segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Ética do conflito

J. B. Libanio *
Já na etimologia a palavra conflito encerra choque, relação antagônica entre vários atores. Nele um, pelo menos, tende a dominar o campo social de suas relações. Surgem uma ou mais forças que não se harmonizam nem se integram. Batem-se por causa da diversidade de interesses.

Ele se enraíza no próprio ser humano. Ser-fantasia, ser criador, simbólico, com aspiração transcendente, ao criar um meio ambiente para viver, que sempre fica aquém de seus desejos, sente-se insatisfeito, incompleto e luta contra os outros para repletar a lacuna impreenchível dos sonhos. Conflita contra céus e terra.

Mais fundo, lá nos redutos escuros do inconsciente, o sujeito debate-se com pulsões e aspirações, ego e superego, ações pensadas e julgadas orientadas numa direção, mas subrepticiamente impelidas por outras forças motoras. O conflito jaz na estrutura mesma do ser humano, na complexidade de um eu, in-transparente e inacessível totalmente a ele mesmo.

Somem-se, no campo social, as aspirações, os projetos, as utopias, os movimentos libertadores, os surtos carismáticos que não coincidem entre os grupos sociais. Então, lutam entre si. Todo grupo humano vive situações limitadas, reais, históricas, impostas e ao romper com elas, enfrenta opositores. Em todos os campos humanos não faltam contestações, lutas entre as pessoas, classes, grupos, nações. Experimenta-se antagonismo entre forças de ordem moral com tendência a desvencilharem-se, afastarem-se mutuamente. Enfim, os indivíduos, os grupos menores e maiores, as nações, os blocos de nações, os seres humanos na totalidade ressudam interesses, paixões, buscas, pretensões. Fonte inexorável de conflito.

E agora, José? Chamar a ética para ajudá-los a viverem humanamente os conflitos e não se destruirem. Paulo, ao escrever aos Gálatas, devia ter percebido o conflito que atravessava a comunidade. Estabelece o princípio ético básico: "Amará a teu próximo como a ti mesmo". E ironicamente depois acrescenta. "Mas, se vos mordeis e vos devorais uns aos outros, cuidado para não serdes consumidos uns pelos outros" (Gl 5, 14-15).

O princípio ético fundamental, que rege o conflito, chama-se convivência. "Faze tudo para que convivas bem, evita tudo o que te impede conviver"! Começando do nível individual, os próprios conflitos visam a que trabalhemos o temperamento, o caráter, os desejos, os sonhos, as pulsões a fim de encontrar neles força, motivação e energia para conviver com as outras pessoas. Se daí vem a luz, a vida humana se ilumina em vez de perder-se na noite do ódio, da vingança, da mútua destruição. E a convivência se alimenta do cuidado. E este tanto mais se requer quanto mais frágil e carente se mostra o outro.

Se alargamos tal princípio para os grupos e nações entre si, o interesse próprio e nacional não se antepõe, antes serve, ao bem do conjunto e especialmente dos grupos e nações mais necessitados. Ética ou utopia? Devia ser ética.
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* Padre jesuíta, escritor e teólogo. Ensina na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), em Belo Horizonte, e é vice-pároco em Vespasiano
[www.jblibanio.com.br
Confira também de JB Libanio: Jovens em tempo de pós-modernidade. Considerações socioculturais e pastorais, São Paulo, Loyola, 2004].
Fonte: Adital 23/08/2010

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