terça-feira, 28 de junho de 2011

Crise terminal do capitalismo?

Leonardo Boff*

 
Tenho sustentado que a crise atual do capitalismo é mais que conjuntural e estrutural. É terminal. Chegou ao fim o gênio do capitalismo de sempre adaptar-se a qualquer circunstância. Estou consciente de que são poucos que representam esta tese. No entanto, duas razões me levam a esta interpretação.
A primeira é a seguinte: a crise é terminal porque todos nós, mas particularmente, o capitalismo, encostamos nos limites da Terra. Ocupamos, depredando, todo o planeta, desfazendo seu sutil equilíbrio e exaurindo excessivamente seus bens e serviços a ponto de ele não conseguir, sozinho, repor o que lhes foi sequestrado. Já nos meados do século XIX Karl Marx escreveu profeticamente que a tendência do capital ia na direção de destruir as duas fontes de sua riqueza e reprodução: a natureza e o trabalho. É o que está ocorrendo.
A natureza, efetivamente, se encontra sob grave estresse, como nunca esteve antes, pelo menos no último século, abstraindo das 15 grandes dizimações que conheceu em sua história de mais de quatro bilhões de anos. Os eventos extremos verificáveis em todas as regiões e as mudanças climáticas tendendo a um crescente aquecimento global falam em favor da tese de Marx. Como o capitalismo vai se reproduzir sem a natureza? Deu com a cara num limite intransponível.
O trabalho está sendo por ele precarizado ou prescindido. Há grande desenvolvimento sem trabalho. O aparelho produtivo informatizado e robotizado produz mais e melhor, com quase nenhum trabalho. A consequência direta é o desemprego estrutural.
Milhões nunca mais vão ingressar no mundo do trabalho, sequer no exército de reserva. O trabalho, da dependência do capital, passou à prescindência. Na Espanha o desemprego atinge 20% no geral e 40% e entre os jovens. Em Portugal 12% no país e 30% entre os jovens. Isso significa grave crise social, assolando neste momento a Grécia. Sacrifica-se toda uma sociedade em nome de uma economia, feita não para atender as demandas humanas, mas para pagar a dívida com bancos e com o sistema financeiro. Marx tem razão: o trabalho explorado já não é mais fonte de riqueza. É a máquina.
A segunda razão está ligada à crise humanitária que o capitalismo está gerando. Antes se restringia aos países periféricos. Hoje é global e atingiu os países centrais. Não se pode resolver a questão econômica desmontando a sociedade. As vítimas, entrelaças por novas avenidas de comunicação, resistem, se rebelam e ameaçam a ordem vigente. Mais e mais pessoas, especialmente jovens, não estão aceitando a lógica perversa da economia política capitalista: a ditadura das finanças que via mercado submete os Estados aos seus interesses e o rentismo dos capitais especulativos que circulam de bolsas em bolsas, auferindo ganhos sem produzir absolutamente nada a não ser mais dinheiro para seus rentistas.
Mas foi o próprio sistema do capital que criou o veneno que o pode matar: ao exigir dos trabalhadores uma formação técnica cada vez mais aprimorada para estar à altura do crescimento acelerado e de maior competitividade, involuntariamente criou pessoas que pensam. Estas, lentamente, vão descobrindo a perversidade do sistema que esfola as pessoas em nome da acumulação meramente material, que se mostra sem coração ao exigir mais e mais eficiência a ponto de levar os trabalhadores ao estresse profundo, ao desespero e, não raro, ao suicídio, como ocorre em vários países e também no Brasil.
As ruas de vários países europeus e árabes, os “indignados” que enchem as praças de Espanha e da Grécia são manifestação de revolta contra o sistema político vigente a reboque do mercado e da lógica do capital. Os jovens espanhóis gritam: “não é crise, é ladroagem”. Os ladrões estão refestelados em Wall Street, no FMI e no Banco Central Europeu, quer dizer, são os sumossacerdotes do capital globalizado e explorador.
Ao agravar-se a crise, crescerão as multidões, pelo mundo afora, que não aguentam mais as consequências da superexploracão de suas vidas e da vida da Terra e se rebelam contra este sistema econômico que faz o que bem entende e que agora agoniza, não por envelhecimento, mas por força do veneno e das contradições que criou, castigando a Mãe Terra e penalizando a vida de seus filhos e filhas.
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* Leonardo Boff é teólogo e professor emérito de ética da UERJ.
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Nova economia aumenta risco de estresse

Recursos Humanos:
Para especialista, problemas psicossociais são causados
 por relações humanas
mais complexas no trabalho.

A substituição dos sistemas clássicos da industrialização por uma nova economia de serviços criou nos trabalhadores a necessidade de lidar com o público e atuar em equipe. A consequência disso é o aumento dos chamados riscos psicossociais no trabalho como estresse e assédio. Essa é a opinião do psicólogo espanhol Eusebio Rial González, chefe do observatório de risco da Agência Europeia para a Segurança e a Saúde no Trabalho.
De acordo com ele, os chefes precisam prestar atenção nos subordinados e encorajá-los a encontrar soluções para os seus problemas. "Achar que apenas os líderes sofrem com o estresse é um mito", afirma. No Brasil para participar de um congresso da International Stress Management Association (Isma-BR), em Porto Alegre, González concedeu ao Valor a seguinte entrevista:

Valor: O que são riscos psicossociais e quais os mais frequentes no trabalho?
Eusebio Rial González: São os riscos à saúde mental dos funcionários que podem surgir da maneira como o trabalho é determinado, gerenciado e organizado. Os principais são o estresse, a violência e o assédio. Eles são considerados "riscos emergentes", mas isso não significa que sejam novos. O fato é que hoje é dedicada mais atenção a esses problemas. Nas últimas décadas, os sistemas clássicos da industrialização foram substituídos por uma nova economia de serviços. Isso criou nos trabalhadores a necessidade de lidar com o público e atuar em equipe. A consequência disso é o aumento dos chamados riscos psicossociais, uma vez que as relações humanas no trabalho ficam cada vez mais complexas e interligadas. Além disso, muitas companhias reestruturaram e reduziram seus quadros, aumentaram sua dependência de práticas como terceirização, trabalho temporário e implementaram métodos como a produção enxuta. Essas estratégias visam aumentar os lucros e cortar os custos, mas também resultam na intensificação do trabalho e na preponderância de contratos precários, que levam à sensação crescente de insegurança no emprego.

Valor: Como esses riscos podem ser minimizados?
González: O líder precisa prestar atenção nos seus subordinados, perguntar a eles quais problemas estão enfrentando e encorajá-los a buscar soluções. Em todos os setores, e especialmente no de serviços, os trabalhadores são o melhor recurso de qualquer companhia. Isso se aplica particularmente às pequenas e médias empresas, pois elas têm uma capacidade menor de redistribuir o trabalho, de treinar novos funcionários e dependem mais das interações pessoais. Quando você perde um funcionário, pode também perder clientes.

Valor: Como o senhor vê esse problema em mercados emergentes como o do Brasil?
González: O Brasil se tornou um participante fundamental no cenário econômico mundial e acredito que ele trará uma conscientização renovada de que não podemos conduzir os negócios "como sempre". O crescimento de uma economia não pode ocorrer em detrimento de seu povo. A segurança e a saúde no trabalho podem, e devem, ter um papel importante no desenvolvimento de uma economia sustentável. Países como o Brasil estão certos por se preocuparem com a sustentabilidade de seus recursos naturais, por razões morais e econômicas. É preciso garantir que essa mesma preocupação exista, e pelas mesmas razões, para se conseguir uma "vida no trabalho sustentável". Caso contrário a economia e a força de trabalho irão florescer, mas também murchar rapidamente.

Valor: Quais níveis da força de trabalho estão mais vulneráveis aos riscos psicossociais?
González: Achar que apenas os líderes sofrem com o estresse é um mito. Esse é um problema que pode afetar qualquer um, independentemente de idade, raça, saúde, condição social, ocupação e setor. É claro que algumas pessoas são mais vulneráveis que outras, mas todos nós temos um ponto de ruptura. Um dos principais fatores de risco é o baixo controle sobre o trabalho. Ou seja, a falta de autonomia para decidir o que fazer, como e quando. E são exatamente os líderes que gozam de mais liberdade, poder, status e recursos para lidar com as demandas do trabalho. Portanto, o presidente-executivo de uma companhia de ônibus não sofre mais estresse que os motoristas. O que muda é o tipo e os fatores que provocam esse estresse.

Valor: Como as companhias vão lidar com os riscos psicossociais nos próximos anos? Elas estão cientes do tamanho do problema?
González: A preocupação está aumentando, mas ainda está longe do ideal, particularmente nas pequenas empresas - que na verdade são a grande maioria. E se elas não sabem que têm um problema, não tomam medidas para solucioná-lo. Quando os riscos psicossociais se tornam visíveis com altas taxas de absenteísmo, por exemplo, já é tarde demais para impedir danos às pessoas e à empresa. Os riscos vão crescer na medida em que o mercado continuar seguindo no rumo da terceirização e das "economias do conhecimento", ainda mais dependentes do bem-estar mental de seus trabalhadores. Grandes empresas que possuem recursos e interesse em detectar os tipos de riscos aos negócios, sejam eles financeiros, ambientais ou relacionados a questões de recursos humanos, estão dando muita atenção à prevenção e gerenciamento do estresse.

Valor: Investir na prevenção desse tipo de risco, então, é essencial para a sobrevivência dos negócios?
González: Cuidar da saúde e segurança dos trabalhadores é uma obrigação legal e um dever, mas não devemos nos esquecer de que isso também faz sentido do ponto e vista dos negócios. Cortar investimentos em saúde e itens ligados às pessoas é um erro pelo qual as companhias vão pagar. Talvez não imediatamente, mas no médio prazo, quando as empresas com equipes mais saudáveis e motivadas seguirão com seus negócios.
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Reportagem por Rafael Sigollo De São Paulo
Fonte: Valor Econômico on line, 27/06/2011

Oportunidade

Antonio Delfim Netto*

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Esse é um momento particularmente interessante para os economistas. A crise de 2007/09, que atingiu o sistema financeiro e interrompeu o "circuito econômico", já custou mais de 5% do PIB mundial e deixou desempregados mais de 30 milhões de honestos trabalhadores.
Ela mostrou as limitações dos nossos conhecimentos de como funciona, de fato, o sistema econômico. Mostrou, também, a precariedade do que parecia ser uma revolução científica: a construção da economia financeira, separada da macroeconomia, feita por pequenos economistas, supostos grandes matemáticos!
O economista é um cientista social que procura entender como funciona o mundo real (e não impor-lhe o que gostaria que ele fosse). Tenta encontrar algumas regularidades e organizar histórias plausíveis sobre elas. O resultado do seu trabalho deve ajudar a lubrificar o funcionamento das instituições que levam ao desenvolvimento sustentável com justiça social.
Os economistas estão diante de um novo e excitante momento
Nem toda atividade social é de interesse da economia, mas toda atividade econômica é de interesse social. O agente econômico é um animal mais complicado do que supúnhamos: aprende com uma racionalidade limitada inserido num universo de incertezas.
O individualismo metodológico e os agentes representativos que estão na base das nossas construções teóricas são insuficientes para entender o fenômeno das redes que dominam o universo social, da tendência à imitação dos agentes e da segurança que a norma lhes dá. Eles certamente movem-se por estímulos e interesses, mas num espaço social, numa rede na qual cada um é apenas um elemento, o que condiciona as suas escolhas.
A pobre discussão que envolveu a ideia de "Estado mínimo", por exemplo, era apenas uma ação ideologicamente motivada. Na verdade, não existe "mercado" sem um Estado capaz de garantir as condições de seu funcionamento. Numa larga medida, a forma de organização do sistema produtivo é ditada pelos que detêm o poder político e formulam a política econômica que serve aos seus interesses. A sua construção teórica e a formalização para justificá-la também são um produto ideológico.
Para entender isso, basta ver como a tomada do poder pelas finanças nos EUA levou a uma política econômica que lentamente erodiu a legislação que regulava suas atividades e fora produzida após a Grande Depressão. Muito rapidamente os "cientistas" produziram uma "ciência" que justificava a total desregulamentação da atividade financeira em nome da "eficiência" e da descoberta de "inovações" capazes de medir os "riscos": 1929 nunca mais!

"Os economistas estão diante
de um novo e excitante momento. 
(...) Precisam recuperar a história,
a geografia, a sociologia, a psicologia,
a antropologia e usar mais
modestamente a topologia..."

É preciso incorporar no DNA dos economistas a autonomia do político. Nas situações de conflitos irreconciliáveis, só o poder político pode arbitrar. Ainda que possamos ter sugestões interessantes sobre a flexibilidade do mercado de trabalho (o que não é muito claro do ponto de vista empírico), elas são, claramente, propostas "normativas" que produzem, inevitavelmente, "vencedores" e "perdedores". É um pouco ridículo sugerir aos últimos que devem sacrificar-se em nome de um "valor maior" construído sobre a base teórica discutível da Teoria do Equilíbrio Geral...
A economia precisa voltar a abrigar contribuições de todos os matizes teóricos e ideológicos, porque aqui, como na biologia, só a diversidade é fértil. Essa é uma velha tradição da FEA/USP. Apenas para recordar. Nos idos de 1947, o ilustre professor Paul Hugon nos ensinava - na cadeira de economia política - que a moeda era "qualquer coisa" aceita pela sociedade com as qualidades de ser uma unidade de conta, de resgatar compromissos e capaz de ser reserva de valor. Era apenas um véu que escondia a economia real.
Ao mesmo tempo, o não menos ilustre professor Heraldo Barbuy - na cadeira de sociologia - nos "enriquecia", inspirado em George Simmel, ao mostrar que a coisa não era tão simples! A moeda era sim produto de uma convenção social, mas tinha profunda influência no comportamento humano, como a cupidez, a avareza e a prodigalidade e exercia profunda influência sobre a economia real. A ideia de uma moeda neutra, apenas um "véu" facilitador das trocas, era uma "imbecilidade".
Os economistas estão diante de um novo e excitante momento. Precisam aproveitar as novas oportunidades que se abrem à profissão para renovar o trabalho mais modesto de oferecer instrumentos para a boa governança dos Estados e a melhor alocação dos seus recursos. Precisam recuperar a história, a geografia, a sociologia, a psicologia, a antropologia e usar mais modestamente a topologia...
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* Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

E-mail contatodelfimnetto@terra.com.br
Fonte: http://www.valoronline.com.br/impresso/brasil/97/447307/oportunidade

Os crente e a elite cultural: o paradoxo da diversidade

Newton Cannito*

A elite cultural brasileira não gosta dos “crentes”. Afinal eles não são o “brasileiro tipico” do imaginário cultural brasileiro. Crente não leu Gilberto Freyre.
Para a elite cultural o brasileiro tipico seria: alegre, malandrinho, meio músico, curte samba ou funk e a mulher é gostosa e trepa bem.
A elite cultural queria que o pobre fosse a imagem do pretinho alegre da escravidão. Mas para tristeza da elite os pobres estão é virando crente mesmo.
A elite adora diversidade cultural e o crente não curte tudo.
Para a elite umbanda é “uma cultura linda”. Para um crente a umbanda é magia mesmo. Crente acredita em umbanda, a elite acha uma tradição super bonita e que tem músicas ótimas.
Para a elite o pobre ideal é tropicália: ele circula, é diverso, tem contato com a cultura popular e de preferência tem sexualidade ambígua e libertária.
A elite gosta de pobre com estilo. Pobre sem estilo é chato.
O trabalho ideal para o pobre é a cultura. Fazer arte para se distrair e nos divertir. Se fizer isso a gente contrata.
No ponto de vista da elite “crente é chato” . Afinal ele não usa roupa colorida, não é uma maquina de sensualidade e nem esta disponível sexualmente para o patrão.
A elite cultural defende a diversidade cultural em tudo. Exceto com crente. Com eles não vale, pois “eles são chatos, feios, sem graça. E anti-diversidade”.
Parodoxo da diversidade: a diversidade tem que estar presente em todos? Ou a diversidade inclui pessoas que não querem a diversidade dentro de si?
A diversidade cultural deve incluir pessoas anti-diversidade?
Tem sentido alguém como eu, que gosta da diversidade, querer impor a diversidade a quem não quer ter a diversidade na sua vida? Impor diversidade, não seria contradição em si?
Ter preconceito com quem não é a favor da diversidade não seria uma atitude que contraria aos princípios da diversidade?
Ou seria melhor eu entender que quem não gosta da diversidade, ajudará a compor um panorama diversificado de cultura?
Uma coisa é fato: já é hora da elite cultural parar de ter preconceito com os “crentes”, parar de chamar eles de “crentes” e ver que sob o título genérico e preconceituoso de “crente” existe, na verdade, uma vasta gama de diversidade religiosa popular que – no mínimo – expressa necessidades culturais e espirituais de nosso povo. No mínimo.
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* Newton Cannito http://www.doutorcaneta.blogspot.com
Cineasta e escritor. Foi Secretario do Audiovisual do Ministério da Cultura.
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Neuroimagem revela alterações no cérebro de pacientes obesos

Áreas têm padrões diferentes de funcionamento

quando comparadas às de indivíduos magros

 
Pesquisa realizada no Laboratório de Sinalização Celular (Labsincel), da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, revela que algumas áreas do cérebro de pacientes obesos – sobretudo o hipotálamo, região envolvida no controle da fome e do gasto energético –, apresentam padrões distintos de funcionamento se comparadas às de indivíduos magros. Os resultados, referentes à pesquisa de doutoramento da aluna Simone van de Sande-Lee, foram publicados na conceituada revista norte-americana Diabetes. A descrição é inédita na literatura. O estudo foi realizado sob a orientação do professor Lício Augusto Velloso, do Departamento de Clínica Médica, e coorientado pelos docentes Fernando Cendes e Li Li Min, do Departamento de Neurologia.
Até algum tempo atrás, não se pensava em cérebro quando se falava em obesidade. Mas, nos últimos 15 anos, as pesquisas vêm mostrando que os caminhos que levam ao desenvolvimento da doença são, na verdade, bem mais complexos do que se imaginava e que, neles, o sistema nervoso central tem um papel fundamental. “O nosso conhecimento a esse respeito cresceu de tal forma que hoje nós acreditamos que a obesidade decorra, principalmente, de algum erro no processamento de informações que chegam ao sistema nervoso central”, explica Velloso.
Um dos hormônios centrais nesse processo é a leptina, produzido no tecido adiposo, e responsável por levar ao Sistema Nervoso Central a informação sobre a quantidade de energia que está sendo estocada. Quando essa comunicação fica comprometida, torna-se cada vez mais difícil controlar a ingestão de alimentos e o gasto de energia.
Segundo o pesquisador, entender que o cérebro passa a responder inadequadamente à leptina, tornando-se resistente a ela, porque ele está de certa forma lesado por uma inflamação, foi um avanço importante. “E essa inflamação é causada, principalmente, por um dos componentes da nossa alimentação: os ácidos graxos saturados, ou seja, as gorduras saturadas encontradas, por exemplo, na carne vermelha e no leite”, destaca, relembrando estudos anteriores do laboratório que abriram novas frentes de análise para os estudos na área.
Em 2009, as pesquisadoras Marciane Milanski e Juliana Contin Moraes publicaram, sob a orientação de Velloso, dois artigos nos quais revelavam a influência dos ácidos graxos no funcionamento do hipotálamo de animais. Os estudos mostraram que as gorduras saturadas possuem propriedades moleculares que, ao ativar uma resposta inflamatória no hipotálamo, causam uma disfunção que, por sua vez, abre caminho para obesidade. Uma vez inflamado, o hipotálamo perde parte de suas funções, permitindo, assim, que ocorra um desequilíbrio entre a ingestão de alimentos e o gasto de energia e, quando prolongado, esse processo inflamatório pode levar à morte de neurônios – processo chamado de apoptose – que têm função central no controle do peso.
Na opinião do professor Lício Velloso, a pesquisa feita por Simone van de Sande-Lee ajuda a elucidar aspectos importantes para a compreensão dos mecanismos que le vam ao desenvolvimento da obesidade, contribuindo com futuras pesquisas sobre o tratamento da doença. “Esse estudo é o primeiro passo na tentativa de se entender se os padrões que verificamos em modelos animais também podem ser encontrados em humanos e, simultaneamente, observar se é possível algum tipo de reversão nesse processo inflamatório”, aponta Velloso. “É o primeiro indício de que existe em humanos uma alteração funcional no hipotálamo e que, em pacientes obesos que perderam peso, isso se reverte parcialmente. É importante porque deixa claro que o alvo para se tratar a obesidade é mesmo o Sistema Nervoso Central, o que abre novas perspectivas terapêuticas, como o desenvolvimento de novas drogas, por exemplo”, enfatiza.
Perda de peso

O estudo buscou entender de que forma a perda de peso poderia se relacionar com a funcionalidade do hipotálamo em pacientes obesos. Para tal, foram selecionados 13 pacientes com obesidade mórbida – que seriam submetidos à cirurgia bariátrica no Hospital de Clínicas da Unicamp, e 8 indivíduos magros, utilizados como grupo controle.
O foco da pesquisa não estava nos efeitos da cirurgia em si, mas nos altos índices de perda de peso por ela proporcionados. “Nós escolhemos pacientes que seriam submetidos à cirurgia bariátrica porque nós queríamos observar possíveis modificações no padrão funcional que porventura viessem a ocorrer após perdas massivas de peso. E a perda proporcionada pela cirurgia gira em torno de 30% a 40% do peso inicial. Assim foi possível observar as diferenças de atividade cerebral no mesmo grupo de pacientes em dois momentos distintos, inicialmente muito obesos e depois significativamente mais magros”, explica Simone van de Sande-Lee.
Como os estudos em humanos são diferentes dos realizados em modelos animais – pois não é possível avaliar diretamente o hipotálamo, região nobre e de difícil acesso no cérebro –, os pesquisadores precisaram recorrer a métodos indiretos que pudessem de alguma forma avaliar possíveis alterações na funcionalidade cerebral e optaram por estudar imagens de ressonância magnética funcional (RMf), obtidas antes e depois de os pacientes passarem pela cirurgia bariátrica.
As imagens obtidas pelo método funcional são diferentes das disponibilizadas pela ressonância magnética convencional (RM). Isso porque, ao contrário das imagens convencionais, estáticas e congeladas no tempo – tradicionalmente utilizadas para se estudar alterações morfológicas no cérebro, como tumores, por exemplo – as imagens obtidas pela ressonância magnética funcional (RMf) são sequenciais. Por meio de um número bem maior de imagens, obtidas ao longo do tempo e em diferentes momentos, é possível montar algo parecido com um filme do cérebro em atividade e, assim, observar sua funcionalidade.
“As imagens revelaram que existe uma diferença nos padrões de atividade em algumas regiões do cérebro, principalmente no hipotálamo, entre indivíduos obesos e magros. Além disso, verificamos que após a perda de peso, os pacientes passaram a apresentar um padrão funcional mais próximo ao dos indivíduos magros”, ressalta Simone van de Sande-Lee. “Nós não sabemos até que ponto essa alteração pode ser revertida porque os pacientes não atingiram um peso semelhante ao dos magros. Nós não sabemos o que aconteceria se eles perdessem mais peso, se a reversão poderia ser completa. Este talvez seja um dos possíveis caminhos a serem seguidos mais adiante”, aponta a autora.
Para avaliar o funcionamento do cérebro durante a captação das imagens, os pacientes foram estimulados com glicose. Logo após a ingestão do nutriente a atividade neuronal cresceu rapidamente em todos os grupos (magros, obesos antes e depois da cirurgia), mas, depois de algum tempo, padrões distintos foram observados.
“Nós observamos que a atividade neuronal do obeso, antes da cirurgia, logo cai; a do magro, se mantém estável; e a do obeso, depois da cirurgia, fica entre esses dois padrões. A interpretação mais plausível para esses dados é a de que no período subsequente ao estímulo com glicose, ou seja, um estímulo que mimetiza ou reproduz a alimentação, o indivíduo magro mantém a atividade neuronal, como se ele estivesse com a sensação de saciedade; o obeso antes da cirurgia, perde-a rapidamente, e volta a ter fome num período curto de tempo; e o paciente que perdeu peso, massivamente, apresenta uma atividade intermediária. Ele recupera parcialmente esse controle sobre a saciedade”, descreve Velloso.

Citocinas

Além da ressonância magnética funcional, foi utilizada ainda a análise do líquido cefalorraquidiano (LCR), coletado também antes e depois da cirurgia bariátrica, a fim de verificar a concentração de citocinas e outros marcadores de inflamação. As citocinas, que podem ser classificadas como pró-inflamatórias e anti-inflamatórias, são substâncias produzidas pelo sistema imune e têm a função de participar tanto da indução como do controle de um processo inflamatório.
“O objetivo inicial da pesquisa era encontrar evidências do processo inflamatório que já havia sido observado em modelos animais, mas em razão dos métodos disponíveis atualmente, não foi possível detectar a presença de citocinas pró-inflamatórias. Mas nós encontramos um aumento de citocinas anti-inflamatórias após a perda de peso, o que sugere que existia inflamação no sistema nervoso central anteriormente”, assinala a pesquisadora Simone van de Sande-Lee.

Diabetes

Segundo Velloso, a pesquisa realizada por Simone van de Sande-Lee é importante ainda porque abre caminho para novas perspectivas e frentes de análise também em relação ao diabetes. “Sabemos que o hipotálamo também tem um papel central no metabolismo de glicose. Um dos próximos passos seria observar, por exemplo, se há diferenças no padrão de funcionamento do hipotálamo entre pacientes obesos diabéticos e pacientes obesos não diabéticos”, adianta. Dados internacionais demonstram que a principal causa de diabetes no mundo é obesidade. Cerca de 80% das pessoas que têm diabetes tipo 2 desenvolvem a doença em decorrência da obesidade.
Um dos principais problemas de saúde pública da atualidade, a obesidade traz consigo, além de repercussões sociais e psicológicas, uma série de outras doenças como hipertensão, aterosclerose, doenças hepáticas e pulmonares, e alguns tipos de câncer, como os de fígado, estômago e esôfago, por exemplo. Para entender um pouco mais sobre este assunto, assista à palestra Obesidade em 3 atos, proferida pelo professor Lício Augusto Velloso no projeto “Aulas Magistrais” disponível no link no site da Pró-Reitoria de Graduação (PRG) da Unicamp.
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■ Publicação
Simone van de Sande-Lee, Fabrício R. S. Pereira, Dennys E. Cintra, Paula T. Fernandes, Adilson R. Cardoso, Célia R. Garlipp, Eliton A. Chaim, Jose C. Pareja, Bruno Geloneze, Li Min Li, Fernando Cendes, Licio A. Velloso. “Partial reversibility of hypothalamic dysfunction and changes in brain activity following body mass reduction in obese subjects”. Diabetes 60: 1699, 2011.
Financiamento: Fapesp
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Reportagem por CRISTIANE PAIÃO Especial para o JU
Fonte: http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/junho2011/ju499_pag3.php

O mapa do amor

Neurocientista explica a mente apaixonada
a partir de estudos de
imagens do cérebro

No recém-lançado "Sobre Neurônios, Cérebros e Pessoas" (Atheneu), o médico e neurocientista carioca Roberto Lent, 62, fala sobre descobertas da neurociência em uma língua que todo mundo entende. Nesta entrevista à Folha, ele explica como a desativação de certas partes do cérebro comprovam que o amor é cego e o ser apaixonado, louco.

Folha - O que é o amor do ponto de vista da neurociência?
Roberto Lent - É uma invasão de dopamina que ativa os centros de recompensa do cérebro e produz prazer.
Então age como uma droga?
O mecanismo [no cérebro] é parecido, mas não é igual.
Qual a diferença?
Para cada tipo de prazer, as reações corporais e mentais são diferentes em quantidade e em qualidade.
Quais são as reações ativadas pelo amor?
Do arrepio ao orgasmo, passando pelos intermediários. Você pode corar, suar, ofegar, o coração bate mais rápido. E você exerce os comportamentos de cortejar, se exibe para a pessoa amada.

Essas reações também acontecem quando você está com medo. Significa que ativamos os mesmos circuitos do amor?
Não sabemos com precisão, mas, como são muitas combinações [de circuitos cerebrais], um certo arranjo significa amor, outro medo.
Segundo o pesquisador português Antônio Damásio, cada emoção tem uma combinação do que ele chama de marcadores somáticos. Quando você tem de novo a exata combinação, produz o mesmo sentimento. No caso do amor, fica marcada em seu cérebro uma combinação de circuitos e reações que é ativada quando você encontra a pessoa amada, vê uma foto dela ou apenas pensa nela.

A expressão "o amor é cego"
reflete a percepção dessa desativação
 do lobo frontal descoberta
pela ciência
É possível saber qual é essa combinação do amor?
Com estudos usando ressonância magnética funcional, que mostra imagens do cérebro em atividade, conseguimos fazer uma espécie de mapa de regiões que são ativadas em situações relacionadas ao amor.
Qual é o mapa da mina?
As principais regiões ativadas são a ínsula e o núcleo acumbente. Mas a grande descoberta foi que, ao mesmo tempo em que há ativação dessas regiões, outras áreas são desativadas no lobo frontal do cérebro.
As regiões frontais são associadas ao raciocínio, à busca das ações mais adequadas. Desativar essas regiões significa perder o controle. Na paixão, a pessoa deixa de levar em conta certas contingências sociais e faz coisas meio malucas. A expressão "o amor é cego" reflete a percepção dessa desativação do lobo frontal descoberta pela ciência
As condições culturais podem modificar esses circuitos?
Não creio. Os circuitos são os mesmos, mas as regras mudam. Mas não temos resposta para isso.
Há diferença entre os circuitos do amor e do desejo sexual?
Cada pergunta difícil que você faz... Existe uma sobreposição entre o mapa cerebral da paixão e o do sexo. Mas, como nossa experiência diz que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, certamente existem diferenças entre esses dois mapas.
Somos programados para amar?
Sem dúvida. Animais são programados para reproduzir, mas não podemos dizer que se amam. No nosso caso, há um ingrediente a mais, que é a experiência subjetiva. A função do amor é aproximar pessoas, inclusive aproximações improváveis: como o amor é cego, você pode amar pessoas que normalmente são rejeitadas por outros. Sempre haverá um certo alguém para outro alguém. Sim, significa que mais pessoas vão se juntar. Já pensou se só se aproximassem entre si pessoas loiras de olhos azuis? Seria desfavorável e desagradável para a espécie.

SOBRE NEURÔNIOS, CÉREBROS E PESSOAS
Roberto Lent
EDITORA Atheneu
PREÇO R$ 57, 272 págs
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Reportagem por IARA BIDERMAN DE SÃO PAULO
Fonte: Folha on line, 28/06/2011

Em defesa da chatice

JOÃO PEREIRA COUTINHO*
Imagem da Internet - Geert Wilders
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Uma sociedade que não tolera palavras fortes
 será sempre uma comunidade
de cidadãos fracos
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A SUÍÇA é chata. Diz a sabedoria popular. E acrescenta, com horror: um país que só produz relógios e chocolates não pode ser excitante.
Podemos sempre replicar: depende dos relógios e depende dos chocolates. Sem falar dos queijos. Já provou, leitor?
Mas não contesto. Chata, sim, chatíssima, sobretudo se a compararmos com lugares mais animados -a Somália, por exemplo.
Talvez por isso eu goste tanto dela. É um princípio pessoal: só viveria em países onde ninguém se intromete na vida de ninguém. Esse vício tem nome: liberdade. E muitos procuraram liberdade na chatíssima Suíça, lugar de exílio, labor e inspiração para incontáveis fantasmas.
Jorge Luis Borges morreu há 25 anos nesta mesma cidade de Genebra, onde estou. Ignazio Silone passou por cá. Charles Chaplin também viveu por estas bandas.
O norte da Europa, globalmente considerado, sempre foi isso: a última paragem dos renegados. Enquanto o sul perseguia ou queimava judeus, heréticos vários, livres pensadores políticos, o norte recebia-os. E tolerava-os. Sem os condenar.
Por isso que acompanhei com interesse o julgamento do parlamentar holandês Geert Wilders, aqui ao lado, em Amsterdã. Não por causa de Wilders, personagem que me é indiferente e um pouco repulsivo.
O que me interessava saber era se, em 2011, o norte da Europa continuava a ser esse espaço bem chato de liberdade e tolerância, onde é possível dizer as maiores barbaridades sem sentir o chicote da censura. Questão pessoal: eu posso um dia precisar desse espaço.
Mas relembremos o filme: Geert Wilders não é figura "consensual", como se diz. "Populista", "provocador", "fascista", "boçal" -os adjetivos e polêmicas abundam.
Tudo porque Wilders, em filmes ou discursos, gosta de descer o pau no Islã.
Diz ele: "O Islã é uma religião de violência e guerra". Diz mais: "O Alcorão é comparável ao "Mein Kampf", a autobiografia programática de Hitler e do nazismo". Diz ainda: "A Europa deve proteger o seu espaço público, evitando a "islamização" que é imposta por uma imigração muçulmana sem controle".
Pergunta sacramental: Geert Wilders tem razão no que diz?
Responder a essa questão é começar pelo lado errado.
Sim, aqui entre nós, que ninguém nos ouça, é possível desmontar cada um dos argumentos radicais do homem.
Reduzir a religião islâmica a sua dimensão bélica é um erro grosseiro e tão fundamentalista como as leituras fundamentalistas dos mais fundamentalistas. Comparar o Alcorão ao "Mein Kampf" é não entender a natureza histórica, filosófica e rácica do nazismo.
E, sobre os perigos da imigração muçulmana, não é possível misturar a vasta maioria de muçulmanos que procura na Europa um porto de abrigo com as franjas mais perigosas e radicais -que existem e persistem, e que são um perigo verdadeiro para o Ocidente.
Mas tudo isso é secundário. Porque o problema principal é saber se Geert Wilders tem o direito de expressar opiniões fortes, desagradáveis e até equivocadas.
Aliás, não apenas a Wilders; a dúvida é extensível a todos aqueles que, antes dele e seguramente depois dele, navegaram e continuarão a navegar as mesmas águas: as águas da blasfêmia e da heresia.
O tribunal de Amsterdã não teve dúvidas: as palavras de Wilders podem ser fortes. Mas uma sociedade que não tolera palavras fortes será uma comunidade de cidadãos fracos: de gente que acabará por impor uma mordaça mental, em nome de sensibilidades particulares políticas, religiosas, morais.
A absolvição de Geert Wilders não é apenas uma vitória para ele ou para a "liberdade de expressão".
É uma vitória para a Europa ou para uma certa Europa que, depois de guerras longas motivadas por diferentes concepções religiosas, entendeu que a única forma de garantir um "modo de vida" comum passava por não perseguir as diferentes "paixões" em confronto.
Wilders não gosta do Islã. Muitos muçulmanos não gostam de Wilders. Não é grave. Grave seria se o impasse só pudesse ser quebrado pela morte de uma das partes.
Chamem-me antiquado, mas eu prefiro a chatice do impasse a qualquer excitação sanguinária.
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* Jornalista português. Colunista da Folha
Fonte: Folha on line, 28/06/2011

Pode ser que haja um vírus na carne ligado ao câncer

ENTREVISTA HARALD ZUR HAUSEN
ALEMÃO NOBEL DE MEDICINA DE 2008 SUGERE QUE
PARASITA TAMBÉM CAUSA
TUMORES DE INTESTINO
Thomas Kienzle - 6.out.2008/ Associated Press
Harald zur Hausen, que ganhou o nobel de medicina
pela sua descoberta ligando o HPV ao câncer cervical

 
Um dos premiados com o Nobel de Medicina em 2008, o infectologista alemão Harald zur Hausen, investiga agora a possibilidade de alguns tumores de colón, de pulmão em não fumantes e de mama também estarem relacionados a um vírus.
Para ele, um vírus da família do poliomavírus, presente em animais, especialmente nos bovinos, tem potencial de provocar infecções que podem desencadear o câncer. Segundo ele, em geral, o processo de cozimento ou fritura da carne não é capaz de destruir o vírus. Ele diz que as pesquisas que tentam estabelecer essa relação ainda estão em fase inicial, mas aconselha que as pessoas reduzam o consumo de carne de boi.
Em entrevista exclusiva à Folha, Hausen disse que as infecções provocadas por vírus, bactérias e parasitas já respondem por 21% dos casos de câncer no mundo.
Hausen tornou-se mundialmente conhecido por suas pesquisas relacionando o HPV (papilomavírus humano) com o câncer cervical. Foi a partir desses estudos que farmacêuticas desenvolveram a vacina contra o HPV.
Hausen e outros 22 cientistas premiados com o Nobel participam desde ontem de um encontro em Lindau, uma cidadezinha no sul da Alemanha, com 580 jovens cientistas de todo o mundo. O objetivo é a troca de experiências. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Folha - Como foi que começou o seu interesse na relação entre as viroses e o câncer?
Harald zur Hausen - Quando me tornei doutor, em 1960, o papel das viroses nos cânceres humanos ainda era desconhecido. Na década de 80, eu já estava convencido de que o HPV estava presente na maioria dos cânceres cervicais. Mas, na época, a indústria farmacêutica não acreditou que a imunização poderia ser lucrativa. Na verdade, as pessoas ainda estavam céticas sobre o papel do HPV no câncer.

A vacina do HPV, além de cara, é controversa. No Brasil, por exemplo, só está disponível na rede privada porque o governo não está convencido da relação custo-beneficio. O que pensa sobre isso?
Estou convencido de que a vacina pode proteger meninas e meninas de futuros cânceres. Hoje já se sabe que, além do câncer cervical, o HPV também está relacionado com o câncer de pênis, de ânus e, cada vez mais, com os tumores de cabeça e pescoço. Embora os estudos não tenham envolvido esses tumores, faz sentido pensar que a vacina possa funcionar com eles também.

Quais outros tipos de câncer podem ser provocados por vírus ou bactérias?
As infecções provocadas por vírus, bactérias e parasitas já respondem por 21% dos casos de câncer no mundo. A bactéria Helicobater pylori, por exemplo, é responsável pela maior parte dos casos de câncer gástrico e pode ser tratada com antibióticos.

"Até agora, seis diferentes tipos de poliomaviroses
já foram identificados em humanos,
mas apenas um deles também
está presente no gado."

O senhor lidera agora outra pesquisa polêmica, que tenta ligar o câncer a um tipo de vírus presente na carne bovina. Essa associação já está clara?
Há um grande número de estudos relacionando o aumento do câncer colorretal ao alto consumo de carne vermelha. Frequentemente, responsabiliza-se os agentes carcinogênicos originados pelo processo de cozimento, de fritura ou mesmo quando o alimento é assado. Mas já sabemos que essas substâncias são produzidas no preparo de peixes e aves. Não dispomos de provas da relação entre o consumo a longo prazo de peixe ou aves e o surgimento do câncer. Já para a carne bovina há fortes evidências. Então tem alguma coisa a mais.

E essa coisa a mais seria um vírus?
Nossa hipótese é que haja na carne bovina um vírus que talvez esteja relacionado ao câncer colorretal e também a tumores de pulmão em não fumantes e de mama. Mas as evidências parecem ser mais fortes no câncer de colón. Nos países árabes, onde se consome mais carne de ovelha e de cabrito, a prevalência do câncer de colón é baixa. Na Índia, quase não há câncer de colón. E no Japão e na Coreia, onde a carne se transformou em um prato popular apenas no século passado, está havendo um aumento do casos.

Que vírus é esse? Ele resiste ao calor do cozimento?
O vírus da família do poliomavírus, presente no gado, mas que normalmente não causa câncer em animais, resiste ao calor do cozimento e já foi encontrado em humanos. Até agora, seis diferentes tipos de poliomaviroses já foram identificados em humanos, mas apenas um deles também está presente no gado. Estou me dedicando à busca dessa resposta, mas ainda há muito caminho a percorrer.

E o que o recomenda às pessoas?
Que reduzam o consumo de carne vermelha. Aliás, essa é uma recomendação que já vem sendo feita mesmo antes dessa relação.

RAIO X
HARALD ZUR HAUSEN
NASCIMENTO
11 de março de 1936 em Gelsenkirchen (Alemanha)
FORMAÇÃO
Graduação em medicina nas universidades de Bonn, Hamburgo e Düsseldorf
NOBEL
Vencedor do prêmio em 2008, junto com os franceses Luc Montagnier e Françoise Barré-Sinoussi, por demonstrar que vírus também podem causar câncer
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Reportagem por CLÁUDIA COLLUCCI ENVIADA ESPECIAL A LINDAU (ALEMANHA)
Fonte: Folha on line, 28/09/2011

Onde mora a inteligência

RUBEM ALVES*
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Eu sabia que a fórmula de "x"
 não havia caído dos céus;
ela aparecera depois de
uma longa travessia
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RETORNO AO lugar onde parei, na Escola da Ponte, em Portugal. A menina que me levava me havia dito umas coisas que me espantaram por não combinarem com aquilo que eu pensava saber sobre as escolas. Foi então que me veio à cabeça a sabedoria do Riobaldo: "O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia". Sem intenção consciente, o dito do Riobaldo passou por uma transformação pedagógica e virou "a inteligência não está na saída nem na chegada, ela se dispõe para a gente é no meio da travessia". A inteligência acontece no "estar indo". Quando ela não está indo, ela está dormindo...
Lembrei-me dos meus anos de ginásio, a pedagogia que os professores usavam naqueles tempos, e não sei se as coisas mudaram, porque o hábito tem um poder muito grande... Pois os professores me ensinaram as coisas que estavam na chegada, mas não me contaram como foi que a travessia tinha sido feita.
O professor entrou em sala e anunciou: equação do segundo grau. Aí, ele se pôs a falar e a escrever símbolos no quadro negro. Aprendi automaticamente, sem entender, porque tinha memória boa: "x = -b + ou - raiz quadrada de b2 - 4ac sobre 2a". Lembro-me de um colega que não havia entendido a coisa, estava perturbado com o símbolo "x" e veio me perguntar: "Afinal, qual é mesmo o valor de "x"?
Eu sabia que a fórmula para se determinar o valor de "x" não havia caído dos céus. Ela aparecera na cabeça de algum matemático que a deduzira séculos atrás depois de uma longa travessia numa jangada feita de pensamentos. O dito matemático a descobriu porque seus pensamentos estavam infelizes. "Ostra feliz não faz pérola". O que é dor para a ostra é uma interrogação para a cabeça.

"Pensar é como escalar montanhas.
Um alpinista recusaria o caminho rápido e
seguro de chegar ao topo
da montanha via helicóptero,
sem sofrer e sem suar."

Mas por onde o pensamento matemático navegou para fazer a travessia, isso o professor não ensinou. É possível que ele não soubesse, ou que achasse que isso não importava. Para que entender a gravidez se o nenê já nasceu? O que importa é comer o bolo e não saber a receita...
Me ensinaram também as três leis dos movimentos dos planetas que Kepler descobriu, curtinhas, fáceis de guardar na memória. Mas essas três leis na minha memória em nada contribuíram para dar poder à minha inteligência. Enquanto a memória trabalhava para decorar a "chegada", minha inteligência dormia. Nada me contaram sobre os caminhos fascinantes por onde errou o pensamento do astrônomo por dezoito anos. Uma hipótese errada atrás da outra, um caminho que não levava a lugar algum depois do outro. Por que gastar tempo com os erros da "travessia", se se pode ir diretamente à "chegada", conclusão? Não se percebe que, ao assim proceder, o aluno ganha uma memória musculosa e uma inteligência flácida...
Pensar é como escalar montanhas. Um alpinista recusaria o caminho rápido e seguro de chegar ao topo da montanha via helicóptero, sem sofrer e sem suar. Onde está a graça? O que ele deseja são os medos, os calafrios, os desafios da montanha, o que ele vê enquanto sobe... A arte de pensar se ensina fazendo a inteligência seguir o caminho da travessia, com todos os seus erros e enganos.
PS: Se você ficou curioso sobre a história da equação de segundo grau, consulte o Google.
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*Teólogo. Escritor.
Fonte: Folha on line, 28/06/2011

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O século XXI e seus profetas

Montserrat Martins*

Imagem da Internet
Os cientistas sociais e políticos já identificaram o fenômeno: movimentos sociais novos que se formam e difundem rapidamente, expressando as mais variadas questões cidadãs, absolutamente fora da iniciativa ou do controle dos partidos ou forças políticas organizadas. Um detalhe: não estamos falando apenas do Brasil, mas do mundo inteiro.
Evidencia-se que os partidos políticos, sem exceção, não acompanharam a velocidade das transformações sociais, perderam a capacidade de se colocar na “vanguarda” de tais movimentos. Não se identificam forças políticas que tenham organizado tais movimentos nem nas marchas em curso no Brasil, muito menos nas revoltas dos países árabes ou em protestos na Espanha.
Poderíamos nos acomodar com explicações tecnológicas da “Era da Informação”, fascinados com o fenômeno da internet por exemplo. Mas ficaria faltando explicarmos o absoluto desinteresse desses jovens pela política partidária, por mais que os novos políticos se apropriem desse instrumento, como fez Obama na campanha que surpreendeu os americanos mais conservadores.
O que falta ser dito é que não basta os partidos se atualizarem, seria necessário que os jovens acreditassem neles como instrumentos de transformação social. Existe uma “memória acumulada” da civilização e ela depõe contra os políticos, os partidos e as doutrinas mais conhecidas, como assassinos de sonhos e traidores de ideais, burocratas que usam seus povos como “massa de manobra” para suas aspirações ao poder.
Os jovens estão mais desiludidos, são mais desconfiados em relação às instituições. Não querem se deixar levar por bandeiras que não tenham partido deles, não querem consagrar líderes que depois de conquistar o poder no “establishment” se esqueçam ou, pior, se voltem contra eles.
Exemplos na História não faltam. Numa carta de Proudhon a Marx, em 1846, esse profetiza o risco da distorção do movimento socialista. Proudhon, como que antecipando o stalinismo, propõe que “iniciemos sim uma boa e leal polêmica; tentemos dar ao mundo um exemplo de tolerância sábia e perspicaz, mas não nos transformemos, pelo simples fato de que somos os líderes de um movimento, em líderes de uma nova forma de intolerância; não posemos de apóstolos de uma nova religião, mesmo que seja a religião da lógica e da razão”. Marx descartou essa e outras preocupações de Proudhon como as de um “pequeno burguês”, rótulo que ainda “cola” naquele entre as esquerdas tradicionais, até hoje. Poucos cientistas políticos se aprofundaram no estudo dos debates entre os dois, como fez F.C. Prestes Motta em “Burocracia e Autogestão”, obra que não é a favor de um nem de outro, mas uma busca por decifrar as questões sociais em sua relação com a economia política.
George Orwell em “1984”, Aldous Huxley em “Admirável Mundo Novo” e mesmo José Lutzemberger no seu Manifesto Ecológico (de 1970) profetizaram o mundo do século XXI, da “sociedade de massas” dominada por sistemas burocráticos voltados para o controle político da população, não para as necessidades reais desta. Paul Singer nos explica que a China e a Rússia não seriam consideradas por Marx como socialistas mas sim como um Capitalismo de Estado, onde a ausência da burguesia fez com que o Estado assumisse o papel de industrialização (de economias feudais) e de patrão dos trabalhadores, a burocracia estatal.
Nem Marx, nem Freud (fetiches dos intelectuais no século XX) ou a soma dos dois tem respostas para o século XXI. Não é novidade, mas precisa ser dito com todas as letras que fracassaram as fórmulas prontas. Outro profeta do estado atual de coisas, Rollo May, já antecipava em “A Coragem de Criar” o descrédito nos valores tradicionais e o vazio de alternativas. Como as teorias pré-prontas não satisfazem mais, teremos de ter a coragem de criar novas formas de pensar o mundo, desafio do qual não podemos fugir.
(EcoDebate)
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* Montserrat Martins, colunista do EcoDebate, é Psiquiatra.
Fonte: http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo 27/06/2011

Quatro mentiras sobre o ambiente

Eduardo Galeano*

A civilização que confunde os
relógios com o tempo,
o crescimento com o desenvolvimento,
 e o grandalhão com a grandeza,
também confunde
a natureza com a paisagem

Quatro frases que aumentam o nariz do Pinóquio


1- Somos todos culpados pela ruína do planeta.
A saúde do mundo está feito um caco. “Somos todos responsáveis”, clamam as vozes do alarme universal, e a generalização absolve: se somos todos responsáveis, ninguém é. Como coelhos, reproduzem-se os novos tecnocratas do meio ambiente. É a maior taxa de natalidade do mundo: os experts geram experts e mais experts que se ocupam de envolver o tema com o papel celofane da ambiguidade.
Eles fabricam a brumosa linguagem das exortações ao “sacrifício de todos” nas declarações dos governos e nos solenes acordos internacionais que ninguém cumpre. Estas cataratas de palavras – inundação que ameaça se converter em uma catástrofe ecológica comparável ao buraco na camada de ozônio – não se desencadeiam gratuitamente. A linguagem oficial asfixia a realidade para outorgar impunidade à sociedade de consumo, que é imposta como modelo em nome do desenvolvimento, e às grandes empresas que tiram proveito dele. Mas, as estatísticas confessam.
Os dados ocultos sob o palavreado revelam que 20% da humanidade comete 80% das agressões contra a natureza, crime que os assassinos chamam de suicídio, e é a humanidade inteira que paga as consequências da degradação da terra, da intoxicação do ar, do envenenamento da água, do enlouquecimento do clima e da dilapidação dos recursos naturais não-renováveis. A senhora Harlem Bruntland, que encabeça o governo da Noruega, comprovou recentemente que, se os 7 bilhões de habitantes do planeta consumissem o mesmo que os países desenvolvidos do Ocidente, “faltariam 10 planetas como o nosso para satisfazerem todas as suas necessidades”. Uma experiência impossível.
Mas, os governantes dos países do Sul que prometem o ingresso no Primeiro Mundo, mágico passaporte que nos fará, a todos, ricos e felizes, não deveriam ser só processados por calote. Não estão só pegando em nosso pé, não: esses governantes estão, além disso, cometendo o delito de apologia do crime. Porque este sistema de vida que se oferece como paraíso, fundado na exploração do próximo e na aniquilação da natureza, é o que está fazendo adoecer nosso corpo, está envenenando nossa alma e está deixando-nos sem mundo.

2- É verde aquilo que se pinta de verde.
Agora, os gigantes da indústria química fazem sua publicidade na cor verde, e o Banco Mundial lava sua imagem, repetindo a palavra ecologia em cada página de seus informes e tingindo de verde seus empréstimos. “Nas condições de nossos empréstimos há normas ambientais estritas”, esclarece o presidente da suprema instituição bancária do mundo. Somos todos ecologistas, até que alguma medida concreta limite a liberdade de contaminação.
Quando se aprovou, no Parlamento do Uruguai, uma tímida lei de defesa do meio-ambiente, as empresas que lançam veneno no ar e poluem as águas sacaram, subitamente, da recém-comprada máscara verde e gritaram sua verdade em termos que poderiam ser resumidos assim: “os defensores da natureza são advogados da pobreza, dedicados a sabotarem o desenvolvimento econômico e a espantarem o investimento estrangeiro.”
O Banco Mundial, ao contrário, é o principal promotor da riqueza, do desenvolvimento e do investimento estrangeiro. Talvez, por reunir tantas virtudes, o Banco manipulará, junto à ONU, o recém-criado Fundo para o Meio-Ambiente Mundial. Este imposto à má consciência vai dispor de pouco dinheiro, 100 vezes menos do que haviam pedido os ecologistas, para financiar projetos que não destruam a natureza. Intenção inatacável, conclusão inevitável: se esses projetos requerem um fundo especial, o Banco Mundial está admitindo, de fato, que todos os seus demais projetos fazem um fraco favor ao meio-ambiente.
O Banco se chama Mundial, da mesma forma que o Fundo Monetário se chama Internacional, mas estes irmãos gêmeos vivem, cobram e decidem em Washington. Quem paga, manda, e a numerosa tecnocracia jamais cospe no prato em que come. Sendo, como é, o principal credor do chamado Terceiro Mundo, o Banco Mundial governa nossos escravizados países que, a título de serviço da dívida, pagam a seus credores externos 250 mil dólares por minuto, e lhes impõe sua política econômica, em função do dinheiro que concede ou promete.
A divinização do mercado, que compra cada vez menos e paga cada vez pior, permite abarrotar de mágicas bugigangas as grandes cidades do sul do mundo, drogadas pela religião do consumo, enquanto os campos se esgotam, poluem-se as águas que os alimentam, e uma crosta seca cobre os desertos que antes foram bosques.

3- Entre o capital e o trabalho, a ecologia é neutra.
Poder-se-á dizer qualquer coisa de Al Capone, mas ele era um cavalheiro: o bondoso Al sempre enviava flores aos velórios de suas vítimas… As empresas gigantes da indústria química, petroleira e automobilística pagaram boa parte dos gastos da Eco-92: a conferência internacional que se ocupou, no Rio de Janeiro, da agonia do planeta. E essa conferência, chamada de Reunião de Cúpula da Terra, não condenou as transnacionais que produzem contaminação e vivem dela, e nem sequer pronunciou uma palavra contra a ilimitada liberdade de comércio que torna possível a venda de veneno.
No grande baile de máscaras do fim do milênio, até a indústria química se veste de verde. A angústia ecológica perturba o sono dos maiores laboratórios do mundo que, para ajudarem a natureza, estão inventando novos cultivos biotecnológicos. Mas, esses desvelos científicos não se propõem encontrar plantas mais resistentes às pragas sem ajuda química, mas sim buscam novas plantas capazes de resistir aos praguicidas e herbicidas que esses mesmos laboratórios produzem. Das 10 maiores empresas do mundo produtoras de sementes, seis fabricam pesticidas (Sandoz-Ciba-Geigy, Dekalb, Pfizer, Upjohn, Shell, ICI). A indústria química não tem tendências masoquistas.
A recuperação do planeta ou daquilo que nos sobre dele implica na denúncia da impunidade do dinheiro e da liberdade humana. A ecologia neutra, que mais se parece com a jardinagem, torna-se cúmplice da injustiça de um mundo, onde a comida sadia, a água limpa, o ar puro e o silêncio não são direitos de todos, mas sim privilégios dos poucos que podem pagar por eles. Chico Mendes, trabalhador da borracha, tombou assassinado em fins de 1988, na Amazônia brasileira, por acreditar no que acreditava: que a militância ecológica não pode divorciar-se da luta social. Chico acreditava que a floresta amazônica não será salva enquanto não se fizer uma reforma agrária no Brasil.
Cinco anos depois do crime, os bispos brasileiros denunciaram que mais de 100 trabalhadores rurais morrem assassinados, a cada ano, na luta pela terra, e calcularam que quatro milhões de camponeses sem trabalho vão às cidades deixando as plantações do interior. Adaptando as cifras de cada país, a declaração dos bispos retrata toda a América Latina. As grandes cidades latino-americanas, inchadas até arrebentarem pela incessante invasão de exilados do campo, são uma catástrofe ecológica: uma catástrofe que não se pode entender nem alterar dentro dos limites da ecologia, surda ante o clamor social e cega ante o compromisso político.

4- A natureza está fora de nós.
Em seus 10 mandamentos, Deus esqueceu-se de mencionar a natureza. Entre as ordens que nos enviou do Monte Sinai, o Senhor poderia ter acrescentado, por exemplo: “Honrarás a natureza, da qual tu és parte.” Mas, isso não lhe ocorreu. Há cinco séculos, quando a América foi aprisionada pelo mercado mundial, a civilização invasora confundiu ecologia com idolatria. A comunhão com a natureza era pecado. E merecia castigo.
Segundo as crônicas da Conquista, os índios nômades que usavam cascas para se vestirem jamais esfolavam o tronco inteiro, para não aniquilarem a árvore, e os índios sedentários plantavam cultivos diversos e com períodos de descanso, para não cansarem a terra. A civilização, que vinha impor os devastadores monocultivos de exportação, não podia entender as culturas integradas à natureza, e as confundiu com a vocação demoníaca ou com a ignorância. Para a civilização que diz ser ocidental e cristã, a natureza era uma besta feroz que tinha que ser domada e castigada para que funcionasse como uma máquina, posta a nosso serviço desde sempre e para sempre. A natureza, que era eterna, nos devia escravidão.
Muito recentemente, inteiramo-nos de que a natureza se cansa, como nós, seus filhos, e sabemos que, tal como nós, pode morrer assassinada.
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* Eduardo Hughes Galeano, jornalista e escritor uruguaio. É autor de mais de quarenta livros, que já foram traduzidos em diversos idiomas. Suas obras transcendem gêneros ortodoxos, combinando ficção, jornalismo, análise política e História. Sua obra mais famosa é o livro “Veias Abertas da América Latina”.
Fonte: http://ponto.outraspalavras.net/2011/05/17

Marchas, revolta e geração

Nos recentes protestos no Brasil, juventude não ficou “em casa”:
 nem diante do computador, nem em coletivos autofágicos
 — como o de A Chinesa, de Godard

Por Bruno Cava, em seu blog Quadrado dos Loucos

Em A chinesa, de 1967, Jean-Luc Godard filma o dia-a-dia de um coletivo maoísta, às vésperas do Maio de 1968. Baseado no romance Os demônios, de Dostoievski, os personagens são jovens estudantes de Paris, em processo de imersão no imaginário radical dos anos 1960. Passam os dias entre densas leituras marxistas, canções, palavras-de-ordem e cartazes políticos, planejando a iminente revolução. Na câmera de Godard, o sisudo visual militante se converte no pop. O preto-no-branco do discurso revolucionário se colore e se diversifica. Godard parece ambíguo, entre um retrato justo das aspirações transformadoras da geração de 68 e uma sátira nada condescendente, a enxergar naqueles jovens meros pequeno-burgueses deslumbrados: somente flertam com a idéia de revolução, assumida mais como aspecto identitário e estetizante que práxis. Possivelmente, a leitura mais completa dessa peça da resistência da nouvelle vague seja contornar qualquer classificação definitiva. Em vez do: essa juventude é isso ou é aquilo, abrigar a generosidade do real com a conjunção e: isso e aquilo.
Quem participou das marchas das liberdades, em São Paulo, Rio de Janeiro e outras metrópoles brasileiras, talvez compreenda melhor ao que me refiro, quando falo em percepção essencialmente ambígua. Porque foram manifestações urbanas eminentemente elitizadas, brancas, tocadas pelos filhos da classe-média. Não admira o pequeno porte, uns poucos milhares de manifestantes, nem a relativa aversão explicitada por grupos da periferia. No Rio, a marcha reuniu várias pautas, das LGBTT e feministas à resistência cultural anti-Ana de Hollanda e contra a propriedade autoral. No entanto, predominou a pauta da legalização da maconha. Uma reivindicação aliás fundamental, na medida em que essa proibição constitui uma das causas principais da violência urbana, de um controle social racista e da corrupção eleitoral. Por deficiências da organização, o maior interessado na legalização — o morador pobre e negro da periferia — não se mobilizou. Já a marcha dos 50 mil pelos bombeiros, há uma semana, se por um lado contou com desconcertante contingente das periferias cariocas, por outro se concentrou quase inteiramente na agenda corporativa salarial e por melhores condições, bem como pela libertação dos presos políticos. Percebe-se, de cara, a distância das recentes marchas em relação ao movimento generalizado do 15-M da Espanha e, com ainda maior separação, das revoluções árabes.
Daí tantas críticas às recentes passeatas e àquelas agendadas para o futuro próximo. Não passariam de espasmos da elite, despolitizados e impotentes. Seriam tão pateticamente comoventes quanto formar um cordão humano para abraçar a Lagoa Rodrigo de Freitas em nome da “paz”, ou quanto o ativismo-de-dondoca do Cansei, em 2007, que chegou ao cúmulo de vaiar aviões decolando. Essas críticas têm a sua razão de ser. De fato, muitos crêem que fazer a sua parte se limite a indignar-se ante a corrupção, reclamar dos políticos, reciclar o lixo, velar pelo tom politicamente correto, consumir orgânicos, ir ao emprego de bicicleta e minutar o seu dia numa mídia social qualquer. Tenho a impressão que essa atitude “consciente” seja até mais comum do que aquela de quem não está nem aí, que fica na sua vidinha privada, sem opinião, e no fundo só quer se dar bem.
Na dita geração Z, hoje com até 20 anos, a ausência de revolta parece ter se agravado. Quantas vezes não fui pessimista, e reclamei que essa geração não se rebela à vera. Não se revolta sequer contra os pais; adolescentes com dentes alinhados e narizes corrigidos, bem alimentados, bem cuidados, bem tratados por famílias perfeitinhas, parecem grandes laranjas brilhosas, mas sem carne e sem veia aberta.
Ampliando o espectro, a geração nascida da metade dos anos 1970 em diante não experimentamos nenhuma grande decepção histórica. Não vivenciamos 1968 ou 1989. Essas pessoas com até 40 anos fomos ensinados a desconfiar de grandes narrativas (noutras palavras, aderir acriticamente a uma única narrativa, a do capitalismo hegemônico, que assim se naturaliza e se reproduz). A descrença é sistematicamente endossada pela repetitiva culpabilização das ideologias e do pensamento radical, — condenados inapelavelmente pelos regimes de horror do século 20.
Essas críticas também têm a sua pertinência. Com efeito, o formato antigo de agremiações centralizadas, coesas numa verdade e altamente disciplinadas não cabe mais, pois não há mais Palácio de Inverno a se tomar. Num capitalismo globalizado, difuso e sem centro, a exploração se imiscui nas frinchas do cotidiano. Qualquer resistência eficaz deve ir além de dogmáticas e coletivos duros, para mexer com a produção de subjetividade. Nesse sentido, a Praça Tahrir, o 15M e, em menor grau, as marchas brasileiras de 2011, exprimem um caminho bastante oportuno. Mais que isso, nesse contexto, a constituição de redes produtivas autônomas (como os Pontos de Cultura, os coletivos de rap e hip-hop, a blogosfera de esquerda, o Fora do Eixo etc), o código colaborativo do software livre e da wikipídia, e mesmo o singelo ato de baixar e compartilhar conteúdos livremente pela internet, — tudo isso se torna imediatamente político e resistente.
Mas não deslumbremos. Em tempos de super-fluxos e redes de redes, não percamos a lucidez. Nada substitui a ocupação de ruas e praças. Nada substitui “uma rebeliãozinha de vez em quando“, o que, para Thomas Jefferson, é constitutivo da democracia. As marchas têm o papel de resgatar o movimento de rua, que a internet jamais substituirá. As novas formas de organização qualificam a ocupação intensiva do espaço público, jamais a dispensando. A força das redes não fica apenas no online, mas na articulação nas texturas urbanas, na organização e funcionamento da metrópole. Na realidade, o capitalismo condiciona os espaços, ritmos e escoamentos da cidade numa matriz totalmente contingente, que colapsa rápido nessas horas de rebelião. Como por sinal se viu em Túnis, Tahrir, Pérola, Puerta del Sol e Praça Catalunha, — que nada significariam se as pessoas não tivessem saído de suas casas para as mil crônicas da rua. Tomar ruas e praças continua essencial em qualquer democracia e deveria ser o hábito por excelência do cidadão.
Por tudo isso, conquanto as críticas mencionadas sejam pertinentes e mesmo necessárias, é preciso reconhecer uma abertura potente nas marchas de 2011. Pessimismo na razão, otimismo na ação. Tem algo aí que pode crescer tanto em quantidade, quanto qualitativamente (na intensidade do desejo). Faltou a revolta da periferia, sim, mas não faltaram conexões para que isso ocorra e em breve. O modo de desdobrar o movimento tem uma dinâmica expansiva. Afinal, as pessoas não ficaram em casa: nem diante do computador, nem em coletivos autofágicos como em A chinesa. Foram pra rua, generosos e sem preconceitos, pra conhecer o diferente, pra aprender coisas novas, pra se enredar com o outro. O desafio, agora, penso eu, está em recompor a classe em movimento. Consiste em desatar o nó, que impede que todas as demandas se reúnam na sua diferença. Isto é, sem unificação numa única verdade, por uma única luta, por um único livro vermelho. É a mesma luta, diferentes.
“Para muita gente a verdadeira perda do sentido político consiste em se juntar a uma formação partidária, submeter-se a sua regra, sua lei. Para muita gente também quando se fala de apolitismo, fala-se antes de tudo de uma perda ou de uma ausência ideológica. Eu não sei o que vocês pensam quanto a isso. Para mim a perda política é antes de tudo a perda de si, a perda de sua cólera assim como a de sua doçura, a perda de seu ódio, de sua faculdade de odiar assim como a de sua faculdade de amar, a perda de sua imprudência assim como a de sua moderação, a perda de um excesso assim como a perda de uma medida, a perda da loucura, de sua ingenuidade, a perda de sua coragem como a de sua covardia, a de seu terror diante de tudo assim como a de sua confiança, a perda de suas lágrimas assim como a de seu prazer. É isso o que eu penso.” (Marguerite Duras, “La perte politique”, Cahiers du Cinéma nº 312-313, junho de 1980, apud Revista Contracampo).
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A sedução do poder

Ignacio Castañares/IPS
O presidente do Uruguai, José Mujica, fala no
seminário organizado pela IPS e o Banco Mundial.


Os governos e os grandes meios privados de comunicação da América Latina travam uma guerra para conquistar a opinião pública, verdadeira legitimadora de poder, e a única solução parece ser uma aliança. “Batalha”, a palavra mais repetida no seminário “Comunicação, Pluralismo e Papel das Novas Tecnologias. O Cenário Latino-Americano: um Olhar sobre o Futuro”, realizado no dia 24, em Montevidéu, pela agência de notícias Inter Press Service (IPS) com apoio do Banco Mundial e do governo do Uruguai.
Do encontro participaram autoridades de meios de comunicação públicos e estatais da região, jornalistas, representantes da sociedade civil, e especialistas em comunicações. Essa batalha entre governos e mídia privada pelo manejo da informação ficou em primeiro plano nos últimos anos na América Latina, e tem como marco uma onda de administrações de esquerda e seu enfrentamento com determinados monopólios ou oligopólios.
Esses governos tiveram que fazer um pacto de paz com o grande capital, mas também apostaram em uma transformação das comunicações procurando democratizar a mídia, inclusive poe meio de leis, explicou Fábio Zanini, editor internacional da Folha de S.Paulo. Zanini citou o exemplo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que para chegar ao governo “teve de fazer um movimento político estratégico, midiático, para mostrar-se confiável perante os bancos, o grande capital, os latifundiários e, também, para atrair para sua coalizão partidos de direita”.
Em definitivo, os governos de esquerda, e também os de direita, como o de Sebastián Piñera no Chile, reconhecem a importância vital dos meios de comunicação, com os quais “têm uma relação conflitante”, afirmou Zanini. O secretário da Presidência do Uruguai, Alberto Breccia, preferiu qualificar a relação da esquerda com a imprensa de “esquizofrênica” e pediu aos participantes que propusessem elementos para saná-la.
Zanini destacou os esforços dos governos para ampliar os espaços públicos de comunicação, criando ou renovando canais e rádios, e expressou dúvidas quanto a estes serem realmente imparciais, alertando que podem simplesmente ser usados com fins de propaganda oficialista.
Por sua vez, Alberto Medina, codiretor de notícias da privada Cadeia Caracol TV, da Colômbia, disse que existe “uma guerra pela informação entre os setores público e privado”. E afirmou: “Não estou convencido de que os governos abram suficientemente os canais para um debate entre todos os setores. Sou um pouco descrente desses meios públicos ‘tão democráticos’. Não vejo espaços abertos para a oposição nos canais públicos. São canais que defendem as teses do governo da vez”, acrescentou.
Em meio a este enfrentamento, a missão da mídia comunitária “é poder instalar a luta pela liberdade de expressão como uma demanda geral”, disse à IPS a presidente da Associação Mundial de Rádios Comunitárias, a chilena María Pía Matta. “Nós tampouco queremos que nos transformem em atores do governo da vez. Creio que é preciso discutir mais sobre as liberdades em geral, sobre a liberdade de expressão e por que o Estado se afasta tanto destas liberdades”, afirmou. Na região, “o Estado sempre foi considerado um predador natural da liberdade de expressão, e isso ficou incrustado”, acrescentou.
No entanto, o diretor do jornal uruguaio de esquerda La República, Federico Fasano Mertens, disse que não são dois lados em batalha, mas três: o Estado, a mídia e a sociedade em geral. “A informação é um bem público, um bem comum, um patrimônio da humanidade. E, embora esteja sujeita à apropriação privada, porque o sistema assim o determina, deve estar na ordem do dia desestimular os monopólios e incentivar o pluralismo”, acrescentou.
Para Mertens, que também é diretor da Rádio AM Libre e do canal TV Libre, o fato de em um país haver vários meios de comunicação e de diferentes proprietários não significa necessariamente pluralismo. “Se existe apenas um único pensamento hegemônico, apesar de serem veículos diferentes, é quase um monopólio”, ressaltou.
O seminário foi acompanhado em tempo real pela internet, e dezenas de pessoas comentaram em um chat os conteúdos e fizeram perguntas aos debatedores. Por ali passaram as experiências das redes sociais, como o Twitter, nos levantes árabes e no movimento de descontentamento civil 15M (15 de Maio) na Espanha.
No entanto, o diretor de Comunicação do Governo de El Salvador, David Rivas, defendeu as medidas desse país para controlar a informação e para eliminar programas da mídia estatal que, segundo afirmou, é “nociva para a psique”. Acrescentou que “retiramos programas que os governos anteriores haviam deixado nos veículos de comunicação do Estado com uma carga ideológica impressionante, onde nos vendiam a sociedade entre ricos e maus, se denegria a imagem da mulher e eram apresentadas coisas que beiravam o crime”.
Rivas também insistiu na necessidade de “perder o medo da regulamentação” dos conteúdos e das leis para “garantir maior acesso da população à mídia”. E ressaltou que “não existe um direito absoluto, nem mesmo o da liberdade de expressão. Os que nos disseram que ‘a melhor lei é a que existe’ nos enganaram todo esse tempo”, afirmou.
Essa frase foi citada durante o seminário e pertence ao orador principal, o presidente do Uruguai, José Mujica, que a utilizou há alguns meses para não aceitar uma proposta de legislar sobre os meios de comunicação deste país que, paradoxalmente, nasceu de um âmbito instalado por seu governo. Mas não foi Mujica quem repetiu essa frase no seminário que, por outro lado, exortou os presentes à “luta permanente” pela liberdade.
“Embora os meios de comunicação modernos e contemporâneos sejam capazes de nos dar recursos inimagináveis para nos comunicarmos, também podem ser os instrumentos mais negadores da liberdade”, afirmou. “Significa que a questão de como se usa e para qual finalidade se usa o progresso tecnológico é uma batalha, é quase desesperador”, acrescentou.
Miguel Wiñazki, secretário de redação do jornal argentino Clarín, decidiu começar por uma definição de opinião pública: “um coletivo que concede poder”, gerador, portanto, de um mecanismo de sedução colocado em prática pelos políticos e pela mídia. “Percebidas as crenças, os preconceitos e as ideologias dominantes da opinião pública, tanto os governos quanto a corporação política e a mídia privada tendem a exonerar o valor da informação em si para dar à opinião pública a fábula que está escrevendo”, disse Wiñazki. A esse conceito chamou de “notícia desejada”.
Esta notícia desejada, definitivamente, não passa de propaganda. “A ação jornalística propriamente dita é a batalha cotidiana dos trabalhadores da imprensa para impor a informação acima da notícia desejada”, ressaltou Wiñazki. Envolverde/IPS
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Por Raúl Pierri, da IPSFonte: http://envolverde.com.br 27-06/2011