quarta-feira, 8 de julho de 2015

SEM PALAVRAS

 Martha Medeiros*
 
Acabo de ser apresentada ao trabalho de John Koenig, um web designer americano que lançou uma série na internet chamada Dicionário das Dores Obscuras (Dictionary of Obscure Sorrows). A intenção é nomear emoções ainda indefinidas. Qual é o nome para aquele desejo de desaparecer que nos acomete no meio de uma quinta-feira qualquer? Como se chama aquele frisson ao fazermos um ligeiro contato visual com algum desconhecido? Que palavra resumiria o desconforto de perceber que estamos apenas repetindo a história já vivida por tantos? E a angústia de que o tempo está passando cada vez mais rápido? A cada semana, Koenig posta belos vídeos de cerca de três minutos apresentando uma palavra inventada para conceituar tudo isso. O texto é inteligente, melancólico e comove. Como diz uma amiga minha: como é que ninguém pensou nisso antes?

O projeto é original (vale a pena dar uma olhada, está no YouTube), mas fiquei pensando: a gente precisa mesmo nomear o inominável? Me vieram à cabeça dezenas de situações que experimento e que nunca foram batizadas. Por exemplo, algo bom me deixar inexplicavelmente triste. Lembrar cenas de um passado remoto que não sei se aconteceram mesmo ou se inventei. Abrir meu coração e, ainda assim, parecer que estou mentindo. Ter a súbita consciência de que não faz sentido me preocupar com o que quer que seja. Não conseguir desviar os olhos do fogo. Estar numa festa e sentir como se estivesse vendo tudo aquilo de fora, como se eu não estivesse ali de verdade. Imaginar coisas terríveis acontecendo com quem mais amo, logo com eles.

Ao entrar nesse assunto, é inevitável lembrar a palavra saudade, que não existe no vocabulário de quem fala inglês. Anglo-saxões costumam sentir falta (I miss you), mas não possuem um substantivo que defina essa sensação de ausência dolorida. Nós possuímos e a usamos sem parcimônia. Nas redes sociais, declaramos sentir saudade de amigos, inimigos, de tudo e de todos, da última festa, do último beijo, do último churrasco, saudade de ontem e também dos velhos tempos, saudade dos outros, de nós mesmos, saudade de quem se foi para sempre e de quem viajou semana passada, saudade de sabores, de músicas, de turmas, de épocas. É tanta saudade assim? Ou o fato de termos uma palavra à mão é que invoca tamanha nostalgia?

Como escreveu Adélia Prado: a coisa mais fina do mundo é o sentimento. Ele não se presta a banalizações. Portanto, esses inúmeros insights que me ocorrem e que ocorrem também a você, sem que haja nenhuma palavra que os especifique e conceitue, talvez sejam os últimos meios de conceder algum lirismo à nossa existência. A poesia é o verdadeiro dicionário das dores obscuras.
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* Escritora. Jornalista.
Fonte: ZH online, 08/07/2015
Imagem da Internet

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