domingo, 29 de março de 2009

"Seja utópico: exiga o que é realista".

Robert Pollin*


O capitalismo neoliberal – cujas características definidoras foram a ganância de Wall Street e a dominação dos grandes negócios sobre as políticas dos governos – está morto. Mas o que vem a seguir?

Solidariedade, igualdade e liberdade têm sido sempre princípios fundamentais que animam a esquerda. É desde esses princípios que a esquerda construiu suas diversas perspectivas de uma verdadeira, democrática, igualitária ordem social – i.e., o único tipo de sociedade que merece ser chamada de “socialista”. Dado o colapso do neoliberalismo, a esquerda não deveria agora avançar em vista de um socialismo com carga total?

Apesar de o socialismo ser desejável como uma visão de longo prazo de uma sociedade justa, é irrealista na minha opinião que ele venha a tomar forma hoje. O problema é que, neste estágio da história, nós não sabemos com o quê uma economia socialista pareceria, nem sabemos como nos mover da atual desintegração do neoliberalismo para algo aproximadamente socialista. O socialismo deveria ser visto como uma série de desafios e questões, à medida que pressionamos por uma agenda social para além da crise dos dias que correm. Esse tipo de coisa não deveria ser visto como um pacote óbvio de respostas prontas.

Isso se torna claro ao considerarmos o colapso do sistema financeiro. No curto prazo não há mais alternativas viáveis para que o governo assuma o controle dos bancos em falência. Mas a nacionalização dos bancos, por si só, nem é uma panacéia nem um avanço em direção ao socialismo. O fato de que o ex-presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan agora apóia a nacionalização deveria ao menos refrear esse tipo de entusiasmo da esquerda. No longo prazo, um sistema financeiro nacionalizado apresenta problemas desencorajadores.

Realisticamente, um sistema como esse vai inevitavelmente fracassar e escândalos ligados ao “capitalismo amigo” - acordos privilegiados com negociantes não-financeiros. Além disso, empresas financeiras individuais, assim como todas as entidades de negócios, exigem micro-gerenciamento. O governo teria de criar um sistema de incentivos para os diretores dos bancos publicamente apropriados que iriam substituir pelo muito francamente vantajoso motivo que orienta os gerentes dos bancos privados. Se os gerentes dos bancos nacionalizados não estiverem comprometidos com a maximização dos lucros como sua performance deveria ser avaliada?
Resolver uma questão como essa exigiria anos de experimentação e ajustes finos. Nesse período, os pagadores de impostos iriam arcar com falências inevitáveis. Isso, por sua vez, poderia ser precisamente a coisa – talvez a única – que mudaria o alvo do ultraje público com o colapso do sistema financeiro de Wall Street para o interior das estruturas de governo.
Nessa conjuntura histórica é portanto preferível lutar por um novo marco regulatório do regime financeiro, com os bens dos principais bancos privados tomados como meios de promoção da estabilidade financeira e da canalização do crédito para áreas prioritárias, como as da moradia de baixo custo e economia e da economia verde.
Erguer a economia verde levanta preocupações similares. Precisamos parar com o consumo de combustíveis fósseis e interromper o aquecimento global nos próximos vinte a a trinta anos. Esse é um projeto sólido, e não será realizado se contar inteiramente com o setor público ou com o setor de organizações não-lucrativas da comunidade, ainda que valha a pena fazer assim. Antes, suas forças propulsoras principais serão os grandes incentivos governamentais aos negócios privados para lucrarem com investimentos em energia limpa, e para os mesmos interesses privados enfrentarem custos significativos ao produzir e vender combustíveis fósseis. O programa de estímulos de Obama é um grande passo inicial na direção correta, ao misturar investimentos públicos de larga escala – na casa dos 80 bilhões de dólares ao longo de dois anos – com incentivos ainda maiores a empresas privadas.
Um dos slogans mais estimulantes que emergiram do levante de 1968 na França foi “Seja Realista, Exija o Impossível”. Eu estou mais inclinado a adotar essa imagem no espelho como um guia para se movimentar em direção ao presente. Quer dizer, “Seja Utópico, Exija o que é Realista”.
*Robert Pollin, professor de Política Econômica na Universidade de Massachussetts-Amrest, publicado na revista The Nation e traduzida pela Carta Maior, 28-03-2009.

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