quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Jesuítas debatem futuro das suas comunidades de solidariedade

 

Como exemplo, a comunidade espanhola de Loiolaetxea

De 23 a 25 de novembro, aconteceu em Madri o encontro “Comunidades de Solidariedade: novos estilos de vida comunitária”, que reuniu 24 jesuítas e colaboradores leigos da Europa que vivem em comunidades mistas de jesuítas e laicos. Os não religiosos pertencem a grupos em processo de inserção social, como imigrantes e ex-presidiários. Na última Congregação de Procuradores da Companhia de Jesus, o superior geral insistiu na importância desse tipo de comunidades.

O objetivo da reunião, conforme informado a ZENIT pela Companhia de Jesus na Espanha, foi explicado por José Ignacio Garcia, SJ, coordenador social do CEP (The Jesuit Conference of European Provincials): “O objetivo é compartilhar novos estilos, e nem tão novos, de vida comunitária. Nos últimos anos, nós fomos testemunhas de inovações na maneira de viver em comunidade. Surgiram experiências diversas em várias províncias. Por exemplo, temos as comunidades em que vivem juntos jesuítas, leigos e pessoas em processo de reinserção, que cumpriram penas de prisão, e as comunidades que abrem as portas para jovens imigrantes ou refugiados durante vários meses. As comunidades de inserção também encaram novos desafios interculturais e inter-religiosos. A imagem que obtemos disso é uma constelação de iniciativas que gostaríamos de apresentar e de compartilhar. Também queremos elaborar um documento breve que ajude as províncias no seu discernimento para tomar decisões futuras”.

A iniciativa do encontro surgiu em reunião de delegados sociais das províncias da Europa, em Malta, no mês de abril. Para tornar o encontro ainda mais coerente, ele aconteceu no bairro de Ventilla, em Madri, onde existe uma comunidade em que convivem jesuítas e jovens imigrantes que procuram trabalho ou que recebem algum tipo de formação, a fim de se estabelecerem de forma permanente.

 “Somos uma comunidade formada por 
quatro jesuítas e oito leigos(as), 
que compartilham a casa e a vida 
com outras pessoas, a maioria delas 
com experiência penitenciária, em busca 
de caminhos novos de inclusão social"

O idioma do encontro foi o inglês, com tradução ao espanhol na maior parte das sessões. No programa, dois painéis de apresentação de experiências de comunidades desse tipo na Espanha, na Bélgica e em Malta. Houve também trabalhos em grupos e, no domingo de manhã, a formulação dos  conteúdos básicos do documento resultante do encontro.

Participaram 24 representantes das províncias jesuítas de Aragão, Bética, Loyola, Tarraconense e Castela, todas na Espanha, além de Malta, Portugal, Croácia, Bélgica Meridional, Itália, Irlanda e Reino Unido. Também estiveram presentes John Dardis, SJ, presidente da Conferência das Províncias Europeias, e Xavier Jeraya, SJ, assistente do Secretariado para a Justiça Social e para a Ecologia, da Cúria de Roma.

Um exemplo: a comunidade Loiolaetxea

A Comunidade Loiolaetxea, do País Vasco, norte da Espanha, explica como é a sua vida: “Somos uma comunidade formada por quatro jesuítas e oito leigos(as), que compartilham a casa e a vida com outras pessoas, a maioria delas com experiência penitenciária, em busca de caminhos novos de inclusão social. Este encontro na diversidade de idades, culturas, religiões e experiências de vida é um presente para todos(as) nós, que vivemos aqui. Por isso, dizemos que quem vem à nossa casa está em casa”.

“As vinte pessoas que formam o nosso grupo se responsabilizam juntas não só pelas tarefas domésticas, pelas compras e pela manutenção da casa, mas, acima de tudo, pelos processos das pessoas, formando um grupo de auto-ajuda em que compartilhamos as nossas aprendizagens e as colocamos a serviço dos outros. Além das refeições, do lazer e do trabalho, nos reunimos algumas vezes por semana naquilo que chamamos de Comunidade Loiolaetxea”.

“Vivemos em San Sebastián e, junto com outras associações, fundações e administrações públicas focadas na inclusão social, participamos da rede de ajuda social da nossa cidade e do território histórico da província de Guipúzcoa. Participamos também de vários grupos de reflexão sobre imigração, processos comunitários e espiritualidade, com companheiros(as) jesuítas e leigos(as) de outros lugares do país”.
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Fonte:  http://www.zenit.org/index.php?l=portuguese
Imagem da Internet
(TRad.ZENIT)

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Castells vê “expansão do não-capitalismo”

Culturas econômicas alternativas teriam sido reforçadas pela crise. Mas sociólogo adverte: sistema não entrará em colapso por si mesmo

O professor Manuel Castells é um dos sociólogos mais citados no mundo. Em 1990, quando os mais tecnologicamente integrados de nós ainda lutavam para conseguir conectar seus modens, o acadêmico espanhol já documentava o surgimento da Sociedade em Rede e estudava a interação entre o uso da internet, a contracultura, movimentos de protesto urbanos e a identidade pessoal.
Paul Mason, editor de notícias econômicas da rádio BBC, entrevistou o professor Castells na London School of Economics (Escola de Economia de Londres) sobre seu último livro, “Aftermath: The Cultures of Economic Crisis” (“Resultado: as Culturas da Crise Econômica”), ainda sem tradução para português.
Castells sugere que talvez estejamos prestes a ver o surgimento de um novo tipo de economia. Os novos estilos de viver dão sentido à existência, mas a mudança tem também um segundo motor: consumidores que não têm dinheiro para consumir.
São práticas econômicas não motivadas pelo lucro, tais como o escambo, as moedas sociais, as cooperativas, as redes de agricultura e de ajuda mútua, com serviços gratuitos – tudo isso já existe e está se expandindo ao redor do mundo, diz ele. Se as instituições políticas vão se abrir para as mudanças que acontecem na sociedade – é cedo para saber. Seguem trechos da conversa.

O que é surgimento de novas culturas econômicas?
Quando menciono essa Cultura Econômica Alternativa, é uma combinação de duas coisas. Várias pessoas têm feito isso já há algum tempo, porque não concordam com a falta de sentido em suas vidas. Agora, há algo mais — é a legião de consumidores que não podem consumir. Como não consomem — por não terem dinheiro, nem crédito, nem nada — tentam dar sentido a suas vidas fazendo alguma coisa diferente. Portanto, é por causa das necessidades e valores — as duas coisas juntas — que isso está se expandindo.

Você escreveu que as economias são culturais. Pode falar mais sobre isso?
Se queremos trabalhar para ganhar dinheiro, para consumir, é porque acreditamos que comprando um carro novo ou uma nova televisão, ou um apartamento melhor, seremos mais felizes. Isso é uma forma de cultura. As pessoas estão revertendo essa noção. Pelo contrário: o que é importante em suas vidas não pode ser comprado, na maioria dos casos. Mas elas não têm mais escolha porque já foram capturadas pelo sistema. O que acontece quando a máquina não funciona mais? As pessoas dizem “bem, eu sou mesmo burro. Estou o tempo todo correndo atrás de coisa nenhuma”.

Qual a importância dessa mudança cultural?
É fundamental, porque desencadeia uma crise de confiança nos dois maiores poderes do mundo: o sistema político e o financeiro. As pessoas não confiam mais no lugar onde depositam seu dinheiro, e não acreditam mais naqueles a quem delegam seu voto. É uma crise dramática de confiança – e se não há confiança, não há sociedade. O que nós não vamos ver é o colapso econômico per se, porque as sociedades não conseguem existir em um vácuo social. Se as instituições econômicas e financeiras não funcionam, as relações de poder produzem transformações favoráveis ao sistema financeiro, de forma que ele não entre em colapso. As pessoas é que entram em colapso em seu lugar.

A ideia é que os bancos vão ficar bem, nós não. Aí está a mudança cultural. E grande: uma completa descrença nas instituições políticas e financeiras. Algumas pessoas já começam a viver de modo diferente, conforme conseguem – ou porque desejam outras formas de vida, ou porque não têm escolha. Estou me referindo ao que observei em um dos meus últimos estudos sobre pessoas que decidiram não esperar pela revolução para começar a viver de outra maneira – o que resulta na expansão do que eu chamo de “práticas não-capitalistas”.

São práticas econômicas, mas que não são motivadas pelo lucro – redes de escambo, moedas sociais, cooperativas, autogestão, redes de agricultura, ajuda mútua, simplesmente pela vontade de estar junto, redes de serviços gratuitos para os outros, na expectativa de que outros também proverão você. Tudo isso existe e está se expandindo ao redor do mundo.

"Todos os estudos mostram que as pessoas que 
são mais sociáveis na internet são também 
mais sociáveis pessoalmente."
 
Na Catalunha, 97% das pessoas que você pesquisou estavam engajadas em atividades econômicas não-capitalistas.
Bem, estão entre 30-40 mil os que são engajados quase completamente em modos alternativos de vida. Eu distinguo pessoas que organizam a vida conscientemente através de valores alternativos de pessoas que têm vida normal, mas que têm costumes que podem ser vistos como diferentes, em muitos aspectos. Por exemplo, durante a crise, um terço das famílias de Barcelona emprestaram dinheiro, sem juros, para pessoas que não são de sua família.
O que é a Sociedade em Rede?
É uma sociedade em que as atividades principais nas quais as pessoas estão engajadas são organizadas fundamentalmente em rede, ao invés de em estruturas verticais. O que faz a diferença são as tecnologias de rede. Uma coisa é estar constantemente interagindo com pessoas na velocidade da luz, outra é simplesmente ter uma rede de amigos e pessoas. Existe todo tipo de rede, mas a conexão entre todas elas – sejam os mercados financeiros, a política, a cultura, a mídia, as comunicações etc –, é nova por causa das tecnologias digitais.

Então, nós vivemos numa Sociedade em Rede. Podemos deixar de viver nela?
Podemos regredir a uma sociedade pré-eletricidade? Seria a mesma coisa. Não, não podemos. Apesar de agora muitas pessoas estarem dizendo “por que não começamos de novo?” É um grande movimento, conhecido como “decrescimento”. Algumas pessoas querem tentar novas formas de organização comunitária etc.

No entanto, o interessante é que, para as pessoas se organizarem e debaterem e se mobilizarem pelo decrescimento e o comunitarismo, elas têm que usar a internet. Não vivemos numa cultura de realidade virtual, mas de real virtualidade, porque nossa virtualidade – significando as redes da internet – é parte fundamental da nossa realidade. Todos os estudos mostram que as pessoas que são mais sociáveis na internet são também mais sociáveis pessoalmente.

Existem diversos grupos que hoje protestam sobre o assunto A, amanhã sobre o assunto B, e à noite jogam World of Warcraft (jogo RPG online de aventura). Mas será que eles vão conseguir o que Castro e Guevara conquistaram?
O impacto nas instituições políticas é quase insignificante, porque elas são hoje impermeáveis a mudanças. Mas, se você olhar para o que está acontecendo em termos de consciência… há coisas que não existiam três anos, como o grande debate sobre a desigualdade social.

Em termos práticos, o sistema é muito mais forte do que os movimentos nascentes… você atinge a mente das pessoas por um processo de comunicação, e esse processo, hoje, acontece fundamentalmente pela internet e pelo debate. É um processo longo, que vai das mentes das pessoas às instituições da sociedade. Vamos usar um exemplo histórico: a partir do fim do século XIX, na Europa, existiam basicamente os Conservadores e os Liberais, direita e esquerda. Mas então alguma coisa aconteceu – a industrialização, os movimentos da classe trabalhadora, novas ideologias. Nada disso estava no sistema político. Depois de vinte ou trinta anos, vieram os socialistas e depois a divisão dos socialistas… e os liberais basicamente desapareceram. Isso mudará a política, mas não por meio de ações políticas organizadas da mesma maneira. Por quê? Porque as redes não necessitam de organizações hierárquicas.

Onde isso vai dar?
Tudo isso não vai virar uma grande coalizão eleitoral, não vai virar nenhum novo partido, nenhum novo coisa nenhuma. É simplesmente a sociedade contra o Estado e as instituições financeiras – mas não contra o capitalismo, aliás, contra insitituições financeiras, o que é diferente.

Com esse clima, acontece que nossas sociedades se tornarão cada vez mais ingovernáveis e, em consequência, poderá ocorrer todo tipo de fenômeno – alguns muito perigosos. Veremos muitas expressões de formas alternativas de política, que escaparão das correntes principais de instituições políticas tradicionais. E algumas, é claro, voltando ao passado e tentando construir uma comunidade primitiva e nacionalista para atacar todos os outros movimentos e, finalmente, conseguir ter uma sociedade excluída do mundo, que oprime seu próprio povo.

Mas acontece que, em qualquer processo de mudança social desorganizada e caótica, todos esses fenômenos coexistem. E o modo como atuam uns contra os outros vai depender, em última análise, de as instituições políticas abrirem suficientemente seus canais de participação para a energia de mudança que existe na sociedade. Então talvez elas possam superar a resistência das forças reacionárias que também estão presentes em todas as sociedades.
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 Entrevista a Paul Mason | Tradução: Gabriela Leite | Imagem: Binho Ribeiro
Fonte:  http://www.outraspalavras.net/2012/11/28/castells-ve-expansao-do-nao-capitalismo/




Os 100 livros do ano, segundo os editores do “New York Times”


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A tradicional (e esperada) lista dos 100 melhores livros do ano, escolhidos pelos editores do New York Times. Vale a pena olhar e encomendar vários pela Amazon (é sempre um bom presente para si mesmo). Algumas  escolhas de não-ficção da lista pescadas por mim — há muitas outras:
THE FOLLY OF FOOLS: The Logic of Deceit and Self-Deception in Human LifeBy Robert Trivers. (Basic Books, $28.) An intriguing argument that deceit is a beneficial evolutionary “deep feature” of life.
HOW CHILDREN SUCCEED: Grit, Curiosity, and the Hidden Power of CharacterBy Paul Tough. (Houghton Mifflin Harcourt, $27.) Noncognitive skills like persistence and self-control are more crucial to success than sheer brainpower, Tough maintains.
IRON CURTAIN: The Crushing of Eastern Europe, 1944-1956By Anne Applebaum. (Doubleday, $35.) An overwhelming and convincing account of the Soviet push to colonize Eastern Europe after World War II.
SAUL STEINBERG: A BiographyBy Deirdre Bair. (Nan A. Talese/Doubleday, $40.)A gripping and revelatory biography of the eminent cartoonist.
WHY BE HAPPY WHEN YOU COULD BE NORMAL? By Jeanette Winterson. (Grove, $25.) Winterson’s unconventional and winning memoir wrings humor from adversity as it describes her upbringing by a wildly deranged mother.
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Fonte: http://blogs.estadao.com.br/ricardo-lombardi/os-100-livros-do-ano-segundo-os-editores-do-new-york-times/ 28/11/2012

A classe média pega em armas

Leôncio Martins Rodrigues*
 
Acabo de ler a biografia Marighella, o Guerrilheiro que Incendiou o Mundo, de Mário Magalhães (Companhia das Letras, 2002, 732 pp.). Além de ser o melhor relato da luta armada no Brasil no período do autoritarismo militar, apresenta muita informação sobre a história do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e da política brasileira. Suscita muitas reflexões sociológicas sobre a luta política revolucionária. Mais especificamente: de que meios sociais provêm os militantes que pretendem dirigir o povo, o proletariado ou o campesinato na luta contra os opressores capitalistas ou latifundiários? Na Europa civilizada, a luta pelo socialismo estava ligada à classe operária, a classe guia. Sindicatos de trabalhadores estavam controlados pelos social-democratas. Havia uma liderança operária ao lado de intelectuais revolucionários, como o próprio Marx.

Lenin, porém, nunca acreditou que os operários, "deixados a eles próprios", iriam mais adiante do que uma consciência sindical. O socialismo viria de fora do proletariado. Seria uma construção de intelectuais revolucionários. As revoluções seriam obra das massas, mas dirigidas por uma minoria de revolucionários profissionais. Na sua maioria eram de classe média. Havia também alguns aristocratas decadentes ou burgueses desajustados em sua classe. E muitos judeus.

Os desenvolvimentos posteriores deram razão a Lenin, e não a Marx. Os operários acomodaram-se à ordem capitalista afluente, suas lideranças sindicais ascenderam no sistema político das democracias de massas. A partir da 1.ª Guerra, mais e mais setores de classe média se radicalizaram. Distribuíram-se entre o bolchevismo e o fascismo, ambos contra a ordem burguesa liberal.

A contestação ao mundo democrático capitalista ganhou dimensões mais nítidas a partir da década de 1970. Em especial nas franjas ocidentais do capitalismo, segmentos jovens de classe média intelectualizada lançaram-se à destruição da ordem imperialista e de seus lacaios nacionais. Pouco a pouco, afastaram-se inteiramente das massas. Passaram a confiar na força das armas. É verdade que nem todas as organizações de esquerda - no Brasil, o partidão e seus desafetos trotskistas - acreditaram na ilusão guevarista. Mas um número grande de jovens, em geral neófitos na militância partidária, aderiu com entusiasmo à luta armada. A cidade ou o campo poderiam ser o cenário principal.

"Mariga", para os experts, acreditava numa variante do modelo chinês: a revolução começaria no campo, porém sob a forma de guerrilha, como em Cuba. "As plantações dos fazendeiros devem ser queimadas, o gado dos grandes pecuaristas, dos frigoríficos, das invernadas deve ser expropriado e abatido para matar a fome dos camponeses (...), os grileiros e os norte-americanos proprietários de terra devem ser tocaiados e mortos, assim como os capangas dos fazendeiros." Para preparar a guerrilha agrária dominicanos foram encarregados de um levantamento estratégico no Brasil Central.

As ações concretas, contudo, limitaram-se ao meio urbano. Foram antes de tudo atos de terrorismo (para desmoralizar a ditadura militar) e assaltos a bancos (para sustentar os aparelhos e militantes clandestinos). Eram principalmente estudantes, alguns secundaristas, ansiosos para pegar em armas. Muitos foram para Cuba, para treinamento militar e de guerrilha.

Alguns vinham de família de classe alta, de círculos politicamente dominantes, faculdades e estabelecimentos de ensino importantes, como o Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. As redes de apoio incluíram ricos empresários, médicos, psiquiatras, artistas, poetas e outros profissionais de relevo: abrigavam feridos, escondiam armas e emprestavam automóveis. Alguns até mesmo serviram de motorista para Carlos Marighella. A atração pela revolução, palavra mítica, e por seus chefes admirados sempre rondou minorias dissidentes das classes altas.

No caso da Aliança Libertadora Nacional, ou Ação de Libertação Nacional (ALN), o recrutamento principal, fica evidente pela pesquisa de Mário Magalhães, foi entre os jovens das classes médias intelectualizadas e das classes altas, muitos dos quais de famílias tradicionais de nossa intelligentsia. Mas eram minorias no conjunto dessas categorias socioprofissionais. Operários, camponeses e dirigentes sindicais não quiseram saber nada com a ALN.

O aspecto que nos parece mais destoante, se olharmos o passado de outros países, é a forte relação dos dominicanos com a ANL, fato que pode ser explicado pela mudança da orientação da Igreja Católica, ou seja, a opção preferencial pelos pobres.

Uma última observação provocadora, mas não equivocada: em muitos pontos, excetuando a ideia da guerrilha rural, os militantes da Ação de Libertação Nacional, embora não o soubessem, estavam próximos do fascismo italiano, particularmente do primeiro fascismo, o dos Fasci di Combattimento, que precedeu a criação do Partido Nacional Fascista. Predominavam na ANL, além do nacionalismo, o culto da ação, do heroísmo, a rejeição da política, o voluntarismo, o romantismo, a exaltação da violência, o encanto pelas pistolas e metralhadoras, o recrutamento na juventude, a rejeição total do "legalismo" burguês. Essa linha, da valorização do pequeno grupo, das minorias militantes que não esperam chegar a vez, tem uma longa história na história da esquerda. Sempre dividiu "reformistas" e "revolucionários", moderados e radicais. Os primeiros confiavam nos Parlamentos, no voto, nos eleitores, nas transformações graduais. Os segundos, na disposição revolucionária dos pequenos grupos, no triunfo da vontade. Mas essa conclusão é minha. Derivou da leitura prazerosa do livro de Mário Magalhães, que se limitou a relatar os fatos de modo objetivo e bem fundamentado.
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* CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR TITULAR DO DEPARTAMENTO DE CIÊNCIA POLÍTICA DA USP E DA UNICAMP, SEUS ÚLTIMOS LIVROS SOBRE O ASSUNTO FORAM 'PARTIDOS, IDEOLOGIA E COMPOSIÇÃO SOCIAL' (2002) E 'MUDANÇAS NA CLASSE POLÍTICA BRASILEIRA' (2006)
Fonte: http://www.estadao.com.br/28/11/2012
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Aparições

Roberto Damatta*

A democracia promove, sem cessar, aparições. Começa a ficar complicado para quem governa domesticar fantasmas. Os espíritos surgem naquilo que Tocqueville descobriu como sendo o espírito da vida democrática: a opinião pública. Esse poder inventado pela igualdade que ele chamava de força geradora da vida liberal. 

Sem opinião pública, as aparições somem ou são controladas. Hitler e sua camarilha domesticavam o fantasma do projeto de extermínio de judeus e de categorias marginais como os deficientes, os ciganos e os homossexuais. Havia suspeição do extermínio, não a prova cabal que apareceu na derrocada do nazismo, em 1945, confirmando as atrocidades. O mesmo ocorreu com as torturas da ditadura militar. As torturas eram negadas, ninguém era responsável e até hoje há quem nelas não creia ou admita e, no entanto, tal como os fantasmas, elas existiram. 

O fantasma é parente do boato, do banal "ouvi dizer" que serve como alerta, aviso ou premonição. Os antigos psicólogos sociais escreveram sobre o boato como um desejo secreto (a notícia da morte de uma figura pública repudiada, por exemplo); e pelo menos um antropólogo da minha decadente tribo - Max Gluckman - revelou como a intriga e o escândalo eram elementos fundamentais de controle social. De fato, a igualdade de todos perante a lei era uma fantasia no Brasil. Hoje, graças e uma imprensa livre que honra a reportagem investigativa, pois sabe que falcatruas jamais vão ser impressas no Diário Oficial da União, começamos a assistir ao julgamento e à condenação de poderosos membros do governo do PT. Se eles vão mesmo para a prisão é uma outra história, já que pelo menos um ministro do Supremo defende multas pecuniárias em vez de cadeia para crimes de "colarinho branco", essa excrecência jurídica nacional. Ademais, com a figura da prescrição, é possível que nós, o povo - as pessoas comuns, os governados -, tenhamos que indenizar os responsáveis pela politicalha do mensalão e adjacências cujos responsáveis já teriam cumprido suas penas. Os seus ilícitos seriam fuxicos, fantasias, fantasmas e projeções.

O fuxico é a fumaça, o fato que a concretiza é o fogo. Onde há fumaça, há fogo, diz-se confirmando uma perspectiva de plausibilidade humana sem a qual a vida social seria impossível. O fuxico é a fantasia que configura um ato antes de ele ocorrer ou surgir como fato, daí o seu poder controlador. O boato tem que ser tratado com cuidado, tal como se faz com as fantasias, porque certos eventos despertam o lado nosso vingativo. Inimigos políticos tendem a fuxicar com exagero. São inventores de fantasmas porque, muitas vezes, suas fantasias são como os 40 moinhos de vento que Dom Quixote via como gigantes. Quem não se lembra da campanha contra o Plano Real e a sua "herança maldita"? Mark Twain, cuja independência de pensamento causava inveja até mesmo na América dos livres e iguais, disse uma vez que as notícias (ou boatos) sobre sua morte eram muito exagerados.
Isso é suficiente para estabelecer o elo entre a projeção que aciona o desejo e a fantasia. O desejo de morte do inimigo surge antes de sua morte. O adversário vira um fantasma antes mesmo de ser enterrado. 

O Brasil da era Lula está coalhado de fantasmas e, mais do que isso, de aparições. É o que leio nos jornais com pavor e vergonha. O julgamento do mensalão deixa ver melhor o queijo suíço de falcatruas, nomeações indevidas e das roubalheiras programadas desses tempos. A todo momento uma nova aparição, como é o caso da super-Rosemary Noronha, essa prova de um aparelhamento deslavado do estado pelo partido no poder que, obviamente, quer ser o poder. O partido que eu e milhões de brasileiros supúnhamos que iria liquidar esse estado provedor, mas ao mesmo tempo canalha, que sempre foi pai dos pobres e mãe dos ricos e, hoje, é a madrinha dos correligionários que, com ele e por meio dele, mas em nome do povo pobre, se tornam milionários!

O procurador-geral da República no seu libelo contra os mensaleiros deu uma medida precisa dos atos vergonhosos que fizeram. O fantasma tornou-se aparição e a aparição virou um cadáver que - espero - tenhamos a coragem de sepultar, ao lado dos crimes cometidos contra o espírito humano nos tempos da ditadura militar. Uma coisa tem uma óbvia ligação com a outra. E uma não pode ser tratada como fantasma (o mensalão) e a outra como verdade, ou vice-versa. Cabe a todos nós rasgar esse véu de uma histórica hipocrisia, sempre justificada pela fantasia dos elos pessoais: aos amigos o heroísmo de um passado que lhes permite tudo; aos inimigos o opróbio da falsidade e dos interesses ocultos. O Supremo liquidou essa lógica, colocando-a nos seus devidos termos. Todos, inclusive e principalmente os amigos, são também sujeitos da lei.

A aparição é como os boatos e fuxicos um exemplo da operação da opinião pública. Essa figura que, numa democracia, representa o todo e a alma de um país democrático. Esse modo de existir que não é mais um fantasma, mas uma realidade de nossas vidas.
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* Antropólogo. Escritor. Colunista do Estadão
Fonte:  http://www.estadao.com.br/28/11/2012
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O capitalismo feliz

José Luís Fiori*

 

Suécia, Dinamarca, Finlândia, Noruega, Austrália, Nova Zelândia e Canadá, "operam como pequenas "dobradiças felizes" da estrutura militar e do 
poder global dos Estados Unidos".

A história do desenvolvimento capitalista dos séculos XIX e XX registra a existência de alguns países com altos níveis de desenvolvimento, riqueza e qualidade de vida, e com baixa propensão nacional expansiva ou imperialista. Como é o caso das ex-colônias britânicas, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, e dos países nórdicos, Suécia, Dinamarca, Noruega e Finlândia.

Todos apresentam taxas de crescimento alta, constante e convergente, desde 1870, só inferior à da Argentina, até a Primeira Guerra Mundial. Hoje são economias industrializadas, especializadas e sofisticadas. A Noruega tem a 3ª maior renda per capita, e o maior índice IDH (0,943), do mundo; a Austrália tem a 5ª renda per capita, e o 2º melhor IDH do mundo (0, 929); e quase todos têm uma renda média per capita entre US$ 50 mil e US$ 60 mil anuais. A Noruega é considerada hoje o país mais rico do mundo, em "reservas per capita", e foi considerada pela ONU, em 2009, como "o melhor país do mundo para se viver". A Dinamarca já foi classificada, entre 2006 e 2008, como "o lugar mais feliz do mundo", e o segundo país mais pacífico da terra, depois da Nova Zelândia, e ao lado da Noruega.

Canadá, Austrália e Nova Zelândia foram colônias de povoamento da Inglaterra, durante o século XIX, e depois se transformaram em domínios da coroa Britânica, até depois da Segunda Guerra Mundial. Mas até hoje são nações ou reinos independentes que fazem parte do Commonwealth e mantêm o monarca inglês como seu chefe de Estado. Como colônias e domínios funcionaram sempre como periferia da economia inglesa, mesmo depois de iniciado seu processo de industrialização, mantendo-se - em média - a participação do capital inglês, em até 2/3 da formação bruta de capital desses três países. E todos eles estabeleceram relações análogas com a economia americana, depois do fim da Segunda Guerra Mundial.

Neste século e meio de história, o Canadá - como caso exemplar - esteve ao lado da Grã Bretanha e dos EUA na Primeira e Segunda Guerras Mundiais, além de participar Guerra dos Boers e da Guerra da Coreia e de ser um dos membros fundadores da OTAN, em 1949. Participou das guerras do Golfo, do Iraque, do Afeganistão e da Líbia, e participa diretamente do sistema de defesa aeroespacial americano. E o mesmo aconteceu, em quase todos os casos, com a Austrália e a Nova Zelândia.

Por outro lado, os países nórdicos foram expansivos, e a Suécia em particular foi um grande império dominante, dentro da Europa, até o Século XVIII. Mas depois de sua derrota para a Rússia, em 1720, e depois da sua submissão dentro da hierarquia de poder europeia, os estados nórdicos se transformaram em pequenos países, com baixa densidade demográfica e alta dotação de recursos naturais, funcionando como pedaços especializados e cada vez mais sofisticados do sistema produtivo europeu.

A Suécia ficou famosa pelo "sucesso" de sua política econômica anticíclica ou "keynesianas", depois da crise de 1929, mas de fato logrou superar os efeitos da crise graças à suas condição de sócia econômica e fornecedora de aço e equipamentos para a máquina de guerra nazista, que também ocupou a Dinamarca e exerceu grande influencia sobre a região, durante toda a Segunda Guerra Mundial.

Depois da guerra, a Dinamarca e a Noruega se tornaram membros da OTAN, e a Dinamarca segue sendo uma passagem estratégica para o controle do mar Báltico. Por sua vez, a Suécia participou das Guerras do Kosovo e do Afeganistão, e foi fornecedora de armamentos para as forças anglo-saxônicas, na Guerra do Iraque. Por último, a Finlândia, que fez parte da Suécia, até 1808, e da Rússia, até 1917, acabou ocupando um lugar fundamental dentro da Guerra Fria, até 1991, e ainda ocupa uma posição estratégica até hoje, no controle da Baia da Finlândia e da própria Rússia.

Por tudo isto, apesar de esses países terem origens e trajetórias diferentes, é possível identificar algumas coisas que eles têm em comum:

1) São pequenos ou têm uma densidade demográfica muito baixa.

2) Têm excelente dotação de recursos alimentares, minerais ou energéticos.

3) Todos ocupam posições decisivas no tabuleiro geopolítico mundial.

4) E todos se especializaram em serviços ou setores industriais de alta tecnologia, e em alguns casos, dentro da industria militar.

Alguns diriam que se trata de um caso típico de "desenvolvimento a convite", mas isto quer dizer tudo e nada ao mesmo tempo. O fundamental é que o sucesso econômico desses países não se explica por si mesmo, porque desde o século XIX, os "domínios" operaram como fronteiras de expansão do "território econômico" inglês, e como bases militares e navais do Império Britânico. E os países nórdicos, depois que foram submetidos, se transformaram em satélites especializados do sistema de produção e do poder expansivo europeu. E hoje, finalmente, todos esses sete países operam como pequenas "dobradiças felizes" da estrutura militar e do poder global dos Estados Unidos.
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 *José Luís Fiori, professor titular de economia política internacional da UFRJ, em artigo publicado no jornal Valor, 28-11-2012.
Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/noticias/515910-o-capitalismo-feliz
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Pulsantes

 Martha Medeiros*

 
Assisti à peça Vermelho, encenada pelo extraordinário Antonio Fagundes e por seu filho Bruno, que conta uma parte da vida do pintor Mark Rothko, expoente do expressionismo abstrato nos anos 50 e 60. O texto é tão bom, que saí do teatro com a cabeça fervendo. Vontade de escrever sobre o dilema entre o que é artístico e o que é comercial, sobre as diferentes maneiras de vermos a mesma coisa, sobre a função da arte abstrata (que nunca me comoveu, mas à qual a partir da peça passei a dar outro valor) e sobre a desproteção das obras quando expostas (Mark Rothko era hiperexigente quanto à luz das galerias, assim como quanto à distância que o visitante deveria ficar da tela, e por quanto tempo esse visitante deveria observá-la até ser atingido emocionalmente... enfim, um chato, esse Rothko, mas fascinava).

No entanto, como não sou conhecedora de pintura, resolvi destacar aqui um outro aspecto da montagem, que diz respeito não só a artistas plásticos, mas a todos os que lidam com criação. Pensando bem, até com os que não lidam.

Muitos entre nós ainda acreditam que trabalho e prazer são duas coisas distintas que não se misturam. O dia, em tese, é dividido em três terços: oito horas trabalhando, oito horas aproveitando a vida (até parece: e as filas? e o trânsito?) e oito horas dormindo. Cada coisa no seu devido lugar. Apenas os artistas teriam a liberdade de subverter essa ordem.

Pois o mundo mudou. O trabalho está deixando de ser aquela atividade burocrática e rígida cuja finalidade era ganhar dinheiro e nada mais. Queremos extrair prazer do nosso ofício, seja ele técnico, artístico, formal, informal. O conceito de estabilidade perdeu força, as hierarquias já não impressionam. A meta, hoje, é aproveitar as novas tecnologias e as oportunidades que elas oferecem. Atuar de forma mais flexível, autônoma e motivada. Trocar o “chegar lá” pelo “ser feliz agora”. Ou seja, amar o trabalho do mesmo jeito que se ama ir ao cinema, pegar uma praia e sair com os amigos.

Rothko respirava trabalho, e considerava que estava igualmente trabalhando quando lia Dostoievski, quando filosofava, quando caminhava pelas ruas, quando amava, quando dormia, quando conversava. Defendia a vida como matéria-prima da inspiração, sem regrar-se pelo horário comercial. Não se dava folga – ou folgava o tempo inteiro, depende do ponto de vista. Quando não estava pintando, estava alimentando sua sensibilidade, sem a qual nenhuma pintura existiria. Nos anos 50, só mesmo um artista poderia viver essa fusão na prática. Depois que cruzamos o ano 2000, porém, é uma tendência que só cresce, em todas as áreas profissionais, nas que existem e, principalmente, nas que estão sendo inventadas.

Como pintor, Mark Rothko valeu-se de uma vasta cartela de cores, mas expressou-se magistralmente em vermelho – na verdade, ele viveu em vermelho. Paixão, sangue, vinho, pimenta, calor, sedução. Ele sabia que essa era a cor que pulsava. E segue moderno, pois, como ele, são os pulsantes que estão fazendo a diferença.
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* Escritora. Colunista da ZH
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/28/11/2012
Imagem da Peça Vermelho. Internet.

Humanos estão cada vez menos inteligentes

 
“Nós já fomos mais inteligentes.” Essa frase pode ser atribuída a um famoso jornalista brasileiro, mas agora também está sendo dita por um geneticista chamado Gerald R. Crabtree, que publicou o estudo “Nosso frágil intelecto”. Para o cientista, há uma série de evidências que mostram que a raça humana passou por mutações genéticas que resultaram na perda de capacidade intelectual ao longo dos milênios. O grande foco da análise de Crabtree (que é pesquisador de Stanford, uma das universidades mais respeitadas dos Estados Unidos) está nos genes humanos. Ele diz que o cérebro humano precisa de milhares de genes para ser formado e simples alterações em um deles pode causar grandes problemas para a absorção de conhecimento. Ele também diz que isso pode ter acontecido pelo menos duas vezes nos últimos milênios.
Apesar de Crabtree ser um pesquisador de uma grande universidade norte-americana, a comunidade científica não parece ter recebido os estudos dele com bons olhos. Não por falhas em números ou inconsistências em argumentos, mas sim pela similaridade da teoria de Crabtree com outras teorias que ficaram muito famosas no começo do século XX: as teorias eugênicas.

A eugenia é base de boa parte das argumentações de quem defende a pureza racial. Crabtree acaba reacendendo discussões parecidas com aquelas, pois os primeiros teóricos da eugenia diziam que a mistura de raças poderia deixar os humanos menos inteligentes. Mesmo com todas as críticas, Gerald Crabtree disse à revista PopSci que seus trabalhos nada tem a ver com a eugenia.
Ele disse também que o melhoramento genético poderá resolver todos os problemas no futuro, isso se eles se tornarem um problema. Vale dizer que Crabtree não disse que estamos “mais burros”, mas sim que atualmente temos “menor capacidade intelectual”, porém com mais conhecimento.
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Fonte: http://www.criacionismo.com.br/2012/11/
Imagem da Internet

A fé como escola do olhar...

"Susan Sontag, autora norte-americana já desaparecida, levantava-se contra a interpretação. O mundo, dizia, encheu-se de comentários. Vivemos de coisas em segunda mão e cada vez estamos mais distantes da fonte.

Uma fé vivida aqui e agora não se deixa capturar pelo comentário mas antes de tudo ajuda-nos a ser. A fé tem de ser uma escola do olhar, do odor, do sabor, do sentir, da escuta. A espiritualidade não se separa dos sentidos, que são portas interiores para o encontro profundo com Deus.

Precisamos de uma mística do quotidiano. Deus não vem ao nosso encontro numa praça que nunca visitámos nem bate a uma porta onde não estamos."

(Parte da conferência "A importância do agora: 
os desafios de um cristianismo sapiencial",
 proferida pelo padre José Tolentino Mendonça, 
diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, 
no âmbito do ciclo "Viver a Fé aqui e agora", 
organizado pelas Monjas Dominicanas do Lumiar (Lisboa). )
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Fonte: http://www.snpcultura.org/a_importancia_do_agora_desafios_cristianismo_sapiencial_2.html

Tortura como cisão de corpo e mente

Leonardo Boff *

 

Com a instauração da Comissão Memória e Verdade vem à tona com toda a sua barbárie a tortura como método sistemático do Estado ditatorial militar de enfrentar seus opositores. Já se estudaram detalhadamente estes os processos de desumanização do torturado e também do torturador. Este precisa reprimir sua própria humanidade para praticar seu ato desumano. Não sem razão que muitos torturadores acabaram se suicidando por não aguentarem tanta perversidade.

Quero, entretanto, destacar um ponto nem sempre suscitado na discussão que foi muito bem analisado pelos psicanalistas, especialmente na Alemanha pós-nazista e entre nós por Hélio Peregrino, já falecido.

O mais terrível da tortura política é o fato de que ela obriga o torturado a lutar contra si mesmo. A tortura cinde a pessoa ao meio. Coloca a mente contra o corpo.

A mente quer ser fiel à causa dos companheiros, não quer de forma alguma, entrega-los. O corpo, submetido à extrema intimidação e aviltamento, para ver-se livre da tortura, tende a falar e assim a fazer a vontade do torturador. Essa é a cisão.

Mas há um ponto a se ressaltar: a pessoa torturada quando levada ao pânico e aopavor pode ser vítima de mecanismos inconscientes de identificação com o agressor. Ao identificar-se com ele, consegue, psicologicamente exorcizar, por um momento, o pânico e assim sobreviver.

O torturado que sucumbiu a esta desesperada contingência de autodefesa, incorpora sinistramente a figura do torturador. O torturador consegue abrir uma brecha na alma do torturado, alcança penetrar naquela última intimidade, lá onde moram os segredos mais sagrados e onde a pessoa alimenta seu mistério. Ultrapassa portanto, os umbrais derradeiros da profundidade humana, para possuir a vítima e faze-la um outro, alguém que acaba reconhecendo ser de fato subversivo, inimigo a pátria e da humanidade, um traidor da religião, um amaldiçoado por Deus, um excomungado da Igreja, alguém da parte do demônio. Os torturadores Albernaz e Fleury eram peritos nesta perversidade. Fleury disse diretamente ao Frei Tito, como aparece no terrificante filme de Ratton “Batismo de Sangue”, baseado no livro de Frei Betto com o mesmo nome, que deixaria nele marcas que jamais esqueceria. Efetivamente, conseguiu cindir-lhe a mente e o corpo e penetrar na sua mais profunda intimidade a ponto de ele, no exílio na França, sentir a todo momento, a presença de seu algoz. Deixou um bilhete antes de tirar-se a vida: “prefiro tirar minha vida a morrer”.
Este tipo de tortura é especialmente perversa porque faz da desumanização o eixo de uma prática sistemática de agentes do Estado. Se a categoria anti-Cristo ainda significa alguma coisa, ela deve ser configurada dentro deste quadro infernal. Trata-se da completa subversão do humano e de suas referências sagradas. É seguramente um dos maiores crimes de lesa-humanidade que possa existir.

Tais perversidades não podem cair sob anistia nenhuma. Os torturadores carregam em sua alma e em sua mente-testa, o estigma de Caim. Por onde andarem, a vida os acusará porque violaram a sua suprema sacralidade.

E há ainda a tortura dos desparecidos, crucificando seus entes queridos. Por exemplo, houve uma guerrilha do Araguaia, até hoje não reconhecida totalmente pelos militares. Lá se cometerem todos os excessos: cortaram a cabeça e os dedos dos guerrilheiros mortos e os enviavam a Brasília para reconhecimento. Sumiram com seus cadáveres. Fizeram desparecer as vidas e pretendem agora apagar as mortes. E as famílias carregam um pesadelo que não tem fim. Cada campainha que toca em casa funciona como um vento a soprar as cinzas e reanimar a brasa da esperança, seguida de amarga decepção: “Será que não é ele que está chegando”? Outros dizem: “não mudemos de casa porque ele pode ainda chegar… e se nos não estivermos mais aqui para o abraço, o beijo, as lágrimas… que será dele?”

Os torturadores e seus mandantes estão ai, agora ameaçados pelo esculacho do movimento Levante Popular da Juventude que não lhes deixa a consciência descansar. A estes, quisera eu, como teólogo, perseguido, mas não torturado, gritar-lhes ao ouvido o clamor de Jesus Cristo:”Da vossa geração será pedida a conta do sangue de todos os profetas, dos perseguidos e dos torturados, sangue derramado desde o princípio do mundo. Sim, vos asseguro que vos será pedida a conta deste sangue”(Lc 11,50-51).

Poderá haver anistia pactuada dos homens. Mas não haverá anistia perante a consciência e perante Aquele que se apresentou sob a figura de um preso, torturado, executado na Cruz, Jesus, o Nazareno, feito Juiz Supremo que julgará especialmente aqueles que violaram a humanidade mínima.

Chegará o dia, supremo dia, em que todos os desparecidos aparecerão. Eles virão, como diz o Apocalipse, da grande tribulação da história. Sim, eles voltarão junto com o Vivente. E então não haverá mais espera nem palpitação dos corações. O Vivente, também um dia torturado, anulará todas as distâncias, enxugará todas as lágrimas e inaugurará o Reino dos sacrificados e desaparecidos, agora vivos, libertos e encontrados. Então será definitivamente verdadeiro: “Nunca mais uma ditadura. Nunca mais desaparecidos.Nunca mais a tortura”.
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Leonardo Boff é teólogo e professor emérito de ética da UERJ. 
Fonte: http://mercadoetico.terra.com.br/27/11/2012
Imagem da Internet

terça-feira, 27 de novembro de 2012

A Fé numa sociedade sem referências

 
As Jornadas de Teologia, em Viseu, debateram «A Fé numa sociedade sem referências». Na sua opinião, que referências se foram perdendo nesta sociedade contemporânea?
 
IL - As referências relacionam-se com o acreditar na transcendência. O homem tornou-se ídolo de si próprio, deixou de viver a sua vida em relação. E quando perde a alteridade, a referência ao outro, e este Outro, com letra grande que é Deus, o homem procura-se a si próprio e ilusoriamente constrói a sua vida pensando que, realizando-se a si próprio, realiza o ideal de si mesmo e um ideal que é portador de felicidade.
Hoje a falta de referências centra-se na solidão do homem. Olha-se e vê-se um vazio, um anular de convicções.
Hoje a falta de convicções e a falta de referências assenta na falta de relações com os outros, em pé de igualdade e com Deus. Esta relação, origem e fonte de toda a comunhão, seria consequência de uma vida fraterna, da dignidade humana e de uma sociedade com valores em vista ao bem comum.
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Entrevista do  D. Ilídio Leandro, bispo diocesano, fala à ECCLESIA dos desafios que se colocam à Igreja viseense (Portugal), em plena caminhada sinodal, perante os sinais de afastamento da prática religiosa, por parte dos católicos, e face a uma situação económica e social que coloca cada vez mais problemas.
Fonte: http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?&id=93468

Pensamento do dia

 Fé voltada para a vida.
«Hoje sentimos a necessidade de uma fé voltada para a vida. 
De uma fé que constitua uma arte de viver, 
e não apenas um conjunto de práticas ou credos que vamos mantendo vivos ao longo da História. Precisamos de mais. Em nós próprios observamos muitas vezes 
um analfabetismo perante os atos fundamentais da vida. 
Há momentos que nos deixam sem palavras, 
sem apoio: uma doença, um incidente, uma crise, uma alegria, 
um grande encontro, que frequentemente parecem um caminho paralelo, 
para o qual a fé não tem capacidade de acolhimento.»

(Da conferência "A importância do agora: os desafios de um cristianismo sapiencial",
 proferida pelo padre José Tolentino Mendonça, diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, 
no âmbito do ciclo "Viver a Fé aqui e agora", organizado pelas 
Monjas Dominicanas do Lumiar (Lisboa). )

Eu me acuso!


O que um texto clássico que pouco ou nada tem a ver com 
relacionamentos amorosos pode nos ensinar? 
É sobre isso o texto de hoje do redator  
Marcelo Zorzanelli, na seção 
Homens de Segunda.

Tem uma frase que me motiva muito, talvez até a viver mais tempo. Parece que está em “As Neves do Kilimanjaro”, de Ernest Hemingway, mas eu não me lembro bem. Vai mais ou menos assim: “Quero viver o bastante para aprender a contar as coisas que vivi”. Permanecer vivo, lutando, para escrever as canções sobre as batalhas. A história é contada pelos vencedores.

Não sei por que estava pensando nisso. Ah, claro. Tive uma espécie de febre literária ontem à noite, no aeroporto. Deparei com o J’Accuse, num livrinho de bolso da LP&M, e comprei. É a coletânea dos artigos do caso Dreyfus editada pelo próprio Émile Zola, um ano antes de morrer. Para quem não sabe, capitão Alfred Dreyfus, de origem judaica, foi condenado por alta traição pela corte francesa, acusações estas baseadas em documentos falsos. Há, na bela introdução, feita por um estudioso francês de quem não me lembro o nome — embora o livro esteja bem aqui ao lado, e bastasse abri-lo na página 2 para saber — bom, como ia dizendo, há ali uma narrativa que contém todos os elementos da melhor literatura, a paixão, o ódio, a intriga e o ritmo da melhor literatura, e tudo era verdade e era lido nos jornais, dia após dia, no ritmo fulminante das grandes comoções públicas. Foi quase tudo escrito de chofre, às vezes na oficina do jornal. (Quer se surpreender? Veja a tiragem do jornal que publicava os textos de Zola: 300 mil cópias diárias; e não era o Figaro, que, imagino, embatumava ainda mais leitores). Tudo publicado ali por volta de 1888, 89.

O capitão de origem judaica Alfred Dreyfus era acusado do crime de lesa-pátria mais aviltante para um francês, a entrega de segredos de guerra, de um dossiê que ficou conhecido como “o borderô” aos alemães, vizinhos e inimigos naturais. Forjou-se até um documento para que Dreyfus fosse logo culpado e se calasse a grita nos jornais. Assim permaneceu a situação — o inocente preso e humilhado — até que uma prova identificasse o verdadeiro culpado; uma prova que ricocheteou em meia dúzia de oficiais do exército sem sair de dentro da caserna. O caminho que levou essa prova até Zola é interessantíssimo, uma verdadeira esteira de heróis em marcha. O nome do livro, aliás, é “A Verdade em Marcha”. Mas ficou mesmo conhecido pelo petulante título “J’Accuse!”, “Eu Acuso”, um título que Zola não escreveu, e sim o editor do jornal que primeiro publicou a carta. O texto chegou à redação com o título “Carta ao Sr. Félix Faure, Presidente da República”, e convenhamos, o editor tinha razão em colocar lá em cima o “Eu Acuso”.

(Embora eu passe longe do sentimento que certos intelectuais brasileiros nutrem pela prosa francesa, e apesar desse ser um texto recheado de parágrafos imaginados em francês — e portanto maneirosos ao extremo — de fato é uma das leituras mais empolgantes que faço em bastante tempo).

Antes de assumir a defesa pública de Dreyfus, Zola já se sentia um membro da Academia, sagração máxima de um homem de letras na terra de Victor Hugo. Embora jornalista, Zola cavou no paço literário uma trincheira de onde lançava romances, polêmicos e de muito sucesso.

Mas Zola tinha outros defeitos, além do de ser jornalista. O parecer de um médico vazou ao público, e o fato de que Zola era “excessivamente emotivo” tornou-se motivo de troça.
E é aqui que interrompo o caminhão desenfreado desta minha apreciação para uma pequena, mas vital, constatação. Zola, o intelectual a quem foi negado quase tudo em vida, atirou-se na mais perigosa das campanhas ao descobrir que sua amada pátria havia cometido o crime do antissemitismo e aprisionado um homem justo.

Quantos de nós serão capazes de fazer o mesmo em nome da verdade?
O que os nervos de Zola dizem sobre suas atitudes?

Há no meio do texto uma descrição terrificante dos cacoetes de Zola enquanto ouvia sua sentença. (Como para isso preciso ter o livro em mãos, aproveito para passar o nome do autor da introdução: Henri Guillemin).

“Ele morde o bastão da sua bengala, passa a mão no pescoço, afasta ou sacode os dedos à maneira dos pianistas que temem cãibras, enxuga o monóculo, agita a perna esquerda, ajusta o colarinho, olha no ar, alisa o bigode, bate os joelhos, sacode a cabeça, crispa as narinas, vira-se para a direita e a esquerda”.

Zola foi condenado a um ano de prisão e três mil francos de multa. Além da liberdade, perdia também (para sempre) a chance de ser um membro da Academia. Mais tarde escreveria que Dreyfus era “um judeu crucificado”, em alusão ao Cristo, e que um cristão não poderia abandoná-lo.

No fim, a persistência de Zola fez com que Dreyfus fosse libertado.

Ele entrou para a história.

Não preciso dizer que certos casais mantém, um do outro, terríveis segredos, sob a justificativa de preservar algo maior. Não existe algo maior que a verdade.

A alguém, a verdade sempre interessa. Por isso ela precisa ser dita. Sejamos nossos próprios Zolas. Manter segredos, cultivá-los como orquídeas no escuro úmido de um canto da memória, fingir ser o que não se é, em última análise, manter as aparências — isso é um crime grave.

Sejamos os acusadores de nós próprios. Que nossos ataques emotivos nos levem até a verdade, seja ela qual for.
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Fonte:  http://colunas.revistaepoca.globo.com/mulher7por7/2012/11/26/eu-me-acuso/

"Falta confiança aos empresários", diz Delfim Netto

Antônio Delfim Netto (Foto: divulgação/wikipedia)

 

O ex-ministro diz que a desconfiança dos empresários em relação ao governo está impedindo investimentos – e afirma que os críticos do Banco Central estão mal informados

Uma das coisas que explicam a vitalidade do economista Antônio Delfim Netto aos 84 anos é a sua disposição de combate. Neste momento, o ex-ministro dos governos militares (Fazenda, Agricultura e Planejamento) e czar da economia nos anos 1960, 70 e 80 está empenhado em defender a gestão da presidente Dilma Rousseff na economia. Concede que o governo se “comunica mal” e que às vezes lhe “falta jeito”, mas diz que, no essencial, o ativismo da equipe de Dilma tem sido na direção correta – embora venha sendo mal interpretado.
O empresariado, diz ele, desconfia das intenções do governo, que é percebido como estatizante, e isso paralisa os investimentos. “Minha maior preocupação é superar essa dificuldade, porque assim nós consagraremos um crescimento de 3,5% a 4%", diz ele. “Eu acho que não há nenhuma razão para catastrofismo. Quando você olha a realidade mundial, vê que estamos em uma situação melhor que a maioria dos países. Somos um país em pleno emprego.” A entrevista que segue foi feita no escritório de Delfim, localizado a lado do estádio do Pacaembu, em São Paulo, na manhã de sexta-feira, dia 23, numa janela de 30 minutos da sua agenda lotada de consultor.

ÉPOCA – Por que os investimentos não estão crescendo?
Antônio Delfim Netto –
Não estão crescendo porque as pessoas não têm confiança. A confiança é a roda dentada que mexe tudo. A economia é simplesmente uma questão de confiança. É um circuito. E a roda dentada que mexe tudo é a confiança. É a confiança que faz o trabalhador acreditar que vai continuar no emprego e, portanto, comprar geladeira. É confiança que faz o fabricante de geladeira comprar aço, para fazer uma nova geladeira. É a confiança que faz um banco emprestar para outro banco, emprestar para o empresário e emprestar para o trabalhador, para comprar a geladeira a prazo. Tudo depende da confiança. Essa roda dentada é que perdeu os dentes – em cima de uma hipótese falsa. A hipótese de que existe um complô contra o setor privado, de que o governo quer nacionalizar a economia.Tudo isso, na verdade, é pura invenção, que se autoalimenta.

ÉPOCA – Algo alimenta esse sentimento?
Delfim Netto –
O ativismo do governo estimula a crença. Mas é um ativismo na direção correta. Quando o governo iniciou esse processo de redução da taxa de juros, estava na direção certa. Está provado que podia baixar os juros e que devia baixar os juros. Alguém tem dúvida sobre isso? A coisa mais divertida é ver um “cientista” dizer: “eu duvido que isso dure cinco anos”. Não sei se o mundo vai durar cinco anos. Essas opiniões não têm fundamento em coisa nenhuma. Não adianta vir com regressões, com estudos econométricos, que simplesmente representam o passado. O que me parece é que há sim um ativismo do governo, mas na direção correta. Não é contra o setor privado. É um ativismo que está tentando cooptar o setor privado. Só que um pouco de mau jeito. É este que, eu acho, é o ponto central. Onde eu acho que o governo erra? É não dizer claramente o que está fazendo. Começar a fazer truques.

ÉPOCA – Por exemplo...
Delfim Netto –
Essa contabilidade fantasiosa, para dizer que fez 3,1 de superávit primário, quando fez 1,9. Seria muito mais eficaz explicar: “Aconteceu isto e aquilo. É 1,9, ou 2,0 ou 2,1. Não é 3,1. Mesmo porque, eu baixei os juros, vou continuar baixando a relação dívida/ PIB”. Não se abandonou coisa nenhuma. Que o governo não está fazendo um controle dos gastos formidável, não está mesmo. E nenhum país do mundo está fazendo. Afinal de contas, o Brasil está crescendo 1,6%. É uma coisa ridícula. Então, essa ideia de que ele abandonou o câmbio, de que o câmbio não flutua... em que país do mundo o câmbio flutua? Nem na Suíça. As pessoas estão absolutamente desinformadas. Nenhum banco central do mundo abandona nem o nível de atividade nem a taxa de câmbio. A maioria desses críticos está absolutamente desinformada sobre para onde está indo a nova teoria econômica, que está absorvendo as críticas que foram feitas a partir de 2008, quando ela foi surpreendida por uma crise. O Stanley Fischer, que era o símbolo da ortodoxia...

ÉPOCA – Ele está em Israel agora...
Delfim Netto –
Ele foi punido com a presidência do banco de Israel. E aprendeu uma enormidade. Então, é preciso ler o que ele está escrevendo. Há todo um movimento. Por isso eu digo que o Alexandre Tombini, (presidente do Banco Central), está melhor aparelhado do que os críticos. O departamento econômico do Banco Central tem gente de altíssima qualidade Não fica devendo a nenhum banco central do mundo em matéria de qualidade de profissionais de análise. Eles estão aprendendo o que todos nós estamos aprendendo com a crise. Então, me parece o seguinte: há um grande exagero. Não se abandonou o equilíbrio. O que eu acho é que você não pode continuar com esse jogo com o BNDES.

ÉPOCA – Qual jogo?
Delfim Netto –
Transferir receita para o BNDES. Há um limite para usar o BNDES. Acho que já atingiu um teto. Aí não se cria recurso nenhum. Quando o governo faz uma dívida para dar dinheiro para o BNDES, ele está fazendo duas coisas: a primeira, ele está dando um subsídio, e ele devia escrever isso no orçamento; a segunda, é que quem está comprando papel do governo, ia investir ou consumir. De forma que o efeito final do BNDES, a não ser quando é um investimento de uma natureza absolutamente extraordinária, é muito menor do que parece.O que nós precisamos é construir um mercado secundário de capitais, e o BNDES é fundamental para isso. O BNDES foi feito para isso.

ÉPOCA – E no caso das elétricas, houve erro do governo?
Delfim Netto –
No caso das elétricas, eu acho que é uma coisa muito simples. Não houve nenhum rompimento de contrato, não houve nenhuma violência, a não ser a violência da comunicação. Aquilo tinha que ser feito como uma lei. Manda para o Congresso, para discutir. Foi um mau jeito. A mudança iria acontecer de qualquer jeito. Podia ter feito com muito mais jeito. O que importa nesse processo é que você criou um estado de hostilidade entre o setor e o governo. Que obviamente não é benéfico ao investimento.
Houve um problema de comunicação. Agora, o setor privado também não pode dizer que não sabia. Ninguém estava sem saber que até 2017 ia vencer o seu contrato. E nenhum analista desses gênios que estão por aí podia ignorar este fato, e fingir que não ia acontecer nada. O que me parece é que isso foi feito de uma maneira truculenta. Não violando contratos, essa crítica é falsa. Mas foi feita de maneira truculenta, é óbvio. Também é mentira dizer que não havia nenhuma discussão. Faz um ano e meio, dois anos, que essa gente toda está discutindo na casa civil, o que ia acontecer, qual era a alternativa. Há mais de um ano esse negócio está circulando. A FIESP preparou não sei quanto papeis sobre isso.

ÉPOCA – O que o inquieta e o que o deixa tranquilo para 2013?
Delfim Netto –
Tranquilo, nada me deixa. Primeiro, eu acho o seguinte: 2013 não está dado. Vai ser o que nós formos capazes de fazer dele. Depende do governo e dependo do setor privado. O segundo problema é que não existe nenhuma capacidade de previsão. A minha esperança é de que se transcenda esse mito que da separação entre o setor público e o setor privado, para de novo acordar o espírito animal dos empresários brasileiros. Eles estão aí, mas precisam acreditar que ninguém está querendo uma sociedade socialista. Todos nós queremos uma sociedade capitalista moderna.

ÉPOCA – Qual sua maior preocupação para esse ano que entra?
Delfim Netto –
Minha maior preocupação é superar essas dificuldades, porque assim nós consagraremos um crescimento de 3,5% a 4%. E continuando com os objetivos de inclusão. Eu acho que não há nenhuma razão para catastrofismo. Quando você olha a realidade mundial, você vê que estamos em uma situação melhor que a maioria dos países. Somos um país em pleno emprego. Pleno emprego produzido por uma revolução das mulheres.

ÉPOCA – De onde o senhor tirou isso?
Delfim Netto – É isso mesmo. As mulheres se educaram mais que os homens. Quando eu era moço, na Idade Média, eu e o Roberto Campos dizíamos “ih, não vai dar certo”. Nós vamos ter 500 milhões de habitantes em 1990, em 2000 nós vamos ser uma Índia. Nada. Cada mulher deixava 6 filhos. Hoje, cada mulher deixa menos de 2. Elas se educaram mais que os homens. Progrediram. Colocaram como objetivo número 1 de suas famílias a educação. Você pode pegar a pessoa mais humilde, ela está fazendo o diabo para o filho ir para a escola. Porque incorporou a ideia de que só o conhecimento é a única herança que você pode deixar. O resto tudo pode ser tirado. Isso não. Aí está o avanço: a mulher era empregada doméstica, passou a ser manicure, foi para o call Center, do call Center foi para uma loja de departamento. Hoje ela está lá numa loja de departamentos como gerente. Essa revolução feminina, que é a revolução demográfica, é a coisa mais importante que aconteceu no Brasil. Porque ela está ligada a essa ideia da educação da mulher. A mulher aprendeu a dirigir, a cuidar do filho, a trabalhar. E nós estamos sendo dirigidos por um matriarcado...
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Reportagem por  IVAN MARTINS
Fonte:  http://revistaepoca.globo.com/Brasil/noticia/2012/11/antonio-delfim-netto-esta-faltando-confianca.html

A Europa de Steiner

João Pereira Coutinho*
 

Não, aquilo que une os europeus não é a União Europeia, o euro e outras construções burocráticas 

Estou sentado num café no centro de Lisboa. Sobre a mesa, os jornais do dia. Então um cavalheiro aproxima-se da minha mesa, olha para os jornais e pergunta: "São da casa?".

Eu sorrio, digo que não, que são meus, mas disponibilizo a prosa na mesma. O homem agradece, escolhe um deles, afasta-se e começa a leitura matinal. Então eu penso: isto é a Europa.

Penso eu e pensa George Steiner, em pequeno ensaio que recomendo. Intitula-se "A Ideia de Europa", foi uma conferência célebre proferida por Steiner no Instituto Nexus, da Holanda, e a ambição do autor era a de encontrar o patrimônio cultural que une os europeus.

Steiner é magistral, na forma e no conteúdo: não, aquilo que une os europeus não é a União Europeia, o euro e outras construções burocráticas presentemente em crise.

A ligação fundamental encontra-se, antes, na cultura, no pensamento e, enfim, numa certa forma de estar e de viver que, embora possa ser exportada para outras latitudes, tem um berço reconhecível.

Os cafés são um bom exemplo. As ilhas britânicas podem ter os seus pubs. As cidades americanas podem ter um bar em cada esquina. Mas os pubs e os bares não são os cafés de Lisboa, frequentados por Fernando Pessoa. Nem os cafés de Odessa, povoados pelos gângsteres de Isaac Babel.

Para Steiner, os cafés da Europa são lugares de encontro, ociosidade, debate e até produção intelectual. Como escreve o autor, podemos imaginar tudo num pub ou num bar. Não imaginamos a produção de uma obra filosófica; um debate político intenso; o nascimento de um novo movimento artístico; ou até, como agora, a simples partilha anônima dos jornais do dia para acompanhar o café da manhã.

 "...o continente europeu foi aquele onde 
era possível escutar Schubert ao jantar e, 
na manhã seguinte, gasear judeus 
de consciência limpa."

A Europa são os seus cafés. E seria possível escrever uma história cultural do continente atribuindo a Karl Kraus, a Carnap ou a Musil o seu café particular, escreve Steiner.

Mas a ideia de Europa não se limita aos cafés. Nessa ideia, está também a dimensão humana e histórica dos lugares. A Europa não é percorrida por uma selva amazônica ou por um deserto do Saara. As suas distâncias não são geológicas ou continentais.

A Europa, desde sempre, foi um território pedestre, no sentido literal do termo: algo para ser descoberto a pé. As distâncias são humanamente modestas. E, em cada rua ou praça, não temos a classificação impessoal e numérica das grandes cidades americanas: Quinta Avenida, Sexta, Sétima, e por aí afora.

Temos marcas literárias, políticas, artísticas, de um continente saturado de passado. Steiner cita exemplos: rue Lafontaine, place Victor Hugo, Pont Henri IV. Os europeus convivem diariamente -melhor: caminham diariamente- pela evidência material e imaterial do que ficou para trás.

Por fim, não interessa se você nasceu em Lisboa, Paris ou Berlim. O europeu é sobretudo herdeiro de Atenas e Jerusalém: da cidade terrestre e da cidade celeste; da tensão permanente entre a razão e a fé; entre o espírito científico e as "intimações" da transcendência.

Foi desse diálogo, e até desse confronto, que nasceu o melhor das artes e das letras. Um patrimônio que sobrevive até hoje.

Claro que Steiner, o último grande humanista do nosso tempo, também sabe que a ideia de Europa não se limita a páginas nobres: a Europa foi igualmente o espaço de ódios viscerais e barbaridades sem perdão.

Como Steiner repetidamente escreve em várias das suas obras, o continente europeu foi aquele onde era possível escutar Schubert ao jantar e, na manhã seguinte, gasear judeus de consciência limpa.

Mas mesmo essa experiência negra conferiu aos europeus um "sentido de finitude" apurado. É essa consciência assombrada que distingue o homem europeu do otimismo fundacional que impera no Novo Mundo.

Moral da história?

Todos os dias, o leitor é confrontado com notícias apocalípticas sobre o futuro da União Europeia. E é possível que, lendo essas notícias, o leitor cometa o erro mais comum sobre a matéria: confundir a União Europeia com a Europa e os burocratas de Bruxelas com os europeus.

Nada mais falso. Ler George Steiner é reaprender que a ideia de Europa é anterior à União Europeia. E que, aconteça o que acontecer, essa ideia irá sobreviver a ela.
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* Jornalista, cientista político, escritor.
jpcoutinho@folha.com.br
Fonte: Folha on line, 27/11/2012
Imagem da Internet 

Sexo e erotismo

Francisco Daudt*

Nossa espécie arrumou sofisticações para o impulso sexual, e a maior delas é o amor 

Está bem que nosso primeiro e mais basal motor para viver é o impulso sexual (o gene egoísta quer reprodução, por isso nos ilude com a isca dos prazeres), como qualquer outro vivente sexuado. Mas a nossa espécie, em sua complexidade, arrumou sofisticações para a coisa, e a maior delas é o amor.

Os campeões de pensar o amor continuam sendo os gregos clássicos, de 2.400 anos atrás. Eles reconheciam três formas distintas de amor: Eros, Filia e Ágape.

Eros fala do desejo se expressando nos sentidos, como excitação, e no cérebro, como embriaguez. No coração e nos genitais, ambos pulsantes, na pele que se arrepia, na visão que se turva, na face que enrubesce, no equilíbrio que se perde, na voz que falta, na paixão que arrebata, no animal que irrompe, no ímpeto de tomar, na lassidão de se entregar. A um tempo telúrico e delicado, tectônico e sutil, a mais evidente força da natureza em nós. Ainda estão para inventar prazer maior que o da excitação romântica. Nada se compara à felicidade sexual que faz ver passarinhos verdes, e que só acontece quando a chave e a fechadura certas se encontram, coisa rara. Assim é Eros.

Filia é a amizade, o encontro das almas, o porto seguro, a confiança aliada ao respeito. A consideração (que é ter o outro dentro de si), o bem querer e querer o bem. O lugar da intimidade emprestada com gosto, da compreensão, da compaixão (que é o sofrimento partilhado), do acolhimento da alegria e da tristeza, da saúde e da doença, da riqueza e da pobreza pelos tempos afora. Qualquer semelhança com os votos do casamento é totalmente intencional, pois não há um que perdure sem que a filia tenha crescido entre os dois.

Ágape é a camaradagem, a ligação dos companheiros, seja da boa mesa, seja da torcida pelo esporte. É a liga entre correligionários, do partido ou da religião mesmo, que às vezes se confundem. São os contendores do frescobol, o esporte sem contenda, voltados que estão para construir beleza em suas jogadas, um escada do outro. Os colegas de turma, que almoçam nos aniversários redondos de formatura e se atiram bolinhas de pão. Sócios do mesmo clube, os seguidores do mesmo Twitter, do Facebook, parceiros do baralho na pracinha. Aqueles que se reúnem para tirar um carro do atoleiro e depois não se encontram mais. Dão passagem no trânsito, lugar para os mais velhos. Colegas de excursão. Colegas.

Os vários tipos de amor se entrelaçam, ou, pelo menos, não são categorias estanques, e é bom que seja assim. Eros surgindo na Filia, Filia no Eros, Ágape passeando entre eles...

A pornografia é curiosa. Em sua origem significa "registro da prostituição". É, como a outra, comercializável. E pode, como a outra, ser ou não plena de Eros. Carlos Zéfiro da minha adolescência continha Eros, sedução. Os filmes de hoje, que já começam na aeróbica, têm pouco Eros. Ou o fetiche voyeurista é seu próprio Eros?

Mas meu interesse é perceber como a espécie trouxe complexidade ao comando genético que leva à reprodução, e o leque de possibilidades que nosso desejo contempla. 
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*  Médico. Psicanalista. Escritor.
www.franciscodaudt.com.br
Fonte: Folha on line, 27/11/2012
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