segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Luis Fernando Veríssimo: "A IRONIA É SEMPRE PERIGOSA".

"A ironia é sempre perigosa", diz Luis Fernando Verissimo Revista Rolling Stone Brasil/Divulgação

O novo livro de Verissimo estará à venda a partir desta quarta-feira Foto: Revista Rolling Stone Brasil / Divulgação

Em entrevista, o autor falou sobre seu novo livro e também abordou temas como a falta de memória sobre a ditadura

Com mais de 40 anos de trajetória como colunista, Luis Fernando Verissimo vê mais um livro com suas crônicas chegar às livrarias. O escritor recebeu ZH em sua casa para falar sobre As Mentiras que as Mulheres Contam, que estará à venda a partir desta quarta-feira. O volume segue o espírito do seu sucesso As Mentiras que os Homens Contam, com crônicas publicadas na imprensa e um texto inédito que retratam diferentes tipos do universo feminino. Apesar de sua propalada timidez, Verissimo falou à vontade sobre vários temas, como a polarização do debate público e a falta de memória sobre a ditadura. Confira.

Muitos textos de As Mentiras que as Mulheres Contam contêm ironia. Como o senhor encara o risco de ser mal interpretado ao ser irônico?
A ironia é sempre perigosa, pois só funciona se também for lida com ironia. Quando a pessoa não entende, é mortal. Há sempre o risco de os leitores levarem a sério algum exagero que a gente faz. Lembro de uma vez em que escrevi sobre o povo brasileiro, dizendo que era o culpado pelos problemas do país, que é um povo doente, com maus dentes... E teve mais de um leitor que concordou comigo e veio me cumprimentar pela coragem de dizer algo que ninguém dizia. Esse é só um exemplo, mas houve muitos outros.

O debate público parece cada vez mais polarizado. Como o senhor, que se posiciona em suas colunas, percebe este momento?
Sim, está um debate raivoso. É até mesmo assustador o crescimento da direita brasileira, chegando às vezes às raias do fascismo. E também há muita raiva do outro lado, na esquerda. Está uma coisa meio feia, principalmente na internet. Na internet, as pessoas se soltam, soltam seus ódios e ressentimentos.

O senhor acompanha os comentários sobre seus textos publicados na internet?
Recebo muitas mensagens desaforadas me xingando, e também sou citado por colunistas – de direita e de esquerda. Há coisas sem nada de civilidade. Podemos fazer debates políticos e ter discordâncias, mas sem apelar para a violência verbal. É violência mesmo. Muitas pessoas ligadas à esquerda são às vezes hostilizadas na rua, em restaurantes. Houve o caso do ex-ministro (Guido) Mantega, que foi agredido, insultado. É triste isso.

O senhor tem recebido mais mensagens agressivas?
Sempre que escrevo algo sobre política, vêm muitas mensagens. Eu até nem leio mais quando vejo que será algo cheio de ódio. Acho que isso tem crescido de uns tempos para cá, principalmente com todos os escândalos de corrupção, que têm atiçado as pessoas. As manifestações contra a corrupção são compreensíveis, mas há gente pedindo a volta da ditadura. Isso é inconcebível. São pessoas que não lembram ou não sabem o que foi o regime militar.

Manter a memória sobre esse passado é um estímulo para escrever?
Sim, tenho comentado isso. Comecei a ter uma coluna assinada em jornal em 1969, a época mais brava da ditadura. Havia assuntos que não podíamos tocar, e também não podíamos criticar os militares. Era duro. No Sul, a situação não era como, por exemplo, a de O Estado de S. Paulo, onde havia censor na redação decidindo o que podia ou não sair. Aqui havia mais autocensura, com as próprias direções dos jornais fazendo a censura prévia. Foi um período difícil. Caso algum texto fosse vetado, a gente sempre tinha um de reserva, falando do sexo dos anjos, para substituí-lo. 

O humor era um caminho para burlar a censura?
O humor e, principalmente, o cartum. Por alguma razão, a gente podia dizer coisas com os cartuns que não era possível expressar no texto. Talvez porque o desenho tenha essa conotação de algo lúdico, infantil. O mais importante humorista da época foi o Henfil, um cartunista. Fazia críticas aos governos e aos militares, mas disfarçadas pelo desenho. Aqui também sempre houve bons cartunistas, como o Edgar Vasques, o Santiago, o Sampaulo, entre outros.

A literatura também foi importante na resistência?
Livros não eram censurados, embora também houvesse autocensura dentro das editoras. Quando houve uma tentativa de censurar livros, meu pai, Erico Verissimo, e Jorge Amado trocaram correspondências e definiram que não publicariam mais no Brasil se houvesse censura prévia de livros. O governo recuou, acredito que, em parte, devido a essa resistência do meu pai e do Jorge Amado.
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Reportagem por  Alexandre Lucchese
Fonte: http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/noticia/2015/10/a-ironia-e-sempre-perigosa-diz-luis-fernando-verissimo-4862539.html 05/10/2015

domingo, 4 de outubro de 2015

LEONARDO BOFF: Francisco de Assis. O protótipo ocidental da razão cordial e emocional.

 Foto: Jim Frazier
“Francisco punha coração em todas as coisas, por isso as amava e sentia-se unido a elas como membros de uma grande família terrenal e cósmica”, afirma o teólogo.
 
Ser radicalmente pobre para poder ser plenamente irmão: este é o sentido da pobreza franciscana”, explica Leonardo Boff à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por e-mail.

Neste domingo, 04-10-2015, a Igreja celebra o dia de São Francisco de Assis, que, segundo o teólogo, “inaugurou uma Igreja na base, junto com os pobres, pregando pelas estradas ou nas praças, rezando as horas canônicas debaixo de árvores e teatralizando passagens bíblicas como fez com a celebração do Natal, inventando o presépio”.

Fonte de inspiração nos dias de hoje, a figura de Francisco de Assis é reavivada na Igreja e inspira inclusive Bergoglio, que “tomou o nome de Francisco pelo fascínio que sempre exerceu sobre ele a figura deste santo especial e por causa do amor aos pobres e à natureza”, diz o teólogo. Parafraseando a Carta Encíclica Laudato Si', do Papa Francisco, sobre o cuidado da casa comum, Boff lembra que “‘Francisco é o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral… o seu coração era universal’ (n.10). Todo o texto da encíclica vem imbuído de coração, pois lê os dados da situação da Terra afetivamente e não apenas intelectualmente. Isso é o modo de São Francisco ler o mundo a partir de um sentimento profundo de união”.

Autor de São Francisco de Assis: Ternura e Vigor, Boff enfatiza que Francisco se “transformou num arquétipo”, numa referência de ideal humano, porque “de tudo o que lhe acontecia, a dimensão de sombra e a dimensão de luz, suas decepções e alegrias, seu sofrimento e morte, fazia caminhos de crescimento e de total integração. Desse processo que combina ternura e vigor, céu e terra, vida e morte, irrompe sua irradiação de alguém que realizou sua humanidade de modo exemplar. Criou um humanismo terno e fraterno que vai além do mundo humano e que abarca toda a natureza e o próprio universo. (...) Francisco bem o sabia, por isso, embora para nós seja um santo exemplar, se considerava o maior pecador do mundo, ‘pequenino, pútrido e fétido, mesquinho, miserável e vil’, como diz numa de suas cartas. Ele podia dizer isso, pois não havia negado, mas integrado tais realidades sombrias, próprias de nossa condição humana, numa síntese superior, repleta de luz, de enternecimento e de amortização”.
Leonardo Boff é teólogo, filósofo e autor de uma imensa obra sobre temas ambientais. Desta obra, citamos Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres, recentemente reeditada.
Confira a entrevista.
Foto: http://www.paroquiadapompeia.org.br
IHU On-Line - Quem foi Francisco de Assis? Como entendê-lo na sua complexidade que vai da ternura ao vigor?
Leonardo Boff - Embora tenha vivido há mais de 800 anos, novo é ele; nós somos velhos. Pois ele conseguiu o que nós dificilmente alçamos: nos relacionar com todas as coisas, mesmo as mais adversas como a morte, chamando-as com o doce nome de irmãos e irmãs. Assim conseguiu uma reconciliação, como se fosse um habitante do paraíso terrenal. Com razão o grande historiador Arnold Toynbee disse em sua última entrevista: “Francisco, o maior dos homens que viveram no Ocidente, deve ser imitado por todos nós, pois sua atitude é a única que pode salvar a Terra e não aquela de seu pai, o mercador Bernardone”.

O filósofo Max Scheler em conhecido livro Essência e Formas da Simpatia afirmava: “São Francisco é o protótipo ocidental da razão cordial e emocional, coisa que posteriormente foi relegada à margem”. É ela que nos faz sensíveis à paixão dos sofredores e aos gritos da Terra devastada pela voracidade industrialista atual.

IHU On-Line - O senhor diz que o contato com Francisco de Assis provoca uma crise profunda. Que tipo de crise é essa?
Leonardo Boff - São Francisco nos faz descobrir nosso distanciamento da natureza, como se não fôssemos parte dela, mas sim seus senhores e donos. Essa atitude está na raiz da crise ecológica atual, pois ela se funda na falta de pertencimento, da ausência de cuidado e de amor para com todas as coisas, pois elas têm um valor intrínseco em si mesmas. Comparar o que somos e fazemos com o que fazia e era São Francisco nos cria má consciência e nos introduz numa crise purificadora, pois nos convida a mudar nosso estilo de vida.

IHU On-Line - Como entender a mística de Francisco de Assis e a sua relação com o meio ambiente?
Leonardo Boff - São Francisco conferiu centralidade ao coração. Em seus escritos a palavra “coração” ocorre 42 vezes sobre uma de “inteligência”; “amor”, 23 vezes sobre 12 de “verdade”. Sabemos hoje que é na razão cordial e sensível que se encontram a sensibilidade profunda para com os outros, os valores éticos e a espiritualidade. É o coração que o fez sentir o Sol, a Lua, a água e o lobo e até a morte como irmãos e irmãs. Essa atitude nos é exigida hoje pela crise ecológica. A razão sozinha não dá conta de nossos problemas fundamentais, porque ela apenas vê, analisa e calcula. Será o coração que nos moverá para o cuidado, o respeito e o amor à Mãe Terra.

IHU On-Line - Qual era a concepção de Igreja de Francisco de Assis? Quais eram os pontos cruciais de divergência com o alto clero? Com qual modelo de igreja ele estava dialogando e, inclusive, se opondo?
Leonardo Boff - O teólogo Joseph Ratzinger, num de seus escritos sobre o sentido da profecia na Igreja, escreveu que o “não” de São Francisco ao tipo de Igreja de seu tempo não poderia ser mais radical. Mas seu “não” nunca é verbalizado, nunca faz uma crítica aberta ao sistema curial, especialmente sob Inocêncio III, o Papa mais poderoso da história da Igreja. Ele não falou nem criticou como fizeram os Reformadores do século XVI. Ele simplesmente deixou-se orientar pelo evangelho, lido em glossa, quer dizer, sem comentários que lhe tiram a força transformadora, mas em seu sentido original: viver seguindo o Cristo pobre, descoberto nos mais pobres dos pobres que são os hansenianos, ter extremo enternecimento e compaixão para com todos os sofredores e jovialmente acolhendo as mais duras adversidades que a pobreza radical lhe comportava.

Ele inaugurou uma Igreja na base, junto com os pobres, pregando pelas estradas ou nas praças, rezando as horas canônicas debaixo de árvores e teatralizando passagens bíblicas como fez com a celebração do Natal, inventando o presépio. Queria que seus seguidores fossem “menores”, categoria social dos sem poder e que não aceitassem nenhum cargo eclesiástico. Deviam “in plano subsistere”, quer dizer, “manter-se no nível do chão” onde todos os anônimos e invisíveis, o povo em geral, se encontram.

IHU On-Line - Quais os conceitos-chave, as ideias e concepções principais de Francisco de Assis? Como compreender esses conceitos nos dias de hoje?
Leonardo Boff - São Francisco não era um teólogo. Nem era um clérigo. Esquecemos que era um leigo. Só no final da vida deixou-se ordenar diácono para poder continuar a pregar já que havia um decreto papal que os leigos não podiam mais pregar como se fazia antes. Mas à condição de que a este ofício não caberia nenhum benefício. As virtudes principais que vivia com grande jovialidade era a extrema simplicidade, acolhendo a todos assim como eram; depois era a grande humildade tendo-se a si como o menor e servidor, irmãozinho de todos, o fratello; principalmente vivia uma radical pobreza como poverello.

Mas para ele, a pobreza não consistia em não ter, mas na capacidade de dar, e mais uma vez dar, até se espoliar de tudo. Tinha consciência de que entre as pessoas se interpõem os bens e os interesses. Remover tais coisas permitia o encontro direto e imediato, olho a olho, corpo a corpo para colocar-se junto ao outro como irmão. Ser radicalmente pobre para poder ser plenamente irmão: este é o sentido da pobreza franciscana. E por fim, era a permanente alegria, como quem se sente continuamente na palma da mão de Deus. Atribui-se a ele este dito: “eu possuo pouco e o pouco que possuo é pouco”. Este projeto de vida, se vivido hoje, criaria um mundo terno e fraterno, amigo da vida, com uma sobriedade compartida, numa aura de fraternidade universal, entre as pessoas e com todos os seres da natureza, abraçados como irmãos e irmãs.

“Está dentro das possibilidades humanas desentranhar um São Francisco escondido dentro de cada um”

 


IHU On-Line - Como esses conceitos podem ser atualizados para nossos dias na busca por inspiração para sairmos do estado de crise?
Leonardo Boff - Entre muitas outras coisas, considero fundamental, para sairmos da atual crise, resgatarmos os direitos do coração. Quer dizer, sermos não apenas portadores da inteligência racional, mas junto com ela e de forma mais profunda, da inteligência cordial ou sensível. Sentir, como diz o Papa em sua encíclica sobre “o cuidado da Casa Comum”, como próprias as dores da Terra e o padecimento dos outros irmãos e irmãs.

Agirmos a partir do coração que ama, que se identifica com o outro, que cultiva a compaixão e cuidado para com todas as coisas, como cuidava São Francisco.

Ele tirava da estrada as minhocas para não serem pisadas e pedia que até as ervas silvestres tivessem o seu canto reservado nas hortas, porque elas também merecem viver e louvam a Deus de seu modo. Se tivéssemos na humanidade tais sentimentos, não precisaríamos falar em ecologia nem em direitos das pessoas e da natureza, pois tudo isso seria vivido com total espontaneidade.

IHU On-Line - Como Bergoglio e Ratzinger compreendem a figura de São Francisco de Assis?
Leonardo Boff - Joseph Ratzinger, em sua tese sobre o conceito de história em São Boaventura, escreveu como introdução ao tema uma das mais belas páginas que já se escreveram modernamente sobre a figura singular de São Francisco. Creio que os franciscanos ainda não souberam valorizar tais reflexões.

Bergoglio tomou o nome de Francisco pelo fascínio que sempre exerceu sobre ele a figura deste santo especial e por causa do amor aos pobres e à natureza. Em sua encíclica, lhe dedica três grandes parágrafos (nn.10, 11 12) e explica: “Acho que Francisco é o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral… o seu coração era universal” (n.10). Todo o texto da encíclica vem imbuído de coração, pois lê os dados da situação da Terra afetivamente e não apenas intelectualmente. Isso é o modo de São Francisco ler o mundo a partir de um sentimento profundo de união.

IHU On-Line - Como compreender a relação entre Francisco e Clara de Assis? Qual o papel de Clara na história e na “doutrina” de Francisco?
Leonardo Boff - A relação entre Clara e Francisco é uma das mais belas e puras da história do cristianismo. Ele possuía três amores: amor ao Cristo crucificado, amor aos pobres e amor à irmã Clara. Era um verdadeiro amor entre um homem e uma mulher, mas transfigurado por um projeto comum: servir ao Crucificado e aos crucificados da história. O eros desabrochava no agape sem perder o seu fascínio e beleza. Entre eles havia afeto e carinho que não escondeu durante toda a sua vida. Clara seguramente o ajudou a ser tão terno e amoroso para com todas as criaturas.

IHU On-Line - Em que medida a visão de Francisco de Assis com relação ao mundo, os seres humanos e a Igreja dialogam com o pontificado de Bergoglio?
Leonardo Boff - O Papa Francisco colocou o evangelho no centro de sua pregação e de seus gestos exemplares. Foi exatamente isso que fez São Francisco: para ele o evangelho era tudo, não como mero texto, mas como fonte de inspiração, de humanização, de espiritualização e de identificação com o Jesus histórico, a ponto de os textos originários atestarem que chegou a receber as chagas de Cristo em seu próprio Cristo. Não sem razão foi chamado “o primeiro depois do Único (Jesus Cristo)” ou até de “o último cristão”. A simplicidade, a bondade, a ternura e a proximidade que o Papa Francisco revela em sua vida, bem traduzem o espírito de São Francisco.

IHU On-Line - Como compreender Laudato Si’ desde a perspectiva de Francisco de Assis? De que forma a ideia de Ecologia Integral, conceito central da Encíclica, aparece no legado de Francisco de Assis?
Leonardo Boff - O próprio Papa o esclarece em sua encíclica sobre “o cuidado da Casa Comum”, ao dizer: “A reação de Francisco ultrapassava uma mera avaliação intelectual ou um cálculo econômico, porque, para ele, qualquer criatura era uma irmã, unida a ele por laços de carinho; por isso sentia-se chamado a cuidar de tudo o que existe” (n.11). Como dizíamos, Francisco punha coração em todas as coisas, por isso as amava e sentia-se unido a elas como membros de uma grande família terrenal e cósmica.

IHU On-Line - Em seu livro “São Francisco de Assis – Ternura e Vigor”, a história do santo é revelada tendo cinco aspectos como pano de fundo. Quais são, como se relacionam? Como esses aspectos se atualizam nos dias de hoje?
Leonardo Boff - Alguns dizem que de todos os meus livros (já são perto de cem) este é o meu melhor. Que outros o digam, não eu. Mas tentei, por ocasião da celebração de 800 anos de seu nascimento, destacar cinco pontos que mostrassem sua atualidade para o mundo de hoje.

O primeiro é “a irrupção da ternura e da convivialidade, como mensagem à cultura atual”. É a tentativa de opor ao paradigma moderno, fundado no poder como dominação, que tantos males trouxe às grandes maiorias, o paradigma do cuidado, da ternura, da convivialidade com todas as criaturas, não as dominando, mas estando ao pé delas, como irmão menor.

“Foi exatamente isso que fez São Francisco: para ele o evangelho era tudo, não como mero texto, mas como fonte de inspiração, de humanização, de espiritualização e de identificação com o Jesus histórico”

O segundo ponto é “a opção pelos pobres como mensagem de São Francisco à sociedade atual”. Tentei assumir o propósito da Igreja latino-americana, expresso em Medellín e Dom Helder, que entendeu a pobreza não como algo natural e dado, mas como resultado de relações injustas entre as pessoas e suas instituições. Fez-se a opção preferencial pelos pobres, contra a pobreza e a favor da justiça social. Desta opção nasceu a teologia da libertação. Dom Helder sempre repetia que foi São Francisco o verdadeiro fundador desta teologia, porque ele não teve uma atitude assistencialista vivendo para os pobres. Ele mesmo se fez pobre, foi viver no meio deles como pobre e a partir deles lia toda a realidade, também a eclesial. Estimo que esta perspectiva é extremamente atual.

O terceiro ponto trata “da libertação pela bondade: uma contribuição de São Francisco para uma libertação integral dos oprimidos”. Tento mostrar a sua estratégia que era de renúncia total a qualquer tipo de violência. Procura conversar com todos, até com o feroz lobo e conquistar as pessoas pela bondade na convicção de que dentro de cada um arde a chama divina da benquerença entre todas as pessoas.

O quarto ponto aborda “como São Francisco criou nas bases da Igreja daquele tempo uma igreja popular e pobre”, na qual prevaleceu a fraternidade sobre o poder, a palavra do evangelho sobre as reflexões teológicas, a celebração da vida sobre a celebração de simples ritos e a profunda piedade pelos atos e fatos do Jesus histórico, seu nascimento, sua cruz, sua presença eucarística.

Por fim, como último ponto abordo o tema “do processo de individuação realizado biograficamente por São Francisco”. Quer dizer, como ele, de tudo o que lhe acontecia, a dimensão de sombra e a dimensão de luz, suas decepções e alegrias, seu sofrimento e morte, fazia caminhos de crescimento e de total integração. Desse processo que combina ternura e vigor, céu e terra, vida e morte irrompe sua irradiação de alguém que realizou sua humanidade de modo exemplar. Criou um humanismo terno e fraterno que vai além do mundo humano e que abarca toda a natureza e o próprio universo. Penetrou no seu Profundo radical onde se aninha Deus com sua graça e seu amor.

Poder ter chegado até aquele ponto é mais que esforço pessoal, é principalmente dom de Deus. Francisco bem o sabia, por isso, embora para nós seja um santo exemplar, se considerava o maior pecador do mundo, “pequenino, pútrido e fétido, mesquinho, miserável e vil”, como diz numa de suas cartas. Ele podia dizer isso, pois não havia negado, mas integrado tais realidades sombrias, próprias de nossa condição humana, numa síntese superior, repleta de luz, de enternecimento e de amorização.

IHU On-Line - Que humanismo Francisco inaugura e como se alinha com os princípios cristãos?
Leonardo Boff - Francisco se transformou num arquétipo, isto é, numa referência de valor e de ideal humano. Como tal não pertence mais aos franciscanos nem sequer aos cristãos. Ele pertence à humanidade. É uma das figuras da qual nos podemos orgulhar e dizer: está dentro das possibilidades humanas desentranhar um São Francisco escondido dentro de cada um. Essa energia amorosa e terna, escondida em nós, nos faz mais humanos, mais compassivos, mais solidários e mais capazes de um amor incondicional. Não foi isso que queria Jesus de Nazaré? Seu propósito não era criar uma nova religião, mas suscitar o homem e a mulher novos, feitos de amor, de compaixão, de entrega aos outros até o último sacrifício, sempre com total desapego, com alegre jovialidade e com jovial alegria.
Por João Vitor Santos e Patricia Fachin
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FONTE:  http://ihu.unisinos.br/entrevistas/547571-francisco-de-assis-o-prototipo-ocidental-da-razao-cordial-e-emocional-entrevista-especial-com-leonardo-boff

"Não é um padre qualquer. Perplexidade pelo momento e a modalidade do gesto"

 
Marinella Perroni, professora de Novo Testamento no Pontifício Ateneu de Santo Anselmo, foi por anos presidente da Coordenação das Teólogas Italianas, não consegue esconder o seu espanto com a saída do armário do padre polaco, teólogo, Charamsa, que atuava na Congregação para a Doutrina da Fé, desde 2003, então sob a direção do cardeal Joseph Ratzinger. Precisamente ela que é conhecida por ter assumido posições corajosas, inteligentes, provocativas sobre a necessidade de mudanças na Igreja na esteira do Vaticano II, desta vez pede tempo. "É preciso entender o que se esconde detrás deste gesto tão inaudito".

A entrevista é de Franca Giansoldati, publicada por Il Messaggero, 04-10-2015. A tradução é de IHU On-Line.

Eis a entrevista.

Há algo que não a convence no gesto de Charamasa?
Pessoalmente me deixou perplexa a modalidade de todo o evento. A modalidade escolhida não me é clara. Foi feita uma saída do armário na presença da imprensa, antes de de fazê-lo na Santa Sé. E este monsenhor trabalhou tantos anos numa instituição, celebrou a missa todas as manhãs, diz que ama o Papa. Talvez tivesse sido mais correto e leal anunciá-lo aos seus superiores. Uma questão de metodologia.

Ele lhe pareceu sincero?
Eu não o conheço pessoalmente. Vi a entrevista dele gravada e me pareceu uma pessoa convencida do seu gesto, uma pessoa motivada, sincera. Mas...

Algo lhe incomoda?
Sim, um aspecto relativo à modalidade. Estamos na vigília de um Sínodo sobre a Família muito importante, um momento em que se debaterá com grande franqueza, como o quer Francisco. Os refletores e as atenções estão voltadas para este evento. Decidir sair do armário precisamente por ocasião da abertura do Sínodo é francamente algo singular. Enfim, eu me pergunto: por que ele fez isto agora e não antes?

Talvez haja outros motivos...
Sim, talvez. Mas quem poderá dizê-lo agora? Será preciso esperar para entender melhor. Para dar uma opinião mais balizada é preciso conhecer mais profundamente a intencionalidade das pessoas, as finalidades. Somente assim podem ser avaliadas os passos dados. Somente assim poderemos ver se se trata de um homem que decidiu empreender um caminho real de libertação. Em todo caso, trata-se de um momento inédito.

Uma mudança radical?
Em certo sentiddo, sim. Este padre não é um padre qualquer, qualquer homossexual. É um prelado que trabalha na Congregação da Doutrina da Fé, um membro da Cúria romana, um colaborador do Papa. Portanto, se trata, do ponto de vista simbólico, de um salto notável. Impressiona. É como se a questão dos gays na Igreja tivesse dado um salto de qualidade de um ponto de vista pastoral para um ponto de vista subjetivo.

A senhora pode explicar melhor?
A questão posta na mesa é subjetividade dos homossexuais e não tanto a atitude teórica e prática das atitudes para com os homossexuais.

Mas a Igreja, efetivamente, é um tanto quanto homofóbica...
Disto não há dúvida. Mas deste mal sofre toda a sociedade, a escola, a pequena burguesia. Enfim, se vamos por estas categorias, não terminaremos nunca de achar uma saída. Mas agora a Igreja faz as contas com uma sexualidade dificilmente compreendida, uma homossexualidade reprimida, tornada clandestina. Com esta saída do armário, no entanto, há o desafio de um reconhecimento pleno.

Segundo a senhora, deste episódio a figura do Papa Francisco sai mais fraca ou reforçada?
Não sei. Seguramente Francisco já atingiu o seu grande objetivo com uma Igreja sinodal e não colegial. Ele abriu um verdadeiro debate e depois das décadas que vivemos na Igreja, isto é uma grande novidade. Este mérito é de Francisco. Pensemos nas outras questões que ele pos na mesa como o perdão para o aborto e a nulidade dos casamentos. São sinais de uma Igreja mais dialogante.

Que efeito terá, segundo a senhora, esta saída do armário deste padre. Haverá uma cadeia de outras saídas do armário?
Há uma emotividade por detrás de cada gesto. Todos sabemos que há religiosos que levam uma vida dupla clandestina. Sair do armário não é fácil, sobretudo quando é necessário ter um paraquedas econômico. Nem todos se podem permitir tal saída.
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Fonte:  http://ihu.unisinos.br/noticias/547609-qnao-e-um-padre-qualquer-perplexidade-pelo-momento-e-a-modalidade-do-gestoq
Imagem da internet

Memória: entre ruínas e sobreviventes


 

Karun Keoshguerian fugiu da Síria e foi acolhida no último vilarejo 100% armênio na Turquia - Norair Chahinian / Divulgação/Norair Chahinian

Neto de armênios, o paulistano Stepan Norair Chahinian reúne em livro fotografias de vestígios e descendentes das vítimas do massacre centenário

Voltar à Turquia, encontrar armênios que vivem lá e utilizar a imagem como ferramenta para o diálogo. Foi essa a missão recebida pelo paulista Stepan Norair Chahinian, de 36 anos, do seu avô paterno Avedis, que saiu ainda criança, em 1919, daquele país — na época, o Império Otomano — para a Síria para escapar de um massacre. O início da perseguição dos turcos aos armênios, que resultou na morte de 1,5 milhão de pessoas entre 1915 e 1923, completou cem anos em abril. Foi pela influência do avô, que mais tarde acabou vindo morar no Brasil, que Chahinian se apaixonou pela fotografia e agora cumpre a promessa.
 
Durante quatro anos, percorrendo mais de 15 mil quilômetros, o fotógrafo documentou com a câmera de seu avô os vestígios dos armênios na Turquia, registrando tanto ruínas quanto sobreviventes. O resultado é o livro “O poder do vazio — conversando com as pedras na Armênia histórica”, que reúne esse trabalho, lançado em Istambul um dia antes do marco do centenário e, amanhã, aqui também no Brasil. O evento será na sede do Consulado da Armênia, em São Paulo. 

O objetivo do fotógrafo é levar as várias histórias coletadas aos locais com grande quantidade de armênios. Na bagagem, ele carrega suas próprias lembranças:
 
— Tenho me sentindo um pássaro migratório, levando notícias de um lado para o outro, fazendo justiça através da arte fotográfica.

O reencontro com o passado começou em 2012. Logo na primeira viagem, Chahinian decidiu procurar a casa que a família Der Bedrossian, de sua avó materna Anahid, tinha em Urfa, na atual Turquia. Lá ele encontraria uma mensagem escrita em armênio na parede e assinada por Bedros, irmão de seu bisavô: “Escrevi isso em 1922 na casa de Nishan, onde fiquei 25 dias. Agora me vou, adeus amigos. Aquele que ler Bedros que se lembre de mim”. Dos 35 membros da família, apenas Bedros e o bisavô do fotógrafo, Haroutiun, sobreviveram.

Na viagem, o fotógrafo conheceu outros armênios com histórias incríveis, como Karun Keoshguerian. Em 2014, ela estava entre os 25 refugiados que, num caminho inverso, fugiam da guerra da Síria. “Despejada” na fronteira com a Turquia, como descreve Chahinian, a mulher de 92 anos foi acolhida em Vakifli, último vilarejo 100% armênio naquele país.

GERAÇÃO MARCADA PELO SANGUE DOS AVÓS
As marcas da luta também estão no rosto de Bedrie Bakircyan, da cidade de Kahta. Quando encontrou Chahinian, em 2012, a senhora de 93 anos guardava a bíblia que sua mãe usava para lhe ensinar religião em armênio. Órfã ainda menina por conta do massacre, ela continuava morando no mesmo local ao lado de filha, neta e bisneta. 

— É toda uma descendência de armênios que pude fotografar. Voltando lá em 2013, ainda soube que a bisneta teve uma filha, então estamos falando de cinco gerações de mulheres que resistiram — resume Chahinian, para em seguida concluir: — Os armênios seguem sendo perseguidos.

Mas o fotógrafo não deixa de citar a insegurança que não só observou, como viveu na região. Ele chegou a fugir da polícia:

— Já viajei com medo porque o jornalista armênio Hrant Dink, que eu tinha como ídolo, foi morto na porta da sede de um jornal em 2007. Mas no fim você tira partido do medo e vira adrenalina.

O termo “genocídio” ainda é rejeitado pelos turcos para explicar as mortes ocorridas entre 1915 e 1923. Chahinian acredita que hoje esse é um problema mais político do que cultural. 

— Minha geração foi criada com as histórias de sangue de nossos avós. Sempre achei que a melhor arma é encarar de peito aberto. Quem cresceu com o fantasma do genocídio deve visitar a Turquia. É um modo de fazer nos reconhecerem.
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Reportagem por

sábado, 3 de outubro de 2015

Bertrand Badie: 'A grande potência ficou impotente'


Para Bertrand Badie, o poder, que antes governava o mundo, ficou para segundo plano: o mundo hoje é feito de sofrimento Foto: Ana Branco / Agência O Globo

Professor do Instituto de Ciências Políticas de Paris, francês veio ao Rio lançar curso de estudos globais e falar na Uerj sobre desigualdade e crise de liderança

“Tenho 50 anos, nasci em Paris e venho ao Brasil há pelo menos 20 anos. Já estive em várias cidades, e me encantei com a beleza da Foz do Iguaçu. É incrível! Agora, estou no Rio para falar sobre a humilhação como parâmetro das relações internacionais e o impacto das desigualdades nos conflitos da atualidade"

Conte algo que não sei
O mundo hoje é feito de sofrimento antes de ser feito de poder. A cada três horas, 2.800 pessoas morrem de fome: igual a um ataque ao WTC. Antes, o poder governava o mundo. Hoje, é o sofrimento. Quem sofre está consciente, e raivoso. Esta raiva provoca os conflitos que, antes, eram confrontos de poderes constituídos.

A crise de imigração é um desses conflitos?
No mundo feito de desigualdades, as pessoas carentes buscam um lugar onde não há tanta carência. Nenhuma medida é capaz de superar a luta da natureza humana por um lugar melhor, idealizado no imaginário do imigrante.

Quem são os senhores da guerra, hoje em dia?
São “empresários da violência”, que exploram a pobreza. O exemplo mais claro disso são as crianças feitas soldados.

Como os conflitos atuais deveriam ser tratados?
No curto prazo, é preciso conter, e não estimular, a violência. Em médio e longo prazos, por meio da integração social global. A maior parte dos líderes não enxerga isso. O presidente Barack Obama foi o primeiro grande líder que percebeu que, em vez da ação militar, era preciso uma integração social. 

O estado islâmico procura, de fato, um califado ou só exercer poder na região?
Acho que a lógica é banal. Maximizar a influência sobre a população usando o sentimento de frustração, de humilhação. Como foi o caso da população sunita do Iraque, depois da queda de Saddam. 

A ONU está preparada para esse novo tipo de guerra?
As Nações Unidas são importantes para uma diplomacia multilateral. Mas o poder de adaptação da ONU é limitado pelos vetos no Conselho de Segurança. Os dirigentes querem olhar o mundo de hoje com os olhos de ontem, de seu tempo.

O enfraquecimento de nações como Brasil e China reduz a pressão para atualizar instrumentos de mediação?
O pecado original não vem dos emergentes, mas das potenciais que têm a pretensão de governar o mundo. Os demais países caem no caldeirão da passividade. Só que a grande potência ficou impotente: Depois da 2ª Guerra, a última vitória americana foi numa disputa contra Granada em 1983.

Há bons líderes hoje?
Não. A classe política não muda. As coisas mudam com líderes não-políticos, como o Papa Francisco, que privilegia o social. Ele mobiliza uma parte da sociedade que os políticos já não alcançam. Mas não podemos pôr toda esperança no chefe de uma religião. É incrível como os líderes só descobriram o problema migratório depois da divulgação da foto de uma criança!

Ou fingiam não saber?
Havia uma certa tática de não ver o problema, mas também o problema estava subdimensionado. Os líderes políticos já não sabem reconhecer os problemas de grande porte.

Como avalia o atual momento político do Brasil?
O Brasil foi pego pela doença mundial: o deslocamento que os políticos têm da sociedade, os erros repetidos. Alguns, como Mandela, ficaram imunes. 

Como vê o ex-presidente Lula neste contexto?
Foi um grande homem. Talvez estivesse com um tamanho excessivo, de grande líder internacional. Agora, ele está exposto a esta doença também.
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Reportagem por Roberto Maltchik
Fonte: http://oglobo.globo.com/sociedade/conte-algo-que-nao-sei/bertrand-badie-grande-potencia-ficou-impotente-17676488 03/10/2015

Nova biografia de Cortázar faz aflorar debates polêmicos sobre sua vida

 
 Cortázar, numa imagem que reforça sua corpulência.

“Não posso ser o que vê em mim. E não posso ser outra coisa em liberdade, porque em seu espelho de sorriso suave está a imagem que esmaga, o filho verdadeiro e a medida da mãe, o bom pinguim rosa vendo e vivendo e tão valente até o fim, a forma que me disse em seu desejo: honrado, carinhoso, feliz, desmaiado”. Foi o que escreveu Julio Cortázar já adulto em uma carta-poema que nunca se atreveu a enviar para sua mãe, com a qual, no entanto, manteve correspondência ininterrupta durante 30 anos.

O peso desse matriarcado é a ponta do iceberg de uma asfixia familiar insuportável, uma provável relação incestuosa com a irmã, o menor peso na sua vida e obra da viúva Aurora Bernárdez, um tratamento hormonal para o seu gigantismo, cujos efeitos colaterais converteram-no em um predador sexual quase aos 60 anos, e a morte por leucemia, sim, embora o golpe de misericórdia tenha sido a aids contraída em uma transfusão de sangue, são os aspectos principalmente freudianos do grande escritor argentino que Miguel Dalmau faz aflorar em Julio Cortázar. O cronópio fugitivo (Edhasa), volumoso (640 páginas) e um polêmico retrato do autor de O jogo da amarelinha.

Cortázar buscava em sua obra (e, por extensão, em sua vida) abandonar uma realidade que lhe parecia incompleta, saltá-la, cruzar a porta, o que explicava suas desconexões e sua tendência a ficar distraído. “Estado de paisagem: quando estou distraído, eu escapo com isso”, dizia. “Eu me limitei a colocar uma lanterna no outro lado dessa porta, seguindo as pistas que os demais biógrafos haviam abandonado”, disse Dalmau, em Barcelona, aonde o garoto Cortázar chegou com sua família em junho de 1917 e aprendeu o que eram os traumas (um galo o despertou no meio da noite e o libertou de seus pesadelos) e onde um trencadís (mosaico) do dragão de muitas cores do Park Güell gaudiniano marcou sua vida, inconscientemente, com imagens desconexas de azulejos coloridos e seu fascínio pelos caleidoscópios reais e literários.

Para Dalmau (Barcelona, 1957), autor da controversa biografia de Gil de Biedma (2004) e da completa Los Goytisolo (1999) e que investiu três anos de trabalho e a dissecação de meio século de obras sobre o autor de Historias de cronopios e de famas, o peso do gineceu argentino marcou toda a vida do escritor. “A mãe, dona Hermínia, era filha ilegítima, e tanto ela quanto a irmã de Cortázar, Ofelia, viveram dele durante toda a vida, porque o pai as abandonou rapidamente: até um mês antes de morrer, enviava cheques da Europa, mas acontece que quem teve que exercer as funções de pai de família desde muito jovem era uma criança introvertida, com problemas de gigantismo e que ficava lendo escondido no sótão o dia inteiro”, afirma o biógrafo, que não hesita em classificar o escritor como “homem bloqueado pelos tabus e um escravo da sua mãe”.

Dalmau (que não pode usar fotos nem trechos dos livros do escritor e que viu como Circe relutava a publicar a biografia) une a tudo isso um fator delicado: em 15 de outubro de 1951, Cortázar instalou-se em Paris. Oficialmente, era porque não poderia suportar a asfixia da ditadura, mas Perón estava no poder desde 1946 e havia acabado de ser publicado, naquele mesmo mês, seu primeiro livro de contos, Bestiario, que no começo vendeu apenas 65 exemplares. Em boa parte dos relatos, a figura do incesto aparece como tema característico: é um dos pesadelos mais recorrentes do Cortázar de então, vinculados, segundo Dalmau, a sua irmã Ofelia, de caráter forte, esquizofrênica como se descobriria depois e pouco fã de sua obra. Isso, segundo o estudioso, foi o “motor freudiano” do verdadeiro motivo que causou a saída precipitada do escritor do país e propiciou sua “unidade centrífuga” pelo mundo, embora “não deva ter sido uma relação ultrajante”.

Miquel Dalmau, autor de un polêmico retrato sobre 
Gil de Biedma, sinaliza um grau de incesto de 
Cortázar com Ofelia, irmã do escritor, 
um tabu cuja obsessão 
foi refletida em 'Bestiario'

O biógrafo também afirma que o peso vital e literário de Aurora Bernárdez, a primeira esposa e futura viúva do escritor (já morta) e com quem Dalmau não conversou porque “não queria que a biografia fosse sequestrada intelectualmente”, foi sempre menor do que se pensava. E, claro, não foi a fonte de inspiração da Maga, a cativante mulher-menina que coprotagoniza o mítico O jogo da amarelinha. “Não foi ela, que o rejeitou constantemente, nem foi a poetisa Alejandra Pizarnik: foi Edith Aron, e o romance refletia a explosiva reação entre ele, que era um estudioso argentino, hipersensível, racional e sem vida, com uma jovem judia dependente de grandes lojas excêntricas, alegre e bastante livre”.

A vida afetiva e sexual de Cortázar vai aflorando – intercalada com interpretações de sua vida a partir de sua obra, também dissecada – ao longo do livro, alcançando um protagonismo notável a partir de um tratamento hormonal ao qual Cortázar se submete, no final dos anos 60, para atacar um tumor, fruto do crescimento desordenado de seu corpo. Essa é a desculpa, segundo Dalmau, da mudança radical nas partes física e sexual do autor argentino, que passa de ser um homem de 1,92 metros de altura, mas sem barba e com cara de bebê, a um personagem barbudo, com cabelo cumprido, muito de acordo com a estética beatnik do momento. “Assim se encerra o intelectual retraído e monogâmico”, escreve o estudioso. A cura, com testosterona, estimulava seu apetite sexual, já suficientemente excitado pela sua relação com a lituana Ugné Karvelis, de caráter forte, culta, cheia de vida e alcoólica, que trabalhava como editora na Gallimard.

Miguel Dalmau, com sua biografia de Cortázar. / JUAN BARBOSA

A imagem do atraente Cortázar seria fixada em fotos muito conhecidas da fotógrafa holandesa Manja Offerhaus, que também foi amante do escritor. As mulheres como objeto de desejo entraram em sua vida, mas nem assim arrumariam as coisas com Aurora nesse campo: aparentemente, Cortázar não podia ter filhos e havia passado um matrimônio em branco do ponto de vista sexual, tese que Dalmau sustenta veladamente. “Aurora não fez mais do que perpetuar o matriarcado argentino no qual o escritor sempre viveu, e que por isso quase nunca se comportou como macho alfa, mas mostrou uma sensibilidade muito desenvolvida, o que explica ter sido um escritor de tanto êxito entre as mulheres”, ratifica o biógrafo.

Em outra reviravolta, Dalmau atribui a Cortázar um safari sexual durante uma viagem no Quênia para uma conferência da Unesco. Ali, além de perseguir algumas nativas, teve um complicado romance com C.C., que o teria forçado; algo que deixou veladamente fixado em alguns poemas publicados postumamente; a violação, como nos momentos do incesto, transborda obsessivamente na produção cortaziana de meados dos anos 70, segundo Dalmau. “O tratamento muda sua atitude e seu comportamento sexual: acontece com ele, aos 60 anos, o que deveria ter acontecido aos 20, com a vantagem de que tem muita carne fresca à disposição porque é conhecido, e em todos os aspectos, um escritor atraente”. É esse Cortázar que deixa o seu amigo Mario Vargas Llosa estupefato quando lhe vai visitar em Londres porque não faz nada além de falar de sexo, drogas e não se reprime na hora de comprar revistas eróticas.

Mas algo não funciona para Cortázar: ele não se sente confortável com essa poligamia. Isso ficará refletido pelo escritor em dois níveis: na sua obra, em romances, como Livro de Manuel, ou em cartas destinadas aos amigos mais íntimos: “Vivo sozinho em uma multidão de amores”, confessará, mais de uma vez, especialmente depois da ruptura com Karvelis pelos ciúmes inevitáveis de qualquer relacionamento aberto.

Desse frenesi sexual, ele sossegará com Carol Dunlop, cuja morte em 1982 deixa um Cortázar já muito doente pela combinação leucemia-aids, por causa de uma transfusão sanguínea em 1981 com sangue contaminado da África, em um ser totalmente melancólico e afundado. “Carol havia lhe devolvido ao terreno lúdico, ao grande garoto que Cortázar sempre foi”, acredita seu biógrafo. O escritor ia sozinho, muito frequentemente, ao cemitério de Montparnasse visitar a tumba da sua companheira, e inclusive, colocava copos e pratos para ela como se estivesse viva quando comia na casa de amigos antigos em comum. A figura do escritor passa ternura e alguma lástima, apesar de que Cortázar nunca tenha sido ingênuo, especialmente no âmbito político, como aponta Dalmau. “Não tem nenhuma miopia política: não se vendeu a Moscou porque sempre foi a favor da liberdade individual, e em sua vida, só leu relatos como Apocalipsis de Solentiname

Juan Carlos Onetti, depois de ler o relato cortaziano El perseguidor, parece que se trancou no banheiro e quebrou o espelho com um soco. Pelas mesmas razões, e talvez por outras totalmente opostas, alguns leitores da desmistificadora Julio Cortázar. O cronópio fugitivo façam o mesmo.
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Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/10/03/cultura/1443901915_577286.html

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

“A Internet organizou a imbecilidade pela primeira vez”

AVIER MARÍAS | ESCRITOR

Javier Marías, de ‘Assim começa o mal’, lançado no Brasil, completa 64 anos irritado

Um dos maiores escritores espanhóis contemporâneos, Javier Marías acaba de completar 64 anos e se diz irritado com a política na Espanha, a Internet e outras coisas mundanas. Seu romance Assim começa o maluma trama de embustes e segredos durante a Transição espanhola, considerada por muitos críticos o melhor livro de ficção de 2014 – acaba de ser lançado no Brasil pela Companhia das Letras. Confira o bate-papo do autor com o EL PAÍS, de que é colaborador prolífico.

Pergunta. Você reuniu 95 artigos publicados no EL PAÍS SEMANAL sob o título Juro No Decir Nunca La Verdad (“juro não dizer nunca a verdade”, lançado na Espanha pela Alfaguara). Eles refletem um período em que seu desassossego civil cresceu. O que lhe sossega?
Resposta. Sou bastante desassossegado, inquieto, às vezes nervoso. Desde que amanhece. Talvez me acalme quando saio para caminhar sem celular. Eu o uso nas viagens. Sinto-me mais a salvo quando não estou ao alcance de ninguém.

P. Dizia Kafka que despertar é o momento mais arriscado do dia.
R. Para mim é o pior. Aos 25 ou 30 anos, era o de ir dormir: eu começava a me preocupar com o futuro. Agora, acordo atemorizado: custo a me acostumar à ideia de que devo começar o dia.

 Estes quatro anos de legislatura [na Espanha] 
foram irritantes e injustos"

P. E já não há mais sossego.
R. Vejo as manchetes e tudo me parece mais grave do que é. O sobressalto me dura até que eu me molhe, até submergir na banheira.

P. E depois se molha escrevendo...
R. Você escreve na imprensa para se banhar nas suas opiniões ou para não calá-las demais. Tento raciocinar, explicar por que alguma coisa me parece estúpida, injusta ou errada.

P. O que a realidade lhe fornece como escritor?
R. Ela me serve para estar mais atento. Se eu só fosse romancista, correria o risco de ficar com a cabeça nas nuvens. Escrever na imprensa me deixa um pouco mais desperto.

P. A classe literária tende a ter a cabeça nas nuvens?
R. Há aqui [na Espanha] a tradição de romancistas que colaboraram na imprensa. A maneira de um romancista enxergar a realidade pode ser útil num país.

P. Pode-se interpretar por seus artigos que sua irritação cresceu?
R. É difícil saber se isso é porque me tornei mais resmungão! Ou porque há mais motivos para estar de mau humor. Ou porque agora chego aos 64 anos, uma idade que os Beatles consideravam revoltante. Mas estes quatro anos de legislatura [na Espanha] foram irritantes e injustos.

P. Você qualifica esta época de grosseira e brega. Seriam adjetivos contraditórios, mas complementares?
R. Se não estiverem unidos, às vezes se alternam na mesma pessoa. Há uma grosseria deliberada e, depois, o mesmo indivíduo solta uma breguice descomunal no artigo seguinte, se falamos de escritores da imprensa.

P. Você fala também de baixeza, de vilania. O que houve, Marías?
R. Nunca fomos um país muito educado; os períodos democráticos verdadeiros foram escassos e duraram pouco, com exceção do atual. E parece que houve uma regressão. Há um pouco de baixeza na Espanha que reemergiu agora. Jovens que nasceram nos anos oitenta agora insultam este período; esse propósito de desprestígio me enche de perplexidade: é o melhor de todos os que tivemos. Nessa atitude há uma espécie de pulsão autodestrutiva que se dá aqui e que espero que não se consolide.
P. Poderia ser ufanismo da ignorância?
As pessoas se intimidam diante dos internautas exaltados e se desculpam sem razão"
R. Sim. Ignora-se a história, falseia-se... Esqueci de dizer: a Internet tem coisas maravilhosas, mas há algo que é novidade: pela primeira vez a imbecilidade está organizada. Sempre houve imbecilidade; imbecis iam ao bar, tornavam públicas as suas imbecilidades, mas é agora que se organizam, com grande capacidade de contágio. E há um problema agregado: as pessoas se intimidam diante de internautas exaltados e se desculpam sem motivos. E as pessoas sofrem represálias. É truculência. E não há melhor forma de a truculência triunfar do que se intimidando e se amedrontando. A Espanha é um país particularmente adepto da truculência.

P. Você diz que estamos em perigo de regressão.
R. Sempre. Há agora sintomas de que isso pode dar errado. O dano é uma constante da vida espanhola: há uma espécie de pulsão autodestrutiva que agora dá as caras outra vez. Tomara que eu esteja errado, mas, sim, vejo perigo.
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Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/24/cultura/1443105759_175114.html

Mia Couto: "há quem tenha medo que o medo acabe"



A fala é de 2011, durante a Conferência do Estoril daquele ano. Em um papo sobre segurança, o escritor moçambicano Mia Couto -- um dos meus preferidos e vencedor do Prêmio Camões (2013), o mais importante da língua portuguesa -- leu esse texto (escrito para a ocasião) que tem muito, mas muito a ver com várias das coisas que queremos passar aqui no PdH.

Enfim. Melhor que ficar explicando malucamente, mais fácil é assistir ao vídeo -- fique tranquilo, ele fala português -- com pouco mais de 5 minutinhos.

Há, também, a transcrição completa logo abaixo. Se não conseguir ver o vídeo, vale a leitura dessa fala fantástica e potente demais para os dias de hoje (os grifos são nossos):

Bom, nada mais inseguro do que um escritor numa conferência sobre segurança, um escritor que se sente um pouco solitário porque foi o único convidado nesta e na anterior edição. Preciso de um abrigo, preciso de um refúgio. É um texto que vou ler... o presidente tinha dito que eu devia falar espontaneamente. Não sou capaz em sete minutos.
Eu escrevi este texto que vou ler e chama-se Murar o Medo.

Murar o Medo

O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem. Os anjos atuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas.

Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada, não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambiente que reconhecemos.

Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura e do meu território. O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte, vislumbravam-se mais muros do que estradas.

Nessa altura algo me sugeria o seguinte: que há, neste mundo, mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional. Os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo.

Os chineses abriram restaurantes à nossa porta, os ditos terroristas são hoje governantes respeitáveis e Carl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência. O preço dessa construção de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo, cometeram-se as mais indizíveis barbaridades.

Em nome da segurança mundial, foram colocados e conservados no poder alguns dos ditadores mais sanguinários de toda a história. A mais grave dessa longa herança de intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.

A Guerra Fria esfriou, mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo: a Oriente e a Ocidente e, por que se trata de entidades demoníacas, não bastam os seculares meios de governação. Precisamos de intervenção com legitimidade divina.

O que era ideologia passou a ser crença. O que era política, tornou-se religião. O que era religião, passou a ser estratégia de poder.

Para fabricar armas, é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos, é imperioso sustentar fantasmas.

A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas, precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentarmos as ameaças globais, precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania.

Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho poderia começar, por exemplo, pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e de outro lado, aprendemos a chamar de “eles”. Aos adversários políticos e militares juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade, imprevisível.

Vivemos como cidadãos, e como espécie, em permanente situação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa. Todas essas restrições servem para que não sejam feitas perguntas, como por exemplo, estas: por que motivo a crise financeira não atingiu a indústria do armamento? Por que motivo se gastou, apenas no ano passado, um trilhão e meio de dólares em armamento militar? Por que razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadafi? Por que motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça? Se queremos resolver e não apenas discutir a segurança mundial, teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes.

Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra.

Essa arma chama-se fome.

Em pleno século XXI, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fração muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.

Mencionarei ainda uma outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi -- ou será -- vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que, sobre uma grande parte do nosso planeta, pesa uma condenação antecipada pelo fato simples de serem mulheres.

A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome e, como militares sem farda, deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e discutir razões. As questões de ética são esquecidas, porque está provada a barbaridade dos outros e, porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência, nem de ética nem de legalidade.

É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente morreram mais chineses construindo a muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Diz-se que alguns trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção.

Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora do quanto o medo nos pode aprisionar.
Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos, mas não há hoje, no mundo um muro, que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente. Citarei Eduardo Galiano acerca disto, que é o medo global, e dizer:

"Os que trabalham têm medo de perder o trabalho; os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho; quando não têm medo da fome têm medo da comida; os civis têm medo dos militares; os militares têm medo da falta de armas e as armas têm medo da falta de guerras.

E, se calhar, acrescento agora eu: há quem tenha medo que o medo acabe.

Muito obrigado.
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Fonte: http://www.papodehomem.com.br/mia-couto-ha-quem-tenha-medo-que-o-medo-acabe/ acesso 01/10/2015.
Imagem da Internet

A VIDA DEVE SER REPENSADA

William Felipe Zacarias*
Eterno-Retorno-do-Mesmo.jpg
 
A morte de Deus enuncia a liberdade do ser humano. Os dogmas religiosos são substituídos por dogmas da vontade própria. A vida passa a ser vivida a partir dela mesma e não com alvo ou objetivo. A vida subjetiva torna o homem o novo “Deus”, criado conforme seus prazeres e vontades. Esta é a proposta que o teólogo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) propõe quando anuncia o evangelho (a boa nova) do ewige Wiederkehr des Gleichen, i. é, o eterno retorno do mesmo.
O proeminente filósofo italiano Gianni Vattimo (1936- ) interpreta o Eterno Retorno de Nietzsche e faz um diálogo com ele. A vida sem objetivo é a única digna de ser vivida. Desde os grandes filósofos gregos Platão, Sócrates e Aristóteles, perpassando também o cristianismo, a história foi vista como linear: ela inicia e terá um fim. Os seres humanos possuem um início e um fim específico nesta linha temporal: assim como tudo, também o ser humano nasce e morre. Contudo, para que o fim não seja o fim, o pensamento cristão propõe uma salvação que transcenda o cosmos material para uma eternidade rumo ao infinito imaterial. Assim o ser humano é como tal para sempre. A matéria orgânica presente no seu corpo é ressuscitada e passa a ser ela mesma e organizada na mesma pessoa igual já fora em vida no mundo físico. A vida é vivida com um claro objetivo: a eternidade. Toda a vivência física e moral é organizada a partir deste alvo: a eternidade, uma salvação que vem ao ser humano de fora para dentro. No pensamento cristão, por causa daquilo que Jesus Cristo realizou no passado, tem-se a certeza e a esperança de um claro alvo: uma eternidade baseada no passado finito.

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Gianni Vattimo no 2º Capítulo do Festival Literário Litercultura
em Curitiba no dia 8/6/2015.

Nietzsche entra em uma profunda crise com este sistema. Lembro-me de quando eu era um adolescente e um proeminente professor de ciências da escola pública, cujo eu estudava, anunciou no primeiro dia de aula da oitava série uma frase instigante: “na natureza nada se cria, nada se perde; tudo se transforma.” Mais tarde descobri que o autor desta frase foi o químico francês Antoine Lavoisier (1743-1794). O que isto tem a ver com o assunto? Ao contrário do que o cristianismo pregava até então, a matéria não pode ser criada do nada como afirma Gn 1-2, mas também não pode ser perdida para um além metafísico: toda matéria se transforma e é limitada ao aqui. Neste caso, a ascensão de Jesus Cristo não poderia ter acontecido, pois a matéria que constituía seu corpo foi perdida do universo. Por conseguinte, a ressurreição do corpo, conforme os Credos Apostólico (séc. II), Niceno-Constantinopolitano (séc. IV.) e Atanasiano (séc. IV) não poderá acontecer, pois o universo não permite a perda de matéria, mas apenas a sua transformação.

Em todo caso, também para Nietzsche não há um objetivo para o ser humano. Em síntese, não há nada. Nietzsche propõe uma ruptura com o pensamento cristão e caminha a favor da compreensão dos filósofos pré-socráticos sobre o tempo. Para os filósofos gregos pré-socráticos, o tempo não é linear, mas circular. Ou seja, sempre retornam a acontecer as mesmas coisas que já aconteceram e que estão para acontecer. Na compreensão circular de tempo, não existe passado e futuro, mas tão somente o instante. Todavia, o dogma fundamental lançado por Nietzsche com esta filosofia é o nihil, i. é, o nada, o vazio.

Uma história ou um tempo circular não possui início ou fim. Em outras palavras, o tempo circular não possui objetivo. Sem objetivo, o tempo circular elimina qualquer sentido, significado ou alvo. No tempo circular, não há espaço para o Lógos. O que resta? Nada! Resta um ser humano sem qualquer sentido para a sua vida que vive e apregoa o niilismo. Vive-se o nada a partir do próprio nada.

O único tempo que existe é o presente. “o instante traz consigo todo o passado e todo o futuro: cada momento da história torna-se decisivo para toda a eternidade.” Em cada instante a existência começa... o centro está em toda parte.” (VATTIMO, 2010. p. 44). A história é um eterno repetir do mesmo, um ciclo interminável sem início e sem fim.

Para isso, Nietzsche parte do pressuposto de que a matéria é finita e não poderia viver eternamente com o tempo: em algum momento, a matéria iria se extinguir enquanto o tempo continuaria. Obviamente, há aqui uma discrepância entre tempo-espaço que na astrofísica de Albert Einstein (1879-1955) passam a ser vistas como uma só realidade e não duas. Mas o que Nietzsche detectou é que uma história circular, esta sim, é capaz de abranger a matéria finita dentro do infinito. A matéria simplesmente se transforma dentro do tempo que se repete a cada instante.

O ser humano é, portanto, uma eterna repetição dele mesmo. Somente é digno de viver esta eternidade cíclica quem justamente se achar digno para tal, pois “só quem considera a própria existência apta a se repetir eternamente sobrevive.” (VATTIMO, 2010. p. 10). A consequência moral deste pensamento é o encontro de si mesmo para uma eterna repetição. Cada atitude no instante deve ser digna afim de que se repita eternamente.

O ser humano enquanto integrante do eterno retorno do mesmo no tempo circular não possui valor, sentido ou significado. Ele vive e é um vazio rumo ao nada. É neste ponto que desejo chegar com este artigo: quando Nietzsche substituiu a valoração do homem por valor nenhum, Nietzsche fez com que o ser humano e o cosmos ao seu redor percam sua dignidade. A vida sem objetivo é uma vida do nada, em nada e para o nada. O ser humano deixa de ser humano, tornando-se tão somente um ser como o restante dos seres. O outro deixa de ser visto como outro para ser visto como nada. A desvaloração do homem produz indignidade. O outro não possui nada a ver comigo. Não há sentido para a existência, pois a existência se alimenta do nada.

Esse niilismo é o principal dogma da pós-modernidade. As artes, a música e até mesmo a ciência perdem valor. Disto resulta uma cultura altamente orgíaca e hedonista. O dogma do carpe diem (aproveite o dia) é a exata síntese do pensamento do eterno retorno do mesmo de Nietzsche onde o que resta é “curtir o instante” para que se torne digno de se repetir. Viver sem rumo é um reflexo de uma vida sem passado. A história passa a ser vista como doença a ser eliminada. Por incrível que pareça, caro leitor, até mesmo igrejas cristãs tem considerado a história como doença, retirando velhos altares e púlpitos e substituindo-os por móveis úteis e que não atrapalham o espaço, exatamente como prega a escola pós-moderna de Bauhaus. Sem história não há futuro, sem futuro, só há o presente. Havendo somente o presente, o hedonismo se torna dogma.

Para finalizar: talvez tenha sido confuso ao leitor as ideias aqui digitadas. Em síntese, grande parte da violência, do uso de drogas, das doenças sexuais, das gravidezes indesejadas e da sexualidade desenfreada, como no carnaval, são produtos diretos do eterno retorno do mesmo de Nietzsche onde a única coisa que tem valor é o instante que, por sua vez, precisa ser “curtido” ao máximo. Esta “curtição” é uma forma de viver a eternidade agora (Cf. MAFFESOLI, 2004. p. 161). As músicas da americana Katy Perry ou do brasileiro MC Dudu expressam muito esta sexualidade como vivência do instante, conforme os vídeos abaixo (atenção: conteúdo adulto).

Em síntese, como cristão irei aqui apontar para uma vida que não vive o vazio, mas que recebe valor a partir do Deus que se fez fraco (Fp 2.5-11), do Deus que morre! Para que eu, como teólogo cristão, não seja suspeito em minhas palavras, uso as letras do brasileiro Clóvis de Barros Filho em um de seus livros mais populares: “o abestado, o monstruoso, o fraco, o raquítico, o deficiente. Graças ao pensamento cristão, todos esses passam a ter a mesma dignidade que o forte, o belo, o extremamente inteligente, o competente, o astucioso, o deslumbrante (...). O pensamento cristão inaugura a ideia de igualdade.” (BARROS FILHO, Clóvis de, 2015. p. 114). Neste sentido, a partir do pensamento cristão, o outro não é um outro qualquer, sem sentido e vazio, mas é alguém com valor e sentido. Quando Deus se faz fraco, os fracos ganham valor e dignidade tal como os fortes. Quando há sentido para a vida, evita-se a violência, as drogas e a sexualidade desenfreada. Qual o critério para esta vida? O amor: “amai a Deus, o próximo e a ti mesmo.” (Cf. Mt 22.37-39; Mc 12.30-31; Lc 10.27; Jo 13.34). O amor torna o outro digno, impedindo que o que ama cometa violência contra ele ou contra si mesmo (homicídio, abuso sexual, drogas, etc.). Para ficar com o Vattimo, faço a citação literal de uma fala sua no Segundo Capítulo do festival literário Litercultura de Curitiba/PR no dia 8/6/2015 com o tema “Elogio ao Frágil”: “Se eu não fosse cristão, eu não estaria do lado dos fracos. Por exemplo, a kenosis em Fp 2.5-11: O cristianismo é o Deus que se humilha, isso é um pensamento débil, fraco. Para ser fraco, liga-se a esta tradição (...). Quando eu falo com meus amigos ateus, eles não negam Jesus Cristo, mas que a Igreja é uma porcaria que impõe poder sobre as pessoas.” Em síntese, cabe ao leitor escolher que vida deseja viver. Fato é que o ser humano e seu sentido é algo a ser repensado.

REFERÊNCIAS:

BARROS FILHO, Clóvis de. Somos Todos Canalhas. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2015.

FESTIVAL LITERCULTURA, 2. 2015. Curitiba/PR. “anotações pessoais”.

MAFFESOLI, Michel. A Parte do Diabo. Rio de Janeiro: Record, 2004.

VATTIMO, Gianni. Diálogo com Nietzsche. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010.
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* Teólogo, assíduo leitor do grande e polêmico filósofo Friedrich Nietzsche. Filosofia é meu hobby, meu esporte. Gosto de refletir levando outros a pensar e repensar sua vida e suas ideias.
FONTE: © obvious: http://obviousmag.org/repensar/2015/a-vida-deve-ser-repensada.html#ixzz3nJyoKcvO
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