quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Por que devemos ler Vidas Secas?

Michel Aires de Souza*

Vidas Secas 
Todos que leram o livro Vidas Secas de Graciliano Ramos devem ter percebido a grande dificuldade do personagem principal em pensar a si mesmo como sujeito. O livro conta a história de Fabiano e de sua família em uma Odisseia pelo sertão do nordeste, no período da seca.  Ele e sua esposa, Sinhá Vitória; seus dois filhos e a cadela Baleia viajavam embaixo de um sol escaldante, sempre buscando sobreviverem. A vida de Fabiano é de um retirante, onde não há relações duradouras, não há uma narrativa continua em sua existência, não há linearidade. Sua vida era tão árida como o meio ambiente a sua volta. A seca não era apenas a condição de seu meio, mas era de seu mundo interior, de sua vida. A carência e escassez do sertão estavam profundamente enraizadas em sua alma. Ele era como um daqueles mandacarus resistente à seca. Mesmo naquele mundo árido, a opressão e as relações de poder e de classe estavam presentes. Fabiano sempre era explorado e enganado, e sentia dificuldade em pensar essa exploração. Era desprovido de raciocínio e de reflexão.  Ele era desumanizado pela seca, pela miséria e pelas relações de poder dos proprietários da região. Como consequência disso, a linguagem de Fabiano era pobre, sua visão de mundo era limitada e fragmentada.  Naquele ambiente ele apenas sentia-se bem diante dos animais e confundia-se com eles.  Em uma passagem do livro isso é mostrado de forma contundente. “Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. A pé, não se aguentava bem. Pendia para um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feio. Às vezes, utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopeias. Na verdade falava pouco. Admira as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas.” (Vidas Secas – Graciliano Ramos)

         Fabiano não é apenas um personagem de Vidas Secas, ele também personifica a imagem de muitos indivíduos nos grandes centros urbanos.  Sua pobreza vocabular, a grande dificuldade em raciocinar, a incapacidade de compreender as forças que o dominam e determinam sua existência é característico de muitos brasileiros anônimos. Fabiano era desprovido de “linguagem”, por isso não conseguia pensar com autonomia, não conseguia perceber as forças que o subjulgavam, que o condenavam a uma vida de miséria. Em uma passagem, ele percebe que o patrão lhe enganara em seu salário. Sente-se injustiçado e impotente, pois não sabe fazer contas. Nesse sentido relaciona a linguagem a poderes mágicos, que só os homens “sabidos” podem ter.    A pobreza vocabular de Fabiano impedia-o de compreender sua exploração e miséria. Por esta razão, a linguagem é essencial na vida dos seres humanos. O homem sem linguagem torna-se um primitivo, torna-se um animal.  Fabiano era um primitivo, era um animal.  Ser desprovido dos benefícios da linguagem é parte da miséria humana e ajuda a perpetuá-la. A miséria nasce da “ignorância”.  O olho vê apenas o que está em seu campo visual, mas é a linguagem que abre as portas da percepção.  A linguagem revela, mostra o efêmero, o indizível, o oculto, o indelével. Ela capta o universal no particular, nesse sentido é libertadora. O grande filósofo Wittgenstein já dizia que “os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”. Fabiano não tinha um mundo, vivia de forma inconsciente, não era capaz de refletir sobre suas circunstâncias. Vivia como um bicho. Sem linguagem não há reflexão.  Só podemos representar e compreender o mundo através da linguagem. Não há pensamento sem linguagem. Aquilo que está fora de minha linguagem, está fora de meu mundo.  “A linguagem é o espelho do mundo”. Por está razão, o conhecimento é o único caminho para a autonomia, a consciência crítica e a emancipação intelectual. Somente a educação pode por fim a miséria e a exploração.

           Fabiano ignorava o que realmente sentia, vivia de forma irrefletida, seu objetivo era apenas sobreviver ao flagelo da seca. Como ele, muitos brasileiros vivem de forma irrefletida, percebem o mundo como obstáculo à plena realização de sua individualidade, como obstáculos à expressão da sua subjetividade.  Ser como Fabiano é ser incapaz de dar sentido e significado a sua experiência social, é ser incapaz de pensar o mundo de uma maneira crítica e consciente.  Nossa existência e circunstâncias só podem ser compreendidas se tornamo-nos cônscios de nossa posição social na grande ordem do todo. Só podemos avaliar nossa experiência e nosso destino compreendendo as forças históricas e as relações de poder que nos determinam. Segundo Wright Mills os homens “raramente têm consciência da complexa ligação entre suas vidas e o curso da história mundial; por isso os homens comuns não sabem, quase sempre, o que essa ligação significa para os tipos de ser em que se estão transformando e para o tipo de evolução histórica de que podem participar. Não dispõem da qualidade intelectual básica para sentir o jogo que se processa entre os homens e a sociedade, a biografia e a história, o eu e o mundo. Não podem enfrentar suas preocupações pessoais de modo a controlar sempre as transformações estruturais que habitualmente estão atrás deles” (MILLS, 1969, p. 10).

         A história de Fabiano mostra-nos que nossa experiência e nosso destino não é conduzido pelo acaso, que nossos fracassos ou vitórias na vida dependem de forças que não temos controle. Que a vida particular de cada indivíduo está inextricavelmente ligado a seu meio e a sua sociedade. Que nossas ações não são independentes da ordem do todo. Que o nosso cotidiano e nossa vida são determinados por acontecimentos históricos diversos, mesmo que sejam distantes no tempo e no espaço.  Fabiano vive de uma geração a outra numa determinada sociedade, em um certo estágio das forças produtivas, subjugado por um mundo de carência, escassez e opressão.  Fabiano além de lutar com as forças da natureza, buscando sobreviver à seca, também era subjugado, em um estágio primitivo das forças produtivas, pelo patrão, pelo dono da venda, pelo soldado amarelo, pelo fiscal, como partes daquele mundo onde as relações de exploração capitalista eram ainda coloniais..
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 BIBLIOGRAFIA
MILLS, Wright C. A imaginação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1969.
RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Rio de Janeiro: Record, 1938.
 WITTGENTEIN, L. Tratado lógico-Filosófico. Lisboa: Fundação Calouste Gulberkian, 1995.
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* Professor.  Possuo graduação em Filosofia pela UNESP - Universidade Estadual Paulista; mestrado em Filosofia pela UFSCAR - Universidade Federal de São Carlos; e especialização docente em sociologia pela USP - Universidade de São Paulo. Minhas áreas de interesse são filosofia contemporânea, sociologia, educação e pós-modernidade.
Fonte:  http://filosofonet.wordpress.com/2014/08/13/por-que-devemos-ler-vidas-secas/

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O Eu e o Outro

 Mauro Aranha-Lima*
 
"O que leva pessoas a deixar o conforto para atender 
vítimas de um vírus letal?"

Os mortos pelo vírus Ebola aproximam-se de mil e a Organização Mundial da Saúde já declarou o presente surto uma “ameaça sanitária internacional”, o que poderia implicar medidas mais eficazes de isolamento da população infectada, tais como fechamento de fronteiras dos países atingidos em face das outras regiões do continente africano e restrição contundente das conexões aeroportuárias com o restante do mundo.

De uma forma ou de outra, isolar vítimas de doenças infectocontagiosas graves sempre foi, na história do mundo, mais que uma decisão apenas das autoridades sanitárias; foi, sobretudo, a tendência espontânea e intuitiva a mover pessoas sãs para além do círculo potencialmente fatal onde imperem os eflúvios, concretos ou imaginários, dos portadores de contaminação, morbidade ou morte. Boccaccio retrata essa realidade no século XIX: sete mulheres e três homens, em dez dias, reúnem-se no campo, nos arredores das cidades toscanas, para fugir à peste bubônica que, à época, dizimava os citadinos; distraíam-se uns aos outros evocando narrativas que, em seu conjunto, compõem o Decameron, o início da novela ocidental.

De lá para cá, deu-se o que Weber designou como o “desencantamento do mundo”, em que o pensamento e valores enraizados em uma cosmologia e determinação divinas dão lugar ao enfoque secular dos acontecimentos terrenos - visão que ganhou impulso exponencial na razão iluminista, no desenvolvimento tecnológico e científico e nos interesses mercantis da razão instrumental.

Na peste, médicos levavam serviço e conforto aos doentes condenados à morte. Eles próprios, mesmo com especiarias e perfumes na ponta das máscaras, à guisa de filtrar os miasmas da doença, contaminavam-se e morriam. Àquela época, ainda, Deus imperava na consciência dos homens. E, assim, morrer pelo outro poderia significar remissão de culpas, direito e mérito ao paraíso. Mas hoje que “Deus está morto”, conforme vociferou Nietzsche, me pergunto: o que leva médicos do século XXI, com capas e máscaras, a emigrar de suas casas confortáveis, em países desenvolvidos, para cuidar de doentes anônimos, vitimados por um vírus tão imprevisível quanto letal como o Ebola, ante expectativas de cura tão desproporcionalmente menores que o risco de morte? Insensatez, insanidade, desprendimento, autodestrutividade elevada ao suicídio?

Nós, humanos, temos a consciência de ter consciência. Vale dizer, somos dois: um, o que vive, e o outro, o que reflete sobre o viver. O que vive tem desejos, pulsões e indizíveis razões de sorrir, chorar, esperar, desesperar. O outro procura decifrar as razões que fazem inclinar suas ações para uma ou outra direção. A vida, por seu turno, impõe-nos as próprias razões. Freud apontava o conflito inevitável entre o princípio do prazer e o princípio da realidade. Ora, quantos prazeres podemos ter na vida! Todavia, a sequência e intensidade dos prazeres não nos são suficientes. Não nos sentimos serenos. Mas há que se dizer não só de nossas pulsões de vida. Há outras, que Freud chamava “pulsões de morte”. Entenda-se morte como símbolo. E os símbolos “dão o que pensar”, conforme dizia Ricoeur.

Inspirar, depois expirar. Tocar, depois copular. Copular, depois descansar. Ter, depois dar. Dizer, depois silenciar. Nenhum dos polos da ação se perpetua. Vida e morte pautam a harmonia serena dos contrastes que não se encontram num intermédio comum, cuja figura final viria a ser o círculo perfeito, em que não é mais preciso buscar. Quando já não lutamos por questiúnculas agora descartáveis. E temos os olhos determinados num horizonte em que já não seremos apenas nós mesmos e nossas pequenas inquietações. O círculo é a fusão final de vida e morte, em que a morte é a morte do eu para ser o início do encontro em que estaremos presentes, mas já não seremos os mesmos, e também não mais e não menos que outrem. Aqui falo não do outro que refletia sobre o que vivia e não conseguia ser para mais além disso. Falo do homem maduro, não importa sua idade cronológica. Falo do homem aberto para o outro homem, para a dádiva simples e terna ao homem tão precário quanto eu.

Se esse eu é um artista, ele mais contempla do que pinta. Se esse eu é um harpista, ele não mais dedilha o som, ele é o som que sempre esteve fora do instrumento, ao seu redor, sem o saber. Se é um médico ou um enfermeiro ou um missionário, não cura o corpo ou o espírito de outrem, porque outrem não é mais somente um conjunto de sintomas a serem corrigidos. Ele cuida de outrem, totalidade única e irredutível a partes ou mesmo a generalizações. Acolhe a inteireza do sofrimento de outrem, pacifica-o com a própria paz, torna-se agora definitivamente outro. Nunca mais recuará ao que fora. E morrer para si é, ainda, apenas uma metáfora, talvez.

Os aparelhos burocráticos a afastarem médicos de pacientes. Os interesses mesquinhos, ocultos e traiçoeiros de uma indústria que fatura com a doença alheia. As práticas de prolongamento da vida sem a consciência e o usufruto mesmo da vida, atrelados aos aparelhos sofisticados de hospitais que miram o lucro sem fim. Se o médico realmente se deixa tocar pela alteridade que sofre, recusa tudo quanto o afasta de outrem. Deixa-se interpelar. Sua ciência, seus olhos, suas mãos, tudo nele agora toca o verdadeiramente outro. Ele se tornou outrem. Daí a morrer, pouco importa. Se morrer é apenas metáfora, e ele se tornou um novo homem, muito bem, isso é bom. Se para isso concretamente morrer, não é porque buscasse o suicídio. O suicídio finaliza a desesperança total. Ele não se sente desesperar. Para ele, agora tudo é possível e não lhe dói esperar.
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*Psiquiatra e vice-presidente do CREMESP em artigo publicado no Estado de S. Paulo, 09-08-2014.
Fonte: IHU online, 12/08/2014
Imagem da Internet

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Cleantes de Assos — Hino a Zeus

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Provavelmente, para o ser humano que pensa, o mais difícil é aceitar quanto o seu conhecimento do mundo será sempre apenas parcial, e nessa medida, a verdade que o conduz será sempre vulnerável ao que não sabe e desconhece. É esta a limitação que introduz incerteza nas nossas vidas e leva ao conceito de algo absoluto, exterior a nós, onde as dúvidas não existem. O que no caso dos gregos antigos é o conceito de Zeus, deus de poder absoluto que tudo sabe e à sua semelhança fez o homem:

Em ti está a nossa origem; a sorte de ser a imagem de um deus,
só a nós coube, entre tantos seres mortais que vivem e rastejam sobre a terra.

Cito parte da reflexão que o filósofo estóico Cleante de Assos (séc. IV-III a. C.) desenvolve no Hino a Zeus, único texto seu com dimensão chegado até nós, e que a seguir transcrevo em tradução de Maria Helena da Rocha Pereira.

É um conceito de um deus regulador que o poema desenvolve, a quem se pede a salvação dos homens da ignorância, e lhes conceda a sabedoria que permite viver com honra:

salva os homens da funesta ignorância,
sacode-a, ó pai, da sua alma, concede-lhes que obtenham
a sabedoria com cujo apoio tudo governas com justiça,
a fim de que, honrados, te correspondamos com honra,

Pelo meio é dada conta dos comportamentos daqueles para quem esta vontade sobrenatural não faz lei:

São eles mesmos, insensatos, que se precipitam cada um para seu mal,
uns com uma pressa funesta de alcançar fama,
outros voltados para a ganância desordenada,
outros ainda para a licença e os doces prazeres físicos;

É de novo um entendimento do divino como regulador de comportamentos que aqui lemos, como também já acontecia com o fragmento de teatro filosófico de Crítias que em artigo anterior transcrevi. Mas em Cleantes encontramos não a fala de um ateu, mas um crente agradecido pois entende-se feito à imagem do deus, no que é a invenção maior da mitologia grega.

Cleantes de Assos (séc. IV-III a. C.)

Hino a Zeus

Ó mais glorioso dos imortais, deus de muitos nomes e sempre poderoso,
Zeus, senhor da natureza, que tudo governas com leis,
salve! Pois a todos os mortais é lícito falar-te.
Em ti está a nossa origem; a sorte de ser a imagem de um deus,
só a nós coube, entre tantos seres mortais que vivem e rastejam sobre a terra.
Por isso te entoarei um hino e cantarei sempre o teu poder.
A ti obedece todo este mundo que gira em torno da Terra,
por onde quer que o leves, e de boa mente te é submisso.
Seguras nas invictas mãos, como teu servidor,
o raio incandescente e de dois gumes, sempre vivo.
Sob o seu impulso, caminha toda a obra da natureza:
com ele diriges a tua Palavra universal, que passa através de tudo,
misturando-se com o astro luminoso maior, e também com os menores.
Não se faz sobre a terra obra alguma sem ti, ó deus,
nem sobre o etéreo pólo divino, nem sobre o mar,
excepto os actos dos malvados na sua demência.
Mas tu sabes ajustar mesmo o que é discordante
e ordenar o que é caótico, e ódio em ti é amor.
E assim harmonizaste tudo o que é nobre com o que é vil, numa só unidade,
de modo a originar uma Palavra eterna de tudo,
a que fogem aqueles dos mortais que são inferiores,
insensatos, sempre a almejar a posse do bem,
sem verem nem atenderem à lei universal do deus,
em cuja obediência seriam connosco felizes.
São eles mesmos, insensatos, que se precipitam cada um para seu mal,
uns com uma pressa funesta de alcançar fama,
outros voltados para a ganância desordenada,
outros ainda para a licença e os doces prazeres físicos;
procedem sem pensar, arrastados de um lado para o outro,
apressando-se com vigor para que suceda o contrário dos teus desejos.
Mas ó Zeus remunerador de tudo, senhor das nuvens negras e do raio coruscante,
salva os homens da funesta ignorância,
sacode-a, ó pai, da sua alma, concede-lhes que obtenham
a sabedoria com cujo apoio tudo governas com justiça,
a fim de que, honrados, te correspondamos com honra,
cantando sem cessar as tuas obras, como cumpre
a um mortal, já que, nem para homens nem para deuses,
há maior honra do que celebrar sempre a tua lei universal.

in Hélade, 8ªedicao, Edições Asa, 2003.

Abre o artigo um desenho anónimo, atribuido a Peter Paul Rubens (1577-1640) conhecido como o Hércules Farnese.
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Fonte: Víicio de Poesia.

domingo, 10 de agosto de 2014

A paixão é a melhor das coisas (e também a pior)

Fabio Hernandez*
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Poucas coisas são mais cultuadas que a paixão romântica. É bonito, dizem, estar apaixonado. Você volta a ser um adolescente sonhador, iconoclasta, mesmo que já tenha passado dos 30 ou mesmo dos 40. Você retoma a criatividade embolorada. É capaz até de mandar flores e, mais ainda, de escrever versos lindamente medíocres. Você se olha com renovado interesse no espelho. Capricha no penteado depois de anos de desleixo. Refaz o guarda-roupa. Considera até a possibilidade de se depilar para ficar na moda ou parecer mais atraente para ela. 

Viagra, talvez, para não correr riscos de mau desempenho. Alguns pensam até na hipótese de aprender a tocar violão para impressioná-la com um dedilhado que será inevitavelmente tosco. E todos com certeza cantam alto em seu carro as músicas adocicadas prediletas que colocam para ouvir e se inspirar neste momento mágico de deslumbramento. 

A paixão é linda, é o que dizem. E é também horrível. Uma das aberturas de romance mais aclamadas da história da literatura diz o seguinte: “Era o melhor dos tempos, e também o pior”. O autor é Dickens. 

O mesmo se aplica para a paixão. Ela nos eleva e nos rebaixa ao mesmo tempo. Vou ser direto: a paixão nos faz burros, ridículos, irresponsáveis. O mais complicado é que ela faz tudo isso e além do mais nos engana: temos a convicção de que ela nos torna o oposto. Charmosos, quase irresistíveis. 

O apaixonado é um sofredor. Ele não dorme. Ele come mal. Se ela telefona, ele tem uma crise de euforia. Se o telefone emudece obstinadamente, é motivo de aguda depressão. Se ela corresponde, ele é o rei do mundo. Se não, ele pensa alternadamente em matar ou morrer. Às vezes, nas duas alternativas. Ou numa terceira, se ela estiver interessada em outro cara. 

Nenhum apaixonado de verdade escapa da gastrite. A gastrite é a prova definitiva do amor verdadeiro. E não qualquer gastrite, mas aquela que leite nenhum ameniza ou cura. Porque o problema está na mente insana, e não no estômago castigado.

Os filósofos discordam uns dos outros em quase tudo. Montaigne disse que não há nada que alguém diga, nem o seu contrário, que não tenha sido defendido por algum pensador. Um dos raros pontos em que os sábios concordam é exatamente na paixão: se você conseguir se livrar dela, se você for forte e perseverante o suficiente para dominá-la, você vai ser um cara feliz. 

Não será escravo de antidepressivos e de calmantes. Não vai acordar seus amigos e amigas durante a madrugada para desabafos intermináveis. Nem se deixará entrar no egocentrismo insuportável do apaixonado, para quem a vida se resume a ela e ela. O resto, dane-se. A paixão fecha nossos ouvidos. Só falamos. Não conseguimos escutar nada e ninguém fora dos limites do nosso amor. Tente conversar com um apaixonado. Ele não vai registrar nada do que ouvir. Ele não vai derramar uma mísera lágrima pela história mais triste que você lhe contar. 

Uma paixão está rondando você? Chute. 

E trocará uma eternidade de angústia por um minuto de desalento. Mas — como Montaigne escreveu – eu poderia estar aqui defendendo o contrário, com a mesma convicção.
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* O cubano Fabio Hernandez é, em sua autodefinição, um "escritor barato".
Fonte:  http://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-paixao-e-a-melhor-das-coisas-e-tambem-a-pior/

sábado, 9 de agosto de 2014

Plebiscito à vista!

Frei Betto*

plebiscito

A maioria da população brasileira (89%) é favorável à reforma política, constatou pesquisa da Fundação Perseu Abramo. Como atingir esse objetivo?

A CNBB convocou uma centena de entidades da sociedade civil para propor o Projeto de Lei de Iniciativa Popular pela Reforma Política.

O projeto inclui a proibição do financiamento de campanha eleitoral por empresas. Hoje, nós votamos e o poder econômico elege! O financiamento deveria ser com recursos públicos e contribuição de pessoa física no limite de R$ 700.

No sistema atual, qualquer candidato pode ser financiado por empresas. Uma vez eleito, passa a defender interesses corporativos, e não da população.

Exemplos de aprovações que favorecem o lucro de empresas são a liberação dos agrotóxicos, a isenção fiscal ao agronegócio, os contratos de empreiteiras em obras públicas e a política de juros altos.

Em política, empresário não faz doação. Faz investimento. Essa promiscuidade entre interesses políticos e negócios privados estimula a corrupção.

Por considerá-la contrário à Constituição, a OAB levou ao STF esta contradição: pessoas jurídicas, que não têm direito a voto, influem mais nas eleições que eleitores ao exercerem seu direito de cidadania. A 2 de abril o STF julgou a ação.

Transcrevo trecho do voto do ministro Marco Aurélio Mello: “Segundo dados oficiais do TSE, nas eleições de 2010, um deputado federal gastou, em média, R$ 1,1 milhão; um senador, R$ 4,5 milhões; e um governador, R$ 23,1 milhões. A campanha presidencial custou mais de R$ 336 milhões. Nas eleições municipais de 2012, segundo recente contabilização do Tribunal, teriam sido gastos incríveis 6 bilhões de reais. E os maiores financiadores são empresas que possuem contratos com órgãos públicos. O setor líder é o da construção civil, tendo contribuído com R$ 638,5 milhões; seguido da indústria de transformação, com R$ 329,8 milhões; e do comércio, com R$ 311,7 milhões.”

O ministro Gilmar Mendes pediu vistas e suspendeu-se a votação. Porém, o resultado já está definido: seis dos onze ministros já votaram contra o financiamento de campanhas por pessoas jurídicas!
Vitória? Ainda não. Parlamentares querem mudar a Constituição e tornar legal a prática de empresas financiarem campanhas eleitorais.

Daí a importância de participarmos do Plebiscito por uma Constituinte Exclusiva e Soberana na Semana da Pátria.
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* Frei Betto é escritor e religioso dominicano.
Fonte: Adital

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O EXECUTIVO VAI OUVIR O MONGE OUTRA VEZ

 
  Hunter inicia o novo livro falando de seu espanto com o sucesso no Brasil. 
Diz que não conhece um motivo que justifique o fenômeno. 
Argumenta que se "você sabe explicar o milagre, não é obra de Deus". 
Arrisca imaginar, contudo, que uma das razões seria o prazer 
do brasileiro em ouvir histórias, como indica a 
perpetuação da indústria noveleira.

O novo livro do best-seller americano James Hunter vai ser lançado em português, no mercado brasileiro. A edição em inglês deve sair dentro de seis meses. Explica-se. O Brasil o vem tratando muito bem, segundo Hunter disse em entrevista por telefone ao Valor: cerca de 80% dos quase 5 milhões de exemplares vendidos dos seus dois primeiros livros circulam nas mãos de brasileiros - apesar de "O Monge e o Executivo" e "Como se Tornar um Líder Servidor" terem sido publicados em duas dúzias de idiomas. Nos últimos dez anos, Hunter fez cerca de 70 palestras em 30 cidades brasileiras. O novo livro já nasce com status de best-seller. A primeira tiragem totaliza 150 mil exemplares. A meta da editora é vender 300 mil até o fim do ano.

Assim como no prefácio da edição mais recente do primeiro título, Hunter inicia o novo livro falando de seu espanto com o sucesso no Brasil. Diz que não conhece um motivo que justifique o fenômeno. Argumenta que se "você sabe explicar o milagre, não é obra de Deus". Arrisca imaginar, contudo, que uma das razões seria o prazer do brasileiro em ouvir histórias, como indica a perpetuação da indústria noveleira. Outra, a atual inclinação para refletir sobre líderes, processos, corrupção. "Acredito que o brasileiro vive um momento de discutir o papel da liderança. Por isso, o livro fez muito sentido. Como diz o ditado, quando o aluno está pronto, o professor aparece", comenta Hunter, reproduzindo provérbio semelhante que cita no livro - um entre vários.

Certamente, há vários motivos para Hunter frequentar as listas brasileiras de best-sellers desde o lançamento do primeiro livro, há dez anos. A opção por apresentar os conceitos da liderança servidora a partir de uma história fictícia é um deles. Em "De Volta para o Mosteiro", o protagonista John Daily faz um segundo retiro, no qual revela aos colegas seu fracasso em colocar em prática o que aprendeu no primeiro - relatado em "O Monge e o Executivo". A linguagem simples e as explicações recorrentes também contribuem. Tornam a leitura ágil e acessível. Quando Hunter quer usar alguma palavra menos corriqueira, a personagem Teresa saca o celular, procura o significado na internet e lê para os colegas.

O conteúdo muito bem estruturado também ajuda. Os conceitos são serenamente apresentados ao longo de 27 capítulos, correspondentes a três dias de retiro. É o tempo necessário para o professor e monge Simeão conduzir uma espécie de terapia coletiva entre os sete participantes e instigá-los a discutir, comentar, retrucar, dar exemplos e falar de suas vidas. Com a descrição cinematográfica das cenas, é difícil não se sentir no meio do grupo.

O que também ajuda a aproximar os leitores é a a citação de ditados populares e conceitos de senso comum ao longo das quase 200 páginas do livro. Um deles é a regra de ouro da convivência social, que manda tratar os outros como gostaríamos de ser tratados. Outro é o entendimento de que as atitudes que mais irritam o protagonista são justamente seus próprios defeitos.

Repetir conceitos conhecidos tem lá sua finalidade pedagógica. Se não fosse assim, as empresas parariam de repisar mensagens sobre sua missão, visão, valores. Revisitar o que já se aprendeu intelectualmente é uma forma de incorporar o aprendizado ao estilo de vida, diz Hunter. Em outras palavras, ele conclui afirmando que "nos Estados Unidos há um ditado que diz: há um motivo para que haja missa todos os domingos".

Valor: Valor: Por que o senhor escreve sobre liderança a partir de uma história fictícia?
James Hunter: Acredito que as histórias são uma boa forma de ensinar. É mais eficiente. Quando Jesus ensinava, sempre falava a partir de parábolas. E acredito que as parábolas permitem que as pessoas absorvam melhor [o conteúdo] do que um texto de não ficção. E acredito que essa é uma grande verdade no Brasil, onde as pessoas adoram histórias, como as novelas.

Valor: O senhor é católico? É por isso que cita Jesus Cristo?
Hunter: Sou cristão. Apenas me considero um seguidor de Jesus Cristo. Não coloco um rótulo em minha crença.

Valor: Em seu novo livro, o senhor faz o personagem principal, John Daily, voltar para a sala de aula e para o mosteiro que ele frequentou no primeiro livro. É uma metáfora para falar sobre o fracasso?
Hunter: Sim. Uma coisa é você aprender intelectualmente. Outra é trazer esse conhecimento para seu dia a dia, colocá-lo em prática e incorporá-lo ao seu estilo de vida. No livro, eu quis demonstrar que, apesar de ter aprendido e de adorar os conceitos sobre liderança, Daily também tem dificuldade para incorporá-los em sua vida. E isso é muito comum entre os líderes.

Valor: No prefácio, o senhor comenta que lhe perguntam por que escrever mais um livro sobre liderança. Qual é a motivação?
Hunter: Antes, é preciso dizer que escrevi "O Monge e o Executivo" há 17 anos. [No Brasil, o livro foi lançado em 2004.] Ao longo desses anos todos, aprendi muito com meu trabalho como consultor, em minhas viagens, nas empresas, no Brasil. Fui acumulando novas ideias sobre as organizações, sobre cultura, sobre conexões emocionais. Decidi compartilhar todo esse aprendizado.

Valor: Como um executivo pode se tornar um líder servidor?
Hunter: O primeiro passo é educação. Temos de ser ensinados a ser líderes servidores. Acredito que essa é a parte mais fácil. Os princípios para ser um líder servidor são universais. Ser gentil, humilde, paciente, honesto, saber ouvir. A questão é que as pessoas precisam ser lembradas desses princípios. O segundo passo é entender quais são minhas dificuldades, em que pontos tenho de crescer. O terceiro passo é praticar. A liderança é uma habilidade que se conquista praticando. É como no esporte. Ninguém se torna um atleta ou aprende a jogar futebol lendo um livro. É preciso praticar. Nas empresas dos Estados Unidos para as quais presto consultoria, há um investimento contínuo na formação e educação das lideranças.

Valor: O senhor discorre sobre a missão do líder de distinguir o que os subordinados precisam daquilo que desejam. Também reafirma o dever de o líder dizer "não" quando o subordinado não precisa de algo que pede. Não é difícil avaliar o que um adulto necessita sem ser autoritário?
Hunter: O princípio que uso para conseguir avaliar uma demanda é aonde ela vai nos levar. O que vai acontecer como resultado desse comportamento? Será importante para a pessoa, para a equipe, para a empresa? Por exemplo, se eu deixar um funcionário fazer uma hora de intervalo e não apenas 15 minutos, como todos os outros, vai ser ruim. Vai gerar uma desmotivação na equipe. O teste de sua liderança é se seus liderados saem melhor do que quando chegam. Estão crescendo sob sua liderança? E a equipe? Por isso, sempre aplico, como líder, o princípio que questiona se algo está realmente servindo à pessoa e à equipe. É o melhor para ela e para a equipe? Muitas vezes, vou errar [ao responder a essa pergunta]. Somos todos imperfeitos. Mas aprendemos com nossos erros.

Valor: E um líder tem de dizer sempre muitos "nãos"...
Hunter: Sim. E como! Grandes líderes sabem afagar, mas também dão as palmadas necessárias. Falo bastante sobre isso no livro.

Valor: Essa prática lembra a liderança baseada em "recompensa ou punição", reconhecida por outros autores como antiquada. Qual é a diferença?
Hunter: A diferença é que o sistema de recompensa ou punição manipula as pessoas e atende a anseios individuais. O que digo no livro trata de relaciona mento e de fazer a pessoa crescer. É influenciar para benefício mútuo: do subordinado, da equipe e da empresa. Afagar é ser gentil, paciente, ouvir a pessoa, perguntar sobre a família, levar em conta sentimentos. Dar palmadas é sentar para conversar sobre o mau desempenho, sobre como melhorar. Vejo uma grande diferença entre os dois sistemas. No primeiro, a pessoa manipula o subordinado. Na política de afagos e palmadas, falamos em construir um bom relacionamento.

"De Volta ao Mosteiro


James Hunter. Tradução: Vera Ribeiro. Editora: Sextante/GMT. R$ 24,90
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REPORTAGEM Por Karla Spotorno | Para o Valor, de São Paulo
FONTE: Valor Econômico online, 05/08/2014
Imagem da Internet 

TEMPOS VORAZES

 Luiz Ackermann/Agência O Globo
 Enterro de Matheus Alves dos Santos, de 14 anos, morto em junho por policiais militares no Sumaré, realizado no cemitério do Caju, no Rio
O caso ocorreu no bairro dos Jardins, zona nobre da capital paulista. Era uma manhã totalmente comum na rotina de uma moradora de um edifício de classe média alta, localizado em algum ponto da alameda Lorena. Na entrada, cumprimentou o porteiro, como rezam as boas maneiras, e saiu para seus compromissos cotidianos. Banca de jornais, uma compra ou outra de ingredientes encomendados pela cozinheira para completar o almoço. De repente, a mixórdia de gritos, buzinas e correrias até a esquina a deixou estática ainda na calçada.

Não conseguia identificar com clareza o que estava acontecendo, mas também teve receio de aproximar-se ainda mais da confusão desconhecida, anormal para um trecho de rua sempre tão previsível. Eis que surge em sua frente, atravessando em zigue-zague pelos carros, uma figura familiar. Ou pelo menos ela assim o considerava até então. Era um seu vizinho antigo e ela imaginou que, finalmente, desvendaria o mistério e o motivo da confusão. Mas não. Com as mãos trêmulas, erguidas para ela, aquele senhor, supostamente tão conhecido, gritava fora de si: "Faltou pouco para eu dar um soco nele! Faltou pouco para eu dar um soco nele!"

Estava inconformado porque a presa lhe escapara por entre os dedos. Tratava-se de um garoto. Talvez um ladrão oportunista pego em flagrante pelos transeuntes, ajudados por seguranças à paisana, bem no momento de um assalto frustrado. Cercado pela turba em fúria, o rapaz ficara no chão, chutado e xingado. Livrou-se do linchamento porque a polícia chegou rápido. Ficou na mente daquela senhora, uma professora universitária, a imagem daquele vizinho transtornado sem nenhum resquício que pudesse lembrar o homem educado, cordial, que, durante décadas, ela julgou civilizado. Estava transmutado pela gana de fazer justiça com as próprias mãos.

O relato pode soar como ficção, mas é absolutamente verídico. É apenas um caso de tantos fatos randômicos, para usar a palavra da modernidade cibernética, que desfilam diante de nós como um catálogo de episódios de violência. Seu particular entre tantos outros noticiados todos os dias à exaustão pela mídia é a figura do senhor com sede vingança. Foi escrito "justiça com as próprias mãos". Mas não é isso. Justiça, como preza da filosofia do direito, é algo impessoal, regulado por um estatuto, por agentes de um Estado democraticamente instituído. Havia algo na mente daquele senhor que o transformou naquela manhã e o fez acreditar na hipótese de uma violência legitimada pela revolta.

Que sentimento é esse? É ele o responsável pela onda de violência dos nossos dias? Quanto de humano, de individual, de pessoal abarca a cota de violência do nosso tempo? Um grupo de acadêmicos, intelectuais e pesquisadores está intrigado em responder a essas e outras questões inquietantes da morfologia da violência do século XXI. Se as guerras entre palestinos e israelenses ou entre russos e ucranianos mundializam o problema, por outro lado, os esquartejamentos, os casos como o do menino Bernardo ou o fato de um médico e de um enfermeiro assistirem, na porta de um hospital, à morte de um homem passando muito mal sem prestar socorro emprestam um componente pulsional a esses crimes. Do dia 14 deste mês até 8 de outubro, no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, o grupo debaterá o tema, em 22 conferências, na 8ª edição do ciclo Mutações, tradicional evento criado pelo filósofo Adauto Novaes. Neste ano o tema é Fontes Passionais da Violência.

A questão é como explicar a violência quando o indivíduo violento tem acesso às condições que, em tese, 
garantiriam a coesão social

Do ponto de vista da sociologia, evidente, os fatores sociais e históricos sempre aparecem como protagonista das análises e estudos sobre a violência. Desde a constituição da ciência social, Émile Durkheim (1858-1917) enxergou a sociedade como um grande Godzilla a esmagar qualquer tentativa de uma vontade única do indivíduo. Sua existência era moldada pelos vários papéis assumidos nos grupos sociais, pela divisão social do trabalho, que provocaria uma solidariedade orgânica e garantiria a coesão social, sempre intermediada por regras resultantes da educação e do direito. O crime ou o suicídio seriam anomalias com origem na própria constituição do social. Embora com maiores atribuições ao indivíduo, os outros dois fundadores da sociologia, Max Weber (1864-1920) e Karl Marx (1818-1883), justificavam os crimes, a insegurança urbana ou o advento das multidões - a grande obsessão sociológica - com ênfase maior no entorno socioeconômico.

A questão imposta é como explicar a violência quando o indivíduo violento tem acesso às condições estabelecidas pelos fatores que, em tese, garantiriam a coesão social. Não apenas renda. Mas educação, informação, discernimento do certo e do errado e, apesar de tudo, um sentimento de raiva, desespero, ódio, incerteza impera sobre seus atos. "A tendência sempre é esquecer as paixões quando se discute violência, como se não houvesse o humano, como se o ódio não pudesse se instalar na mente das pessoas", afirma Novaes. Em sua visão, encontrar saídas para mitigar a onda de violência depende de uma análise de toda a constelação de causas.

"Neste momento não são as fontes sociais ou históricas, mas as pulsionais, que chamam a refletir sobre a natureza constitutiva desse animal [o homem] para além da sociabilidade", diz o cientista político Renato Lessa, presidente da Biblioteca Nacional e primeiro conferencista do evento. Ele esclarece: "Não se trata de opor as causas exteriores e as interiores; é que mesmo aqueles que tratam do exterior devem considerar a dimensão da interioridade". Segundo Lessa, nos nossos dias, é uma obrigação moral dos intelectuais analisar a violência para além dos lugares-comuns.

Muitas reflexões na literatura das ciências sociais, na filosofia ou na psicologia foram esquecidas ou carecem de interpretação à luz dos acontecimentos recentes. Só dessa forma seria possível explicar o avanço da barbárie nos nossos dias. A intenção desse grupo de intelectuais é resgatar algo que o pensamento do século XX parece ter deixado de lado, talvez por medo de ser acusado de ignorar o social em nome do existencialismo. Lessa cita o economista Vilfredo Pareto (1848-1923) como exemplo. Mais conhecido por sua teoria da otimalidade econômica - quando o benefício de um não significa a redução do bem-estar do outro -, Pareto também sustentou que o comportamento humano - assim como o de outros animais - abriga um traço pré-cognitivo, um impulso alógico, que se cristaliza depois com a influência da sociedade, ou seja, do meio onde vive. É o que Sigmund Freud (1856-1939) chamou de "dimensão pulsional".
 
Protesto após morte de Fabiane Maria de Jesus, linchada em maio por moradores do Guarujá: "É um desafio para o pensamento contemporâneo explicar por que uma mãe de família sai para comprar pão, no Guarujá, e é linchada", diz cientista político
A análise da violência, portanto, estaria contaminada pelo vazio do sujeito, como se o animal humano não carregasse nenhuma característica originária sobre a qual a sociedade exerceria seu papel. "É um desafio para o pensamento contemporâneo explicar por que uma mãe de família sai para comprar pão, no Guarujá, e é linchada, por exemplo", diz Lessa, numa referência ao assassinato da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, cujas imagens do espancamento público circularam pela internet de forma viral. Qual é o componente humano dessa revolta, seja para os moradores da periferia do Guarujá ou o senhor da alameda Lorena?

"A revolta nasce do espetáculo da desrazão diante de uma condição injusta e incompreensível", escreveu Albert Camus (1913-1960) em seu livro "O Homem Revoltado", uma das tentativas notórias para explicar esse componente humano da violência. Em "Eichmann em Jerusalém", Hannah Arendt (1906-1975) elaborou o seu conceito de "banalidade do mal", quando constatou que a obediência cega jamais pode ser julgada como neutra porque é um pilar da "burocracia do assassinato". Ou seja, seguindo o raciocínio de Hannah, um médico, enfermeiro ou qualquer funcionário de um hospital nunca poderia negar socorro a um ser humano que agoniza em sua porta com a justificativa de acatar qualquer tipo de ordem superior ou normativa, sobretudo a falta de uma carteirinha de plano de saúde em seu bolso.

A análise proposta pelo grupo de Adauto Novaes parte, porém, de uma evolução histórica para investigar as motivações humanas. Depois de três dias de discussões internas, os intelectuais estabeleceram a Primeira Guerra, cujo início completa cem anos, como marco inauguratório de uma forma de violência ainda perene. "Foi quando o mundo se transformou em trincheira, quando a guerra não é mais nos campos de batalha, mas passa a atingir a população civil, isto é, a violência não está mais longe", explica a professora Olgária Mattos, uma das palestrantes do Mutações deste ano.

O conflito, o primeiro a ocorrer nos cinco continentes, somou 10 milhões de mortos e 20 milhões de feridos. De acordo com o historiador inglês Eric Hobsbawn (1917-2012), em seu "A Era do Império", as únicas quantidades medidas em milhões, antes de 1914, eram na astronomia, no cálculo da população dos países ou na produção do comércio e das finanças. Depois da guerra, "nos acostumamos a ter números de vítimas de tais magnitudes". Além da grandiosidade da catástrofe, Hobsbawm sublinha um dos pontos mais intrigantes desse momento para a análise da violência: as hecatombes, no século XIX, se situavam no mundo do atraso ou da barbárie, fora do âmbito do progresso e da civilização moderna. Essas atrocidades notadas nos continentes subdesenvolvidos eram vistas como regressão à selvageria. A guerra de 1914-1918, porém, fez dos métodos de atrocidade parte integrante do mundo civilizado e encobriram os avanços contínuos da tecnologia, da razão, isto é, do progresso.

A Primeira Guerra decretou a falência daquilo que o sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990) chamou de "processo civilizatório". Durante três séculos, a humanidade apostou que a construção de um arcabouço social moldaria as relações interpessoais em um ambiente pacífico. "Essa acumulação civilizatória é destruída pela guerra. As regras, o Estado democrático, a diplomacia, sobretudo a razão, a educação e, como destaca Elias, até a etiqueta, as boas maneiras, tudo isso mitigaria as potencialidades letais do indivíduo", diz Lessa. Segundo Elias, uma complexa conexão social forjada no ambiente cultural europeu impôs um autocontrole daquilo que Freud chamou de superego e, assim, arrefeceu o instinto violento do ser humano, permitindo a harmonia na convivência.

A falência do homem civilizado coincide com o malogro dos políticos e das instituições como mediadoras 
da convivência social

Em busca de explicações para esse processo de bancarrota do homem civilizado, os participantes do Mutações reencontram, de certa forma, as mesmas causas da Primeira Guerra. Em 1914, o capitalismo experimentou o apogeu de seu lado imperialista, expansionista e, consequentemente, bélico. "Desde então, o homem, como observou Walter Benjamim, vai perdendo o valor da cultura, da educação, da filosofia, daquele verniz de cultura que determinaria a civilidade e substitui tudo pelo econômico, esse passa a ser o único valor. Consumir, ter, passou a ser o padrão comportamental", analisa Olgária. "Quando o econômico é fetichizado, o conhecimento perde valor e tudo é brutalista."
Nada se tornou mais brutal nesse período pós-civilizatório do que o tempo. "Aquilo que retarda os resultados econômicos tem que ser excluído e esse sentimento, muitas vezes subjacente, implícito, desperta paixões violentas", diz Olgária. Se é preciso consumir muito, há menos tempo para ganhar dinheiro, logo, desaparece o tempo para reflexão, discussão, debate. É o sumiço da palavra. "Primeiro é a violência; se não der certo, negocia." De acordo com Olgária, essa falta de diálogo é também um desdobramento do "politicamente correto", um tipo de violência contemporânea. "As pessoas não podem criticar. Dizer, por exemplo, que é um absurdo metade dos candidatos nas eleições deste ano não ter nível universitário. Logo a pessoa é classificada de elitista, mas a falta de preparo para a atividade parlamentar também gera violência."

A política é, portanto, o ponto de chegada na corrida da investigação de saídas para a violência contemporânea. A falência do homem civilizado coincide com o malogro dos políticos e das instituições como mediadoras da convivência social. Na opinião dos intelectuais, sem resgatar o político será impossível deter a barbárie. Seria imprescindível repensar o econômico e remodelar as instituições para trazê-las de volta ao papel de mediação. Em busca da hipertrofia de seus ganhos, sobretudo financeiros, o econômico sequestrou o político e sua hegemonia criou um capitalismo de incertezas, volatilidade e desigualdade. "A imprevisibilidade é a maneira mais difusa com a qual a violência afeta o seu corpo físico, mas o fato de você se sentir numa vida imprevisível, isso em si é uma dimensão constitutiva da maior violência que o ser humano pode sofrer", nota Lessa.

Talvez em nenhuma outra dimensão essa imprevisibilidade se manifeste com tanta clareza do que no mercado de trabalho. Depois da crise financeira de 2007, as tendências mundiais foram de incertezas para os jovens, principalmente na Europa, embora a deterioração das relações trabalhistas seja notada a partir do fim dos anos 1970. O sociólogo Guy Standing, autor de "O Precariado - A Nova Classe Perigosa", afirma que uma vida laboral de adaptação infinita, insegura, constantemente ameaçada, deteriora o sentido moral. Standing une o indivíduo sem relação de trabalho formal, o precarizado, com o assalariado, e sustenta que este é tomado pela raiva e pela revolta em se sentir sempre explorado ou ameaçado de perder o pouco que tem. "A mente do precariado é alimentada pelo medo e motivada pelo medo, causando desengajamento político e intolerância", escreve.

As mutações no mercado de trabalho são uma das explicações para a deterioração da representação política e da confiança nas instituições. Elas podem provocar fragmentação dos objetivos, das reivindicações, das bandeiras políticas. As manifestações de massa também podem ser reduzidas a meros aglomerados, com poucas chances de obter resultados do governo, das instituições reclamadas, e ampliam a frustração com o poder constituído. "Essas diferenças é que precisam ser apagadas, essas fronteiras da democracia", diz Novaes. "O direito, o Estado, a revolução não foram eficientes em regular essa igualdade. Convém agora instalar no centro da política a luta contra as formas de violência."
AP 
Palestinos no local de explosão que matou dez pessoas, nove delas crianças, em campo de refugiados de Gaza na segunda-feira: para intelectuais, mundo se transformou em trincheira a partir da Primeira Guerra
 
A questão é que o Estado ainda tem o papel de ser o grande mediador, mas falha também quando responde à situação de emergência com mais violência. Essa suposta resposta, como aponta o sociólogo Zygmunt Bauman, em "O Mal-Estar da Pós-Modernidade", só alimenta a "economia do cárcere", isto é, toda uma indústria, em numerosos países, que produz presos e um exército de profissionais que vive deles, como advogados, servidores públicos e todos os tipos de prestadores de serviço para os presídios. O Brasil tem a terceira população carcerária do planeta, com 715.655 presos, perde apenas para os Estados Unidos (2.228.424) e a China (1.701.344).

O problema é que a prisão, aos olhos de grande parte da população, é insuficiente como penalidade. "Para as pessoas, o Estado prende e solta ou não dá conta de prender, e a sensação é de insegurança, logo, o indivíduo dispensa a mediação do Estado e acredita que pode fazer justiça por conta própria", afirma Ariadne Natal, pesquisadora do tema linchamentos no Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo. Ela analisou 385 casos ocorridos na região metropolitana da capital paulista em 2009. Muitos casos podem estar subnotificados, pois, quando a polícia prende uma pessoa como aquele ladrão da alameda Lorena, em geral, registra o fato como roubo, agressão corporal. "A própria vítima do linchamento não tem capital social para registrar o ocorrido."

Os casos de linchamento oferecem mais uma prova da falência do "processo civilizatório", pois a ideia dos algozes só encontra relação com a noção de Justiça do período pré-iluminista ou medieval. Remete às práticas de tortura. "É uma visão que o direito e a Justiça só têm valor se houver o castigo físico", observa Ariadne. "A violência é vista como forma de educar e punir. Se isso não acontecer, a justiça não foi feita. Essa é uma declaração que ficou muito presente nos entrevistados na minha pesquisa." A socióloga destaca que esse sentimento tem o mesmo fundamento daqueles que acreditam que a criança deve apanhar para aprender ou mesmo da pena de morte. Mas, nesse caso, com um agravante. "Nos países onde a pena de morte é legal, embora seja um ponto polêmico, a forma é a mais asséptica possível, pelo menos a legislação prega uma ausência de dor. No linchamento, o objetivo é a exposição social, a dor física, a ideia de sofrimento."

Na pesquisa de Ariadne, o sentimento de vingança é comum a todas as classes sociais e níveis educacionais. Essa uniformidade atua também sobre aqueles que estão no papel de exercer as regras do chamado "processo civilizatório", isto é, os policiais. Esse é o próximo tema de pesquisa da socióloga. "O policial também faz a mesma avaliação de que o Estado e a Justiça não honram o trabalho dele, porque depois liberta o preso. Então, ele parte para a execução por conta própria", diz, citando como exemplo o caso dos policiais militares do Rio que foram filmados ao assassinar um garoto no Alto da Boa Vista (Sumaré).

Outro aspecto contemporâneo é intrigante para os intelectuais envolvidos na discussão da violência. Assim como as regras de convivência e regulatórias se mostraram promissoras para frear os instintos mais primitivos do seres humanos, o processo de esclarecimento do século XVIII com um maior fluxo de informação racional foi a aposta de fazer do homem o ser civilizado. Pois justamente no momento em que a internet permite o maior acesso à informação, provocando uma espécie de "iluminismo cibernético", é que recrudescem a violência desumana, as guerras, a carnificina movida pelo ódio.

Seria uma materialização da violência praticamente a todo instante no espaço virtual quando, por exemplo, alguém bloqueia outro alguém em sua rede social? "A lei hoje é: se me incomodar, elimino", afirma Olgária. Talvez esse seja mais um fator a ser levado em conta para conhecer os motivos intrínsecos ou naturais daquele senhor dos Jardins ávido pela vingança. Ou para justificar a conclusão de que a violência fez do ser moderno aquele que sofreu um trauma.
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REPORTAGEM  Por Jorge Felix | Para o Valor, de São Paulo
Valor Econômico online, 01/08/2014

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O sentido do trabalho

Fabio F. Storino*

Após desafiar os deuses, reza a mitologia grega, Sísifo foi condenado a carregar eternamente uma pedra até o topo de uma montanha; ao chegar lá, no entanto, a pedra rolava para baixo, e seu trabalho tinha de começar novamente do zero. “Trabalho de Sísifo” transformou-se em uma alegoria ao trabalho sem sentido.

O economista Dan Ariely, frequentemente mencionado nesta coluna, realizou uma série de experimentos que exploraram a ideia de sentido do trabalho (ver sua palestra TED). Em um deles, foram dadas aos participantes peças de Lego para que montassem um robô, em troca de uma pequena quantia em dinheiro. A tarefa era repetida, oferecendo-se uma quantia cada vez menor, até que os participantes não estivessem mais dispostos a fazê-lo – em “economês”, até quando a receita marginal (o dinheiro) se tornava inferior ao custo marginal (o esforço).

Inspirada no mito de Sísifo, uma variação do experimento desmontava o robô recém-montado na frente do participante, enquanto ele ainda montava o seguinte. Nessa variação, a disposição para montar novos robôs diminuía significativamente. O propósito do trabalho havia mudado muito pouco: no experimento original, os pesquisadores informavam que os robôs seriam posteriormente desmontados e entregues a novos participantes. Mas quando a desmontagem ocorria diante dos olhos de seu criador, o impacto deletério sobre sua motivação era nitidamente maior.

Por mais de três anos, o escritor Kevin Roose, autor de Young Money: Inside the Hidden World of Wall Street’s Post-Crash Recruits (“Dinheiro jovem: Dentro do mundo secreto de recrutas de Wall Street após a quebra”, em tradução livre) acompanhou a incipiente carreira de oito jovens funcionários de grandes bancos americanos após o colapso financeiro de 2008.

Roose observa que Wall Street parece ter perdido seu prestígio entre a geração Y. Ao final do livro, dos oito jovens, apenas três deles ainda continuavam no mundo das finanças, e apenas um se mantinha satisfeito com seu trabalho. Na pesquisa de 2011 que cita no livro, as empresas mais desejadas por recém-graduados são aquelas do Vale do Silício, onde, entendem, está se criando algo de valor. O banco mais bem colocado aparecia apenas na 41ª posição do ranking – na listagem de 2014, entretanto, eles voltam a aparecer já na 5ª e 9ª posições.

O resultado não parece advir da falta de recompensa interna – os bônus de Wall Street já retornaram aos níveis pré-crise –, mas da diminuição do reconhecimento social sobre o valor criado por esse segmento da economia. Isso pode ser uma boa notícia para aqueles que defendem um desenvolvimento mais sustentável: a noção de atividades que “destroem” valor mais do que criam pode afastar novos talentos dessas atividades, dificultando sua continuidade, ainda que a longo prazo.
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*Fabio F. Storino é doutor em Administração Pública e Governo
(Página 22)
Fonte:  http://www.mercadoetico.com.br/arquivo/o-sentido-do-trabalho/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=mercado-etico-hoje

Intelectuais judeus franceses e o muro da incompreensão

Leneide Duarte-Plon*

 
Sempre que as tensões da guerra e dos massacres esquentam o Oriente Médio, a França vê subir a temperatura dos debates entre intelectuais judeus franceses, que travam uma verdadeira batalha de ideias por meio dos grandes jornais, de esquerda e de direita.

Observadores do debate político constatam uma progressiva direitização da opinião judaica tanto em Israel quanto na França e no mundo todo. Mas os intelectuais judeus de esquerda não deixam de tomar a pena para defender o direito internacional e acusar seus pares de má-fé e imobilismo em meio a um silêncio ensurdecedor, ou mesmo de compactuar com “crimes de guerra”.

Um grupo de neoconservadores que vieram da esquerda – entre eles os filósofos Alain Finkielkraut, Bernard-Henri Lévy e André Gluksman – costuma se agitar e monopolizar a mídia francesa: são vistos em todos os debates na TV, nas emissoras de rádio e assinam artigos (“tribunes”) nos grandes jornais para defender de forma acrítica as posições oficiais do governo de Israel, por mais indefensáveis que sejam diante do direito internacional.

Violência constante 

Entre os intelectuais judeus que se mantêm críticos do alinhamento automático com Israel, alguns como Stéphane Hessel (que morreu no ano passado), Edgar Morin, Eric Hazan, Rony Brauman e Etienne Balibar, entre muitos outros, costumam tomar a palavra em artigos e entrevistas para defender pontos de vista que levam em conta, acima de tudo, as resoluções da ONU e o direito internacional, tripudiado ano a ano pelas implantações de colonos na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, tornando o projeto de um Estado Palestino – previsto na Resolução 181 – uma miragem cada vez mais distante.

Essa nova agressão de Israel ao gueto palestino de Gaza, que a imprensa internacional teima em chamar de guerra, trouxe novos confrontos, típicos do panorama intelectual francês, que teve no “affaire Dreyfus” um marco.

Um dos textos mais brilhantes foi produzido pelo filósofo Daniel Salvatore Schiffer, que escreveu uma “Carta aberta de um intelectual judeu a seus pares”. Os pares a quem ele se dirigia foram nomeados no título do texto “Lettre ouverte d'un intellectuel juif à ses pairs – Alain Finkielkraut, André Glucksmann, Bernard-Henri Lévy, Elie Wiesel”. Ele explicou que queria denunciar o “silêncio ensurdecedor” de seus pares, quando Israel estava cometendo “em total impunidade, um massacre na Faixa de Gaza, contra milhares de civis inocentes”.

Em seu texto, Schiffer se espanta que os intelectuais a quem se dirige, implacáveis quando se escandalizam diante de injustiças no mundo, como o cerco de Sarajevo pelos sérvios, não denunciem os bombardeios israelenses sobre civis palestinos. Salvatore Schiffer chega a comparar a estreita e superpopulosa Faixa de Gaza “ao gueto de Varsóvia, de sinistra memória”.

O negacionismo tão condenado pelos judeus franceses (quando se trata de negar o holocausto – “la Shoah” no francês atual, a partir do hebraico –, os fornos crematórios e as câmaras de gás nazistas) se repete hoje em relação aos palestinos. Ele aponta como má-fé dos intelectuais judeus a quem se dirige o fato de negarem, como Israel, o direito dos palestinos a um Estado e à existência como povo livre. E isso há mais de 65 anos.

Todas as graves questões relativas à moral e ao direito internacional levantadas por Schiffer interpelando diretamente seus pares não ficaram sem resposta. Entre os nomeados, o mais engajado na linha pró-Israel, o filósofo Alain Fienkelkraut, respondeu no jornal Le Figaro, em entrevista alentada, sem citar o nome do filósofo que o provocara.

A réplica mereceu de Daniel Salvatore Schiffer uma tréplica. No seu novo texto, Schiffer chama a entrevista de “miserável manipulação jornalística misturada a uma incrível covardia, tanto da parte do jornal Le Figaro quando de Finkelkraut”.

Tratado de “traidor”, Schiffer viu que sua compaixão para com os palestinos parece insuportável a quem na sua ira passional chega a compará-lo ao “diabo”.

“Tão grotesca quanto iníqua, essa reflexão de Finkielkraut, que nos últimos tempos flerta perigosamente com as teses nauseabundas do Front National [partido político de extrema-direita]! Tenho dificuldade em imaginar como uma instituição tão prestigiosa como a Academia Francesa pôde acolher essa caricatura de filósofo”, escreveu Schiffer.

“Nada pode justificar essa carnificina. Da parte de Israel que deveria ser um exemplo para a humanidade, ela é inadmissível no plano humano. Esse crime, repreensível no nível moral, se assemelha, mesmo que lhe seja difícil admitir, a um ‘crime de guerra           ou ‘crime contra a humanidade’. Israel não é digno nessa circunstância mortífera, de sua História”.

“Será que os judeus, por meio de não sei que privilégio, teriam o monopólio dos guetos e, da mesma forma, teriam a exclusividade do genocídio sobre a Terra? Teria sido ele ‘eleito’ para o pior?”, pergunta Schiffer.

Os dois primorosos textos de Schiffer merecem uma leitura atenta. O filósofo analisa as violências religiosas que são frequentemente perpetradas em nome de Yahvé ou de Alá para concluir que prefere crer que Deus não existe. E enquanto intelectual judeu laico e agnóstico conclui, como Shelley, pela necessidade do ateísmo.

Política digna

Na edição do Le Monde datada de terça-feira , 5 de agosto, foi a vez do filósofo e sociólogo Edgar Morin e do ex-presidente de Médecins Sans Frontières, Rony Brauman (ambos judeus), assinarem a oito mãos um artigo com o filósofo Régis Debray e com Christiane Hessel, viúva do grande Stéphane Hessel, este também um intelectual de origem judaica que não se cansou de denunciar a ocupação e o massacre dos palestinos. O texto era dirigido ao presidente da República francesa e o título era “François Hollande, o senhor é responsável por uma certa ideia da França que está em jogo em Gaza”.

Em um magnífico texto também dirigido a François Hollande, o maior jornalista francês, Edwy Plenel, criador do jornal online Médiapart, citou Edgar Morin como um dos intelectuais judeus que foram vítimas de “cabalas caluniosas por sua justa crítica à cegueira israelense”. Escreveu Plenel: “Morin, como Stéphane Hessel, encarna essa esquerda que não cede em seus princípios e seus valores, não hesitando em pensar contra ela mesma e contra o seus, evitando a armadilha de se alinhar a uma origem ou pertencimento”.

O artigo dirigido a Hollande e assinado por Morin, Brauman, Debray e Christiane Hessel merece ser lido com a máxima atenção. Justo da primeira à última linha, nele os signatários interpelam o presidente e seu alinhamento imediato à uma invasão de Gaza por Israel, que chocou a todos os que, como o ex-chanceler e ex-primeiro-ministro Dominique de Villepin, agiram por uma diplomacia justa e independente no “país dos direitos humanos”.

“A anexação da Criméia russófona desencadeia indignação e sanções. A anexação da Jerusalém que fala o árabe nos deixaria impávidos? Pode-se condenar Putin e absolver Netanyahu? Dois pesos e duas medidas?”, perguntam Morin, Debray, Brauman e Hessel.

O texto assinado pelos quatro intelectuais continua dizendo que “pode-se lamentar a morte de militares durante uma operação guerreira, mas quando as vítimas são mulheres e crianças sem defesa que não têm mais água para beber, que não são ocupantes mas vítimas da ocupação, que não são invasores mas foram invadidos, não é o caso de se implorar mas de se impor o respeito ao direito internacional”.

Um país como a França não está condenado a ter uma diplomacia digna de George W. Bush nos piores tempos.

François Hollande, que se apressou a apresentar solidariedade a Israel logo depois da invasão de Gaza, deve responder aos intelectuais que o questionaram com uma política externa digna da França, que sempre se orgulhou do epíteto de “país dos direitos humanos”. No mínimo, dando declarações de princípios dignas de uma diplomacia independente.

Talvez seja muito esperar que ele suspenda a cooperação de empresas francesas com Israel em projetos nos territórios ocupados, como o dos bondes (tramway) em Jerusalém Leste.
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*Leneide Duarte-Plon é jornalista, em Paris
Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/intelectuais_judeus_franceses_e_o_muro_da_incompreensao
Imagem da Internet

terça-feira, 5 de agosto de 2014

12 estratégias para ter mais inteligência emocional

 Feliz-e-triste
 Triste ou feliz: pesquisadores perceberam que a maioria de nós 
não sabe interpretar as próprias emoções

A má interpretação e gestão de sentimentos é epidêmica, diz especialista. Conheça algumas técnicas para lidar melhor consigo mesmo e com os outros no trabalho

Não sabe por que ficou tão chateado depois da última conversa com o seu chefe? Ficou perplexo com o mau humor do seu colega durante o almoço? Talvez a sua rotina seja marcada por menos “mistérios” se você desenvolver sua inteligência emocional.

Mas, se você fica confuso com os altos e baixos emocionais do seu ambiente de trabalho, não se preocupe: você não está sozinho.

Segundo João Marcelo Furlan, diretor executivo da Enora Leaders, a deficiência na interpretação e na gestão de sentimentos é epidêmica.

Apenas 36% das pessoas conseguem identificar suas próprias emoções, segundo um estudo feito por Travis Bradberry e Jean Greaves, autores do livro “Emotional Intelligence 2.0” (Inteligência emocional 2.0), da TalentSmart.

Feita com mais de 500 mil pessoas ao longo de uma década, a pesquisa demonstra que essa competência, além de rara, é muito valiosa. O chamado QE, ou quoeficiente emocional, está ligado a 58% do sucesso profissional em qualquer carreira.

A boa notícia, segundo Furlan, é que esse tipo de inteligência pode ser treinado. “É possível trabalhá-la em quatro eixos: autopercepção, percepção social, autogestão e gestão de relacionamentos”, afirma.

Com a ajuda de Furlan, EXAME.com listou algumas estratégias para se desenvolver em cada um desses âmbitos:

Autopercepção
1. Identifique os “gatilhos” das suas emoções. Se você tem alguma reação a um evento, pare e procure descobrir por que você está se sentindo tão nervoso ou tão aliviado, por exemplo.

2. Visite os seus valores. Saber o que é importante para você contribui para o seu autoconhecimento e ajuda a prever as suas próprias reações.

3. Procure feedback dos outros. Saber o que as pessoas pensam das suas atitudes - e estar aberto a essas opiniões - ajuda a conhecer melhor o seu próprio modo de ser.

Autogestão

4. Conte até dez. Para “esfriar o sistema” e elevar o nível das suas respostas, a dica é esperar um tempo antes de agir. Atrasar a sua reação emocional pode evitar desgastes desnecessários causados por uma “explosão”.

5. "Durma sobre o problema". Deixar uma decisão difícil para o dia seguinte, após uma noite de sono restauradora, pode arejar as ideias e garantir um comportamento mais tranquilo.

6. Saiba que as mudanças estão “na esquina”. A consciência de que os vínculos e os conflitos são passageiros aumenta a sua resiliência. Você aguenta melhor o impacto dos problemas se sabe que eles vão ter fim.

Percepção social

7. Chame as pessoas pelo nome. O hábito desarma e faz o outro “baixar a guarda”.  Com esse vínculo criado, você terá um acesso mais fácil às emoções alheias.

8. Limpe a mente de distrações ao interagir socialmente. Esqueça o resto das suas preocupações e fixe a sua atenção na outra pessoa. Isso porque é impossível perceber as emoções do outro se você não é capaz de ouvi-lo.

9. Observe as pessoas. Quando você não estiver participando de uma cena, assista a ela. Estudar o modo como os outros falam, riem e interagem pode dar dicas valiosíssimas sobre como se relacionar com eles.

Gestão de relacionamentos

10. Seja curioso a respeito dos outros. Se você demonstra interesse em conhecer uma pessoa, cresce exponencialmente a sua capacidade de influenciá-la no ambiente de trabalho.

11. Explique as suas decisões, não apenas tome-as. Comunicar frequentemente os motivos das suas atitudes contribui para que os outros compreendam você e se tornem seus aliados.

12. Use expressões para a correção de conflitos. Pedir desculpas nunca é demais. Outra dica é trazer para si o motivo da briga no discurso. É melhor dizer uma frase como “eu fiz algo que afetou você” do que “você fez algo que me afetou”. Se o outro entende que você não o culpa pelo problema, aumentam as chances de reconciliação.
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Reportagem por, de