sábado, 23 de julho de 2011

O gênio da vez

Juremir Machado da Silva*



Crédito: ARTE PEDRO LOBO SCALETSKY

Toda vez que um professor de Filosofia brasileiro acaba nas páginas amarelas da revista Veja, sendo chamado de filósofo, de intelectual ou de pensador, eu já sei que prato será servido: goroboba reacionária requentada. Eu nem deveria falar disso, pois vou levar ao conhecimento dos meus leitores alguns nomes sem a menor importância. O gênio da vez chama-se Luis Felipe Pondé. É um Olavo de Carvalho (Lembram-se daquele rocinante que encantou a mídia conservadora por algum tempo?) com molho de falso roquefort e cheiro de mocotó. O "pensador" apresenta-se como um original crítico do esquerdismo ultrapassado. Inventou uma imagem altamente criativa para desancar os seus adversários: os jantares inteligentes. Nesses encontros, esquerdistas burgueses bebem vinho chileno e vomitam, segundo ele, lugares-comuns da moda: defesa da ecologia e dos excluídos, novos sujeitos da história.
O fast-food de Pondé é puro clichê, a velha retórica macartista (um anticomunismo rasteiro transformado em caça às bruxas ou em discurso afetado) que inundou os Estados Unidos nos anos 1950 e foi difundida no Brasil por Carlos Lacerda, pela UDN e pelos militares que deram o golpe de 1964. Pondé segue a linha que levou o gaúcho Denis Rosenfield a figurar nas mesmas páginas amarelas da Veja: ironizar o "politicamente correto" como delírio de classes médias contraditórias ou desejo de culpar os outros, a sociedade, por males de responsabilidade individual. Pondé é mais um Gustavo Ioschpe, mais um Reinaldo Azevedo, mais um desses ideólogos que encontraram um nicho para existir legitimando asneiras com novas asneiras embaladas como pratos sofisticados. É só provar para se perceber que é PF ou bufê a quilo.
Alguém me disse que já fui desse time. É algo que me espanta. Fui e sou um crítico do marxismo-leninismo, do trotskismo e do stalinismo. Não sou um crítico do anarquismo nem da social-democracia. Muito menos das novas sensibilidades de esquerda. Posso atacar duramente a corrupção nos últimos governos, mas sei que o Brasil melhorou muito nos dois mandatos de Lula e que o argumento da corrupção sempre é usado contra governos de esquerda quando a direita vê seus privilégios ameaçados. Admiro profundamente o texto irônico de Diogo Mainardi. Não interpretamos o mundo da mesma maneira. Pondé, o gênio da vez, não é, obviamente, um Diogo Mainardi. Não domina a técnica da ironia que pode transformar conservadores em bons humoristas. Todo esse pessoal quer reviver o reacionarismo de Nelson Rodrigues ou de Paulo Francis. Falta-lhes talento literário para a operação.
Mesmo assim, claro, o sucesso é garantido. O conservadorismo encontra generosos espaços de mídia. Leandro Narloch, outro gênio da vez, vendeu muito livro sustentando, por exemplo, que os brancos europeus pouco têm a ver com a desgraça dos nossos índios. Ser de esquerda, hoje, significa, entre outras coisas, não comer gato por lebre. Luis Felipe Pondé é mais um desses professores cujas ideias amarelaram prematuramente. O mingau que ele serve é para ser comido em pé. Numa imagem no seu estilo, entra por um ouvido e sai logo pelo outro.
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* Sociólogo. Escritor. Cronista do Correio do Povojuremir@correiodopovo.com.br
Fonte: Correio do Povo on line, 24/07/2011

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