segunda-feira, 27 de abril de 2020

Como virar um Cortella


Edson Aran*
 

No Brasil de hoje, se você tropeçar num filósofo, cai em cima de outro filósofo. Eu digo e provo. Você abre o jornal e lê o Leandro Karnal. Pensa que não dá pé, troca de folha e tem o Luiz Felipe Pondé.

Indignado e sem paciência, você sai de casa e tropeça em mais sapiência: Olavo de Carvalho e Vladimir Satafle discutem animadamente o propósito do significado. No café, Mário Sérgio Cortella e Pablo Ortellado trocam pérolas de sabedoria. No Twitter, Emir Sader e Clóvis Barros Filho prosseguem a cantoria. E na TV, Márcia Tiburi e Marilena Chauí se abraçam em euforia.

O Brasil atual é direitinho a gloriosa Atenas do século V a.C. Naquele tempo, você saía de manhã para trucidar uns persas e encontrava Platão debatendo com Zenão, Protágoras levando um lero com o Pitágoras e o Parmênides arrumando encrenca com Diógenes: “Aí, mano, a gente não gosta de neguinho procurando homem aqui na área, tá ligado?”.

O filósofo Diógenes de Sinope andava de lanterna acesa durante o dia e dizia que “procurava um homem honesto!”. Ele é considerado um cínico, mas na verdade, era um otimista. O cínico sabe que nem adianta procurar.

A grande diferença entre a Atenas de ontem e o Brasil de hoje é que a primeira foi o berço da democracia e o segundo acha que a criança dá muito trabalho, melhor entregar pra adoção.

A vida cultural também era um pouco melhorzinha. Depois de acalorado debate sobre o determinismo, um filósofo chegava pro outro e dizia: “Topa ver a estreia de ‘Édipo Rei’, do Sofócles? Dizem que a Jocasta é a maior gata!”

E o segundo: “Ih, mal aí, Pernósticles, estou quase acabando de ler a ‘Ilíada’ e quero saber o que tem dentro do cavalo…”

Já aqui, depois de sopapos e solilóquios, Chauí e Cortella, Karnal e Satafle, Tiburi e Pondé ponderam: “E agora? Vou pra casa assistir BBB ou me mando pro show da Jojo Todyinho?”

Não faz sentido. Com tanto pensador pitaquento, tanto onisciente ostentação, tanto gênio generalizando, era pro Brasil viver um Era de Ouro com uns três Nobéis e pelo menos meia dúzia de Oscars.

Vai ver o problema é o excesso de filosofia. Ou como dizia Platão, “Todo mundo se acha um Sócrates, mas beber cicuta ninguém quer, né?”
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*Escritor, jornalista, roteirista e cartunista brasileiro.
Fonte:  https://www.revistabula.com/secoes/diarios-do-aran/

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