domingo, 8 de maio de 2022

Bifo: a guerra e a deriva psicótica do Ocidente

 Por Franco Berardi

Putin e os que o provocam. A loucura sacrificial russa e a ignorância americana. O inimigo interno que a mídia cala. O que leva alguém a pegar em armas. Guerra interbranca e emergência bárbara das periferias. Xi: “uma só mão não faz barulho”


Por Franco “Bifo” Berardi ! Tradução: Vitor Costa

 

Inimigo interno

A lógica da guerra é o horror.

Na semiótica da guerra, todas as histórias de horror, mesmo as falsas, são eficazes porque produzem ódio e medo.

Por que se surpreender se os EUA lançarem bombas de fósforo em Fallujah ou se os russos matarem prisioneiros indefesos em Bucha?

Estamos falando de crimes de guerra? Mas a guerra é um crime em si, uma cadeia automática de crimes.

A pergunta a responder: quem é o responsável por esta guerra?

Quem a queria, a provocava, a armava?

O nazi-stalinismo russo liderado por Putin, não há dúvida. Mas todos vemos que mais alguém a desejou e a está alimentando ativamente.

Se em fevereiro a União Europeia tivesse convocado uma conferência internacional para discutir as demandas do chanceler russo Sergey Lavrov, a máquina da guerra poderia ter parado. Em vez disso, preferiram colocar lenha na fogueira.

Um delegado ucraniano que participava de conversas com os russos declarou de forma muito franca: “Estou surpreso. Por que a OTAN disse tão cedo que não interviria em caso de guerra? Foi assim que ela estimulou a Rússia a escalar o conflito” (citado em Limes 3/2022, El fin de la paz, La palabra a los pueblos mudos).

Os que participam de uma guerra são incapazes de pensar. Por razões neurocognitivas bastante fáceis de entender, os que fazem a guerra não têm tempo para pensar, eles têm é que salvar suas vidas, eles têm é que matar aqueles que podem atentar contra suas vidas.

E primeiro eles devem silenciar o inimigo interno.

Esse inimigo interno é a sensibilidade do ser humano, a consciência, se quiserem nomeá-la assim. Freud falava disso em um texto sobre a “neurose de guerra” escrito durante a I Guerra Mundial: o inimigo interno se manifesta como dúvida, hesitação, medo, deserção. O inimigo interno é a vontade de pensar.

Agora estão toda a mídia e todo o sistema político determinados a derrotar esse inimigo interno.

Já estamos muito longe no processo de militarização do discurso público e a classe política e jornalística italiana traz disciplinadamente o cérebro à massa nacionalista. Nessa massa é difícil distinguir as vozes de jornalistas de extrema direita e aquelas dos intelectuais de formação trotskista.

O sistema de mídia passou por uma mutação dramática nos últimos dois anos. Durante a pandemia ele foi constantemente mobilizado para fins sanitários. Vinte e quatro horas por dia nos mostravam ambulâncias, aventais verdes, aparelhos de ventilação e, depois de certo ponto, injeções, seringas e mais injeções e mais seringas, num fluxo ininterrupto de ansiedade e intimidação. Alguém previu que esse cerco da mídia médica era o preâmbulo de uma mutação definitiva na mídia. Agora, por vinte e quatro horas, vemos espetáculos aterrorizantes, corpos mutilados, a fuga desesperada e dolorosa de mães e filhos. Vinte e quatro horas por dia testemunhamos a multidão de comentaristas e generais clamando pela guerra e silenciando seu inimigo interno.

O que você faria se morasse em Kiev?

Eu também me perguntei: o que eu faria se morasse em Kiev? Durante dias essa pergunta me assombrou. Meu pai participou da resistência italiana contra o fascismo, disse a mim mesmo, então não seria meu dever apoiar a resistência do povo ucraniano? Não deveria lutar pelos valores que a agressão russa põe em perigo?

Então me lembrei que meu pai não era antifascista quando teve que fugir do quartel de Pádua onde era um simples soldado. O problema nunca havia sido levantado, o fascismo era uma condição natural óbvia para ele, como era para a grande maioria dos italianos. Quando o exército italiano se desfez depois de 8 de setembro, ele fugiu como tantos outros, foi visitar sua família em Bolonha, mas seus pais fugiram da cidade por medo de bombardeios. Então, com seu irmão, ele decidiu fugir para as montanhas próximas, quem sabe por quê. Eles encontraram um grupo de outros evacuados, encontraram alguns guerrilheiros e uniram forças. Para defender sua vida, ele se tornou um partigiano. Conversando com os colegas, parecia-lhe que os mais preparados e generosos eram os comunistas. Assim, ele entendeu que tinham uma explicação para o passado e um plano para o futuro, então se tornou comunista.

Se eu morasse em Kiev e alguém me explicasse que tenho que defender o Mundo Livre, a Democracia, os Valores Ocidentais, palavras com letra maiúscula, eu desertaria. Mas talvez eu decidisse me juntar à resistência para defender minha casa, meus irmãos, palavras com letras minúsculas.

Portanto, não posso responder quando me pergunto se eu participaria da resistência ucraniana, se atiraria em soldados russos ou não. O que eu sei com certeza é que as principais razões pelas quais o “Mundo Livre” chama os ucranianos à resistência são falsas. E igualmente falsa é a retórica dos europeus que nos encorajam a continuar com o show.

O nazismo é uma evolução da humilhação

Um show de horrores desencadeia-se na Europa, como ocorreu na Síria, Afeganistão, Iraque, Líbia, Iêmen por algumas décadas. Mas eram lugares distantes, habitados por pessoas diferentes de nós, na verdade. Para ser mais preciso, habitados por pessoas que odiamos e consideramos inferiores.

Vladimir Putin, que nunca escondeu sua vocação imperial e seus métodos stalinistas quando foi cortejado por nossos presidentes, empresários e jornalistas, desencadeou esta guerra porque a maioria do povo russo reagiu à humilhação dos últimos trinta anos da mesma forma que o os alemães reagiram à humilhação de Versalhes na década de 1930.

O nazismo é uma evolução da humilhação, é uma promessa de redenção agressiva contra a humilhação. E quem quiser conhecer a profundidade da humilhação sofrida pelos russos desde os anos 1990 deveria ler Second Hand Time (O Fim do Homem Soviético, na tradução Brasileira), de Svetlana Aleksievich.

Mas, como diz Xi, “uma única mão não faz barulho”. A mão de Putin não é suficiente. A outra mão é a de Joe Biden, que empurrou os russos e ucranianos para a guerra a fim de alcançar quatro resultados: destruir politicamente a União Europeia, impedir a criação do gasoduto Nord Stream 2, triunfar nas urnas em seu país e derrotar os russos.

Os dois primeiros objetivos foram perfeitamente alcançados.

O projeto Nord Stream 2 foi cancelado pelo governo alemão, por isso agora a Europa terá que se abastecer no mercado norte-americano, onde o combustível custa um pouco mais. De qualquer forma, isso não será suficiente para substituir o gás russo.

Politicamente, a União Europeia esteve sob o comando da OTAN e foi forçada a se identificar como nação, o que é exatamente o oposto do que pensavam os fundadores da UE.

A União Europeia nasceu para sair da obsessão nacionalista do século XX, mas nos primeiros meses de 2022 a OTAN a transformou em nação. E agora a “Nação Europa” está indo para o batismo de fogo da guerra como qualquer outra nação na história passada.

Sobre os outros resultados, a questão se complica, porque a maioria dos americanos desaprova a política externa de Biden (o que nunca havia acontecia antes, nem nos tempos da Guerra do Vietnã, nem da Guerra do Iraque). As preferências eleitorais, de acordo com as últimas pesquisas, não são favoráveis para Biden. É provável que os democratas percam as eleições legislativas de novembro e no futuro próximo um republicano (não sei qual mas não descarto Trump) ganhe as eleições presidenciais.

Quanto ao último resultado que Biden queria alcançar, a derrota da Rússia, as coisas são ainda mais complicadas. Apesar da feroz resistência do povo ucraniano, a Rússia está conseguindo o que pretendia, ou seja, a destruição do exército ucraniano e o controle dos territórios do sudeste e da Crimeia. Que os soldados russos morram aos milhares, e mesmo que os generais russos caiam nos combates, Putin se importa muito pouco. O sacrifício é a alma do místico nacionalista russo, como sabe quem leu Tolstói ou Isaac Babel e Alexander Blok.

Mais tarde, é previsível que o conflito se torne endêmico em território ucraniano e que a Rússia entre numa fase de catástrofe econômica e social.

Mas será que os estrategistas da intransigência anti-Putin refletiram sobre o que significa uma guerra de sucessão na hierarquia militar daquele país que tem seis mil ogivas nucleares?

A vida é um paraíso

De acordo com algumas pesquisas, 83% dos russos apoiam a guerra.

Não acredito, acho que as pesquisas que vêm de Moscou não são confiáveis. Mas é provável que a agressão desfrute de um consenso majoritário.

Uma minoria crescente de jovens russos também está se voltando para as ideias de ultranacionalistas, para quem a guerra na Ucrânia é uma autopurificação da alma russa e o prelúdio de aventuras mais amplas.

“Obrigado, Ucrânia, por nos ensinar a ser russos novamente”, declarou liricamente um idiota chamado Ivan Okhlobystin.

Há uma longa tradição martirológica que descende do espiritualismo ortodoxo, passando por Dostoiévski e se estendendo pelo século XX, reaparecendo em Vassili Grossman e no próprio Alexander Soljenitsyn. Essa vitimização mística é resumida nas palavras do irmão moribundo do monge Zósima em Os Irmãos Karamazov:

“Mãe, não chore, a vida é um paraíso e estamos todos no paraíso, mas não queremos admitir, porque se tivéssemos a vontade de admiti-lo amanhã, o paraíso se estabeleceria em todo o mundo. “

O paraíso de que fala Dostoiévski é a dor, o frio, a miséria, a tortura, enfim, a cruz. O nacionalismo ortodoxo russo ama a dor como prova de proximidade com Cristo na cruz e ama o povo tanto quanto odeia mulheres e homens concretos: “Como os homens são repugnantes”, diz Raskolnikov antes de cometer o crime sem sentido que deve ser cometido precisamente por causa de sua loucura. A ignorância americana encontra a ilusão russa e esse não é um encontro fácil. Os americanos (falo, é claro, da classe que tem poder político e midiático naquele país) nunca foram capazes de entender a diferença cultural, exceto como atraso e inferioridade a ser explorada, submetida ou corrigida com bofetadas.

Mas a diferença cultural russa permanece irredutível em sua mistura de universalismo salvífico e culto do sofrimento sofrido e infligido.

A loucura russa e a ignorância americana arrastaram a Europa para um precipício no qual agora parece difícil se segurar.

O país líder do Mundo Livre

No país que lidera o Mundo Livre (com letras maiúsculas, por favor) a polícia mata regularmente três pessoas por dia, geralmente negros.

Em 2020, após a revolta do Black Lives Matter, quando se tratava de conquistar o voto dos negros e da esquerda, o Partido Democrata prometeu reduzir o financiamento da polícia e investir pesadamente para melhorar as condições de vida. Claro que essas promessas não foram cumpridas: nenhum cancelamento de dívida estudantil, etc. Mas acima de tudo, nenhuma redução no orçamento policial. Pelo contrário, o financiamento aumentou.

Na fronteira mexicana, o retrocesso em relação aos imigrantes atingiu níveis que nos fazem lamentar os dias de Donald Trump.

Por uma razão ou outra, o apoio a Biden caiu para os níveis mais baixos. Após a derrota em Cabul, Biden teve que mostrar que, apesar de ter perdido a guerra contra o país mais pobre do mundo, os Estados Unidos poderiam vencê-la contra a Rússia. Por isso, ele não concordou em levar em consideração os seguidos pedidos de Sergei Lavrov, que repetiu muitas vezes que a Rússia queria discutir sua segurança, suas fronteiras e, portanto, a expansão que a OTAN vem buscando nos últimos 25 anos.

Como os velhos costumam fazer quando se rebelam contra sua dolorosa impotência, Biden decidiu enfrentar os russos linha-dura e preparar o confronto com Putin. Mas no final os ucranianos ficaram sozinhos contra o criminoso stalinista-czarista do Kremlin. Os apoiadores euro-americanos da resistência ucraniana fornecem as armas e o apoio da mídia. Mas são os ucranianos que estão morrendo, são eles que compreensivelmente foram empurrados para posições ultranacionalistas por uma longa história de opressão.

Uma guerra entre brancos precipita uma nova geopolítica do caos

Além da psicopatologia da demência senil, que desempenha um papel essencial no colapso psicótico da raça branca (russo-europeu-americana), qual é a motivação estratégica para esta guerra? Biden é categórico: o mundo livre deve ser defendido, ou seja, o Ocidente do qual ele decidiu ser o líder novamente. Defender o Ocidente após cinco séculos de colonização, violência, roubo sistemático e racismo não é uma tarefa fácil, e a guerra entre brancos precipitou o declínio, devolvendo o Ocidente ao colapso.

O que começou em 24 de fevereiro é uma “guerra interbranca”, na qual a raça branca está lutando contra a raça branca, e dessa guerra surgirá uma nova geopolítica pós-global.

Quando em 1989 o mundo livre derrotou o campo socialista que abriu caminho para a privatização do mundo e a imposição financeira do neoliberalismo, os ideólogos se perguntaram se essa nova ordem seria irrevogável e eterna e, portanto, se a história havia acabado, com todas as suas consequências, suas revoltas e suas guerras.

Francis Fukuyama falou um tanto precipitadamente a esse respeito, e os liberais democratas repetiam: democracia e mercado eram um par imbatível. Juntamente com a lei de ferro do mercado, a palavra democracia logo se tornou nonsense: a cada quatro ou cinco anos os cidadãos do mundo livre podiam eleger seus representantes, mas seus representantes não podiam fazer nada além de aplicar as leis do mercado, cuja lógica automática não podia ser solapada pela vontade política.

Esse teatro não poderia durar muito e a partir de 2016 a democracia foi reduzida a uma piada.

Alguém um pouco menos estúpido que Fukuyama escreveu um livro para explicar que uma era de conflito entre civilizações havia começado. Em O Choque de Civilizações e a Recomposição Mundial, Samuel Huntington delineou a geopolítica desse choque, que em sua opinião deveria ter colocado um certo número de blocos de civilização (talvez sete ou mais) uns contra os outros.

De certa forma, a teoria de Huntington viu na identidade (étnica, religiosa, cultural) a linha divisória entre as forças em conflito, e antecipou as guerras norte-americanas contra os países islâmicos, e o embate vindouro entre o Ocidente e o mundo chinês. Huntington não estava tão errado quanto Fukuyama, mas sua teoria banaliza um processo muito mais complexo.

O triunfo da democracia liberal coincidiu com a privatização geral da esfera social e a precarização geral do trabalho. Seu efeito foi o desmantelamento da “civilização social”, uma forma de sociedade em que os interesses da maioria são protegidos por normas políticas e, sobretudo, por uma educação que permite suspender a lei natural da selva.

Junto com muitas outras coisas, o totalitarismo capitalista destruiu a escola pública. Os processos educativos que na segunda metade do século XX motivaram a vida humana num sentido ético e solidário, promovendo o humanismo e o igualitarismo, foram substituídos por processos formativos desumanizantes: publicidade onipresente, palpitante, incontornável; digitalização dominada por grandes empresas globais que controlam a atividade cognitiva de humanos associados.

Assim, produziu-se o mais fantástico efeito de conformismo já conhecido: a ignorância e a superstição publicitária eliminaram todas as regras políticas e todas as formas culturais que não coincidiam com a imposição do lucro.

A financeirização abrangente da economia, possibilitada pelas tecnologias digitais, possibilitou o domínio definitivo do abstrato sobre o concreto.

O capitalismo financeiro apareceu como um sistema automático sem alternativas, o trabalho precário mostrou-se incapaz de gerar solidariedade e o futuro parecia definitivamente encapsulado no presente automatizado.

Nesse sentido, Fukuyama estava certo: a história havia acabado, a miséria psíquica se espalhava como um violento incêndio florestal e a subjetividade estava sujeita a uma ditadura psicofarmacológica maciça e a uma datificação digital generalizada.

Então veio a Catástrofe. Após as convulsões globais do outono de 2019 (as revoltas globais de Hong Kong, Santiago, Quito, Teerã) o vírus chegou.

E o vírus criou as condições para o colapso psíquico que agora perturba o cenário mundial.

O caos viral bloqueou a circulação de mercadorias e a continuidade do trabalho em grande parte do mundo, mas agora a ameaça de guerra perturba a cadeia concreta de produção-distribuição-consumo e a ameaça atômica perturba a imaginação deprimida, como um pesadelo sobre o qual acordamos apenas para descobrir que o sonho ruim é realidade.

Vingança

A guerra entre brancos, paradoxalmente, faz com que o mundo se divida em linhas inéditas, que não têm muito a ver com ideologia ou geopolítica, e têm mais relação com a história da colonização e da exploração racial.

Quando a proposta de condenação da invasão russa foi apresentada à ONU, os países mais populosos – Índia, Paquistão, Indonésia, África do Sul – juntamente com a China se abstiveram. Pela primeira vez, delineia-se um cenário geopolítico que percorre a linha de fratura colonial. Impérios brancos do passado colidem ou se unem, enquanto o mundo não-branco aparece no horizonte.

A Rússia é o coringa, o louco, o elemento interno que funciona como gazua para perturbar o mundo branco.

Outros elementos malucos são vistos por aí, você nem precisa nomeá-los. Outros ainda vão ficar loucos.

A guerra interbranca na Ucrânia é o catalisador de um processo de fratura entre o sul e o norte do mundo, do qual estamos vendo apenas os primeiros movimentos.

Às vezes me lembro do presidente Mao, de quem nunca fui seguidor, mas que disse coisas interessantes. Lembro que nos anos 1960 Mao teorizou que os subúrbios logo estrangulariam as metrópoles.

A teoria foi particularmente apoiada por seu leal escudeiro Lin Piao (que mais tarde foi eliminado enquanto pilotava um avião, em 1971),

Mas a visão do Grande Timoneiro deve ser entendida como uma aliança estratégica entre os trabalhadores do mundo industrializado e a população proletária ou camponesa dos países periféricos. O lema da Internacional Comunista “Trabalhadores do mundo, uni-vos!” foi reformado pelos maoístas: “Proletários e povos oprimidos, uni-vos!”

Naqueles anos, o colonialismo parecia retroceder e, em 1975, a derrota dos americanos no Vietnã parecia o momento culminante de um processo de emancipação.

Mas as coisas não saíram exatamente como esperávamos: o colonialismo derrotado ressuscitou em novas formas como dominação econômica, como o extrativismo, como a colonização cultural.

A fórmula “o campo estrangulará as cidades” pode ser considerada, em retrospectiva, como uma alternativa estratégica à aliança entre trabalhadores industriais e povos empobrecidos pelo colonialismo.

Se tudo correr bem, disse Mao, haverá uma aliança entre os trabalhadores do norte e os camponeses do sul. Se algo der errado e os trabalhadores do norte forem derrotados, serão os povos oprimidos que estrangularão o capitalismo imperialista.

Espero que você me perdoe pela simplificação caricatural, mas Mao não estava brincando. A Longa Marcha foi isso: o campo cercou as cidades até que ele tomou o poder em um país predominantemente camponês.

Os chineses guardam a memória da humilhação que as potências ocidentais em ascensão infligiram ao Império Celestial em meados do século XIX. Neste momento, os chineses voltam a se propor como ponto de referência para os povos empobrecidos pelo colonialismo, submetidos à exploração e humilhação por dois séculos, mas que hoje ameaçam a metrópole branca de várias maneiras: migrações, tribalismos nacionalistas, tendências de ruptura do papel do dólar como moeda global.

A “boa” perspectiva estratégica falhou porque o comunismo operário foi derrotado pelo capitalismo global neoliberal. Assim, apenas o segundo, o pior, permanece: nacionalismos ressurgidos, vingança.

Por enquanto, a vingança está ocorrendo dentro do mundo branco, com o conflito entre a Rússia e o Mundo Livre. Mas o próximo capítulo é o ressurgimento agressivo dos poderes que foram subjugados nos séculos passados.

O Ocidente será capaz de sobreviver a este duplo ataque que aumenta a persistência da hostilidade islâmica, pronta para ressurgir no Oriente Médio, mas também nos subúrbios da Europa?

Somente o internacionalismo da classe trabalhadora poderia ter evitado que o confronto com o colonialismo passado e presente terminasse em um banho de sangue global: nas décadas de 1960 e 1970, uma parte decisiva dos trabalhadores do Ocidente industrial e dos proletários dos povos oprimidos pelo colonialismo se reconheceram no mesmo programa comunista. Mas o comunismo foi derrotado, e agora temos que enfrentar a guerra de todos contra todos em nome do nada.

Precipício europeu

Neste precipício geral, deve-se tentar imaginar a evolução do precipício europeu. Como se dará o processo de desintegração social quando a economia for paralisada e a sociedade empobrecer de uma forma impensável até então? Quem vai liderar as prováveis ​​revoltas europeias?

No momento parece certo que as forças predominantes serão nacionalistas e psicóticas, e vem à mente a profecia de Sandor Ferenczi, que em um artigo de 1918 descartou que uma psicose de massa fosse curável.

Este é o desafio de hoje: como tratar uma psicose que ultrapassou seus limites individuais e invadiu a esfera da mente coletiva?

Não podemos responder a essas perguntas hoje de forma coerente, mas devemos nos fazer essas perguntas com urgência, pois a subjetividade social oscila entre uma epidemia depressiva e uma psicose de massa agressiva, e somente uma cura efetiva para essa condição patológica pode impedir o holocausto terminal.

Encontrar essa cura eficaz é uma tarefa a altura do desafio presente

Fonte: https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/bifo-a-guerra-e-a-deriva-psicotica-do-ocidente/

¿Está el humanismo muriendo? «Hay que pensar y vivir como cristianos, no es fácil pero sí efectivo»

Rémi Brague es uno de los intelectuales católicos más lúcidos de la actualidad.
 Rémi Brague es uno de los intelectuales católicos más lúcidos de la actualidad.


Rémi Brague augura su caída e invita a los cristianos a prepararse para lo que viene

Rémi Brague es en estos momentos uno de los intelectuales católicos más relevantes de Europa. El filósofo francés, Premio Ratzinger 2012, acaba de publicar un nuevo libro Après l'humanisme. L'image chrétienne de l'homme (Después del humanismo. La imagen cristiana del hombre) editado por Salvator, donde examina la noción del humanismo.

Una de los grandes debates es si el humanismo que conoce Occidente está muerto o en plena decadencia. Así lo cree Brague y lo manifiesta en una entrevista con Famille Chretienne. Sin embargo, lo primero que hace el profesor emérito de Historia Medieval de la Sorbona de París es intentar explicar el término humanismo.

“Si observamos el uso de la palabra, vemos que no es anterior al siglo XIX. En su sentido actual, aparece alrededor de 1840. La cosa en sí es, por supuesto, más antigua que el término que la designa. Digamos, en general, que se trata de otorgar al hombre algo especial: según las etapas de desarrollo del proyecto humanista, será primero una identidad original, luego un valor superior, luego un proyecto de dominación, finalmente un reino celoso, excluyendo a Dios y viendo en la naturaleza sólo una cantera y una despensa durante la semana, y un jardín público por donde pasear los domingos...”, explica el filósofo y profesor.

De este modo, considera que el humanismo se está deshaciendo, “al menos en sus tres primeros logros”. Así lo justifica: “la dominación de la naturaleza nos hace envenenarla, y a nosotros de rebote; no somos mejores que los demás vivientes; e incluso nosotros nos distinguimos de él sólo por una diferencia de grado, no de clase. Queda el ateísmo, aún no ‘deconstruido’, pero que, a largo plazo, tiende a destruir las sociedades que lo cimentaron”.

Preguntado sobre si el humanismo es un “hijo ilegítimo” del cristianismo, Brague aclara que lo que él podría considerar un hijo ilegítimo de la fe cristiana él lo llama humanitarismo.

 “Cuidar a los enfermos, sanar a los heridos, respetar a las mujeres y a los niños, alimentar a los hambrientos, acoger a los huérfanos, etc., son, para usar una expresión tradicional, ‘obras de misericordia’. De ninguna manera son opcionales para los cristianos. Históricamente, incluso se han distinguido en esta área. Piense, por ejemplo, en la razón por la cual los hospitales, en la Edad Media, se llamaban todos con el nombre que sigue siendo hoy, como en París: Hôtel-Dieu. Lo que, en cambio, plantea un problema en el humanitarismo es que en el fondo constituye un gran ‘no pasa nada’: el hombre es bueno, no se trata del pecado original. El mal resulta de los malentendidos, todo lo que se necesita es un poco de buena voluntad y todo saldrá bien. Basta con evitar los desacuerdos mediante la educación y el diálogo, basta con eliminar a los pocos villanos raros mediante una terapia adecuada. Esto puede salir mal: la educación se convierte en reeducación, la atención se dispensa en estos hospitales psiquiátricos donde los soviéticos aparcan a sus disidentes. Pero incluso en sus versiones civilizadas y blandas, el humanitarismo es irremediablemente demasiado corto, demasiado superficial, por así decirlo”, agrega.

Por ello, insiste en que desde hace dos mil años el cristianismo advierte de “la tragedia de la vida, incluso de la vida más pacífica”. Explica que todo está en juego en esta vida. Por ello lanza una pregunta: “¿diremos sí o no al Dios del amor?”. “El mal no está en otra parte, nos roe por dentro, y es él o nosotros. El cristianismo no es ‘pesimista’, es lúcido”.

La pregunta que surge tras leer la tesis de Rémi Brague es hacía dónde se dirige esta época si ya está abandonando el humanismo. El filósofo francés cree que es difícil, por no decir imposible, distinguir claramente lo que puede venir. Además, afirma que hay varias puertas que se pueden abrir.

El transhumanismo es una de las vías que aparece para ocupar el espacio del humanismo

“El sueño transhumanista (o pesadilla, según los gustos…) es una. Otra es la implacabilidad con la que se nos dice que el hombre es un animal más, un mono que ha tenido suerte en la lotería de la evolución, y que incluso sería el más peligroso entre los depredadores, etc. Para los representantes más extremos de esta tendencia sería necesario no sólo renunciar al humanismo, sino también acabar con el hombre. En este caso, renunciar al humanismo consistiría simplemente en desenmascarar la ideología que legitima la dominación humana. Hay un humanismo con el que muchos se niegan a romper, eso es lo que dice humanism en inglés, es decir un laicismo radical. Como he dicho varias veces, esto lleva a privar a cualquier evaluación objetiva del valor de la existencia del hombre en este planeta”.

¿Qué se debe esperar de los cristianos ahora que el humanismo va diluyéndose? “Para ser honesto, nada especial. Y no necesariamente para trastear con un humanismo con salsa cristiana y predicarlo. Más bien, que se esfuercen por sacar todas las consecuencias de su fe y por pensar y vivir como cristianos. Ya no es tan fácil… Pero, a largo plazo, es muy efectivo. Los cristianos viven según una lógica diferente a los que no lo son. Su forma de vida, no matar, aun donde no se vea, no eliminar bocas supuestamente inútiles, no robar, aunque sea de manera discreta y ‘legal’, no engañar a su cónyuge, no tratar de aplastar a la otros por su riqueza, su poder, su inteligencia, etc., todo esto es ‘paradójico’ (Carta a Diogneto, V, 4). La mera existencia de los santos es insoportable para lo que San Juan llama ‘el mundo’ que ‘nos odia’, como la de Jesús fue, para la instauración del Templo, un aguijón en la carne”.

Fonte:  https://www.religionenlibertad.com/personajes/382059114/Esta-el-humanismo-muriendo-Hay-que-pensar-y-vivir-como-cristianos-no-es-facil-pero-si-efectivo.html?eti=4520##STAT_CONTROL_CODE_3_382059114##

O Brasil precisa de paz

Margarida Genevois

Presidente de honra da Comissão Arns

José Carlos Dias

Presidente da Comissão Arns e ex-ministro da Justiça (1999-2000, governo FHC)

José Gregori

 Membro fundador da Comissão Arns, ex-secretário nacional de Direitos Humanos (1997-2000) e ex-ministro da Justiça (2000-2001) no governo FHC

 

O presidente Jair Bolsonaro (PL) e o deputado federal Daniel Silveira (PTB-RJ) 
posam com cópia emoldurada do perdão presidencial durante ato em 
defesa da liberdade de expressão no Palácio do Planalto, em Brasília - AFP

Escalada de ataques às instituições deve ser contida

A Constituição jamais estará a serviço de quem quer destruí-la. Ela não pode ser invocada, interpretada ou aplicada para favorecer ou assegurar a impunidade daqueles que buscam aniquilá-la. A tentativa de subverter a ordem constitucional é crime e não pode passar impune.

Ao agraciar com a impunidade um condenado que atentou contra as instituições democráticas, o presidente da República viola, ele próprio, o pacto constitucional. A concessão de graça, nos termos expressos no decreto presidencial, não encontra respaldo nas atribuições do presidente da República. Tal como concedida, fere o princípio republicano, que não autoriza o mandatário a colocar suas preferências e interesses pessoais acima da lei, assim como fere o princípio da separação de Poderes, pois o indulto foi empregado como verdadeira anistia, usurpando função do Congresso Nacional e com clara finalidade de confrontar uma decisão judicial.

O indulto previsto na Constituição, para ser compatível com o princípio republicano e o princípio da separação de Poderes, que constituem cláusulas pétreas de nosso sistema constitucional, não pode ser interpretado como uma competência discricionária absoluta do presidente que lhe autorize atender a interesses pessoais ou agraciar apaniguados que afrontem a legalidade.

Ao abusar de suas prerrogativas institucionais, o presidente deixa claro seu propósito de desestabilizar as instituições. No Estado de Direito, no entanto, não há esfera de poder imune ao controle do Judiciário. Sendo função precípua do Supremo Tribunal Federal guardar a Constituição, caberá a ele definir sobre a validade do lamentável decreto.

Ainda que todas as instituições e autoridades devam respeitar e estejam obrigadas a defender a Constituição, em casos de divergência entre os Poderes a responsabilidade pela última palavra cabe exclusivamente ao Supremo. E isso por determinação da própria Constituição. Insurgir-se contra essa regra seria trair a Carta Magna.

Neste momento de grave crise que vive a República, é fundamental que Senado Federal, Câmara dos Deputados e governadores se alinhem na defesa da democracia, hoje duramente vilipendiada por sucessivos atos de vandalismo político.

A democracia arduamente construída após mais de duas décadas de regime de exceção —que roubou o direito legítimo do povo brasileiro de escolher seus governantes, sem falar na sistemática violação de direitos humanos— vê-se novamente ameaçada, agora por milicianos institucionais, que plantam o caos com o propósito de colher a graça do poder sem limites.

O Brasil precisa de paz para poder se desenvolver. Temos muitos desafios pela frente. O flagelo da fome, do desemprego, da deseducação, da desigualdade, do racismo estrutural; a volta da inflação, que preda os salários dos mais pobres, a ineficiência econômica, a baixa produtividade e a insegurança para investimentos; a devastação do meio ambiente, que constitui um de nossos principais ativos; a insegurança pública, que deixa a população refém das milícias e do tráfico; e a constante afronta aos direitos dos povos indígenas, além de um galopante isolamento internacional, com graves consequências para a defesa dos interesses nacionais.

Nenhum desses problemas será devidamente superado num ambiente de constante crise, fomentada deliberadamente por um governo obcecado, única e exclusivamente, em permanecer no poder, erodindo nossa democracia constitucional.

O Brasil precisa de paz interna para que alunos possam aprender, para que os trabalhadores possam conquistar seu sustento, para que os empresários possam investir e inovar, para que os militares possam cumprir sua missão de proteger nossas fronteiras sem interferir na política. Enfim, para que cada cidadão possa buscar uma vida digna.

Não há mais espaço para ingenuidade e muito menos para a omissão criminosa por parte dos que têm a obrigação de defender a Constituição e as instituições do Estado democrático de Direito.

A escalada de ataques a nossas instituições deve ser imediatamente contida, sob pena de vermos definitivamente pavimentada o caminho para um regime autocrático. O Supremo Tribunal Federal tem o respaldo de todos aqueles que são leais à democracia, devendo ter a tranquilidade de cumprir a sua missão de guardião último da Constituição.

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2022/05/o-brasil-precisa-de-paz.shtml

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Uma outra agenda (mundial): libertemos a vida ou um outro paradigma civilizatório?

Leonardo Boff*

Agenda 2030 da ONU: tudo o que você precisa saber

Nota prévia: Organizou-se um grupo internacional que se propunha “uma outra agenda mundial para libertar a vida”. Realizou-se a primeira sessão no dia 5/5/2022. Cada participante (ao todo uns 20 mas nem todos participaram) tinha 10-15 minutos para apresentar sua visão do tema. O articulador era o conhecido economista italiano, trabalhando na Comunidade Europeia,em Bruxelas.O propósito básico é como democratizar os conhecimentos científicos que reforçam a busca de uma agenda que tenha por objetivo libertar a vida. Apresento aqui minha curta apresentação, feita em francês, com as ideias que tenho proposto e defendido em outros escritos. Até agora, pelo visto, a nova agenda se situa ainda dentro do velho paradigma (a bolha dominante), não se colocando a questão da profunda crise que este paradigma, o da modernidade tecno-científica, provocou e que está pondo em risco o futuro de nossa vida e de nossa civilização. Daí a oportunidade de expor claramente minha posição crítica e totalmente descrente das virtualidades deste paradigma de libertar a vida, antes a está celeremente destruindo. Lboff

*************

Vou direto o ponto: dentro do atual paradigma civilizatório, da modernidade, é possível outra Agenda ou tocamos nos seus limites intransponíveis e temos que buscar um outro paradigma civilizatório se quisermos continuar ainda viver sobre este planeta?

Minha resposta se inspira em três afirmações de grande autoridade.

A primeira é da Carta da Terra, assumida pela UNESCO em 2003. Sua frase de abertura assume tons apocalípticos:”Estamos diante de um momento crítico da história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro…A nossa escolha é: ou formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a destruição da diversidade da vida”(Preâmbulo).

A segunda afirmação severa é do Papa Francisco na encíclica Fratelli tutti (2020):”estamos no mesmo barco, ninguém se salva por si mesmo,ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”(n.32). 

A terceira afirmação é do grande historiador Eric Hobsbawn em sua conhecida obra A era dos extremos(1994) em sua frase final: Não sabemos para onde estamos indo. Contudo, uma coisa é certa. Se a humanidade quer ter um futuro aceitável, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base,  vamos fracassar. E o preço do fracasso ou seja, a alternativa para a mudança da sociedade é a escuridão”(p.562).

Em outras palavras: o nosso modo de habitar a Terra, que inegáveis vantagens nos trouxe, chegou ao seu esgotamento. Todos os semáforos entraram no vermelho. Construimos o princípio da autodestruição, podendo exterminar toda a vida com armas químicas, biológicas e nucleares por múltiplas formas diferentes. A techno-ciência que nos fez chegar aos limites extremos de suportabilidade do planeta Terra (The Earth Overshoot) não tem condições, por si só, como o mostrou o Covid-19, de nos salvar. Podemos  limar os dentes do lobo pensando que lhe tiramos,ilusoriamente, sua voracidade. Mas esta não reside nos dentes mas em sua natureza.

Portando, temos que abandonar o nosso barco e ir além de uma nova agenda mundial. Chegamos ao fim do caminho. Temos que abrir um outro diferente. Caso contrário, como disse em sua última entrevista antes de morrer Sigmund Bauman: “vamos engrossar o cortejo daqueles que rumam na direção de sua própria sepultura”. Somos forçados, se quisermos viver, a nos recriar e reinventar um novo paradigma de civilização.

Dois paradigmas: do dominus  e do frater

Vejo nesse momento o confronto entre dois paradigmas: o paradigma do dominus e o paradigma do frater. Em outra formulação: o paradigma da conquista, expressão da vontade de poder como dominação, formulada pelos pais fundadores da modernidade com Descartes,Newton,Francis Bacon,dominação de tudo, de povos, como nas Américas, na África e na Ásia, dominação das classes, da natureza, da vida e dominação da matéria até em sua última expressão energética pelo Bóson Higgs. 

O ser humano (maître et possesseur  de Descartes) não se sente parte da natureza, mas seu senhor e dono (dominus) que nas palavras de Francis Bacon “deve torturar a natureza como o torturador faz com sua vítima até que ela entregue todos os seus segredos”. Ele é o fundador do método científico moderno, prevalente até os dias de hoje.

Esse paradigma entende a Terra como mera res extensa e sem propósito, transformada num baú de recursos,tidos como infinitos que permitem um crescimento/desenvolvimento também infinito. Ocorre que hoje sabemos cientificamente que um planeta finito não suporta um projeto infinito.Essa é a grande crise do sistema do capital como modo de produção e do neoliberalismo como sua expressão política.

O outro paradigma é o do frater: o irmão e a irmã de todos os seres humanos entre si e os  irmãos e as irmãs de todos os demais seres da natureza.Todos os seres vivos possuem como Dawson e Crick mostraram nos anos de 1950, os mesmos 20 aminoácidos e as 4 bases nitrogenadas, a partir da célula mais originária que surgiu há 3,8 bilhões de anos, passando pelos dinosauros e chegando até  nós humanos. Por isso, diz a Carta da Terra e o enfatiza fortemente o Papa Francisco em suas duas encíclicas ecológicas, Laudato Si: sobre o cuidado da Casa Comum (2015) e a Fratelli tutti (2020): um laço de fraternidade nos une a todos,”ao irmão Sol, a irmã Lua, o irmão rio e a Mãe Terra”(LS n.92;CT preâmbulo). O ser humano se sente parte da natureza e possui a mesma origem que todos os demais seres, “o humus”(a terra fértil) de onde se deriva o homo, como masculino e feminino,homem e mulher.

Se no primeiro paradigma vigora a conquista e a dominação (paradigma Alexandre Magno e Hernan Cortes), no segundo se mostra o cuidado e a corresponsabilidade de todos com todos( o paradigma Francisco de Assis e Madre Teresa de Calcutá).

Figurativamente representando podemos dizer: o paradigma do dominus é o punho cerrado que submete e domina. O paradigma do frater é a mão estendida que se entrelaça com outras mãos para a carícia essencial e o cuidado de todas as coisas. O paradigma do dominus é dominante e está na origem de nossas muitas crises e em todas as áreas. O paradigma do frater é nascente e representa o anseio maior da humanidade,especialmente aquelas grandes maiorias impiedosamente dominadas, marginalizadas e condenas a morrer antes do tempo. Mas ele possui a força de uma semente. Como em toda semente, nela estão presentes as raízes, o tronco, os ramos, as folhas, as flores e os frutos. Por isso por ele passa a esperança,como princípio mais que com virtudes, como aquela energia indomável que sempre projeta novos sonhos, novas utopias e novos mundos, vale dizer, nos fazem caminhar na direção de novas formas de habitar a Terra, de produzir, de distribuir os frutos da natureza e do trabalho, de consumir e de organizar relações fraternais e sororais entre os humanos e com os demais seres da natureza.

A travessia de um paradigma do dominus para o paradigma do frater

Sei que aqui se põe o espinhoso problema da transição de um paradigma ao outro. Ele se fará processualmente, tendo um pé no velho paradigma do dominus/ conquista pois devemos garantir nossa subsistência e outro pé no novo paradigma do frater/cuidado para inaugurá-lo a partir de baixo. Aqui vários pressupostos devem ser discutidos, mas não é o momento de fazer isso. Mas uma coisa podemos avançar: trabalhando o território, o bioregionalismo, se poderá implantar regionalmente o novo paradigma do frater/cuidado de forma sustentável, pois tem a capacidade de incluir a todos e criar mais igualdade social e equilíbrio ambiental.

Nosso grande desafio é este: como passar de uma sociedade capitalista de superprodução de bens materiais para uma sociedade de sustentação de toda a vida, com valores humano-espirituais, intangíveis como o amor, a solidariedade,a compaixão, a justa medida,o respeito e o cuidado especialmente dos mais vulneráveis.

O advento de uma biocivilização

Essa nova civilização possui um nome: é uma biocivilização, na qual a centralidade é ocupada pela vida em toda a sua diversidade,mas especialmente a vida huma pessoal e coletiva. A economia,a política e a cultura estão a serviço da manutenção e da expansão das virtualidades presentes em todas as formas de vida. 

O futuro da vida na Terra e o destino de nossa civilização está em nossas mãos. Temos pouco tempo para fazer as transformações necessárias, pois já entramos na nova fase da Terra, seu aquecimento crescente. Falta a suficiente consciência nos chefes de estado sobre as emergências ecológicas e é muito rara ainda no conjunto da humanidade.

*Leonardo Boff,teólogo,filósofo e escreveu: Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres,1999/2018; Habitar a Terra:qual é o caminho para a fraternidade universal? Vozes 2022.

Fonte: https://leonardoboff.org/2022/05/06/uma-outra-agenda-mundial-libertemos-a-vida-ou-um-outro-paradigma-civilizatorio/