domingo, 27 de outubro de 2013

Toda criança nasce cientista


Marcelo Gleiser*
Para as crianças, a vida é um grande experimento; até entrarem na escola ou serem 'pegas' pelos pais
Nesta semana, estive em Brasília participando da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia. O tema deste ano, de forma muito propícia, é "Ciência, Saúde e Esportes". Aproveitando que o Brasil será palco dos maiores eventos desportivos do planeta, nada melhor que mostrar as alianças e a interdependência entre os esportes, a saúde e a ciência. 

O centro das atividades é o Pavilhão Central no Parque da Cidade, onde foram montadas várias exibições, algumas bem avançadas, usando tecnologia virtual para integrar o visitante em algum jogo, por exemplo, futebol e vôlei. 

Mas o que me empolgou logo na chegada foi ter visto centenas, talvez milhares de crianças, trazidas por escolas. Me disseram que eram mais de 10 mil por dia e que atividades ligadas ao evento estão ocorrendo em 800 municípios do país. 

As crianças menores, do jardim de infância, iam circulando pelo espaço das exposições, de mãos dadas e olhos arregalados, olhando para tudo, tentando tocar tudo. Algumas jamais esquecerão a visita a um mundo tão diferente da realidade em que vivem, onde a ciência é simplesmente desconhecida. 

Fiquei feliz e triste ao mesmo tempo; feliz de ver que quando o governo monta algo de porte para trazer ciência ao público, o público vem. Triste por entender que esse tipo de evento é raro, e que a maioria das crianças nunca terá oportunidade de visitá-lo. 

O grande físico Isidor Rabi, vencedor do prêmio Nobel, costumava dizer que os cientistas são os Peter Pans da sociedade, aqueles que não querem crescer, que passam a vida perguntando "por quê". Vendo as crianças na exposição, olhando para tudo, tocando tudo, participando das atividades com entusiasmo, fica claro que Rabi tinha razão. 

Qualquer pai e mãe sabem bem que criança é exploradora nata; botando o dedo aqui e ali, comendo terra, pegando formiga, trepando em árvore, subindo e descendo a mesma escada dez vezes até desenvolver uma melhor percepção da gravidade e melhorar sua habilidade motora. Para uma criança, a vida é um grande experimento, uma grande aventura de descoberta. 

Até entrarem na escola ou serem "pegas" pelos pais.

"Não faz isso! Solta! Olha o degrau! Cuidando com a tomada! Você vai cair daí." Como pai de cinco, sei que sem o nosso cuidado as crianças correm mesmo risco de se machucar. Mas cuidar não é o mesmo que reprimir o espírito único que têm de experimentar o mundo para poder entendê-lo. O mesmo acontece nas escolas, que acabam sendo fábricas de conformismo onde todos devem fazer a mesma coisa, onde a criança mais curiosa é reprimida e, salvo casos raros, calada. 

Temos muito a aprender com as crianças. E, se queremos de fato transformar o Brasil numa potência inovadora, onde tecnologia e patentes não são compradas do exterior mas criadas aqui, temos que dar asas a esse espírito criativo das crianças, que são grandes inventoras e sonhadoras. 

Isso não deve apenas ocorrer nas escolas; a educação começa em casa, com os pais se engajando no processo criativo das crianças. E o melhor de tudo é que ao ensinarmos também aprendemos. E colorimos a vida de novidade e aventura, ficando um pouco mais Peter Pans. 
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Jesus, o homem, o mito

Hélio Schwartsman*

"Não Houve Jesus, Deus Não Existe". Apesar do título provocador, o livro de Raphael Lataster, recém-lançado em inglês, é só circunstancialmente uma defesa do ateísmo. O objetivo principal da obra é criticar os métodos dos estudiosos do Novo Testamento. 

Lataster sustenta de modo persuasivo que, no melhor cenário, não se pode afirmar nada sobre Jesus, nem o bíblico, que opera milagres, nem o histórico, que teria sido uma espécie de radical judeu da Palestina do século 1º --interpretação para a qual converge a maior parte da academia. 

O problema básico é que a passagem de Jesus pela Terra não é corroborada por nenhuma fonte contemporânea aos fatos. Os Evangelhos são todos obras anônimas, com objetivos apologéticos e o mais antigo deles, o de Marcos, só foi escrito quatro décadas após a suposta crucificação. 

As fontes não cristãs também são todas posteriores --e há boas razões para suspeitar que incluam falsificações. Ademais, autores que teriam tido motivos para citar Jesus, como Filo de Alexandria, não o mencionam. 

Lataster sugere ainda que os escritos paulinos, anteriores aos Evangelhos, não só evitam referências a um Jesus terreno como convivem bem com a ideia de um messias apenas mítico. Para ele, é só porque as Bíblias trazem as epístolas paulinas depois dos Evangelhos que nos acostumamos a lê-las como se fizessem referência a um Jesus de carne e osso. 

Segundo o autor, um mínimo de rigor historiográfico exigiria, se não concluir que nunca houve Jesus, pelo menos deixar de afirmar que sua existência histórica foi confirmada. 

Na segunda parte da obra, Lataster defende que os especialistas adotem um método bayesiano, que leve em conta não só sua interpretação favorita como também hipóteses concorrentes e a possibilidade de todas estarem erradas. A partir daí, estima serem remotas as chances de Zeus, Odin e Shiva não passarem de lenda e só o Deus cristão ter existência real. 
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* Colunista da Folha

As 50 melhores frases do Twitter em 2013


Entre os meses de janeiro e setembro, pedimos a colaboradores, leitores e seguidores que enviassem as melhores frases publicadas no Twitter no ano 2013. Das centenas de frases recebidas, separamos 50 — Tecnologia, esporte, política, economia, comportamento e, sobretudo, humor — que sintetizaram, em 140 caracteres, o sétimo ano do Twitter. A frases em caixa alta e palavras abreviadas foram padronizadas.

Discutível como qualquer lista de melhores, esta também não pretende ser abrangente e reflete apenas a opinião dos participantes da enquete. Eis o resultado em ordem alfabética.
@alelex88
Não use o escudo covarde da “ironia” como habeas corpus preventivo da paspalhice.
@alexnero
Com a PM atirando tanta bala de borracha assim, se sobrar algum manifestante, logo teremos que fazer uma passeata para salvar as seringueiras.
@anonimofamoso
Twitter é essa gaiola em que um único passarinho conseguiu prender milhões de humanos.
@aperteoalt
O Português ainda não é uma língua morta, mas não é por falta de gente tentando assassiná-la.
@aomirante
O que Jesus disse, dando um abraço apertado em cada um dos discípulos e relutando em ir pro céu? “Vou apertar, mas não vou ascender agora.”
@arbustus
O segredo é viver cada um dos seus dias como se você fosse se casar amanhã.
@arnaldobranco
Curti o Lobão na Veja, acho legal que uma coluna que não vou ler saia em uma revista que já não leio.
@bethmoreno
Independe de esquerda ou direita. Em matéria de corrupção o Brasil é ambidestro.
@bicmuller
Ironia é igual blush: não sabe, não usa.
@bqeg
MPB: Músico Potencialmente Babaca.
@choracuica
Indireta é tipo o passarinho azul do angry birds, que se divide em três, acerta vários alvos diferentes e quase nunca onde a gente mira.
@davidbutter
Cuidado com essa coisa de “Hospital Padrão Fifa”. Pelo Padrão Fifa, pobre não entra.
@deeercy
De que adianta fazer “protesto no Facebook” contra a falta de segurança nas boates, mas quando sai de uma, olha no Twitter para ver onde tem Lei Seca?
@deniserossi
O bom de estar gorda é que a carapuça nunca serve.
@eddiemasses
Twitter completa sete anos e já produziu mais mágoas do que toda a história da humanidade.
@edsonaran
O mundo começou a ir pro brejo quando a gente parou de mostrar o dedo do meio e começou a fazer coração com as mãos.
@edutestosterona
Malandro é o palmeiras, que só passa vergonha aqui no Brasil.
@felipeneto
Feministas me acusando de machista por não falar “presidenta”. Eu acho que vocês receberam a educação errada quando eram estudantas.
@flaviomorgen
Se Paulo Freire tivesse sido alfabetizado com o método Paulo Freire, ele não teria conseguido nem ser funcionário do mês no Mc Donalds.
@_fransuel
Vai cursar humanas em 2013? Adquira já seu kit humanas: sandalinha de profeta, anel de coco, bolsa de couro, dreds e bastante cecê!
@frednavarro
O secretário de Energia dos EUA é físico nuclear com Ph.D em Stanford e professor do MIT. O equivalente no Brasil é Edison Lobão.
@georgemacedo
Só pobre briga no twitter.
@guyfranco
Curiosa essa época em que não devemos ter ódio de bandido enquanto pedimos a cabeça de quem faz fiu-fiu pra mulher na rua.
@harpias
Fico meio triste quando vejo homem com a unha mais bem feita do que a minha.
@jampa
MacPro faz Nespresso.
@joaomarcio
Segunda-feira é como sexta-feira, porém numa versão gravada pelo Latino.
@lipebasilio
Eu tenho um problema imenso quando vejo criança feia. Não consigo achar nem engraçadinha.
@marcoscaiado
Eike curtindo a página da CVC no Facebook para participar do sorteio de um pacote de carnaval em Porto Seguro.
@mirandanilo
Aguardando a Caixa liberar o programa Meu Playstation Minha Vida.
@mrguavaman
O bacana do Twitter é que ele acabou com aquela ideia preconceituosa de que as pessoas precisam ter um cérebro pra emitir opinião.
@msavarese
Rogério Ceni, a Margaret Thatcher do futebol brasileiro.
@na_igreja
Antes de arrumar o Brasil, arrume primeiro seu quarto.
@neiduclos
Não autorizo nenhuma biografia sobre mim, disse Al Capone.
@ocriador
Depois do que o Cain fez, Cigano agora será chamado de Abel.
@oiluiz
Sempre que você se sentir sozinho, lembre-se de que há trilhões de bactérias vivendo no seu corpo e você significa o mundo para elas.
@osprimitivos
Enchente nada mais é do que o lixo que você joga nas urnas voltando para dentro da sua própria casa.
@pablo_peixoto
Entre a ingenuidade tola da esquerda e o pragmatismo burro da direita, a internet é mesmo um jornal escrito pela galera da sessão de cartas.
@Pi4noBl4ck
Com 4 mil reais eu colo três Play3 um no outro e faço um Play9.
@poxaduduh
Justin tomou um pé na bunda e fez sucesso. Adele tomou um pé na bunda e fez sucesso. Galera, vocês não tão sabendo aproveitar o chifre.
@procrastino
Feiura deveria ser um motivo justificável para o atraso. Tipo chegar pro chefe e falar que se atrasou porque tava muito feio(a).
@prosopopeio
Apagão no Nordeste. O governo federal vai puxar uma tomada de Cuba agora?
@r0cc0
Botei um cd do Strokes pra um paciente em coma irreversível e o cara levantou e desligou os aparelhos.
@redator
Jornalistas que estão cobrindo ao vivo o enterro de um carro: vocês estão nos explicando bem o porquê de não ser obrigatório ter um diploma.
@renatalocutora
PS4 custando 4 mil? Com 4 mil eu compro um chinês e faço quantos PS4 eu quiser.
@revistaabsurda
Lembrando que o Mr. Bean é o único que faz rir com humor retardado. Os outros são só retardados mesmo.
@rosana
Povo decora faroeste caboclo e não decora que contrário de bem é mal e de bom é mau.
@sarcasmomento
Por que fazer teste em animais se temos cadeias cheias de pedófilos?
@tiodino
Facebook começou com “Como você está?”, passou para “O que está acontecendo?” e vai terminar com “Já pensou em procurar um psiquiatra?”.
@tonkiel
Avião aguenta tempestade, ventos, granizo, chuva forte, dilúvios, meteoritos, porém, se deixar o telefone ligado ele cai.
@viniciusduarte
Jornalista exige que o leitor seja jornalista para criticá-lo no Twitter, mas nunca assentou um tijolo e vem no Twitter xingar o pedreiro.
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Fonte: Revista Bula.

A RESSURREIÇÃO

 Rubem Alves*
 Poetiza à Vida e diz-lhe: Vem dos quatro Ventos e assopra sobre esses mortos para que vivam.
Tudo estava seco. O tempo tinha sido cruel. Sem chuvas. A terra rachada parecia morta. E o desânimo havia espantado a alegria. Todos estavam tristes porque onde há água tudo é alegria. O Paraíso, para verdejar, precisa de fontes. Todos se reuniram na tenda do Mestre Benjamin. Ele não esperou que lhe fizessem perguntas e começou:

“Por vezes, quando estou muito triste, eu sonho. Sonhei um sonho muito estranho que quero contar para vocês. Sonhei que um Vento me tomou e me levou a um vale de ossos secos e me fez andar ao redor deles. Eles cobriam a superfície do vale e estavam sequíssimos.

Então ouvi, vinda do meio do Vento, uma pergunta: Poderão, por acaso, reviver esses ossos?
Sem saber o que responder eu disse: Eu não sei. Só tu o sabes.

Disse-me então a voz: Poetiza a esses ossos e dize-lhes: Ossos secos, ouvi os poemas de Deus!
Então, poetizei segundo me fora ordenado. E disse: Embora a seca seque as fontes e os rios
E os campos fiquem esturricados,
E o gado morra de sede e fome,
E as queimadas devorem os pastos
E os machados transformem florestas verdes em desertos áridos,
E os palácios estejam cheios de corruptos —
A despeito disso minha alegria continuará a florir
E farei poemas diante do Impossível. (Habacuque 3:17-18. Paráfrase)

E, enquanto eu dizia o meu poema — e ele tinha de ser dito em voz muito forte para que todos os ossos o ouvissem — houve um ruído, um barulho de ossos que batiam contra ossos e se ajuntavam, cada osso ao seu osso. Olhei, e eis que havia tendões sobre eles, e cresceram as carnes, e se estendeu a pele sobre eles. Mas Vida não havia neles.
Então a Voz me disse: Poetiza à Vida e dize-lhe: Vem dos quatro Ventos e assopra sobre esses mortos para que vivam.
Eu então invoquei os Ventos e a Vida entrou neles, e viveram...” (Ezequiel 37 )

Ouvido o sonho do Mestre Benjamin ninguém quis falar nada. Eles sabiam que só se deve falar quando a fala melhora o silêncio.
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* Educador. Teólogo. Escritor.
Fonte: Correio Popular on line, 27/10/2013
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Deus fora da Unicamp

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 EMBATE
O arqueólogo Rodrigo Silva (à esq.), um dos palestrantes do evento cancelado,
e o físico Leandro Tessler, que mobilizou acadêmicos contra o Fórum
 

Grupo de ateus impede que evento religioso com especialista dos EUA se realize na universidade e dificulta o debate acadêmico

Marcado para a quinta-feira 17, o “1° Fórum de Filosofia e Ciência das Origens”, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), foi cancelado na véspera, sob uma enxurrada de e-mails indignados de professores da própria instituição de ensino, uma das mais respeitadas do País. O motivo? Os cinco convidados a falar sobre filosofia e ciência eram nomes ligados ao “criacionismo científico”, que nega a teoria da evolução de Charles Darwin, mas, ainda assim, busca evidências científicas para desvendar o universo – sem contradizer a existência de Deus ou os preceitos da Bíblia. “Que façam isso numa igreja”, disse o professor de física Leandro Tessler. “É embaraçoso dar credibilidade a esse tipo de doutrina não científica.” Seu blog chamou a atenção de outros professores. A pró-reitoria, que havia dado aval ao evento, recuou. O físico americano Russell Humphreys, convidado internacional, já tinha passagem comprada. Veio então a resposta dos palestrantes.“Fomos boicotados por um grupo de professores ateus”, afirma o professor de arqueologia Rodrigo Silva, da Universidade Adventista de São Paulo (Unasp). “Hoje, quem discorda de Darwin é queimado na fogueira.”
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Em nota oficial, a Unicamp justificou o cancelamento dizendo que “faltavam integrantes que pudessem debater o tema sob todos os pontos de vista”. Além de Silva e Humphreys, o fórum também teria a presença de um geólogo, um jornalista e um bioquímico, Marcos Eberlin, o único pertencente aos quadros da Universidade. Após a polêmica, Eberlin escreveu em um blog: “É interessante notar que, em uma universidade pública, pessoas que se autointitulam ‘guardiões do saber’ cancelem palestras”. Outro que reclamou à reitoria, o professor de matemática Samuel Oliveira, negou a “orquestração” de um “lobby ateu” nos bastidores. “Criacionistas não têm formação para falar de ciência”, diz.

A “batalha da fé” em uma faculdade como a Unicamp, reconhecida pela qualidade da pesquisa científica, chama a atenção. Mas esse tipo de conflito não é novidade no meio acadêmico. Em 2008, depois de uma série de reclamações, a Universidade Federal de São Carlos (SP) cancelou uma palestra do físico Adauto Lourenço sobre “criacionismo e teoria da evolução”. Em 2007, o bioquímico americano Fazale Rana esteve na mesma Unicamp para falar de “design inteligente”, linha de pensamento que atribui a um criador a existência da vida na Terra. Professores conseguiram retirar o logo da universidade dos cartazes da palestra de Rana, mas não impediram a conferência. 
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Reportagem por  Andres Vera
Fonte:  http://www.istoe.com.br/reportagens/331557_DEUS+FORA+DA+UNICAMP?pathImagens=&path=&actualArea=internalPage

Há de se cuidar da amizade e do amor

Leonardo Boff* 
 
A amizade e o amor constituem as relações maiores e mais realizadores que o ser humano, homem e mulher, pode  experimentar e desfrutar. Mesmo o místico mais ardente só consegue uma fusão com a divindade através do caminho do amor. No dizer de São João da Cruz, trata-se da experiência da “a amada(a alma) no Amado transformada”.

Há vasta literatura sobre estas duas experiências de base. Aqui restringimo-nos ao mínimo. A amizade é aquela relação que nasce de uma ignota afinidade, de uma simpatia de todo inexplicável, de uma proximidade afetuosa para com a outra pessoa. Entre os amigos e amigas se cria uma como que comunidade de destino. A amizade vive do desinteresse, da confiança e da lealdade. A amizade possui raízes tão profundas que, mesmo passados muitos anos, ao reencontrarem-se os amigos e amigas, os tempos se anulam e se reatam os laços e até  se recordam da última conversa havida há muito tempo.

Cuidar da amizade é preocupar-se com a vida, as penas e as alegrias do amigo e da amiga. É oferecer-lhe um ombro quando a vulnerabilidade o visita e o desconsolo lhe oculta as estrelas-guias. É no sofrimento e no fracasso existencial, profissional ou amoroso que se comprovam os verdadeiros amigos e amigas. Eles são como uma torre fortíssima que defende  o frágil castelo de nossas vidas peregrinas.

A relação mais profunda é a experiência do amor. Ela  traz as mais felizes realizações ou as mais dolorosas frustrações. Nada é mais misterioso do que o amor. Ele vive do encontro entre duas pessoas que um dia cruzarem seus caminhos, se descobriram no olhar e na presença e viram nascer um sentimento de enamoramento, de atração, de vontade de estar junto até resolverem fundir as vidas, unir os destinos, compartir as fragilidades e as benquerenças da vida. Nada é comparável à felicidade de amar e de ser amado.  E nada  há de mais desolador, nas palavras do poeta Ferreira Gullar, do que não poder dar amor a quem se ama.

Todos esses  valores, por serem os mais preciosos, são também os mais frágeis  porque  mais expostos às contradições da humana existência.

Cada qual é portador de luz e de sombras, de histórias familiares e pessoais diferentes, cujas raízes alcançam arquétipos ancestrais, marcados por experiêncis bem sucedidas ou trágicas que deixaram marcas na memória genética de cada um.

O amor é uma arte combinatória de todos estes fatores, feita com sutileza que demanda capacidade de compreensão, de renúncia, de paciência e de perdão e, ao mesmo tempo, comporta o desfrute  comum do encontro amoroso, da intimidade sexual, da entrega confiante de um ao outro. A experiência do amor serviu de base para entendermos a natureza de Deus: Ele é amor essencial e incondicional.

Mas o amor sozinho não  basta. Por isso São Paulo em seu famoso hino ao amor, elenca os acólitos do amor sem os quais ele não consegue subsistir e irradiar. O amor tem que ser paciente, benigno, não ser ciumento, nem gabar-se, nem ensoberbecer-se, não procurar seus interesses, não se ressentir do mal…o amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta…o amor nunca se acaba(1Cor 13, 4-7). Cuidar destes acompanhates do amor é fornecer o húmus necessário para que o amor seja sempre vivo e não morra pela indiferença. O que se opõe ao amor não é o ódio mas a indiferença.

Quanto mais alguém é capaz de uma entrega total, maior e mais forte é o amor. Tal entrega supõe extrema coragem, uma experiência de morte pois não retém nada para si e mergulha totalmente no outro. O homem possui especial dificuldade para esta atitude extrema, talvez pela herança de machismo, patriarcalismo e racionalismo de séculos que carrega dentro de si e que lhe  limita a capacidade desta  confiança extrema.

A mulher é mais radical: vai até o extremo da entrega no amor, sem resto e sem retenção. Por isso seu amor é mais pleno e realizador e, quando se frustra, a vida revela contornos de tragédia e de um vazio abissal.

O segredo maior para cuidar do amor reside no singelo cuidado da ternura.  A ternura vive de gentileza, de pequenos gestos que revelam o carinho, de sacramentos tangíveis, como recolher uma concha na praia e levá-la à pessoa amada e dizer-lhe que, naquele momento, pensou carinhosamente nela.

Tais “banalidades” tem um peso maior que a mais preciosa jóia. Assim como uma estrela não brilha sem uma atmosfera ao seu redor, da mesma forma, o amor não vive  sem um aura de enternecimento, de afeto e de cuidado.

Amor e cuidado formam um casal inseparável. Se houver um divórcio entre eles, ou um ou outro morre de solidão. O amor e o  cuidado constituem uma arte. Tudo o que cuidamos também amamos. E tudo o que amamos também cuidamos.

Tudo o que vive tem que ser alimentado e sustentado. O mesmo  vale para o amor e para o cuidado. O amor e  o cuidado se alimentam da afetuosa preocupação de um para com o outro. A dor e a alegria de um é a alegria e a dor do outro.

Para fortalecer a fragilidade natural do amor precisamos de Alguém maior, suave e amoroso, a quem sempre podemos invocar. Daí a importância dos que se amam, de reservarem algum tempo de abertura e de comunhão com esse Maior, cuja natureza é de amor, aquele amor, que segundo Dante Alignieri da Divina Comédia “move o céu e as outras estrelas”  e nós acrescentamos: que comove os nossos corações.
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* Leonardo Boff é filósofo, teólogo e autor de  O Cuidado necessário, Vozes 2012.
Fonte:  http://leonardoboff.wordpress.com/2013/10/26/ha-de-se-cuidar-da-amizade-e-do-amor/
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sábado, 26 de outubro de 2013

Para trabalhar em equipe, retire as pedras do caminho

Betania Tanure*
 
 Em uma equipe consolidada, cada membro tem responsabilidade por seus atos e pela execução 
do que foi acertado.
Diz-se que alguns insetos, como as formigas, dão exemplo de organização, unidade e foco em metas coletivas, enquanto o homem teima em ignorar o real sentido disso tudo. Considerando o que presencio há anos no ambiente empresarial, infelizmente tenho que concordar com essa afirmação.

Todos sabem da importância do trabalho em equipe para que uma empresa alcance resultados excepcionais. Mas os executivos brasileiros continuam sendo formados e treinados para transitar no que chamo de dimensão racional, ou 'hard', da gestão. Com isso, o foco da maioria é produção, finanças ou qualquer outro ativo tangível da organização. O trabalho em equipe, que como componente da dimensão 'soft' é difícil de mensurar e mais ainda de alcançar, fica "pra depois".

Não se deveria ignorar a importância de combinar as duas dimensões para que o trabalho em equipe se concretize. Nesse caminho existe o desafio de solucionar o que Patrick Lencioni denomina "disfunções". Há algum tempo mergulho na análise dessa questão, com base em inúmeras pesquisas e ações de consultoria que tenho realizado em empresas de diversas partes do mundo, especialmente no Brasil.
Para que um grupo de pessoas consiga trabalhar em conjunto para alcançar um objetivo comum, é preciso, realmente, desmontar armadilhas e retirar algumas "pedras" do caminho. A primeira é a falta de confiança. Em nossas pesquisas, observamos que não basta ser "do bem". Também é necessário entregar resultados consistentemente, além de conhecer, e reconhecer, as próprias forças e fraquezas. A coragem de dizer "não sei", "não fiz", "me equivoquei" e "preciso de ajuda" tem um efeito fortalecedor sobre o outro: faz pensar e agir. E essa força se solidifica quando se muda o curso das coisas.

Outra armadilha é o medo do conflito. Se por um lado o brasileiro tem, por cultura, uma enorme capacidade de estabelecer laços e trazer o coração das pessoas para os projetos, por outro há a constante necessidade de preservação pessoal. Ela nos faz fugir dos conflitos quando eles são vistos como "ganha" ou "perde". É possível, contudo, haver uma situação conflitante de ganho mútuo!

Sem confiança, abre-se espaço para a concordância cega e a bajulação. Com confiança, o conflito se torna edificante, o benefício individual perde para o bem coletivo e diminuem as chances de cair em duas outras armadilhas: a falta de compromisso e a fuga da responsabilidade.

Lembre-se de que, ainda que sua opinião tenha sido vencida no debate, seu compromisso é com a ideia vencedora. Trabalhe por ela. Em uma equipe consolidada, cada membro tem responsabilidade por seus atos e pela execução do que foi acertado. Diante de um erro, no entanto, o foco da discussão deve ser a solução do problema, e não a busca do "grande culpado". Caso contrário, as desculpas apenas racionalmente verdadeiras inundam a organização, que pouco a pouco perde o vigor, iniciando-se um mal de difícil cura: o subdesempenho satisfatório.

É comum que junto a essas duas "pedras" se encontre outra, a falta de foco nos resultados. Nas tarefas diárias, as metas de nível pessoal, de carreira ou financeiras, devem se somar às da equipe, que em última instância permitem obter os resultados empresariais, em todas as suas dimensões.

Enfim, não podemos subestimar o valor de competências 'hard' como o conhecimento funcional, as habilidades estratégicas e a leitura adequada dos movimentos macro. Mas, até para maximizá-las, o trabalho em equipe é fundamental.

Observe o efeito em cadeia: a confiança leva a conflitos saudáveis. Estes, ao compromisso, que por sua vez traz responsabilidade. Com ela, vem o foco nos resultados empresariais, sustentados por competências 'hard'. Confiança, portanto, é a base de tudo.
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* Betania Tanure é doutora e professora da PUC Minas e consultora da BTA
Fonte: Valor Econômico on line, 24/10/2013
imagem da Internet


"Todo crime na Inglaterra era atribuído à Laranja Mecânica"

 Laranja Mecânica
 A viúva de Stanley Kubrick fala sobre significados de filmes, teorias de conspiração e relata ameaças de 
morte recebidas pelo marido

Seu sobrenome é motivo suficiente parar despertar o interesse de qualquer cinéfilo. Viúva de Stanley Kubrick, diretor de Laranja Mecânica, 2001: Uma Odisseia no Espaço, O Iluminado e Lolita, Christiane Kubrick recebeu CartaCapital em um hotel dos Jardins para falar sobre o legado do cineasta, com quem dividiu 42 de seus 81 anos de vida. Em São Paulo para promover a 37ª Mostra Internacional de Cinema, que o homenageia, a pintora – cujos quadros, além de aparecerem em De Olhos Bem Fechados e Laranja Mecânica, estampam todo o material gráfico do festival – comentou as teorias de conspiração nos filmes do cineasta, ameaças de morte após Laranja Mecânica e o significado por trás de 2001.

A Mostra, iniciada na sexta-feira 18, exibe a filmografia completa do diretor, em parceria com o MIS, que apresenta exposição com objetos raros como a maquete da sala de guerra de Dr. Fantástico e figurino de O Iluminado, e fica em cartaz até 12 de janeiro de 2014.



CartaCapital – O seu relacionamento com Stanley Kubrick definiu a sua vida?
Christiane Kubrick – Ele teve um impacto enorme em mim e me fez muito feliz. Era muito fácil ser casada com ele. Gostamos um do outro imediatamente e ambos nos sentimos muito sortudos por isso. Eu o achava tão interessante e tão divertido que todas as outras pessoas pareciam entediantes. Foi amor à primeira vista.

CC – Como foi a primeira vez que o viu?
CK – Eu queria ser pintora, mas não conseguia ganhar dinheiro, ainda mais sendo mulher em 1957 – acabaria numa fábrica de porcelana ou qualquer coisa assim. Então eu queria ganhar dinheiro fazendo filmes para poder estudar pintura. Falei pra minha agente que aceitava qualquer papel, e então recebi uma ligação dizendo que alguém queria que eu cantasse uma música. Sim! Logo que o vi, sabia que ele não era só o idiota mediano sentado atrás de uma mesa. E eu pensei, hum, bom homem. Foi amor à primeira vista para os dois, o que foi incrível porque ambos tínhamos tido casamentos anteriores infernais enão estávamos no clima de pensar “ah, isso vai ser amor eterno à primeira vista”. Tivemos sorte de que foi exatamente o que aconteceu.

CC – Ele tinha a fama de ser um diretor difícil. O que acha disso?
CK – A maioria dos atores gostava de trabalhar com ele. Muitos diretores gritam à distância “faça isso, faça aquilo”, e humilham os atores de vários modos. Ele não. Ele os levaria a um canto, falava muito baixo, e deixava que mostrassem o que podiam fazer antes de ocasionalmente dizer “não, eu preferia que fosse deste ou daquele jeito”.
Ele não tinha uma equipe muito grande, gostava de que a coisa toda fosse enxuta, e ele preferia levar um longo tempo para filmar do que fazer rapidamente, porque o rolo de filme não custava dinheiro, não era a coisa cara. Às vezes ficava com raiva quando os atores não decoravam suas falas, o que era muito irritante porque você tem máquinas enormes prontas para o trabalho e alguém estraga tudo, isso não é bom. Mas ele era muito concentrado e não ficava nervoso.

CC – Dizem que Scatman Crothers teve de fazer 160 takes de uma única cena em O Iluminado...
CK – Scatman Crothers era um ator brilhante, um homem muito gentil, mas muito velho. E ele não conseguia lembrar as falas. Isso o deixava muito nervoso, muito triste, mas Stanley disse: “paciência. Tome o seu tempo. Eventualmente você vai fazer certo”. E valeu muito a pena esperar. Quando você é muito velho seu cérebro... sabe, eu sei como é [risos].

CC – Ele mantinha relação com os atores após as filmagens? 
CK – Não, não muito frequentemente. Você perde o contato, isso é muito típico da indústria cinematográfica – você tem relações muito próximas e depois nada. É às vezes bastante doloroso, não é muito legal. Mas é assim mesmo.

CC – Malcolm Mc Dowell [protagonista de Laranja Mecânica] me disse recentemente que ficou muito triste por não conseguir manter contato com Kubrick.
CK – Malcolm era muito jovem. Eles tinham se tornado muito bons amigos, se conheciam muito bem, e ele achou que eles conseguiriam manter a relação. Mas ele estava longe e Stanley estava construindo amizades com outros atores, ele era seu próprio produtor, tinha uma quantidade enorme de trabalho, tinha a sua família. Ele não fez muito contato. Muito tempo depois eles se encontraram e Stanley disse “me desculpe, eu não sabia que você queria que eu mantivesse contato”. Mas nunca foi intencional ou hostil. Acho que é uma das coisas mais peculiares dessa indústria.

CC – Há diversas teorias sobre significados ocultos nos filmes de Kubrick. São minimamente críveis?
CK – Ele era extremamente inteligente. E se você também é, deixa todas as coisas inconscientes que vão para dentro de um filme e que alimentam a sua imaginação por isso mesmo. Ele rejeitava essas teorias completamente, assim como a maioria dos artistas.
Todos esses artigos que dizem “você fez tal coisa porque você é judeu” ou “filho único” ou “filho de médico” ou qualquer coisa assim – há milhares – são entediantes.

CC – As pessoas chegaram ao ponto de dizer que ele filmou a chegada à lua. O que ele achava disso?
CK – Ó céus. Pois é. Nós fomos abordados em Paris por entrevistadores. Em retrospecto consigo lembrar de ter uma sensação estranha sobre essas pessoas. Eles fizeram algo típico que se feito bem é imperceptível: você pode me fazer perguntas que farão com que eu fale o nome de Henry Kissinger, ou Roosevelt, ou o que você quiser. Se você fizer a pergunta, eu falarei o nome. Foi assim que conseguiram o que queriam. E de repente vimos na televisão essa teoria. Eu fiquei muito impressionada com o que fizeram. Fiquei surpresa.

CC – Que tipo de cultura ele consumia?
CK – Ele era uma daquelas pessoas – e eu acho que é por isso que ele morreu jovem – que não dormia muito. Dormia 4 horas por dia. Tinha uma memória muito boa e devorava informação. Eu sempre me sentia muito burra. Ele gostava bastante de música. Ele queria ser baterista quando era jovem. E lia vorazmente, a cada semana era fã de um autor diferente.
Gostava de todos os cineastas de que todos nós gostamos, de verdade. Fellini, Bergman, esses caras. Spielberg. Gostava de diretores que eram completamente diferentes dele. Vimos Casablanca muitas vezes, e Quanto Mais Quente Melhor. A mania mais ridícula dele eram filmes da Segunda Guerra com diálogos abomináveis, enredos estúpidos, combates aéreos entre aviões. Coisa de menino. Patético. Ele assistia àquilo como quem assiste a pornografia. Esse foi seu ponto mais baixo [risos].

CC – Como acha que ele receberia as novas tecnologias de hoje?
CK – Meu Deus, ele iria usar os últimos artifícios, todos os programas especiais. Ele iria simplesmente amar. Ele era um excelente fotógrafo, construiu sua própria câmera em Barry Lyndon, ele gostava dessas coisas. Sabe como alguns meninos gostam de motos e as desmontam e examinam? Ele era assim com câmeras.

CC – Em entrevistas Kubrick raramente discutia o significado de seus filmes. Ele alguma vez discutiu com você o significado de 2001: Uma Odisseia no Espaço, um de seus filmes mais emblemáticos?
CK – Se você dissecar, não funciona mais. Com 2001 ele queria que sentíssemos algo, que pensássemos o mesmo de quando estamos cansados e olhamos para as estrelas e pensamos “que raios é isso”, essa sensação com que todos nascemos de que nossos cérebros são somente grandes o suficiente para saber que são muito pequenos. Não sabemos nada e só se pode ser um agnóstico otimista – o que mais seríamos se não sabemos nada?
Ele queria que o público fantasiasse junto com o filme, com a música e as imagens. Ele queria perguntar: “Você se sente assim às vezes? Do que se trata tudo isso? Quem somos? Por que estamos aqui? Por que não sabemos?”. Essa é uma das fantasias favoritas e que mais é acometida por ansiedade de toda a humanidade, e uma que todos temos. Quanto mais você pensa sobre, menos você sabe comparado a quando começou. E é sobre isso que era o filme.

CC – Laranja Mecânica gerou muita polêmica quando foi lançado. Como ele reagiu a isso?
CK – Mal. Nós todos reagimos mal. De repente todo crime cometido na Inglaterra foi atribuído à influência do filme. Recebemos cartas horríveis, de como iam nos matar e quando, havia um grupo religioso que dizia que ele era o demônio. Ficou tão radical que as crianças não podiam ir à escola, não podíamos deixar a casa, virou uma avalanche.
O filme já estava em cartaz por algum tempo, arrecadando bastante dinheiro na Inglaterra, e Stanley ligou à Warner Brothers para pedir que tirassem de cartaz. Ele nunca achou que o fariam, mas fizeram. Foi muito generoso da parte deles. Eles estavam ganhando dinheiro. Stanley ficou muito grato. Para sempre. Tinham um relacionamento muito bom porque Stanley estava muito ciente que ninguém mais tinha esse privilégio, e ele protegia isso. Ele economizava cada centavo na produção. Fez por merecer a confiança.

CC – Ele lia críticas sobre seus filmes?
CK – Como qualquer um, ele dizia “não estou nem aí, não vou ler... deixa eu ler” [risos]. Em dias bons ele não estava nem aí e em dias ruins chamava os críticos de idiotas.

CC – Hoje em dia seria difícil achar críticas negativas...
CK – Eu sempre penso, com toda essa adulação, essas coisas que fazemos, que ele não teria acreditado. Ele teria ficado tão lisonjeado! Ele só ganhou um Oscar, de efeitos especiais, por 2001: Uma Odisseia no Espaço. Acho que não foi nem de longe o suficiente. Desconfio que tenha parcialmente a ver com o fato de que ele não jogava o jogo social de Hollywood.

Ele não era um recluso, mas não ia a festas, e a ideia de fazer programas de tevê era horrenda. Ele dizia que ia ficar nervoso, ia parecer um idiota. E estava certo, ele não era bom nisso. E os jornalistas se vingavam escrevendo besteiras sobre ele, sabe, que ele voava um helicóptero jogando inseticida sobre a casa, que atirava em turistas, coisas idiotas. Mas agora já não existe mais isso.

CC – Acha que ele teria gostado dessa Mostra?
CK – Espero que sim. Eu não sabia o que fazer com todas aquelas caixas, um oceano de caixas que ele ia eventualmente arrumar e nunca o fez. Ainda bem! O Museu de Frankfurt me mandou um arquivista para selecionar o que as pessoas iriam querer ver, e isso é uma ciência especial. Fiquei aliviada e então soube o que fazer: dei tudo à Universidade de Artes de Londres, que fez uma ala inteira dedicada a ele. Acho melhor do que ficar em mãos privadas.

CC – É muito especial para os fãs poder ver esse material.
CK – Fico tão contente quando vejo jovens vendo essas coisas. Sabe, tivemos voluntários que vieram da Universidade para colocar os papéis em envelopes plásticos especiais para que não desintegrem ou amarelem, e é muito entediante pegar cada folha e, muito cuidadosamente, colocar no envelope com uma pinça. Então pensei “eles vão ficar tão cansados”. E eles trabalharam, trabalharam, trabalharam, leram tudo. Todas aquelas cartas que um cineasta jovem escreve implorando “posso te ligar? – não”, essas coisas.

CC – O que gostaria que as pessoas soubessem sobre ele que ainda não sabem?
CK – Já falei tanto. Eu diria se pudesse. Não sei o que ele quereria que eu falasse. Além disso, sou desacreditada como a viúva, qualquer coisa que eu diga é considerada apenas sentimental, então não importa. Se eu o elogio vão dizer “ah bem, pobre mulher”. Se eu disser que eu o achava absolutamente maravilhoso, “ah vá!”, sabe, não significa nada. Então se eu o elogio, eu o diminuo. Mas acho que ele não precisa de mim.
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Reportagem por Marilia Kodic
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/cultura/a-senhora-kubrick-6543.html
Imagem: Cena do filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick

A revolução dos Beagles

 Matheus Pichonelli*
 Bichos
 Não adianta lutar pela humanização dos animais 
quando se aceita a existência de humanos
 de segunda categoria
Tempos atrás, escrevi neste site a história, real, de um cão que resolveu colocar o focinho em uma vasilha de plástico, ficou preso e saiu em disparada com o latido sufocado no recipiente (Leia clicando AQUI). De onde estava, vi metade da cidade se mobilizar para salvar o pobre que, no desespero, cruzava as ruas sem a menor prudência. Dava dó. O garapeiro, o guarda de trânsito, os motoristas e os casais de namorados: não houve quem, diante da cena, não se mobilizasse para arregaçar as mangas e salvar o animal. Foi daquelas provas de que a humanidade ainda tinha jeito: não perdeu a sua capacidade de sentir nem de transferir a sua humanidade a quem passa por apuros. É o que se chama de alteridade, ainda que o outro tenha rabos e patas.

Foi o que pareceu, também à primeira vista, o resgate na última semana dos cães da raça Beagle em um laboratório de testes em São Roque, no interior de São Paulo. Segundo as primeiras notícias, os cães estavam assustados e alguns, machucados. Em um país que só agora parece pegar gosto em se mobilizar para exigir direitos de naturezas múltiplas – da redução da passagem de ônibus ao fim da corrupção, da gripe e da maldade em todos os corações – o direito dos bichos virava uma pauta – digníssima, note-se. Ao que parece, é cada vez maior o número de pessoas indispostas a aceitar maus-tratos em animais. Um grande avanço para quem, até pouco tempo atrás, aprendia a cantar na escola um hino ao aniquilamento felino. Hoje, quem ousou um dia atirar o pau no gato não se elege nem para síndico do prédio – o vereador mais bem votado da maior cidade do País, por sua vez, tem o desenho de um cão, e não a sua foto, como bandeira de campanha.

A consolidação das leis de proteção de animais e a construção de hospitais públicos veterinários são símbolos dessa transformação. (Dia desses, um vizinho bateu à porta da casa de minha mãe com uma ameaça: se o nosso gato voltasse a arranhar a lataria do seu carrão, o gato apareceria envenenado e morto em casa. Diante da gentileza, ela foi até uma delegacia da Polícia Civil e registrou o boletim de ocorrência. Saiu de lá com a garantia de que se o gato tivesse uma simples gripe a partir dali, o sujeito seria intimado, acusado, eventualmente processado e eventualmente preso por maus tratos. Sem direito a fiança. Ao menos na lei, o direito à humanização dos bichos prevalece sobre a humanização dos automóveis. E é bom que seja assim).

O episódio do resgate dos Beagles, no entanto, diz mais sobre o nosso encarceramento do que o dos bichos. Diz muito também sobre a alienação cultural em relação ao que nós mesmos consumimos e alimentamos. É mais ou menos como se, aos 30 ou 40 anos, alguém se chocasse ao descobrir como é que as crianças vieram parar no mundo. No caso, não as crianças, mas as vacinas, os medicamentos, os tratamentos, os testes. O que não deixa de ser curioso: nosso primeiro contato com as galinhas é uma caixa de isopor com doze ovos que não foram gerados espontaneamente em uma gôndola de supermercado. Tampouco o churrasco do fim de semana. O que os olhos não veem, dirão os despreocupados, o coração não sente, e não precisamos assistir ao aniquilamento de bois e vacas nos pastos e frigoríficos para saber como surge o almoço, nosso e dos pets a quem oferecemos abrigo, proteção e alimento. Nesse sentido, a visualização da dor, simbolizada pelos Beagles – como não querer levar para casa? – parece ter produzido uma revolta tardia. Como escreveu um amigo: como vocês achavam que eram feitos os testes de medicamentos? Com jacas?

A resposta pode ser bem melhor do que as que vêm sendo formuladas após o episódio. Por exemplo: transparência, monitoramento, redução do uso de animais e métodos para evitar a dor desnecessária são mais do que recomendáveis. Inclusive para a produção de alimentos. Hoje, a imagem das empresas está diretamente associada à sua responsabilidade em relação ao meio – e, consequentemente, à sua capacidade de evitar desperdícios, o uso de trabalho infantil ou escravo e a ação agressiva ao ecossistema. O uso de animais em laboratórios passará pelo mesmo processo: quanto menos cruel o processo, mais chances de a pesquisa ser socialmente aceita. É o que vai separar os tempos futuros, de testes com células-tronco e outras inovações, com os tempos ancestrais, de sacrifícios, imolações e desprezo à vida, qualquer forma de vida.

A se notar as manifestações sobre o episódio, no entanto, ainda estamos longe desse salto civilizatório. Não que adorar animais seja sinônimo de desprezo a pessoas. Mas o precedente é, no mínimo, curioso. Em conversas, posts e artigos de jornais, o que se vê é a confirmação de um movimento, já citado aqui outras vezes, contraditório: a humanização dos animais e animalização do ser humano. Na crônica citada, recorri a uma sociologia de boteco para rabiscar uma explicação ao fenômeno: à medida que as cidades crescem, passamos a conviver cada vez mais em ambientes insalubres; esbarramos no trabalho, nas escolas, nas casas de vizinhos e outras instituições fechadas com todo tipo de competição, ganância, trapaça, preconceito e intolerância. Nesse ambiente, nos animalizamos e a ideia de lealdade se transforma em valor absoluto – e raro pelo contraste. Nessa, os cães ganham uma aura sagrada, mais ou menos como uma divindade indiana: são leais, amorosos, gostam da gente quase gratuitamente e não pulam o muro de casa para nos trair com o dono do cão vizinho. Os homens, nessa visão, são abjetos, pouco confiáveis. Elimináveis, portanto.

Nos jornais, como a candidatar-se ao Prêmio Relincha Brasil 2013 – expressão de outro amigo – houve quem escrevesse que, em vez de Beagles, a ciência usasse humanos em seus testes. Por exemplo, presidiários. Eles poderiam, chegou a sugerir a colunista, aceitar atuar como cobaias em troca da redução das penas. Não poderia ser mais clara: não aceitamos menos do que a humanização dos animais, mas não nos importamos com o estabelecimento de humanos de segunda categoria. Os Beagles estariam, assim, em uma categoria intermediária entre os brancos livres detentores de direito e os negros, pobres e mulatos, os únicos que afinal cumprem pena, sem serem dignos de pena, no Brasil - ainda que mofem em detenções insalubres sem o direito sequer de serem julgados. Franz Kafka, que no livro A Metamorfose transformou o personagem Gregor Samsa em um enorme inseto – seu alter ego desprezado por sua tuberculose, segundo a interpretação mais plausível – não iria tão longe. Séria ou não, a proposta, de apelo popular indiscutível, lançou as bases de uma nova categoria de indignação: a humanização seletiva. Os ratos deixados para trás na operação resgate em São Roque não poderiam se sentir menos prestigiados.
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*Formado em jornalismo e ciências sociais, é editor-assistente do site de CartaCapital
Fonte: Carta Capital on line, 25/10/2013

Meu avô teria me matado

 
Berna (Suiça) - Meu avô teria me matado, esse o título do livro da jovem alemã Jeniffer Teege, filha de pai nigeriano. Nele, a jovem conta sua terrível descoberta – seu avô era Amon Goeth, o sádico comandante nazista  do campo de concentração de Plaszow, perto de Cracóvia.

Todos que viram o filme A Lista de Schindler se lembram do nazista SS que, do balcao de sua casa, se divertia fazendo tiro ao alvo em homens ou mulheres judeus presos em Plaszow.

Amon Goeth fez rápida carreira no partido nacional socialista austríaco, depois da união da Austria com a Alemanha, e se formou na direção de campos de concentração e extermínio, servindo em Belzec, Sobibor e Treblinka. Sua maldade excedia a dos próprios nazistas, pelo que logo ficou conhecido como « o açougueiro de Hitler ».

Muito alto, magro e de rosto longo, as fotos de Amon Goeth mostram ter muita semelhança com a neta Jennifer também alta, magra e rosto longo. Com uma diferença – o ardoroso seguidor da doutrina nazista da raça pura, que se comprazia em matar judeus impuros, era loiro. Sua neta é mulata, nascida de um caso da filha de Goeth com um nigeriano. Por isso, foi adotada, logo depois do nascimento, por um família rica de Munique.

A filha do assassino e torturador nazista, Monika Goeth, nasceu no fim da guerra e desconhecia o papel de exterminador de seu pai, condenado à forca, em 1946, pelo extermínio de dezenas de milhares de judeus. Uma parte dos judeus presos em Plaszow, foram salvos por terem sido comprados de Goeth por Schindler, para trabalharem em sua fábrica. Artifício utilizado por Schindler para livrá-los do extermínio – segundo depoimentos de sobreviventes, a esperança de vida em Plaszow era de quatro semanas no máximo e quem tivesse a infelicidade de cruzar ou ver Amon Goeth ou seus dois cachorros tinha morte garantida.

Monika tinha mais de 40 anos quando soube da enormidade dos crimes de seu pai, ao ver o filme de Spielberg, A Lista de Schindler . Uma reunião de entrevistas de Monika, foi publicada em 2002, na Alemanha, sob o título Mas devo amar meu pai, não?  Quatro anos depois, em 2006, já com outro sobrenome, Monika Hartwig participou de um documentário americano Inheritance mostrando seu encontro com Helen Jonas Rosenzweig, que foi secretária de Amon Goeth.

Jennifer Teege sabia que seu nome de origem, quando nasceu e foi adotada, era Goeth, mas nunca imaginara que Amon Goeth do filme de Spielberg, que vira em 1993, fosse seu avô. A descoberta é recente ao ter tido acesso ao livro, que até ali desconhecia, com as entrevistas de sua mãe biológica.
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Fonte: http://www.diretodaredacao.com/20/10/2013


Harold Bloom fala sobre sua 'autobiografia crítica'

Em novo livro, o crítico americano, 
de 83 anos, revê a própria obra e revisita autores que marcaram sua trajetória 
de leitor e professor
 
Filho de imigrantes judeus ortodoxos radicados em Nova York, no empobrecido Bronx, Harold Bloom desde cedo aprendeu a ler e admirar textos religiosos. Mas foi na biblioteca pública onde se refugiava na infância, nos anos 1930, que descobriu outro tipo de leitura: “a liberdade me acenou por meio dos primeiros poetas que amei”, escreve em seu livro mais recente, “A anatomia da influência” (Objetiva). Aos 83 anos, ele refaz nessa obra o percurso que o levou do deslumbramento juvenil com a poesia ao posto de um dos críticos literários mais populares do mundo.

O subtítulo de “A anatomia da influência” — “Literatura como modo de vida” — anuncia o balanço de uma existência em meio aos livros. Bloom revisita autores que marcaram sua trajetória de leitor, crítico e professor, da biblioteca do Bronx à Universidade de Yale, onde dá aulas há mais de 50 anos. Analisa textos de Hart Crane, Walt Whitman, Wallace Stevens, Yeats, Milton e, acima de todos, Shakespeare. Nesse percurso, revê também a própria obra, reconhecida pelos estudos sobre o autor de “Rei Lear”, pela ênfase em grandes nomes do cânone ocidental e por uma teoria original sobre a influência literária entre poetas.

— Este livro é meu trabalho mais importante, uma recapitulação de... céus! Quase 60 anos de trabalho. É um resumo do que tentei dizer ao longo da vida sobre as glórias da literatura ocidental. Cá estou eu, aos 83 anos, ainda lendo, escrevendo e dando aulas. Continuo a amar a poesia acima de tudo. Nunca escrevi um poema, mas creio que minha obra pode ser lida como um grande poema em prosa. Escrevo para evocar minhas experiências de leitura de autores sublimes — diz Bloom, em entrevista por telefone ao GLOBO.
 
Bloom concluiu seu doutorado em Yale em 1955 e começou a dar aulas no Departamento de Inglês da universidade no mesmo ano. Preferia poetas românticos dos séculos XVIII e XIX, como Yeats e Shelley, aos modernistas T.S. Eliot e Ezra Pound, que tinham enorme ascendência sobre escritores e críticos anglófonos da época.

Tornou-se mais conhecido a partir de 1973, com o lançamento de “A angústia da influência”, que considera até hoje seu livro mais importante. Nele, retratava a história da poesia ocidental como uma série de confrontos entre poetas “fortes” e “fracos”. E afirmava que um autor procede sempre por meio da “desleitura criativa” da obra de seus antecessores. “A história da influência poética frutífera”, escreveu, “é uma história de angústia e caricatura autocomplacente, de distorção, de revisionismo perverso e voluntário, sem os quais a poesia moderna enquanto tal não poderia existir”.

Uma resenha publicada ainda em 1973 no “New York Times” saudava essa teoria, com a ressalva de que ela podia causar “ultraje e perplexidade a muitos críticos, poetas e psicólogos”. O próprio Bloom brinca dizendo que, ao falar sobre “desleitura” nos anos 1970, era muitas vezes acusado de “favorecer a dislexia”. No novo livro, ele retoma o conceito e aproveita para refiná-lo. A retórica bélica com que descrevia a relação entre escritores, com foco na luta das obras pela “sobrevivência” ao longo do tempo, dá lugar a um tom mais sereno: “Defino a influência simplesmente como amor literário, atenuado pela defesa. As defesas variam de poeta para poeta. Mas a presença avassaladora do amor é vital para o entendimento de como a grande literatura funciona”.

— “A angústia da influência” era um pouco enigmático em certos pontos. Agora quero deixar claro que a influência literária é uma espécie de amor. Com todas as ambivalências do amor, claro, incluindo angústia, dúvida e ressentimento — diz Bloom, que dá uma risada ao ser perguntado se essa não seria uma mudança muito radical de perspectiva. — Meu querido, todo relacionamento amoroso é também uma luta. E quem fala é um senhor casado há mais de 50 anos com a mesma mulher...

Outra diferença entre o novo livro e o de 40 anos atrás é a presença de Shakespeare. A primeira edição de “A angústia da influência” não tocava na obra do dramaturgo, pois Bloom o considerava praticamente livre desse conflito. Uma nova edição, lançada em 1997, já anotava suas relações com o legado de Ovídio e Chaucer e com seu contemporâneo Marlowe. Já em “A anatomia da influência”, quase um terço das páginas é dedicado ao criador de “Macbeth”.

Autor de livros de referência nos estudos sobre Shakespeare, como “A invenção do humano” (1998) e “Hamlet: Poema ilimitado” (2003), Bloom pretende encerrar a carreira com um novo livro sobre ele, a ser lançado em 2016, quando se completam 400 anos da morte do dramaturgo. O título provisório é “Conhecendo Shakespeare”.

— Quero mostrar que, ao contrário do que acontece na obra de muitos dramaturgos, os grandes personagens de Shakespeare mostram a verdade sobre si apenas para si mesmos. O que provavelmente pode ser dito sobre muitos de nós — diz Bloom, enumerando outras lições de décadas de leitura. — Aprendi com Shakespeare que a vida humana é precária, que não podemos prever nem o que vai nos acontecer daqui a uma hora, e que as únicas coisas de valor no mundo são a inteligência, a beleza e o amor.

Bloom tenta transmitir essas lições a seus alunos de Yale, onde continua a dar apenas dois seminários de graduação: “Shakespeare e o cânone: histórias, comédias e poemas” e “A arte de ler um poema”.

— Dar aulas hoje significa tudo para mim. Quando você chega a uma idade como a minha ainda dando aulas, aprende a amar os estudantes de uma forma muito elevada.

Hoje um decano do campus, ele é remanescente de uma geração de professores e críticos de Yale que, a partir dos anos 1960, ajudaram a introduzir nos Estados Unidos as teorias de Jacques Derrida sobre a desconstrução. Momento marcante desse processo foi o livro “Desconstrução e crítica” (1979), que reunia textos do próprio Derrida e de acadêmicos de Yale como Bloom, Paul de Man e J. Hillis Miller. Mas nunca se considerou parte do grupo. Em “A anatomia da influência”, recorda as longas caminhadas com o amigo De Man, em que discordavam amistosamente sobre a natureza do ofício. Nesses passeios, Bloom defendia sua visão da crítica como a prática de “pensar poeticamente a respeito do pensamento poético”.

A partir dos anos 1980, diz Bloom, essa concepção de crítica ficou ainda mais deslocada na academia americana com a ascensão dos estudos culturais. O crítico que começou a carreira desafiando o “compromisso com o formalismo” da geração influenciada por Pound e Eliot passou a combater os colegas que “avaliam a literatura por critérios políticos, étnicos e outras bobagens do tipo”, provoca.

Bloom se diverte criando nomes debochados para batizar essas tendências críticas, como “Escola do Ressentimento” e “Novo Cinismo” (este um trocadilho em inglês com o termo “Nova Crítica”, corrente influenciada por Eliot na primeira metade do século XX). Para manter a independência, há muitos anos pediu desligamento do prestigioso Departamento de Inglês.

— Desde então tenho sido um professor sem departamento em Yale. Ou um departamento de um professor só — brinca Bloom, que no novo livro arrisca uma autodefinição para seu trabalho: “A crítica literária como tento praticá-la é em primeiro lugar literária, ou seja, pessoal e apaixonada. Não é filosofia, política ou religião institucionalizada. Em sua melhor forma, (...) é uma espécie de literatura de sabedoria e, logo, uma meditação sobre a vida”.
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Reportagem Por Guilherme Freitas
Fonte; jornal o Globo on line, 26/10/2013

ÉPOCA DE OURO

Zuenir Ventura*
 
 ‘E onde eu posso encontrar o Hélio Pellegrino?’;
 ‘Aqui mesmo’, respondeu o informante,
 apontando para as sepulturas. 
O psicanalista estava morto havia 16 anos

Não é qualquer literatura que permite exaltar numa semana um poeta como Vinicius de Moraes e, na outra, um cronista como Fernando Sabino. Agora, em outubro, o primeiro faria 100 anos e o segundo, 90. Houve uma época — de ouro — em que se podia esbarrar com os dois numa mesma noite num bar da cidade ou na cobertura de Rubem Braga, outro cujo centenário acaba de ser comemorado. Há pouco participei em Belo Horizonte de uma mesa em que a cantora Verônica Sabino contou divertidas histórias do pai, que criou tantas sobre o dia a dia que às vezes o cotidiano parece inspirar-se nele. Há casos que a gente ouve e diz: “Isso é coisa do Fernando Sabino.” Estou me lembrando de uma cena que parece ter saído de uma crônica do criador de “O homem nu”. Aconteceu no seu enterro, o mais demorado de que se tem memória no São João Batista. Esbaforido, o jovem repórter chega atrasado e sem saber muito bem quem é o morto e muito menos quem são os amigos a entrevistar, pergunta:

— E onde eu posso encontrar o Hélio Pellegrino?

— Aqui mesmo — respondeu o informante, apontando para as sepulturas. O psicanalista estava morto havia 16 anos.

Além dos debates, uma exposição organizada pelo filho Bernardo em forma de um labirinto de painéis de fotos e frases possibilitava mergulhar no universo do autor de “Encontro marcado”, o emblemático romance de várias gerações. Ele aparece em várias fases da vida. Aqui, com Jorge Amado ou com Louis Armstrong, ali tocando bateria ou numa praia do Rio (aliás, espera-se que a mostra venha para cá, já que Fernando foi o mais carioca dos cronistas mineiros). Nos textos, uma síntese de suas ideias e opiniões: “O otimista erra tanto quanto o pessimista, mas não sofre por antecipação.” “No fim tudo dá certo, e se não deu certo é porque não chegou ao fim.” “Não confio em produto local; sempre que viajo, levo meu uísque e minha mulher.” “Ser mineiro é não dizer o que faz, nem o que vai fazer; é fingir que não sabe aquilo que sabe; é falar pouco e escutar muito, é passar por bobo e ser inteligente.”

Há uma que soa como um projeto de vida: “Antes de mais nada, fica estabelecido que ninguém vai tirar meu bom humor.” Gozador, Fernando gostava de passar trotes e implicar com os amigos. De Vinicius de Moraes, por ter se bandeado para a música popular, ele dizia: “Quem fez o Soneto de Fidelidade não pode ficar escrevendo ‘Vai, vai, vai, vai/ Não vou/ Vai vai, vai, vai,/ não vou’.” Também parodiava o poeta da paixão, fazendo uma substituição. Em vez de “infinito enquanto dure”, ele dizia que o amor só é infinito “enquanto duro”.

Esse lado irreverente, brincalhão, meio infantil, essa recusa de se levar a sério talvez seja o melhor retrato daquele que escolheu como epitáfio: “Aqui jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino.”
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*Zuenir Ventura é jornalista. Escritor.
Fonte: O Globo on line, 26/10/2013
Imagem da internet: Hélio Pelligrino.