domingo, 17 de abril de 2011

Bullying

Rubem Alves*
Imagem da Internet
Passado o horror sem palavras seguem-se as interrogações sem respostas. Que monstruosidades moravam na alma daquele jovem que o levaram a fazer o que fez? Como é que elas foram para lá? Será que ele foi possuído por demônios?
Não é um caso isolado. São Muitos. O que cria a suspeita de que existem condições comuns para o seu aparecimento. Sinto-me inclinado a pensar que essa condição é aquilo a que se dá o nome de "bullying". Em inglês o "bully" é o valentão, tem prazer em bater nos mais fracos. Por vezes o "bullying" não se expressa por meio de murros e tapas. Basta a chacota, a zombaria e o isolamento. A vítima, ao se preparar para ir à escola, sabe o que a aguarda. Gostaria de fugir mas não pode. Informar os professores só pode agravar a sua situação. Misturado ao medo cresce o ódio, o desejo de vingança e as fantasias de destruir os agressores que, um dia, poderão se transformar em realidade.
Cléo Fante escreveu um livro perturbador sobre isso: O Fenômeno "Bullying" (Verus Editora) do qual vou retirar alguns casos dramáticos.
Edimar era um jovem tímido de 18 anos que vivia na pacata cidade de Taiúva, no Estado de São Paulo. Os seus colegas fizeram-no motivo de chacota porque ele era muito gordo. Puseram-lhe os apelidos de "gordo", "mongolóide", "elefante-cor-de-rosa"... No dia 27 de janeiro de 2003 ele entrou na escola armado e atirou contra seis alunos, uma professora e o zelador, matando-se a seguir. Foi o caminho que encontrou para vingar-se e escapar das humilhações que não tinham fim.
"Misturado ao medo cresce o ódio,
o desejo de vingança e
as fantasias de destruir os agressores que,
um dia, poderão se transformar
em realidade."
Denilton era um adolescente de 17 anos, tímido e introvertido. Na cidade de Remanso, na Bahia, foi submetido por anos a fio a humilhação e chacotas por parte dos colegas. Até que chegou o momento de não aguentar mais. Resolveu se vingar. Com esse objetivo foi à escola, que estava fechada. Dirigiu0se então à casa do seu agressor principal. Lá chegando chamou-o pelo nome e o matou na porta da casa com um tiro na cabeça. Dirigiu-se então à escola de informática onde estava matriculado, em busca daqueles que lhe haviam roubado a alegria de viver. Atirou em funcionários e alunos, atingindo fatalmente na cabeça uma secretária. Quando tentava recarregar a arma foi imobilizado e detido.
Em Patagones, na Argentina, Rafael, um jovem de 15 anos, tímido e com dificuldade de relacionamento e considerado esquisito pelos colegas, foi apelidado de "bobão". Após a execução do Hino Nacional, o garoto dirigiu-se para a sala de aula dizendo: "Hoje vai ser um lindo dia". De repente, começou a atirar matando três meninas, um menino e ferindo mais cinco. Finalmente ajoelhou-se em estado de choque e entregou-se à polícia.
Luis Antônio, um garoto de 11 anos, sempre gostou de estudar. Ao se mudar de Natal para Recife, entretanto, começou a apresentar um comportamento estranho: não mais queria ir à escola. Seu sotaque diferente passou a ser motivo de caçoada e da violência de colegas que "não iam com a sua cara".
Na manhã do dia fatídico, antes do início das aulas, apanhou de alguns meninos que o ameaçaram com a "hora da saída". Aterrorizado, por volta das dez e meia saiu correndo da escola e nunca mais foi visto. Um corpo com características semelhante ao dele, em estado de putrefação, foi conduzido ao IML, para perícia.
Não tenho explicações a dar...
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* Teólgo.Educador. Escritor
Fonte: Correio Popular online, 17/04/2011

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