domingo, 27 de setembro de 2015

CORAGEM DE MUDAR

 Marcos Rolim*
 
O nome Ângela Moss tornou-se conhecido nas redes sociais depois que uma matéria dos anos 80, levada ao ar pela extinta TV Manchete, foi postada em um blog e alcançou mais de 2 milhões de visualizações. A matéria, disponível em http://migre.me/rCAeU, é chocante pela dimensão de preconceito, racismo e demofobia dos entrevistados, todos jovens da classe média carioca.

Aos 18 anos, Ângela aparece indignada com o fato de uma nova linha de ônibus ter sido inaugurada, permitindo que os pobres, “pessoas horríveis”, chegassem às praias da zona sul. Ela sustenta que se deveria cobrar ingresso para o acesso às praias, assim, só pessoas “educadas” frequentariam aqueles espaços. Ao final, ela diz que sente vergonha de morar num país com gente daquele tipo que, em sua opinião, não são brasileiros, mas uma “sub-raça”.

Ocorreu que Ângela, agora com 47 anos, postou nas redes um comentário no qual se declara envergonhada pela pessoa que foi. “Eu era uma criança retardada e com pouco conhecimento, embora culta, era uma alienada (...) Não há como negar, (o vídeo) é a face triste de uma sociedade sem compaixão e egoísta e, sim, um dia já foi a minha face. Fico feliz quando as pessoas ficam indignadas com esse vídeo, o que me perturba mesmo são as muitas que me escrevem dando parabéns”, disse.

A matéria da Manchete foi veiculada há, aproximadamente, 30 anos, sem qualquer polêmica. Era perfeitamente normal que declarações racistas e proponentes da exclusão fossem tratadas como parte da paisagem. Pobres deviam mesmo ficar no morro. As coisas estavam definidas e a hierarquia entre os “educados” e os “horríveis” aparecia como uma lei natural. A menina inimiga dos “farofeiros” não existe mais. Ângela poderia simplesmente ter se calado, mas escolheu dizer que aquele rosto de ódio era o seu e, porque era, não é mais.

As pessoas mudam, se reinventam e, às vezes, não se reconhecem no que foram. Nada estranho. Somos constituídos da matéria fluida de sonhos e medos e agimos a partir de valores cujos sentidos nunca se esgotam para nós mesmos. Em cada percurso individual, há o que persiste e o que deixamos, o que se prolonga e o que se rompe.

Há, entretanto, quem prefira não se deslocar e se repetir em uma invariância compulsiva, o que não guarda relação com a coerência, mas com a fragilidade cognitiva. Que o Brasil mudou muito nos últimos 30 anos parece evidente. Quantos dos brasileiros, entretanto, mudaram como Ângela? E quantos mudaram para melhor?
-----------------
*Jornalista e sociólogo marcos@rolim.com.br
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a4857000.xml&template=3898.dwt&edition=27534&section=70

A MENTIRA COMO VOCAÇÃO

Um dos motivos psicopolíticos fundamentais do nosso tempo é aquele de onde emerge a palavra “mentira”, em torno da qual se organiza grande parte da subjectividade política. E o que anima esta subjectividade nem é já o ressentimento nem a decepção, aquela “raiva de ter sido enganado” que George Grosz disse ser a disposição cínico-reflexiva da sociedade da República de Weimar e que permitiu a Hitler chegar ao poder prometendo a erradicação da mentira. O que a anima é, antes, algo menos agónico, uma “tonalidade epocal” responsável por um forte niilismo eleitoral. 

De certo modo, governar e mentir sempre foram sinónimos. Há quem afirme, com preceitos de sabedoria antiga, que assim é porque a verdade dos soberanos foi sempre diferente da vontade dos servos. Mas da defesa que Platão faz das “nobres mentiras” até à formulação muito eufemística de Hannah Arendt, segundo a qual “ninguém duvidou alguma vez de que é difícil a relação difícil entre verdade e a política”, persistente é o discurso teórico e doutrinário que nos fala das mentiras como instrumentos legítimos da profissão política. 

A experiência dos totalitarismos dos século XX ministrou uma lição: os regimes totalitários são fundados no primado da mentira. É uma conclusão que tanto inspirou George Orwell como Alexandre Koyré, o autor de The Political Function of the Modern Lie. Entre nós, deu-se nos últimos tempos um fenómeno discursivo de alguma importância: acusar um político de ser mentiroso deixou de ser uma prerrogativa da linguagem da “rua” e entrou sem cerimónias nas disposições do debate político. Tornou-se um argumento usado nas instâncias que, até há pouco, nunca tinham descido abaixo das “inverdades”, na escala das virtudes políticas. Isso não se deve a um recrudescimentos da mentira (Koyré é muito claro quanto à época em que se dá a hipertrofia da mentira:

 “O homem moderno — do genus totalitário — nada na mentira, respira a mentira, é prisioneiro da mentira em cada instante da sua vida”), mas a dois outros factores: em primeiro lugar, os políticos passaram a exercer a sua actividade num palco, estão sempre expostos e em plena representação (raramente fogem ou evitam na medida do possível essa condição porque aquilo de que são escravos é também o que lhes dá poder e capital simbólico); 

em segundo lugar, a política tornou-se uma especialidade técnico-gestionária que tem como meio os números e uma imensa série de dados que só podem ser uma de duas coisas: ou são verdades de facto ou são falsidades. A mentira em política já não é a “inverdade” que estava a meio caminho entre as ilusões da ideologia e as mentiras factuais. E, por isso, começou a tornar-se matéria para uma acusação deste tipo: “O senhor, que é meu par, é mentiroso”. 

Quando a política tinha uma dimensão ideológica e era sobretudo uma política das ideias, a mentira predominante, aquela em nome da qual se praticavam quase todas as outras, era a mentira da ideologia. Refiro-me ao conceito marxista de ideologia que, se não coincide inteiramente com a mentira e o erro, conduz-nos, pelo menos, para o lugar de uma não-verdade, para um véu que encobre a realidade. 

O que há então de novo, nesta questão da mentira política, é que passou a ser difícil, nas acuais circunstâncias, defender concepções substancialmente estéticas da política, como a de um teórico completamente anti-ético como Carl Schmitt, porque o triunfo da mentira de facto, aquela que autoriza a que se diga a um político que ele é mentiroso, não trouxe apenas consigo este rebaixamento da política ao discurso de gente mentirosa; caucionou também o seu contrário, uma ideologia ética de uma pobreza constrangedora.
--------------
* Jornalista.
Fonte: Site de Portugal:  http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/a-mentira-como-vocacao-1708698
Imagem da Internet

A Internet cria "um leitor mais burro e mais violento"


Bernardo Carvalho vem de um país “sem leitores”, o Brasil: “No livro há esse desespero de uma língua, de uma escrita feita para um mundo que não quer recebê-la”  

Entrevista

O décimo romance de Bernardo Carvalho é sobre a incapacidade de comunicar este presente incessantemente mutante e narcisista. Reprodução põe o dedo na ferida do debate político pós-Internet, o lugar do lugar-comum.

Bernardo Carvalho estava a viver em Berlim quando o convidaram a escrever um conto para o livro comemorativo dos dez anos da Festa Literária de Paraty. O conto foi escrito e publicado, mas o sentido de urgência que levou o autor a escrevê-lo não se esgotou e o conto tornou-se um romance, Reprodução. É a reacção de Bernardo de Carvalho a este mundo que privilegia o discurso único, a leitura de primeiro grau, sem ironia nem imaginação, a ideia de que existe uma verdade num meio que parece absolutamente democrático, quando a democracia tem pouco a ver com absolutos.
Num aeroporto, um homem é detido quando vai apanhar um avião para a China. É um brasileiro, estudante de chinês, que as autoridades associam a um caso de tráfico. A acção do décimo romance de Bernardo Carvalho – vencedor, a par com Dalton Trevisan, do prémio Portugal Telecom em 2003, com Nove Noites (Cotovia)  desenrola-se à medida que o monólogo do estudante de chinês, leitor de blogues, activo nas redes sociais, entra num ritmo alucinado, em que ele despeja informação, manifesta opiniões, escuta outros monólogos, defende uma coisa e o seu contrário de forma tão convicta quanto irritante. O protagonista serve a Bernardo de Carvalho, o escritor de 55 anos natural do Rio de Janeiro, para compor um romance tão atento quanto de denúncia, irónico, inquieto e angustiante no modo como expõe manifestações de linguagem e através delas faz o retrato de uma época para a qual parece faltar um discurso à altura.
Conversa a partir de Paris, onde o escritor brasileiro participou num festival literário. 

Este romance parece ter nascido de um impulso. Foi assim?
Sim, um pouco por uma urgência que veio de uma observação política. Acabei reconhecendo em pessoas que abomino, em discursos que odeio, coisas com as quais concordo. Acontece ouvir alguém, estar de acordo e acompanhar o discurso, acreditando que é bom, e de repente dar-me conta de que quem falava era um representante da extrema-direita, por exemplo. Essa mobilidade dos discursos, o terem saído do lugar de conforto no qual eu podia reconhecê-los, inquieta-me. O livro vem do desconforto de não saber como me posicionar politicamente nesse mundo actual. 

O estudante de chinês, protagonista do romance, encerra essa contradição.  
Sim, foi quando comecei a imaginar esse discurso. 

É esse estudante que diz que “a contradição é a força e a fraqueza da democracia”. O livro interroga-se sobre o que acontece quando se acaba com o contraditório no discurso. Também no discurso ficcional?
Claro. A grandeza da democracia é que se pode conviver com a contradição e essa contradição não precisa de ser eliminada, faz parte da estrutura social. Nas sociedades autoritárias não existe contradição, existe uma deliberação única de uma fonte única. Uma vez entrevistei o Lévi-Strauss e ele dizia que a grandeza e a fraqueza das sociedades ocidentais é que elas trazem dentro um gene suicida. A sua grandeza é mostrar a própria vulnerabilidade. Mas ao mesmo tempo possibilita muitos extremismos. Como é que uma sociedade que defende os direitos humanos faz o que faz com os palestinianos, por exemplo? Há muitas contradições internas que enfraquecem o próprio discurso da democracia. É aí que está a força desse mundo que se deixa contaminar, se expõe à contradição. Isso é incrível, mas muito difícil de manter. Vejo uma espécie de oportunismo generalizado de apropriação dos discursos, o que é muito assustador. O livro não apresenta solução; é o retrato dessa perplexidade e desse incómodo; dessa impotência perante a apropriação dos discursos que antes estavam bem definidos.

O discurso está sempre em forma de monólogo. Essa escolha pretende sublinhar uma ilusão de diálogo?
É outra urgência. Não há a fala de um interlocutor. Expressa a ideia da Internet, um lugar de espelho em que se acha que se está numa relação com o outro e na verdade se está sempre a reproduzir o mesmo. É quase uma relação narcisista.

Falta o contraditório?
Exacto. Tudo o que é contradição você apaga. Parece que há abertura ao outro mas só se procura o mesmo. Posso aprender algumas coisas, mas estão sempre dentro de uma circunscrição que já domino por antecedência. É uma espécie de espaço hedonista e isso é muito perverso porque a partir do momento em que se entra nisso é como uma droga; é uma fonte de prazer absoluto e elimina qualquer necessidade de esforço, de contradição. 

Ilusão de companhia, ilusão e conhecimento; ilusão de opinião; ilusão de informação e ao mesmo tempo uma crítica ao modo como o discurso jornalístico está a reagir a esse novo espaço, recusando o seu papel de mediação; ilusão sobre a capacidade do discurso actual para reflectir a realidade actual. Ou seja, há uma incapacidade de comunicar?  
Acho que sim. Parece que com esta proliferação de opiniões todo o mundo passou a se expressar e no final talvez não haja muita diferença entre os milhões de opiniões; elas acabam no lugar-comum.
enric vives-rubio
É a tal reprodução de que fala o título?
É. Mas iludida. As opiniões são insatisfatórias. Isso é estranho. Dá uma sensação de incompletude, de uma opacidade que não permite que se enxergue o mundo de verdade. E é infinito. 

Qual é a sua relação com a Internet?
Sou viciado. Não passo dez minutos fora da Internet. Sou um doente. Quis dar a perspectiva crítica de uma situação na qual estou realmente perdido.

Voltando ao discurso jornalístico que também conhece e que põe aqui em causa: os jornais e os meios de informação que têm função de mediar a realidade passaram a ser decididos pelos leitores, com o mercado a definir conteúdos e o leitor a transformar-se em decisor. Se o leitor não gostar, o jornal não dá. 
É muito perverso. O princípio seria mais democrático. Questiona-se a autoridade do jornal porque tem na origem um interesse económico preciso. A ideia é que a Internet pulveriza essa autoridade dos media, o que parece bom, dá um sentido de democratização à informação, mas perdem-se noções de hierarquia, padrões, modelos, e é difícil estabelecer qualquer tipo de diálogo se não houver um parâmetro… Esses parâmetros perderam-se na barafunda de opiniões e de informações e acreditamos em absolutamente tudo o que se publica na Internet. Tudo o que surge na Internet vira facto. Talvez isso estivesse nos media, mas lá há mediação, uma auto-censura que não permitia reproduzir qualquer coisa. Isso põe muitas coisas em causa, sobretudo a ideia da verdade, é como se fosse uma segunda natureza.

Uma verdade absoluta?
Exactamente.

Há uma interrogação sobre a função do romance quando uma personagem questiona o género e o remete para um lugar de facilidade, que não reflecte nem reage à realidade. Este romance tem também o propósito de mostrar ser o contrário dessa ideia?
Eu não tenho qualquer tipo de crença, não acredito em Deus, mas tenho uma relação com a ficção literária um pouco semelhante à de uma religião, quase dogmática. Acredito que, de alguma forma, se pode chegar à verdade por meio da literatura e da ficção literária. Acho que a verdade só pode ser alcançada de uma maneira indirecta, transversal, mediada, e vejo a literatura como uma forma de reflexão muito sofisticada. Uma forma não só de retratar a realidade, ou de ser reflexo da realidade, mas também de aceder à verdade. Com a Internet isso foi pelo ar, não há ironia na Internet. É sempre um discurso de primeiro grau. Cria leitores iletrados para a literatura, para a ironia, para a reflexão. 

A Internet muda o leitor?
Muda, mas para um leitor mais burro e mais violento. É o mesmo leitor que não suporta ver uma caricatura do profeta Maomé, que a ficção possa ser uma reflexão sobre a realidade e não a própria realidade. Acho assustador esse leitor que a Internet incentiva, sem instrumentos para entender a ironia e o distanciamento. A ideia de romance que defendo é uma resistência a essa facilidade, a essa naturalidade da Internet. O romance, como o entendo, é um instrumento de guerra contra a percepção naturalista do texto em geral, como se a letra fosse necessariamente a verdade e não uma reflexão sobre o mundo. Faço isso ao mesmo tempo que brinco, que vou dizendo coisas de que discordo com muita convicção. Quanto mais eu dizia coisas horríveis, mais prazer eu tinha, mais feliz eu ficava. O facto de no livro o discurso da resposta estar em elipse criou um mecanismo estranho na minha cabeça, uma espécie de automatismo; eu ia escrevendo aquilo como se fosse um vómito, e foi com muito prazer.
enric vives-rubio
O modo como o faz torna difícil distinguir autor de personagem. Alguma vez sentiu essa colagem de identidade?
A aventura e o risco eram justamente esses, me confundir. Eu queria criar essa dificuldade, essa personagem que não era absolutamente a caricatura do meu oposto, mas me confundia nessa voz horrível. Há um pouco de autobiografia, ele diz algumas coisas em que acredito, e também estudei chinês ao longo de seis anos, também tive uma professora como a dele. E ele vai perdendo a ironia, o riso se esvai numa espécie de desconforto e mal-estar. Nos discursos do horror é difícil detectar fronteiras. É aí que está o horror. Tudo vem da inabilidade de discernir onde está o bem e onde está o mal.

Já escreveu muito sobre o Oriente, volta lá agora para encontrar o sítio de que se tem medo, o sítio da língua do futuro, sem memória, sem passado. Porquê?
Há uma personagem que refere um livro que fala do desaparecimento das línguas e que diz que quantas mais línguas houver no mundo menos chances há de o ser humano desaparecer, e que quanto menos línguas houver mais o ser humano fica vulnerável. Eu queria falar de uma certa pasteurização pela língua, e o chinês seria essa língua hegemónica. Podia ser o inglês, mas escolhi o chinês porque era uma língua periférica para o Ocidente e ganhou hegemonia. Hoje é uma língua do poder. Há a ideia da língua absoluta, que se impõe e vai destruindo as outras, tornando o homem mais vulnerável pela falta de diversidade, de variedade. O português fez isso com as línguas indígenas. O Brasil tinha centenas de línguas que foram desaparecendo. 

O estudante diz: “o que eu estou querendo dizer só poder ser dito na língua do futuro”. Sendo escritor, esta incapacidade da língua em relação ao presente de que fala inquieta-o?
Ele fala também da língua oral. Como escritor, o que toca mais é a ideia da língua escrita. No Brasil isso é muito peculiar, sendo um país iletrado. Escrevo num país onde não se lê. Isso é muito estranho. Por um lado, há uma coisa interessante, de que pode ser um excelente exemplo o Machado de Assis quando escreveu o Memórias Póstumas de Brás Cubas e passou dos romances mais tradicionais para uma espécie de revolução: ele teve consciência de que não devia nada a ninguém e isso deu-lhe liberdade e a possibilidade de escrever uma coisa incrível e revolucionária. Mas há também uma angústia de fundo: escrever sem leitores, escrever para um mundo que não lê. Toda a literatura brasileira foi feita, desde sempre, com o pensamento de que se está num lugar para o qual não fomos feitos e mesmo assim você continua fazendo, reage a esse mal-estar, a essa não-pertença. No livro há esse desespero de uma língua, de uma escrita feita para um mundo que não quer recebê-la. É como se fosse uma teimosia, uma resistência.
-------------
Reportagem por 

O DEUS DA MODA

FREI BENTO DOMINGUES O.P. 
O sistema econômico dominante, hoje em dia, descentrou a pessoa, colocando no centro o deus dinheiro, que é o ídolo da moda.

1. Perguntaram, há dias, a um refugiado a razão que o tinha levado a abandonar o seu país, arriscar tudo e encontrar-se naquela situação horrível, rodeado de desconhecidos, encurralados pela polícia, sem destino garantido. A resposta surgiu da forma mais natural e óbvia: eu procuro uma vida boa e no Iraque já não se pode viver.

Aristóteles, um dos fundadores da ética filosófica ocidental, não diria melhor. O desejo e a tenacidade são as asas do ser humano. Na desordem do mundo, impelido pela esperança, mesmo contra toda a esperança, acredita misteriosamente num horizonte de justiça e misericórdia.

Ao começar esta crónica deparei com um texto que li, pela primeira vez, há 25 anos. Em 1990, a direcção da Revista Portuguesa de Filosofia pediu um texto ao filósofo Paul Ricoeur, autor de uma vasta e multifacetada obra de hermenêutica. A revista conseguiu a publicação de um texto inédito notável e no qual expunha a sua distinção entre ética e moral [1].

Nem a etimologia nem a história o obrigavam a marcar essa diferença, tanto mais que se tornou corrente usar indiferentemente uma ou outra palavra, para designar a fonte e as normas do comportamento humano, enquanto humano. Não se esqueça que existe, paradoxalmente, muita moral sem ética nenhuma e muita ética à vontade do freguês.

O filósofo francês tornou fecunda essa distinção. Recolheu as duas heranças mais famosas da ética filosófica: a aristotélica - a do desejo, do prazer, da felicidade - e a kantiana - a da norma, da lei, do dever. Sem cair em falsas simplificações, desenvolveu-as nos debates sobre a justiça de J. Rawls e M. Walzer e assumiu as argúcias virtuosas de Aristóteles. 

Para Ricoeur, o que é visado pela ética define-se nestes termos: a procura da vida boa, com e para os outros, em instituições justas.

É normal e sadio que cada um procure a sua realização humana, enquanto humana, isto é, o livre desabrochar das suas aspirações e capacidades mais profundas. Não de forma isolada e egoísta, pois implica o reconhecimento, nos outros, de igual desígnio e da mesma capacidade de procura humana de felicidade. Para superar as desigualdades inevitáveis existem processos justos e o recurso humano à solicitude, à compaixão para com os mais débeis.

Numa sociedade não bastam, porém, as relações de amizade interpessoais. Por isso, P. Ricoeur acrescenta: em instituições justas. A vida de uma comunidade histórica exige um sistema de partilha, de direitos e de deveres. A justiça consiste em atribuir a cada um a sua parte. Todos e cada um são destinatários de uma partilha justa. O sentido do que é justo faz-se notar, por vezes, mediante a exclamação da sua ausência: é injusto!

2. I. Kant resolveu eliminar do desígnio ético o desejo, o prazer, a felicidade. Esta depuração leva ao imperativo universalista, nu e cru: ”age unicamente segundo a máxima que faz com que tu podes querer ao mesmo tempo que ela se torne lei universal”. A segunda fórmula deste imperativo apresenta-se mais enriquecida: “Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio”.

A grandeza e a exaltação desta fórmula nunca poderão ser exageradas e, no entanto, talvez seja a mais esquecida: a pessoa nunca pode ser usada como um meio para algo melhor do que ela. Não tem preço, é um valor absoluto.

Ricoeur não se esquece da ética das virtudes que tornam bom quem as vive e boas as suas acções. Ao concluir o seu texto, lembra que a ordem de prioridade das reivindicações de segurança, liberdade, solidariedade, etc., não são sempre as mesmas em cada povo e em cada época. Exige um debate público, sem garantias de êxito. Como dizia Aristóteles, a equidade (epieikeia)é superior à lei, pois é um correctivo da lei que por natureza é geral, abstracta não pode prever tudo. A justiça exerce-se no concreto, no singular, no imprevisto.

3. Não renego o que escrevi, mas a realidade actual é outra. A jornalista Aura Miguel perguntou ao Papa Francisco como estava a viver a crise dos refugiados. A resposta deveria ser o nosso texto de meditação para não nos satisfazermos com alguns gestos de solidariedade, deixando o mundo correr na sua loucura para a guerra que se prepara sob os nossos olhos: “Vemos estes refugiados, esta pobre gente que escapa da guerra, da fome, mas essa é a ponta do icebergue. Porque debaixo dele, está a causa; e a causa é um sistema socioeconómico mau e injusto, porque dentro de um sistema económico, dentro de tudo, dentro do mundo - falando do problema ecológico-, dentro da sociedade socioeconómica, dentro da política, o centro tem de ser sempre a pessoa. E o sistema económico dominante, hoje em dia, descentrou a pessoa, colocando no centro o deus dinheiro, que é o ídolo da moda. Ou seja, há estatísticas, não me recordo bem (isto não é exacto e posso equivocar-me), mas 17% da população mundial detém 80% das riquezas”.

Os ídolos da eterna juventude, do permanente crescimento económico, do dinheiro, do totalitarismo da falsa comunicação alimentam-se do desejo de todos ao serviço de uma elite.

[1] Paul Ricoeur, Ethique et Morale, Revista Portuguesa de Filosofia, Janeiro-Março 1990, págs 5-17
------------- 
Fonte: http://www.publico.pt/mundo/noticia/o-deus-da-moda-1709124
Imagem da Internet

Stephen Hawking: “Raça humana terá que sair da Terra se quiser sobreviver”

 STEPHEN HAWKING | ASTROFÍSICO

Físico britânico reflete sobre a origem do universo em entrevista exclusiva ao EL PAÍS

/ Arona (Espanha) 
 
Merry Christmas”. A emblemática voz metálica do cientista mais famoso do planeta soa em meio à orla marítima da praia de Camisón, em Tenerife, na Espanha, provocando as gargalhadas dos turistas que se aglomeram ao seu redor, sussurrando entre si: “É Stephen Hawking”, a medida que passa por eles. “É uma brincadeira que costuma fazer para que as pessoas riam”, explica uma das responsáveis da equipe que o segue por todas as partes. Hawking (Oxford, 1942) se encontra na ilha espanhola para apresentar a terceira edição do festival científico Starmus, realizado a cada dois anos e que em sua edição de 2016 reunirá uma dúzia de prêmios Nobel, entre outras figuras reconhecidas da ciência, da divulgação e exploração especial.
ADVERTISEMENT
As leis da ciência bastam para explicar a origem do Universo. Não é preciso invocar Deus
O físico, recentemente retratado no filme sobre sua vida A Teoria de Tudo, que deu o Oscar de melhor ator a Eddie Redmayne, escreve graças a um sensor na bochecha, onde está um dos poucos músculos que ainda consegue mover por conta da doença neurodegenerativa que sofre. Apesar de contar com vários programas tecnológicos que o ajudam a agilizar o processo de escrita, algumas vezes, dizem seus acompanhantes, pode levar duas horas para responder a uma simples pergunta. Mas ele tem um botão especial para fazer gracinhas com um só clique.

Na rua, uma mulher de maiô grita “obrigado por seu senso de humor, Stephen!”, prova do carisma do cientista, que penetrou fundo no imaginário coletivo global muito além dos fãs de ciência. Sete pessoas acompanham o físico nessa viagem, entre assistentes, médicos e gente de sua confiança, sempre atentos a sua frágil saúde de ferro, que o manteve vivo até os 73 anos “contra todos os prognósticos”. É como explica nessa entrevista exclusiva ao EL PAÍS, que teve a ocasião de passar um dia com ele e o organizador do Starmus, o físico Garik Israelian. Hawking fala sobre a necessidade de conquistar o espaço para sobreviver como espécie, do perigo do desenvolvimento da inteligência artificial e sobre o que os jovens cientistas no mundo todo devem esperar do futuro.

Pergunta. O senhor tem uma agenda vertiginosa de viagens, conferências, entrevistas, festivais... quase como uma estrela do rock. Por que vive dessa forma?
Resposta. Sinto que tenho o dever de informar as pessoas sobre a ciência.

P. Gostaria de fazer alguma coisa na vida que ainda não o fez?
R. Viajar ao espaço com a Virgin Galactic.
Se os extraterrestres nos visitarem, o resultado será muito parecido com o que aconteceu quando Colombo desembarcou na América: não foi uma coisa boa para os nativos americanos
P. Um de seus últimos livros fala sobre a teoria de tudo, que uniria a relatividade e a física quântica. Sobre o que será o próximo?
R. Pode ser que meu novo livro seja sobre minha sobrevivência, contra todos os prognósticos.

P. Em muitos países, como na Espanha, o orçamento para a ciência é limitado, e muitos cientistas jovens precisaram emigrar para encontrar trabalho. O que o senhor diria a um jovem de países como o nosso e que pretende ser cientista?
R. Que vá para os Estados Unidos. Lá valorizam a ciência porque ela produz tecnologia.

P. Recentemente o senhor criou uma iniciativa muito ambiciosa para buscar vida inteligente em nossa galáxia. Há alguns anos, entretanto, disse que seria melhor não estabelecer contato com civilizações extraterrestres, porque poderiam nos exterminar. Mudou de opinião?
R. Se os extraterrestres nos visitarem, o resultado será muito parecido com o que aconteceu quando Colombo desembarcou na América: não foi uma coisa boa para os nativos americanos. Esses extraterrestres avançados poderiam virar nômades, e tentar conquistar e colonizar todos os planetas aos quais conseguissem chegar. Para meu cérebro matemático, de números puros, pensar em vida extraterrestre é algo muito racional. O verdadeiro desafio é descobrir como esses extraterrestres podem ser.
De fato, de certo modo minha incapacidade foi uma ajuda. Não preciso dar aulas e participar de comitês chatos
P. Pouco tempo atrás o senhor disse que a informação pode sobreviver a um buraco negro. O que isso significa para uma pessoa comum?
R. Cair em um buraco negro é como se lançar das cataratas do Niágara em uma canoa: se você remar suficientemente rápido, pode escapar. Os buracos negros são a máquina de reciclagem definitiva: o que sai é a mesma coisa que entra, mas processada.

P. No ano de 2015 a teoria da relatividade geral completa cem anos. O que o senhor diria a Albert Einstein se pudesse falar com ele, e o que espera da ciência nos próximos cem anos?
R. Einstein escreveu um artigo em 1939 no qual afirmava que a matéria não poderia comprimir-se além de um certo ponto, descartando a possibilidade da existência de buracos negros.

P. Por que acredita que devemos temer a inteligência artificial? É inevitável que os humanos criem robôs capazes de matar?
R. Os computadores superarão os humanos graças à inteligência artificial em algum momento nos próximos cem anos. Quando isso acontecer, precisaremos nos certificar de que os objetivos dos computadores sejam os mesmos que os nossos.
Acho que todo mundo pode, e deve, ter uma ideia geral de como funciona o universo e de nosso lugar nele
P. Qual acredita que será nosso destino como espécie?
R. Creio que a sobrevivência da raça humana dependerá de sua capacidade para encontrar novos lares em outros lugares do universo, pois o risco de que um desastre destrua a Terra é cada vez maior. Desta forma, gostaria de despertar o interesse do público pelos voos espaciais. Aprendi a não olhar muito à frente, a me concentrar no presente. Ainda quero fazer muitas outras coisas.

P. O Governo espanhol aprovou grandes cortes na ciência nos últimos anos. O que o senhor diria ao Governo?
R. Os espanhóis têm muito interesse na ciência e na cosmologia. Foram grandes leitores do meu livro Uma Breve História do Tempo. É importante que todos tenham bons conhecimentos de ciência e tecnologia. A ciência e a tecnologia estão mudando drasticamente nosso mundo, e é fundamental assegurar que essas mudanças ocorram na direção correta. Em uma sociedade democrática, isso significa que todos precisamos ter conhecimentos elementares sobre ciência, de modo que possamos tomar nossas próprias decisões com conhecimento de causa e não as deixar nas mãos de especialistas. É preciso simplificar, com certeza. A maioria das pessoas não tem tempo para dominar os detalhes puramente matemáticos da física teórica. Mas acredito que todo mundo pode, e deve, ter uma ideia geral de como funciona o universo e de nosso lugar nele. É isso que tento transmitir em meus livros e minhas conferências.
Os computadores superarão os humanos graças à inteligência artificial em algum momento nos próximos cem anos
P. Acredita que é possível ser um bom cientista e acreditar em Deus?
R. Utilizo a palavra “Deus” em um sentido impessoal, da mesma forma que Einstein, para me referir às leis da natureza.

P. O senhor disse que não precisamos de Deus para explicar o Universo tal como ele é. Pensa que algum dia os seres humanos abandonarão a religião e Deus?
R. As leis da ciência bastam para explicar a origem do Universo. Não é preciso invocar Deus.

P. Muitas pessoas precisam de cadeiras de rodas por conta de doenças como a esclerose lateral amiotrófica e muitas outras. Frequentemente enfrentam numerosas dificuldades para levar uma vida normal. Por exemplo, não podem viajar de avião em suas próprias cadeiras [Hawking costuma viajar de barco]. Uma vez que o senhor mesmo experimentou essas dificuldades, tem alguma mensagem para elas sobre a vida e como vivê-la?
R. Apesar de ter a desgraça de sofrer uma doença neuronal motora, tive muita sorte em praticamente todo o resto. Tive a sorte de trabalhar em física teórica, um dos poucos campos nos quais minha incapacidade não era um obstáculo sério, e de ser premiado com a popularidade de meus livros. Meu conselho para outras pessoas com incapacidades seria que se concentrassem em coisas que sua deficiência não as impeçam de fazê-las bem feitas, e que não se lamentem por aquelas nas quais o problema interfere.

Tudo está na mente. Preciso admitir que, quando não sigo o assunto de uma conversa, costumo divagar em reflexões sobre física e buracos negros. De fato, de certo modo minha incapacidade foi uma ajuda. Não preciso dar aulas e participar de comitês chatos, e me deu mais tempo para pensar e pesquisar.
Aprendi a não olhar muito à frente, a me concentrar no presente
P. Muitos cientistas de renome mundial, entre eles 12 prêmios Nobel, participarão do Starmus 3 para reverenciá-lo. Será um acontecimento histórico. Existe algo especial que o senhor queira ver no Starmus 3?
R. O Starmus 3 não se trata somente de buracos negros, campo no qual realizei um trabalho importante, mas abarca também a música e a arte. O Starmus 3 é o lugar onde a ciência séria se encontra com um público mais amplo; onde o pensamento intelectual, as nuances e a complexidade são reverenciados; onde se explora a maneira como trabalham os cientistas e onde são forjadas novas ideias.
-------------------
Fonte:  http://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/24/ciencia/1443106788_324837.html

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Entre direitos e privilégios

Maria Ignez Mantovani Franco*
 

“No Brasil e no Terceiro Mundo não se criou um cidadão, enquanto o Primeiro Mundo o preparou desde o Iluminismo. O cidadão é a mistura do homem público e do homem privado; nós não temos nenhum dos dois. A classe média foi, na Europa, o sustentáculo da democracia. No Brasil ela não quer direitos, quer privilégios”.
Milton Santos[1]

A afirmação corajosa de Milton Santos nos inspira a refletir sobre o momento de crise que estamos vivendo. Seria fácil atribuí-la a um governo, a um partido, a um presidente, ou mesmo a alguns ou a todos os políticos. Considerando que somos nós que os elegemos, que eles surgem da própria sociedade brasileira e alçam às esferas de representação pública por nós legitimados, fica cada vez mais difícil encontrar os verdadeiros responsáveis, ou melhor, todos os “culpados”.


Talvez o mais simples seja mesmo generalizar, atribuir ou se esquivar de culpas, detectar erros, negar evidências, exigir retratação pública, buscar compensações. É difícil ouvir o outro, tentar entender os argumentos alheios, buscar razão em discursos contrários aos nossos e, mais ainda, reconhecer-se incompetente para enfrentar uma situação de crise que, na essência, é sempre considerada como alheia. Alheia a mim, a você, a todos nós.

Já ouvimos de renomados especialistas e formadores de opinião que nossa crise não é só política ou econômica, mas institucional: de valores, de méritos, de visão de mundo. Aqui já podemos considerar que o campo de análise se amplia e nele poderemos colher novos frutos para o debate.

Recorrendo a Milton Santos, vemos que ele levanta a questão crucial de que o verdadeiro cidadão é o resultado de uma composição do homem público e do homem privado, seja ela harmônica ou não. No Brasil, essas figuras tendem a se inverter, ou seja, cada um se assenta em um dos campos e busca tirar proveito do outro. Muitos políticos buscam tirar proveitos próprios, privados, à revelia dos deveres que o mandato público lhes impõem e não limitados aos direitos que seus cargos lhes permitem. Alguns empresários se veem como seres de direito privado, que podem e devem aferir lucro, independentemente dos seus próprios resultados, das condições dadas ou que lhes são atribuídas pelo contexto social. Estes se julgam eternamente vítimas do momento econômico, das indefinições políticas, das flutuações do mercado, das oscilações do câmbio etc. Por todos esses reveses, eles não só entendem que podem aferir lucros indiscriminadamente, como muitas vezes se dão ao direito de comprar privilégios. Selam-se, desse modo, os acordos tácitos do já conhecido toma lá dá cá, do ganha-ganha.

Não se forma assim, como diz Milton Santos, o cidadão pleno, a figura uníssona, resultado da interrelação entre o público e o privado. Decorre daí um estado de privilégios esperado e tolerado por muitos, que não deriva da observância ou exigência dos direitos. Essa condição completamente anômala acarreta situações de perplexidade diante dos direitos e deveres não exercitados e da busca incessante de situações de privilégios que possam redundar no ganho indevido, quer seja no plano econômico ou político.

As atribuições de mérito não transitam neste caso pela aptidão, trabalho, competência, ou pela inovação, mas se escondem nas amarras do compadrio, do conluio pessoal, na usurpação do cargo, na prática de corrupção.

Isso se dá em diferentes esferas, das superiores às menos elevadas, contaminando toda a escala verticalizada de poderes, resultando num canal comprometido pela corrupção de toda a cadeia política e produtiva, abrangendo as esferas pública e privada.

No momento em que vivemos, há no ar uma certa perplexidade, já que o status quo parece ameaçado. Alguma verdade parece estar vindo à tona de forma inesperada, parece transbordar dos tonéis seculares da tolerância silenciosa brasileira. Estarão sendo revelados dados para além do que se sabe? Do que se imagina? Do que se tolera? Certamente a onda de escândalos recentes trouxe para a superfície um plasma de podridão e de pessimismo tamanhos que nos leva ao imobilismo.

Onde estarão nossos líderes, nossos exemplos, nossas fontes de inspiração, nossas referências? Talvez, de fato, elas jamais tenham existido ou, se existiram, não sobreviveram. Certamente elegemos outros modelos, outros valores, outros espelhos para nos refletir, que talvez hoje já não sirvam sequer para nos esconder.

Talvez Milton Santos, um de nossos mais célebres pensadores, tenha razão e venhamos agora a conviver com o temor mais forte que pode nos acometer: o receio de termos de sair pela primeira vez da nossa zona de conforto, para questionar um mundo de direitos aos quais nunca tivemos acesso, porque até hoje optamos por barganhar privilégios.

________________________________________
[1]SANTOS, Milton (1994) “A metrópole e o urbano”, publicada originalmente na Revista Caramelo, número 7. In: Coleção Encontros. Organização Maria Angela P.Leite. Rio de Janeiro: Beco do Azougue Editorial Ltda., 2007. Pág. 101.
 
* Graduada em Comunicação Social, com especialização em Museologia; cursou doutorado em História Social na Universidade de São Paulo. É doutora em Museologia, pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, de Lisboa, Portugal No Brasil desenvolve, pela Expomus, projetos museológicos, socioeducacionais e ambientais, em colaboração com instituições e museus nacionais; além de realizar palestras e conferências de capacitação em museologia e gestão cultural.

Fonte:  http://www.arquidiocesebh.org.br/site/opiniao_e_noticias.php?id_opiniao_e_noticias=11544- 28/09/2015

Entre direitos e privilégios



“No Brasil e no Terceiro Mundo não se criou um cidadão, enquanto o Primeiro Mundo o preparou desde o Iluminismo. O cidadão é a mistura do homem público e do homem privado; nós não temos nenhum dos dois. A classe média foi, na Europa, o sustentáculo da democracia. No Brasil ela não quer direitos, quer privilégios”.
Milton Santos[1]

A afirmação corajosa de Milton Santos nos inspira a refletir sobre o momento de crise que estamos vivendo. Seria fácil atribuí-la a um governo, a um partido, a um presidente, ou mesmo a alguns ou a todos os políticos. Considerando que somos nós que os elegemos, que eles surgem da própria sociedade brasileira e alçam às esferas de representação pública por nós legitimados, fica cada vez mais difícil encontrar os verdadeiros responsáveis, ou melhor, todos os “culpados”.

Talvez o mais simples seja mesmo generalizar, atribuir ou se esquivar de culpas, detectar erros, negar evidências, exigir retratação pública, buscar compensações. É difícil ouvir o outro, tentar entender os argumentos alheios, buscar razão em discursos contrários aos nossos e, mais ainda, reconhecer-se incompetente para enfrentar uma situação de crise que, na essência, é sempre considerada como alheia. Alheia a mim, a você, a todos nós.

Já ouvimos de renomados especialistas e formadores de opinião que nossa crise não é só política ou econômica, mas institucional: de valores, de méritos, de visão de mundo. Aqui já podemos considerar que o campo de análise se amplia e nele poderemos colher novos frutos para o debate.

Recorrendo a Milton Santos, vemos que ele levanta a questão crucial de que o verdadeiro cidadão é o resultado de uma composição do homem público e do homem privado, seja ela harmônica ou não. No Brasil, essas figuras tendem a se inverter, ou seja, cada um se assenta em um dos campos e busca tirar proveito do outro. Muitos políticos buscam tirar proveitos próprios, privados, à revelia dos deveres que o mandato público lhes impõem e não limitados aos direitos que seus cargos lhes permitem. Alguns empresários se veem como seres de direito privado, que podem e devem aferir lucro, independentemente dos seus próprios resultados, das condições dadas ou que lhes são atribuídas pelo contexto social. Estes se julgam eternamente vítimas do momento econômico, das indefinições políticas, das flutuações do mercado, das oscilações do câmbio etc. Por todos esses reveses, eles não só entendem que podem aferir lucros indiscriminadamente, como muitas vezes se dão ao direito de comprar privilégios. Selam-se, desse modo, os acordos tácitos do já conhecido toma lá dá cá, do ganha-ganha.

Não se forma assim, como diz Milton Santos, o cidadão pleno, a figura uníssona, resultado da interrelação entre o público e o privado. Decorre daí um estado de privilégios esperado e tolerado por muitos, que não deriva da observância ou exigência dos direitos. Essa condição completamente anômala acarreta situações de perplexidade diante dos direitos e deveres não exercitados e da busca incessante de situações de privilégios que possam redundar no ganho indevido, quer seja no plano econômico ou político.

As atribuições de mérito não transitam neste caso pela aptidão, trabalho, competência, ou pela inovação, mas se escondem nas amarras do compadrio, do conluio pessoal, na usurpação do cargo, na prática de corrupção.

Isso se dá em diferentes esferas, das superiores às menos elevadas, contaminando toda a escala verticalizada de poderes, resultando num canal comprometido pela corrupção de toda a cadeia política e produtiva, abrangendo as esferas pública e privada.

No momento em que vivemos, há no ar uma certa perplexidade, já que o status quo parece ameaçado. Alguma verdade parece estar vindo à tona de forma inesperada, parece transbordar dos tonéis seculares da tolerância silenciosa brasileira. Estarão sendo revelados dados para além do que se sabe? Do que se imagina? Do que se tolera? Certamente a onda de escândalos recentes trouxe para a superfície um plasma de podridão e de pessimismo tamanhos que nos leva ao imobilismo.

Onde estarão nossos líderes, nossos exemplos, nossas fontes de inspiração, nossas referências? Talvez, de fato, elas jamais tenham existido ou, se existiram, não sobreviveram. Certamente elegemos outros modelos, outros valores, outros espelhos para nos refletir, que talvez hoje já não sirvam sequer para nos esconder.

Talvez Milton Santos, um de nossos mais célebres pensadores, tenha razão e venhamos agora a conviver com o temor mais forte que pode nos acometer: o receio de termos de sair pela primeira vez da nossa zona de conforto, para questionar um mundo de direitos aos quais nunca tivemos acesso, porque até hoje optamos por barganhar privilégios.

________________________________________

[1]SANTOS, Milton (1994) “A metrópole e o urbano”, publicada originalmente na Revista Caramelo, número 7. In: Coleção Encontros. Organização Maria Angela P.Leite. Rio de Janeiro: Beco do Azougue Editorial Ltda., 2007. Pág. 101.

Maria Ignez Mantovani Franco

Graduada em Comunicação Social, com especialização em Museologia; cursou doutorado em História Social na Universidade de São Paulo. É doutora em Museologia, pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, de Lisboa, Portugal.
No Brasil desenvolve, pela Expomus, projetos museológicos, socioeducacionais e ambientais, em colaboração com instituições e museus nacionais; além de realizar palestras e conferências de capacitação em museologia e gestão cultural.
- See more at: http://www.arquidiocesebh.org.br/site/opiniao_e_noticias.php?id_opiniao_e_noticias=11544#sthash.pCHmEbFL.dpuf

Entre direitos e privilégios



“No Brasil e no Terceiro Mundo não se criou um cidadão, enquanto o Primeiro Mundo o preparou desde o Iluminismo. O cidadão é a mistura do homem público e do homem privado; nós não temos nenhum dos dois. A classe média foi, na Europa, o sustentáculo da democracia. No Brasil ela não quer direitos, quer privilégios”.
Milton Santos[1]

A afirmação corajosa de Milton Santos nos inspira a refletir sobre o momento de crise que estamos vivendo. Seria fácil atribuí-la a um governo, a um partido, a um presidente, ou mesmo a alguns ou a todos os políticos. Considerando que somos nós que os elegemos, que eles surgem da própria sociedade brasileira e alçam às esferas de representação pública por nós legitimados, fica cada vez mais difícil encontrar os verdadeiros responsáveis, ou melhor, todos os “culpados”.

Talvez o mais simples seja mesmo generalizar, atribuir ou se esquivar de culpas, detectar erros, negar evidências, exigir retratação pública, buscar compensações. É difícil ouvir o outro, tentar entender os argumentos alheios, buscar razão em discursos contrários aos nossos e, mais ainda, reconhecer-se incompetente para enfrentar uma situação de crise que, na essência, é sempre considerada como alheia. Alheia a mim, a você, a todos nós.

Já ouvimos de renomados especialistas e formadores de opinião que nossa crise não é só política ou econômica, mas institucional: de valores, de méritos, de visão de mundo. Aqui já podemos considerar que o campo de análise se amplia e nele poderemos colher novos frutos para o debate.

Recorrendo a Milton Santos, vemos que ele levanta a questão crucial de que o verdadeiro cidadão é o resultado de uma composição do homem público e do homem privado, seja ela harmônica ou não. No Brasil, essas figuras tendem a se inverter, ou seja, cada um se assenta em um dos campos e busca tirar proveito do outro. Muitos políticos buscam tirar proveitos próprios, privados, à revelia dos deveres que o mandato público lhes impõem e não limitados aos direitos que seus cargos lhes permitem. Alguns empresários se veem como seres de direito privado, que podem e devem aferir lucro, independentemente dos seus próprios resultados, das condições dadas ou que lhes são atribuídas pelo contexto social. Estes se julgam eternamente vítimas do momento econômico, das indefinições políticas, das flutuações do mercado, das oscilações do câmbio etc. Por todos esses reveses, eles não só entendem que podem aferir lucros indiscriminadamente, como muitas vezes se dão ao direito de comprar privilégios. Selam-se, desse modo, os acordos tácitos do já conhecido toma lá dá cá, do ganha-ganha.

Não se forma assim, como diz Milton Santos, o cidadão pleno, a figura uníssona, resultado da interrelação entre o público e o privado. Decorre daí um estado de privilégios esperado e tolerado por muitos, que não deriva da observância ou exigência dos direitos. Essa condição completamente anômala acarreta situações de perplexidade diante dos direitos e deveres não exercitados e da busca incessante de situações de privilégios que possam redundar no ganho indevido, quer seja no plano econômico ou político.

As atribuições de mérito não transitam neste caso pela aptidão, trabalho, competência, ou pela inovação, mas se escondem nas amarras do compadrio, do conluio pessoal, na usurpação do cargo, na prática de corrupção.

Isso se dá em diferentes esferas, das superiores às menos elevadas, contaminando toda a escala verticalizada de poderes, resultando num canal comprometido pela corrupção de toda a cadeia política e produtiva, abrangendo as esferas pública e privada.

No momento em que vivemos, há no ar uma certa perplexidade, já que o status quo parece ameaçado. Alguma verdade parece estar vindo à tona de forma inesperada, parece transbordar dos tonéis seculares da tolerância silenciosa brasileira. Estarão sendo revelados dados para além do que se sabe? Do que se imagina? Do que se tolera? Certamente a onda de escândalos recentes trouxe para a superfície um plasma de podridão e de pessimismo tamanhos que nos leva ao imobilismo.

Onde estarão nossos líderes, nossos exemplos, nossas fontes de inspiração, nossas referências? Talvez, de fato, elas jamais tenham existido ou, se existiram, não sobreviveram. Certamente elegemos outros modelos, outros valores, outros espelhos para nos refletir, que talvez hoje já não sirvam sequer para nos esconder.

Talvez Milton Santos, um de nossos mais célebres pensadores, tenha razão e venhamos agora a conviver com o temor mais forte que pode nos acometer: o receio de termos de sair pela primeira vez da nossa zona de conforto, para questionar um mundo de direitos aos quais nunca tivemos acesso, porque até hoje optamos por barganhar privilégios.

________________________________________

[1]SANTOS, Milton (1994) “A metrópole e o urbano”, publicada originalmente na Revista Caramelo, número 7. In: Coleção Encontros. Organização Maria Angela P.Leite. Rio de Janeiro: Beco do Azougue Editorial Ltda., 2007. Pág. 101.

Maria Ignez Mantovani Franco

Graduada em Comunicação Social, com especialização em Museologia; cursou doutorado em História Social na Universidade de São Paulo. É doutora em Museologia, pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, de Lisboa, Portugal.
No Brasil desenvolve, pela Expomus, projetos museológicos, socioeducacionais e ambientais, em colaboração com instituições e museus nacionais; além de realizar palestras e conferências de capacitação em museologia e gestão cultural.
- See more at: http://www.arquidiocesebh.org.br/site/opiniao_e_noticias.php?id_opiniao_e_noticias=11544#sthash.pCHmEbFL.dpuf

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Pena de morte, imigração e família foram temas por Francisco no Congresso dos EUA

El papa Francisco en el Congreso estadounidens

O discurso do Papa em 10 frases 
 
O papa Francisco no Congresso dos Estados Unidos nesta quinta-feira. / DREW ANGERER (EFE)

O papa Francisco se transformou na tarde desta quinta-feira no primeiro chefe da Igreja Católica a falar perante os congressistas dos Estados Unidos. Em seu discurso, o Pontífice abordou diversos temas. Pediu a abolição da pena de morte e o fim do tráfico de armas. Além disso, falou de imigração e exaltou o papel da família como valor essencial.
ADVERTISEMENT

1. "Se é verdade que a política deve servir à pessoa humana, não pode ser escrava da economia e das finanças”

Essa foi uma das primeiras frases de Francisco no discurso.

2. “Tratemos os demais com a mesma paixão e compaixão com que queremos ser tratados"

Depois dessa frase, Francisco pediu ao Congresso a abolição da pena de morte.

3. "O sonho de Luther King ressoa em nossos corações”

O Papa lembra da marcha que Martin Luther King Jr. encabeçou de Selma a Montgomery, na campanha para realizar o sonho de plenos direitos civis e políticos para os negros nos EUA.

4. "Falo a vocês como filho de imigrantes, como muitos de vocês que são descendentes de imigrantes”

O pontífice pediu compaixão com os imigrantes.

5. "A responsabilidade que temos de proteger e defender a vida humana em todas as etapas do desenvolvimento”

Francisco, em alusão ao aborto.

6. "Diante do silêncio vergonhoso e cúmplice, é nosso dever enfrentar o problema e acabar com o tráfico de armas”

Em meio a aplausos, o Papa pediu que se ponha fim ao tráfico de armas.

7. "Uma nação é considerada grande quando defende a liberdade, como fez Abraham Lincoln”

Francisco destacou a contribuição de norte-americanos como Lincoln, Martin Luther King Jr. e Dorothy Day.

8. “Nenhuma religião é imune a diversas formas de aberração individual ou de extremismo ideológico”

O Papa, referindo-se à violência perpetrada em nome de uma religião.

9. “O desafio ambiental que vivemos e suas raízes humanos nos interessam e afetam a todos”

Francisco aproveitou o discurso para pedir atenção ao planeta.

10. "Não posso esconder minha preocupação com a família, que está ameaçada, talvez como nunca, desde o interior e desde o exterior"

No último trecho do discurso, o Pontífice voltou a exaltar o papel da família como valor essencial.
-------------
Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/24/internacional/1443106218_510761.html

“A Dilma é simplesmente uma trapalhona”

Antônio Delfim Netto
Economista, político e ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento

Entrevista com Antônio Delfim Netto*
 

Eliane Cantanhêde

Delfim diz que a presidente é honesta, mas “tem uma visão do Brasil que não coincide com o País”, classifica a proposta de Orçamento como “barbeiragem” e o pacote fiscal como “fraude”


O ex-ministro, ex-deputado e afiadíssimo economista Delfim Netto, 87 anos, 24 deles no Congresso, como deputado, desfia uma série de adjetivos demolidores contra o pacote fiscal do governo e é implacável com a presidente Dilma Rousseff: “Ela é simplesmente uma trapalhona”.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Delfim classificou o envio de um Orçamento com déficit ao Congresso como “a maior barbeiragem política e econômica da história recente do Brasil” e disse que o pacote é “uma fraude, um truque, uma decepção, não tem corte nenhum, é uma cobra que mordeu o rabo”.

Quanto ao coração do plano: “A CPMF é um imposto cumulativo, regressivo, inflacionário, tem efeito negativo sobre o crescimento e quem paga é o pobre”. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como o sr. vê a situação hoje?

Delfim Netto: Com muita preocupação. As pessoas sabem que a presidente é uma mulher com espírito muito forte, com vontades muito duras, e ela nunca explicou porque ela deu aquela conversão na estrada de Damasco [como sucedeu ao apóstolo Paulo, em Atos dos Apóstolos]. Ela deveria ter ido à televisão, já no primeiro momento, e dizer: “Errei. Achei que o modelo que nós tínhamos ia dar certo e não deu”. Mas, não. Ela mudou sem avisar e sem explicar nada para ninguém. Como confiar?

Como define a conversão na estrada de Damasco?

Delfim Netto: Ela mudou um programa econômico extremamente defeituoso, que foi usado para se reeleger. Em 2011, a Dilma fez um ajuste importante, aprovou a previdência do funcionalismo público, o PIB cresceu praticamente no nível do Lula. Mas o vento que era de cauda e que ajudou muito o Lula tinha mudado e virado um vento de frente.

Os ventos internacionais?

Delfim Netto: Sim. Então, ela foi confrontada em 2012 com essa mudança e com a expectativa de que a inflação ia aumentar e o crescimento ia diminuir e ela alterou tudo. Passou para uma política voluntarista, intervencionista, foi pondo a mão numa coisa, noutra, noutra, noutra... Aquilo tudo foi minando a confiança do mundo empresarial e, de 2012 a 2014, o crescimento vai diminuindo, murchando.

E o uso na reeleição?

Delfim Netto: A tragédia, na verdade, foi 2014, porque ela usou um axioma da política, que diz que “o primeiro dever do poder é continuar poder”. No momento em que ela assumiu isso, ela passou a insistir nos seus equívocos. Aliás, contra o seu ministro da Fazenda, o Guido Mantega, que tinha preparado a mudança, tanto que as primeiras medidas anunciadas pelo Joaquim Levy já estavam prontas, tinham sido feitas pelo Guido.

Então, o sr. discorda da versão corrente de que a culpa foi do Mantega?

Delfim Netto: O Guido não tem culpa nenhuma. E, para falar a verdade, nenhum ministro da Fazenda da Dilma tem culpa nenhuma, porque o ministro da Fazenda é a Dilma, é ela. E o custo da eleição é o grande desequilíbrio de 2014.

Qual o papel do Levy?

Delfim Netto: Como a credibilidade do governo é muito baixa, o ajuste que ele fez encontrou muitas dificuldades, não teve sucesso porque não foi possível dizer que o ajuste era simplesmente uma ponte. 
Joaquim Levy
Atual ministro da Fazenda
A presidente não vive dizendo que é só uma travessia?

Delfim Netto: Travessia sem ponte?

E o pacote fiscal?

Delfim Netto: O primeiro equívoco mortal foi encaminhar para o Congresso uma proposta de Orçamento com déficit. Foi a maior barbeiragem política e econômica da história recente do Brasil. A interpretação do mercado foi a seguinte: o governo jogou a toalha, abriu mão de sua responsabilidade, é impotente, então, seja o que Deus quiser, o Congresso que se vire aí.

A briga interna do governo não é um complicador?

Delfim Netto: A briga interna ocorre em qualquer governo, mas o presidente tem de ter uma coisa muito clara: ele opta por um e manda o outro embora. Um governo não pode ter dentro de si essas contradições, senão vira um Frankenstein.

Quem tem de sair, o Levy, o Nelson Barbosa ou o Aloizio Mercadante?

Delfim Netto: Quem tem de sair é problema da Dilma, mas quem assessorou isso do Orçamento com déficit levou o governo a uma decisão extremamente perigosa e desmoralizadora e isso produziu um efeito devastador.

De tudo o que o sr. diz, conclui-se que o ponto central da crise é que Dilma é uma presidente fraca?

Delfim Netto: Ela tem uma visão do Brasil que não coincide com o Brasil.

Por que o sr. defendia o aumento da Cide, não a recriação da CPMF?

Delfim Netto: O aumento da Cide seria infinitamente melhor. CPMF é um imposto cumulativo, regressivo, inflacionário, tem efeito negativo sobre o crescimento e quem paga é o pobre mesmo. Ele está sendo usado porque o programa do governo é uma fraude, um truque, uma decepção – não tem corte nenhum, só substituição de uma despesa por outra e o que parece corte é verba cortada do outro. Dizem que vão usar a verba do sistema S. Ora, meu Deus do céu! R$ 1 do sistema S [SEBRAE, SESI, SENAC etc.] e produz infinitamente mais do que R$ 1 na mão do governo. Alguém duvida de que o governo é ineficiente?

A presidente Dilma...

Delfim Netto: Acho que não, nem ela. Ela sabe disso, só não tira proveito.

E a Cide?

Delfim Netto: A CPMF é coisa do século 19, a Cide é do século 21, porque você corta consumo de combustível fóssil, reduz emissão de CO2 e vai salvar um setor que você destruiu, o sucroalcooleiro. Tem 80 empresas quebrando por conta dos erros da política econômica. Na hora que você fizer isso, toda essa indústria renasce.

Quais as chances de o pacote passar?

Delfim Netto: Eles vão ter de negociar com a CUT e com o PT, que é o verdadeiro sindicato do funcionalismo público. Então, é quase inconcebível e vai ter uma greve geral que vai reduzir ainda mais a receita. É uma cobra que mordeu o rabo. O aumento de imposto é 55% do programa; o corte, se você acreditar que há corte, é de 19%; e a substituição interna representa 26%. Ou seja, para cada real que o governo finge que vai economizar com salários, ele quer receber R$ 3 com as transferências e o aumento de imposto. No fundo, o esforço é nulo.

O sr. diz que os grandes problemas começam em 2014, mas muitos analistas respeitados dizem que começam antes. Qual a responsabilidade do governo Lula?

Delfim Netto: Até 2011, o vento de cauda era de tal ordem, a entrada da China foi de tal ordem, que dava a sensação de que você tinha entrado no paraíso e o Lula aproveitou bem para um crescimento mais inclusivo, mais equânime. Depois, eu estou convencido de que foi a intervenção extravagante, extraordinária, exagerada no sistema econômico que gerou tudo isso. Mexeu na eletricidade, mexeu nos portos, foi criando um estado de confusão que matou o “espírito animal” dos empresários, com uma queda dramática do nível de investimento e do nível de crescimento.

A diferença é que o Lula nunca fez questão de ser de esquerda, mas a Dilma, que vem do velho PDT brizolista, nacionalista e estatizante, tem esse compromisso?

Delfim Netto: O Lula é um pragmático, uma inteligência extraordinária. Já a Dilma tem, sim, o velho problema do engenheiro, o engenheiro Brizola, que por onde passou destruiu tudo, destruiu de tal jeito o Rio Grande do Sul que ninguém mais salva. Ela tem uma ideia intervencionista, realmente não acredita no sistema de preços. Veja essa escolha dela no pré-sal, é inteiramente arbitrária. Foi dar para a Petrobrás uma tarefa muito acima do que ela é capaz. Nada mais infantil no Brasil do que a sua esquerda, facilmente manobrável.

Quem é a esquerda no Brasil hoje?

Delfim Netto: No Brasil de hoje, esquerda e direita são sinais de trânsito. O fato é que a Dilma é uma intervencionista e foi a crença de que ela não mudou, e de que a escolha do Joaquim foi simplesmente um expediente para superar uma dificuldade, que não deu credibilidade ao plano de ajuste.

Além de perder credibilidade junto aos empresários, a presidente também está perdendo apoios na base social do PT.

Delfim Netto: Como ela não explicou que errou e por que iria mudar a política econômica, o 1/3 que votou nela se sentiu traído de verdade e o 1/3 que votou contra ela disse: “Viu? Eu não disse?”. Sobraram para ela só 8%.

Em quem o sr. votou?

Delfim Netto: Na Dilma. Mas acho que o Aécio era perfeitamente “servível”. Teria as mesmas dificuldades que a Dilma enfrenta, porque consertar esse negócio que está aí não é uma coisa simples para ninguém, mas ele entraria com uma outra concepção de mundo, faria um ajuste com muito menos custo e a recuperação do crescimento teria sido muito mais rápida.

Se a presidente está com 8% de popularidade, pior até que o Collor, o impeachment seria uma solução?

Delfim Netto: Se houver algum desvio de conduta materialmente provado, o impeachment é um recurso natural dentro da Constituição. Então, não há nenhuma quebra de institucionalidade, não tem nenhum problema. Agora, o Brasil não é nenhuma pastelaria e não é nenhuma passeata cívica de verde e amarelo nem panelaço que decide se vai ter ou não impeachment. Não há recall de presidentes. A sociedade votou, que pague os seus erros para aprender e volte em 2018. Está em segunda época, volte em 2018 para fazer nova prova.

Então, o sr. não votaria na Dilma novamente em 2018, se ela pudesse ser candidata?

Delfim Netto: Não, primeiro porque ela não pode ser candidata. É preciso dizer que eu acho a Dilma absolutamente honesta, com absoluta honestidade de propósito, e que ela é simplesmente uma trapalhona.

Numa eventualidade, o vice Temer seria adequado para a Presidência como foi o Itamar Franco?

Delfim Netto: Acho que sim. Nós somos muito amigos. O Temer tem qualidades, é uma pessoa extraordinária, um gentleman e um sujeito ponderado, tem tudo, mas eu refugo essa hipótese enquanto não houver provas, e vou te dizer: ele também.
--------------------
 * Economista e professor emérito da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo. Ocupou os ministérios da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento. Foi deputado federal por cinco mandatos.
Fonte: O Estado de S. Paulo – Economia – Domingo, 20 de setembro de 2015 – Pg. B5 – Internet: clique aqui.