sexta-feira, 4 de maio de 2018

"Barbosa é fusão de Lula e FHC"


 


Paulino: “Voto será em quem os eleitores entenderem que tem mais condições 
de resolver questões e passar mensagem convincente”

O objetivo de uma pesquisa eleitoral não é prever o futuro, mas organizar uma história. O diretor-geral do Instituto Datafolha, Mauro Paulino, mede as palavras para evitar qualquer afirmação que possa ser interpretada como aposta do resultado da eleição de 2018. Paulino sempre recorre às estatísticas para evidenciar tendências. Uma delas é que há neste pleito um número crescente dos eleitores-pêndulo, aqueles que não são movidos por ideologia, são inconstantes, não têm um voto fidelizado e observam os candidatos e as propostas ao longo do processo.

Na última sondagem do Datafolha, divulgada em abril, 38% dos eleitores se encaixaram nesse universo. A pesquisa confirmou, segundo Paulino, que "a prisão não abalou a imagem" do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A identificação do eleitorado de baixa renda com Lula parece intocável. O diretor do Datafolha pontua que quase 70% do eleitorado brasileiro tem renda mensal familiar de no máximo três salários mínimos. São eles que definirão quem será o próximo presidente.
Outro indicativo da pesquisa, para Paulino, é que pelo menos três candidatos podem se engalfinhar na reta final pelo segundo turno. Ele faz o diagnóstico com base na curva histórica que mostra os votos no PT caindo, no PSDB bastante estagnado e a escolha por "uma terceira via" em ascensão. É neste contexto que o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa, recém-filiado ao PSB, parece um nome com grande potencial. De origem humilde, Barbosa é o Lula intelectualizado, ou o Fernando Henrique que pode se conectar com o povo.

Sobre o PSDB e Geraldo Alckmin, o diretor do Datafolha advoga que dificilmente o tucano vai chegar ao início da campanha com 5%. "Seria muito improvável imaginar que ele vai continuar nesse patamar baixo, assim como um candidato do PT. E assim como o candidato que seja apoiado pelo MDB."

Valor: A intenção de votos para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva segue alta, mesmo após a sua prisão. O que explicaria essa estabilidade de um nome que provavelmente não será candidato?
Mauro Paulino: Na verdade o Lula caiu um pouquinho na espontânea, conseguimos comparar com a pesquisa anterior, mas ficou estável nos cenários de segundo turno e aumentou um pouco seu potencial de transferência de votos. Havia 27% que votariam com certeza em um candidato apoiado por ele e isso passou para 30%. Considerando o conjunto da pesquisa dá para dizer que a prisão não abalou a imagem de Lula. Pode ter abalado um pouco as intenções de voto, não porque as pessoas deixaram de querer votar nele, mas porque a prisão se fez concreta e alguns eleitores do Lula acham que ele não poderá concorrer de fato. Esse é o principal motivo da oscilação negativa nas intenções de voto.

Valor: O que explica esse fenômeno?
Paulino: A lembrança do eleitorado de baixa renda dos dois governos dele. E a gente não pode se esquecer de que é esse eleitorado que decide a eleição no Brasil. Quase 70% dos eleitores no Brasil [população acima de 16 anos] têm renda familiar mensal de até três salários mínimos: 48% recebem até dois salários [renda familiar] e 20% recebem entre dois e três salários. Então são 68% dos eleitores. Sem convencer esse estrato, nenhum candidato se elege no Brasil. Há essa lembrança de conquistas associadas muito fortemente aos dois governos do Lula, que foram se perdendo a partir do governo Dilma. Existe essa identificação muito forte [com a era Lula], essa lembrança de ganhos, e não só financeiros, mas de acesso a faculdades, por exemplo; 2014 foi a primeira eleição do país em que a maioria dos eleitores tinha pelo menos o segundo grau. Em geral, nessa faixa de baixa renda, os jovens que entraram para a faculdade foram os primeiros da família a ter essa oportunidade. Tudo isso criou um laço muito forte com a figura do Lula, muito mais do que com o PT.

Valor: Após o impeachment houve certo resgate dessa imagem do governo Lula, certo saudosismo?
Paulino: Sim. A partir de 2013 a crise de representação se explicitou, e a descrença nos políticos e nos partidos, especialmente, que já era muito marcante, se evidenciou ainda mais. De lá para cá a gente passou a ter mais de 60% de eleitores que, constantemente, não têm nenhum partido de preferência. Isso chegou a 75%. Os eleitores estão valorizando muito mais os nomes, tentando buscar candidatos que podem resolver seus problemas do dia a dia, ou atrapalhar menos a sua vida cotidiana. Praticamente 2/3 dos brasileiros ignoram a existência dos partidos.

Neste ambiente atual, o Lula acaba por ser o maior líder, o que é identificado por um maior número de pessoas como um político confiável, mesmo com as acusações, mesmo com todo o noticiário, desde o mensalão, a condução coercitiva, o depoimento ao [Sérgio] Moro e, agora, a prisão. Mesmo com tudo isso a gente tem um terço de eleitores que podem ser classificados como pró-Lula. Se o Lula estiver no cenário, eles votam no Lula; se ele não estiver, eles dizem que votariam com certeza em um candidato apoiado por ele e não o rejeitam. Por outro lado, temos também um terço do eleitorado que não vota no Lula de forma alguma e não vota em candidato apoiado por ele de forma alguma. E sobram 38% que são eleitores-pêndulo, eles variam de opinião, esperam a campanha, avaliam os candidatos sem se engajar em nenhum dos dois lados. Esse eleitorado-pêndulo subiu: na pesquisa anterior era 30%, agora é 38%.

Valor: E esse eleitorado-pêndulo é outro segmento crucial para definir a eleição, além do eleitor de baixa renda?
Paulino: Justamente. Os candidatos precisarão entender isso e focar nesse eleitor-pêndulo e nos órfãos do Lula. Esses eleitores-pêndulo são, em sua maioria, mulheres, de baixa renda, moradores do Sudeste e com escolaridade média [ensino médio]. O Lula, quando não está nos cenários, o que salta aos olhos é que aumenta muito o número de votos brancos e nulos. Cresce de 20%, o que já é um recorde para este momento em que vivemos, para 30%. É sintoma dessa falta de representação.