quinta-feira, 4 de abril de 2019

Freud, Paulo Guedes e a liberdade

Juremir Machado da Silva*

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Ministro quer internar contrários à reforma da Previdência


Como todo grande pensador, Freud pode servir a muitas causas. Se Nietzsche foi a contradição em pessoa, Freud encarnou uma coerência excessiva. Para quem se agarra à palavra liberdade como a um mastro cultural ou um farol, Freud pode ser uma ducha desagradável. Em “O Mal-estar na civilização”, ele sacou uma bela e contundente fórmula: “A liberdade do indivíduo não constitui um dom da civilização”. Liberdade total equivale à ausência de civilização. O ministro Paulo Guedes sente-se totalmente livre para tentar aprisionar os aposentados na dificuldade. Afirmou na Câmara dos Deputados que seria o caso de internar quem é contra a reforma da Previdência. Não seria mais adequado internar quem é a favor de aposentadoria por capitalização, algo que não existe um qualquer país desenvolvido com respeito pela dignidade das pessoas na velhice?

A norma é civilizatória. O Estado, como guardião da regra e consagração da sociedade organizada por meio dos seus representantes eleitos regularmente, é superação da barbárie no seu nível mais elevado. Freud foi claro. Escrevia com relativa eficiência. Segundo ele, a liberdade “foi maior antes da existência de qualquer civilização, muito embora, é verdade, naquele então não possuísse, na maior parte, valor, já que dificilmente o indivíduo se achava em posição de defendê-la”. Tudo pode se inverter. O Estado pode se tornar bárbaro e opressor. Sem ele, porém, a barbárie é certa.

Civilização, mostrou Freud, implica redução da liberdade: “O desenvolvimento da civilização impõe restrições a ela, e a justiça exige que ninguém fuja a essas restrições. O que se faz sentir numa comunidade humana como desejo de liberdade pode ser sua revolta contra alguma injustiça existente, e desse modo esse desejo pode mostrar-se favorável a um maior desenvolvimento da civilização; pode permanecer compatível com a civilização”. Vivemos às voltas com a luta entre liberdade e igualdade e civilização e liberdade. A liberdade de se defender de armas na mão é uma confissão de fracasso da civilização. Resta definir os critérios de qualquer restrição.

 Voltou-se a vender uma ilusão sem futuro: uma civilização sem Estado. Ou com um Estado reduzido paradoxalmente a repressor de comportamentos que nem sempre causam danos a terceiros. Nem todo comportamento é admissível. Cada sociedade se dota de tabus que demarcam a linha maior entre o válido e o inválido. O tabu é uma forma emblemática de enfatizar o limite. Em 1997, depois de um massacre numa escola no começo de 1996, o Reino Unido endureceu as regras de acesso a armas. A restrição foi ampliada recentemente. Resultado: um dos mais baixos índices mundiais de assassinato por arma de fogo. A equação simples e tem a elegância de uma fórmula de Einstein: reduzir a desigualdade ao aceitável e proibir armas.

A Nova Zelândia revisou a sua legislação leniente com armas depois do recente massacre em duas mesquitas. O Brasil ainda quer fazer o caminho inverso. Pensa salvar alunos armando professores. É uma ideia estúpida saída da mente do incontrolável Donald Trump e repudiada até no belicoso país das armas livres. Freud explica? Talvez: “É impossível fugir à impressão de que as pessoas comumente empregam falsos padrões de avaliação – isto é, de que buscam poder, sucesso e riqueza para elas mesmas e os admiram nos outros, subestimando tudo aquilo que verdadeiramente tem valor na vida”. Paulo Guedes apresenta-se como o moderno civilizador que introduz a barbárie pela porta da frente. Ao opor previdência, como passado, a educação, como futuro, promove a chantagem e os adjetivos à condição de argumentos. Como se a aposentadoria fosse um roubo.

Por que Guedes virou articulador político do governo? Porque os políticos não querem abraçar a mais inglória das causas: destruir a aposentadoria dos seus eleitores.

Um deputado lacrou ao perguntar a Paulo Guedes: "Se a capitalização é tão boa, por que os militares ficarão fora dela?"

Só Freud explica Paulo Guedes. Deve ser quando fala de perversidade.
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* Escritor. Jornalista. Prof. Universitário.
Fonte: https://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/freud-paulo-guedes-e-a-liberdade-1.330768 04/04/2019
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