sábado, 2 de julho de 2011

Clássico do século 20

50 ANOS DEPOIS DA MORTE
Imagem da Internet -Hemingway

REGINALDO PUJOL FILHO*

O mais importante nesta data é ler mais um pouco do que Hemingway escreveu e que sobreviveu sem depender de vídeo vazando na internet, de Facebook ou de TwitterUma das coisas que eu sei sobre Ernest Hemingway, além do fato de a data de hoje marcar 50 anos da morte dele, é que o vencedor do Prêmio Nobel de 1954 acreditava no seguinte: escrever com verdade. E a verdade é que o convite pra falar sobre a passagem desse 2 de julho acabou me pegando de susto, porque, sejamos sinceros, não sou especialista em Hemingway. Não li toda sua obra, não conheço toda sua vida.
E foi por isso que topei escrever aqui.
Porque, apesar de não ser um profundo conhecedor da bibliografia e da vida dele, de não saber quanto calçava, sua comida preferida ou se tinha um tique nervoso muito esquisito, percebi que, mesmo assim, eu tenho minhas relações, opiniões e até algumas ideias sobre esse escritor que se matou há cinco décadas com um tiro de espingarda. E, ao me dar conta disso, das minhas ideias sobre o assunto, comecei a achar que, de fato, Hemingway é dessas coisas que, das maneiras mais variadas, faz parte da minha vida. E da sua também. Aí me senti em condições de escrever não com verdades históricas, sem querer ficar listando aspectos biográficos, ou curiosidades do Google, como “Hemingway escrevia de pé”. Mas, ao contrário disso, com o tipo de verdade que o autor buscava em seus textos, uma verdade pessoal sobre o tema. Sobre Hemingway pra mim.
Um exemplo da presença dele é que eu poderia ficar horas falando só do simples tormento que esse cara significa pra quem é ou foi ou será aspirante a escritor. Já passou por uma oficina literária? Já se meteu a mostrar seus textos pra alguém? Com certeza então você ouviu falar da teoria do iceberg, da história submersa, dos contos e dos diálogos do Hemingway e tentou reproduzir, tentou absorver e, no final das contas, só tentou.
Frustrações à parte, se a importância do autor ficasse restrita a lições e exemplos literários, vamos combinar, sequer essas linhas aqui estariam sendo lidas por você. Assunto pequeno, talvez. Só que, me parece, o buraco é mais embaixo. Bem mais embaixo. Mesmo quem não escreve, mesmo quem não é chegado em livros, se for perguntado agora, na rua, se já ouviu falar de O Velho e o Mar, vai, no mínimo, olhar com cara de “isso não me é estranho”.
E não é mesmo. E também não é irrelevante.
Hemingway, acreditem ou não, até num país de analfabetos funcionais, arrisco a dizer, é pop. Guardadas as proporções, me parece um tanto Cervantes século 20. Assim como o pai do Quixote, o autor americano se transformou nessas figuras míticas, até pra quem não é um leitor aprofundado (ou inclusive pra quem não o conhece). Um nome que é sinônimo de escritor e o tipo de artista – também como Kafka ou Dante – que gera um vocabulário próprio e lendas muitas que giram ao redor de si e das suas criações. São escritores cujos personagens se tornam pessoas vivas pra muita gente e, eles mesmos, viram personagens do imaginário coletivo. Estou exagerando?
Acho que não.

"Mas dá sim uma alegriazinha pensar
que um escritor dos bons pode
ter todo esse significado, 50 anos depois da sua morte,
sem ter Facebook. Ou Twitter.
E que alguém ainda pode ser pop
sem depender de um vídeo
vazando na internet."



Ernest Hemingway faz parte de um time de grandes autores que, de tão grandes, muitas vezes acabam se tornando vítima de uma espécie de injustiça: a de se exaltar mais as peculiaridades do homem que a obra. Não que ele não tenha dado motivos pra isso. De ser sparring com Miró em Paris a caçar leões na savana; da participação na I Guerra e na Guerra Civil Espanhola ao seu suicídio, Hemingway parecia estar escrevendo os próprios capítulos e reforça, nesse sentido, a comparação com Cervantes que foi escravo, que perdeu uma das mãos, que escreveu na prisão. O tipo de escritor que, produzindo ou não metaficção, se transforma em personagem. Torna-se latente nas nossas memórias.
Continua achando exagero? Pois repara no seguinte.
Há duas semanas fui ao cinema. Era sábado à noite, em um shopping, e uma sala inteira, lotada do melhor exemplo do público pipoca, foi às gargalhadas na cena em que Gil (protagonista de Meia-noite em Paris, de Woody Allen) se encontra com Hemingway. Todos ali tinham lido Por Quem os Sinos Dobram ou Adeus às Armas? Admiram as narrativas curtas do autor? Estão cursando mestrado em literatura? Claro que não. Mas Hemingway, apesar do propalado analfabetismo funcional do Brasil e dos raros-livros-por-habitante lidos anualmente no país, era um símbolo comum pra todos os espectadores. Tinha significado (sabe-se lá qual ou quais) pra cada um na plateia. E acho que isso não é pouca coisa não.
Claro, não sou louco. Não estou querendo negar aqui que é mais provável que nove em cada dez pessoas, hoje em dia, conheça melhor a produção do Justin Bieber do que do Ernest Hemingway. Não duvido que seja assim. Mas dá sim uma alegriazinha pensar que um escritor dos bons pode ter todo esse significado, 50 anos depois da sua morte, sem ter Facebook. Ou Twitter. E que alguém ainda pode ser pop sem depender de um vídeo vazando na internet.
Mas também dá um pouco de medo. De que Hemingway possa ser só mais uma palavra esvaziada de sentido como tantas outras repetidas à exaustão nos dias atuais. Um autor muito conhecido, mas pouco lido. Uma citação fácil e bonita de se fazer. Uma curiosidade pra contar pros amigos. Por via das dúvidas, acredito que o mais importante nessa data, depois de assumir que não sou expert no assunto, seja ler mais um pouco do que ele escreveu. E é o que eu vou fazer.
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* Escritor, autor de “Azar do Personagem” (Não Editora, 2007)
Fonte: ZH/CULTURA on line, 02/06/2011

O muro

CLÁUDIA LAITANO*
“THE DIVISION BELL” (1994), DO PINK FLOYD - Imagem da Internet
Roger Waters nasceu em 1943, na Inglaterra, durante a II Guerra. Seu pai morreu em combate, na Itália, antes de o filho caçula completar um ano. Aos 15, o mesmo menino politicamente engajado que já fazia campanha pelo desarmamento nuclear era um aluno deslocado e ressentido. “Odiei cada segundo passado na escola”, contou ele em uma entrevista. “O regime era opressivo, e as mesmas crianças que sofriam bullying dos colegas também eram humilhadas pelos professores.” Anos depois, o garoto que cresceu odiando a guerra, a escola e todo tipo de poder exercido pela força fundou uma banda chamada Pink Floyd e contou sua história em um disco que se tornaria um dos mais influentes e bem-sucedidos da história do rock.
The Wall, o disco, foi lançado em 1979. O filme, dirigido pelo cineasta britânico Alan Parker e com Bob Geldof no papel do roqueiro atormentado e depressivo, é de 1982. Em julho de 1990, quando o muro mais famoso do mundo já havia virado poeira e relíquias, Roger Waters apresentou em Berlim um espetáculo monumental baseado no disco, concebido para celebrar o fim de uma era em que os muros da vergonha não eram apenas metafóricos. Em 2010, o ex-líder do Pink Floyd retomou The Wall em uma turnê mundial – e é uma versão visualmente grandiosa desta ópera-rock autobiográfica que chega a Porto Alegre em março do ano que vem. (Leia mais no Segundo Caderno de hoje.)

"O problema é que tanto a rigidez
dos anos 50 quanto o vácuo
de autoridade da nossa época
parecem extremos de desequilíbrio."

Alguns dos temas tratados em The Wall – a banalidade do mal, a estupidez da guerra, a solidão da fama – mantêm-se atuais como se as músicas tivessem sido escritas ontem. Mas a canção que de certa forma sintetiza o espírito de rebelião juvenil do disco, Another Brick in the Wall, tornou-se curiosamente anacrônica em tempos de escolas conflagradas pela indisciplina e com dificuldade para legitimar qualquer tipo de hierarquia em sala de aula. A letra que fala de professores que humilham os alunos (“No dark sarcasm in the classroom”) e tentam controlar o que eles pensam (“We don’t need no thought control”) parece fazer menos sentido agora do que há 50 anos, quando Roger Waters frequentava a escola. O problema é que tanto a rigidez dos anos 50 quanto o vácuo de autoridade da nossa época parecem extremos de desequilíbrio. Qualquer adolescente de hoje provavelmente ainda entende, e assina embaixo, um refrão que diz: “Hey, teachers, live the kids alone” (algo como “ô, professor, larga o pé dos alunos”), mas o tempo parece ter corroído o sentido original da frase, que em vez de grito de libertação de alunos oprimidos pode facilmente soar como a ordem de um estudante mimado para o sujeito atônito lá na frente, tentando bravamente convencer seus alunos de que eles têm, sim, alguma coisa para aprender com os adultos: “Ô, psor, não enche o nosso saco!”.
Nos anos 90, um gaiato compôs uma divertida versão de Another Brick in the Wall com a letra do Atirei o Pau no Gato (“Ei, Chica, deixa o gato em paz...”). Em 2011, não seria surpreendente uma versão do clássico de Roger Waters que invertesse totalmente os papéis de oprimidos e opressores e cantasse, como um lamento: “Hey, kids, leave the teacher alone!”.
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* Colunista da ZH
Fonte: ZH on line, 02/07/2011

"Inteligência sem emoção não funciona"

ENTREVISTA
George Vittorio Szenészi

 MÉTODOS
Szenészi ensina técnicas capazes de eliminar emoções
que atrapalham o processo de decisão


O psicoterapeuta diz como a capacidade de lidar bem com os sentimentos ajuda a ter sucesso na carreira e assegura que as empresas que constroem ambientes harmoniosos são mais produtivas

Cilene Pereira

A maioria dos estudos realizados para descobrir o perfil do profissional de sucesso revela que ele deve ser capaz de se relacionar bem com os companheiros de trabalho. Isso implica habilidade para ouvir, falar de maneira clara, evitar rompantes de irritação ou outras situações desagradáveis e compreender as emoções do outro. Ou seja, ter o que os especialistas chamam de inteligência emocional no trabalho. Afinal, não basta mais apenas ser um profissional com excelente conhecimento sobre sua área. É preciso saber lidar com suas emoções – e com a dos outros – para que o desempenho seja melhor.
Trata-se de um conceito cada vez mais debatido no mundo do trabalho. Está comprovado que quanto mais os funcionários trabalham em harmonia, maior a produtividade. Consequentemente, mais significativos são os lucros. “Estamos assistindo a uma mu¬dança importante. No passado, montadoras como a Ford e a Volvo tiveram influência como modelos no processo produtivo. Hoje, grandes empresas de tecnologia estão estabelecendo novos exemplos para as organizações humanas”, diz o psicoterapeuta George Vittorio Szenészi, 64 anos. Consultor, participante de programas e palestras de desenvolvimento para executivos e profissionais e coaching emocional – ajuda na administração de emoções no desempenho pessoal e profissional –, ele deu a seguinte entrevista à ISTOÉ, de seu consultório, em Florianópolis (SC).
"Uma pessoa em estado de irritação não está
em condição emocional própria para tomar decisões"

Istoé - No que se concentram os estudos de inteligência emocional?
George Vittorio Szenészi -  Eles buscam entender o peso e os efeitos que as emoções têm na habilidade de cada um para lidar com o cotidiano pessoal e profissional.

Istoé - Qual a relação do conceito com o mundo do trabalho?
George Vittorio Szenészi -  Os estudos apontam que os sentimentos, os valores e as preferências individuais e os relacionamentos têm impacto fundamental na vida pessoal e profissional. Indicam ainda que a performance não depende apenas do quociente de inteligência (QI): pessoas com QI alto podem ter menos sucesso no trabalho do que aqueles com QI inferior à média.

Istoé - O que caracteriza um profissional sem inteligência emocional para o trabalho?
George Vittorio Szenészi - Pessoas com inteligência emocional pouco desenvolvida têm dificuldade para estabelecer uma relação harmônica com os outros. Podem ser incapazes de ouvir. E esse é um grande desafio – elas têm imensa dificuldade para abrir mão temporariamente de suas convicções apenas para entender os outros.

Istoé - Há outras marcas?
George Vittorio Szenészi - É comum não reconhecerem suas emoções. E essa habilidade é fundamental para um bom profissional. Ele deve saber quando está sob o domínio de sentimentos e que, por isso, precisa evitar decisões, adequar comportamentos e mudar atitudes. Uma pessoa em estado de euforia, irritação ou frustração não está em condição emocional própria para tomar decisões.

Temos que aprender a capacidade
 de fazer uma emoção desagradável
desaparecer rapidamente.
Istoé - Qual a relação entre as emoções e as decisões?
George Vittorio Szenészi - Há ligações entre os circuitos cerebrais responsáveis pelo processamento das emoções e os circuitos do raciocínio e da tomada de decisões. O que podemos afirmar é que inteligência sem emoção não funciona.

Istoé - Por quê?
George Vittorio Szenészi - As emoções fornecem os critérios norteadores do processo racional. Toda decisão se dá num “molho emocional” no qual se situam as preferências, os impactos das experiências passadas, os valores pessoais e organizacionais, critérios como urgência ou qualidade. Não existe inteligência efetiva sem vida emocional efetiva. Pessoas emocionalmente instáveis tomam decisões, frequentemente, inadequadas.

Istoé - Como age um profissional com pouca inteligência emocional no relacionamento com os colegas de trabalho?
George Vittorio Szenészi - Ele possivelmente não sabe lidar de maneira compreensiva com a emoção dos outros. Enxerga mais a si do que o outro. Muitos têm dificuldade de saber quando o outro está num momento para ouvi-lo e perdem excelentes oportunidades para se calar ¬– e falam, sem perceber que sua fala não está chegando ao principal “órgão decisor” de qualquer um – o coração.

Istoé - Por que parece haver tantos indivíduos com baixa inteligência emocional em cargos de chefia?
George Vittorio Szenészi - Há alguns fatores envolvidos nisso. Se sou um diretor de uma empresa e não tenho sensibilidade para essa questão, não vou reparar que um gerente meu, por exemplo, não trata bem sua equipe. Em geral, essas pessoas trazem resultados, o que faz com que a companhia releve sua dificuldade de relacionamento. Mas aí reside um grande equívoco. Se o gerente usasse mais sua inteligência emocional, sua equipe produziria mais com menos estresse, com mais energia e utilizando seu tempo com maior eficácia.

Istoé - O que o subordinado de um chefe sem QI emocional pode fazer?
George Vittorio Szenészi - Ele deve usar a sua inteligência emocional para entender como seu superior funciona, o que precisa fazer para ser ouvido, como criar momentos para tratar do tema que deseja.

Istoé - As empresas estão mais atentas ao peso dos sentimentos no desempenho de seus funcionários?
George Vittorio Szenészi - Estão mais atentas a certos aspectos da questão, como os relacionamentos, a solução de conflitos e o desenvolvimento de lideranças. Não me parece que olhem especificamente para os sentimentos, a não ser nas pesquisas de satisfação no trabalho, que com frequência geram mais relatórios que medidas efetivas. Olham para a motivação, mas nessa área boa parte ainda busca correções por meio de “palestras de motivação”. Desconhecem que a motivação que faz diferença é a oriunda das preferências, dos desejos pessoais e dos estilos de cada um, e não de um palestrante que transfere o seu entusiasmo para os ouvintes.

Istoé - O que as companhias perdem em não contemplar esse aspecto?
George Vittorio Szenészi - Perdem sua energia – a disposição de cada colaborador – , seu tempo – mal usado pelos desgastes humanos e menor qualidade do trabalho – , e seu dinheiro, investido nas pessoas que oferecem menos do que poderiam. Se uma companhia constrói um ambiente que auxilia seus colaboradores a lidar com seu lado emocional – o que significa ajudá-los a saber o que fazer com as emoções ruins, a ouvir, a falar, a compreender o outro, a desenvolver a paciência – , certamente irá crescer muito mais. Se o ser humano ficar mais livre para expressar sua alegria e bom humor, seu afeto e prazer com coisas da vida organizacional, a sua criatividade, inventividade, flexibilidade e a saúde física e mental terão ganhos extraordinários.

Istoé - Há como medir o que elas ganhariam investindo no fortalecimento emocional dos funcionários?
George Vittorio Szenészi - É difícil mensurar. Mas cerca de 70% dos problemas têm relação com dificuldades de comunicação, por exemplo. Muitos chefes não sabem ouvir, não têm clareza na comunicação, distorcem informações, funcionam mais por julgamentos do que por observações, valem-se da autoridade mais do que da persuasão informada, buscam a obediência mais do que o compromisso da equipe. Porém, em equipes que trabalham seu equilíbrio emocional, a produtividade é maior.
"Crianças criadas ouvindo regras que impediram a manifestação
dos sentimentos têm mais dificuldade de lidar com eles"

Istoé - O que leva uma pessoa a não desenvolver inteligência emocional?
George Vittorio Szenészi - Temos que entrar na história das emoções para chegar a essa questão. Trata-se de um processo que começou a ser desenvolvido há milhões de anos a fim de garantir respostas rápidas para a sobrevivência da espécie. A emoção é uma reação do corpo em resposta a eventos da vida. Reagimos com emoções quando estamos diante de situações interpretadas pelo cérebro como oportunidades que apoiam a vida pessoal e a continuidade do indivíduo e da espécie ou como ameaças à sua integridade. São alarmes que avisam e nos predispõem para a ação. Quando agradáveis, nos dizem para continuar. Quando desagradáveis, nos avisam que algo ameaça a integridade da vida ou da continuidade da espécie. Foram úteis no tempo dos predadores e das forças desconhecidas da natureza. A construção da civilização interferiu nisso.

Istoé - De que maneira?
George Vittorio Szenészi - As sociedades criaram normas de “boa educação”, incluindo a regulação da manifestação das emoções. A raiva, o medo, o amor, começaram a ser mediados pelos códigos de boa conduta e até pela religião. Quando o bebê começa a manifestar raiva, por exemplo, é ensinado com um tapa na mão que não pode ter esses acessos.

Istoé - Qual a consequência disso?
George Vittorio Szenészi - O ser humano desenvolveu outras formas de ter sua vida emocional. Descobriu que podia ter medo e raiva, mas sem mostrar. E criou emoções substitutas, socialmente aceitas. Em vez da raiva, surgiram o ressentimento, a mágoa, a irritação e o ódio, às vezes o ciúme ou a arrogância. Para substituir o medo veio a ansiedade, a indecisão. No lugar da tristeza, a saudade, a solidão.

Istoé - Esses sentimentos são piores do que os outros?
George Vittorio Szenészi - Sim. As emoções naturais, como a raiva, a alegria, são intensas. Surgem, ativam o corpo para reagir e desaparecem. As que as substituem são menos intensas, porém ficam por dias, meses, anos. Os sentimentos substitutos continuam lá, nos pedindo para serem trabalhados para que possam chegar ao fim. Eles impedem que os eventos que os guardam na memória sejam integrados ao acervo de experiências que geram a autonomia, a flexibilidade e as capacidades que aumentam nossa habilidade de lidar com a vida.

Istoé - Por que alguns têm mais inteligência emocional do que outros?
George Vittorio Szenészi - Faz parte da educação que cada um teve na infância. Crianças que foram ensinadas a lidar com as emoções, para as quais foi permitido que os sentimentos naturais viessem à tona e ao mesmo tempo aprenderam a administrar essas emoções colocando-as sob a orientação do respeito a si, ao outro e à coletividade, tornam-se adultos com maior inteligência emocional. As que foram criadas ouvindo regras que impediram a manifestação dos sentimentos apresentam mais dificuldade de lidar com seus estados emocionais.

Istoé - Como usar as emoções de maneira adequada?
George Vittorio Szenészi - Temos que aprender a capacidade de fazer uma emoção desagradável desaparecer rapidamente. Veja o problema da indecisão: não é a análise das alternativas que vai fornecer a solução. O problema é a indecisão em si, que é um medo não expresso. Elimine o sentimento da indecisão e a sua mente, acalmada, ficará livre do medo oculto e você tomará a melhor decisão.

Istoé - Quais os métodos que ajudam a fazer isso?
George Vittorio Szenészi - Há técnicas e práticas como a meditação capazes de dissipar sentimentos ruins muito rapidamente. Elas ajudam a olhar para o evento da forma que teria acontecido se tudo tivesse dado certo.
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FONTE: REVISTA ISTO É  on line - N° Edição: 2173 01.Jul.11

Como a idade faz nosso cérebro florescer



 A ciência conseguiu identificar a
base neurológica da sabedoria.
A partir da meia-idade as pessoas
podem até esquecer nomes, mas
tornam-se – acredite –
mais inteligentes

Marcela Buscato. Com Bruno Segadilha e Teresa Perosa

A partir de um certo momento da vida, que, para a maioria de nós, começa depois do aniversário de 40 anos, a grande questão neurológica se resume a uma pergunta: aonde diabos foram parar todos os nomes que eu esqueço? No início, desaparece o nome de uma atriz famosa. Depois, some o nome dos filmes que ela fez. Mais adiante, você não consegue achar no mar de neurônios o nome do famoso marido dela, muito menos o do outro ator, manjadíssimo, com quem ela contracenou em seu trabalho mais célebre. A débâcle ocorre no almoço de domingo em que você se percebe, diante da cara divertida de seus filhos, tentando explicar: “Aquele filme, com aquela atriz australiana, casada com aquele outro ator...”.
Essa, você já sabe – ou vai descobrir dentro de algumas décadas –, é a parte chata de um cérebro que bateu na meia-idade. Ela vem junto com muitas piadas e uma dose elevada de ansiedade em relação ao futuro. O que você não sabe, mas vai descobrir nas próximas páginas, é que existe outro lado, inteiramente positivo, das transformações cerebrais trazidas pelo tempo. “Conforme envelhecemos, o cérebro se reorganiza e passa a agir e pensar de maneira diferente. Essa reestruturação nos torna mais inteligentes, calmos e felizes”, diz a americana Barbara Strauch, autora de O melhor cérebro da sua vida. O livro, recém-lançado no Brasil pela editora Zahar, reúne argumentos que fazem a ideia de envelhecer – sobretudo do ponto de vista intelectual – bem menos assustadora do que costuma ser.
Editora de saúde do jornal The New York Times, um dos mais influentes dos Estados Unidos, Barbara resolveu investigar o que estava acontecendo com seu cérebro. Aos 56 anos, estava cansada de passar pela vergonha de encontrar um conhecido, lembrar o que haviam comido na última vez em que jantaram juntos, mas não ter a mínima ideia de como se chamava o cidadão. Queria entender por que se pegava parada em frente a um armário sem saber o que tinha ido buscar. Barbara não entendia como o mesmo cérebro que lhe causava lapsos de memória tão evidentes decidira, nos últimos tempos, presenteá-la com habilidades de raciocínio igualmente surpreendentes. Ela sentia que, simplesmente, “sabia das coisas”, mas, ao mesmo tempo, se exasperava com a quantidade imensa de nomes e referências que pareciam estar sumindo na neblina da memória. Como pode ser?

A capacidade de manter informações enraizadas
em nossa mente não sofre dano algum
com a passagem do tempo

É provável que essa mesma pergunta já tenha passado pela cabeça de muitos que chegaram aos 40 anos rumo às fronteiras da meia-idade, um período cada vez mais dilatado em que podemos passar um tempo enorme de nossa existência. Com o aumento da expectativa de vida, a fase intermediária da vida, entre os 40 e os 68 anos, tornou-se uma espécie de apogeu. Nesses anos é possível aliar o vigor reminiscente da juventude à sabedoria da velhice que se insinua – desde que se saiba identificar, e abraçar, as mudanças que acometem o cérebro maduro. Ele já não é o mesmo que costumava ser. Mas as mudanças o transformaram num instrumento melhor. “Para o ignorante, a velhice é o inverno; para o sábio, é a estação de colheita”, diz o Talmude.
A jornalista Marília Gabriela, considerada a melhor entrevistadora do país, é especialista nas delícias e nos suplícios de um cérebro de meia-idade: “Eu não sei se é a idade ou se é o excesso de informações, mas eu esqueço o que as pessoas me dizem”. Aos 63 anos, Gabi, como é mais conhecida, pode até se esquecer de detalhes de conversas, mas mantém o raciocínio afiado para encurralar políticos e celebridades nos três programas apresentados por ela semanalmente. “Hoje, sou capaz de fazer análises rápidas sobre aspectos que as pessoas nem precisam me explicar”, afirma. “Leio nas entrelinhas, pego pelo olhar.”
A nova ciência do envelhecimento, retratada por Barbara em seu livro, conseguiu decifrar o caráter das mudanças por trás dessas percepções aparentemente contraditórias. Os pesquisadores aproveitaram a popularização das técnicas de ressonância magnética – nos últimos 15 anos, o número de estudos aumentou dez vezes – para flagrar o cérebro em pleno funcionamento. Eles descobriram que, sim, há um desgaste natural das células nervosas como se pensava. Mas ele é localizado e circunscrito, assim como seus prejuízos à mente.
Um estudo feito pela equipe do neurocientista americano John Morrison, da Escola de Medicina Monte Sinai, em Nova York, analisou o que acontece com alguns pequenos botões localizados no corpo dos neurônios. Eles ajudam a captar as informações. Os cientistas descobriram que apenas um tipo desses botões sofre com o envelhecimento. São os menores, envolvidos no processamento de novas informações – onde parei o carro, onde estão as chaves ou como chama a nova namorada do meu amigo? Quase 50% desses receptores perdem a atividade. Mas outro tipo, encarregado de lembrar de grandes acontecimentos e de informações enraizadas em nossa mente, como habilidades profissionais, não sofre dano algum.
Se alguns neurônios podem ser danificados pelo tempo, há outros – até mesmo regiões inteiras do cérebro – que passam a funcionar melhor. “O raciocínio complexo, usado para analisar uma situação e encontrar soluções, é aprimorado”, diz o psiquiatra americano Gary Small, diretor do Centro de Envelhecimento da Universidade da Califórnia em Los Angeles.
Aos 49 anos, o artista plástico Vik Muniz está no auge de sua carreira. O sucesso, claro, é consequência da carreira produtiva iniciada aos 20 anos. Mas as habilidades aprimoradas por seu cérebro ao longo dos anos também têm seu quinhão de influência sobre o sucesso recente. Em 2008, foi o primeiro brasileiro a organizar uma mostra no museu de arte moderna de Nova York, o MoMa. Em 2007, começou o projeto Fotografias do Lixo no Jardim Gramacho, uma comunidade de catadores de lixo no Rio de Janeiro. Muniz recriou os personagens que encontrou e produziu algumas de suas mais belas obras. O processo de trabalho foi filmado e virou o documentário Lixo extraordinário, que concorreu ao Oscar da categoria neste ano. “Agora, sou uma pessoa mais focada e objetiva. Vou diretamente aos assuntos, não tenho tempo a perder”, diz Muniz. “Em poucos minutos de conversa já sei, por exemplo, com quem conseguirei desenvolver uma relação mais íntima.”
Um casal de pesquisadores comprovou o que Barbara, Gabi e Muniz sentem na prática. Os psicólogos americanos Warner Schaie e Sherry Willis, professores da Universidade de Washington, criaram em 1956 um projeto de pesquisa para acompanhar o desenvolvimento de 6 mil voluntários durante décadas. Esse tipo de estudo é o mais preciso que existe, uma vez que permite aos cientistas avaliar quanto uma pessoa amadureceu emocionalmente e quais habilidades cognitivas aprimorou.
A cada sete anos, Warner e Sherry submetiam os voluntários a uma bateria de testes de inteligência. Eles tinham de responder a questões que mediam a habilidade verbal (encontrar sinônimos para uma palavra), a memória verbal (lembrar palavras lidas em uma lista), a orientação espacial (virar símbolos e objetos), a capacidade de resolver problemas (completar sequências lógicas) e a habilidade numérica (problemas de adição e subtração).

Entre os 40 e os 60 anos,
as habilidades verbal
e de resolução de problemas
melhoram muito

A compilação de anos de estudo mostrou que os voluntários tiveram melhor desempenho em três habilidades – verbal, espacial e resolução de problemas – entre os 1940 anos e 1960 anos. Após esse período, havia um declínio nítido na pontuação dos voluntários. Mas cada pessoa apresentava um declínio maior em uma ou duas habilidades, nunca em todas as cinco.
No auge da vida
Pesquisadores acompanharam 6 mil voluntários por 50 anos. Descobriram que habilidades associadas à inteligência chegam ao ápice na meia-idade
Fontes: Schaie, K. W. & Zanjani, F. (2006). Intellectual development across adulthood,
In c. Hoare (Ed.), Oxford handbook of adult development and learning. (pp. 99-122)
 New York: Oxford University Press

As transformações do cérebro que explicam a melhora das habilidades cognitivas durante a meia-idade estão entre as descobertas mais interessantes da ciência nos últimos tempos. Elas revelam as origens biológicas da sabedoria trazida pela maturidade. Os cientistas descobriram que a facilidade para raciocínios complexos pode ser explicada por mudanças físicas no cérebro. A camada de mielina, um tipo de gordura que reveste as células nervosas e faz com que as informações viagem mais rápido, aumenta progressivamente com o passar dos anos e atinge seu pico por volta dos 50 anos. “No começo da vida, os circuitos motores e os encarregados pela fala recebem a maior parte da mielina”, diz o neurologista George Bartzokis, pesquisador da Universidade da Califórnia, responsável pela descoberta. “À medida que envelhecemos, os circuitos que permitem analisar contextos e que nos fazem ficar mais espertos são os que recebem mais mielina.”
Os pesquisadores também descobriram que, conforme envelhecemos, mudamos o padrão de ativação cerebral. Isso significa que acionamos áreas diferentes das usadas anteriormente para fazer as mesmas tarefas. A região frontal do cérebro, encarregada da racionalidade, passa a concentrar a maior parte das atividades. A área posterior da cabeça, onde estão algumas das estruturas ligadas a nossas respostas emocionais, é acionada com menos frequência. Outra mudança significativa: para realizar a mesma tarefa de adultos jovens (de até 30 anos), os mais velhos usam mais áreas do cérebro. Em vez de usar regiões de apenas uma metade do cérebro, passam a usar as duas. Os cientistas ainda não estão certos sobre o que essas mudanças representam. Há duas possibilidades. A primeira, menos agradável, é que o cérebro esteja ficando velho a ponto de não reconhecer mais as áreas encarregadas de cada atividade. A segunda hipótese é mais reconfortante: o cérebro pode, sim, estar ficando velho. Mas, ao redirecionar funções para áreas diferentes e para mais regiões, dá mostras de que é capaz de se adaptar e manter seu bom funcionamento.
“Não sabemos qual das duas hipóteses é verdadeira”, diz a neurocientista Cheryl Grady, pesquisadora da Universidade de Toronto, no Canadá, e uma das primeiras a notar mudanças no padrão de ativação. “Provavelmente, as duas estão certas. Para algumas tarefas, o cérebro pode perder a precisão. Para outras, pode usar mecanismos compensatórios.”
É irresistível pensar que, talvez, a superativação do cérebro, representada pelo uso simultâneo de várias áreas, possa estar por trás das melhoras de raciocínio relatadas por quem está na meia-idade – e comprovadas pelos pesquisadores. Os cientistas descobriram que um sistema muito especial do cérebro, formado por circuitos localizados em camadas profundas do órgão, está constantemente ativado nos adultos de meia-idade. O sistema, chamado de modo- padrão, é usado nos momentos de reflexão, quando pensamos sobre o que aconteceu recentemente, fazemos balanços e traçamos planos para nós mesmos. Os pesquisadores concluíram que os adultos simplesmente não conseguem desligar o modo-padrão, algo que os jovens fazem quando estão envolvidos em uma tarefa. Os adultos, mesmo quando estão concentrados, continuam o bate-papo interno com eles mesmos.
“O modo-padrão do cérebro ainda é um completo mistério”, diz a neurocientista Patricia Reuter-Lorenz, pesquisadora da Universidade de Michigan. Estar em constante reflexão pode nos tornar distraídos, mas também pode ajudar a ter boas ideias. Isso explicaria por que adultos de meia-idade têm o raciocínio afiado, embora não lembrem onde puseram a carteira.
O cérebro de meia-idade pode ganhar habilidades surpreendentes conforme envelhecemos, mas isso não acontece com todos. Os cientistas perceberam que só os adultos que sempre tiveram hábitos saudáveis e vida intelectual ativa apresentaram a superativação. Há indícios de que a prática frequente de exercícios físicos promove o nascimento de novos neurônios em uma região do cérebro associada à memória. E atividades que desafiam o cérebro, como aprender uma nova língua ou até mesmo exercícios de memória, evitam que áreas do cérebro “enferrugem”. É como se essas atividades criassem uma reserva de neurônios que pode ser usada pelo cérebro quando ele entra em declínio. “Se a pessoa conseguiu criar uma boa reserva, é provável que tenha mais mecanismos para suprir deficiências causadas pelo envelhecimento”, diz o neurologista Ivan Okamoto, pesquisador do Instituto da Memória da Universidade Federal de São Paulo.

Adultos que têm hábitos saudáveis
e mente ativa
mostram cérebro de alto desempenho
na meia-idade

Há poucos anos, a meia-idade costumava ser considerada uma fase de crises, desencadeadas pela percepção dos primeiros lapsos de memória. Eles seriam sinal inequívoco da aproximação da velhice e, consequentemente, da morte. A percepção da brevidade da vida despertaria um conjunto de comportamentos chamado pelo psicólogo canadense Elliott Jaques de crise da meia-idade – sim, a famosa. Entre os sintomas descritos por Jaques no artigo de 1965 que deu origem ao termo estão “preocupação doentia com a saúde e a aparência”, “promiscuidade sexual” e “ausência de verdadeiro prazer em viver”. Esse tipo de comportamento pode ser facilmente encontrado entre pessoas de meia-idade, mas o conceito não tem base científica.
Jaques propôs sua teoria ao analisar casos de artistas que teriam mudado o estilo de suas obras após os 40 anos – um grupo pequeno e específico demais. Um dos estudos mais abrangentes a averiguar o nível de bem-estar nessa fase da vida mostrou que a maioria das pessoas se diz mais feliz do que antes. Segundo levantamento com 8 mil americanos da Fundação MacArthur, instituição privada de fomento à pesquisa nos Estados Unidos, apenas 5% dos entrevistados apresentavam reclamações. E, mesmo entre esses, a maioria já enfrentara problemas semelhantes em outras épocas – o que isentaria a culpa da meia-idade.
Aos 52 anos, o físico Marcelo Gleiser, professor do Dartmouth College, nos Estados Unidos, diz ter encontrado serenidade, e não angústia. “Quando você fica mais velho, torna-se mais calmo e seguro”, afirma. Ele diz ser capaz de escolher desafios com mais critério, para concentrar tempo e energia em problemas que possa resolver. “Conhecer os próprios limites dá paz de espírito.” Os estudos de neurociência sugerem que essa pacificação interior também está relacionada a alterações do cérebro. A equipe da psicóloga Mara Mather, da Universidade do Sul da Califórnia, mostrou imagens tristes e repulsivas a voluntários maduros e a jovens. Concluiu que nos mais velhos a área do cérebro responsável pelas emoções reagia menos às figuras negativas. Concluiu que era um sistema de proteção. O cérebro parecia escolher dar menos atenção ao lado ruim da vida. Há nisso mais inteligência e sabedoria do que um cérebro jovem talvez seja capaz de perceber.


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FONTE: Revista EPOCA online, 01/07/2011

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Insensato

Lya Luft


INSENSATO eu estar aqui, e viva.
O rosto dele me contempla
vincado e triste no retrato sobre minha mesa;
em outros, sorri para mim, apaixonado e feliz.

INSENSATO, isso de sobreviver:
mas cá estou, na aparência inteira.

Vou à janela esperando que ele apareça
e me acene com aquele seu gesto largo e generoso,
que ao acordar esteja a meu lado
e que ao telefone seja sempre a sua voz.

Sei e não sei que tudo isso é impossível,
que a morte é um abismo sem pontes
(ao menos por algum tempo).

Sobrevivo, mas pela INSENSATEZ.

Fonte: LUFT, Lya. O lado fatal. Ed. Rocco, RJ, 1988, pg.23
Imagem da Internet. Título dado pelo blog.

41% dos norte-americanos terão câncer ao longo da vida, e 21% morrerão da doença

 Redação AS-PTA*

 
Entre setembro de 2008 e janeiro de 2009 o Painel sobre Câncer dos Estados Unidos (espécie de conselho assessor do presidente da República) convocou quatro encontros para avaliar o estado atual da pesquisa, política e programas sobre o câncer provocado por fatores ambientais. O Painel recebeu o testemunho de 45 especialistas convidados da academia, governo, indústria e grupos ligados a pessoas com câncer e ao meio ambiente. Em abril de 2010, foi publicado o relatório sintetizando as conclusões do Painel, baseadas nos testemunhos recebidos e em informações adicionais.
O documento enfatiza que as crescentes evidências relacionando a doença à exposição a fatores ambientais e ocupacionais têm tornado o público cada vez mais consciente do quanto tais riscos poderiam ser prevenidos com medidas governamentais apropriadas.
Foi analisada uma ampla gama de fatores ambientais relacionados ao risco de câncer, incluindo as exposições industriais, ocupacionais e na agricultura, além das exposições relacionadas à prática médica, atividades militares, estilo de vida moderno e fontes naturais.
Uma das principais preocupações apresentadas no relatório é a constatação de que o peso dos fatores ambientais indutores de câncer foram até hoje grosseiramente subestimados. Há atualmente cerca de 80 mil químicos no mercado dos Estados Unidos, muitos dos quais são usados por milhões de norte-americanos em suas vidas diárias e são pouco ou nada estudados, além de não monitorados — ou seja, a exposição a potenciais carcinogênicos ambientais está amplamente disseminada. Um dos exemplos mencionados é o Bisfenol A (BPA), componente de plásticos e outros materiais ainda encontrado em muitos produtos destinados aos consumidores, e que permanece no mercado do país sem qualquer tipo de regulamentação, apesar das crescentes evidências que relacionam a substância a várias doenças, incluindo cânceres (o BPA também é amplamente usado no Brasil em plásticos e no verniz interno de latas que acondicionam alimentos e bebidas; já é sabido que a substância pode migrar dos recipientes para o alimentos). Mas, enquanto o BPA tem recebido considerável atenção da imprensa, o público continua a ignorar muitos outros carcinogênicos ambientais comuns.
O relatório destaca ainda que a pesquisa sobre as causas ambientais do câncer foi até hoje limitada pela baixa prioridade e pelo “financiamento inadequado”.
Como resultado, o quadro de oncologistas ambientais é relativamente pequeno e as consequências da exposição cumulativa ao longo da vida a carcinogênicos conhecidos, bem como a interação de contaminantes ambientais específicos, continuam muito pouco estudadas. “Falta ênfase na pesquisa ambiental como um caminho para a prevenção do câncer, comparando-se, em particular, com a ênfase dada a pesquisas sobre os mecanismos genéticos e moleculares da doença”, diz o documento.
Os pesquisadores ressaltam ainda que os atuais testes de toxicidade e métodos usados para estabelecer os níveis aceitáveis de exposição às substâncias não são capazes de representar com exatidão a natureza das exposições humanas a químicos potencialmente perigosos. Segundo eles, “os atuais testes de toxicidade se baseiam fundamentalmente em estudos com animais que utilizam doses substancialmente maiores do que aquelas às quais os humanos são normalmente expostos. Estes dados — e os limites de exposição extrapolados a partir deles — não levam em conta os efeitos danosos que podem ser provocados apenas por doses muito baixas. Além disso, como regra, os químicos são administrados quando os animais de laboratório estão em sua adolescência, um método que não dá conta de avaliar os impactos no útero, na infância e nas exposições cumulativas ao longo da vida. Mais ainda, as substâncias são testadas isoladamente e não em combinação”.
Outro aspecto de grande importância ressaltado no relatório é que a abordagem da regulamentação adotada nos Estados Unidos é “reacionária” e não “precaucionária”. Ou seja, ao invés de adotar medidas preventivas quando há existência de incerteza acerca do potencial dano que um químico ou outro contaminante ambiental pode provocar, uma evidência de dano precisa ser incontestavelmente comprovada antes que possa ser tomada qualquer medida restritiva. Além disso, ao invés de exigir que a indústria ou outros proponentes da liberação comercial de químicos, utensílios ou atividades comprovem sua segurança, é o povo que arca com o ônus de provar que uma dada exposição ambiental é prejudicial. Como exemplo, o relatório cita que apenas algumas centenas dos mais de 80 mil químicos em uso nos Estados Unidos tiveram sua segurança testada.
Observe-se que esta “abordagem reacionária” é a mesma adotada no Brasil, tanto para a liberação de agrotóxicos como de sementes transgênicas. Os estudos para atestar a segurança dos produtos são apresentados pelas próprias empresas proponentes. Se os órgãos reguladores (Anvisa, Ministério da Agricultura e Ministério do Meio Ambiente, no caso dos agrotóxicos, e CTNBio no caso dos transgênicos) não comprovarem, cientificamente, a existência concreta de danos, o produto caminha naturalmente para a autorização.
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Fonte: Reducing Environmental Cancer Risk – What We Can do Now – 2008-2009 Annual Report – The President’s Cancer Panel, April 2010 – U.S. National Cancer Institute, National Institutes of Health, Department of Heath and Human Services.
* Publicado originalmente no AS-PTA e retirado do site Mercado Ético. 01/07/2011
(Mercado Ético)

A mancha negra do açúcar.


Entrevista especial com Fernando Carvalho

Autor de O livro negro do açúcar, o historiador Fernando Carvalho começou a pesquisar o tema há dez anos quando descobriu que tinha diabetes. Desde então, vem percebendo como o açúcar é encarado na sociedade e qual a verdadeira face dessa substância. “Para mim, o açúcar responde pela atual era de doenças crônicas porque ele agride o organismo de diversas formas sistêmicas: ao fazer funcionar irregularmente a produção de insulina, agride o metabolismo que é o processo de construção e manutenção do nosso corpo. Levando isso em consideração, fazer uso de uma ração açucarada é o mesmo que tentar construir um edifício com cimento adulterado”, explicou ele durante a entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line.
Fernando Carvalho é graduado em História pela Universidade Federal Fluminense – UFF. Integrou o conselho editorial da revista Presença e, como cartunista amador, publicou alguns trabalhos no Pasquim. O livro negro do açúcar foi escrito em 2009 e está disponível em PDF na internet. Em 2011, a obra foi reeditada sob o título Açúcar: o perigo doce (São Paulo: Ed. Alaúde, 2011).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Você afirma no livro que o açúcar mata. De que maneira a cultura do açúcar leva à morte?
Fernando Carvalho – A cultura do açúcar não leva apenas à morte: ela também vicia, escraviza, mutila e polui. Os cortadores de cana formam um grupo de risco no que diz respeito ao consumo de crack, por exemplo, porque este é um trabalho tão desumano que só mesmo à base desta droga é que se consegue aguentá-lo. O Brasil, apesar de ter abolido a escravidão, em 1888, recentemente deu notícias da existência de formas de trabalho escravo, que estava concentrado principalmente neste setor. O governo federal teve que criar uma força-tarefa para coibir esse tipo de prática.
Mudando de crack para açúcar, na Universidade de Princeton, Estados Unidos, trabalha um pesquisador chamado Bart Hoebel [1]. Ele demonstra que o açúcar vicia pelos mesmos mecanismos da cocaína. Os resultados das pesquisas do Dr. Hoebel já foram publicados nos livros médicos oficiais de neurologia.
Além disso, aqui no Rio de Janeiro, o Hospital da Lagoa possui uma importante unidade de tratamento de diabéticos. O açúcar provoca a mutilação, todos os anos, segundo este hospital, de cerca de dois mil diabéticos. É a nossa legião de mutilados do açúcar. Ele também provoca a mutilação dentária. No Brasil, em média, um jovem de 18 anos tem 18% de seus dentes cariados e 7% extraídos. Entre os adultos de 44 a 53 anos, o número de cáries diminui para 7%, mas não é porque os mais velhos comem menos açúcar. A razão é mais tétrica: eles já não possuem 48% dos dentes. E 50% do grupo com idade entre 50 e 59 anos são totalmente desdentados. No cômputo geral, mais de 30 milhões de brasileiros não têm dente algum na boca para contar essa triste história.
A perda dos dentes provocada por periodontites deve-se à colonização da boca por bactérias que se alimentam de açúcar e cujo habitat é o ambiente ácido que elas mesmas criam usando o açúcar como substrato. Recentemente, descobriu-se que bactérias da placa bucal através das gengivas, durante a mastigação, alcançam a corrente sanguínea e vão se alojar no coração causando endocardite bacteriana, doença do coração que mata. O diabete, doença sistêmica que compromete todo o sistema vascular, dos capilares aos grandes vasos coronarianos, faz com que 80% dos doentes sejam propensos a morrer de doenças cardiovasculares, e 50% dos homens e 30% das mulheres tenham mais chances de serem vítimas de morte súbita.
O risco de insuficiência cardíaca é duas a três vezes maior entre diabéticos, e derrames são duas vezes mais frequentes em diabéticos hipertensos. Estima-se que em 2025 o mundo terá 300 milhões de diabéticos. As mortes totais por doenças causadas, primária ou secundariamente, pelo consumo da ração açucarada moderna, tais quais as doenças derivadas dos danos ao metabolismo, à inflamação generalizada crônica, à depressão do sistema imunológico, constituem um verdadeiro holocausto, o holocausto sacarino. Apesar de terrível, ele tem um aspecto surrealista: é um holocausto que se desenvolve sob os nossos olhos e – o pior de tudo – suas vítimas “lambem os beiços” enquanto são sacrificadas.

IHU On-Line – Quando se interessou em pesquisar esse tema?
Fernando Carvalho – Há aproximadamente dez anos descobri que estava com diabetes. Aconteceu comigo aquele conjunto de sintomas que denunciam o esgotamento do pâncreas: poliúria [sintoma que corresponde ao aumento do volume urinário], polidipsia [sensação de sede em demasia], polifagia [significa fome excessiva e ingestão alta de sólidos pela boca]. Se existia um assunto completamente estranho para mim era essa doença.

"A palavra diabetes trouxe-me à imaginação
um programa de TV animado pelo próprio diabo,
as dançarinas seriam as diabetes"
A palavra diabetes trouxe-me à imaginação um programa de TV animado pelo próprio diabo, as dançarinas seriam as diabetes. Não estava nos meus planos ficar doente na casa dos 40 anos. Eu queria viver com saúde até os 90. Para tanto, procurava levar um estilo de vida e alimentação saudáveis. Nunca fumei. Nunca fui sedentário. Consumia alimentos integrais. Fiz ioga. Lutas marciais. Corria. Servi ao Exército numa fortaleza instalada num morro. Subia e descia ladeira várias vezes ao dia, muitas vezes carregando um fuzil de quase cinco quilos.
Para mim ter ficado doente foi um mistério. Diante disso, passei a estudar o assunto com o ânimo de um historiador – formei-me em História pela Universidade Federal Fluminense. Queria saber exatamente o que aconteceu comigo. Li tudo que encontrei pela frente: patologia, fisiologia, cariologia, medicina natural, e até alquimistas e boticários. Essa pesquisa levou alguns anos e o resultado foi O livro negro do açúcar, um PDF que circula na internet e que ganhou uma edição em livro com o título ligeiramente modificado, Açúcar: o perigo doce, pela editora Alaúde.

IHU On-Line – Como o açúcar conseguiu conquistar o status que têm hoje no mundo?
Fernando Carvalho – O açúcar sempre foi um grande negócio. Do jeito que o petróleo já foi chamado de ouro negro, o açúcar já foi o ouro branco. A Holanda invadiu o Brasil no século XVII por causa do açúcar. "A maior migração forçada que a história registra", disse Werneck Sodré [2], ao analisar o tráfico de negros africanos para a América que também aconteceu por causa do açúcar.
Os interesses do açúcar estão entrelaçados com o de outras indústrias como a farmacêutica, a de alimentos e a de bebidas alcoólicas e refrigerantes. A relação comensalista entre essas indústrias – que conta ainda com a participação de médicos, profissionais de saúde, legisladores, da mídia, da literatura inclusive a científica e até do folclore – é o que chamamos "indústria da doença" que se sustenta mutuamente de alimentos e medicamentos.
Um negócio dessa envergadura sempre esteve no poder, de modo que o açúcar chegou onde hoje se encontra empurrado pelo poder econômico. Atualmente, dezenas de milhões de donas de casa aprendem novas receitas de doces. O açucaramento da dieta avança sob nossos olhos: pizzas e empadas doces são passos recentes do avanço da ditadura do açúcar.
A Food and Drug Administration – FDA, agência do governo estadunidense que regulamenta alimentos e medicamentos, considera o açúcar de consumo seguro. Aqui no Brasil a Anvisa nada pode. O açúcar é regulamentado e fiscalizado pelo Ministério da Agricultura. Ou seja, a “raposa” legisla e fiscaliza o “galinheiro”. Umas raposas legislam sobre cerveja, outras sobre o vinho. No Brasil, cerveja e vinho são adulterados com açúcar. Aqui no país, os livros de patologia têm um capítulo sobre o metabolismo do álcool, mas ignoram o metabolismo da sacarose. A luta contra o açúcar fica por conta de uns poucos médicos abnegados como o brasileiro descendente de asiáticos Yotaka Fukuda [3], que demonstrou o papel do consumo de açúcar na labirintite, e autores como William Dufty [4], autor de Sugar blues.

IHU On-Line – Como o senhor relaciona o consumo do açúcar com as doenças modernas?
Fernando Carvalho – Da Idade Média para trás não existiam as doenças crônicas. O açúcar não existia e as doenças que afligiam o homem medieval eram infectocontagiosas. Tão logo o açúcar entrou em cena se aboletando na mesa, ele disse a que veio e começou destruindo os dentes dos nobres e burgueses europeus. A cárie é uma doença, ao mesmo tempo, crônica e aguda. Antes do advento do açúcar a incidência de cáries era de 1% para baixo. Hoje, a epidemia de cárie atinge 99% da raça humana. E esse 1% da humanidade livre de cáries são os poucos países situados no coração da África: Togo, Ruanda, Gana, Lesoto... onde a ração açucarada não chegou ainda.
Outra epidemia moderna que pode ser associada ao açúcar é a de obesidade. Açúcar é caloria pura e é transformado em gordura, o que não ocorre com carnes, por exemplo. Se gordura engordasse, a dieta Atkins [5] não funcionaria. Sendo calorias vazias, isto é, destituídas de qualquer nutriente, quando é adicionada a qualquer alimento o açúcar torna esse alimento hipercalórico e eleva seu índice glicêmico. O povo brasileiro já anda consumindo 60 quilos de açúcar por ano em média. 95% dos obesos o são por causa do que comem, de modo que a relação entre consumo de açúcar e a epidemia de obesidade é óbvia e ululante.
"o açúcar responde pela atual
era de doenças crônicas
porque ele agride o organismo de
diversas formas sistêmicas"

Para mim, o açúcar responde pela atual era de doenças crônicas porque ele agride o organismo de diversas formas sistêmicas: ao fazer funcionar irregularmente a produção de insulina, agride o metabolismo que é o processo de construção e manutenção do nosso corpo. Levando isso em consideração, fazer uso de uma ração açucarada é o mesmo que tentar construir um edifício com cimento adulterado.
Outro mecanismo pelo qual o açúcar agride todo o organismo de uma só vez é pelo processo de roubo de minerais. O açúcar causa um desequilíbrio mineralógico devido ao roubo de nutrientes que o metabolismo de calorias do açúcar provoca. Há também o problema da glicação não enzimática de proteínas. A primeira vítima da elevação do açúcar no sangue como consequência do consumo da ração açucarada é a proteína glicada – mais conhecida como hemoglobina "gllicosilada". A glicação da hemoglobina é uma reação simples de condensação que dispensa a intermediação de enzimas. Essa reação "aleija" a hemoglobina prejudicando sua função de oxigenar todo o organismo. Faltando oxigênio, o horizonte é a necrose.
A glicação de proteínas é um mecanismo intermediário de uma série de doenças. Por exemplo, a glicação do cristalino explica a catarata senil. As próprias células-beta pancreáticas, a insulina e seus receptores musculares, e até os nervos, está exposto ao fenômeno da glicação degenerativa. De modo que o diabetes, a resistência insulínica e a hipertensão encontram sua etiopatogenia no consumo de açúcar.
De conhecimento recente da ciência é a inflamação crônica generalizada clinicamente silenciosa (ou subclínica) que está se alastrando por toda a humanidade. Tal inflamação é apontada como sendo o mecanismo intermediário das doenças crônico-degenerativas. Essa inflamação crônica generalizada e subreptícia é comparada com as pestes históricas da Idade Média em virtude das milhões de vítimas que estão sendo ceifadas em todo o mundo. As doenças vasculares que tinham o colesterol como bode expiatório, na verdade são consequência de um processo inflamatório das paredes das artérias. Asma, síndrome do intestino irritável e uma infinidade de outras condições são intermediadas por processos inflamatórios e a ração açucarada moderna é a principal culpada disso.

IHU On-Line – Que verdades precisam ser ditas a respeito do açúcar?
Fernando Carvalho – São várias. Vamos por tópicos:
1) O açúcar não é um alimento, mas sim uma substância agressora do organismo.
2) O açúcar, ao impregnar a alimentação humana, transformou-a numa ração patogênica.
3) Médicos e nutricionistas estão enganados quando lidam com o açúcar como sendo um "carboidrato" como outro qualquer.
4) dentistas também estão enganados quando atribuem as cáries à "carboidratos fermentáveis".
5) A perda de um dente é uma humilhante forma de mutilação e que o desdentado é uma vítima da ração açucarada e não culpado de maus hábitos de higiene bucal.
6) Uma pessoa pode ser gorda e saudável dependendo de como ela se alimenta.
7) Obesos mórbidos são vítimas da ração açucarada e não culpados de maus hábitos alimentares.
8) A ração açucarada empurrou a raça humana para a era das doenças crônicas, metabólicas e degenerativas.
9) A expulsão do açúcar da mesa vai acabar com a era das doenças crônicas.
E como uma última verdade que poucos sabem é que a Organização Mundial de Saúde – OMS deseja que o consumo de açúcar do açucareiro não ultrapasse 10% das calorias totais ingeridas diariamente. Se dependesse da OMS, os governos do mundo inteiro fariam uma campanha semelhante àquela feita contra o cigarro para assegurar que o consumo de açúcar não ultrapasse esse número.
Em 2004, quando o comitê executivo da OMS se reuniu para aprovar tal estratégia, sua proposta foi derrotada pelo lobby da indústria da doença. Perto de 50 países votaram com a OMS; os vetos contaram com os votos dos Estados Unidos, Brasil, Suazilândia e Ilhas Maurício. Cuba, envergonhada, deu um apoio de bastidores. Com os vetos dos traficantes de açúcar, a OMS aprovou uma exortação às indústrias de alimentos e bebidas no sentido de que reduzam o uso de sal, gordura e açúcar. Recentemente, o Ministro da Saúde, num acordo de cavalheiros, obteve da indústria de alimentos o compromisso de usar "menos sal e gorduras", mas o açúcar ficou de fora da conversa.

IHU On-Line – Como funciona o movimento Açúcar Zero?
Fernando Carvalho – O Açúcar Zero é um movimento político-nutricional que defende a retirada do açúcar da alimentação humana visando acabar com seu caráter patogênico e, com isso, pôr fim à era das doenças crônicas, metabólicas e degenerativas. O movimento é muito incipiente ainda. Costumo dizer que somos um pequeno exército de Brancaleone.
O que dá vida ao nosso movimento é o fato de que as pessoas podem, por iniciativa própria, dar as costas ao açúcar e, em pouco tempo, verificar os resultados da dieta isenta de açúcar na sua saúde. Ao ganhar saúde, ao livrar-se da incidência de novas cáries, gripes e resfriados frequentes e de uma infinidade de mazelas, elas ficam tão felizes que resolvem ajudar os outros a seguir o exemplo.
Temos uma comunidade no Orkut que já conta com quase 2 mil membros. Estamos cogitando da possibilidade de criar uma ONG com o objetivo de levar o conhecimento sobre o açúcar às escolas de ensino médio e fundamental. Afinal, as crianças são as vítimas privilegiadas da ditadura de pacote tecnológico da sacarose refinada.
Uma empresa multinacional de alimentos produziu e faz propaganda na televisão de um sacolé de leite condensado. Entendemos que isso é um crime de lesa-humanidade. Essa mesma empresa, recentemente, retirou o açúcar da fórmula de suas papinhas para bebês, outro crime que denunciávamos desde que O livro negro do açúcar era um original distribuído pela internet. Como nunca li uma linha sequer de médico ou nutricionista protestando contra isso, fico tentado a atribuir o recuo da multinacional às nossas denúncias.
Um objetivo político arrojado de nosso movimento é ver se conseguimos fazer com que o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – Consea compre essa briga. Afinal, como falar em segurança alimentar quando estamos diante de uma ração patogênica? O Consea já usa o termo alimentação "saudável" que deve ser assegurada a todo o povo brasileiro. Precisa evoluir para entender o que é a ração patogênica e o que é preciso fazer para acabar com seu caráter patogênico. O grande dia para o povo brasileiro será o da aprovação da Lei Áurea Nutricional, a lei que proibirá a adição de açúcar aos alimentos.

Notas:
[1] Bart Hoebel é professor de Psicologia no Programa de Neurociências da Universidade de Princeton. Sua formação acadêmica foi realizada na Universidade de Harvard. Tem PhD pela Universidade da Pensilvânia e um doutorado honorário pela Universidade Católica de Louvain, na Bélgica. Foi presidente de três sociedades acadêmicas: Neurociência e Divisão de Psicologia Comparativa da Associação Americana de Psicologia, Sociedade para o Estudo do Comportamento ingestivo e Eastern Psychological Association.
[2] Nelson Werneck Sodré nasceu no Rio de Janeiro em 1911 e morreu em 1999. Foi um militar e historiador.
[3] Yotaka Fukuda é professor livre-docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp-EPM) e médico otorrinolaringologista do Instituto Gastro Entereológico de São Paulo – Igesp.
[4] William Dufty Francis nasceu em 1916 e morreu em 2002. Foi um escritor estadunidense conhecido por sua atuação como ativista nutricional.
[5] A Dieta Atkins foi um método originalmente desenvolvido por Robert Atkins nos anos 1960. A dieta foi muito criticada nos círculos de medicina por recomendar ingestão de gorduras saturadas de origem animal e reduzir radicalmente a ingestão de carboidratos, especialmente os de índice glicêmico alto. A dieta voltou a ganhar popularidade em fins dos anos 1990 junto com o aumento exponencial de casos de obesidade e comorbidades associadas.
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Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=44560

Grandes ciumentos na arte da ficção

Eliana Cardoso*

Imagem de  Renato Alarcão
 
Ponto e Vírgula:
Grandes astros do ciúme-invejoso da literatura ocidental,
Pozdnyshev e Paulo Honório reluzem na "Sonata Kreutzer" (Tolstói) e
em "São Bernardo" (Graciliano Ramos).

 Ciúme sexual é tema de arromba e de controvérsias. Na França, por exemplo, o homicídio de um concorrente amoroso acarreta punição menos severa que outros tipos de assassinato. Por trás do aniquilamento do rival, o júri assume a existência de amor pela parceira infiel. Mas, em muitos casos, o ciumento - tomado de inveja assassina - mata também aquela que dizia amar.
Desconfio ser quase impossível separar o ciúme da inveja. Sei que o ciumento sofre ao imaginar o roubo do amor que lhe era devido, enquanto o invejoso sente raiva de quem possui algo desejável. Sei que o ciumento teme perder algo que acredita possuir, enquanto o invejoso sofre com o gozo do outro e quer destruir ou tomar aquilo que inveja. Mas, na verdade, quando o medo aguça a ânsia impetuosa e insaciável, o ciúme se transforma em inveja destruidora.
Nessas divagações estou em boa companhia. Shakespeare também parece acreditar que não existe muita diferença entre esses dois sentimentos quando observa em "Otelo" que "o ciúme é um monstro de olhos verdes que zomba do alimento de que vive". E mais. Acredita ainda que não é o outro que provoca esses sentimentos negativos: eles brotam de dentro da alma. Os ciumentos "não precisam de causa para o ciúme: têm ciúme porque o têm. O ciúme é monstro gerado em si mesmo e nascido de si mesmo". Otelo de novo? Claro. O que você queria?
Depois do mouro de Veneza, o ciúme sexual masculino tomou conta de milhares de protagonistas famosos. Entre muitas narrativas fascinantes, deixo para o fim "São Bernardo", de Graciliano Ramos, e a "Sonata Kreutzer" de Tolstói. Mas antes lembro, "en passant", outras obras, como: "Dom Casmurro", de Machado de Assis - sobre cuja ambiguidade narrativa muitos se debruçaram; "Senilidade", de Italo Svevo - na qual Emilio deseja Angelina ao visualizá-la com outro homem e chega a desejá-la exatamente porque ela esteve com outro. E "No Caminho de Swann", de Proust - história do ciumento manso, que misturava esse sentimento à piedade, transformando-o de paixão contínua e indivisível numa infinidade de ciúmes diferentes, cujo objeto era sempre Odette.
Mas hoje não é dia de Swann nem de corno manso. Estou interessada no ciumento violento e confesso. Na cisão insinuada por Otelo quando, perto do fim da peça, responde à pergunta de Ludovico sobre o paradeiro do mais infeliz dos homens, dizendo a respeito de si mesmo: "Aquele é ele que era Otelo. Aqui estou eu". ("That's he that was Othello. Here I am.") Estou interessada, portanto, no ciumento de personalidade cindida entre a do protagonista que sofre e a do narrador que tenta se explicar. No ciumento que parece não entender a duplicidade que vive.
"...agora poderíamos citar Chaucer,
que no "Conto do Pároco"
observa que a inveja é o pior pecado que existe,
porque todos os outros são pecados
apenas contra uma só virtude,
enquanto a inveja é contra tudo
o que seja bom."

Os grandes ciumentos-invejosos eleitos para figurar nesta coluna são o Pozdnyshev de Tolstói e o Paulo Honório de Graciliano Ramos. Não os escolho apenas porque têm as qualidades descritas no parágrafo acima, nem porque essas qualidades faltem aos outros ciumentos mencionados anteriormente. É que os ciumentos, tanto na vida quanto na ficção, são tão numerosos que devo deixar alguns de fora.
Começo com Pozdnyshev, que rebatizo como Possante, porque os nomes russos são muito difíceis e gosto de facilitar a vida do leitor. "A Sonata Kreutzer" abre-se com a narrativa (que faz um senhor anônimo) da conversa entre passageiros de um trem. Possante entra em cena e conta que matou sua mulher num ataque de ciúme e o júri o absolveu do crime. Possante narra a história de seu casamento abalado desde a primeira relação sexual. Diz que considera o sexo coisa perversa e obscena. A música também o inflama e, portanto, é condenável. Um dia, um músico aceitou seu convite para ir à sua casa e Possante ficou excitadíssimo quando viu sua mulher ao piano e o músico ao violino tocarem juntos a sonata de Beethoven. Possante teve de sair para um compromisso e voltou cedo, imaginando que encontraria os dois amantes na cama e os mataria. Ele os encontrou sentados na sala. Enfurecido, matou a mulher e o músico escapou.
A sonata de Tolstói já deu o que falar. Há a variedade de emoções que Tolstói articula em sequência paralela aos três movimentos da sonata de Beethoven. E a tessitura ficcional do gênio que substitui a exibição do corpo da mulher morta pelo exibicionismo da confissão do narrador.
Dizem que Tolstói pensava em sexo como uma forma de comércio (onde o objeto do desejo pode sempre ser trocado por outro) e como teatro (já que o sexo praticado com outra pessoa também ocorre na presença do parceiro). A confissão de Possante prolonga a representação teatral e expõe sua personalidade dividida entre o narrador - responsável pelas longas diatribes contra mulheres, sexo e casamento - e o sujeito da narração - que sofre, mas não reflete.
A mim me intriga que Tolstoi tenha escrito um posfácio no qual afirma sua intenção de oferecer o caso exemplar com objetivo moralizador. O caso, ao dramatizar os riscos do casamento, serviria de apologia do celibato. Ironia? Talvez. Por quê? O discurso moralizador de Possante, semeado de contradições, esconde o tema subjacente do ciúme e monta, na primeira parte da novela, o cenário para o drama que vem em seguida. Com a introdução do tema do ciúme, o ritmo da novela se acelera.
Em determinado momento, Possante declara sua mulher um mistério. Seu ciúme parece uma reação invejosa a esse mistério. Cabe aqui um paralelo com o Paulo Honório de "São Bernardo", que também nunca conseguiu entender Madalena, que deseja controlar e cuja bondade só descobre depois de viúvo e sozinho.
Mas antes de chegarmos lá, relembro o enredo do magnífico romance de Graciliano Ramos. Assim como o protagonista de Tolstói, Paulo Honório - o narrador-protagonista de "São Bernardo" - também não entra de chofre no tema do ciúme. Primeiro leva dois capítulos para discutir sua ideia de escrever um livro "pela divisão do trabalho" e informar o leitor por que desistiu dessa ideia. Depois conta que rolou pelo mundo quando menino e aprendeu a ler na cadeia. Com esperteza tornou-se dono da fazenda São Bernardo, ampliou seus limites e virou "coronel" poderoso. Acertou o casamento com Madalena como um negócio.
Logo depois de casada, Madalena começou a dar opiniões e interferir a favor dos colonos. O marido se irritou: "Tive, durante uma semana, o cuidado de procurar afinar a minha sintaxe pela dela, mas não consegui evitar numerosos solecismos. Mudei de rumo. Tolice. Madalena não se incomodava com essas coisas. Imaginei-a uma boneca da escola normal. Engano."
Madalena resistiu ao mandonismo do marido, que começou a mexer-lhe nas malas e nos livros. A vida se tornou um inferno para os dois à medida que as crises de ciúme se agravaram. "A infelicidade deu um pulo medonho: notei que Madalena namorava os caboclos da lavoura. [...] Às vezes, o bom senso me puxava as orelhas: - Baixa o fogo, sendeiro. Isso não tem pé na cabeça." Até que, não suportando a convivência com o marido, Madalena se suicidou.
Paulo Honório confessa seu ciúme, que é também desejo de dominar a mulher que não se submete e de quem ele inveja a competência. Paulo Honório tem razões de sobra para invejar Madalena. A causa mais importante não é, como Paulo Honório às vezes insinua, que ela tenha a educação que lhe falta. O que ela tem - e ele não - é a bondade, o bom caráter e a sanidade. A sanidade que pertence a alguém que pode, sem rancor nem mesquinhez, alegrar-se com o trabalho criativo do outro e que, por isso mesmo, está livre dos tormentos da inveja, do ressentimento e da perseguição.
Coitado do Paulo Honório. Se tivéssemos começado lá em cima lembrando autores anteriores a Shakespeare, agora poderíamos citar Chaucer, que no "Conto do Pároco" observa que a inveja é o pior pecado que existe, porque todos os outros são pecados apenas contra uma só virtude, enquanto a inveja é contra tudo o que seja bom.
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* Eliana Cardoso escreve semanalmente no VALOR ECONÔMICO, alternando resenhas literárias (Ponto e Vírgula) e assuntos variados (Caleidoscópio). Jornalista.
 www.elianacardoso.com
Fonte: EU& Fim de semana › Cultura - Valor Econômico on line, 01/07/2011

Fé de menos

Luciano Pires*

Recebi um email de um ouvinte dos EUA, o Boris Kortiak, com um comentário interessante:
“Sempre que visito o Brasil vejo uma terra com enormes oportunidades, mas quando falo com as pessoas ouço apenas sobre os enormes problemas. Algumas vezes falamos sobre a mesma coisa, mas vista sob perspectivas diferentes. Como é possível que duas pessoas, olhando para a mesma coisa, vejam de forma tão diferente? O que acontece com os brasileiros para que olhem apenas o negativo e achem que as coisas são imutáveis, enquanto um estadunidense ou inglês veja as mesmas coisas como obstáculos a serem vencidos? Por que a maioria só vê uma imagem sombria do Brasil? Talvez não seja o ritmo constante de negatividade da mídia que ajuda a desmoralizar a população, mas a falta de fé na existência de soluções.”
“Falta de fé na existência de soluções”... suspeito que essa falta de fé não é causa, é conseqüência. Vejamos.
Se examinarmos a história do Brasil nos últimos quarenta anos veremos a sucessão de frustrações que nos levaram a essa falta de fé. No final do regime militar milhares de pessoas vão às ruas pelo Diretas Já, que o Congresso não aprova. Algum tempo depois conseguimos, de forma indireta, eleger um presidente civil: Tancredo Neves. Que morre antes de tomar posse. Seu substituto, Sarney, chega com um plano redentor, o Cruzado. E leva o Brasil ao maior período recessivo da história. Vem as eleições diretas e elegemos um jovem, Fernando Collor de Mello. Sua primeira ação é confiscar o dinheiro de todo mundo. E temos o primeiro impeachment da história. O sucessor, Itamar Franco, começa o governo relançando o Fusca, mas termina abrindo caminho para o Plano Real que finalmente coloca o Brasil nos eixos. FHC faz um ótimo primeiro mandato, mas o segundo termina em meio a acusações de “privataria”, compra de votos, etc. Frustrante. Vem Lula, com seu discurso pela ética. E oito anos de lambança. Nesses 40 anos a educação continuou em deterioração, a saúde é um escândalo, a violência é crescente, o trânsito torna-se caótico, a corrupção torna-se endêmica, os impostos crescem sem parar, a infraestrutura é uma piada, as enchentes de janeiro continuam matando, a seca do Nordeste idem, a Justiça não funciona... Ufa!
Mas é claro que também experimentamos melhorias. Somos um país em franco crescimento, temos o povo mais otimista do planeta, melhoramos a distribuição de renda, tirando milhões da miséria e temos ilhas de excelência. Mas os problemas básicos continuam sem solução, passando de geração para geração.
Não é natural que – após 40 anos - a conseqüência seja a tal “falta de fé na existência das soluções”?
É. Mas tenho uma visão diferente. Acredito que sabemos dos problemas e conhecemos as soluções. O que não temos é fé em nossa capacidade de implementar as soluções. Depois de 40 anos prometendo e não cumprindo, somos uma sociedade desconfiada, onde cada vez menos gente acredita nas instituições, nas leis ou nos outros. Daí a visão sombria e negativa.
Numa sociedade baseada na desconfiança, todo mundo é culpado.
Inclusive você
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* Luciano Pires é editor do Café Brasil.