domingo, 4 de novembro de 2012

Um, dois, tlês, coloca o chinês!


Um dia ele se atrasou 10 minutos para o treino; pediu desculpas até para a bandeirinha - Jonne Roriz/Estadão
Um dia ele se atrasou 10 minutos para o treino; pediu desculpas até para a bandeirinha
 Jonne Roriz/Estadão


Zizao chegou como estratégia de marketing. Quase sem jogar, virou o mais improvável anti-herói da Fiel

Quer água de cocô? Hehehe." O Zizao vai abrindo a geladeira e eu não sei se essa risadinha dele é a de sempre. Um reflexo nervoso que encerra as frases que ele estropia em português? Ou uma zombaria ensinada pelos amigos no vestiário? Penso rápido e fico com a primeira. Sua intimidade com os latins ainda não dá pra essas sutilezas de deslocar a sílaba tônica em nome de uma boa sacanagem. "Água de cocô. Brasil. Gostoso. Hehehe", ele insiste, e abre espaço pros copos na mesa com tampo de vidro. Numa braçada ele escanteia os montes de Bis, bolachas recheadas e um livrinho de capa verde vai junto. Português do Brasil para Chineses. Dentro, uns rasgos de papel do seu dicionário artesanal construído dia a dia desde que chegou para jogar no Corinthians, em março. Lá fora, o silêncio do vento, latidos esparsos e os passarinhos do condomínio bucólico onde ele mora, fora de São Paulo. O verbete mais novo, em letra mirrada de criança, é simples e esperançoso como o seu futebol: "apoio = support = (dois ideogramas chineses que sou incapaz de reproduzir)". Anotou porque queria escrever no Facebook um agradecimento à mais fiel das torcidas. "Obrigado por seu apoio."

Bebemos a água de coco. E logo eu percebo que há uma palavra banida do vocabulário zizaozístico. Marketing. Ela exerce um estranho poder sobre ele - o poder de repentinamente deixá-lo puto. Sem hehehes. Nem precisa entender a frase inteira. Se ouve "marketing" o Zizao já sabe do que se trata. E então desapruma as sobrancelhas, murcha os lábios e diz numa tacada só, em inglês yakissoba: "É uma boa ideia o clube me trazer como estratégia de marketing. Isso o ajuda a ficar conhecido na China. Mas tem uma coisa importante: eu preciso jogar bem pro marketing funcionar. Se eu não jogo bem, as pessoas se esquecerão de tudo". Soa quase como um grito de socorro. Deve ser chato ser visto como um negócio, um enfeite. Um vaso da dinastia Mao para mera apreciação e, às vezes, deboche. Já teve equipe de TV que levou o Zizao pra equilibrar melão na cabeça no Mercado Municipal. Outra que o fez cantar "aqui tem um bando de loucos..." e mais uma que só queria saber se ele conhecia Tufão e Carminha. "No conhece. Hehehe", respondeu, um tanto sem jeito e assustado.

O economista Luis Paulo Rosenberg, vice-presidente do Corinthians, nunca tergiversou sobre o plano que ele mesmo inventou: "O mercado de futebol na China está crescendo rápido. Tem empresário graúdo investindo. O Zizao é o nosso jeito de fazer os chineses olharem pro Corinthians. Queremos colocar a marca Corinthians na China pra vender camisas lá, fazer amistosos lá, pré-temporadas, parcerias com empresas de lá". Por que lá? A economia, estúpido. Lá o marfinense Drogba foi jogar por US$ 320 mil por semana. E também o argentino-fluminense Darío Conca, por US$ 60 milhões por cinco temporadas. Lá está o técnico italiano Marcelo Lippi, campeão do mundo em 2006. Lá o Barcelona belisca € 10 milhões numa pré-temporada de duas semanas. Rosenberg quer enfiar o Corinthians nessa ciranda. Calma, palmeirense... Não é tanta maluquice assim. "O mercado chinês de futebol está em formação. Os torcedores ainda não se identificam com os clubes locais, estão aprendendo a gostar do jogo. E já é o décimo campeonato com maior média de público no mundo, na frente do Brasil, o 13º. Trazendo um chinês pra cá, o Corinthians tenta se posicionar entre as marcas referenciais que estarão no imaginário desse torcedor em formação. Com estratégias complementares, como oferta de produtos do clube, plano de sócios e excursões constantes, pode dar certo", analisa o Fernando Ferreira, sócio-diretor da Pluri Consultoria Negócios Esportivos. 

Vendo-o afundado no sofá da sua sala, de camiseta, calça de abrigo e havaianas, eu acho que o Zizao não dá a mínima pra essa coisa toda. Ele quer jogar. Mais que isso. Quer mostrar que sabe jogar e assim afastar um pouco a sombra do tal marketing. E, se me permitem um pitaco neste país de técnicos de futebol e comentaristas políticos, arrisco queimar a minha língua: pelo que vi nos treinos das últimas duas semanas, digo que o Zizao sabe jogar. Não é um Messi, obviamente, ao contrário do que jurou o repórter de uma TV estatal chinesa que veio entrevistá-lo esses dias. Mas está longe de ser um perna-de-pau. Vi o Zizao marcar gols de cavadinha e de sem-pulo. Driblar com certa desenvoltura. E perder umas bolas fáceis. Acima de tudo, vi o Zizao correr pra chuchu. "Olha, quando a gente soube que viria um chinês pro time ficou todo mundo desconfiado. Pra que um chinês?! Pô, com esse monte de jogador que tem no Brasil...", me disse numa tarde quente o lateral-esquerdo Fábio Santos. "Mas um boleiro reconhece outro bem rápido. No primeiro treino, assim que o Zizao tocou na bola, a gente sacou que ele sabe jogar." Os meus colegas com mais tarimba em coberturas futebolísticas diziam - com razão e evocando o mestre Didi - que treino é treino e jogo é jogo. Alguns deles, porém, compartilhavam, além da beirada do campo, uma dúvida a respeito de qual seria a perna boa do Zizao. Porque num exercício de cruzamentos e finalizações, o china batia de esquerda e de direita com a mesma força e precisão.

"Direito melhor. Hehehe", o Zizao afirma, mostrando o dedão daquele pé, onde há uma colônia de calos e bolhas a atestar seu uso mais frequente. Com 1,70m, 63 kg e uma voz fina e hesitante, o Zizao parece um menino de 16 ou 17 anos, embora tenha 24. Pelos meus cálculos, a timidez dele é 358 vezes maior que o PIB da China. Mesmo assim ele não reluta em me mostrar a casa que comprou e está pagando em prestações com o grosso do seu salário de US$ 15 mil por mês. Comprou e não alugou porque, se puder, quer ficar pra sempre no Brasil. Curioso isso, pois o que ele conheceu do País nestes oito meses se resume às duas rodovias que usa para ir e voltar do treino e aos filmes Cidade de Deus e Tropa de Elite que lhe indicaram dizendo "toma, olha como é o Brasil". No ano que vem ele quer trazer a namorada chinesa e ir para Fernando de Noronha, que garantiram pra ele ser um "palaíso". Mas raramente o Zizao sai de casa. É praticamente um china in box. Provou caipirinha e não gostou. Feijoada, sim. E admira a religiosidade do povo local. "Tite conversa com santa. Todos dias. Acho ouve ele. É bonito. Hehehe," conta sobre o treinador.
Seu empréstimo ao Corinthians termina no final de 2013 e, depois disso, sabe-se lá. A casa ele achou na internet. É dessas pré-fabricadas de madeira, instalada sobre um andar térreo de alvenaria. Tudo simples, com poucos móveis e só uma traquitana made in China digna de nota: um robô-vassoura. Você aciona o bicho por controle remoto, ele faz o serviço aos rodopios, reconhecendo degraus, cantos, toda sorte de obstáculos, e no final volta sozinho pra tomada. Uma beleza. No andar de cima vive o casal de amigos chineses que mora com o Zizao. Zhengjie Zhuang, a mulher, acaba de dar à luz. Yang Jiang, o marido, está há oito anos no Brasil, ajuda Zizao como intérprete e tem um negócio de importação de coisinhas pra animais de estimação. No momento, ele aposta nas unhas de silicone para gatos. "Na China é um sucesso. Aqui ainda vai pegar." Os três conversam em mandarim. Mas a língua materna do Zizao é o cantonês. Nela, o seu nome, Zhi Zhao (Zizao e a variante Zizão são obras corintianas), é pronunciado Tchi Tchu, de onde vem o apelido Tchu. Mas o Yang não gosta de chamá-lo assim. "É que na minha cidade Tchu quer dizer fedido."

O Zizao mora no andar de baixo, uma parte da casa que cheira a sabão em pó. O quarto dele fica ao lado da área de serviço. É de onde ele ouve todos os dias, perto das 6 e meia da tarde, um vizinho gaiato parar o carro no portão, acelerar forte e gritar: "Vai Zizao! Vai Colíntias!" Também pensa na mãe, no pai e na irmã olhando as datas de nascimento deles que tatuou no braço direito. E onde ri sozinho ao lembrar o Pacaembu e a magnética embevecida assim cantar: "Um, dois, três! Coloca o chinês!" Isso me remete a um comentário do publicitário Washington Olivetto sobre a capacidade dos corintianos nos encantarmos com certos jogadores folclóricos do nível de um Ataliba, um Biro-Biro, um Zizao: "O time que tem um monte de anti-heróis na plateia convive melhor com seus anti-heróis de dentro do campo". Meu amigo jornalista Celso Unzelte, grande historiador do Timão, lembra do volante cintura-dura Ezequiel e valida: "Ao contrário dos gênios, esses caras são como nós, mortais. Só que tiveram a chance de estar lá embaixo jogando. Dão tudo de si como nós daríamos". 

Retornemos ao quarto do Zizao. Enfileirados perto da porta há dois pares de chuteiras e dez tênis Nike, seu patrocinador. Uma cama, uma mesa, um violão e um criado-mudo cheio de moedas e cédulas de yuan, o dinheiro chinês. Nas paredes pintadas de laranja berrante ele pendurou com esparadrapo uns cartazes que o Tite lhe deu. Num deles, em português e inglês, se lê "Humildade. Ambição. Sabedoria". Noutro, uma frase do craque Tostão: "Ao contrário do que diz o chavão, que o medo de perder tira a vontade de vencer, os grandes jogadores e times começam a perder mais que o habitual quando se acostumam com a vitória, o sucesso, a rotina, e perdem a ansiedade, o medo de serem derrotados". O Zizao diz, sem tirar os olhos de um cubo mágico que tem entre os dedos: "Eu entende. Yang traduz". Ele acerta todas as cores do brinquedo logo depois. Não gastou nem dois minutos. "Existe técnica. No bom ainda. Record mundial cinco segundos."

Bolonas e bolinhas. E aí está. Jogar futebol, pro Zizao, é como resolver um cubo mágico. Questão de técnica e raciocínio. A intuição ele deixa pros brasileiros. Foi assim desde que aos 9 anos ele decidiu ser jogador profissional na China - um país, como lembra o Yang, que só é bom com as bolinhas pequenas e sempre viu o futebol como coisa de malandro. Mas o pai do Zizao deu aquela força. Botou o menino numa escolinha e foi atrás de livros e vídeos pra entender o jogo. Leu biografias de Zidane, Maradona, Ronaldo, Beckham. Viu gravações dos jogos dos grandes times europeus. "Trabalhar é uma necessidade da vida. E trabalhar como jogador era o sonho do Zizao, então eu dei o meu máximo apoio, como daria em qualquer outra profissão que ele escolhesse", me diz por Skype, de Panyu, sudeste da China, o patriarca Chen Jing Xian, de 50 anos. O Yang, que traduz a conversa, garante que Jing Xian se tornou um entendido no assunto. "Quando assiste a um jogo no estádio, ele vai apontando quem está fora de posição, quem tem boa técnica e quem é ruim e, principalmente, quem está com preguiça."

Vai ver é por isso que o Zizao treina tanto. É comum que ele durma no centro de treinamento para se exercitar na manhã seguinte, sozinho, sem ordem de ninguém. Nessas horas está sempre com a bola, chutando-a num paredão, ensaiando viradas rápidas, ou apenas correndo com ela colada nos pés. O preparador físico Fábio Mahseredjian conta que pede pra ele não exagerar, porque, se deixar, o Zizao treina em dois períodos todos os dias - por conta própria. "Eu já trabalhei com jogador croata, peruano, argentino, italiano. E te juro: o Zizao é o primeiro que eu vejo treinar sem ser obrigado. Um dia furou o pneu do carro dele e ele chegou dez minutos atrasado. Você precisava ver o tanto que esse menino se desculpou. Pediu desculpas pra comissão técnica, pros roupeiros, pro outros jogadores, para a bandeirinha de escanteio...", diz, hiperbólico, o Mahseredjian. No momento, ele faz um trabalho de fortalecimento muscular com o Zizao, porque o Tite, em bom titenês, pediu para melhorar "o potencial de estabilização" dele. Traduzindo: o Tite, egresso da escola gaúcha de futebol, acha que o Zizao precisa aguentar mais em pé quando levar uns trancos dos adversários. Desde que chegou, ele já sofreu duas luxações no ombro - a primeira por causa de um tombo, a segunda por causa de um simples puxão na camisa - e teve que operar. 

Até este domingo, o Zizao tinha jogado apenas 13 minutos. Contra o Cruzeiro, no dia 17 do mês passado. Chutou pro gol, caiu, cobrou escanteio, deu passe de calcanhar. E correu pra chuchu. Ao todo, tocou nove vezes na boa. Na melhor delas deixou um zagueiro sentado e, quando ia deixando o segundo com uma pedalada, acabou desarmado. Se passasse, ficaria sozinho na cara do gol. "Abusado esse Zizao!", espantou-se o narrador Milton Leite. Nos dias seguintes à partida, o china ficou horas na frente da TV revendo o lance. Queria entender onde tinha errado, se havia outra saída. E, provavelmente pensando num cubo mágico, concluiu: "Melhor jogar bola baixo perna do zagueiro". Vai Zizao! Vai Colíntias!
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Reportagem por  CHRISTIAN CARVALHO CRUZ - O Estado de S.Paulo
Fonte:  http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,um-dois-tles-coloca-o-chines!--,955433,0.htm

E o homem criou Sandy

Tempestade ameaça a cidade-símbolo da riqueza e da potência humana - Lucas Jackson/Reuters
Tempestade ameaça a cidade-símbolo da riqueza e da potência humana
Lucas Jackson/Reuters

Para filósofo da ciência, o furacão que castigou Manhattan está longe de ser um evento 'natural' e é a prova de que cidadãos e governos terão de levar realmente a sério as mudanças climáticas

Nós, homens modernos, costumamos nos imaginar como seres racionais, que orientam suas ações pela lógica da causa e efeito, capazes de domar a natureza com os instrumentos avançados da ciência e da tecnologia. Construímos metrópoles, civilizações e uma inabalável autoconfiança. E então, de um dia para o outro, uma tempestade de proporções bíblicas ameaça a cidade-símbolo da riqueza e da potência humana. E a natureza cobra seu preço dos inquilinos de um planeta que se torna pequeno diante de suas ambições.

"Em primeiro lugar, deixe-me dizer que o furacão Sandy não foi um evento 'natural'." Com essas palavras, surpreendentes na boca de um filósofo da ciência, o australiano Peter Singer começa a entrevista que você lê a seguir. Professor de bioética da Universidade Princeton - pesquisador e ambientalista incansável na denúncia dos riscos do aquecimento global e na defesa dos direitos dos animais -, Singer espanta-se tanto diante dos que creem em um Deus onipotente e intervencionista a zelar pela vida dos homens quanto dos que relutam em acreditar nos dados científicos que atestam os efeitos nefastos da ação humana sobre o clima da Terra.
Com o número de mortos em decorrência do Sandy aproximando-se da centena na sexta-feira e a campanha presidencial virtualmente paralisada nos Estados Unidos diante da tragédia, pelo menos um sintomático efeito político se fez sentir: o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, um independente que já esteve afinado com os republicanos, declarou apoio à reeleição de Barack Obama. Alarmado com a magnitude da destruição na cidade, Bloomberg tomou partido na celeuma sobre o tema ambiental, que divide democratas, defensores do investimento em energias verdes, dos "negacionistas" republicanos, que refutam a ideia de que o aquecimento global seja causado pela ação do homem. 

Para Peter Singer, chegamos ao ponto em que não basta intensificar preparativos para emergências de grandes proporções em nossas metrópoles. Será preciso tomar uma atitude radical em relação às emissões de gases do efeito estufa, nas formas de geração de energia e em nossos próprios padrões de consumo - antes que seja tarde demais. "Tempestades extremas como essa", diz o professor, "evidenciam nossa ingenuidade ao imaginarmos que o conhecimento científico é suficiente para nos proteger delas." 

As imagens do furacão Sandy sobre Manhattan lembram muito os filmes de catástrofe em Hollywood, que atraem multidões aos cinemas. Qual é o efeito desses grandes eventos naturais sobre a autoestima e a imaginação do homem atual?Em primeiro lugar, deixe-me dizer que não devemos admitir que o furacão Sandy foi um evento "natural". Cientistas que pesquisam mudanças climáticas induzidas pela atividade humana já haviam previsto que eventos climáticos extremos iriam se tornar mais comuns. Por sua intensidade e força, é praticamente certo que o furacão esteja conectado aos danos que causamos ao meio ambiente. No que se refere ao clima, assim como às plantas, animais e tudo o que chamamos de "ambiente natural", não existe mais "natureza" neste planeta: estamos vivendo numa era em que a atividade humana afeta tudo, em todas as partes do mundo. Dito isso, tempestades extremas como essa, e também terremotos e tsunamis, evidenciam nossa ingenuidade ao imaginarmos que nosso conhecimento científico é suficiente para nos proteger deles. Às vezes podemos prever esses eventos, o que evidentemente nos ajuda a salvar muitas vidas, mas ainda assim eles mostram quão pífios podem ser nossos melhores esforços para enfrentá-los. 

Então eles abalam, além de cidades, as nossas crenças?Exato. Esse é um fator curiosamente ignorado muitas vezes. Em 1755, após um terremoto e um tsunami devastarem Lisboa, matando dezenas de milhares de pessoas, filósofos iluministas questionaram como o mundo poderia ter sido criado por um ser onipotente, onisciente e benevolente. Este não pode ser o melhor dos mundos, disse Voltaire por meio de seu personagem Cândido. Concordo com ele e me intriga o fato de cristãos tradicionais testemunharem semelhantes calamidades - com milhares de mortos, incluindo crianças, com sofrimento generalizado - e continuarem a crer em um deus com semelhantes atributos. 

Mesmo com as previsões dos cientistas e com as precauções tomadas pelas autoridades americanas, a usina nuclear de New Jersey entrou em 'estado de alerta' devido à tempestade. Por mais que nos preparemos para tais eventos, chegaremos a estar seguros?A energia nuclear é uma atividade inerentemente perigosa, e desastres como o tsunami que atingiu a planta nuclear de Fukushima deixaram isso bastante claro. Tanto que países como a Alemanha já acordaram para a necessidade de abandoná-la. Mesmo quando as probabilidades de algo dar errado são extremamente baixas, se isso acontece as consequências podem ser um desastre de proporções inéditas - e podem tornar uma extensa região inabitável por séculos. Claro que a energia nuclear não contribui para o aquecimento global e é, compreensivelmente, uma alternativa atraente aos olhos de muitos. Mas há outras opções mais seguras que o nuclear ou as termoelétricas a carvão, como a energia solar, eólica e hidrelétrica, com eficiência razoável e menor produção de lixo. 

O sr. afirma que o Sandy não pode ser chamado de evento 'natural', mas alguns cientistas têm dito que, embora intenso, ele não foi tão diferente de outros furacões ou ciclones. Sandy poderia ser chamado de "normal" no contexto de um fenômeno que ocorresse uma vez a cada cem anos. O problema é que esses "desastres naturais" têm tido frequência cada vez maior, de um a cada década. Seria difícil dizer, diante de um único furacão, que ele é resultado do aquecimento global. Mas no atual cenário de furacões, enchentes e secas cada vez mais frequentes no mundo, eu não chamaria o Sandy, de forma alguma, de "fenômeno natural". 

Ou seja, a partir de agora as pessoas terão que desenvolver uma certa 'consciência de sobrevivência' para enfrentar desastres cada vez mais comuns?Prefiro dizer que as pessoas - e os governos - terão de levar realmente a sério as mudanças climáticas. Nós temos de reduzir as emissões de gases antes que a situação se torne ainda pior. Mas enquanto isso não acontece as pessoas podem se preparar para perdas e desastres cada vez mais frequentes nas grandes cidades. 

Quanto os urbanistas de hoje estão preparados para enfrentar essa situação?O planejamento urbano começa a centrar foco na antecipação de emergências, mas é muito difícil estar preparado para ocorrências de tão grandes proporções. Na construção do novo World Trade Center em Nova York, por exemplo, a polícia solicitou que a base do edifício fosse forte o bastante para resistir a uma grande explosão. Só que esse é apenas um tipo de emergência possível. Existe, como se pôde perceber agora na cidade, muito pouca proteção para barrar as inundações. Mesmo as instalações de energia elétrica nova-iorquinas não estão protegidas: enquanto falamos aqui, a parte baixa de Manhattan continua às escuras, e pode levar dias até que a energia seja religada. 

A campanha presidencial americana parou por causa do furacão. Grandes tragédias, como o furacão Katrina em 2005, sempre afetaram a política, mas de início parece haver um acordo tácito para enfrentá-las. Por quê?Num primeiro momento, há a sensação de que todos devem se unir e trabalhar juntos para reduzir os danos. Mas é um sentimento que não dura muito. O Katrina, no fim, foi devastador para a administração Bush, principalmente porque a Fema (Federal Emergency Management Authority, agência governamental responsável pela prevenção de catástrofes) fez um trabalho péssimo - e ficou revelado que Bush havia nomeado um amigo político sem experiência no assunto para a chefia da agência. Agora, tanto as agências meteorológicas quanto a Fema fizeram um trabalho muito melhor do que no caso Katrina. 

 "E vale ainda notar que pessoas mortas em furacões, terremotos, tsunamis e ataques terroristas ganham muito mais atenção do que as que perdem a vida por razões relacionadas à pobreza, à falta de saneamento, 
água potável ou atendimento médico. 
De acordo com a Unicef, as mortes de 8 milhões de crianças a cada ano em decorrência de fatores como esses poderiam ser evitadas. Isso é mais do que 20 mil óbitos por dia - tragédia muito maior que a do furacão Sandy, seja no Haiti, seja nos EUA."

Aparentemente, Obama e Romney têm visões distintas sobre a importância da Fema. De fato. E espero que os apoiadores do presidente Obama deixem bem claro que Mitt Romney disse, no ano passado, que pretendia extinguir a Fema e atribuir suas funções aos Estados. Depois do furacão Sandy ele já mudou o discurso, não quer mais abolir a Fema... O que prova que diz qualquer coisa para ser eleito. Há uma clara diferença entre os dois candidatos nesse assunto. Depois de Bush ter diminuído o status da Fema, Obama felizmente o recuperou. Mas os republicanos insistem na ideologia de reduzir o poder do governo federal, mesmo quando é óbvio ser impossível para as autoridades individuais dos Estados lidarem com um problema como o do furacão Sandy, que afeta vários deles. 

Segunda-feira, quando as estatísticas americanas registravam menos de uma dezena de mortos, 52 pessoas já haviam morrido por causa do Sandy no Haiti. Nessas grandes tragédias as vidas das populações mais pobres contam menos? É fato que populações pobres, distantes dos centros internacionais de mídia, recebem muito menos atenção. É um problema que sempre vimos e estamos vendo de novo agora. E vale ainda notar que pessoas mortas em furacões, terremotos, tsunamis e ataques terroristas ganham muito mais atenção do que as que perdem a vida por razões relacionadas à pobreza, à falta de saneamento, água potável ou atendimento médico. De acordo com a Unicef, as mortes de 8 milhões de crianças a cada ano em decorrência de fatores como esses poderiam ser evitadas. Isso é mais do que 20 mil óbitos por dia - tragédia muito maior que a do furacão Sandy, seja no Haiti, seja nos EUA. Uma tragédia cotidiana, que não rende imagens cinematográficas na TV; simplesmente não é noticiada. 

Essa semana, uma corte italiana condenou por homicídio culposo sete sismólogos que não previram um terremoto que matou 300 pessoas em 2009. O que achou do caso?Um absurdo e uma ameaça à pesquisa científica. Como podemos incentivar que pesquisadores deixem as universidades para prestar serviço em áreas de significância pública se os ameaçamos de prisão quando algo dá errado? Não está claro sequer se esses cientistas cometeram algum engano nesse caso - eles podem ter agido com base nas evidências que eram disponíveis. Podiam ter feito melhor? Como saber? E, ainda que tivessem cometido um equívoco genuíno, jamais se justificaria condená-los por homicídio culposo! 

O que já aprendemos sobre a prevenção de grandes tragédias naturais?Que não se pode esperar proteção completa diante de terremotos ou eventos climáticos extremos. Mas certamente podemos construir edifícios mais sólidos, erguer barragens anti-inundação e proteger os equipamentos de infraestrutura essenciais ao funcionamento das cidades. Organizações como a Geohazards International, por exemplo, têm sido pioneiras no desenvolvimento de projetos como o de parques altos em cidades costeiras, sujeitas a tsunamis, que podem acolher a população tão logo ocorra um alerta de terremoto oceânico. O problema, obviamente, é que tudo isso custa dinheiro, e quando os riscos de que determinado evento ocorra são pequenos, tendemos a não querer gastar com isso. 

Como lidar com o potencial de destruição da natureza quando precisamos desesperadamente preservá-la da destruição humana?O melhor que podemos fazer a ambos, a natureza e nós, é reduzir as emissões de gases do efeito estufa. Nesse sentido, não podemos ignorar que um dos fatores de maior geração desses gases é a produção de carne - especialmente a bovina, pois as vacas produzem metano, que contribui 72 vezes mais para o aquecimento global que o dióxido de carbono. Sem uma mudança efetiva em nossos padrões de consumo, não vamos conseguir desacelerar a mudança climática que torna cada vez mais frequentes desastres como o furacão Sandy. 
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* Entrevista
PETER SINGER - FILÓSOFO, PROFESSOR DE BIOÉTICA DA UNIVERSIDADE PRINCETON E AUTOR DE A VIDA QUE PODEMOS SALVAR (GRADIVA, 2011)
REPORTAGEM POR  IVAN MARSIGLIA - O Estado de S.Paulo
FONTE:  http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,e-o-homem-criou-sandy,955408,0.htm

Jesus Cristo apoia banda Pussy Riot em episódio de ‘South park’


RIO - A banda russa Pussy Riot ganhou mais um apoio: Jesus Cristo. O filho de Deus aparece em um novo episódio de “South park” — exibido nos Estados Unidos nesta quarta-feira — fazendo um discurso em prol da liberdade das integrantes. 

O grupo punk, formado por três mulheres, foi condenado a dois anos de prisão após apresentar uma música contra o presidente Vladimir Putin, na catedral de Moscou. "Vamos manter as nossas causas no lugar delas, que é bem aqui... na camisa!", diz o personagem, exibindo a roupa com o slogan: "Free Pussy Riot" ("Libertem as Pussy Riot", em tradução livre).

No Brasil, o programa, que estreou em 1997 e já está em sua 16ª temporada, é exibido pelo canal VH1.
Grandes nomes da música, como Björk, Madonna e Paul McCartney, também já manifestaram o apoio às integrantes da banda feminista.

Veja o vídeo ( http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=7JwTeX5_Xbs)
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Aprendendo a viver!

Antonio Ozaí da Silva*

 

As Epistulae Morales ad Lucilium (Cartas Morais a Lucílio), foram escritas por Lucius Anneus Seneca, filósofo estóico romano, entre os anos 63 e 64 d.C. Uma seleção destas epístolas foram publicadas sob o título “Aprendendo a viver”. [1] A edição brasileira passa a impressão de literatura de auto-ajuda, talvez propositadamente por uma questão de marketing e de mercado. Talvez seja má interpretação deste leitor. De qualquer forma, as cartas que o filósofo Sêneca escreve ao amigo Lucílio constituem, nas palavras de Regina Schöpke, “um verdadeiro manual prático do estoicismo, uma de “curso de sabedoria aplicada” com o objetivo de realizar uma verdadeira “cura moral”.[2]
 
As cartas estão longe das discussões filosóficas empoladas, abstratas e metafísicas, tão ao gosto dos pseudo-filósofos que passam o precioso tempo da vida no mundo das ideias e transformam a Filosofia em território de especialistas com linguagem e atitude empolada. Sêneca aproxima-se da realidade cotidiana e dos dilemas da condição humana que afetam os homens e mulheres comuns. Sua filosofia é um ensinamento ao viver. Ele trata de temas que permanecem atuais, apesar dos séculos. É incrível como nos tempos modernos, com todas as suas possibilidades, potencialidades e riscos, não nos diferenciamos substancialmente dos homens e mulheres da época de Sêneca, os quais se defrontavam com questões como a solidão, a velhice, a morte, o suicídio, o luto, a brevidade da vida, a qualidade de vida, a relação humana com a natureza, os modos de enfrentar as adversidades, a fugacidade da fortuna, o cuidado com a saúde e a paz da alma. Suas palavras superam as barreiras do tempo, da história e cultura, e nos tornam seus interlocutores. Pois é da condição humana que se trata.

A leitura das Cartas a Lucilio nos leva a pensar o quanto nos afastamos dos preceitos que poderiam tornar a vida melhor, mais suportável e feliz. O estilo de vida do homem e mulher modernos nos faz questionar a racionalidade da qual tanto nos orgulhamos e que nos faz imaginar que somos superiores. Nos consideramos seres racionais, mas agimos como “escravos do ventre”, ingerimos mais do que natureza aconselha. Num mundo em que humanos morrem de subnutrição, a obesidade, as doenças coronárias e tantas outras que afetam órgãos do corpo humano, como o rim e a vesícula, são os efeitos colaterais da má e excessiva alimentação. “Não é a fome do nosso ventre que nos custa caro, mas a nossa ostentação”, afirma Sêneca. Como “glutões ostensivos” [3], sucumbimos à gula, aos prazeres da carne e, assim, arruinamos a nossa vida, comprometemos a nossa velhice.

Não cuidamos do corpo nem do tempo que nos é permitido viver. Sêneca aconselha a Lucílio: “Apodera-te novamente de ti mesmo, e o tempo, que até agora te era arrebatado, subtraído ou simplesmente te escapava, recupera-o e conserva-o”.[4] Talvez nos ocupemos demais com o supérfluo, com a mesquinhez do cotidiano, dos pequenos poderes que nos aprisionam em suas malhas, com o que nada acrescenta e os míseros prazeres que se revelam engodo. Na época da internet talvez percamos tempo demais em atividades que não são essenciais ao bem viver. Não terá razão Sêneca ao nos aconselhar a tomar o tempo em nossas mãos? Em saber usá-lo? “Abarca todas as horas”, diz o filósofo. “Dependerás menos do amanhã, se fizeres hoje o que tem que ser feito. Enquanto postergamos, a vida não deixa de correr. Todas as coisas, Lucílio, nos são alheia, só o tempo é nosso”. [5] Mas, na sociedade moderna, a maioria não tem o controle do tempo, ele não nos pertence. Estamos sob o signo da necessidade, escravos das exigências burocráticas, profissionais e de sobrevivência. As palavras do filósofo permanecem atuais.

[1] SÊNECA. Aprendendo a viver. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
[2] Idem, p. VIII.
[3] Idem, p. 41.
[4] Idem, p. 3.
[5] Idem.
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*  Professor do Departamento de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM), editor da Revista Espaço Acadêmico, Revista Urutágua e Acta Scientiarum. Human and Social Sciences e autor de Maurício Tragtenberg: Militância e Pedagogia Libertária (Ijuí: Editora Unijuí, 2008). 
Fonte:  http://antoniozai.wordpress.com/2012/11/03/aprendendo-a-viver/

A morte do Nada

Marcelo Gleiser*

Desde o início, a filosofia pergunta se existe espaço vazio no Universo; agora, o Nada bateu as botas 

É com grande pesar que vos informo da morte do Nada. Pois é, caro leitor, após mais de dois milênios de ambiguidades e confusões, parece que desta vez o Nada bateu mesmo as botas. São coisas que temos de aceitar em vista da evidência extremamente convincente vinda tanto da física das partículas elementares -que visa explicar a composição mais fundamental da matéria- como da astronomia. Comecemos com as partículas.

A questão da composição material do mundo é tão velha quanto a filosofia; foi Tales, o primeiro dos filósofos gregos, que perguntou: "Do que o mundo é feito?".

Desde então, a discussão girou em torno da questão do vazio ou, menos precisamente, do Nada: existe o espaço vazio, destituído de qualquer tipo de matéria ou substância? Ou será que algo o preenche, como o ar preenche nossa atmosfera?

Um tremendo vaivém se deu com o passar dos séculos, tema que volta e meia tratamos aqui neste espaço. Os atomistas gregos supuseram que existiam apenas átomos se movendo no vazio, enquanto que Aristóteles considerava a hipótese do vazio absurda: preencheu o Cosmo com uma quinta-essência, o éter que compunha os objetos celestes e, de forma difusa, enchia o espaço, tornando-o pleno.

Depois, veio Descartes com seus vórtices de uma substância fluida que enchia o universo, tese desmentida de forma muito lúcida por Newton no final do século 17. Atomista também ele, o mestre inglês provou claramente que, se alguma substância preenchesse o espaço, causaria fricção nas órbitas planetárias e o Sistema Solar não existiria como o vemos.

Veio, então, a luz como onda eletromagnética, no século 19, necessitando de um meio material para se propagar; o éter retorna, com essa função, até que, em 1905, Einstein demonstra sua inutilidade. Porém, em 1917, ele mesmo sugere que, se o Universo é esférico e estático, deveria ser preenchido por uma substância estranha, cuja função seria atuar como uma espécie de antigravidade, equilibrando a atração de todas as coisas. Mas o Universo não é estático e, em 1929, a tal constante cosmológica é deixada de lado. Provisoriamente.

No meio tempo, físicos de partículas descobriram os componentes básicos da matéria comum. Destes, o bóson de Higgs tem o papel singular de atribuir massa a todas as outras partículas. Para tal, encontra-se por todo o espaço uma espécie de ar que não é ar mas por onde todas as partículas de matéria se movem. E, ao fazê-lo, respondem à presença do Higgs com inércias próprias, como pérolas movendo ora em água ora em mel. O espaço, segundo a física do muito pequeno, não pode ser vazio.

E nem o Cosmo nas suas proporções maiores: em 1998, astrônomos descobriram que as galáxias se afastam de forma acelerada, levadas pela expansão cósmica como objetos numa enchente. A causa dessa aceleração, com efeito idêntico ao termo que Einstein inseriu e depois descartou nas equações de sua teoria da relatividade, é uma espécie de fluido preenchendo todo o espaço, primo do Higgs mas não ele, um outro tipo de éter, chamado provisoriamente de energia escura. Existimos numa natureza plena-plena de essências e mistérios.
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* MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita". Facebook: goo.gl/93dHI
Fonte: Folha on line, 04/11/2012
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sábado, 3 de novembro de 2012

Inveja

MARCELO RUBENS PAIVA*
 377669 Inveja no trabalho como lidar 3 Inveja no trabalho   como lidar
 
Você não fica devastado quando vê alguém feliz, que diz que gosta de si mesmo, não se arrepende de nada, entende o mundo e o sentido da vida, não fica desgraçadamente arrasado quando escuta que alguém é casado com a namorada da faculdade e é suuuuper feliz, foi fiel durante décadas, tem a vida sexual como as de alguns personagens mitológicos, que chegou a ter um caso no vigésimo ano de casado, mas foi perdoado e amado como nunca, você não entra em pânico quando descobre que um amigo comprou móveis na baixa que hoje valem 20 vezes mais, ações na baixa que vendeu antes da crise dos derivativos, que aplicou numa empresa chamada Apple quando ainda se usavam máquinas de escrever, que herdou uma fattoria à beira do mar na ponta da Bota, de um tio italiano gay que foi o único a ficar na terrinha, não emigrar e que não teve filhos, em que se colhem trufas brancas, que milagrosamente nascem ali, e produz um vinho premiado por toda a Europa, não se choca quando sabe que alguém foi promovido e passou a ganhar benefícios como cartão corporativo, plano de saúde com helicóptero, carro do ano, secretária e sala com vista, ou que tem gente que não precisa estudar para passar de ano porque basta prestar atenção, ou que tem facilidade com línguas e fala entre outras russo correntemente, entrou no vestibular sem cursinho, dorme como uma pedra, nunca toma remédios na vida nem nunca fica doente, tem colesterol, glicemia, pressão e batimentos cardíacos abaixo dos alertas, vai ao banheiro duas vezes ao dia, não engorda, nem se jantasse pizza com borda recheada todas as noites, pois tem um bom metabolismo, fuma eventualmente um cigarro a cada dois meses e nunca extrapola esse cálculo, não tem cálculos renais, nem na vesícula, gordura no fígado, artroses, bursites, tendinites, joga tênis com a galera mais jovem do clube, porque sempre ganha dos tiozinhos da sua idade, tem um cachorro que não late para visitas, nem tem pulgas, mas ataca todos os gatunos que se aventuraram por seu bairro, que a casa em que mora nunca foi assaltada, a única da rua que nunca foi, que não tem rugas, cabelos brancos, cera de ouvido, caspa, calos, pele oleosa, unhas encravadas, joelhos tortos, pé chato, pernas em xis, joanete, flatulência, hérnia de disco, herpes, mau hálito, incontinência, enxerga sem óculos - nada de miopia, estrabismo ou estigmatismo -, lê bulas de remédio, menus de restaurantes praianos especialistas em luaus iluminados por tochas, partidas e chegadas de aviões, placas nas estradas, comprou casualmente quadros de pintores brasileiros iniciantes que hoje estão expostos alguns na Tate e outros no MoMA, costuma ser convidado para dar palestras motivacionais no Caribe, Ilhas Fiji, Bali, Ilhas Maurício, Córsega, que comprou um apezinho no Marrais quando o euro não valia nada, entrou de sócio numa fábrica coreana de carros e numa fazenda de produtos orgânicos, leu Ulisses na escola, Proust no original, quando terminou o curso de francês e se envolveu com seu caso extraconjugal parisiense, toda obra de Balzac, A Divina Comédia, exemplar raríssimo que encontrou empoeirado na sede da fattoria que herdou aparentemente autografado pelo autor, Os Irmãos Karamazov, para praticar o russo, quando entrou de sócio de uma petrolífera com um ex-agente da KGB, que hoje tem um time de futebol no Reino Unido e partes de uma equipe de Fórmula 1, que se tornou seu melhor amigo e é credenciado pela Fifa e Uefa a frequentar estádios da Copa do Mundo e da Liga de Campeões da Europa, na tribuna dos dirigentes máximos da entidade, e sempre sobra convites, você não fica absurdamente destroçado quando tem alguém com bom senso para não entrar em brigas de trânsito, que dá passagem, que jamais para em vagas de idosos e deficientes, que acena para ajudar apressados na ultrapassagem, que não se importa quando o motorista de trás aciona a buzina assim que o farol de trânsito muda do vermelho para o verde, que nunca foi multado - e nas três vezes em que foi parado na blitz do bafômetro tinha bebido suco de tomate, porque tivera um mau pressentimento -, que não se estressa quando vê alguém furando a fila do cinema e simplesmente indica outro caixa livre, que salga a pipoca como se cálcio em excesso fizesse bem para a circulação, que tolera frutose, glicose e glúten, não tira a fatia de gordura da picanha, que não se importa com a turma de garotos que erraram de filme e, num denso drama argentino, comenta a baladinha da noite anterior e marca o ponto de encontro da baladinha posterior, moços e moças que chacoalham sacos de pipocas para misturar o sal como se estivessem na ala de chocalhos da bateria de uma escola de samba do primeiro grupo, que não colocam celulares no silencioso e que, ultimamente, você neurótico reparou, as telas touchscreen dos celulares e tablets estão mais luminosas, porque nós, estressados, não aguentamos filme fora de foco, ar-condicionado glacial em salas de cinema e teatro, atores que cospem uns nos outros enquanto representam, muito menos o barulho de um saquinho de delicado ou jujuba aberto, mas fica arruinado quando encontra alguém que saiba configurar computadores em diferentes sistemas operacionais, até aquele gratuito, que entende tudo de formulário da Receita Federal e está em dia com ela, com o Estado e a prefeitura, com o condomínio e o da casa de praia, que consegue tuitar e responder a e-mails ao mesmo tempo, tem Face Book, Instagram, G+, Linkedin, What’s Up, as últimas versões dos aplicativos essenciais atualizados, você não inveja absolutamente aquele que não tem cáries, canais, implantes, dentes amarelados, que nunca ouviram que seria melhor consultar um ortodontista, ou que escutaram "quando casar passa", e passou? Relaxa. 

A boa notícia, e que nos dá um enorme consolo, é que essa pessoa não existe. E a baixa filosofia ensina: se existisse, não teria a sensação inigualável e prazerosa de aprender com os erros.

Como dizem os invejosos, errar é humano, e a perfeição não existe.
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* Escritor. Colunista do Estadão
E-mail: marcelo.rubens.paiva@estadao.com.br
Blog: http://blog.estadao.com.br/blog/marcelorubenspaiva
Fonte:  http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,inveja,955063,0.htm
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Religioso busca catolicismo de massas, mas menos atento às questões sociais

RICARDO MARIANO*

 

A guinada conservadora católica, o acelerado declínio numérico da filial brasileira da Santa Sé e a avalanche pentecostal acirraram a competição entre católicos e evangélicos a partir de 1980. Essa peleja deflagrou uma disputa religiosa pelo espaço público e uma desenfreada ocupação religiosa da mídia e da política partidária. 

Desde então tele-evangelistas, padres-celebridades e cantores gospel tornaram-se onipresentes na mídia eletrônica, emissoras de TV pentecostais e católicas brotaram como cogumelos, rebanhos religiosos viram-se tratados como currais eleitorais, igrejas passaram a formar bancadas parlamentares, a expandir seu poder nos Legislativos e a controlar partidos, discursos moralistas reacionários de inspiração bíblica tomaram de assalto as eleições. 

A ocupação religiosa do espaço público, sobretudo nas capitais e nas regiões metropolitanas, tornou-se ainda mais monumental, mais espetacular e mais triunfalista. 

Tudo por um maior impacto evangelístico, gerar maior visibilidade pública e revestir seus líderes e suas organizações religiosas de maior poder, status e legitimidade. 

Foi por isso que católicos, liderados por carismáticos e suas comunidades, e neopentecostais, turbinados pela famigerada teologia da prosperidade, trataram de investir pesado em megaeventos, megashows, megamarchas e megamissas e torrar fortunas na construção de imponentes santuários e catedrais. 

Não é à toa que a inauguração do maior templo católico da América Latina ocorra nesse contexto de vigoroso ativismo religioso e de midiatização da religião intensificado por uma concorrência inter-religiosa sem precedentes na história nacional. 

Autor do slogan "sou feliz porque sou católico" e líder religioso mais popular do país, padre Marcelo Rossi foi o idealizador do Santuário Theotokos - Mãe de Deus. A fim de resgatar as ovelhas desgarradas do rebanho e de impedir o "avanço das seitas", o sacerdote multimídia, multitarefa e workaholic tem trabalhado, em ritmo toyotista anos a fio, como cantor, ator, escritor, radialista e tele-evangelista, militado no Twitter e no Facebook e, de quebra, acolhido romarias de políticos às missas em busca da bênção nas urnas. Em reconhecimento a seus feitos, o papa Bento 16 lhe deu o Prêmio Van Thuân, em 2010. 

No novo santuário, Marcelo Rossi ocupará um palco muito maior e mais reluzente para cantar seus louvores e baladas, coreografar a "aeróbica do Senhor", receber celebridades, agitar, entreter e emocionar as multidões de seguidores, benzer seus objetos pessoais e lançar-lhes baldes de água benta ao fim de cada show-missa. 

Assim ele vai contribuindo para configurar um catolicismo de massas alegre, corpóreo, sensorial, emotivo, mágico, midiático, terapêutico, taumatúrgico, moral e teologicamente conservador. Mais popular, mas menos intelectualizado e menos atento aos problemas socioeconômicos. 
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Biologia e homogenitorialidade.

  Laurent Alexandre*

 

Algumas afirmações que parecem ser
 de bom senso se tornarão 
em breve biologicamente falsas. 
A tecnologia permitirá 
que os homossexuais tenham 
filhos biológicos portadores 
dos genes dos dois genitores, 
Quais são os limites para os homossexuais franceses? O debate é muito vivo. Em poucas décadas, eles conquistaram reconhecimento e proteção; reivindicam hoje diversas mudanças em nível legislativo em nome da igualdade: casamento, direito à adoção, acesso às técnicas de procriação medicamente assistida e recurso à gestação de "aluguel". O presidente francês, François Hollande, prometeu o direito ao casamento e à adoção para esses casais. Será que amanhã será dado aos homossexuais o direito de se reproduzirem?

Por enquanto, os gays franceses vão para os Estados Unidos ou à Ásia, onde está organizado um verdadeiro mercado da fertilização in vitro e da gestação de "aluguel". Eles compram na internet um óvulo sob medida e alugam um útero por nove meses. As características físicas das mulheres envolvidas além do seu quociente intelectual estão particularmente bem documentados nesses sites.

Os felizes genitores voltam com um recém-nascido, e as autoridades fecham os olhos. Eles só têm alguns problemas administrativos para a transcrição do estado civil da criança no direito francês. No entanto, a criança é o fruto biológico de apenas um dos dois genitores, o que é fonte de frustração para o outro: as lésbicas utilizam o esperma de um terceiro, e o óvulo e o útero de uma das duas "cônjuges"; os gays se servem do esperma de um dos dois homens e do óvulo de uma mulher que pode ser a mesma da gestação, mas não obrigatoriamente.

Essas evoluções da sociedade são contestadas por alguns psicólogos, particularmente porque a adoção por homossexuais corre o risco de provocar problemas psicológicos às crianças as quais se impõe uma filiação impossível. "Um casal homossexual nunca será crível como 'gerador'", afirmou recentemente o doutor Pierre Lévy-Soussan, no jornal Le Point. No entanto, essa que hoje parece ser uma afirmação de bom senso se tornará biologicamente falsa. A tecnologia permitirá que os homossexuais tenham filhos biológicos portadores dos genes dos dois genitores, como os casais heterossexuais.

A técnica das células-tronco IPS (pluripotentes induzidas) – cujo inventor japonês, Shinya Yamanaka, recebeu o Prêmio Nobel de Medicina 2012 – permite a fabricação dos espermatozoides e dos óvulos a partir de fibroblastos, células que se encontram sob a pele. Já é possível fabricar um camundongo a partir de dois genitores. A passagem dessas técnicas para a espécie humana é apenas uma questão de tempo, e as associações homossexuais militarão para que esse prazo seja breve.

Além disso, graças às células estaminais IPS, um mesmo indivíduo poderá produzir tanto óvulos quanto espermatozoides. O único limite, por enquanto, é que o filho de um casal de homossexuais poderá ser apenas uma filha.

Em algumas décadas, os casais de homens poderão se beneficiar ainda do útero artificial. O biólogo e filósofo Henri Atlan – grande especialista no assunto – defende a ideia de que não há diferença fundamental entre uma incubadora para recém-nascidos prematuros e o útero artificial.

Parece realmente muito distante o tempo em que Jeannette Vermeersch-Thorez, grande dirigente do Partido Comunista Francês, declarava o seguinte sobre a pílula anticoncepcional: "Quando as mulheres trabalhadoras exigiriam o direito de acesso aos vícios da burguesia? Nunca!".

A experiência mostra que a velocidade do deslocamento do "proibido" para o "tolerado", depois ao "permitido" ou até ao "obrigatório", depende, essencialmente, do ritmo das descobertas científicas, independentemente dos problemas éticos levantados.
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*  A opinião é do cirurgião urologista francês Laurent Alexandre, em artigo publicado no caderno Science et Techno do jornal Le Monde, 27-10-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/noticias/03/11/2012
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Superando a visão romântica sobre o lugar.

Entrevista com a geógrafa Doreen Barbara Massey

Doreen Barbara Massey (foto) é uma geógrafa feminista inglesa. Colaborou com alguns dos mais importantes autores da geografia marxista. Sua obra foi fundamental para a configuração da geografia atual, e fortemente impulsionou a reflexão sobre o espaço em todas as disciplinas sociais. Atualmente é professora de Geografia Humana na Open University.

Massey nasceu em Manchester, estudando na Universidade de Oxford e na Universidade da Filadélfia. Começou sua carreira no Centre for Environmental Studies (CES), em Londres. No CES desenvolveu numerosas análises da economia britânica contemporânea. Quando o CES foi fechado pelo governo de Margaret Thatcher, em 1979, Massey transferiu-se para a Open University, uma universidade pública a serviço da classe trabalhadora. Em 1994, foi premiada com a Medalha Vitória de Geografia, prêmio concedido pela Sociedade Geográfica (Royal Geographical Society). Em 1998, recebeu o prêmio Prix Vautrin Lud, conhecido como Nobel de Geografia.

Seus interesses, referentes à teoria do espaço e do lugar, incluem a visão crítica da globalização, o desenvolvimento regional desigual, a relevância do local e o compromisso político da análise geográfica. Reconceituou o significado de “lugar” e inventou o conceito de “geometria do poder”. Este conceito lhe serviu para explicar as desigualdades sociais, geradas pela economia capitalista, a partir de uma análise geográfica.

Entre suas obras publicadas em castelhano estão: “Ciudad Mundial” e “Doreen Massey: un sentido global del poder”. Também participou do livro “Pensar este tiempo”, organizado por Ernesto Laclau e Leonor Arfuch.

Pode-se observar a aplicação prática do conceito de “geometria do poder” em experiências organizacionais como os Conselhos Comunais, desenvolvidos na Venezuela. Por esta razão, em diferentes ocasiões, Massey visitou a Venezuela para poder analisar a evolução prática de suas teorias.

Seu trabalho acadêmico se baseia na ideia de que se deve teorizar rente ao chão, com conceitos de ida e de volta, que devem chegar ao destinatário e, em seguida, retornar para continuar trabalhando sobre eles.

Durante a década de 1980, passou uma curta temporada, em Nicarágua, trabalhando com os sandinistas no Instituto Nacional de Investigação Econômica e Social. “Foi meu primeiro ingresso nas alternativas latino-americanas”, relembra com alegria. “Aprendi mais deles do que pude ajudá-los”.

Recentemente, visitou Buenos Aires, convidada pela Secretaria de Cultura da Nação, para participar do ciclo “Debates y Combates en Tecnópolis”, junto com Ernesto Laclau e outros cientistas políticos.

Ao finalizar a entrevista, surpresa, Massey comenta que várias pessoas com as quais cruzou, durante sua estadia na Argentina, disseram-lhe que certamente Buenos Aires gostaria dela, pois se parece com uma “cidade europeia”. “Na verdade é algo que não posso entender, é como ser subordinados, desmerecendo o latino-americano. É como não ter confiança para ser você mesmo. É quase um assunto de autoestima, despreza-se o que existe aqui e busca-se referência fora”.

No mundo, com os vínculos financeiros, ou na intimidade, com a diferença entre a cozinha e um escritório. A pesquisadora britânica propõe outra visão sobre os espaços: a que se relaciona com o poder. É desta forma que analisa o neoliberalismo, a globalização e a multipolaridade. Reivindica os novos espaços de poder na América Latina, e fala sobre a maneira como seus conceitos teóricos são aplicados nas reformas territoriais da Venezuela.

A entrevista é de Verónica Engler, publicada no jornal Página/12, 29-10-2012. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Você costuma repetir um lema: “A geografia importa” (Geography matters!) Por que e para que, atualmente, a geografia é importante?
Inicialmente, é importante porque a geografia de uma sociedade faz diferença na organização da mesma. O desenvolvimento desigual dentro de um país faz diferença na forma como funciona essa sociedade. Por exemplo, se há jovens que não tem acesso à cultura, terão dificuldades para entrar em determinados espaços, como os grandes museus ou lugares pelo estilo, espaços oficiais da arte; esta dificuldade agrava a exclusão. A organização do espaço tem efeitos sobre a posição social das pessoas. O espaço é um produto social e por sua vez tem efeitos sobre o social. Porque o espaço está repleto de poder. Todo dia produzimos o espaço. Em nível global, por exemplo, estão os vínculos financeiros, e mesmo dentro do espaço íntimo, a diferença entre a cozinha e um escritório marcam estas relações de poder. Na Europa, neste momento, por exemplo, um aspecto importante do problema é espacial, porque não podem arquitetar uma estrutura financeira que ataque o desenvolvimento desigual entre países. É o problema fundamental, é geográfico, mas não podem manobrá-lo.

Na situação em que você descreve, como se classifica a crise grega?

Acredito que o problema para os gregos é resultado da falha na arquitetura da União Europeia, pois não pode resolver o problema do desenvolvimento desigual entre países. É visto como um problema do país, mas na realidade o problema está na organização europeia, não é individual da Grécia. Como na Grécia não puderam desvalorizar sua moeda, tiveram que desvalorizar sua gente. Desta forma, a questão de não poder manobrar estas questões geográficas produz efeitos terríveis. Faz também parte de meus argumentos que, em termos de poder das elites da Europa, estão fomentando políticas nacionalistas, e ao invés de acusarem os bancos e o FMI, os gregos estão acusando a Alemanha. As pessoas na Espanha também jogam a culpa na Alemanha. Assim, estão tornando aquilo que é uma responsabilidade dos bancos num problema em que pessoas de diferentes países lutam uns contra os outros. Desta maneira, a imaginação geográfica, mediante as identidades nacionais, está sendo utilizada para contrapor um povo contra outro.

Partindo de uma perspectiva geográfica, como observa este fenômeno que hoje é nomeado como “globalização”?

Em primeiro lugar, eu diria que o termo “globalização” deveria ser acompanhado de um adjetivo, porque hoje o que temos é uma “globalização neoliberal”. O problema não é o fato de ser global, mas a forma de ser. É importante pensar em diferenciar estas questões. Em segundo lugar, acredito que precisamos focalizar esta versão da globalização num mundo multipolar. Para mim é importante a ideia de multipolaridade, pois é uma tentativa de dizer: “Sim, queremos ser internacionalistas, globais, mas queremos ser globais de uma forma diferente, não de uma maneira neoliberal”.

O que você quer dizer com multipolaridade?

É bom esclarecer esta ideia, pois percebo no debate atual diferentes interpretações. Acredito que algumas pessoas, com a expressão multipolaridade, pretende apenas dizer que há variações no mundo, que alguns são diferentes de outros. Contudo, para mim a questão da multipolaridade é essencialmente política. É uma questão que surge numa era unipolar, em que os Estados Unidos e o neoliberalismo eram completamente dominantes. Para mim, então, a questão é: “Podemos estabelecer a multipolaridade no sentido de contar com alternativas ao neoliberalismo?” Desta maneira, não existe apenas um centro de poder no mundo. Na sociedade, existem manifestações que demonstram que outras formas de organização são possíveis. É por isso que a questão da multipolaridade está sendo encarada, aqui, na América Latina.

Entretanto, nem todo mundo pensa assim. Podemos realmente desafiar a hegemonia do liberalismo, num nível internacional? Para mim, a multipolaridade é mais do que um reconhecimento das diferenças. É necessário um real desafio à dominação unipolar. Neste momento, parece existir apenas uma forma de economia, que é a do mercado livre, a do neoliberalismo. Deste lugar, quando dizem que não há alternativa, querem dizer que há apenas uma forma de organizar a economia e a sociedade. É um tema quase filosófico, o espaço é a dimensão da multipolaridade, o espaço é a dimensão em que muitas coisas existem ao mesmo tempo. O que liberalismo e algumas das versões da modernidade fazem é colocar as diferenças geográficas numa só direção histórica, demonstrando que existe apenas uma possibilidade. Abrir-se à multiplicidade implica uma espacialização, abrir-se à possibilidade da multipolaridade.

O que seria reconhecer que existe mais do que a diversidade?

Acredito que o real desafio seja o dos princípios do neoliberalismo, particularmente a ideia de que o mercado é algo natural, que está fora do social, algo que não deve ser debatido, como se fosse uma força da natureza. Isto é o que estabelece o neoliberalismo, o mercado. A primeira coisa a ser feita é enfrentar isto. E segundo lugar, devemos desenvolver um sentido multipolar, necessitamos desenvolver formas de organizar a sociedade que tenham suas próprias trajetórias, suas próprias dinâmicas, que não sejam apenas uma variação do neoliberalismo, algo centralmente diferente, com uma economia social que tenha uma dinâmica particular. Em terceiro lugar, precisa ser algo sustentável. Porque nós na Europa acostumávamos pensar que a social-democracia era uma alternativa ao neoliberalismo. Porém, por diferentes razões, a social-democracia falhou completamente, principalmente porque não foi suficientemente radical no nível econômico, não desafiava o mercado. Além disso, não estabeleceu uma base social suficientemente forte. Por isso, foi insustentável econômica e socialmente.

De alguma maneira, você reconceituou a ideia de lugar. De que forma os lugares podem ter um sentido global?

Por um lado, como geógrafa quero reconhecer as especificidades dos espaços, amo os lugares e as diferenças entre eles. Contudo, por outro lado, quero ser internacionalista, tenho interesses nas relações globais. Tem muitas pessoas que prestam atenção na especificidade dos lugares, a partir de um lugar tipicamente romântico. Este tipo de amor aos lugares se torna algo sentimental, essencialista. Acredito que podemos amar a especificidade dos lugares, mas, ao mesmo tempo, devemos acabar com este tipo de visão romântica e essencialista. Por exemplo, a “britanidade”. A Inglaterra não seria a Inglaterra sem as relações com o resto do mundo: império-colônia, o bom e o mau. Então, a identidade dos lugares não é algo que surge do solo, mas das relações mantidas com o resto do mundo.

Um lugar não é uma coisa fechada, com uma identidade essencial, é uma articulação específica de relações globais, e é esta articulação de relações mais amplas que apresenta a sua particularidade. A especificidade dos lugares é sempre um produto de coisas mais amplas. E essa especificidade é algo que está em disputa.

Você introduziu um conceito novo em geografia, o de “geometria do poder”. Pode explicar do que se trata?

Como eu dizia, os espaços estão cheios de poder e são produtos das relações sociais, construímos o espaço o tempo todo. O poder é sempre um produto relacional, não se trata de que eu tenho poder e você não, trata-se do exercício do poder entre pessoas, entre as coisas, entre os lugares. O conceito de geometria do poder tenta apreender estas questões. O espaço é sempre formado por relações sociais plenas de poder e, por outro lado, o poder tem uma cartografia. Mapas do poder social, político e econômico podem ser feitos.

Este conceito de “geometria do poder” está sendo utilizado nas reformas territoriais, realizadas na Venezuela. De que forma o governo de Chávez incorpora suas ideias?

Eles estão utilizando esta ideia de tornar a geografia do poder político do país mais igual. E existem muitas formas para fazer isso. Primeiro, buscam igualar o poder entre as grandes cidades da costa e as menores, que estão mais distantes. A ideia é dar voz a todos os lugares, em nível local, no diálogo político. É um projeto que poderá levar muito tempo, mas eles estabeleceram as formas institucionais que podem desenvolver este tipo de poder, esta é uma das questões. O outro assunto é o desenvolvimento dos conselhos comunais. A partir de cada quatrocentos lares, pode se formar um conselho comunal. São gerados e operados por meio de uma democracia participativa. Isto é a autogestão local.

A geografia do poder está baseada no local, indo de baixo para cima, o que muda a natureza do poder, desde o poder de votar até o poder de fazer, de conseguir coisas práticas. Estão procurando pensar a geografia do poder político no país, tanto em termos de regiões, como de cidades. Por exemplo, em Caracas há um sentimento real, pela primeira vez as pessoas dos bairros pobres realmente sentem que tem voz, e isto é uma mudança na geografia do poder político. Antes os bairros pobres estavam excluídos do diálogo político, não tinham voz política, eu acredito que eles agora, sim, possuem.

Em seu parecer, experiências da América Latina, como a formação da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), é uma forma de desenvolver a multipolaridade?

Exatamente. Para mim o estabelecimento da Celac é muito significativo, é a primeira organização que inclui todos os países da América, com exceção dos Estados Unidos e Canadá. Marca uma nova identidade continental. Na Europa, diferente do que está ocorrendo aqui, não há realmente um sentido de identidade europeia. Por outra parte, a União Europeia é apenas de mercado livre e concorrência entre países, não tem a ver com um projeto comum, com relações sociais, simplesmente é de neoliberalismo. Na América Latina, eu vejo um mosaico de alianças: Unasul, Alba e Petrocaribe, são maneiras diferentes de imaginar o espaço em relação à Europa. As relações podem significar mutualidade ou cooperação, ou mudança igualitária, isso não é neoliberal. E isto também é construir uma identidade no continente, uma solidariedade, o que também permite as diferenças.

Sabemos que Bolívia não é o mesmo que Argentina, mas existe uma solidariedade. Pode haver diferenças e solidariedade também. Isto é diferente do que ocorre na Europa. Por um lado, há um novo tipo de espaço, um novo tipo de identidade, mas também acredito que esta identidade está começando a desafiar o neoliberalismo. Para mim, que vejo a partir da Europa, isto é fantástico. Porque o que está acontecendo é a construção de uma nova voz, que está dizendo coisas diferentes e, desta maneira, está desafiando ao neoliberalismo. Por outra parte, há experiências de novas formas de democracia. Isto também dá esperança para a Europa, pois o estabelecimento de um sentido para este novo projeto, como na Venezuela, realmente depende da gente. E estes projetos são uma forma de dizer que há alternativas ao neoliberalismo.

O que está ocorrendo na América Latina é diferente. As perguntas são: é suficientemente diferente? Está desafiando as bases? É sustentável? Isto é realmente uma batalha ideológica, uma batalha acerca da imaginação geográfica. A imaginação geográfica, nos Estados Unidos e Europa, diz que ainda somos o centro do mundo. Parece-me que o mais importante é que a partir da América Latina estão concebendo algo diferente. Há alguns anos, eu estive na Índia, e eles falavam de políticas tecnológicas, em suas discussões mencionavam suas relações de concorrência com a China, ninguém mencionou os Estados Unidos ou Europa. Isto é incrível e significa que há realmente possibilidades de desenvolver um mundo multipolar, mas no caso da Índia era uma questão apenas econômica. O que eu gosto na América Latina é que também se trata de um assunto político, um desafio ao neoliberalismo.

Você trabalha na Open University, uma universidade bastante especial na cena acadêmica da Grã-Bretanha, já que é aberta à classe operária. Como é trabalhar nesta instituição?

Para mim é muito importante estar na Open University (OU). Eu venho de uma área pobre do norte, da classe operária de Manchester, mas fui à Universidade de Oxford. Embora, de fato, ame o trabalho acadêmico, o elitismo da Oxford me fez pensar que não queria ser uma acadêmica. Então, durante vários anos trabalhei fora da universidade, fazendo outras coisas, porque pensava que ser uma acadêmica era algo muito elitista. Em certo momento, veio a possibilidade de trabalhar na OU e, desta maneira, foi resolvido o meu problema, pessoalmente porque era uma universidade com projeto político de educação popular e democrática. É o único lugar em que penso que poderia ser feliz como acadêmica. É um projeto democrático, pode-se ir para a OU sem títulos, mas oferecem o apoio necessário para que cada pessoa possa alcançar o nível universitário. É uma universidade explicitamente antielitista. E é de massa, possui milhares de estudantes. Na faculdade de ciências sociais deve existir mais de dez mil estudantes. Para mim é como deveria ser a educação, em diferentes aspectos, e para qualquer um. Num curso posso ter uma grande variedade de pessoas, pode ter um diplomata, uma dona de casa, um trabalhador do porto, e isto me encanta. Já me ofereceram trabalho em universidades de elite, mas eu sempre continuei trabalhando na OU.

Além de seu trabalho acadêmico, você costuma trabalhar com artistas.

Sim, trabalhei com (o artista dinamarquês) Olafur Eliasson, que tem um estúdio em Berlim. Envolvi-me muito em projetos com artistas que estão interessados no espaço. Recentemente terminamos um filme (Robinson in Ruins), e também escrevi um ensaio que se chama “Landscape, Space, Politics” (Paisagem, Espaço, Políticas). O que procuramos fazer é pensar a respeito de como ler a paisagem politicamente, sem romantizar, como caminhar por meio de uma paisagem e entendê-la, e poder aprender da paisagem que está incidindo na sociedade. É um projeto com um sentido político, tem muito a ver com a globalização neoliberal, com a crise financeira e com a reivindicação de uma mudança. Vanesa Redgrave fez a locução no filme. Sinto-me muito feliz, porque o assunto pelo qual estou interessada, o espaço e a política, está em todas as partes, então posso trabalhar com uma grande quantidade de pessoas. Posso estender minhas inquietudes para diferentes áreas, e desta maneira aprendo mais. Por exemplo, os artistas pensam muito diferente de mim, e por isso eu gosto de trabalhar com eles. Sobre os mesmos problemas, temos aproximações muito diferentes, e para mim isto é maravilhoso. É o que me mantém ativa, é a forma de se abrir para outras maneiras de pensar.
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Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/noticias/03/11/2012

Essa luz do celular na sala de cinema...

 Cézar Hazaki*

 
A cultura da televisão se desenvolveu nos Estados Unidos – cuja hegemonia tornaram-lhe a usina da sociedade do espetáculo – e se expandiu por todo o mundo (Raj Patel, “Obesos e famélicos”, ed. Marea, Buenos Aires, 2008). Nesse país, nos anos 1950, uma em cada dez famílias tinha televisor em casa; nos anos 1960, nove em cada dez. Esta revolução da imagem, que levou o espetáculo à sala de estar, transformou os eixos da vida familiar. O evento televisivo conseguiu se transformar no centro das atenções. Rapidamente, as famílias se acostumaram a comer enquanto assistiam TV. O encontro familiar passou a ser dominado pela TV, apesar das recomendações de especialistas que recomendavam separar a refeição da televisão.

Ligeiramente, a indústria da alimentação, que havia produzido enormes quantidades de comida enlatada para as tropas na Segunda Guerra Mundial e que precisava abrir novos mercados, compreendeu isso. Assim, inventaram a comida congelada. Bombardearam publicitariamente as donas de casa mostrando que cozinhar já não era o importante, pois se perde muito tempo. Como o espetáculo estava dentro de casa e era preciso dar atenção para o mesmo, deixar de preparar a refeição trazia liberdade para assistir mais TV. Apareceram as marcas de comidas congeladas “TV Dinner” e “TV Brand Frozen Dinners”. Na época, as revistas femininas insistiam que as crianças bagunceiras, graças ao incentivo para assistir TV, podiam comer o que sua mãe oferecia, sem se opor. Em casa, o espetáculo era tão poderoso que podia até disciplinar as crianças. A TV foi a ritalina da época.

Num longo e sistemático processo, que incluiu muitas mudanças tecnológicas (como a incorporação do freezer), a comida em comum foi abandonada como ritual familiar. Privilegiou-se a imagem da televisão. A organização da mesa familiar foi modificada ao se incorporar o televisor como integrante, o que também marcou a agenda: passou-se a falar daquilo que a TV mostrava. Era a TV que falava, os convivas se transformaram em espectadores e a TV no terceiro pai. E este processo foi avançando. Hoje, cada integrante da família come “delivery”, sozinho em seu quarto, assistindo TV e conectado à Internet.

O cinema havia preservado para si a condição de lugar ritual, que demandava concentração do espectador. Quando se iniciava a projeção, era preciso respeitar a escuridão para não romper a cerimônia coletiva. Porém, o costume de comer rápido, para continuar assistindo TV, abriu as portas para outro negócio dentro do cinema: beber e comer. Os donos das salas credenciaram a venda de comidas dentro do cinema, e iniciou algo impossível de parar: os espectadores começaram a comer como se estivessem em suas casas, diante do televisor. Baldes de pipoca, refrigerantes, guloseimas, hambúrgueres, cachorros-quentes. Hoje, nas redes de cinemas são encontrados bons assentos, boa imagem, excelente som e o espectador da poltrona vizinha mastigando pipoca e bebendo refrigerante.

E mais mudanças serão vistas, desta vez vindas dos usuários de telefones celulares: é cada vez maior o número daqueles que os ligam, durante o filme, em diversos lugares na sala. Os usuários respondem mensagens de texto, resistindo em desligar os celulares. Ficam atentos às duas telas: a do cinema e à pessoal [celular]. Em maio passado, Amy Miles, da “CEO de Regal Entertainment” – a maior rede de exibição de filmes dos Estados Unidos -, advertiu que, embora sua empresa ainda não admita o uso de telefones celulares, “se apresentássemos um filme que seja para um público mais jovem, poderíamos mudar este critério” (www.acculturated.com).

A empresária está convencida de que a relação hiperconectada, entre os jovens e seus “smartphones”, não retrocederá e que se intensificará na medida em que os aparelhos se tornem mais sofisticados. O tema foi explanado na convenção anual que é feita pelos proprietários de redes de projeção cinematográfica, em Las Vegas. Neste encontro, debateu-se sobre a estratégia para favorecer a volta desses jovens às salas cinematográficas, uma vez que antes que deixar sua hiperconectividade permanente, preferem não ir ao cinema.

Desta forma, estamos na presença de um novo tipo de espectador, que imporá condições na forma de ver cinema. O “Cinemacom” procura recapturar esses adolescentes desertores das salas, e busca soluções. Uma delas seria dispor de um espaço isolado, como se fosse uma sala para fumantes, onde seria permitido usar o celular sem restrições. A outra é oferecer funções especiais, com maior custo, para aqueles que querem usar o celular durante o filme. Trata-se de fazê-los se sentir em casa, fazendo “zapping” entre o filme, as mensagens de texto e as chamadas de seus amigos. Se já podem comer na sala, por que deveriam desligar a placenta midiática, prestativa e solícita, vinte e quatro horas, para alimentar o jovem hiperconectado.

Freud falava dos órgãos auxiliares para se referir aos avanços tecnológicos que o homem se colocava, e que o faziam se sentir um deus. Ele dizia que era difícil para que se acostumasse com as próteses tecnológicas, mas acreditamos que não é o que acontece com o celular. O “smartphone” torna atual o modelo proposto por Donna Haraway, em seu “Manifesto cyborg”, de 1985: o cyborg é um híbrido de máquina e homem, um organismo cibernético, uma pessoa conectada a uma rede. Hoje, o cyborg – híbrido de máquina e homem, organismo cibernético, pessoa conectada a uma rede – não é mais uma ficção: o celular já é parte do corpo do homem. Sua presença marca um aprofundamento da relação entre o atual corpus tecnológico e o corpo das pessoas. E este corpo mediático traz uma nova forma de subjetivação. Uma nova modificação do homem, onde a mutação é pela incorporação da tecnologia web e suas máquinas de comunicar, que se introduzem no corpo e o modificam.

Atualmente, o cyborg – união do humano com a menor e mais potente máquina de comunicar que foi inventada – não pode se sustentar sem essas múltiplas aplicações da hiperconectividade providas pelos “smartphones”. Desconectá-lo ou esquecê-lo gera uma ansiedade muito primária: como humano, precariza-se, e com o celular vence a incerteza. É assim que se constitui o cyborg, um Popeye que comeu espinafre e acredita estar seguro e pronto para qualquer façanha comunicativa.

O celular, assim incorporado ao corpo, realiza uma unidade mais completa do corpo mediático, que havia começado com a TV, para se aprofundar com a revolução informática e alcançar novas dimensões com a ordem da telefonia celular. Agora, a placenta mediática pode ser requerida em todo momento e lugar. Os celulares são o cordão umbilical do modelo cyborg: anexados ao corpo, fazem parte dele. Sem dúvidas, as novas gerações, as infâncias digitais que estamos vendo crescer, serão muito mais cyborg. Contudo, os que já são cyborgs hiperconectados não admitem restrições ao seu afã comunicativo. Por isso, o cinema e o teatro são cada vez mais um campo de batalha entre os que não aceitam os celulares ligados e aqueles que não podem prescindir do seu. Estes, ao se esquecer de desligá-los – um típico ato de frustração -, impõem condições aos outros.

No cinema atual está presente o modelo televisivo: o “celu-espectador” aplica o modelo que praticou em frente ao televisor: o zapping. Vai do filme à mensagem de texto recém-recebida e vice-versa. Ou seja, sua atenção é menos concentrada e, por isso mesmo, requer vários estímulos simultâneos; com a reserva de que é mais fiel à sua conexão por celular do que ao ritual da tela.

Como o celular conta com vibrador, pode não atrapalhar com o seu som, mas trata de impor novas regras em relação ao acender e apagar das luzes. Os novos celulares com “leds” possuem um brilho que é impossível não prestar atenção. E o espectador com seu celular não é anônimo, não se trata de passar despercebido, como também não pretendem passar, aqueles que comem pipoca num balde: estão dispostos a romper a liturgia que conhecíamos no cinema. Em sua prepotência de cyborg, pouco importa as reclamações dos humanos espectadores (restos arqueológicos da humanidade pretérita); ele não quer a escuridão completa, não quer estar atento somente ao filme, não quer perder nada de seu mundo pessoal durante o filme. Na sociedade do espetáculo, o cyborg não aceita ser espectador, quer ser protagonista.

Em definitivo, quer fazer o que aprendeu e desenvolveu em sua casa, assistindo televisão: comer rápido, atender ao telefone e fazer “zapping”. O controle remoto era uma ferramenta, embora fora do corpo, não era solto da mão. O celular é parte inseparável do próprio corpo. Ele vai para todas as partes, é escutado diretamente no ouvido, fala-se mais com ele do que com quem se está viajando ou trabalhando. O celular constitui uma nova espécie de humanidade, e os cyborgs mostram as novas formas de subjetivação condicionadas pela tecnologia.
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 *O psicanalista Cézar Hazaki, citando como precedente a complexa relação entre a TV e o cinema, sustenta que aqueles que não param de olhar o celular, durante o filme, fazem parte de “um novo tipo de expectador, que imporá condições”, e que esse expectador é a realização do cyborg que a ficção científica já antecipou. O texto, extraído de um artigo escrito para o próximo número da revista Topía, é publicado no jornal Página/12, 01-11-2012. A tradução é do Cepat.
Fonte: IHU on line, 03/11/2012
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