segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Advento: tempo de testemunhar que Cristo é o essencial!

Pe. Inácio José Schuster*

 O essencial é que Cristo realmente nos humaniza, eleva a nossa humanidade a níveis 
nunca imaginados!

Como manter o coração próximo de Cristo na preparação para o Natal?

É preciso fazer silêncio, escutar os “sussurros” de Deus que nos chama através do seu Espírito a refletir que o essencial do advento é reconhecer que Cristo realmente nos humaniza, que eleva a nossa humanidade a níveis nunca imaginados.

A vivência da espiritualidade deve ser aproveitada pela meditação das leituras propostas pela liturgia deste tempo litúrgico. A Igreja também recomenda um espírito e atitude de caridade. Lembrando-nos que Cristo é um presente de Deus para nós, o maior de todos e que, assim, entrar no espírito do Natal é mais um assunto de ‘dar’ do que de ‘receber’.

O consumismo é a consequência da falta de silêncio interior, da perda de sentido do mistério, da perda de consciência do próprio valor, da concepção de um Cristo exterior a minha vida, como uma espécie de ‘manual de conduta’ ou ‘livro de receitas’, mas não como uma Pessoa que quer dialogar comigo, em um encontro íntimo, que leva à transformação no amor.

É necessário evitar uma espécie de “fuga pelas compras”. Comprar pode levar alegria às pessoas, mas não devemos colocar o nosso coração nisso! Achamos que o vazio interior que sentimos poderá preencher-se pelas coisas materiais... porém quando elas estão esvaziadas do essencial (e o essencial é Cristo), a nossa vida se converte em um vai e vem de compensações, mas nunca terminamos de ‘dar de frente’ com o profundo mistério de nossa humanidade, revelado na humildade de um berço, no gesto da condescendência de Deus que assume a nossa humanidade para redimi-la e enchê-la de sentido.

O essencial é que Cristo realmente nos humaniza, eleva a nossa humanidade a níveis nunca imaginados! Ao conhecimento dessa verdade segue um segundo aspecto: o assombro, a maravilha que gera no homem a contemplação da encarnação, através da qual Deus revela ao homem o seu valor para Si.

Para mantermos o coração fixo no que é essencial neste Tempo do Advento, reflitamos sobre as “Três vindas de Jesus Cristo”:

A vinda histórica

É uma preparação-memória. É “olhar para o passado” e lembrar-nos da maravilha da encarnação, através da qual Deus cumpriu as suas promessas e enviou o Messias. Faz parte dessa dimensão imprescindível da fé de contemplar os acontecimentos da nossa salvação que mostram o quanto valemos para Deus. Faz lembrar-nos que a nossa fé tem fundamento sólido, fundamento em fatos e não em teorias ou sentimentos.

A vinda futura

É uma preparação-espera. É “olhar para o futuro” e, guiado pelas realidades anunciadas e prometidas na Sagrada Escritura, contemplar o Céu, a meta do nosso terreno peregrinar. Faz parte da dinâmica da esperança, que, apoiada sobre a fé, aguarda a realização das promessas de Deus.

A vinda no hoje da nossa existência

É uma preparação-acolhida. É olhar para o próprio interior, velando para que seja morada adequada para Cristo. É fazer do coração um presépio; humilde, porém limpo, ordenado. É a atualização do amor. Quando acolhemos Jesus nas nossas vidas é sinal de amor, de aprender a amar e, assim, ver realizadas as promessas de Deus na nossa vida e ‘antecipar o Céu’. No amor a fé e a esperança se realizam.

Passado-presente-futuro, memória-acolhida-espera, fé-esperança-caridade. Eis o tempo do Advento! 

Nesse sentido, a vigilância não só faz referência à vinda de Jesus no final dos tempos, mas é também estar atentos para não perder a memória da vinda no passado e colocar os meios para acolher o Senhor em nosso dia a dia.
Que este tempo do Advento seja verdadeiramente um tempo de memória, espera e acolhida, de fé, esperança e caridade. 

Que o Senhor possa vir e encontrar sempre morada nos nossos corações, uma morada humilde, limpa e ordenada!

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* Vigário Judicial. Pároco da Ig. da Piedade Novo Hamburgo. Dr. em Dto. Canônico.
Fonte: Texto recebido por e-mail.
Foto Coro do Advento no Convento Capuchinho de Porto Alegre. Foto do Blog.

domingo, 29 de novembro de 2015

Terceira Guerra Mundial?

Anselmo Borges*
 

1- Coloquei no título uma interrogação. Mas poderia lá não estar. De facto, há muito que o Papa Francisco vem dizendo que a Terceira Guerra Mundial está em curso, mas "aos bocados", "às fatias". Veio relembrá-lo na condenação veemente da tragédia de Paris. E não está sozinho.

O que se teme, quando se olha para a complexidade do nosso mundo, tremendamente perigoso e ameaçador, é que, de repente, se dê uma explosão. Todos se lembram de como para o início da Primeira Guerra Mundial bastou o que pareceria um pormenor: o assassínio do arquiduque Francisco Fernando em Sarajevo, em 1914. Agora, Robert Farley, da Universidade de Kentucky, nos Estados Unidos, acaba de apresentar alguns rastilhos que poderiam desencadear um conflito à escala global: em primeiro lugar, a guerra na Síria, mas também a ameaça do mau relacionamento entre a Índia e o Paquistão ou entre a China e o Japão, a crise na Ucrânia e um confronto entre a NATO e a Rússia...
2- Presentemente, o perigo maior está no ISIS, o autoproclamado "Estado Islâmico", e no terrorismo global. Como se chegou até aqui?

Claro que são mais as perguntas do que as respostas. Aliás, um dos problemas maiores no actual momento é a confusão devida à complexidade da situação, aos interesses contraditórios e cínicos dos diferentes actores, políticos, económicos, militares, geoestratégicos, ideológicos. Falei na Primeira Guerra Mundial e, então, é preciso dizer que ainda estamos a sofrer as suas consequências, sobretudo por causa do Médio Oriente. E talvez não tenha ainda acabado o ressentimento que deriva do facto de a quase totalidade dos países de maioria islâmica ter sido colónia europeia. E houve a insensatez da invasão do Iraque e, depois, da Líbia. Diz-se que Saddam Hussein, diante da forca, terá profetizado: "Deixo-vos o inferno." Após o vazio criado, surgiu o diabólico "Estado Islâmico", que é preciso destruir, mas como, com quem?

Faço minhas algumas interrogações do filósofo José Arregi, na presença dos mortos de Paris e das lágrimas dos vivos. "Quem criou, financiou e treinou a Al-Qaeda para combater a Rússia? E quem concebeu e continua a sustentar na sombra o Estado Islâmico para desestabilizar todo o Médio Oriente e tirar maior proveito e lucro? Não se sentam no G20 dos grandes do mundo alguns governos amigos de países, com a Arábia Saudita à cabeça, nos quais encontram suporte ideológico e financeiro os jihadistas que nos combatem e que dizemos combater? Não são estranhamente coincidentes os interesses do "Estado Islâmico" e os do poder financeiro do mundo ocidental?" Mas há igualmente perguntas a fazer ao mundo islâmico. "E vós, dirigentes políticos dos países árabes, para onde conduzis os vossos povos, essa imensa maioria de gente pacífica, com as vossas lutas fratricidas sem fim, com o vosso confronto secular entre sunitas e xiitas, com os vossos impossíveis projectos teocráticos, com o vosso sonho de califado confessional, medieval, absurdo? E vós, os dirigentes religiosos da Umma ou comunidade muçulmana universal, para onde conduzis essa multidão de gente crente, cheia de bondade e de generosidade, empenhados como estais em mantê-la encerrada no passado?"

3- Como combater o terrorismo fora, se há terroristas cá dentro? Pergunta imensa: o que é que leva tantos jovens europeus, e não se trata apenas de gente pobre dos arrabaldes das grandes cidades, a alistar-se para combater no "Estado Islâmico"? Que ideias, que valores lhes entregamos? Segundo o politólogo Gilles Kepel, especialista do islão e do mundo árabe contemporâneo, não bastam as explicações sociológicas, escreve no último L"Obs. "Jovens sem referências, perdidos no meio das desordens do mundo que a torneira mediática espalha, podem ser tentados a ir procurar num passado mitificado, o do islão das origens revisitado e falsificado, uma ordem que vai dar-lhes normas, valores. Sonhar com a jihad é fantasiar a sua vida, é projectar-se numa existência épica, viril. E é inscrever-se num projecto colectivo, a construção do califado, apresentado como uma utopia terrestre, onde todos têm um trabalho, onde não há pobres; é viver um antegosto do mundo perfeito do além.

4- Há muito que o famoso teólogo Hans Küng tornou claro que "não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões". O Papa Francisco sabe disso. Por isso, denuncia toda a violência, que, se for em nome de Deus, é "uma contradição", "blasfémia". "Uma guerra pode justificar-se, entre aspas, com muitas razões. Mas quando o mundo todo, como hoje em dia, está em guerra?! Uma guerra mundial, aqui e ali, por todos os lados. Não existe nenhuma justificação. E Deus chora."

E, sem medo, apesar do alto risco, seguiu para África, visitando o Quénia, o Uganda e a República Centro-Africana, para anunciar a paz, a justiça social, a reconciliação, o diálogo entre cristãos e muçulmanos. Em nome de Deus.
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* Jornalista. Cronista do jornal de Portugal Diário de Notícias.
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sábado, 28 de novembro de 2015

O erro de Zarathustra

Márcio Tavares D'Amaral*

 

 A Humanidade precisava dele. Mas ele, sobretudo ele, precisava da Humanidade. Abandonou-a

É Nietzsche quem nos conta. Zarathustra passara 20 anos na montanha, na companhia dos seus animais sagrados, a serpente e a águia. Meditara sobre o sofrimento e suas causas. Um dia sentiu que seu trabalho estava feito e seu tempo, chegado. Decidiu descer para as cidades dos homens.

Na encosta da montanha encontrou um velho. E pensou, no silêncio do seu coração: “Esse pobre velho certamente reza a Deus, e não sabe que Deus morreu. O homem, que criou Deus, igualmente o matou. Foi o momento culminante da história da Humanidade. Pobre velho”.

O velho viu o jovem que descia apressado. E pensou, no silêncio do seu coração: “Esse moço que vai com pressa crê que eu rezo para um Deus morto. Eu tenho coisas doces para lhe dizer. Mas ele tem pressa” — e se calou.

No vale, Zarathustra quis ensinar aos homens o salto acima deles mesmos, os demasiadamente humanos, os que carregam todos os pesos em suas corcovas de camelo. Quis lhes ensinar o além-homem. Pensava nas transfigurações do homem na direção da suprema liberdade. Primeiro o camelo, que carrega nas corcundas as obrigações do belo, do bom, do justo e do verdadeiro, criadas pelos filósofos, sacerdotes e moralistas para submeterem, julgarem e condenarem a Humanidade. Era chegada a hora de sacudirem os pesos e urrarem pela liberdade. Hora de o camelo devir leão. Um grande passo. Mas ainda brigado, negativo. Lutar com esses “valores superiores” é caminho e passagem. Não o fim da estrada. Nele estará a criança, que não tem passado, não vive de ressentimentos. Sua força é a inocência do devir. Todo o tempo é seu, sem sofrimento, para sempre. Devir-criança é a salvação do fraco demasiadamente humano. É a afirmação máxima da potência da vida.

A vida, pensava Zarathustra, desde Sócrates perdera a tensão trágica, a força de se sustentar entre a demasia embriagada de Dionísio, deus do vinho, e a disciplina luminosa de Apolo, o sol. Durante um par de séculos os gregos tinham suportado jubilosamente esse dilaceramento, superabundância de potência. Depois os medrosos da vida deixaram de aguentar tamanha força e eliminaram Dionísio, adotaram a luz apolínea como lei. Fizeram dela um absoluto e condenaram a Humanidade a carregar seu peso. Culpa de Sócrates. Era chegado o momento de vencer Sócrates e restaurar o reino da potência. Resgatá-la da humilhação de tanta subserviência desfibrante. Zarathustra olhava para os homens como se fossem os últimos, o último homem, o que deseja morrer. Assim pensava Zarathustra. Ia lhes ensinar a potência de viver além de bem e mal, acima dos valores vazios da humilhação da vida.

Tentou. De cidade em cidade foi e pregou. Ensinou o além-humano, o super-homem. Convidou os homens a recuperarem a inocência das crianças. Ensinou-lhes que só se tornariam grandes quando ousassem sua própria travessia para fora da servidão. Bradou contra os valores que são impostos à vida e a humilham até o ponto de ela se tornar uma vontade de nada. Rugiu pela vida. Como se fosse já o leão. Os homens, estarrecidos com aquela coisa extraordinária, não o receberam. Cuspiram-no. Atiraram-lhe pedras. Vaiaram seus discursos. Expulsaram-no. E Zarathustra viu que não estavam preparados. Abatido, voltou para a sua montanha e seu soberbo isolamento, acima da Humanidade que não o merecera. Na subida, encontrou de novo o velho que rezava. Esse estava a meio caminho entre o alto e o baixo. Zarathustra passou sem mesmo olhá-lo com piedade. Ia pesado. Ansiava pela sua águia orgulhosa, pela sabedoria da sua serpente.

Foi o erro de Zarathustra. A Humanidade precisava dele. Mas ele, sobretudo ele, precisava da Humanidade. Abandonou-a. Devia ter ficado. E aprendido. Não sabia que o mais alto vem do mais baixo, e a alegria não tem a si mesma como padrão. A alegria precisa do sofrimento. Zarathustra teve medo do sofrimento. A coragem que o trouxera para baixo foi se esterilizar na solidão do alto. Zarathustra não tinha esperança. Não estava preparado para a Humanidade, que caminha na sua própria história. Por uma estrada que não tem fim. Não é para ser superada, é para ser andada. Levará, quem sabe, a um lugar que os homens poderão amar. E Zarathustra não estará lá para acompanhá-los. Pena, Zarathustra desistiu.

A vida não é fácil. É preciso vivê-la para sabê-lo. E ter a ingenuidade das crianças para, todos os dias, recomeçar. A esperança é teimosa. Zarathustra se cansou da teimosia da Humanidade. Perdeu.
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* Jornalista. Colunista do jornal O Globo
Fonte: http://oglobo.globo.com/cultura/o-erro-de-zarathustra-18165252 - 28/11/2015

Aquilo que tenho perdido na vida

Juremir Machado da Silva* 
 

Outras perdas

      Olho da minha janela o sol que se debruça no horizonte e penso no que perdi por estar demasiadamente ocupado tentando ganhar. Como no poema de Pablo Neruda, que tanto cito por nele reconhecer a essência do sentimento que em mim se abriga como um cão fiel, perdi de terminar o livro que sempre se escolhe ao crepúsculo. Perdi também de olhar o crepúsculo por estar procurando luzes na escuridão das disputas de vaidades. Perdi de recordar o que amei por ter de reservar a minha pouca memória para dados que jamais me serviram, embora sejam importante para a humanidade, o valor do Pi, a fórmula de báskara e os elementos da tabela periódica. Perdi o sumo do pêssego descascado à sombra dos cinamomos nas tardes de verão escoadas com a doçura dos melhores dias em família. Perdi o gosto da solidão por ter de passar grande parte da vida no meio da multidão.

Perdi de fazer a viagem de volta por estar sempre obrigado a fazer mais uma viagem de ida para algum lugar imperdível. Perdi de curtir o grande lugar admirado por todos por me sentir na obrigação de encontrar o lugarzinho feito só para mim. Perdi de recordar certas coisas singelas por estar memorizando tudo o que acabei esquecendo. Penso no que esqueci e me surpreendo com cheiros, vozes, risadas e frases que nunca tinha lembrado antes. Um amigo, numa tarde de 1973, gritando “vamos jogar”, uma menina, numa noite de 1976, sussurrando “gosto de ti”, outra tarde, lá por 1975, colhendo ameixas num pomar que me parecia a melhor definição do paraíso. Perdi a data de uma imagem que me persegue: eu, guri, caminhando só à beira de um mato com os olhos focados na beleza colorida de um maracujá inalcançável.

Por que me vem cada vez mais essa lembrança das coisas perdidas que, no entanto, estão bem guardadas no meu coração? Por que me vem essa certeza de que perdi de sorrir e de brincar em ocasiões formais por ter acreditado na importância da gravidade como etiqueta? Quanto gente perdeu de dançar por ter sempre alguém para cobrar um desempenho melhor? Quanta gente perdeu de cantar por medo de desafinar? Quanta gente perdeu de falar por temer o arrependimento? Bem ou mal, disso me orgulho, nunca perdi de jogar futebol. Mas perdi, faz tanto tempo, o cheiro dos melões maduros amarelando na lavoura. Perdi o canto do jacu na quietude da mata. Perdi de perder.

Sim, aos poucos, vamos aprendendo a não jogar para não perder. Há quem perca a beleza do pôr do sol por ter sido convencido de que é brega. Há quem perca o calor do Natal em casa por acreditar que não é moderno. Há quem perca o encontro com os amigos por ter de dedicar todos o seu tempo aos inimigos. Eu perdi tanta coisa que me faz falta. Onde terei deixado meus time de botão? Onde terei enterrado o Lobo, meu cachorro e amigo ao longo da adolescência? Que fim terá sido dado à bicicleta que foi meu meio de transporte durante oito anos? Eu perdi tempo tentando ganhar tempo. Perdi alegria tentando ganhar felicidade. Perdi de escrever o que queria por medo de não escrever o que de mim se esperava. Perdi de dizer: a vida é boa.

Seria melhor se eu não tivesse de ouvir especialistas cujas conclusões contrariam as premissas.
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* Sociólogo. Prof. Univer. Escritor. Tradutor. Colunista do Correio do Povo.
Fonte:  http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/
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Franz Kafka: “Tinok Shenishbá”,



Desde a aurora até o anoitecer, caminhei pelo quarto, de um lado para o outro. A janela estava aberta, era um dia quente. Ruídos subiam da rua estreita sem cessar. À força de tanto mirar as paredes, em minhas idas e vindas, eu já conhecia cada reentrância, cada detalhe do quarto. Estudei com o olhar todos os cantos, percorri até as últimas ramificações o desenho da almofada e seus sinais de velhice. Muitas vezes medi a mesa de centro com os dedos e mostrei a língua ao  retrato do defunto marido da dona da pensão. Antes do amanhecer, sentei-me no peitoral da janela. Então pela primeira vez, abarquei com uma só visada, e sem sair de meu lugar, o interior do quarto e o céu raso.

Finalmente, se não estava me enganando, a habitação começava a se mexer, depois que eu tentei fazê-la estremecer de várias maneiras. Começou pelas bordas do céu raso, coberto por uma delgada capa branca de gesso. Alguns pedacinhos de estuque se desprenderam e caíram no chão, como que por acaso, com um golpezinho bem definido. Eu estendia a mão e também nela caíam alguns pedaços. Joguei-os na rua, por cima da minha cabeça, sem me virar, tamanha era a minha tensão. As rachaduras no teto ainda não mostravam maior relação entre si, embora, de alguma forma, isso já pudesse ser imaginado. No entanto, deixei de lado esses jogos mentais quando vi que um violeta azulado começava a mesclar-se com o branco do céu raso. Nascia do centro mesmo do teto, ainda branco –  mais que isso –, era de um branco radiante, e estava aplicado quase que diretamente sobre a pobre lâmpada elétrica. Todo o tempo, às secudidas, seu calor se esparzia – ou era uma luz? – sobre as bordas agora escurecidas. Não me assustaria se dali se desprendesse e saltasse argamassa, como que sob a pressão de uma ferramenta aplicada com toda precisão. 

            As violetas das bordas logo começaram a se misturar matizes amarelos, de um amarelo dourado, mas o céu raso não se coloria, as cores apenas o tornavam, de certo modo, mais transparentes. Sobre ele pareciam flutuar coisas que queriam irromper, já quase se via o contorno da pressão – um braço estendido, uma espada prateada que oscilava. Era para mim, não havia dúvida. Preparava-se uma aparição  que me libertaria. Saltei sobre a mesa para ajudar a apressar esse evento. Arranquei a lâmpada de seu suporte de bronze e joguei tudo no chão. Em seguida, empurrei a mesa do meio do quarto até a parede. Isso que queria aparecer podia descer tranquilamente sobre a almofada, e anunciar-me o que tinha para me anunciar. Mal eu tinha empurrado a mesa e o céu raso se rompeu. Ainda muito no alto, porque eu havia calculado mal, descendia, lentamente, e na penumbra, um anjo com vestimentas violáceas e azuladas, envoltas em cordões de ouro; um anjo suspenso sob umas asas grandes e brancas, reluzentes como seda, com uma espada estendida na horizontal. “Um anjo, então”, pensei. “Esteve voando em  minha direção durante todo o dia, e eu, com minha pouca fé, não percebi. Agora, falará comigo.” Abaixei a vista, mas quando voltei a levantá-la, o anjo continuava ali, pendia do teto, que tinha voltado a fechar-se, mas não era um anjo vivente, era uma carranca de proa, de madeira, e pintada, como essas que pendem das tavernas dos marinheiros, nada mais que isso. A cruz da espada servia de suporte, e como depósito para recolher cera derretida. Como eu tinha arrancado a lâmpada elétrica, e não  queria ficar na escuridão, busquei uma vela, subi numa cadeira, coloquei a vela na crua da espada, acendi-a, e fiquei sentado à fraca luz do anjo até muito tarde da noite.

*Escritor Charles Kiefer traduz um conto de Franz Kafka ( 1883-1924) para o Caderno de Sabado.

Releitura de um tradutor.

            Charles Kiefer.

Ao ler os “Diários”, de Franz Kafka, deparei-me com um procedimento construtivo muito interessante: neles, nas suas páginas íntimas, o autor como que “treinava” frases, fragmentos, parágrafos, que depois acabavam fazendo parte de suas obras ficcionais. No entanto, um desses “treinamentos” me pareceu completo, inteiro, com as “três unidades” perfeitamente ajustadas. Pelo fantástico da cena, embora o próprio Kafka fosse estudante de Kabbalah, ficava claro que aquilo era um conto, com começo, meio e fim. A cada releitura que eu fazia, mais me convencia de que estava diante de mais uma obra-prima kafkiana. Nos últimos anos, como Kafka, tornei-me, também, um mekubal, e só por isso sou capaz de entender do que ele estava tratando nesse texto que “escondeu” em seus diários, e ao qual eu dei o título de Tinok Shenishbá, que significa “aprendiz” ou estudante desastrado, atrapalhado.
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Fonte: Jornal Correio do Povo impresso, Caderno de Sábado, 28/11/2015, pág. 
Foto: Tela 'Franz Kafka', de autoria do artista plástico Antônio Soriano. 

“O jornalismo raramente é arte”, diz repórter da Folha de S. Paulo

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 Cláudio Goldberg Rabin trabalha como repórter da coluna 'Mercado Aberto', na Folha de S. Paulo (Imagem: Arquivo Pessoal)

A história de Cláudio Goldberg Rabin no jornalismo começou um pouco mais tarde que o tradicional. Primeiro, estudou biologia por curto tempo e chegou a dar aula em curso pré-vestibular na zona norte de Porto Alegre. Depois, optou por ingressar em relações internacionais (RI), na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Seu gosto por jornais e revistas o levaram a trilhar o caminho do jornalismo.

No mesmo ano em que prestou vestibular para RI na universidade federal, Rabin se candidatou a uma vaga na PUCRS para o curso de jornalismo. Em 2007, com a notícia de que ganhou Bolsa-Mérito por passar em 1º lugar no turno da noite na Faculdade de Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Famecos/PUC-RS), decidiu o que iria fazer.

Os corredores e as salas de aula da Famecos passaram a fazer parte da rotina de Rabin. Alguns momentos e professores deixaram lembranças na memória do jornalista. “Lembro-me de ter feito um curta-metragem do qual fui o diretor, na disciplina de cinema, ministrada pelo professor Gustavo Spolidoro”. Almir Freitas é outro docente que o jornalista relembra e elogia. “Ele tinha a ideia sólida do jornalista empreendedor e acho importante alguém para motivar isso”.

Antônio Hohlfeldt, que leciona a disciplina de leituras em jornalismo, marcou sua vida acadêmica. “Gostava bastante das aulas dele. Ele é muito bom, sabe muito de literatura”. Em 2010, Hohlfeldt foi orientador do seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). “Foi o professor mais importante e seria um prazer reencontrá-lo”, confessa Rabin.

Ao longo da faculdade, ele já imaginava que iria trabalhar na área impressa. “O jornalismo raramente é arte. Dentro do impresso, existe um pequeno campo em que ele pode ser. Isso ocorre dentro do jornalismo literário, ou narrativo, como prefiro chamar, que é a área que me encanta”. Algumas matérias produzidas pelo profissional são ricas em detalhes. Duas, feitas para a Zero Hora, Rabin destaca por terem gerado uma boa repercussão. Uma delas é a visão masculina sobre a noite de Porto Alegre tomada por estrangeiros, publicada em 20 de junho de 2014, durante a Copa do Mundo. A outra é como um porco de 250 quilos foi parar nas ruas de Porto Alegre, lançada em 30 de abril do ano passado. “Elas exemplificam o tipo de jornalismo que eu mais gosto de fazer”.

O jornalista fala que a Famecos foi o lugar onde fez grandes amigos e aprendeu a base para a técnica jornalística. “Desejo longa vida à Famecos e que ela se aprimore e continue se mostrando necessária, afinal é o que vem fazendo ao longo de sua existência”. Em relação ao seu maior ganho profissional na daculdade, Rabin afirma ser a rede de contatos que fez. Ele aponta uma grande qualidade que a instituição tem. “Ela compra e apoia a ideia dos alunos. Talvez o 'Espaço Experiência' represente isso”, analisa.

Ele teve seu primeiro estágio na Rádio Gaúcha, na produção de um programa então apresentado pelo jornalista Lasier Martins. Depois, trabalhou como contratado da Agência RBS, onde ficou durante um ano e meio. Após se formar, continuou mais três meses na agência. Rabin foi chamado para fazer um teste na editoria de 'Mundo' da Zero Hora e trabalhou como plantonista, das 16h à 0h.

Sua rotina mudou quando concorreu a uma bolsa de estudos no Instituto Ling, que oferece vagas de mestrado e pós-graduação no exterior. Rabin foi indicado pela redação da Zero Hora e concorreu com jornalistas de todo Brasil. Ele começou o mestrado em Lisboa, Portugal, e centralizou seus estudos em democracia, misturando relações internacionais com ciências políticas.

Quando voltou de Portugal, trabalhou durante um ano em Zero Hora como repórter digital. Fez o curso de treinamento da Folha de S. Paulo, que mudou, mais uma vez, o rumo de Rabin e o levou à imprensa do centro do país, que sempre foi admirada por ele. Foram quatro meses de curso, morando em hotel pago pelo jornal paulistano. Depois, trabalhou como repórter freelancer na Folha de S. Paulo.

Aos 31 anos, Rabin é repórter da coluna 'Mercado Aberto' da Folha e confessa uma grande vontade. “Tenho planos de escrever 50 livros, mas não comecei nenhum”.
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(*) Integrante do projeto ‘Correspondente Universitário’ do Portal Comunique-se. Estudante do 2º semestre do curso de jornalismo da Faculdade de Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Famecos/PUC-RS).
Fonte:  http://portal.comunique-se.com.br/jo-com/79422-o-jornalismo-raramente-e-arte-diz-reporter-da-folha-de-s-paulo-info

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Robertu Raguso, cientista: "Zangões fazem sexo com orquídeas mentirosas"


 Imerso nos mistérios que envolvem a química entre os seres, pesquisador americano garante que não há nada de sobrenatural em supor que as plantas respondem à voz humana Foto: Leo Martins / Agência O Globo
 Imerso nos mistérios que envolvem a química 
entre os seres, pesquisador americano garante 
que não há nada de sobrenatural em supor que as plantas respondem à voz humana - 
Leo Martins / Agência O Globo

"Nasci em Nova Jersey há 50 anos, estudei em Yale e vivo em Ithaca, NY. A química italiana de minha avó iletrada na cozinha me deu o gosto pelos aromas e minha mãe amava plantas. Um dia, vi o casulo de uma mariposa e tudo se juntou. Hoje vivo numa casa com jardim do qual eu e minha família colhemos deliciosas folhas" 

Conte algo que não sei.
Primeiro, cheire este jasmim. Defina o odor. Então, contarei algo que você não sabe. 

Intenso, ao mesmo tempo bom e agressivo.
Pois no jasmim há cerca de 30 componentes doces e, mais difícil de detectar, o odor de fezes. Se, em laboratório, omitirmos esse cheiro “ruim” e mantivermos os outros, não se reconhece mais o jasmim. Fica doce demais, unidimensional. 

Cheiro de fezes é responsável pelo sucesso do jasmim?
Parece que sim... É como se fosse um fertilizante natural do aroma! A natureza tem muitos mistérios associados à química. Há uma planta brasileira, aristolóquia, que se parece com um pedaço de carne morta e tem cheiro de putrefação. Mas é uma mentira. Ela está atraindo insetos que põem ovos em animais mortos. E os comem. Em certas regiões de grandes herbívoros, elas sobreviveram e estão aí.

Ser protegido de grandes animais e atrair insetos gostosos! Sem se mexer muito. As plantas têm alguma consciência deste poder?
Consciência é um conceito humano. Mas o termo “estratégia” é aplicável. Algo ocorrido em milhões de anos. Quando um animal anuncia sua presença, pode atrair predadores, ou evitar. Isso é fácil entender para um pássaro, um peixe, para nós. Mas difícil para flores, que vivem e num ritmo que nem notamos. 

Porém, se movem...
E se comunicam. Fragrâncias são uma linguagem universal e antiga que flores e insetos entendem. Vivemos em nosso mundo sensorial. Não ouvimos o sonar dos peixes nem o ultravioleta que as plantas detectam. Mas sentimos aromas. Falta vocabulário.

Estratégias ou só acaso?
Se você é uma flor que cheira bem e recebe a visita de insetos, você precisa de polinizadores mas tem que competir com outras espécies. Precisa ensinar ao seu polinizador: “eu cheiro como melancia e tenho um ótimo néctar, você vai sempre querer mais” .

De certa forma, insetos e flores transam?
Pode-se dizer sem grande exagero que zangões fazem sexo com orquídeas mentirosas. Orquídeas são as maiores sedutoras e muito ardilosas. A mormolica, espécie brasileira que nãoé muito bela para nós, cheira como uma abelha fêmea. Os zangões, que vivem numa terrível competição entre si, a ponto de muitos nunca transarem, enlouquecem, querem levá-las, polinizam a cabeça das plantas. “Transam” com duas, três, dez flores, se enjoam, mas, um quilômetro depois, recomeçam. 

Zangões viciados em sexo...
São flores raras. Se fossem comuns, poderiam extinguir as abelhas. Ou a si próprias se não tivessem esse “contrato de fidelidade”. Um belo exemplo de perfeito equilíbrio.

Muita gente fala com pantas. Há alguma troca efetiva?
Aí reside o paradoxo fundamental da biologia de plantas. As plantas não têm cérebro nem sistema nervoso. Mas elas têm um sistema sensorial de receptores químicos. Elas sentem o cheiro de outras plantas. Seus próprios voláteis. E respondem. Recebem ondas de luz. Uma planta sabe que está na sombra de outra e precisa de sol. Busca a luz. Elas têm antenas. Captam vibrações e têm respostas, positivas ou negativas. Se numa voz humana houver vibrações benéficas, não há nada de sobrenatural em supor que as plantas ouvem a voz e respondem a ela.
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Fonte:  http://oglobo.globo.com/sociedade/conte-algo-que-nao-sei/roberto-raguso-cientista-zangoes-fazem-sexo-com-orquideas-mentirosas-18142216

Renascimento da filosofia alemã

Uma entrevista sucinta sobre o Dia Mundial da Filosofia, 
com Markus Gabriel, professor de 
Filosofia da Universidade de Bonn.
Professor Gabriel, o senhor disse certa vez que a Alemanha foi líder mundial da filosofia durante 200 anos. Agora chegou a época de retomar esta tradição. Isto vai dar certo?
Por que não? A constelação dos grandes nomes como Kant, Fichte, Schelling, Hegel, Marx, Nietzsche, Husserl etc., que teve repercussão mundial, até hoje não foi inteiramente trabalhada e é mais atual que nunca. Agora existe a grande chance de reconstruir as ideias básicas desta tradição ao nível da filosofia contemporânea global e em face dos desafios científicos e políticos da nossa época. Nisto também surgem naturalmente ideias inteiramente novas, que são apenas inspiradas nos grandes clássicos. Também filósofos como Habermas ou Gadamer seguiram exatamente um projeto dessa ordem. O importante é defender os argumentos numa forma de exposição hoje aceitável.

Qual é a situação da filosofia alemã atualmente, em comparação internacional?
A filosofia na Alemanha é internacionalmente presente e interessante, porque ela toma, por princípio, rumo diferente da outra poderosa tradicional filosófica, a filosofia contemporânea estadunidense. Isto caracteriza aquela que é chamada de filosofia “alemã”, que não parte do pressuposto de que as ciências naturais podem esclarecer tudo o que existe. Ela se volta contra o naturalismo, que aceita isto. Daí, as ciências humanas foram desenvolvidas no século 19 sobre as bases da filosofia, gerando também a receita do êxito das universidades alemãs no século dezenove. Os filósofos Fichte, bem como Hegel e Schleiermacher, organizaram como reitores a Universidade de Berlim e desenvolveram um sistema universitário, que foi o melhor do mundo, até a catástrofe de 1933.

Que temas, orientações e nomes são discutidos?
A partir da Alemanha são discutidos atualmente em todo o mundo sobretudo as orientações do Novo Realismo, a teoria crítica de Frankfurt e os projetos de pesquisa do Idealismo Alemão, que são desenvolvidos por exemplo em Leipzig e em Heidelberg. Esses projetos unem no seu todo as virtudes da filosofia contemporânea estadunidense (sobretudo a clareza da argumentação e a construção teórica) com a visão ampla da filosofia de língua alemã. Nos EUA, isto foi demonstrado por filósofos como Thomas Nagel, John Searle, Judith Butler e Robert Brandom, na Alemanha isto pode, é claro, ser logrado de maneira muito melhor em virtude da tradição estabelecida. Isto depende de nós. No momento, são discutidos internacionalmente, por exemplo, os trabalhos de Sebastian Rödl, Rahel Jaeggi, Anton Koch e Axel Honneth, para mencionar alguns nomes relacionados com as citadas orientações.

O senhor veio para a Universidade de Bonn em 2009, como o mais jovem professor de Filosofia da Alemanha. Como o senhor chegou à Filosofia? E o que constitui sua grande atração para o senhor?
Já como escolar aos 15 anos de idade, eu me perguntei onde nós nos encontramos na verdade. Somos apenas um monte de partículas elementares num universo sem significado? A realidade percebida é apenas uma ilusão, uma espécie de sonho, ou somos capazes de reconhecer as coisas como elas realmente são? Nenhuma outra ciência está capacitada a esclarecer estas questões abstratamente e de maneira seletiva. Isto é tarefa da filosofia, que surge naturalmente em diálogo com as outras ciências naturais e humanas. O grande atrativo da filosofia está hoje para mim no fato de que nunca houve antes tantos excelentes filósofos e filósofas, que trabalham num intercâmbio global de argumentos. Além disto, muitos dogmas foram eliminados: na verdade, nunca se pôde pensar de maneira tão livre como hoje, o que está ligado às conquistas do Modernismo. Para isto contribui também a filosofia, cujas construções teóricas giram em torno da questão sobre que imagem do mundo (caso haja realmente uma) pode hoje ser tida como legítima. A filosofia pondera sobre o que é o espírito humano, sobre como deveria funcionar uma sociedade justa e como tornar compreensível para nós mesmos, que nós somos livres. Numa ordem mundial globalizada, esta forma de reflexão é absolutamente indispensável.
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Dia Mundial da Filosofia em 19 de novembro de 2015
 © Markus Hintzen Photography - Markus Gabriel
Fonte:  https://www.deutschland.de/pt/topic/conhecimento/universidade-pesquisa/renascimento-da-filosofia-alema

150 anos de “Max und Moritz”

© dpa/Deutsches Museum Für Karikatur - Max and Moritz

Há 150 anos, o ilustrador e autor alemão Wilhelm Busch escreveu as travessuras de “Max und Moritz” e criou com isto uma versão precursora das modernas histórias em quadrinho.
“Não têm conta as aventuras,
as peças, as travessuras 
dos meninos mal criados...
Destes dois endiabrados,
 um é Chico; 
o outro é o Juca” 
(na tradução brasileira de Olavo Bilac)  – 
com estes versos começa uma das mais famosas histórias infantis alemãs. Os dois travessos foram criados há 150 anos pelo artista alemão Wilhelm Busch que, no século 19, estava entre os mais influentes escritores e desenhistas humorísticos.

Humor e arrepios

Em sete travessuras, os dois meninos irritam os moradores do seu vilarejo: a viúva Bolte, o mestre-escola Lämpel, o alfaiate Böck, o mestre padeiro, o fazendeiro Mecke e o tio Fritz. As galinhas da viúva Bolte são mortas com iscas preparadas por eles – depois, os meninos roubam as galinhas fritas da frigideira. O alfaiate Böck é atraído por eles, passando sobre uma ponte serrada. Eles enchem o cachimbo do mestre-escola Lämpel com pólvora. A sátira de humor negro de Wilhelm Busch zomba das características de determinados tipos, como a vaidade dos pequeno-burgueses. Mas também o castigo dos dois meninos é draconiano: o padeiro simplesmente joga os dois no forno, depois que caíram numa cuba de massa. Mas eles ainda sobrevivem e se libertam comendo a crosta de pão em que se encontravam. Quando os dois são surpreendidos na sua última travessura, rasgando sacos de cereais, o moleiro mói os dois formando grãos, que ele dá então de comer aos seus patos. O castigo implacável é considerado como adequado por todos os que foram prejudicados por eles.

Em “Max und Moritz – Eine Bubengeschichte in sieben Streichen“ (“Juca e Chico – História de Dois Meninos em Sete Travessuras”), humor e arrepio estão bem próximos. Não é nenhum acaso que os pedagogos da época de Bismarck tenham avaliado a história como obra frívola com um efeito nocivo para os jovens. Isto não afetou a sua popularidade: ainda no século 19, o livro foi traduzido em dez idiomas, entre as quais o japonês em 1887. Entretanto há quase 300 traduções em dialetos e línguas, entre as quais o latim e o grego clássico. Não é claro quem fez a brincadeira ou cometeu o erro de pré-datar o lançamento de “Max und Moritz” em 4 de abril de 1865. De qualquer forma, este foi durante muitos anos o registro feito na Wikipedia e a Alemanha festejou o jubileu, em parte, já na primavera setentrional. O fato é que Wilhelm Busch só passou seus desenhos para as placas xilográficas em agosto de 1865. Em outubro de 1865, Max e Moritz vieram realmente à luz.

Mesmo que, em Wilhelm Busch, as imagens e as palavras estivessem claramente separadas, principalmente nas cenas rápidas de “Max und Moritz” elas poderiam ser parte de modernas histórias em quadrinhos. Na primavera setentrional de 2015, uma exposição do Museu Wilhelm Busch – Museu Alemão de Caricatura e Desenho – em Hanôver demonstrou que, sem Wilhelm Busch, a moderna narrativa com imagens seria hoje completamente diferente.
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Fonte:  https://www.deutschland.de/pt/topic/cultura/artes-arquitetura/150-anos-de-max-und-moritz

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Ian McEwan: “A utopia é uma das noções mais destrutivas”

McEwan em sua casa, em Gray’s Inn, cenário de seu novo livro. / B. Gibson-Cowan

Escritor traz sua fascinação pelo choque entre fé e legalidade para seu livro mais recente

O outono londrino exibe todas as suas cores cálidas nas árvores que ladeiam Gray’s Inn, histórico complexo residencial de juízes e advogados no centro de Londres. Quatro mulheres de meia idade, colegas de um clube de leitura, ouvem as explicações de um esforçado guia que as conduz por um breve passeio literária. Acabam de ler e comentar no clube A balada de Adam Henry, o mais recente romance de Ian McEwan. Ficaram tão envolvidas que decidiram contratar uma visita guiada pelos cenários da vida de Fiona, a protagonista. A personagem é uma madura juíza da família, mergulhada em uma crise conjugal iniciada pelo pedido de seu marido de viver uma última aventura sexual fora do casamento, que passa por um caso complicado: um jovem, para quem faltam poucos meses para chegar à maioridade, sofre de leucemia e precisa de uma transfusão de sangue urgente. Contudo, ele e seus pais, testemunhas de Jeová, rejeitam o procedimento. Fiona precisa decidir se salva a vida do rapaz, contra a sua vontade, com uma injeção de sangue alheio. Enquanto seu próprio mundo desmorona, a juíza, que não teve tempo de ter filhos, vai ao quarto do hospital onde o jovem convalesce para tentar entender se deve fazer valer seu julgamento racional diante da fé religiosa dele.

Cotoveladas, cochichos, olhares discretos. Uma comoção sacode as mulheres do clube de leitura. Tudo porque, a apenas cinco metros delas, surge Ian McEwan. Uma das leitoras toma a iniciativa e se aproxima. Explica a ele a situação, diante do assombro do escritor, que está passeando com um jornalista estrangeiro pelos locais do romance. “Vocês vão ter de me pagar mais por este final de excursão”, brinca o guia, junto a um McEwan atônito, desejoso de saber mais antes de voltar a sua pied à terre londrina, algumas ruas para baixo, para contar a história para a esposa. Material literário em estado puro que serve de preâmbulo para uma conversa com um dos grandes da literatura britânica que, aos 67 anos, se afasta definitivamente da transgressão que marcou seu início e entra nos suculentos dilemas morais próprios do terreno da normalidade.

Pergunta.Não é a primeira vez que o sr. mergulha em uma área profissional em um romance. Desta vez, escolheu os juízes de família. O que aprendeu com eles?
Resposta. As decisões dos juízes, dos bons, atingem um alcance filosófico espetacular. Demonstram uma grande compaixão e uma enorme racionalidade, que acredito serem componentes importantes de nosso sistema moral. E, em sua pior vertente, são venais, preguiçosos, irritantes, pouco transparentes e estúpidos. Então realmente quis descrever a natureza humana através de uma instituição. O direito da família foi pouco utilizado pelos romancistas, que em geral preferem o assassinato e a violência. Mas está ligado aos dilemas morais do dia a dia. A separação, o futuro dos filhos, o final do amor, a doença. As varas de família estão cheias de histórias humanas muito boas, e muitas vezes inquietantes.

P. Fiona deve decidir sobre a separação de irmãos siameses para que um sobreviva, contra o desejo dos pais católicos; depois, sobre uma transfusão de sangue para salvar um rapaz testemunha de Jeová. Até que ponto o livro é uma defesa do ateísmo?
Se você quiser viver como determina a Bíblia cometeria genocídios. A lei secular é uma força superior a qualquer religião”
R. As religiões, os textos sagrados, não são bons guias para o comportamento moral. Se você quiser viver segundo os ditames da Bíblia, por exemplo, deve escravizar as pessoas, cometer suicídio e limpeza étnica. Muitos cristãos leem a Bíblia seletivamente. Tomam o que parece prudente e rejeitam o resto. E fazer isso implica funcionar em um sistema moral diferente do da Bíblia; um superior, na verdade. As religiões trataram de nos persuadir de que Deus é a fonte da moralidade. Mas não pode ser esse o caso se para corrigi-la devemos recorrer a outra fonte. Então, qual é a base de nossas decisões morais? A lei secular é uma força moral superior a qualquer religião. Mas me fascina quando ocorre esse choque entre a fé, sincera e devota, e a lei.

P. O sr. viveu muito próximo da ameaça do fanatismo religioso quando foi decretada a fatwa contra seu amigo Salman Rushdie (foi condenado à morte pelo aiatolá iraniano Ruhollah Khomeini), a quem o sr. escondeu durante um tempo em uma casa de Cotswolds. Foi o momento em que o Ocidente se deu conta de que o século XXI não estaria livre dessas ameaças?
R. Nos anos oitenta, para muitos de nós que moramos na Europa pós-cristã, a religião nunca entrava na conversa. Era algo que a gente fazia há 150 anos, antes de Darwin. Mas o que aconteceu com Salman, primeiro, e sobretudo o que veio depois com o 11 de Setembro, nos colocou frente a frente com o poder da fé religiosa.

P. O que o sr. pensa quando lê sobre as meninas londrinas que fogem de casa para se unir à jihad?
R. É um mistério total. Uma das noções mais destrutivas da história do pensamento humano é a utopia. A ideia de que é possível formar uma sociedade perfeita, seja nesta vida ou em outra posterior, é muito destrutiva. Porque a consequência é que não importa se você matou um milhão de pessoas no caminho: o objetivo é a perfeição e isso desculpa qualquer crime. É uma fantasia que teve seus equivalentes seculares, no comunismo soviético, por exemplo, e também com os nazistas. A ideia da redenção, uma ideia milenar, sempre exige inimigos.
Bem na hora em que você aprende a viver tem de fazer o ‘check out’. Uma bala está vindo em sua direção e você não vai se esquivar”
P. A passagem inexorável do tempo está muito presente em seu livro. Como o sr. convive com seu próprio envelhecimento?
R. Outro dia falava com Martin Amis por e-mail e dizíamos que somos bem felizes, e nos queixávamos de como é triste que, exatamente quando você aprende a viver, quando você entende o truque, tenha de fazer o check out. Uma série inteira de indícios menores, desde uma dor nas costas até a perda de cabelo, estão aí lembrando você de que há uma bala que vem em sua direção e que você não vai se esquivar. Então, mais vale usar bem esse tempo que resta.

P. A crise conjugal de Fiona, a protagonista, surge quando Jack, seu marido, faz um último pedido. Um último affaire apaixonado...
R. Vejo que você simpatiza com essa ideia [risos].

P. Eu me perguntava, na verdade, se o sr. é que simpatizava... Se acredita que o pedido é justo.
R. Digamos que me interessa muito culturalmente. Jack e sua mulher não faziam amor havia sete semanas. Quando estive nos Estados Unidos conversando com amigas de lá, elas me disseram: “Sete semanas? Isso não é nada!”. E quando conversava com espanholas ou francesas, me diziam: Fiona é uma má esposa, não está cuidando do marido. As visões são diferentes.

McEwan em sua casa, em Gray’s Inn, cenário de seu novo livro. / B. Gibson-Cowan

P. O sr. disse que, quando começou a escrever, tentava buscar uma fronteira e, então, derrubá-la. Continua sentindo essa pulsão pela transgressão?
R. Não da mesma maneira. Naqueles dias me sentia muito mais interessado pelo sexual e o neurótico. Estava muito influenciado por Freud e por como a sexualidade pode definir o mundo. Hoje a vejo como um componente crucial, entre muitos outros. Atravessar fronteiras, ser transgressor, tudo bem. Mas há muito a explorar dentro dessas fronteiras, aí dentro está toda a natureza humana.
P. Primeiro amor, últimos ritos, seu primeiro livro de contos, foi publicado há exatos 40 anos. O sr. o releu? Sente que ainda o pertence?
R. Sim, sem dúvida. Algumas partes reli com verdadeiro prazer e até admiração. Outras me irritaram além do imaginável. Coisas técnicas, em toda uma vida você aprende a escrever.
P. O sr. parece desfrutar do sucesso literário, não parece um ermitão, como Salinger ou Pynchon.
R. Não, não sou. Uma das muitas coisas boas que Christopher [Hitchens] me disse foi: “A felicidade de escrever sozinho todo dia sabendo que você vai ter uma interessante companhia ao cair da noite”. Acho que tinha toda a razão. É maravilhosa essa combinação de estar completamente absorvido por seu trabalho e, quando chegam as sete ou oito da noite, beber vinho com amigos.
P. O sr. gosta muito de caminhar. Em que esses passeios contribuem?
R. É uma forma de estar exatamente onde se está, cheio de prazer no momento imediato. A conversa é uma parte importante disso. Às vezes, com meu melhor amigo de caminhadas, subimos uma cordilheira, com vistas impressionantes de ambos os lados. Então, rodeados de beleza, abrimos uma garrafa de vinho. Sempre levamos duas taças. Andar em uma paisagem com duas taças cheias de bom vinho tinto faz você sentir que o mundo é sua sala. É delicioso.
Reli partes de meu primeiro livro de contos com verdadeiro prazer; outras me irritaram além do imaginável”
P. O sr. é filho de um militar e viajou pelo mundo em sua infância seguindo os passos dele. Essa experiência de observar seu país de fora e, ao mesmo tempo, de dentro, em que contribuiu para seu destino como escritor?
R. Não sei. É verdade que sempre fui um outsider da cultura britânica. Também teve a ver o fato de ter ido para um internato público um tanto experimental. A ideia, agora fora de moda, era transformar meninos da classe operária em meninos de classe média. Era muito estimulante a sensação de ausência de classes. Essa combinação me proporcionou um vago sentimento de exílio, uma certa distância cultural. Quando jovem, trabalhei seis meses como lixeiro em Camden, pendurado em um caminhão. E me dei conta de que, entre as pessoas com quem comia alguma coisa nos descansos, a variedade de inteligências era igual a se estivesse na universidade. Havia idiotas e pessoas brilhantes. Me fez compreender como a sorte e o acidente do nascimento determinam quem você é.
P. Isso me lembra seu encontro recente com seu irmão, cuja existência o sr. desconhecia. Fruto de uma aventura extraconjugal de seu pai com sua mãe, então casada com outro homem, foi entregue em adoção. Quando o conheceu há alguns anos, era um pedreiro com quem, a priori, o sr. não tinha muito a ver.
R. Exato. E agora o que você diz me faz sentir culpado, porque estou devendo a ele um e-mail há um mês. Vou escrever assim que você for embora. Eu não o tinha em mente, mas ele é exatamente um exemplo do que estou falando. Ele poderia ter sido diferente. Mas odiava o colégio e queria trabalhar. Era impaciente. Se tivesse encontrado o professor inspirador adequado, não tenho dúvidas de que poderia ter sido outra coisa. Mas foi feliz assentando ladrilhos, é muito bom nisso. Não se deve assumir que se a pessoa não é professora de universidade, não se realizou.
P. Em sua casa não havia muitos livros. Mas o sr. afirmou, em alguma ocasião, que parte de sua vocação literária deve ter vindo de sua mãe, que era especialista em preocupações...
Quando jovem, trabalhei como lixeiro. E me dei conta de que a variedade de inteligências das pessoas era igual a se eu estivesse na universidade.”
R. Tinha uma imaginação prodigiosa para o desastre [risos]. Havia um ritual toda vez que saíamos de casa. Quando estávamos suficientemente longe, dizia: “Deixei o ferro de passar ligado”. Eu a acompanhava, via-a tirar o ferro da tomada, e mesmo assim me perguntava: “Será que desligou mesmo?”. Acho que a imaginação existe, acima de tudo, para nos fazer antecipar desastres. E ela era um grande exemplo disso. Minha mãe sempre esperava que fosse voltar para casa e não encontrar nada, apenas uma ruína, e tudo por culpa dela.
P. O que é a felicidade para o sr. hoje?
R. Estou muito apaixonado por minha mulher, e isso é uma grande fonte de felicidade. Trabalhar é uma felicidade. A amizade, andar, jogar tênis. Pela primeira vez em minha vida, desde que era menino, tenho um cachorro. Isso é uma fonte de felicidade e de interesse absoluto. Ah, e outra fonte de prazer é me tornar avô.
P. O sr. já é?
R. Minhas enteadas têm filhos, e meu filho mais velho e sua esposa têm um bebê de um ano. Ter filhos tem sido uma grande fonte de interesse e prazer. Gosto muito de ser pai, adorava quando eram crianças, especialmente nessa etapa mágica dos 6 aos 12 anos. Então pensei que tudo iria ladeira abaixo, mas o processo, nem sempre fácil, de se tornar um adulto me fascinou.

A balada de Adam Henry. Ian McEwan. Tradução de Jorio Dauster. Companhia das Letras. São Paulo, 2014. 200 páginas. R$ 37,90.
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Fonte:  http://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/20/cultura/1448023510_439162.html

A perda da inocência

 Lucrecia Zappi*
 
Lolita
James Mason e Sue Lyon em 'Lolita', de Stanley Kubrick.

Fico imaginando o grau de indignação geral se o ENEM, ao invés de Beauvoir, tivesse apresentado parte do primeiro parágrafo de Lolita, o clássico de Nabokov

A frase célebre da Simone de Beauvoir, “Uma mulher não nasce mulher, torna-se mulher”, que levantou poeira entre os candidatos ao ENEM, me deixou de orelha em pé: “pedófila”, “nazista” e “baranga” foram alguns dos atributos dirigidos à escritora francesa. É curioso notar, geralmente quem não leu a obra é quem atira a primeira pedra.

Fico imaginando o grau de indignação geral se o ENEM, ao invés de Beauvoir, tivesse apresentado parte do primeiro parágrafo de Lolita, o clássico de Nabokov lançado seis anos depois de O Segundo Sexo (1949). Só para refrescar, o livro começa assim, e é um dos mais belos inícios em toda a história da literatura. Por ser tão irresistível, vai o parágrafo todo:

“Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.”

O livro choca porque representa o que é proibido, o amor entre uma garota de 12 anos e um professor de meia idade beirando os 40. É a perda da inocência por meio do domínio do homem sobre a mulher, e até não surpreende que o romance, por obsceno, tenha sido banido na França e em outros países. Por outro lado, a história da ninfeta mascando chiclete que seduz porque não tem para onde ir, onde o sexo consensual questiona o estado vitimizado de uma mulher, para, em seguida, por meio das ações independentes da heroína, romper com o controle e possessão do seu protetor, é bastante transgressiva. Rompe com tabus culturais e muitas vezes o leitor acaba simpatizando com o charme existencialista do próprio narrador, Humbert Humbert.

No existencialismo francês o homem é uma pessoa livre, que se inventa por meio de suas ações, ao invés de ser levado pelas circunstâncias. Penso imediatamente na pintura mais famosa de Delacroix, A liberdade guiando o povo, de 1830 exposto no Museu do Louvre. No quadro, a figura heroica da liberdade que segura a bandeira é representada por uma mulher. Claro, no mundo idealizado de Delacroix, as pessoas são naturalmente livres. E cobertas de glória.

Na violência de gênero podem até se vitimizar pelo abuso ou desigualdade, mas é justamente por meio destas circunstâncias que uma pessoa tece seu papel no mundo.

Sempre gostei das figuras menos heroicas na arte, ou com menos liberdade para atuar. Parecem-me mais conectadas à vida. Na violência de gênero podem até se vitimizar pelo abuso ou desigualdade, mas é justamente por meio destas circunstâncias que uma pessoa tece seu papel no mundo. Falando em tecer, impossível não se deparar no Parque Ibirapuera com a escultura O ninho de Louise Bourgeois, de 1996, a imagem da aranha gigante do acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo.
Bourgeois – tão parisiense quanto Beauvoir, e só três anos mais jovem que a escritora –, afirmava que a obra tinha que ver com o laço profundo que sempre manteve com sua mãe, talvez um reflexo da relação difícil que tinha com o pai, que queria um menino e rejeitava a filha por justamente “não ter nada entre as pernas”.

O que esta obra de oito pernas me ensina é que qualquer pessoa, ou uma mulher neste caso, que queira quebrar as regras sociais ou decidir quem quer se tornar – e vale como manual de sobrevivência –, tem que aprender como fazer a própria tessitura. E isso não envolve só inteligência, paciência e sutileza.

Esta trama pode conter, como em Lolita, a tragédia do abandono, mais a submissão, a sedução que beira o tédio, o trepar porque sim. É o momento da catarse de Dolores Haze, quando resolve trocar de jogo – ou de homem. E quem sabe, talvez seja quando Lolita supera a própria perda, fica mais forte e decide tornar-se mulher.
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*Lucrecia Zappi, escritora e jornalista, é autora de Onça Preta (Benvirá) e está terminando seu segundo romance, Acre.
Fonte:  http://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/13/cultura/1447442803_643560.html