segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Aumento de suicídio entre jovens no Brasil motiva plano nacional de prevenção


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Cena de “Euphoria”, serie da HBO que retrata a geração Z e seus conflitos: 
sexo, drogas, rejeição, bullying, confrontos com a família, descoberta 
da sexualidade, gravidez e aborto — Foto: Divulgação

Aumento de autolesão e suicídio entre jovens no Brasil motiva plano nacional de prevenção.

Por Carlos Rydlewski – Para o Valor de São Paulo

Corrigir trabalhos escolares sempre foi uma tarefa trivial para Fernanda Freitas, de 28 anos, supervisora pedagógica do Centro Educacional Gesner Teixeira, escola pública localizada no Gama, bairro da periferia de Brasília. Foi assim até o dia em que ela tomou um choque diante da página aberta de um caderno. Nela, lia-se: “A única saída é me matar”. “Na verdade, nem me lembro exatamente da frase”, diz Fernanda. “Mas era um recado, um pedido de socorro feito por uma aluna.” A professora, então, decidiu se aproximar da autora da “mensagem”, uma garota de apenas 13 anos. Até aí, ela acreditava que estava puxando o fio de um problema isolado, pontual. “Mas o que veio atrás foi algo inacreditável”, observa a educadora.

Em pouco tempo, Fernanda descobriu quase uma dezena de casos de alunos que, como dizem os adolescentes, “estavam se cortando”. Ou seja, praticavam a automutilação, em que infligem ferimentos, em geral, cortes, ao próprio corpo. Houve uma adolescente que quebrou o apontador do lápis, retirou-lhe a lâmina e se feriu no banheiro do colégio. As colegas viram a cena e pediram que ela parasse. Duas outras meninas tentaram suicídio.

Diante de tantos problemas, a escola organizou uma “roda”, na qual os estudantes que apresentam quadros de depressão, ainda que tênues, passaram a conversar com psicólogos. Ela funciona uma vez por semana e tem 32 integrantes. “Mas existem perto de 50 alunos na fila de espera”, afirma a professora. “A sensação é aquela de enxugar gelo. Ajudamos alguns meninos e meninas, eles melhoram, mas logo aparecem outros na mesma situação.” 

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Da mesma forma que o caso da primeira estudante abordada por Fernanda Freitas não era único, a situação da escola brasiliense nada tem de singular. Ela representa parte de um problema cujas dimensões não estão nítidas no Brasil, mas seus sinais são inequívocos - e contundentes. Dados do Ministério da Saúde indicam que, entre entre 2011 e 2018, último dado disponível, ocorreram 339.730 “lesões autoprovocadas” no país. Essa categoria inclui autoagressões, automutilações e tentativas de suicídio. As ocorrências concentraram-se nas faixas etárias de 15 a 29 anos (45,4% do total). Na série histórica, o que chama atenção é o salto das cifras. Em oito anos, os casos passaram de 14.940, em 2011, para 95.061, em 2018. Houve, portanto, um crescimento de 536%, sendo 570% entre as mulheres e 472% entre os homens.

Parece ruim. Mas é pior. Em uníssono, os especialistas afirmam que tais números estão subestimados. Há fartura de subnotificações desses episódios, principalmente em se tratando das autolesões. Foi na tentativa de cobrir esse vazio de dados que o governo federal sancionou, no fim de abril, o Plano Nacional de Prevenção à Automutilação e ao Suicídio. Ele trona obrigatória a notificação dessas ocorrências (os chamados “cortes) por parte de escolas públicas e privadas no país. Hoje, tal exigência limita-se a órgãos de saúde, como hospitais. Os novos casos também terão de ser encaminhados aos conselhos tutelares dos municípios. Alei precisa ser regulamentada – e desperta polêmica (que será discutida adiante) -, mas, para se ter uma ideia do que pode surgir de uma observação mais acurada desse fenômeno, considere estes três relatos:

1) Leila Tardivo é professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Há cerca de três anos, visitou três colégios públicos na capital paulista. Neles, falou sobre temas como bullying para estudantes com idades entre 10 e 14 anos. Nas palestras, com frequência, era bombardeada com perguntas sobre automutilação. “Comecei a me questionar sobre o que estava acontecendo. Eu conhecia o problema, mas não sabia que atingia crianças tão pequenas”, afirma. “Resolvi estudar o assunto. Em pouco tempo, surgiram 42 casos de autolesões somente nessas três escolas e envolvendo meninas e meninos nessa faixa etária. Foi tudo muito rápido e surpreendente”. 

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Em “O Demônio do Meio-Dia”, Solomon informa que metade dos americanos pode apresentar sintomas de depressão, mais de 3% da população sofre da versão crônica da doença, sendo que 2 milhões são crianças — Foto: Getty Image

2) Entre 2016 e 2017, a socióloga Miriam Abramovay, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), realizou pesquisas qualitativas com estudantes do ensino médio, com idades entre 15 e 19 anos em Porto Alegre (RS) e em Fortaleza (CE). O objetivo do trabalho era colher dados para um estudo sobre a violência nas escolas. Em determinado momento, o tema da automutilação emergiu. “Veio com uma força impressionante e nas duas cidades”, diz Miriam. “Foi uma catarse. Os jovens choravam tanto enquanto falavam das autolesões que nós tivemos de levar caixas e mais caixas de lenços de papel para as reuniões”.

3) Jackeline Giusti, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), em São Paulo, ouviu falar de um episódio de automutilação - e envolvia um adulto - em 2005. Interessou-se pelo assunto a ponto de transformá-lo em sua tese de doutorado. Precisou de cinco anos para reunir 40 casos de estudo. “Hoje, conseguiria a mesma quantidade em menos de um ano”, diz. No ambulatório do IPq-HC, há mais jovens envolvidos com autolesões do que com drogas. “Eles representam perto de 80% dos atendimentos”, afirma Jackeline. No consultório, a situação é similar: “A maioria dos adolescentes em tratamento se cortou ao menos uma vez”.

Embora o Brasil não apresente números sólidos sobre o fenômeno, que ganha destaque em seriados como o polêmico “Euphoria”, da HBO, eles abundam nos EUA. Um estudo publicado no ano passado no “American Journal of Public Health”, produzido por pesquisadores da Universidade de Portland, analisou dados de 64.671 estudantes com idades entre 14 e 18 ano em 11 Estados americanos. Constatou que, em média, 17,6% dos entrevistados haviam praticado pelo menos um ato de automutilação no ano anterior ao levantamento. Em Idaho, o índice chegou a 31%. Ou seja, ali, três em cada dez jovens já haviam se “cortado’. 

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Segundo Costa Pereira, as pessoas vão ao consultório e pedem que o médico aplaque seu sofrimento com remédios 
e que as tornem produtivas no dia seguinte — Foto: CPFL Cultura

Esse comportamento é conhecido pelos especialistas. A autolesão é mais comum na faixa etária de 14 a 18 anos e entre meninas - em média, uma em cada quatro, segundo o estudo americano. “Mas já vi casos de crianças com 10 anos”, diz o psiquiatra Olavo Campos Pinto, ex-professor da Universidade da Califórnia, em San Diego, para quem o problema se tornou um “epidemia” no Brasil. Mas o leque de idades dos praticantes é amplo. Recentemente, a psicóloga carioca Elisa Bichels, especializada no atendimento de adolescentes, passou a receber em seu consultório, no Rio, adultos que se cortam há décadas. “Fiquei surpresa”, diz ela. “Eles têm entre 30 e 40 anos e são pessoas bem-sucedidas”.

As formas mais comuns de automutilação são os cortes, seguidos pelas queimaduras, mas há um sem-número de variações sobre esses temas. A prática pode estar associada a transtornos de personalidade borderline ou ciclotímica, depressão, ansiedade e estresse pós-traumático. Isso além de situações de abuso e violência familiar. As lesões não têm intenções suicida, embora erros ou exageros nos cortes possam levar à morte. “Em geral, ocorre o contrário”, diz Elisa. “As pessoas se machucam depois de um esvaziamento afetivo atroz. O que querem é sentir alguma coisa”. Em geral elas têm grande dificuldade de lidar com frustrações.

Os cortes buscam uma forma de alívio para um sofrimento psíquico. A dor física, nesse caso, sobrepõe-se à emocional. Acredita-se que o ato produza uma descarga química reconfortante. “Nós falamos muito em dores como a do parto, das hérnias e das cólicas renais”, afirma Campos Pinto. “Tudo isso, claro, é muito dolorido, mas nada se compara à dor psíquica. Ela leva o ser humano a sofrimentos inimagináveis. Daí a tentativa de conseguir algum abrandamento com os cortes”.

Elisa Bichels e Campos Pinto mantêm clínicas no Rio e lidam com frequência com jovens de classe média alta que recorrem à autolesão. O esgarçamento das relações familiares é comum nesse grupo. “Os pais querem filhos vencedores, brilhantes, maravilhosos”, diz Campos Pinto. “Lamento dizer, mas isso não serve para nada. Pais existem para as horas difíceis e os filhos precisam ser acolhidos”. Para Elisa, outro problema comum é o descompasso de visões de mundo. “As gerações mais velhas foram feitas para produzir e esse objetivo não seduz os mais jovens”, pondera. “A meninada pode não estar queimando sutiãs ou fazendo protestos, mas não quer seguir esse caminho. Quer ter propósito nas coisas que faz”.

A agravante é que as automutilações representam apenas um dos lados de um problema multifacetado e mais complexo. Os brasileiros lideram o ranking de ansiedade da Organização Mundial de Saúde (OMS). Ocupam ainda o quinto posto entre as nações com maior número de deprimidos. Para nublar ainda mais o quadro, entre 2000 e 2012, quase metade das 172 nações que fazem parte da OMS resgistrou quedas superiores a 10% nas taxas de suicídio. Aqui, deu o contrário. Houve acréscimo de 10,4%.

“O mais preocupante é que crescimento dessas mortes foi maior entre os mais jovens”, diz a demógrafa e antropóloga Sandra Garcia, do Núcleo de População e Sociedade do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Pesquisa do Cebrap, em parceria com o Núcleo de Estudos da População Elza Berquó, da Unicamp, indica que a elevação desses casos foi de 40% na faixa etária de 10 a 14 anos.

A questão, portanto, é: o que está acontecendo? Não há uma explicação linear. Suicídios, automutilações, depressão e ansiedade são multifatoriais. Não é possível enxergá-los abrindo uma só janela, acendendo um único holofote. Eles sofrem a influência de elementos biológicos, genéticos, ambientais (socioeconômicos, por exemplo), além de vulnerabilidades provocadas pela violência, conflitos familiares, ou mesmo doenças crônicas incapacitantes. Existem, contudo, fatores que os potencializam.

Há fortes indícios de que a tecnologia, ou, mais especificamente, a alta conectividade, é um deles. São numerosos os estudos acadêmicos que sugerem uma relação direta entre o uso prolongado de redes sociais, computadores e televisão com quadros depressivos entre adolescentes. Um trabalho publicado no ano passado pelo jornal “Preventive Medicine Reports”, editado pela Elsevier, indica que as chances de um diagnóstico de depressão ou ansiedade dobram em jovens que passam sete horas ou mais por dia diante dessas telas. Isso em comparação com aqueles que gastam somente uma hora com esse tipo de atividade. Tal constatação não quer dizer que as redes provocam os transtornos, mas que um tempo tão longo de conexão – de isolamento – pode ser um sinal de problemas.

No Canadá, uma pesquisa feita com 3,8 mil jovens de 12 a 16 anos aponta que a depressão e a ansiedade também podem estar associadas a comportamentos típicos das plataformas digitais. Isso inclui a busca desesperada por “likes” e a comparação entre padrões de vida nas imagens postadas nas redes, algo que torna o usuário hipersensível ao juízo alheio. “As pessoas ficam expostas a uma “felicidade tóxica”, diz a psicóloga Karen Scavacini, do Instituto Vita Alere de prevenção e Posvenção do Suícidio, em São paulo. “Veem gente feliz, festas, alegrias permanentes. Mas aquilo não é, necessariamente, real”.

A proliferação na web de conteúdos sobre suicídios e automutilações, o que inclui exemplos e até lições sobre como praticá-los (a garotada chega a comemorar o aniversário de cortes em redes sociais), é outro fator de propulsão desses comportamentos. Ela provoca um “efeito contágio”, cujo resultado pode ser a glamorização desses atos ou a sua normalização como uma forma legítima para lidar com frustrações. Em 1974, o pesquisador americano David Phillips cunhou o termo “efeito Werther” para identificar essa influência. Trata-se de uma referencia ao protagonista da obra “O Sofrimento do jovem Werther”, de Goethe, publicado em 1774. Impedido de consumar seu amor, o personagem se mata. O desfecho trágico da história teria provocado uma série de suicídios na Europa. O mesmo teria acontecido, apontam estudos, após a morte de atores como Marilyn Monroe, em e962, e Robin Willians, em 2014.

As redes sociais conhecem o problema. O Instagram e o Facebook informaram que coíbem a circulação de conteúdo que incentive suicídios ou autolesões por meio de denúncias e do uso de filtros tecnológicos. Imagens com cortes de automutilação são proibidas mesmo em contextos de ajuda ou conscientização. O Instagram também iniciou um teste no Brasil por meio do qual passou a remover o número de “curtidas” em fotos e vídeos, para diminuir a ansiedade daqueles que querem ganhar popularidade na rede. “Não queremos que as pessoas sintam que estão numa competição”, diz Natália Paiva, gerente de políticas públicas para a América Latina da empresa. Mas, ainda assim, é praticamente impossível conter a criatividade dos internautas quando o termo é burlar regras online.

A abordagem sociológica dos transtornos mentais, consagrada por Émile Durkheim, autor de “O Suicídio”, de 1897, acrescenta outras externalidades que acentuam a incidência desses problemas em grupos, ou mesmo em nações. O filósofo francês advertiu que isso aconteceria tanto pela perda de coesão social ou, ao contrário, pela integração excessiva (como entre militares), onde se desenvolve o gosto pela impessoalidade, pela renúncia e pela obediência passiva. As taxas de suicídio, advertiu Durkheim, poderiam ainda crescer em períodos de crises políticas e econômicas.

Estudos realizados pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mostram que, entre 2006 e 2015, as taxas de suicídio entre adolescentes no Brasil aumentaram 24%. Tal crescimento foi associado a níveis mais altos de desemprego. Os dados sobre as mortes foram cruzados com indicadores como o PIB e a desigualdade social (medida pelo coeficiente de Gini). “Sentimentos de desesperanças e inutilidades, frequentes em quadros depressivos, são vistos como mecanismos psicológicos que despertam o comportamento suicida”, diz o psiquiatra Elson Asevedo, um dos autores do trabalho. “Esses sentimentos parecem comuns na geração de jovens desalentados, sem propósitos claros, que nem trabalham nem estudam”.

Asevedo, contudo, considera que o fator mais dramático para a explosão dos casos de transtornos psíquicos no Brasil é a desassistência. “Por princípio, todo suicídio é uma morte que poderia ser evitada”, diz. “Ele é a última consequência de um problema que pode ser tratado. E existem tratamentos eficazes, mas não chegam às pessoas”. O país, por exemplo, oferece 0,041 leitos psiquiátricos em hospitais públicos e privados por mil habitantes. O mínimo recomendado pela OMS é de 0,45. Países como a Inglaterra e o Canadá têm 0,59 e 1,9, respectivamente. “Essa situação é consequência de uma política equivocada que, no passado, priorizou apenas serviços comunitários”, acrescenta o médico. “Ter serviços é importante, mas a assistência precisa ser feita em todos os níveis”.

Além do mais, a ciência tem comprovado que os transtornos mentais podem ser identificados na infância por meio de manifestações inespecíficas como a agitação, a agressividade e a dificuldade de aprendizado. Em tese, isso permitiria a realização de diagnósticos precoces. Mas eles são raros. “Em países desenvolvidos, cerca de 35% das crianças com esses problemas recebem tratamento”, diz Guilherme Polanczyk, do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP (FM-USP). “No Brasil, são 18%.”

Ainda que nações ricas tenham deficiências técnicas e estruturais menos gritantes, elas também enfrentam grandes desafios nesse campo. Nos EUA, os suicídios entre jovens de 15 a 24 anos voltaram a crescer desde 2008, após uma queda na década de 1990. Nessa época, os casos somavam pouco menos de 10 em 100 mil habitantes. Em 2017, eram 14,5 em 100 mil.  Há mais. Como adverte o escritor Andrew Solomon, em “O Demônio do Meio-dia”, metade dos americanos pode apresentar sintomas de depressão durante a vida. Mais de 3% da população  sofre da versão crônica da doença, sendo que 2 milhões são crianças. Mas apenas 6% dos deprimidos recebem um tratamento adequado.

As mortes por suicídio são ainda especialmente severas em grupos que sofrem processos de aculturação ou amargam o descaso. Essa mortalidade é enorme, por exemplo, entre indígenas em todo o mundo. No Brasil, ela atinge a taxa de 23,1 óbitos por 100 mil habitantes entre índios, sendo que o indicador para homens brancos é de 9,5 (menos da metade), de e 7,6 para negros. A média nacional é de 5,8 óbitos para 100 mil habitantes. Nos povos indígenas, a situação dos jovens também choca: 44,8% dos suicidas têm entre 10 e 19 anos.

Reverter esses quadros não é tarefa simples. No que se refere aos jovens e adolescentes, os especialistas advertem que qualquer saída passa pela difusão de informações de qualidade sobre esses temas. Isso ocorre em especial neste mês, quando entidades que lidam com esses problemas promovem uma campanha de conscientização chamada Setembro Amarelo. A ideia, no entanto, é não gerar com essas discussões o “efeito Werther”, mas, sim, seu antídoto: “o efeito Papageno”, personagem de “A Flauta Mágica”, a ópera de Mozart, que é dissuadido de se matar por três espíritos. O envolvimento das escolas nessas discussões é considerado crucial. Foi isso o que aconteceu no Centro Educacional Gesner Teixeira, em Brasília, citado no início desta reportagem. Ali, embora o problema tenha adquirido proporções inesperadas, ele foi enfrentado por iniciativa de um grupo de professores. O trabalho rendeu ao colégio um prêmio concedido pela Controladoria-Geral do Distrito Federal.

No médio prazo, o debate sobre transtornos psíquicos pode se tornar inevitável nos estabelecimentos de ensino. Isso por conta da vigência do Plano Nacional de Prevenção à Automutilação e ao Suicídio, que está sendo regulamentado. Ele prevê, como mencionado, a obrigatoriedade da notificação de casos desse tipo por parte das escolas. Elson Asevedo, da Unifesp, considera a lei positiva sob o ponto de vista de saúde pública. “Ela pode nos dar dados que hoje não temos, principalmente sobre as automutilações”, diz. “A questão é saber como as notificações serão feitas sem que as pessoas envolvidas sejam estigmatizadas.” Marcelo Dias, secretário-adjunto substituto do Ministério da Família, observa que esses informes serão sigilosos. “isso está definido”, afirma Dias. “Mesmo porque o objetivo da lei é colher informações que nos ajudem a formular políticas públicas e sensibilizem a sociedade para esses temas. Hoje, até profissionais de saúde têm pouca familiaridade com assuntos como as automutilações.

O Ministério da Saúde pensou em rever a metodologia de produção de dados sobre suicídios no Brasil. A mudança poderia alterar os dados disponíveis. Segundo os padrões atuais, a taxa média de mortes desse tipo por 100 mil habitantes foi de 5,5 em 2014; de 5,7, em 2015; e de 5,8, em 2016. Com a revisão, ficariam, respectivamente, em 6,7; 7,2; e 7,1. Mas a área técnica do órgão desistiu da reavaliação.

O que assusta atualmente os especialistas, contudo, não são apenas as variações estatísticas do tema, ainda que tenham impacto sobre estudos e pesquisas. A maior parte deles está preocupada com um agravamento dos índices de suicídio por causa de uma maior disponibilidade de armas no país. “O ato de tirar a própria vida é, por princípio, o resultado de um impulso” afirma Guilherme Polanczyk, da Faculdade de Medicina da USP. “É a existência de uma oportunidade que vai defini se ele será consumado ou não”. As armas, no caso, oferecem essa possibilidade. E são instrumentos de extremamente letais. Nos EUA, respondem por 46% dos óbitos nesses episódios. Em outros países de alta renda, mas que restringem o uso de armas, esse número cai para 4,5%.

Outros elementos, que vão das incertezas a questões culturais, também atuam nas engrenagens desse cenário. “Os dados disponíveis indicam que 30% da população global, em algum momento da vida, vai passar por um episódio grave de transtorno, o que poderia incluir, a título de exemplo, a insônia”, afirma o psiquiatra Mário Eduardo Costa Pereira, professor da Faculdade de Medicina da Unicamp. “Isso nos leva à pergunta: que mundo é este no qual as pessoas nem sequer conseguem dormir?”. Em grande medida, acrescente Pereira, podemos estar revivendo o que Freud chamou de “mal-estar da civilização”, em que o individuo é oprimido em suas pulsões e vive um incomodo permanente.

Pereira diz acreditar que, nestes tempos líquidos, as utopias fazem falta. “Ninguém acha mais possível criar um mundo transcendente ou poético”, diz. “A ecologia surgiu como uma alternativa, um plano B, para as sociedades, mas nem a possibilidade de detonarmos o planeta parece ter força para frear processos marcados por um individualismo extremo”. Hoje, observa, as pessoas vão ao consultório de um psiquiatra e pedem: “Aplaca meu sofrimento com remédios e me coloca para produzir amanhã”. E concluiu: “Se esse for o critério de bem-estar, vai ficar difícil alterar os quadros de depressão”. De fato, com todo esse barulho, não vai ser fácil dormir.
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domingo, 29 de setembro de 2019

A garota, o fascista e a luta pelo futuro

 Umair Haque*

Na sociedade dele, fraqueza é morte. Virtude é ganância, frieza e vaidade. Ninguém sente nada. Afastam com medicação a dor de viver sem dinheiro, dignidade, tempo ou sentido. Temem a menina que se tornou adulta antes do tempo
Houve ontem um momento histórico, capturado por fotografias, que me tocou e provavelmente tocou você, por ser memorável e especial.

O fascista pavão que encabeça o império capitalista mundial em desagregação – arrogante no brilho das câmeras. E atrás dele a colegial humilde e desafiadora, tentando salvar o mundo. Que momento! Mas o que há de tão impressionante nisso? Por que toca tanto as pessoas sensatas e conscientes?

Como todos os momentos históricos, um paradoxo – ou vários deles – revelou-se claramente. Um conflito épico entre o passado e o futuro. O presente e a possibilidade. Entre o velho mundo, que morre – e o novo lutando para nascer.

O primeiro paradoxo é entre poder e falta de poder – mas não de modo simplista. De um lado, a estudante mais adulta que o normal. Repreendendo os governantes do mundo reunidos. Sem se deter em nenhum momento. Vocês fracassaram conosco, diz ela. Vocês roubaram minha infância e agora estão roubando meu futuro. Por dinheiro. Vocês não ligam? Para nós? Para o planeta? Os governantes aplaudem, desconfortáveis. Foram pegos, chamados, flagrados, questionados, desafiados – por uma garota. Como chegaram aqui os sem-poder, por um momento que seja? Como uma estudantezinha … está desafiando a força congregada dos poderosos do planeta Terra?

O mundo parece estar virando de cabeça pra baixo diante de nossos olhos. A criança que se tornou adulta antes do tempo está repreendendo os adultos mais poderosos do mundo por estar agindo… como crianças mimadas! È algo bizarro, surreal, inebriante. Vemos revelado, em termos absolutos, o quão terrivelmente os governantes falharam. Uma estudantezinha está chamando-os ao dever – literalmente. Pode haver acusação maior do que essa? Quando uma menina expõe quão viciadas são suas prioridades, moralidade, ética, atitudes … quem é a criança de fato ? A pequena estudante está desafiando o poder formal, institucional com o poder moral, o social e cultural. Ela vencerá?

Isso me traz ao segundo paradoxo – entre o que você pode denominar ego e alma. Greta, como todas as grandes figuras da história, maneja a vergonha. Pense em Martin Luther King, Gandhi, Mandela, Malala. Todas elas são titãs do poder moral. O que dá a este sua força demolidora? Ao nos converter em testemunhas, apela para o que há de melhor em nós. Nossa alma moral, nossa consciência. Isso nos envergonha, provoca em nós a culpa por pequenas cumplicidades e cegueiras voluntárias. Fustiga com um chicote de tristeza e arrependimento. Devemos ser melhores que isso, ela nos lembra. Então talvez desafiemos as ordens dos homens insensatos e violentos que transformaram a humanidade em servos e escravos por milênios. Talvez então haja revolução. 

Há um homem impermeável à mensagem de Greta. O líder – não ria – do “mundo livre”. Ele atravessa o palco, presunçoso como uma … criança mimada. Só dá ele, você vê. Ora, é ele quem merece o Prêmio Nobel da Paz. Por construir campos de concentração, prender crianças em gaiolas, separar famílias e deixar crianças pequenas morrer de fome – aquilo que o último promotor vivo de Nuremberg chamou de crimes contra a humanidade.

A mensagem de Greta não o atinge – ou aos seus seguidores, que começaram a atacá-la por ser diferente, por ser jovem, por ser desafiadora, por não obedecer. Ele a xinga. O que isso nos diz? O poder moral da mensagem de Greta vem de uma terrível vergonha. Mas esse homem – o fascista que lidera o “mundo livre” – não tem vergonha. Muito naturalmente, tudo que ele sente é ódio e fúria. Por que?

Porque ele é um narcisista infantil. Ele literalmente vive no mundo emocional e das experiências de uma criança pequena. Está para sempre buscando poder total, onipotência, provar a si mesmo que tem valor, tendo sido desamado por pais distantes. Ele vai fracassar – porque nesta vida ninguém pode ter poder absoluto. Ele já é motivo de ridículo no mundo. Não importa – ele duplica a dose. Impõe mais violência, faz mais xingamentos. O mundo ri um pouco mais. O ciclo vicioso continua. O que mais um narcisista infantil pode fazer? Ele não tem vergonha – só o desejo desesperado de ser poderoso, mesmo que isso signifique … transformar o mundo inteiro em cinzas, desde que ele possa ficar no topo disso.

É possível perceber como a pequena estudante representa um nível radicalmente mais alto de consciência do que a maioria dos governantes do mundo… mas especialmente do líder fascista do “mundo livre”?

Isso me leva ao próximo paradoxo. O líder do “mundo livre” é um fascista, com arsenais de máquinas que assassinam por controle remoto. Sua mentalidade atrofiada e reduzida – a razão de sua existência é conquistar mais poder e riqueza por meio da violência – está sendo desafiada por uma menininha de uma social-democracia suave, com vergonha, culpa e humanidade. Como?

Por que todos os que atacam Greta, ou ao menos a maioria deles, vêm do país deste homem – o império capitalista que implodiu em fascismo? Não é natural que aqueles que não têm vergonha venham do império capitalista da violência e da voracidade? Naquela sociedade, vulnerabilidade é fraqueza, e fraqueza é morte. Virtude é, portanto, ganância, desumanidade, crueldade, frieza, egoísmo, vaidade. O que é valorizado acima de tudo é a capacidade de impor violência – não apenas física mas social, emocional, cultural. Você pode destruir uma cidade sem sentir nada? Você pode vender a um país inteiro pílulas ou armas que matam? Impressionante! Aqui está um bilhão de dólares! A vergonha não é permitida no império de violência do capitalismo. Como poderia?

Os sentimentos simplesmente não são permitidos. Ninguém mais sente nada. Eles aprenderam a expulsar com medicação a dor terrível de ser explorado sem piedade por seus senhores capitalistas, que os deixam sem dinheiro, dignidade, tempo, sentido. E os donos de escravos, por sua vez, estão muito ocupados transformando-os em commodities para vender e comprar, de modo que possam comprar coisas brilhantes para gabar-se e exibir-se. No império em ruínas do capitalismo, ninguém mais está autorizado a sentir, razão por que este império é conhecido mundialmente por sua frivolidade, superficialidade, falta de sentido. As pessoas foram desumanizadas – mas não sabem disso, porque ninguém vai lhes contar. O que pessoas desumanizadas podem fazer para salvar um planeta moribundo? Elas não conseguem sequer se salvar.

Mas o país de onde vem a estudante é o oposto. As pessoas não parecem presas numa disputa por uma fatia cada vez menor de poder, como no Império capitalista em colapso. Por que? As pessoas são cuidadas. Não perfeitamente – alguma sociedade será perfeita algum dia? Simplesmente de um modo mais humano. Seguro-saúde, aposentadoria, renda, transporte, educação – essas coisas são direitos humanos básicos. As pessoas são portanto mais livres – porque, em vez de competir pelo poder, elas se fortalecem umas às outras. Para quê? Para viver mais plenamente. Para serem felizes, questionarem, conhecerem, entenderem, desafiarem, resistirem, pensarem, raciocinarem, serem humanes e decentes e saudáveis. E assim, finalmente – isso é crucial – sentirem. Isso é o que lhes foi ensinado.

Quando sua vida não é uma competição sem fim, desumanizadora, brutalizadora, pela sobrevivência – perdeu aquele emprego, lá se vai seu seguro saúde, bang, uma pequena emergência e todo mundo está à beira da ruína – então sua vida também não é um contínuo sentimento de pavor, ansiedade e desespero. Você não tem que medicar esses sentimentos para espantá-los – do modo como as pessoas fazem no império capitalista, seja com comprimidos, dinheiro ou posses. Você está livre para sentar-se e refletir, para sentir profundamente o pesar, a alegria, a dor e a beleza de simplesmente estar aqui. Existir por meio apenas alguns atos de respirar, neste oásis azul girando através da escuridão infinita.
Mas o capitalismo matou a habilidade de sentir. De conectar-se de verdade com a própria vida. A pequena estudante sente, e sente profundamente, a ponto de sofrer pela morte do planeta e da vida nele. Não é coincidência que ela venha de um tipo de sociedade diferente. Ela certamente não poderia ter vindo do império capitalista. Quem pode sofrer pelo fim do mundo na terra do sorriso de plástico? E esse sorriso de escárnio não é o que está estampado na cara do fascista?

Isso me leva ao próximo paradoxo. Uma pequena estudante – ensinando a todos nós como sofrer pelo fim do mundo. Enquanto o líder fascista do mundo livre apoia e aprende e nos ensina apenas o que é ser o tipo de tolo violento que acaba com os mundos.

Vamos colocar desta forma. O que a pequena estudante está de fato nos ensinando? O valor da raiva? Isso é o que pensam as pessoas – os bem-intencionados – no império capitalista. Elas agora só podem ver violência, por isso pensam que a lição é a raiva. Mas não é. A lição é esta. Para enfrentar o fim do mundo, e lutar contra ele, precisamos sentir, realmente sentir, dentro dos nossos ossos. Se não podemos sentir – que razão haverá para agir?

Pense no fascista que atravessa o palco, que zomba da pequena estudante. Por que ele não liga para o fim do mundo? Por que seus seguidores não ligam? Bem, porque eles não podem sentir nada, de fato. É por isso que estão tentando vencer, por meio de todo tipo de abuso, toda a violência, todo o dinheiro e poder e sexo que exigem. Eles querem sentir algo, qualquer coisa, menos o vazio. Estão muito ocupados esperando tirar vantagem do fim do mundo, da vida que morre no planeta Terra. O que isso nos diz? Emocionalmente, eles estão numa disputa interminável pela sobrevivência. Qualquer coisa menos que onipotência, estar acima de todos os outros, dominá-los – carece de valor. Do que mais o líder fascista do mundo livre estaria atrás … de ainda mais dinheiro e poder? Pelo que mais seus seguidores insultariam e zombariam da estudante?

Não sobraram sentimentos verdadeiros. Somente a sensação de raiva por ter direito, mas ter negados o poder e a fortuna merecidos. O velho sentimento de amargura – esses escravos me pertencem! Esses subumanos deveriam estar em campos de concentração! Não há sentimentos genuínos – apenas o desejo ardente de provocar violência. Os sentimentos morrem todo dia um pouco no império em ruínas do capitalismo.

Mas aqueles que não podem sentir nada não podem também enfrentar o fim do mundo – muito menos lutar contra ele. Pense na pequena estudante. Ela é divergente. Ela não tem a cabeça normal. Dizem que pessoas como ela não deveriam ser capazes de sentir muita coisa – este é o mito. Mas é ela a incandescente. Aquela que repreende os governantes do mundo com uma espécie de fúria abrasadora. Ela é quem chora lágrimas. É dela que a tristeza explode como um inverno sem fim.

A pequena estudante está nos ensinando como chorar pelo fim do mundo. Dessa maneira, ela também nos ensina a lutar pelo futuro. Mas o fascista que lidera o “mundo livre” só está nos ensinando como zombar e desdenhar da morte. Da democracia, do planeta, da vida que há nele, da história, da decência.

A pequena estudante está nos ensinando que a capacidade de desafiar vem não apenas da irritação ou da fúria – ou mesmo da “esperança” e “otimismo” perfeitamente empacotados pelo império capitalista – mas de um sentimento de tristeza profundo e devastador, de um sentimento de desespero existencial de parar o coração. Da náusea de Sartre, do desespero de Camus, do terror de Kierkegaard. Sem essas emoções vivificantes irradiando de nossos centros morais como grandes ondas de transformação – não apenas a interminável fome de mais poder, mais dinheiro, mais posses – não há absolutamente razão para fazer outra coisa senão submeter-se aos homens violentos que sempre governaram o mundo. Mesmo que o mundo, desta vez, esteja acabando.

Tradução: Inês Castilho
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 *Escritor. Ele é considerado um dos mais influentes pensadores sobre gestão, pela Thinkers50
Fonte:  https://outraspalavras.net/crise-civilizatoria/a-garota-o-fascista-e-a-luta-pelo-futuro/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=o_melhor_da_semana_a_garota_o_fascista_e_a_luta_pelo_futuro_economia_chance_de_mudanca_no_ar_o_projeto_de_bolsonaro_para_a_amazonia_como_a_mineracao_devasta_as_terras_indigenas&utm_term=2019-09-29

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Rubens Ricupero: ‘I want to be alone’**

Rubens Ricupero*

ANTIDIPLOMACIA - O presidente em Nova York: tom ríspido, cara fechada e sem o apreço da comunidade internacional (Alan Santos/PR)

O discurso belicoso de Jair Bolsonaro na ONU rompe com a tradição de evitar discussões sobre assuntos internos diante de estrangeiros

Nos primeiros dez anos da ditadura militar, o embaixador João Augusto de Araújo Castro, crítico da política externa brasileira, dizia que o país tinha o complexo de Greta Garbo, a estrela de filmes como A Dama das Camélias. Era uma referência à frase da atriz: “I want to be alone”. O Brasil votava nas instâncias internacionais em linha seguida só pelos Estados Unidos, pelo Portugal salazarista, pela África do Sul do apartheid e por Israel. Assim como Greta Garbo, o Brasil queria ficar sozinho. Hoje, voltamos a manifestar esse complexo. Se a meta da diplomacia do presidente Jair Bolsonaro for o isolamento, o discurso proferido no último dia 24 na ONU atingiu plenamente o objetivo: o país se apequenou, ficou isolado na extrema direita do espectro ideológico. Do ponto de vista de um diplomata profissional, a performance do nosso presidente na Assembleia-Geral foi uma aula de antidiplomacia, o oposto do que deve ser um discurso de um líder mundial que busque melhorar a imagem e construir amizades.

A linha de Bolsonaro não me surpreendeu. Tudo o que o presidente havia dito antes, que iria até de maca para a ONU, mostrava uma atitude de provocação, de acordo com o segmento de eleitores mais radicais, aqueles 15% que formam seu núcleo duro de apoio. O discurso foi a expres­são de uma diplomacia belicosa, de valentia em defesa da soberania nacional. Em diplomacia, a forma e o tom são quase tão importantes quanto o fundo. No discurso de Bolsonaro, tudo é agressivo: o tom duro, ríspido, a cara fechada, nenhum sorriso, nenhum senso de humor.

O fundo se parece ao do retrato formado pelas palavras de Trump: defesa da soberania, denúncia do globalismo, ataques ao socialismo, ao comunismo, à mídia, invocação de Deus, apelo ao eleitorado religioso. A semelhança provém da mesma matriz ideológica que inspirou os dois textos: o movimento de Steve Bannon, um dos consultores do discurso brasileiro. A diferença está nos inimigos escolhidos: o discurso de Trump é “briga de cachorro grande”, investe contra a China e o Irã; o de Bolsonaro briga com a Venezuela de Maduro e a decadente Cuba de nossos dias.

Antes do evento, eu até me perguntava se seria possível a Bolsonaro piorar sua imagem, que já estava no fundo do poço. Nisso me enganei. Ele confirmou diante do público externo tudo de pior que até então os comentaristas diziam dele. Ele se revelou no seu pior aspecto, até na apologia da ditadura militar, na sua insensibilidade aos grandes temas diplomáticos mundiais, ambientais e de direitos humanos. Da mesma forma que Trump, nem sequer mencionou o tema central desta Assembleia-Geral: o perigo do aquecimento global causado pela ação humana. Não me parece que ele se importe com as consequências prejudiciais para os interesses políticos e econômicos do Brasil de sua postura externa. Ao se voltar para o eleitorado brasileiro, Bolsonaro demonstra estar muito mais preocupado com sua possibilidade de reeleição. O que ele teme é a perda de popularidade, a desilusão dos eleitores, os riscos ao seu poder dentro do Brasil. Para ele, o perigo está aqui dentro, não lá fora. É uma postura imediatista que descarta ou subestima os danos para exportadores, para o agronegócio e para a reputação do país.


“Bolsonaro confirmou diante do público externo tudo de pior que até então os comentaristas diziam dele”

Como mencionou em tuíte o senador Flávio Bolsonaro, o presidente repetiu na ONU o discurso que lhe deu a vitória nas eleições. Em alguns trechos, até parece falar numa campanha eleitoral, pois hostiliza seus adversários no Brasil, seus antecessores na Presidência, acusados de comprar parte da mídia e do Parlamento. Rompe com a tradição de todos os chefes de Estado de evitar tratar de disputas internas fora do Brasil. Com muita boa vontade, a única coisa que poderíamos dizer de positivo é que ele foi fiel a si próprio, não buscou enganar ninguém. Disse lá fora o que diz aqui internamente. Foi mais honesto do que no Fórum Mundial de Davos, onde disfarçava sua oposição ao “globalismo”.

É curioso que uma pessoa ciosa da soberania, como Bolsonaro, resolva “lavar a roupa suja” diante de estrangeiros num fórum global que ele despreza. Nos 21 anos do regime militar, os generais presidentes nunca iam à ONU. A única exceção foi Figueiredo, já no final da abertura, que compareceu à Assembleia-Geral para falar da crise da dívida externa. Os chanceleres da época eram quase sempre diplomatas de carreira. Eram eles que faziam o discurso de abertura na ONU, numa linha profissional, sempre comentando a pauta do ano.

É preocupante a transformação do Brasil no principal vilão global, papel até então do presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte. Ele chamava atenção mais em razão de excessos na guerra às drogas. Não havia, no seu caso, um tema que mobilizasse a opinião internacional, como o da destruição da Amazônia. A postura extremada em matéria de meio ambiente, de povos indígenas e de direitos humanos liquida o pouco que restava do soft power brasileiro. O “poder suave” é o termo usado na diplomacia para definir a competência de um país para conseguir o que deseja por meio de sua cultura e de sua imagem, de sorrisos e paciência, em oposição a balas e canhões.

Um discurso dessa natureza tem consequências concretas, inclusive econômicas. Pouco antes da viagem de Bolsonaro, 230 fundos de investimentos, que gerem ativos na casa de 16,2 trilhões de dólares, externaram preocupação com a Amazônia. Uma manifestação desse tipo não é espontânea, mas resulta da pressão de investidores sensíveis às causas ambientais. Após o discurso do presidente, a situação vai piorar em matéria de atração de investimentos, de financiamentos, de comércio. Um país isolado terá dificuldades de se eleger para postos internacionais. O ingresso na OCDE ficará mais difícil, pois depende da aprovação de boas práticas ambientais. Até mesmo os acordos que Bolsonaro mencionou, como o do Mercosul com a União Europeia e o que foi assinado com a Zona de Livre-Comércio da Europa, ficarão em profunda hibernação. Nenhum Parlamento de país europeu considerará a hipótese de aprová-los enquanto a situação aqui não evoluir.

Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2019, edição nº 2654

**Do Blog: "Eu quero ficar sozinho". (Tradução livre)
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 * Rubens Ricupero é diplomata. Foi ministro da Fazenda e do Meio Ambiente e embaixador nos Estados Unidos
Fonte:  https://veja.abril.com.br/mundo/pagina-aberta-rubens-ricupero-i-want-to-be-alone/

Rodrigo Janot sobre Gilmar Mendes: “Ia dar um tiro na cara dele”

I
RA - Rodrigo Janot: seu plano era entrar no tribunal e se suicidar com a mesma arma usada para executar o ministro  (Cristiano Mariz/.)

Em entrevista, o ex-procurador-geral da República conta que, no ápice da Lava-Jato, foi armado ao STF para matar o ministro

 




Em maio de 2017, a Operação Lava-Jato estava atingindo seu ponto mais alto. O ex-presidente Lula teve a primeira audiência com o juiz Sergio Moro no caso do apartamento tríplex, a Presidência de Michel Temer tremeu após a divulgação de um vídeo que mostrava um deputado puxando pelas ruas de São Paulo uma mala cheia de dinheiro e a delação premiada dos donos da JBS disparou ondas de choque devastadoras contra o mundo político. Houve também um quarto episódio, até agora desconhecido, que por pouco não mudou radicalmente a história da maior investigação criminal já realizada no país.



No dia 11 daquele mês, o então procurador-­geral da República, Rodrigo Janot, o chefe da operação em Brasília, foi a uma sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) decidido a executar o ministro Gilmar Mendes. O plano dele era dar um tiro na cabeça do ministro e depois se matar. A cerca de 2 metros de distância de Mendes, na sala reservada onde os ministros se reúnem antes de iniciar os julgamentos no plenário, Janot sacou uma pistola do coldre que estava escondido sob a beca e a engatilhou.
DESAFETO – Gilmar Mendes: a menos de 2 metros de uma terrível tragédia (Cristiano Mariz/.)

Mesmo para quem conhece o temperamento mercurial de Rodrigo Janot é difícil imaginá-lo praticando um ato de tamanha loucura. Naquele dia, porém, ele estava transtornado. O procurador-geral e o ministro viviam trocando alfinetadas em público. Gilmar Mendes era — e ainda é — um dos mais ferrenhos críticos dos métodos utilizados pela força-tarefa da Lava-Jato. As divergências chegaram a ponto de um se recusar a pronunciar o nome do outro. O ministro se refere a Janot como bêbado e irresponsável. O ex-procurador costuma chamar Mendes de perverso e dissimulado. Em maio de 2017, o embate começou a entrar em ebulição quando Janot pediu ao STF que impedisse Mendes de atuar em um processo que envolvia o empresário Eike Batista. O procurador alegou que a esposa do ministro, Guiomar Mendes, trabalhava no mesmo escritório de advocacia que defendia Eike. Na sequência, foram publicadas notícias de que a filha de Janot era advogada de empreiteiras envolvidas na Lava-­Jato — o que, por analogia, também colocaria o pai na condição de suspeito. O procurador identificou Mendes como origem da informação — e, nesse instante, decidiu matá-lo.

“Ia dar um tiro e me suicidar”, disse Janot em entrevista a VEJA. É uma revelação surpreendente. O procurador vai lançar na próxima semana o livro Nada Menos que Tudo, escrito pelos jornalistas Jailton de Carvalho e Guilherme Evelin, em que narra episódios desconhecidos ao longo dos quatro anos em que esteve à frente das investigações do maior escândalo político do país. São histórias que se passam no coração do poder, envolvendo os homens mais poderosos da República e empresários influentes nos momentos mais agudos da operação.

Há casos de comportamentos indecorosos, como o de um pedido de Michel Temer e seus aliados para que o procurador não investigasse o então deputado Eduardo Cunha, e de uma bisonha tentativa de cooptação, quando o então senador Aécio Neves, em meio ao escândalo e já na condição de investigado, teve a desfaçatez de convidar Janot para compor com ele uma chapa a fim de disputar a eleição presidencial de 2018. Há também situações de sabotagem, traição, desconfiança, intrigas e suspeitas entre os próprios membros da força-tarefa.

No livro, o ex-procurador preserva o nome de alguns personagens pilhados em cenas constrangedoras, como o de um ministro do Supremo que, chorando, foi procurá-lo para perguntar se era alvo da investigação. No capítulo em que trata do plano para matar Gilmar Mendes, Janot fala de sua motivação — “insinuações maldosas contra a minha filha” — e resume em seis linhas o fato que poderia ter provocado uma imprevisível reviravolta na Lava-Jato: “num dos momentos de dor aguda, de ira cega, botei uma pistola carregada na cintura e por muito pouco não descarreguei na cabeça de uma autoridade de língua ferina que, em meio àquela algaravia orquestrada pelos investigados, resolvera fazer graça com minha filha. Só não houve o gesto extremo porque, no instante decisivo, a mão invisível do bom senso tocou meu ombro e disse: não”. A identidade da “autoridade” que quase foi morta não é revelada.

Na entrevista a VEJA, o ex-procurador-geral fala do livro, das pressões, das ameaças e das perseguições que sofreu ao longo da operação e confirma que o alvo de sua “ira cega” era o ministro Gilmar Mendes: “Esse inspetor Javert da humanidade resolveu equilibrar o jogo envolvendo a minha filha indevidamente. Tudo na vida tem limite. Naquele dia, cheguei ao meu limite. Fui armado para o Supremo. Ia dar um tiro na cara dele e depois me suicidaria. Estava movido pela ira. Não havia escrito carta de despedida, não conseguia pensar em mais nada. Também não disse a ninguém o que eu pretendia fazer. Esse ministro costuma chegar atrasado às sessões. Quando cheguei à antessala do plenário, para minha surpresa, ele já estava lá. Não pensei duas vezes. Tirei a minha pistola da cintura, engatilhei, mantive-a encostada à perna e fui para cima dele. Mas algo estranho aconteceu. Quando procurei o gatilho, meu dedo indicador ficou paralisado. Eu sou destro. Mudei de mão. Tentei posicionar a pistola na mão esquerda, mas meu dedo paralisou de novo. Nesse momento, eu estava a menos de 2 metros dele. Não erro um tiro nessa distância. Pensei: ‘Isso é um sinal’. Acho que ele nem percebeu que esteve perto da morte. Depois disso, chamei meu secretário executivo, disse que não estava passando bem e fui embora. Não sei o que aconteceria se tivesse matado esse porta-­voz da iniquidade. Apenas sei que, na sequência, me mataria”.

O PIOR DOS CRIMINOSOS – Cunha: para o ex-procurador, ele seria presidente 
 se não fosse a Operação Lava-Jato 
(Dida Sampaio/Estadão Conteúdo)

“Suspeito que Cunha mandou invadir minha casa”

De todos os investigados na Lava-Jato, Janot atribui ao ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha o epíteto de “o pior dos criminosos”. O ex-procurador-­geral diz guardar “depoimentos assombrosos” dos métodos de intimidação de Cunha e também suspeita que ele esteja por trás do arrombamento de sua casa, em 2015. O parlamentar foi afastado do cargo de deputado federal em maio de 2016, a pedido de Janot, e depois condenado e preso
“Se não fosse a Operação Lava-­Jato, talvez Eduardo Cunha fosse hoje presidente da República. Faço uma constatação de que o então presidente da Câmara, com a força extraordinária que tinha, com uma base de 150 a 170 deputados e com um sistema abastecendo-o de dinheiro de corrupção, teria grandes chances de ser eleito presidente. Eu não faço a avaliação de quem seria o melhor e de quem seria o pior, mas o Bolsonaro é um produto da queda do próprio Cunha. No início de 2015, minha casa foi invadida e só levaram um controle remoto do portão. Era um recado, uma ameaça. Pelo cheiro, suspeito que foi obra do Eduardo Cunha. Não há evidência. É pelo cheiro mesmo.”
 
DESESPERO – Aécio: sondagem para que Janot fizesse parte 
da chapa presidencial (Cristiano Mariz/.)

“Aécio me convidou para ser seu vice-presidente”

Com o cerco se fechando sobre os políticos, Janot relata ter recebido vários “agrados” — de convites para renovar o mandato de procurador a uma vaga de ministro do STF. A mais inusitada oferta, no entanto, partiu do então senador Aécio Neves, investigado por recebimento de propina
“Certo dia, em 2017, meu conterrâneo, o senador Aécio, sentiu que o clima estava aquecendo com as investigações sobre a Odebrecht e me convidou para ser ministro da Justiça quando ele fosse eleito presidente da República no ano seguinte. Eu, é claro, declinei. Dias depois, ele voltou e me fez outra proposta: ‘Quero pedir desculpa. O convite não estava à sua altura. Eu acho que você podia ser o meu vice-­presidente. Você escolhe qualquer partido da base, filia-se e vai ser o meu vice-presidente. Isso vai ser um fato mundial. O vice-presidente chama embaixadores, representantes de Estado e ele vai para a cozinha cozinhar para essas pessoas. Eu sei que você gosta de cozinhar’. É óbvio que era uma tentativa de cooptação. As investigações da Odebrecht estavam andando e depois o caso JBS foi o tiro de misericórdia contra ele. Houve uma situação semelhante quando Michel Temer assumiu a Presidência da República. O ex-­ministro Eliseu Padilha me sondou para que eu partisse para um terceiro mandato como procurador-geral da República. Depois fui sondado para ser ministro do Supremo. Na sequência, Gustavo Rocha (ex-­subchefe de Assuntos Jurídicos e ex-­ministro dos Direitos Humanos) me ofereceu o cargo que eu quisesse. Eu brinquei que queria ser embaixador do Brasil na Comunidade de Países de Língua Portuguesa, porque eu moraria em Lisboa, não faria nada e seria como a rainha da Inglaterra. O Gustavo Rocha disse na hora: ‘O cargo é seu, é seu’. Mas eu estava brincando.”

“Palocci disse que iria entregar cinco ministros do STF”

As desavenças entre Rodrigo Janot e Gilmar Mendes se intensificaram diante de rumores que surgiram durante as apurações da Lava-Jato sobre o envolvimento de ministros do STF com alguns dos investigados. Janot confirma que delatores fizeram insinuações nesse sentido mas nunca apresentaram uma evidência concreta
“Na primeira vez em que o ex-ministro Antonio Palocci tentou fechar uma delação com a gente, disse que iria entregar cinco ministros do STF. Ele citou a Rosa Weber, o Luiz Fux, o Fachin, mas era igual a biscoito de polvilho, só fazia barulho. Da Rosa Weber ele disse apenas que o marido dela era amigo do ex-marido da Dilma. Disse também que o Fux ia matar no peito e inocentar os petistas no julgamento do mensalão. Do Fachin, dizia que tinha amizade com não sei quem. Tudo bobagem. Foi nessa mesma época que um ministro do Supremo me procurou para saber se ele estava sendo investigado. Com lágrimas nos olhos, disse que a mãe dele não suportaria vê-lo na condição de investigado. Não tinha fundamento nenhum. Também houve o episódio em que suspendi as negociações de delação do Léo Pinheiro (ex-presidente da empreiteira OAS) porque o nível de informação que ele disse que traria nunca chegou. Era igual ao Palocci. Ele citava uma conversa que teve com o Toffoli numa festa, sobre um problema de vazamento no teto da casa do ministro. Disse que indicou duas ou três empresas para que o Toffoli fizesse o serviço na casa. Perguntei a ele: ‘Alguma dessas empresas era ligada a você?’ ‘Não.’ ‘Vocês pagaram esse serviço?’ ‘Não.’ Então o que tem isso a ver? Não tinha fato típico. Não tinha nada.”

PREVARICAÇÃO – Temer: pedido para poupar Cunha nas investigações 
(Tiago Queiroz/Estadão Conteúdo)

“Temer queria que eu praticasse um crime”

O ex-procurador-geral relata ter recebido, em março de 2016, pouco antes do impeachment de Dilma Rousseff, um convite para um encontro com o vice-presidente Michel Temer. No Palácio do Jaburu, além do vice, estava o ex-presidente da Câmara Henrique Eduardo Alves, que, sem meias palavras e com o aval de Temer, pediu a ele que poupasse o então deputado Eduardo Cunha de qualquer investigação
“Pouco antes do início do processo de impeachment da Dilma, recebi um convite para ir ao Jaburu encontrar o vice-presidente. Lá, ele (Temer), depois de um pequeno rodeio, falou assim: ‘Estamos aqui para conversar não com o procurador-geral, mas com o patriota’. E entra o Henrique Eduardo Alves e reafirma: ‘Estamos aqui falando com o patriota e queríamos chamar o senhor para não permitir que o Brasil entre numa ‘situação de risco’. Esse homem é um louco. O senhor tem de parar essa investigação’. O louco era o deputado Eduardo Cunha. Custei a acreditar que estava ouvindo aquilo e disse que aquela conversa estava errada. Diante da minha reação, Temer ainda insistiu: ‘O Henrique não está falando com o procurador-geral, ele está falando a um patriota. Não há gravidade na proposta que ele está fazendo’. Eles queriam que eu praticasse um crime, o de prevaricação. Falei alguns palavrões indizíveis antes de ir embora. A reunião foi testemunhada pelo Zé Eduardo (José Eduardo Cardozo, então ministro da Justiça).”
 
CORRUPTO - Lula: “É impossível que ele não fosse 
um dos chefes do esquema” (Ricardo Stuckert/PT)
“Não tenho dúvida de que 
o Lula é corrupto”

Era de responsabilidade de Rodrigo Janot a investigação dos políticos com direito a foro privilegiado — deputados, senadores, presidentes e até ex-presidentes da República. Como procurador-geral, ele denunciou Michel Temer, Dilma Rousseff, Lula e Fernando Collor — todos, segundo ele, envolvidos no escândalo de corrupção, embora em graus diferentes
“É impossível que o Lula não fosse um dos chefes de todo esse esquema. Não tenho dúvida de que ele é corrupto. Da mesma forma que não tenho nenhuma dúvida de que a Dilma não é corrupta. Mas ela tentou atrapalhar as investigações com a história de nomear o Lula como ministro da Casa Civil. A obstrução de Justiça aconteceu, tanto que eu a denunciei. Até agora não surgiu nenhuma prova que envolva a ex-presidente com corrupção. Temer, sim, é corrupto. Corrupto filmado, fotografado e gravado. No caso da JBS, teve até malinha correndo em São Paulo por ação controlada autorizada pelo Judiciário. Não tem como esconder que aquilo existiu. No caso do Sarney, não dá para dizer categoricamente que o ex-­presidente é corrupto, porque não consegui denunciá-lo, apesar dos áudios em que aparece discutindo, de forma velada, repasses de dinheiro. O Collor é um caso à parte…”
CASO À PARTE – Collor: tentativa de intimidação, dossiês e informação 
de que estaria armado na sabatina (Ueslei Marcelino/Reuters)
“Collor se sentou na minha frente e ficou repetindo: ‘f.d.p., f.d.p.’ ”

Fernando Collor foi denunciado por corrupção e lavagem de dinheiro em 2015. O senador foi apanhado na primeira leva de políticos flagrados embolsando dinheiro desviado da Petrobras. Meses depois da denúncia, Janot passaria pela sabatina no Senado que o reconduziria ao cargo. Collor estava na primeira fila
“Esse cara virou a minha vida do avesso. Ele levantou o histórico de um imóvel meu para ver possíveis inconsistências no imposto de renda, levantou antigos problemas de um irmão meu, já falecido, com a Justiça, procurou vícios em contratações na PGR em busca de irregularidades. O investigado investigou o investigador completamente. Para tentar me constranger, ele avisou antes que se sentaria na primeira cadeira durante a sabatina e minha segurança advertiu que ele poderia ir armado. Ainda brinquei: ‘Se for igual ao pai, pode deixar que ele vai errar o tiro’ (nos anos 60, o senador Arnon de Mello, pai de Collor, disparou contra o senador Silvestre Péricles, seu adversário político, mas errou o alvo e acabou matando outro senador, José Kairala). Mas quem é que daria um baculejo no Collor? Adverti o então presidente do Senado, Renan Calheiros, de que a minha segurança estava sob responsabilidade dele. Na hora da sabatina, Collor se sentou na minha frente, como prometera, e ficou repetindo ‘f.d.p., vou te pegar, f.d.p., vou te pegar’. Era uma tentativa de me intimidar. A participação dele no esquema da Lava-Jato deixou muitas impressões digitais. Ele é um corrupto com certeza.”
LAVA-JATO – Sergio Moro: na opinião de Janot, suspeita de motivação política, 
mas sem contaminação de provas (Andre Coelho/Reuters)
“Deleguei as delações para Curitiba e me arrependi”

Desde que o site The Intercept Brasil divulgou as primeiras mensagens captadas ilegalmente dos celulares dos integrantes da força-tarefa da Lava-Jato, travou-se um debate sobre o grau de isenção dos investigadores e do então juiz Sergio Moro. Janot diz que até desconfiou das intenções de alguns colegas, mas que elas não chegaram a contaminar o trabalho
“No início da operação, a força-­tarefa de Curitiba pediu que eu delegasse a ela o direito de fechar as primeiras colaborações premiadas. Deleguei e me arrependi. As delações do Paulo Roberto Costa e do Alberto Youssef estavam muito rasas. O primeiro inquérito contra o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, também estava muito ruim. Questionei a respeito. Recebi como resposta que o objetivo deles era ‘horizontalizar as investigações, e não verticalizar’. Achei estranho. Determinadas decisões poderiam estar sendo tomadas com objetivos políticos? Os procuradores decidiram, por exemplo, denunciar o ex-presidente Lula por corrupção e lavagem de dinheiro e, no caso da lavagem, utilizaram como embasamento parte de uma investigação minha, que eu nem tinha concluído ainda. Mas não houve nenhum complô político. Depois que o Sergio Moro aceitou o convite para assumir o Ministério da Justiça no governo Bolsonaro, voltei a refletir sobre o assunto. Como juiz, ele fez um trabalho técnico, benfeito. Até agora, do que apareceu dessas conversas do The Intercept, no máximo pode haver algum questionamento de caráter ético na condução do processo, algum questionamento sobre imparcialidade. Mas tecnicamente não vi nenhuma contaminação de provas.”
“Desde o episódio do STF, parei de andar armado”
Comandar a Lava-Jato, para o ex-procurador, representou algo que ele compara a uma visita ao “inferno”. Janot conta que, desde o início da operação, recebeu ameaças, recados velados e pressões para paralisar as investigações
“A partir de 2014, posso dizer que minha vida virou um inferno. As pressões eram constantes, num jogo muito bruto e sujo. Se eu estivesse investigando o PCC, poderia receber uma ameaça de morte direta a mim ou a minha família. A ameaça do mundo político é diferente, é velada. Primeiro vem a tentativa de cooptação, uma insinuação de cargo. Recebi várias ofertas, como já disse. Se isso não dá certo, começam a vir os recados, como o do Temer, apelando para o ‘patriotismo’. Se isso também não funciona, vem o peixe embrulhado no jornal (sinal de jura de morte da máfia). Eles sabem da sua rotina, mandam mensagens cifradas. É quase sempre assim. Ameaça física de verdade eu recebi umas três, inclusive uma em que o sujeito me xingava de traidor. Esse sujeito, que chegou a ser preso, me abordou na rua, na saída de um restaurante aqui em Brasília, e tentou me agredir. Por tudo isso, depois de deixar a procuradoria, passei uma temporada fora do Brasil. Não tenho medo de morrer, mas tenho medo da agressão, o que pode terminar em tragédia. Desde o episódio do Supremo, parei de andar armado.”

“Minha ideia é deixar um relato para que as pessoas julguem as decisões que tomei”
Rodrigo Janot diz que suas decisões na Lava-Jato passarão por um julgamento histórico daqui a quatro ou cinco décadas. Por isso decidiu deixar um registro pessoal dos quatro anos em que esteve à frente da procuradoria e no comando da investigação do maior esquema de corrupção do país
“Tudo o que a gente está passando aqui vai ter invariavelmente um julgamento histórico, no qual vão ser apontados erros e acertos. A maioria das pessoas não terá vivido este momento e receberá informações de segunda, terceira mão, que podem ser deturpadas. A minha ideia é deixar um relato para que as pessoas julguem as decisões que tomei ou pelo menos levem em consideração os meus argumentos. A Lava-Jato foi uma das mais bem-sucedidas investigações já realizadas no mundo. Neste momento, acho que não só no Brasil, mas em vários países da América Latina, se apresenta uma contramarcha no combate à corrupção. É preciso resiliência para não perder essa luta.”

Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2019, edição nº 2654
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Fonte:  https://veja.abril.com.br/politica/janot-gilmar-ia-dar-um-tiro-na-cara-dele/

Gilmar sobre Janot: ‘Recomendo que procure ajuda psiquiátrica’

Em declaração a VEJA, ministro afirmou ter ficado surpreso com a revelação de que o ex-PGR foi armado até o Supremo com a intenção de matá-lo

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, reagiu na manhã desta sexta-feira, à revelação de Rodrigo Janot a VEJA de que foi armado à corte para matá-lo e que, em seguida, pretendia cometer suicídio. O ministro afirmou que ficou “algo surpreso”. O ministro lamentou “o fato de que, por um bom tempo, uma parte do devido processo legal no país ficou refém de quem confessa ter impulsos homicidas, destacando que a eventual intenção suicida, no caso, buscava apenas o livramento da pena que adviria do gesto tresloucado. Até o ato contra si mesmo seria motivado por oportunismo e covardia.”

Em declaração a VEJA, o ministro afirma que “o combate à corrupção no Brasil — justo, necessário e urgente — tornou-se refém de fanáticos que nunca esconderam que também tinham um projeto de poder. Dentro do que é cabível a um ministro do STF, procurei evidenciar tais desvios. E continuarei a fazê-lo em defesa da Constituição e do devido processo legal”

Gilmar Mendes confessa estar “algo surpreso”. “Sempre acreditei que, na relação profissional com tão notória figura, estava exposto, no máximo, a petições mal redigidas, em que a pobreza da língua concorria com a indigência da fundamentação técnica. Agora ele revela que eu corria também risco de morrer.”

“Se a divergência com um ministro do Supremo o expôs a tais tentações tresloucadas, imagino como conduziu ações penais de pessoas que ministros do Supremo não eram. Afinal, certamente não tem medo de assassinar reputações quem confessa a intenção de assassinar um membro da Corte Constitucional do País”, afirma Gilmar, que completa: “Recomendo que procure ajuda psiquiátrica. Continuaremos a defender a Constituição e o devido processo legal.”
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Fonte:  https://veja.abril.com.br/politica/gilmar-sobre-janot-recomendo-que-procure-ajuda-psiquiatrica/

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Luis Fernando Verissimo: "A censura à imprensa pode voltar"

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Este é o ano em que Luis Fernando Verissimo completa 50 anos no ofício que o consagrou. Como cronista, viu seu nome circular por diferentes públicos e seus personagens ganharem o imaginário popular - o marco inicial foi 19 de abril de 1969, quando assumiu uma coluna diária em Zero Hora.
Hoje, Verissimo completa 83 anos de vida. Sem planos de se aposentar, segue firme no debate público por meio de seus textos. 

Nesta entrevista, conta como a sombra da censura incidia sobre seu trabalho durante a ditadura militar. E afirma: nada garante que os censores não voltarão em breve às redações.

Como foi o início no trabalho de cronista, há 50 anos?
Comecei a trabalhar na Zero Hora, era no Centro, na Sete de Setembro, no início de 1967. Naquela época não precisava ter diploma de jornalista. Fazia literalmente de tudo. Até horóscopo. Fazia também a seção Programinha, sobre os bares. Às vezes inventava um bar. O cronista principal do jornal era o Sérgio Jockyman (1930-2011). Eu já havia escrito alguns textos de opinião e, quando o Jockyman foi para a Caldas Júnior, me convidaram para ficar no lugar dele. Comecei a escrever todos os dias, sobre tudo. Foi na época brava da ditadura. Todos nós, jornalistas e cronistas, escrevíamos sob ameaça da censura.

A censura era um peso muito grande na hora de criar?
A gente já sabia o que podia e não podia dizer. Aqui no Sul, antes de mais nada houve a autocensura. Os jornais do Rio e São Paulo era censurados mesmo. Tinha que submeter as edições do jornal aos censores. Aqui foi mais autocensura. O pessoal não queria se incomodar, sabia quais eram os assuntos proibidos e se controlavam. Às vezes a gente escrevia uma crônica sabendo que não ia sair.

Como provocação?
Não. Quando escrevia uma crônica assim, nem mandava para o jornal. Sabia que não ia sair. Escrevia para satisfazer a mim mesmo. A gente sempre tinha uma crônica de reserva, na gaveta. Se uma não poderia sair, mandava outra tratando de qualquer assunto leve, do sexo dos anjos.

O que era proibido?
Não podia obviamente criticar o governo. Não podia falar de militar. Também não podia falar do Brizola nem citar o Dom Helder Câmara. A gente sabia o que seria proibido.

Hoje o governo conta com muitos militares. É um retorno por meio do voto. Isso foi uma surpresa para o senhor?
Sim. É um governo militar meio disfarçado. Não foi preciso botar os tanques na rua. Foi no pleito mesmo. A ideia que a gente tinha é que o tempo da ditadura havia passado e ninguém sentia muita saudade. Na verdade, muita gente estava querendo a volta da ditadura, dos militares. Isso se viu na eleição, com o Bolsonaro. É uma figura quase caricata, autoritária. E ganhou com 60 milhões de votos. Não há como desprezar isso.

Qual é a importância do cronista no Brasil atual?
Temos liberdade de imprensa, pelo menos formalmente. As pessoas estão escrevendo o que querem. Ao mesmo tempo, estamos vivendo em um regime autoritário. A censura à imprensa pode voltar.

O senhor está falando na volta da censura direta? Ou de algo indireto, como redução de recursos para veículos que não estão alinhados com a postura do governo?
Estou falando que uma censura ostensiva pode voltar. Outras eleições estão vindo. Vamos ver qual será o comportamento do eleitorado. No caso desta eleição do Bolsonaro, foi surpreendente.

Há 50 anos, a influência do cronista era mais ampla?
Era diferente. Há 50 anos não existia internet. Hoje, são vários veículos de comunicação atuando. Em termos técnicos, isso determina muitas coisas. O contato do público com a informação é muito mais diluído. O texto permitia a você desenvolver uma ideia, uma posição. Já a comunicação na internet é rápida, porém geralmente superficial. Isso influencia muito nosso trabalho. A questão técnica, digital, mudou tudo.
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Reportagem Por  alexandre.lucchese@zerohora.com.br
Fonte:  https://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=e710549329cbc30d8cfa23cdd4b97f2f 
Imagem da Internet

Carlos Castillo: "Francisco no teme un cisma, porque sabe que el 'pasadismo' responde a un modelo de Iglesia que se ha agotado"

Carlos Castillo
Carlos Castillo

El arzobispo de Lima espera del Sínodo "una promoción de las formas específicas nuevas de Iglesia que hay que vivir en ese mundo" 

Iglesia, presente y futuro: Carlos Castillo, arzobispo de Lima en entrevista exclusiva para Religión Digital

"La Iglesia del pasado tuvo su importancia en una sociedad estable, pero hoy no se pueden mantener formas autoritarias y no participativas, ni liturgias alejadas de la gente. Tenemos la verdad, pero es una verdad abierta"

"El Papa es una persona que tiene tal vivencia profunda de la fe que siempre uno le encuentra alegre y esperanzado. Tiene un visión histórica de las cosas y él ve siempre el futuro y hacia de dónde puede emerger algo nuevo"

"El proceso de desarrollo 'insostenible' que tenemos en este momento en el mundo va a conducir a un descalabro social muy grande"

"Las únicas personas que no escuchan a Francisco son las que han decidido cerrarse en su sistema. Pero lo que el Papa dice es más razonable para la humanidad. Entonces, estamos negándonos a lo razonable"

"Espero del Sínodo que el conjunto de iglesias de la Amazonía tenga una conexión con las iglesias urbanas que les ayudan y, simultáneamente, una promoción de las formas específicas nuevas de Iglesia que hay que vivir en ese mundo"

"Nuestra forma de ser Iglesia ya no es suficiente. En nuestro seno hay luchas de poder y necesitamos una reforma religiosa, empezando por la religiosidad popular, que no se aprovecha a fondo"

Lleva pocos meses en el cargo, pero ya ha revolucionado el arzobispado de Lima. Carlos Castillo Mattasoglio (Lima, 1950) ha estado en Madrid, donde fue una de las 'estrellas' del Encuentro Internacional por la Paz de San Egidio y del arzobispado de Madrid. Intelectual con obra, pero sobre todo pastor sencillo, se alinea abiertamente con las reformas de Francisco, para dejar ya atrás, de una vez, el modelo de una "Iglesia pasadista" (en referencia al pasado), para caminar hacia una Iglesia abierta, plural, sinodal e inculturada.

Acaba de estar con el Papa, en la reunión de los nuevos obispos ¿Cómo ha encontrado a Francisco?
El Papa es una persona que tiene tal vivencia profunda de la fe que siempre uno le encuentra alegre y esperanzado. Tiene un visión histórica de las cosas y él ve siempre el futuro y de dónde puede emerger algo nuevo. Siempre lo he encontrado alegre y lleno de imaginación; lleno de respuestas muy precisas a las cosas.

Además, les ofreció un discurso muy potente a los nuevos prelados
Sí, el discurso que nos dio tenía muchos elementos a 'braccio', como dicen los italianos, es decir improvisando. Nos dijo, en primer lugar, 'no hay que ser obispo-príncipe'.

O sea que, a pesar de los pesares, Francisco está tranquilo
Lo encontré sumamente lúcido con las cosas, en medio de multitud de problemas que puede haber en la Iglesia. Pero, como él dice: 'no me quitan el sueño'.

¿Ni siquiera el tan cacareado 'cisma' le quita el sueño?
En absoluto. Eso es lo de menos. La primera conversación que tuve con él (ahora creo que lo ha ratificado) fue sobre la idea de que una manera 'pasadista' de pensar la Iglesia está claramente llamada a fracasar. Incluso si consiguieran victorias pírricas. El problema 'grave' de la historia de la Iglesia es que ese modelo se ha agotado. Y lo ha hecho dramáticamente por la subversión realizada por modos de comportamiento completamente contrarios a la fe, a la caridad y a la justicia.
El Papa y Carlos Castillo
Todos los grupos que declaran 'regresemos al pasado', ¿a qué pasado se refieren?
A un pasado que tuvo su importancia en una sociedad estable, pero en una sociedad dinámica y difícil, donde todo se sabe y todo se discute, no se pueden mantener formas autoritarias y no participativas, ni liturgias alejadas de la gente.

Son formas que, evidentemente, quieren expresar -nadie lo puede negar- la sinceridad del misterio, pues la contemplación siempre ha sido muy importante en la Iglesia: el silencio. Pero no es lo mismo un sentido de lo profundo que las formas exteriores en que, digamos, la Iglesia se anquilosa. No se abre al mundo, no dialoga, se cree la poseedora de la verdad. Tenemos la verdad, pero es una verdad abierta.

¿El otro modelo inculturado dialogante y abierto, que preconiza el Papa, va cuajando? ¿Cuaja en Latinoamérica? ¿Ve usted que cuaje en España?
Hay sectores. Y creo que incluso en una situación en donde se propicia el miedo, esos modelos pueden cuajar. Pero el problema está en que, paralelamente, el proceso de desarrollo 'insostenible' que tenemos en este momento en el mundo va a conducir a un descalabro social muy grande. A una gran crisis económica, que está avasallando el mundo, en donde no va a haber respuestas. Sólo respuestas autoritarias. No habrá respuestas democráticas. A mí me parece que, en estos momentos, hay una inspiración por parte de la gente a buscar una ampliación de la democracia en todas partes.
Papa valiente
El Papa a veces parece que tiene incluso miedo a una posible guerra nuclear, cuando habla de las guerras a pedazos
Por supuesto que podría pasar y, además, eso podría ser instigado por los grandes intereses. Por ejemplo, China tiene un desarrollo enorme, facilitador del desarrollo económico, pero es la nación que más depreda en el mundo. Entonces, el mundo se le puede venir encima. Y qué pasa, si por una cosa así hacen una guerra. Felizmente, por ejemplo, vemos que los coreanos se pusieron de acuerdo, no sé bien por qué razón. Pero, si China no entra en un proceso de diálogo, vamos a una posible guerra mundial, porque ellos no van a detenerse por progresar. Van a calcular cuánto van a perder y cuánto van a ganar y les importará el resto. No quiero meterme con el gobierno chino, pero uno siente estas cosas así.

Además, China tiene mucha influencia en Perú.
Mucha. Además, como está al otro lado del océanos, piensa que el Perú es uno de los lugares en donde puede tener inversiones.

Volviendo a la Iglesia, la primavera de Francisco ¿es irreversible? ¿Los últimos cardenales que acaba de nombrar van preparando, poco a poco, una sucesión que pueda continuar en la misma línea papal?
Tengo esa impresión, no solamente por los nombramientos, sino porque, como todo lo que el papa Francisco habla es muy razonable a un espíritu común, sencillo, y lo levanta; le hace pensar, le hace caminar, le hace imaginar. Las personas que han decidido cerrarse en su sistema son las únicas que no escuchan. Pero lo que el Papa dice es más razonable para la humanidad. Entonces, estamos negándonos a lo razonable. Lo mínimamente razonable.
Sínodo de la Amazonía
¿Y lo que dice a la Iglesia también es lo razonable?
Sin duda. A la Iglesia le pide la salida a una Iglesia más flexible, más abierta. Un proceso, que se va haciendo poco a poco, no que destruye todo lo anterior sino que lo va sabiendo reintegrar en una nueva dimensión abierta y diversificada de la Iglesia. En ese sentido llevamos un curso bastante bueno sobre sinodalidad. Todo el curso de este año a los obispos nuevos ha sido sobre sinodalidad. Si bien es cierto que no todos los ponentes estaban a la altura, hubo varios ponentes que se dan cuenta de que vamos hacia una Iglesia que se va haciendo a la historia y, por lo tanto, ése el sentido claro de la eclesiología. Y, en segundo lugar, el pueblo de Dios tiene a todos los que somos responsables con la gente sencilla haciendo la Iglesia que el Señor nos inspira.

Hablando de sínodo, ¿qué espera del Sínodo de la Amazonía? ¿Qué le haría sentirse satisfecho de conseguirse en este sínodo?
Que el conjunto de iglesias de la Amazonía tenga una conexión con las iglesias urbanas que les ayudan, un fidei y donum y, simultáneamente, una promoción de las formas específicas nuevas de Iglesia que hay que vivir en ese mundo. De esta forma, tendríamos el ejemplo para que ese nuevo modelo lo aplicáramos a todo el mundo y crear formas nuevas de Iglesia mucho más abiertas.

¿O sea, que la estrategia, en el fondo, es que ese modelo pudiera servir en otras partes, extrapolarse?
Un primer paso. Para entenderlo hay que decir que la Amazonía es el punto extremo del mundo, en donde se está viviendo toda la crisis que estamos viendo. Ya el incendio es el grito máximo. En ese mundo complejo y que, además, es el pulmón del mundo, se empieza a vivir una fe como ya los misioneros lo han hecho. Lo que pasa es que hay diócesis que no tienen ni cura. Son la gente sencilla, el pueblo sencillo, si lo valoramos, lo alentamos. Nosotros vamos a aprender, el pueblo nos enseña. Y si podemos hacerlo repercutir en la sociedad para que la gente vea y todos, entonces, colaboramos, tendríamos un diálogo que permita la reforma en las iglesias locales, especialmente en las urbes.
Osoro y Castillo
Una Iglesia profética y servidora
Eso es. Nuestra forma de ser Iglesia ya no es suficiente. En nuestro seno hay luchas de poder y necesitamos una reforma religiosa, empezando por la religiosidad popular, que no se aprovecha a fondo. A veces, como en el caso de Guadalupe, parece que caminamos con el piloto automático puesto. No puede interesarnos sólo el culto a Dios y que, luego, cada uno haga lo que quiera, aunque sea maltratar a su mujer. Debemos hacer lo que nos pide el Papa: "apoyar a los movimientos populares, que quieren ensanchar nuestra democracia”.

Por lo tanto, una Iglesia nada clerical
Nuestra Iglesia ha de ser viva, sencilla y sensible. Tenemos que ser servidores del pueblo, y no príncipes rodeados de sacerdotes trepas. Vivimos un cambio epocal, en que el nuevo pueblo construirá las nuevas formas de ser Iglesia. Y, lógicamente, para ello hay que atacar el clericalismo, que refleja la fe de las élites, y el sacerdotalismo, que fue lo que más perjudicó a Israel.

¿Ya le ha cogido el pulso a Lima?
Un poco. Sí, con temor y temblor (ríe). Porque creo que es una realidad compleja no solamente por el pasado, sino porque por sí misma es una sociedad muy desafiante y tenemos que imaginar mucho lo nuevo.

La experiencia que tenemos con los tres obispos, que somo párrocos, es que la conocemos con la gente sencilla. El diálogo es muy lindo; hay mucha apertura. Tú sabes que somos uno de los países más religiosos de América Latina y a su vez creemos que nos falta profundizar el sentido de de la evangelización, que está presente en el corazón de la religiosidad. El Papa me indicó mucho que descubriera que nuestros santos fueron profetas y que, más bien, dentro de ese profetismo hay una fuente inagotable de evangelio. Y que entonces, con cuidado, con respeto y con cariño, sepamos rescatar lo profético.

¿Alguna espina en sus comienzos como nuevo arzobispo de Lima?
Claro. Las rosas siempre llevan espinas.
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Fonte:  https://www.religiondigital.org/mundo/pasadista-Iglesia-claramente-llamada-fracasar-religion-sinodo-amazonia_0_2160683918.html