quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

"A universidade hoje é uma presa da superespecialização", diz Luís Augusto Fischer

Anselmo Cunha / Agencia RBS 

Fischer: "Uma coisa é a semana de arte moderna em si e outra é o processo histórico que se fez com ela"

Professor de Literatura Brasileira projeta para 2022 novo livro questionando a Semana de Arte Moderna de 1922 como "big bang da inteligência brasileira"

O mês de fevereiro será marcado pelo centenário da Semana de Arte Moderna de 1922. Ainda no primeiro semestre, deverá ser publicado pela editora Todavia um livro de Luís Augusto Fischer que busca redimensionar o episódio na história da cultura brasileira. Será a consolidação de uma crítica à Semana que o professor de Literatura Brasileira da UFRGS tem desenvolvido ao longo dos anos. Fischer pontua, como explica na entrevista a seguir, que o modernismo paulista é visto – indevidamente – como ponto de partida de tudo que houve de moderno na cultura do país, abordagem ensinada inclusive nas escolas. Seu esforço é o de descortinar a construção dessa ideologia. Um dos intelectuais do Rio Grande do Sul mais presentes na arena pública nacional, Fischer lançou em agosto o livro Duas Formações, uma História (ed. Arquipélago). Nesse estudo de fôlego, traça um mapa para repensar a forma como a história da literatura brasileira pode ser contada. 

A Semana de Arte Moderna de 1922 está completando cem anos. Tens sido uma voz crítica a esse movimento, identificando um superdimensionamento de sua importância na cultura brasileira. Que parte da Semana de Arte Moderna merece ser comemorada em 2022?
Falando bem genericamente, pode-se comemorar qualquer coisa. Certamente a Semana de Arte Moderna é um marco. Mas uma coisa é o evento em si e outra é o que o processo histórico faz com ele. Para dar um exemplo de outra ordem: a Guerra dos Farrapos. O que ela foi naquele contexto e o que se fez com ela? Quem são os herdeiros que reivindicam o espólio farrapo, verdadeiro ou não? Então, a primeira coisa nesse debate é dizer: uma coisa é a Semana e outra é o que ela virou com o tempo. Meu ponto principal é estudar o processo de consagração da Semana como sendo um big bang de tudo de moderno, bom e bacana que se fez no Brasil dali por diante. Essa ideia de que a Semana está no centro de tudo é uma construção histórica muito lenta, que demorou várias décadas até se estabilizar. Voltando à pergunta: dá para comemorar, porque foi legal, foi bacana. Um evento, três dias, barulho e tal. Mas, colocado nos seus termos, aquilo é um evento local, provinciano, na cidade de São Paulo, que – vou citar o Mário de Andrade – era uma cidade rica, mas provinciana. Ele diz isso com essas palavras em uma famosa conferência de 1942. Diz que, se a Semana tivesse ocorrido no Rio, não teria tido nenhuma repercussão. Porque o Rio, e essas agora são minhas palavras, já tinha muitas estratégias de modernidade, autores, compositores, cancionistas, gente que fazia cinema, feminismo. Tinha de tudo no Rio. Não porque era melhor que São Paulo; simplesmente era uma cidade mais cosmopolita, mais antiga. Era a capital do país. Este é um dado bem interessante: até a década de 1880, Porto Alegre e São Paulo tinham a mesma população e o mesmo padrão de crescimento populacional. Só a partir dali é que São Paulo explode. Então, dá para comemorar, mas não dá para ter a ilusão de que a Semana foi o big bang da inteligência brasileira. Essa transformação ocorreu por operações históricas que são detectáveis e analisáveis. É o que faço no novo livro que deve sair em 2022.

Uma coisa é a semana de arte moderna em si e outra é o processo histórico que se fez com ela. Por exemplo, a Guerra dos Farrapos: o que ela foi naquele contexto e o que se fez com ela? Não dá para ter a ilusão de que a Semana foi o big bang da inteligência brasileira.

O livro vai elaborar em profundidade a visão crítica sobre a Semana que tens pesquisado nos últimos anos?
A ideia foi juntar as coisas que eu já tinha escrito sobre a crítica à divinização da Semana. Mas aí acabei estudando e vendo que tinha uma estratégia melhor. Os capítulos se chamam 1922, 1932, 1942... até 2022. Década por década, o que fiz foi estudar, em torno dessas datas, o que ocorreu no debate a respeito da importância da Semana e do modernismo. Tem marcos importantes, como o artigo do Mário de Andrade de 1942. Era ele aos 20 anos da Semana fazendo uma conferência no Rio, dando um balanço da Semana. No mesmo ano, o Viana Moog, intelectual nascido em São Leopoldo, faz um estudo e afirma que não há literatura brasileira ainda. O que tem são sete ilhas que não se comunicam. Não sei se ele tem razão ou não, mas só para ilustrar. Em 1942, o Mário dizia naquela conferência que já existia literatura brasileira e que ela era o modernismo. É só um exemplo bem pontual de como em 1942 ainda tinha essa disputa. Também fui atrás de obras do Antonio Candido e do Alfredo Bosi. O Bosi, em 1966, publica O Pré-Modernismo. Ele diz que o pré-modernismo está definido há muito tempo por Alceu Amoroso Lima. E sai falando sobre o que é o pré-modernismo, que é o sentido que tem até hoje. Aí fui ler o Alceu, que nunca tinha lido. E ele não diz nada daquilo. Só usou o termo pré-modernismo para dizer que era antes do modernismo. O Bosi inventou a categoria do pré-modernismo e consolidou uma ideia que o Mário de Andrade já tinha. Mário chamava o Manuel Bandeira de São João Batista do modernismo. É uma metáfora cristã, porque São João Batista anunciou a chegada do suposto salvador, que era Jesus Cristo. Aí eu digo de maneira debochada que o Mário dizia isso porque ele, Mário, era o Jesus Cristo dessa história, ele era a verdade revelada. E o Bandeira reagia a isso. Catei na correspondência entre Mário e Bandeira. Ele dizia: “Não sou São João Batista coisa nenhuma”. O livro contará esses episódios.

Que condições possibilitaram que a Semana assumisse esse significado central no imaginário brasileiro?
O que faço no último capítulo do livro é um ensaio em que tento explicar quais são as condições objetivas, históricas, políticas, econômicas, sociais que sustentam essa entronização da Semana como centro de tudo. Em uma frase: a resposta é a economia de São Paulo. Voltei a estudar história econômica. Tem uma tese do Jorge Caldeira que diz que São Paulo conseguiu enriquecer porque ficava longe da sanha fiscalista da Coroa. São Paulo enriqueceu com a Guerra do Paraguai. A economia da província de São Paulo foi uma intermediária importante no abastecimento das tropas. E, quando veio o café, foi um negócio absurdo. Na década de 1910, quase 90% do café mundial passava pela cidade de São Paulo. É uma fábula de dinheiro que não tem tamanho. E isso se acentua. Na chamada Primeira República, foi o primeiro momento em que as províncias tiveram autonomia para taxar exportação. Isso muda tudo. Então, o imposto de exportação era cobrado pelos Estados, e o de importação era cobrado pela União. O café enriqueceu São Paulo. E, uma geração depois da Semana, nos anos 1950, há a explosão da indústria automobilística brasileira. A força da economia de São Paulo é irrepetível. Não tem outra região do Brasil que tenha vivido algo parecido com essa arrancada, que vai de 1880 a 1950, um processo de três gerações.

Acreditas que tua interpretação sobre o modernismo pode ser adotada nas universidades e no Ensino Médio?
Respondendo de trás para frente, primeiro a questão de chegar às escolas. O vestibular unificado quase acabou. A força que a ideologia modernista paulista teve correspondeu nos últimos 50 anos à lógica do vestibular unificado. Antes de 1970, o exame vestibular era feito em cada unidade. Os professores da Faculdade de Arquitetura, por exemplo, elaboravam provas para quem era candidato à Arquitetura. Então, o cara tinha que estudar história da arte, desenho, matemática. Porque era um momento em que a universidade no Brasil era para muito poucos. Muito pouca gente concluía o atual Ensino Médio. Então, ocorreu a revolução industrial brasileira, o êxodo rural, e, ao longo dos anos 1960, começou a haver mais gente nas cidades, mais gente demandando a universidade. Nesse momento, no miolo da ditadura, em vez de ampliar as vagas, o então Ministério da Educação e Cultura criou o vestibular unificado. E todos os candidatos a qualquer curso prestavam a mesma prova. Isso é um crime intelectual inominável que fez a gente ter um Ensino Médio enciclopédico. É bem diferente do que se faz, por exemplo, nos EUA. Agora, esse vestibular unificado acabou por causa do Enem. E o Enem não tem um programa explícito de literatura. Tem habilidades de leitura. Acho que por alguns anos ainda vamos ter a inércia dessa mentalidade da historiografia literária brasileira modernistocêntrica dominando sem aparecer, seguirá como favas contadas.

A universidade hoje é uma presa da superespecialização. A perspectiva de uma leitura de conjunto da história não é moeda corrente, quase ninguém se ocupa disso. O cara faz a carreira dele estudando um autor.

E quanto à repercussão da tua interpretação no meio acadêmico hoje?
É uma coisa muito irregular. Não sou só eu que faço essa crítica (ao modernismo), tem mais gente que faz. Tem um cara que não tem a ver com a academia, que é o Ruy Castro, que tem publicado muita coisa. Muitos dos meus colegas de universidade gostam, saúdam o que eu escrevo, mas ao mesmo tempo a universidade hoje é uma presa da superespecialização. A perspectiva de uma leitura de conjunto da história não é moeda corrente, quase ninguém se ocupa disso. O cara faz a carreira dele estudando um autor. No fundo, arriscaria dizer que a maior parte dos meus colegas professores de literatura em universidades simplesmente não vê isso como relevante. Por causa da superespecialização. A universidade permite, para o bem e para o mal, um relativo descompromisso com um debate como esse, que envolve ensino, ideologia. Estudei História, não me formei por poucas cadeiras. Às vezes, eu me encontro mais conversando com colegas que estudam história da cultura na (área de) História do que com colegas que estudam literatura.

O livro Duas Formações, uma História é como um roteiro para repensar a forma de escrever a história da literatura tendo em vista o advento de diferentes aportes teóricos, incluindo alguns que não têm origem na literatura, como Viveiros de Castro?
Sim. Tomo conselho com Viveiros de Castro, com Stephen Jay Gould, com teóricos da história. Com a nova geração de historiadores, que é a minha geração cronológica: João Luís Fragoso, Manolo Florentino, que são os caras que reviraram essa história. O número dois do título Duas Formações, Uma História tem a ver com minha condição de habitante do sul do Brasil ou, como se diz genericamente, gaúcho. Vivendo numa ponta do Brasil que nunca esteve no centro de nada, ao contrário dos baianos, cariocas e paulistas, que estão ou estiveram no centro da cultura brasileira. Então, a gente sempre desenvolve uma perspectiva, no fundo, dupla. Quem é intelectual aqui tem de pensar sobre o local e o não local o tempo todo. Escutamos o samba carioca e o tango platino e, de certa forma, as duas coisas nos dizem respeito. Porque realmente estamos numa ponta da história. E essa ponta costuma ser vista como problemática para os grandes enquadramentos. Eu postulo a ideia de que o Brasil tem essas duas formações: uma sendo a plantation, a grande propriedade escravagista monocultora exportadora, no litoral; e tem também o lado de dentro, e uso para isso a palavra sertão, num sentido genérico, como terra desconhecida. A gente aqui vive ouvindo poesia, lendo romance que tem a ver com esse mundo do “sertão” entre aspas. O Erico Verissimo de O Tempo e o Vento é sertão puro. E aí esses caras que falam desse sertão aqui no pampa ou no oeste do Rio Grande do Sul são vistos pela visão hegemônica – que é urbana – como um acidente de percurso. Daí, quando aparece um gênio como Guimarães Rosa, não dá para dizer que é um acaso. Ele não fica naquela gaveta de “outros”. Como tu lidas com esse cara? A visão modernistocêntrica diz: embora o sertão do Guimarães Rosa seja um assunto vencido, ele é um cara experimental. Aí vem a possibilidade de conversa dele com James Joyce, por exemplo. O que é uma forma possível de pensar sobre ele, mas, ao mesmo tempo, é uma visão que renega justamente essa profunda inscrição dele no mundo do sertão. Meu ponto: esse Brasil do litoral é o Brasil das grandes cidades, como Salvador e Rio de Janeiro. São Paulo já é boca do sertão. Acontece que há vida no sertão desde o século 17. É um mundo que no começo não é escrito, é ágrafo, mas que vai chegar na letra. Vai chegar pela via das tradições orais, do causo, do chamado romance regionalista do século 19. Só que de repente tu passas a ter monumentos literários aí. O exemplo superior é o Guimarães Rosa. No fundo, a conclusão é trivial: o Brasil não é só o litoral. Só que tento fazer isso dizendo: organicamente, mesmo a literatura brasileira, que é uma arte claramente urbana, depende de impressão, de escola... Mesmo a literatura alcança o sertão de maneira muito forte e efetiva.

A gente tem que ensinar as pessoas a ler, mostrar como é bom ler, como faz bem. tenho sempre essa sensação de que temos um produto maravilhoso para 'vender', entre aspas: ensinar as pessoas a ler.

Como vês o fato de sermos ainda um país de poucos leitores? Muitos o são por falta de oportunidade, e outros tiveram oportunidade e mesmo assim optam por não serem leitores. Com quem falamos quando falamos de livros?
Eu me sinto fazendo um negócio que tem muito futuro, no sentido de que tem um mercado potencial imenso. A gente tem que ensinar as pessoas a ler, mostrar como é bom ler, como faz bem. Antonio Candido mesmo afirmava num artigo dos anos 1970: o que está acontecendo é que as massas que estão chegando na cidade vão passar de uma etapa de folclore oral para um outro tipo de folclore – palavra usada aqui no sentido pejorativo – urbano dos meios de comunicação massivos. Hoje em dia, no ambiente digital, imagina. Tem uma força avassaladora dos meios de comunicação massivos que de certa forma impede a leitura, porque justamente a leitura é um negócio lento, que tem que fazer despendendo energia mental e emocional. Não tenho uma resposta muito boa nem muito esperançosa. Mas tenho sempre essa sensação de que temos um produto maravilhoso para “vender”, entre aspas: ensinar as pessoas a ler. Além disso, tem o fato de que para mim a canção é um elemento que faz parte do mundo da literatura. Assim como a telenovela. Não sei dizer nada de relevante sobre telenovela, mas a canção acho que pode ser incorporada a esse patrimônio. A canção é um negócio massivo. Não apenas essa canção de agora, mas a canção em geral. Certamente, no Brasil, do ponto de vista da população, a canção é muito mais importante na formação lírica do brasileiro do que a poesia de livro. Então nós, professores de literatura, temos que conversar com esse patrimônio. Nós que temos de nos habilitar nele. Porque essa habilitação para a sociedade já existe.

Há algum tempo, tens te debruçado sobre a canção como objeto de estudo. A canção seria a forma artística mais popular do Brasil?
Entre as formas que envolvem literatura? Certamente. Junto com a telenovela. A telenovela tem um problema complexo e talvez sem solução que é sua duração no tempo. É inexequível tu passares uma telenovela inteira para conversar com os alunos. Um pouco as séries têm feito o papel que a telenovela fez. Não acompanho muito, mas acho que tem a ver com isso. Tu consegues fazer um romance cíclico, um roman-fleuve numa série, contando uma história complexa, de uma família ao longo de várias gerações ou uma trama complexa. Isso não é narrativa escrita, mas é narrativa. Então, nós, professores de literatura, deveríamos nos habilitar nessa conversa. Falar sobre isso.

A canção está mais entranhada na universidade do que a telenovela?
Sabe que a cadeira de canção que inventei está fazendo 30 anos? Simplesmente foi uma coisa que me pareceu óbvio fazer. Porque eu já sou dessa geração que fez a sua formação lírica ouvindo canção. Nasci em 1958, então acompanhei os últimos festivais e os anos 1970 como jovem, entusiasmado. Então, me pareceu óbvio que isso ali tinha a ver com o mundo das letras. Ao mesmo tempo, do ponto de vista acadêmico tradicional nas Letras, a canção seria uma coisa problemática. Porque a tradição é de texto escrito e impresso. Mas basta fazer um pequeno movimento para o lado que tu enxergas como a canção é relevante para todos. Tu entrevistas as pessoas, especialmente de classe popular hoje em dia, e vês que os Racionais MCs estão no absoluto centro da vida de gente como o (escritor José) Falero. Como ignorar essa presença?

A canção é relevante para todos. Tu entrevistas as pessoas, especialmente de classe popular hoje em dia, e vês que os Racionais MCs estão no absoluto centro da vida de gente como o escritor José Falero. Como ignorar essa presença?

Mas ainda hoje se debate se canção é literatura. Esse assunto voltou, por exemplo, quando Bob Dylan ganhou o Nobel, em 2016. É um debate que ainda faz sentido?
Um argumento que uso nesse tema é a forma chamada romance. O romance, quando nasceu, era uma coisa vulgar, bagaceira. No século 18, era uma coisa trivialíssima, lida por todos, logo, não era muito considerada. Lá pelas tantas aparece o Balzac, e, duas gerações depois, o Flaubert – para ficar no exemplo francês, que no Brasil é mais influente. Ali o romance já é considerado grande arte. Mas um pouco antes não era. Os grandes autores ingleses neoclássicos achavam aquilo uma vulgaridade insuportável, escrita em língua cotidiana, com gente comum. No fim, o romance virou um grande negócio. Então, a canção é a mesma coisa. Nasceu como, sei lá eu, brincadeira de roda, como um jogo comunitário de pergunta e resposta, como sátira. Só que de repente entraram uns caras nessa brincadeira que elevaram o patamar da conversa. Noel Rosa, por exemplo. Com ele, e alguns outros, a canção adquire uma complexidade que a faz ser simplesmente incontornável.

Fonte:  https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/noticia/2021/12/a-universidade-hoje-e-uma-presa-da-superespecializacao-diz-luis-augusto-fischer-ckxp4zggl00bm0188st7jsr6i.html

NATAL. Este sentimento oceânico.

 Tolentino Mendonça

 https://asset.skoiy.com/1a93bfdc2c745936d7e62efa3b843f01/getcxanw55kg.jpg?w=1140&q=90

27 dezembro 2021  

Para crentes e não-crentes, o Natal é uma estação de confronto consigo mesmos. Por aquilo que os símbolos desta quadra dizem ou não a cada um, por aquilo que as palavras acordam, pela presença ou pela ausência de uma transcendência nos dias que se avizinham. Cada um vive à sua maneira ou como interiormente pode. Mas uma coisa inegável é observar este silencioso sobressalto, esta espécie de “sentimento oceânico” que nos percorre em conjunto, que sem sabermos como nos transporta e que ganhamos em escutar, mesmo se no final as interpretações encontradas possam ser distintas. Recordo-me, a esse propósito, do debate que ligou, por exemplo, Sigmund Freud e o escritor Romain Rolland.

Um dos temas a que Freud prestou atenção foi, como é sabido, a experiência religiosa. O tema fez sempre parte das suas investigações, mesmo quando estas versavam diretamente outros assuntos. E não restam dúvidas sobre a importância que atribuía à religião no âmbito da economia psíquica do sujeito. É certo que a sua tese de fundo remove do fenómeno religioso toda a dimensão externa de revelação e explica-o unicamente à luz dos conflitos não-resolvidos que vêm da primeira infância (desse intrincado e gigante magma, feito, segundo ele, de medos, desejos e culpas a que se procurará a vida inteira dar respostas). Mas, ainda assim, Freud teve a oportunidade de realizar diálogos marcantes neste âmbito. Talvez o mais significativo tenha sido precisamente o que ficou registado na sua correspondência com Rolland. Este, que foi Prémio Nobel da Literatura em 1915, era um intelectual poliédrico, um arquiteto de pontes: entre o Oriente e o Ocidente, entre o ensino académico e a militância pacifista, entre o compromisso civil e a experiência espiritual. Definia-se a si mesmo como um viandante em busca da verdade, e o motor dessa busca era, segundo ele, um “instinto religioso”, que trabalhou com audácia e a modo seu.

Cada um vive o Natal à sua maneira ou como interiormente pode. Mas uma coisa inegável é observar este silencioso sobressalto, esta espécie de “sentimento oceânico” que nos percorre em conjunto

Foi Freud quem o procurou, enviando-lhe uma primeira carta, em fevereiro de 1923, e as trocas epistolares durariam até ao ano da morte do pai da psicanálise, em 1939. É curioso constatar como o debate privado que mantinham alcançava depois um eco na produção ensaística de ambos. Recebendo um exemplar de “O Futuro de Uma Ilusão” (dezembro de 1927), Rolland critica Freud por considerar uma mera ilusão supor que as respostas que a ciência não nos pode dar podemos consegui-las noutro lugar (e quando este diz “outro lugar” pensa sobretudo na religião). As representações religiosas não passam, para ele, de ficções que corporizam a necessidade infantil da proteção. A esta radical redução psicológica, Rolland contrapõe “o facto simples e direto” que continua a provar que a religião é uma experiência viva e inalienável: a “sensação de eterno” que ciclicamente assoma ao coração de cada um e nada cancela; a consciência de que somos o ponto de uma relação mais vasta do que nós próprios; a experiência de imersão num “sentimento oceânico”, transbordante e vital, que é uma grafia essencial da vida. Esta corrente espiritual que nos envolve pode-se adjetivar como “oceânica”, por analogia àquilo que o mar desperta em nós. Ao mesmo tempo traz ao coração humano a ressonância de algo primordial e a evidência sensível do que é maior, do que nos transcende, do que só tocamos com o desejo, do que tentamos nomear chamando de infinito. Para Roland, se não se encara de frente o impacto deste “sentimento oceânico”, não se compreende o caminho do humano.

Os dias 24 e 25 de dezembro passam depressa, mas as questões que colocam à nossa humanidade são mais do que lentas. São irremovíveis.

Fonte: https://www.imissio.net/artigos/53/4490/este-sentimento-oceanico-por-tolentino-mendonca/

Eu sou cagona, minha melhor amiga é fodona. Deu Match!

 Mirian Goldenberg*

 Fogos de artifício no céu da noite 

Fogos de artifício em Wellington, na Nova Zelândia - 10.jul.2021 - Zhang Jianyong/Xinhua

Uma amiga me chamou para cuidar da dor dela. Guardei a minha na bolsa. E fui...

29.dez.2021 

No meio de uma conversa telefônica de quase três horas, Irene me interrompeu quando eu estava desabafando sobre meus medos, angústias e ansiedades:

"Mirian, por que você se preocupa tanto com a opinião e aprovação dos outros? Eles pagam suas contas? Foda-se o que esses vampiros parasitas dizem, você tem que cagar para gente preconceituosa, arrogante e invejosa. Nunca me preocupei com a opinião dos outros, nunca dependi da aprovação de ninguém. Sou uma mulher livre, independente, pago minhas contas e ainda ajudo muita gente. Eu sou fodona!".

Concordei: "É verdade, Irene. Essa é a grande diferença entre nós: você é fodona, eu sou cagona!"

Ela deu sua risada gostosa que me lembra de Caetano Veloso: "Quero ver Irene rir, quero ver Irene dar sua risada".

Irene é corajosa, segura, autoconfiante, independente, extrovertida, generosa, forte, divertida, brilhante, carismática e alegre. Ela é fodona!

Eu sou medrosa, insegura, tímida, envergonhada, introvertida, carente, frágil, ansiosa, angustiada, introspectiva e triste. Eu sou cagona!

Irene é minha mentora, minha conselheira, meu exemplo de mulher admirável: corajosa, sábia, verdadeira, amorosa e generosa.

Desde os meus 17 anos, quando Irene me viu pela primeira vez na faculdade, ela resolveu me adotar como filha, apesar de ser só cinco anos mais velha.

"Eu queria te proteger, te cuidar. Você era a mais novinha da turma, a mais magrinha, a mais perdida, desamparada e carente. Ficava o dia inteiro no centro acadêmico lutando contra a ditadura militar. Eu tinha medo de que você fosse presa ou desaparecesse. A minha forma de te proteger foi te adotar como uma filha."

Quem foi o meu porto seguro quando meus amigos foram presos na invasão da PUC-SP em 1977? Irene. Quem me acolheu quando minha mãe teve câncer e morreu dois anos depois? Irene. Quem me abraçou quando meu pai teve câncer e morreu cem dias depois? Irene. Quem me deu colo em cada luto, perda, separação e divórcio? Irene. Quem me aconselhou quando eu precisei fazer difíceis escolhas profissionais e amorosas? Irene.

Irene sempre gostou de cuidar de todo mundo: da mãe, do pai, irmãos, sobrinhos, amigos, amigas, pacientes, alunos, gatos, cachorros... É a mulher mais generosa que conheci em toda a minha vida.

Eu, que vivi até os 16 anos em uma família extremamente tóxica e violenta, encontrei na minha melhor amiga tudo o que eu mais precisava para sobreviver física e emocionalmente. Foi a combinação perfeita: ela gostando de cuidar de seres abandonados, machucados e maltratados; eu mendigando por uma migalha de amor, atenção e carinho. Ela sempre gostou de cuidar, eu precisava ser cuidada. Deu Match!

Quando eu disse que me sentia uma bosta, Irene reagiu indignada: "Mirian, vou agora mesmo para o Rio de Janeiro te dar umas boas palmadas na bunda. Nunca mais repita que é uma bosta. Esqueça os seus traumas de infância. Você não é mais aquela menininha frágil e medrosa. Você não consegue enxergar tudo o que conquistou na vida? Eu te admiro muito. Mesmo se sentindo uma bosta, mesmo se achando uma formiguinha que sempre se escondeu no armário para não ser esmagada, você conseguiu sobreviver e realizar seus projetos de vida: ser professora, pesquisadora e escritora. E, mesmo tão carente de cuidado, aprendeu a cuidar de muita gente que precisa de você. Você é foda!".

Meu mantra de 2021 foi: "Um amigo me chamou para cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui...".

Adaptei a frase de Caio Fernando Abreu para: "Uma amiga me chamou para cuidar da dor dela. Guardei a minha na bolsa. E fui...". O meu propósito de vida é ter cada vez mais coragem, força e generosidade para escrever e "escutar bonito" meus amigos e amigas que precisam de compreensão, carinho e cuidado para sobreviver em tempos tão tristes e trágicos.

Desejo um 2022 com muita saúde, amor, coragem, generosidade e reciprocidade para todos que estão cuidando da dor de quem mais precisa de cuidado.

* Antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio, é autora de "A Bela Velhice".

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/miriangoldenberg/2021/12/eu-sou-cagona-minha-melhor-amiga-e-fodona-deu-match.shtml?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=newscolunista

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Natal: a dignidade infinita de ser Homem

 Anselmo Borges*

Como se Comemora o Natal ao Redor do Mundo? | NetLinguae Idiomas

A festa do Natal tem de ser, é, mais do que o festival do comércio natalício. Há pessoas que chegam à noite de Natal cansadas e desfeitas, por causa dos presentes. No último instante, ainda tiveram de ir à última loja aberta, por causa de mais uma compra. Há inclusivamente pessoas para as quais o tormento das compras natalícias começa logo em janeiro, uns dias após o Natal: o que é que vão dar como presente àquele, àquela, no Natal seguinte?!...

A festa do Natal é infinitamente mais, e deve sê-lo. Porque o Natal é uma visita de Deus aos homens, às mulheres, aos jovens, às crianças. É Deus presente entre nós. E, ao contrário do que frequentemente fazemos com os nossos presentes, que pretendem ser uma manifestação de ostentação de poder junto dos outros, Deus veio, sem majestade, sem poder. Veio, humilde, na ternura de uma criança. De tal maneira que os mais pobres - os pastores - não se sentiram humilhados ao visitá-lo. Foram os pastores os primeiros que viram Deus visível num rosto de criança. Quem é que imaginaria que Deus, se algum dia viesse, viria assim: simples, pobre, precisamente para que ninguém se sentisse excluído?...

Quer se seja cristão quer não, quer se acredite quer não, é necessário reconhecer que foi através do cristianismo, isto é, mediante a fé no Deus feito Homem, que veio ao mundo a tomada de consciência explícita e clara da dignidade infinita do ser humano. Isso foi reconhecido por pensadores da estatura de Hegel, Ernst Bloch, Jürgen Habermas. Hegel afirmou expressamente que na religião cristã está o princípio de que "o Homem tem valor absolutamente infinito". Ernst Bloch, embora ateu, confessou que foi pelo cristianismo que veio ao mundo a consciência do valor infinito da pessoa humana, de tal modo que nenhum homem, mulher, jovem, criança, pode ser tratado como "gado". Jürgen Habermas, o mais importante filósofo vivo, escreveu que a democracia não se entende sem a compreensão judaico-cristã da igualdade radical de todos os homens, por causa da "igualdade de cada indivíduo perante Deus": o princípio de "um homem um voto" é a tradução política da fé cristã de que cada homem, cada mulher, é filho, filha, de Deus, valendo todos como iguais. A própria ideia de pessoa enquanto dignidade inviolável e sujeito de direitos inalienáveis veio ao mundo através dos debates à volta da tentativa de compreender a pessoa de Cristo e o mistério do Deus trinitário cristão. Embora, desgraçadamente, tenham tido de impor-se contra a Igreja oficial, foi em solo de base cristã que foram germinando e se deram as grandes Declarações de Direitos Humanos.

Afinal, é uma alegria enorme dar um presente e receber um presente, concretamente na época de Natal. Mas essa alegria não provém tanto do valor material do presente como desse saber que consiste em sermos e estarmos nós próprios presentes uns aos outros: ele lembrou-se de mim, eu lembrei-me dele; eu lembrei-me dela, ela lembrou-se de mim...

O pequeno presente oferecido é sinal, símbolo, dessa presença calorosa, e exprime a alegria de se ser pessoa, cuja dignidade infinita reconhecemos em cada ser humano. Assim, celebrar o Natal tem de ser também contribuir para que se concretize o anúncio dos anjos aos pastores, que constituíam a classe baixa dos pequenos e pobres e que inclusivamente viviam à margem da prática religiosa: "Nasceu para vós um salvador; Paz na Terra aos homens amados por Deus." É uma vergonha para a Humanidade que hoje mais de 800 milhões de pessoas passem fome enquanto os gastos com armamento não cessam de aumentar.

José Tolentino de Mendonça escreveu: "O Natal do comércio chega de um dia para o outro. Fácil, tilintante, confuso, pré-fabricado. É um Natal visual. Um amontoado de símbolos. Dentro de nós, porém, sabemos que não é assim. Para ser verdade, o Natal não pode ser só isto. Não pode ser apenas para uma emoção social, para um corrupio de compensações, compras e trocas. Para ser verdade, o Natal tem de ser fundo, pessoal, despojado, interpelador, silencioso, solidário, espiritual. Acorda em nós, Senhor, o desejo de um Natal autêntico."

Considero suicidário que os europeus menosprezem a sua herança cristã. Sinto como desastroso e ridículo, que, em nome da inclusão, uma vez que nem todas as religiões celebram a data, a comissária europeia para a Igualdade, Helena Dalli, tenha recomendado a abolição da palavra "Natal", a substituir por "período de festas", por exemplo. No guia distribuído aos funcionários da Comissão Europeia, chegou-se ao cúmulo de recomendar a substituição de nomes cristãos, como Maria e José... por outros. Pergunto: será que alguém que não estima a sua cultura vai respeitar as dos outros? O ser humano, na e para a sua identidade, é ao mesmo tempo enraizado e aberto. Quem nega as suas raízes, perdendo a identidade, tem competências para se abrir ao diálogo são e enriquecedor com os outros? Significativamente, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, escreveu pessoalmente ao Papa Francisco assegurando que a União Europeia se inspira na "herança cultural, religiosa e humanista da Europa".

Seja como for, é Karl Rahner, talvez o maior teólogo do século XX - tive o privilégio de ser seu aluno -, que tem razão: "Quando dizemos "é Natal", estamos a dizer: Deus disse ao mundo a sua última palavra, a sua mais profunda e bela palavra numa Palavra feita carne. E esta Palavra significa: amo-vos, a ti, mundo, a vós, seres humanos." Natal bom e feliz!

Padre e professor de Filosofia. Escreve de acordo com a antiga ortografia

Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/natal-a-dignidade-infinita-de-ser-homem-14437631.html