quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O ser humano

Juvenal Arduini*
Criança e Geopolítica Observando o Nascimento do Homem Novo por Salvador Dali
Paradoxo

O ser humano é ambivalente. Conhecido e estranho, próximo e distante, transparente e opaco. O ser humano canta e protesta, dança e agride, congrega e dispersa. O ser humano é diáfano e indevassável, lúcido e nebuloso, acessível e inabordável. Circula pelas ruas, mas também recolhe-se na intimidade. O ser humano expande-se festivamente e tranca-se amargamente. É lógico e ilógico.

O ser humano é linguagem pluriforme. Fala e silencia, grita e emudece, gargalha e enclausura-se. O ser humano é palavra ofertada e palavra recusada. E recusar a palavra aos outros é rejeitá-los. O ser humano é fonte exuberante de comunicação, e também núcleo rígido de incomunicação. Comunicabilidade e incomunicabilidade são duas faces do existir humano. O ser humano é diálogo fecundo e monólogo estéril.

O ser humano é torrente de amor. Amar é expressão de vida, êxtase, paixão, impulso vital. É Eros. Mas o ser humano pode também gotejar ódio feroz. O ódio é filho de Tânatos. O ser humano é mistura de Eros e Tânatos. Quando o amor se perverte, converte-se em ódio implacável. Seres que se amavam apaixonadamente passam a odiar-se rancorosamente. E o “amante” chega a assassinar o “ amado”.

O ser humano é fértil em criações. Cria vida, saúde, pão, paz, ciência, tecnologia. Mas o ser humano é também niilista. Incinera o mundo. Basta ver a guerra. O ser humano constrói maravilhas, mas também pode arrasá-las. Planta a semente e desintegra a germinação.

Pai luta para ter filho; e pai estupra a carne de sua carne. Mãe sangra para sustentar o filho; e mãe abandona ou estrangula o recém-nascido.

O ser humano sente necessidade de convivência e solidariedade. Mas é também anti-social. A discriminação, o fanatismo e o sectarismo esfiapam o tecido da sociabilidade. O ser humano fascina. As pessoas seduzem pelo amor e pela beleza, pela inteligência e pela bondade. Mas também as pessoas intimidam e ameaçam com violências e assassinatos. O ser humano cativa com afeição e algema com servidão.

O ser humano é águia altiva que recorta horizontes vastos. E é também verme que rasteja. O ser humano empolga pelos avanços científicos e históricos, e frustra pela vulgaridade e pelo aviltamento. A fronte do ser humano roça a face de Deus, mas seus passos escorregam na lama. O ser humano dignifica-se pela fidelidade e abastarda-se pela traição.

O ser humano é paradoxo antropológico. Muitos exaltam a grandeza do ser humano. Outros muitos lhe estigmatizam a vileza. O ser humano não se define por conceito matemático. É seqüência de contrastes. É campo de “joio e trigo”. É ser em devenir. Pode acertar e pode errar. Pode fazer-se e desfazer-se. Mas abriga potencial para re-fazer-se. O ser humano é capaz de eliminar o ódio, a perversidade, a destruição. E pode propulsar energias criadoras inteligentes que amadureçam a consciência, redirecionem a liberdade, cultivem o amor, promovam a justiça, efetivem a solidariedade e assumam a responsabilidade.

O ser humano é oscilante. É paradoxo. Avança e recua, atrai e expulsa, ergue-se e recai, edifica e pulveriza, arrisca-se e amoita-se. O ser humano não é apenas herança. É decisão. É gênese existencial. É conquista de todos os dias. Lidar com o ser humano é lidar com o paradoxo.


Metamorfose de Narciso por Salvador Dali

Superação dialética


Pode-se dizer que filosofia é hermenêutica do significado. Interpreta a realidade para compreender-lhe o sentido. A filosofia busca o significado “arqueológico” do ser humano, como quer Michel Foucault. Muitos usam o ser humano em vez de compreendê-lo.

Para compreender o ser humano é preciso vê-lo como processo, como fenômeno em andamento. A visão fixista estratifica o ser humano e mumifica-lhe o real significado. O ser humano pulsa, está em mutação. É cachoeira de decisões. Jamais concluído. Todorov diz lucidamente: “O homem é ser incompletamente determinado, potencialmente bom e potencialmente mau. Tudo é possível. Nada é certo”. O ser humano pode avançar ou recuar, endireitar-se ou entortar-se, afirmar-se ou negar-se. Abriga potencial para construir e para arruinar.

O ser humano é mistura de bem e de mal, de solidariedade e de egoísmo, de afirmação e de negação. É Eros e Tânatos, é vida e cinza, é amor e ódio, é justiça e injustiça, é inocência e malícia. O ser humano morre para defender causa justa e mata para salvaguardar interesses injustos. Não é estereotipado. É oscilação. Dança entre ser e não-ser, escorrega entre assumir e fugir.

Há que manter a perspectiva da mistura, e não do dualismo. Costuma-se separar a humanidade entre bons e maus, entre ilibados e culpados. É a falsa dicotomia dos “dois lados”. Do lado de cá, estão os bons e os puros. Do lado de lá, estão os maus e os sujos. Esse dualismo é ingênuo e discriminatório. Os bons olham os maus com superioridade, e os maus olham os bons com náusea. Rigorosamente, não há banda de puros e banda de impuros. Cada ser humano é mistura de bem e de mal, de trigo e de joio, embora a dosagem do bem e do mal possa variar de pessoa para pessoa. Aqui vigora a dialética, e não o dualismo.

O ser humano é protótipo de dialética. Vive a contradição entre o bem e o mal no cerne de sua existência. O confronto dialético não existe apenas entre o bando dos perfeitos e o bando dos malvados. Trava-se sobretudo entre o crescer e o fenecer dentro da pessoa. Há lutas entre grupos e sistemas, mas aqui salientamos o conflito dilacerante entre a força construtiva e a força destrutiva na medula do existir pessoal. No ser humano há potencial ontogenético que gera o ser, e há potencial niiligenético que espalha a devastação do nada. Luta entre ser e não-ser.

Por não estar totalmente determinado, o homem é essencialmente mutável. É Metá-noia, termo grego que significa “mudança” no pensar, no sentir, no agir, no conviver. Metá-noia tem profundo sentido filosófico, psicológico, ético e teológico. É expressão que convida o ser humano a transformar-se para converter o mal em bem, o servilismo em libertação, o ódio em amor, a degeneração em regeneração. Se o ser humano cultivar, dentro de si, a ruína que esfarela a vida, o joio que envenena o trigo, o nada que incinera o crescer, estará precipitando sua própria demolição.

O ser humano desafia a si mesmo. É potencial grandioso em luta com potencial trágico. É dialética antropológica explosiva. Sartre dizia que o homem “está condenado a ser livre”. Acrescentaríamos que o ser humano está condenado a superar-se. A extrair afirmação de sua negatividade, a extrair emancipação de sua dependência, a extrair audácia de sua timidez, a extrair clamor de seu silêncio, a extrair criatividade de sua inércia, a extrair ser de seu nada, a extrair vida de sua agonia. O ser humano responde aos desafios, com a superação dialética.

Galatéa de las Esferas, Salvador Dali, 1952
Projeto existencial

O ser humano é a realidade fundamental em nosso cosmo. É universo ontológico. E deve ser visto e tratado como prioridade. Defender o legítimo antropocentrismo não é praticar antropolatria. Alguns colocam a prioridade no mercado, no poder, na especulação financeira, no lucro. Mas isso hipervaloriza elementos de ordem instrumental e deprecia o significado maior que é o ser humano. Cada ser humano é nexo de consciência, de decisão, de criatividade e responsabilidade. Mesmo esmagado, o ser humano é gente, e não mercadoria.

O ser humano é projeto antropológico. Nasce iniciado, mas não concluído. Desenvolve-se gradativamente. Estrutura-se por escolhas livres e por ações pessoais. Em grande parte, o ser humano faz-se por si mesmo. Há de perguntar-se quem é e quem deseja ser, pois não basta existir. É preciso conferir sentido ao existir. Enquanto projeto, o ser humano é chamado a superar ambigüidades, a escolher rumo construtivo, a definir a identidade pessoal, a autoprogramar-se e a optar pelas causas humanas substanciais.

Na tarefa de autocriar-se, o ser humano não pode ser substituído por outros. Elabora-se a si mesmo. Contudo, pode e deve ser ajudado por agentes e fatores sociais. Mas continua a ser o artífice principal na efetivação de seu projeto existencial.

Há setores que procuram interferir no projeto existencial e social das pessoas. Tentam substituir o projeto pessoal pelo projeto do sistema vigorante. Temem que o ser humano adote posição autônoma, e contrarie os interesses do modelo dominante. Sabem que o ser humano, por frágil que seja, é “perigoso”. O projeto de vida independente ameaça a padronização. Com argúcia, François Wahl escreve: “Todo sujeito subverte aquilo que o precede, faz ruptura e salto”. Por isso, os donos do mundo apressam-se a impedir que surjam projetos antropológicos subversivos.

Para sufocar o projeto original autônomo, adotam-se pedagogias massificantes. Procura-se adaptar as pessoas às normas existentes e levá-las a reproduzir-se como cópias da situação predominante. Enquadra-se o rebanho humano no código uniformista. Impõe-se à população o paradigma oficial. E quem diverge do “consenso” é condenado como herege. Assim, o mundo continua a ser o mesmo, dominado pelos mesmos, usado pelos mesmos, usurpado pelos mesmos.

É hora de provocar a emersão do ser humano autônomo. É hora de suscitar a consciência critica, que não se deixa enganar. É hora de fermentar a reflexão emancipatória que se mantém insubmissa. É hora de amadurecer um projeto original que levante gerações de seres humanos independentes e responsáveis. É hora de encorajar o ser humano a concretizar seu projeto de vida comprometido com a justiça, com a solidariedade, com a igualdade social e com a dignidade humana. E comprometido com a erradicação da injustiça, da violência, da miséria e da exclusão humana.

Há soluções políticas, econômicas, científicas e tecnológicas. Mas a solução fontal é o ser humano. Para isso é preciso que o ser humano queira ser solução. Queira ser gente.
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*Juvenal Arduini um sacerdote, com o título de Monsenhor, filósofo e antropólogo brasileiro, natural de Conquista, Minas Gerais, mas atualmente reside em Uberaba, Minas Gerais. Como membro da International Society for Metaphysics e do World Phenomenology Institute, e da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, escreveu vários livros dos quais destacam-se "Horizonte de Esperança", "Destinação Antropológica", "O Marxismo" e "Antropologia: Ousar para Reinventar o Ser Humano
Fonte: Trechos do livro “ Antropologia: ousar para reinventar a humanidade” de Juvenal ARDUINI. Editora Paulus, São Paulo, 2004

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