, não se pode falar disso no trabalho ou com os amigos”, acrescenta Menéndez. “Me ajudou muito falar disso com a psicóloga, porque fora dali não havia lugar para desabafar e chorar”.

Às vezes, o impacto provocado pela a morte de um animal é comparável ao processo de luto que se vive depois de perder um amigo ou parente. Em 1988, Sandra B. Barker, atual diretora do Center for Human-Animal Interaction da Faculdade de Medicina da Virginia, realizou um estudo que mostrou como algumas pessoas percebiam a relação com seu animal de estimação de da maneira mais próxima do que o vínculo com seus parentes. Os indivíduos tinham de representar a família por símbolos e muitos deles colocaram o cachorro mais perto deles. “Identificamos que não havia diferença entre a proximidade com a família e com um animal de estimação”, explica Barker ao EL PAÍS por telefone. Uma década depois, em 1998, outro estudo revelou que a teoria do apego desenvolvida por John Bowlby (que define o fenômeno pelo qual os bebês estabelecem um vínculo com seu cuidador como instinto de sobrevivência) podia ser aplicada à relação animal de estimação-ser humano.

“Quando você introduz um animal em casa e convive com ele muitas horas por dia, ele faz parte de sua rotina e do seu dia a dia”, diz Sandra Sánchez, a psicóloga que tratou Menéndez. “As famílias mudaram e agora podemos ver vários modelos em que o animal se integra como mais um membro”, afirma.

“Nos ocupamos principalmente de casos de cães e gatos. Mortes inesperadas e casos de mortes de longa duração e doenças degenerativas. Também somos procurados por muita gente que precisa tomar a decisão de por um fim à vida do seu animal de estimação”, explica sobre sua experiência. “Nas sessões, trabalhamos a canalização emocional, técnicas de relaxamento... Em alguns casos, depois de poucas sessões as pessoas já conseguem seguir seu rumo, mas outras levam mais tempo. Há pessoas que precisam talvez de um ano”.

Um luto menos aceito socialmente

Segundo um estudo realizado pelo Canadian Veterinary Journal, 50% das pessoas que perderam seu animal de estimação dizem que a sociedade não avalia que essa morte seja digna de um processo de luto. “Nem todo mundo tem um animal de estimação e isso dificulta que as pessoas tenham empatia em relação a esses casos, e também porque se subestima o vínculo emocional que a pessoa pode ter com o animal”, acrescenta Sánchez.

A veterinária Mercedes González tem a mesma visão. “Como não é socialmente aceito que uma pessoa possa estar triste pela perda do cachorro, não se passa por todas as frases de luto e aí pode aparecer o problema. Por um lado, porque as pessoas ao seu redor não entendem e porque você mesmo não se permite estar triste”.

O que fazer e o que não fazer quando seu animal de estimação morre

Normalizar a tristeza e se permitir sofrer pela perda é um dos principais conselhos de Moira Anderson Allen, educadora especializada nesse tipo de luto. “Algumas pessoas acham útil expressar seus sentimentos e memórias através de poemas, histórias ou cartas para o animal de estimação”, diz Anderson Allen em seu site. “Outra estratégia é reorganizar sua agenda para preencher com outras atividades os momentos do dia que você costumava passar com o animal de estimação”, acrescenta a educadora.

“As formas de apoio variam muito, dependendo da pessoa”, diz Sandra Barker. “Um dos nossos pacientes tinha de aprovar a eutanásia do cachorro, mas antes de fazer isso, como último desejo, o levou para a praia e para comer hambúrgueres, passatempos favoritos do animal”.

Uma reação comum é adotar outro animal logo após a perda. No entanto, introduzir um novo membro animal na família só costuma ser aconselhável uma vez que o luto tenha sido superado. “Tivemos pessoas que já estavam pensando adotar outro animal, ou que queriam colocar o mesmo nome, e dizemos que isso é muito negativo e que não devem fazê-lo”, diz Sánchez.

“Não se deve buscar uma substituição para evitar a dor”, acrescenta Barker. “Vimos pessoas que acabaram decepcionadas porque o novo animal não era da mesma raça ou porque se comportava como o animal de estimação anterior”.

Outra coisa fundamental é usar a terminologia adequada. “Nós também dizemos às pessoas para tirar a palavra sacrifício do vocabulário, porque tem uma conotação muito negativa”, diz Sánchez. “Com um ser humano nunca chamaríamos dessa forma. É preferível dizer ‘morte digna’ ou eutanásia. Com essa terminologia o luto pode melhorar”.

A psicóloga Sandra Sánchez compartilha um conselho: “Quando um paciente me diz que nunca vai superar a perda, eu sempre conto essa história: ‘Imagine que eu disse que esse calor é insuportável, que o inverno nunca voltará’. Certamente ele responderia que é absurdo dizer algo assim, que o inverno sempre chega’. Com o luto é a mesma coisa. É preciso de tempo”.

Como ajudar as crianças a superar a perda

“Os menores não entendem o conceito de morte”, diz Barker, “e muitos podem se sentir culpados porque pensam que não cuidaram suficientemente do animal”. Nos casos com crianças, os especialistas recomendam evitar eufemismos. “Se você disser a eles que o cachorro morreu durante o sono, talvez possam ter medo na hora de deitar”, acrescenta Barker. A especialista norte-americana encoraja as famílias a envolver as crianças nas homenagens ao animal de estimação, porque “as crianças são muito boas fazendo cerimônias e desenhos”.

A veterinária Mercedes González ressalta que a atitude em relação às crianças deve ser a mesma que com a perda de um parente próximo. “Você tem de explicar a elas o que aconteceu e às vezes isso não é feito da mesma maneira porque não se dá importância”, explica. “Os pais talvez não tivessem muito apreço pelo hamster, por exemplo, mas é preciso levar em conta que a criança pode ter criado um vínculo mais forte com o animal e pode ser mais doloroso para ela”. Em primeiro lugar, paciência.
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Fonte:  https://brasil.elpais.com/brasil/2017/07/04/ciencia/1499163248_507694.html