segunda-feira, 6 de setembro de 2010

GILLES LIPOVETSKY - Entrevista

"A PÓS-MODERNIDADE NÃO EXISTE"

 

Por Marcelo Galli

Para o francês, um dos principais nomes da Filosofia contemporânea,
vivemos uma modernidade potencializada;
nas palavras dele, a “hipermodernidade”.

A pós-modernidade nunca existiu, ao menos terminologicamente. Essa é a opinião do filósofo francês Gilles Lipovetsky. Segundo ele, o que é convencionalmente chamado de pós-moderno, na verdade, pode ser mais corretamente classificado de hipermodernidade, ou seja, a afirmação e prevalência de maneira incontestável e praticamente universal dos valores modernos (democracia, liberdade individual, livre mercado, etc.). “É impossível pensar o que seria pós-moderno. Pode-se imaginar um sistema futuro que poderá conciliar os imperativos da Economia com os da Ecologia, por exemplo, mas isso não seria pós-moderno, mas sim outra face da modernidade”, explica.
Nesta entrevista exclusiva por telefone para a Filosofia Ciência & Vida, Lipovetsky falou sobre muitos temas, à maneira dos seus diversos estudos, nos quais a moda, o consumo, a revolução feminina, a Ética e o individuo, entre outros, são observados e elucidados, expondo a sua dinâmica na contemporaneidade. “Acredito que a Filosofia esteja aí não para dar lições, mas sim inteligência para a compreensão do mundo e esclarecer como vivemos”, afirma.
Membro do Conselho de Análise Social, órgão de apoio ao primeiro-ministro da França, termômetro para questões delicadas como a proibição do véu islâmico e outros sinais ostensivos religiosos nas escolas, Lipovetsky escreveu os livros O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas (Cia de Letras), A Sociedade da Decepção, A Era do Vazio e A sociedade pós-moralista, este último publicado no Brasil pela editora Manole.

FILOSOFIA – Você diz que não é correto falarmos que vivemos a pós-modernidade e empregou o conceito de “hipermodernidade”. Mas o que seria, uma sociedade pós-moderna? Qual seria a sua dinâmica?
GILLES LIPOVETSKY. Acredito que temos sociedades cada vez mais hipermodernas. A modernidade já passou em algum sentido, porque o seu princípio organizacional, a tecnociência, o mercado e a democracia são cada vez mais constituições do nosso mundo. Por isso que não é possível falar atualmente de sociedade pós-moderna, não consigo imaginá-la. Pode-se pensar em um sistema futuro que poderá conciliar os imperativos da Economia com os da Ecologia, por exemplo, mas isso não seria pós-moderno, mas sim outra face da modernidade.

FILOSOFIA. Em sua opinião, o que atualmente a Filosofia tem deixado de abordar, refletir, criticar?
GL. A Filosofia hoje não tem mais necessidade de antigamente ou não somente de maître à penser, da via ativa que defende as grandes questões morais, políticas, sociais, ou que defende os povos colonizados ou luta contra o imperialismo. Essas grandes figuras intelectuais que lutam pelas grandes coisas, os grande combates, não são mais úteis porque vivemos em sociedades educadas: as pessoas são formadas, têm acesso a informações pela imprensa ou internet. Os filósofos hoje devem pensar o mundo em sua complexidade e por meio de duas coisas essencialmente: fazer pensar o presente de longa duração, compreender a história do presente e, em segundo lugar, apontar os paradoxos da nossa época. Eu não vejo mais a necessidade de engajamento dos filósofos.

FILOSOFIA. De acordo com essa perspectiva, podemos então dizer que vivemos a época da “hiper-relatividade”? Porque há sempre resistência quando as coisas parecem generalizadas.
GL. Sim. Existe sempre um paradoxo porque vivemos em um mundo contraditório e complexo. Por isso eu acredito que a Filosofia esteja aí não para dar lições, porque a sociedade é individualista, mas inteligência para a compreensão do mundo e esclarecer de que forma vivemos. Não temos mais as grandes religiões, os grandes sistemas políticos que dão o sentido geral da vida, esta é a razão pela qual precisamos da Filosofia.

FILOSOFIA. O que é a nova sociedade do consumo e o papel da felicidade na sua dinâmica?
GL. É muito complicado, existem muitas coisas envolvidas. Escrevi um livro para descrevê-la chamado “hiperconsumista”, isto é, que consome de uma maneira “hiperindividualizada”. Ela é baseada nos indivíduos e não mais na família, por exemplo, como no caso da telefonia. Cada membro da família tem um telefone atualmente, até mesmo as crianças, e isso pode ser estendido aos computadores e máquinas fotográficas, etc. Portanto, cada vez mais por meio do “hiperconsumismo” cada individuo pode construir sua vida de uma maneira mais autônoma e livre, porque se é menos tributário do ponto de vista coletivo.

FILOSOFIA. Isso ocorre em todas as classes sociais?
GL. O “hiperconsumo” é igualmente responsável pelo desaparecimento da cultura de classes. Nas favelas, por exemplo, mesmo os pobres conhecem as marcas de luxo, acompanham a moda, sabem de marcas conhecidas e querem viajar em férias por causa da publicidade e da televisão. As classes sociais ainda existem, há cada vez mais os mais ricos e os mais pobres e grandes injustiças, porém, ao mesmo tempo, todos têm o mesmo ponto de referência. E aqui surgem alguns problemas, porque os pobres desejam ter um carro, viajar, consumir marcas famosas e se frustram porque nem sempre têm dinheiro. Cria-se, dessa maneira, uma sociedade de frustração.

FILOSOFIA. A crise econômica do final de 2008 mudou algo desse panorama?
GL. Acredito que não. Existe a crise e esta alterou o nível de consumo, o mercado perdeu sua legitimidade. Parece que surge uma economia mais sóbria, os consumidores se tornam mais sábios e racionais, ou seja, consomem menos. Acredito que essa prudência seja algo conjuntural devido à crise. Mas do que nunca, os consumidores de hoje querem novidades, que são como estimulantes da existência.

FILOSOFIA. Qual é a grande decepção das pessoas atualmente?
GL. Há uma decepção política permanente. Veja, após a realização de eleições, as pessoas ficam decepcionadas muito rapidamente, insatisfeitas com os personagens políticos, pensam que a Política é impotente. Há também muita decepção com a vida privada, observe a desestruturação das famílias, os divórcios, ou seja, é difícil viver em família. Há também insatisfação com a vida cultural. No caso da televisão, o capitalismo cultural produz muitos produtos, programas, filmes e músicas, e o gosto das pessoas é individualizado. Não acontece mais como na sociedade tradicional, quando as pessoas consumiam as mesmas coisas. Os gostos hoje são bem diferentes.

FILOSOFIA. Porém, essa decepção generalizada não seria ela mesma o motor para a mudança?
GL. Sim, porque as empresas, os criadores, também prestam atenção nas mudanças de gostos. Provavelmente a decepção seja útil ao sistema capitalista.

FILOSOFIA. E, muito perigoso, é o fenômeno da decepção com a democracia, não?
GL. Há uma decepção democrática por um lado, mas ao mesmo tempo não se enxerga outra coisa senão a democracia. E essa insatisfação está ligada de alguma maneira ao fenômeno da mundialização, principalmente na Europa. Na China não há decepção com a mundialização, por outro lado, para eles, ela é uma oportunidade, e o mesmo serve para o Brasil.

FILOSOFIA. O Brasil e os países latino-americanos podem apontar ao mundo uma nova alternativa de modo de viver e de fazer? Uma nova visão de mundo?
GL. De modo de viver e fazer, não tenho certeza. Culturalmente, provavelmente, veja o sucesso da música brasileira e de filmes argentinos. Agora, visão de mundo, a América Latina é liberal atualmente. Mesmo o presidente Lula, que veio da extrema esquerda, não fez a revolução. Não estou certo de que haja uma visão de mundo latino-americana diametralmente diferente da realidade. Todos os países da região, menos a Venezuela de Hugo Chávez, vivem sob o liberalismo. Vive-se sob o domínio da democracia e do capitalismo neoliberal. O problema é que naqueles países há também corrupção, problemas com o narcotráfico e violência.

FILOSOFIA. A construção do feminino é ainda um monopólio masculino?
GL. Isso é uma coisa que tem mudado bastante. As mulheres não têm mais a obrigação de casar-se, ter filhos ou cuidar da casa. Elas podem fazer parte da Política ou criar uma empresa, não são mais os homens que decidem o que elas devem ou podem fazer. Aliás, são elas que pedem mais o divórcio. Não diria que foi uma revolução completa, existe muita coisa que se mantém, mas para as questões essenciais da vida em relação à família, trabalho, Política ou cultura há um espaço enorme de liberdade.

FILOSOFIA. A moda atualmente é uma forma de liberação, inovação, ou tornou-se, desculpe pelo trocadilho, uma camisa de força?
GL. A moda, falo da vestimenta, para ser preciso, é muito menos importante hoje do que antigamente. Por meio das roupas não possível saber se uma pessoa é pobre ou rica. O corpo sim é mais importante, leve em conta a cirurgia plástica e academias. Antes, a moda possibilitava para as pessoas expressarem sua classe social. Hoje, por outro lado, é mais importante parecer mais jovem do que mais rico. Para muitas mulheres é mais importante fazer regime do que comprar um vestido. A moda não tem mais a centralidade social da outrora.

FILOSOFIA. Após quase três décadas de hipermodernidade, você já chegou a fazer uma análise retrospectiva sobre ela? Quero dizer, ganhamos ou perdemos? Ela trouxe mais malefícios ou benefícios?
GL. Podemos analisar essa questão de dois pontos de vista diferentes. Com a hipermodernidade e a globalização perdemos bastante, porque surgiram novos poderes que interferem nas nossas vidas, em particular mercados de trabalho muito competitivos; as pessoas perdem mais facilmente os seus empregos. Há muita ansiedade e estresse no mundo do trabalho. Dessa maneira, a hipermodernidade aumenta muito a ansiedade dos indivíduos, tanto na esfera econômica quanto, principalmente, na vida privada. A Europa está com dificuldade de crescer, mas países como a China e até o Brasil estão se saindo bem. Por isso, é preciso enxergar a questão na sua totalidade. De outra maneira, no aspecto da vida privada, a hipermodernidade foi útil em dois aspectos: as pessoas são mais livres, pode-se ou não se casar, os homossexuais estão aí, e isso é positivo; ao mesmo tempo, a vida individual ficou muito difícil, porque há muita decepção, a comunicação entre as pessoas tornou-se difícil, há muito sentimento de solidão. Ao mesmo tempo, as pessoa viajam e acessam a internet, comunicando-se com muitas pessoas. A hipermodernidade é positiva e negativa, depende do grupo social ao qual se pertence. Para as categorias sociais pouco flexíveis, a mundialização é muito difícil. Na hipermodernidade, as pessoas devem ser mais móveis, ter a capacidade de se adaptar; para quem não consegue fazer isso, a hipermodernidade torna-se difícil. Mas para as pessoas que são flexíveis e têm a capacidade de mudar de atividade, é uma oportunidade.

FILOSOFIA. Apesar de citar vários filósofos e pensadores nos seus livros, há algum de sua preferência?
GL. Não. Eu nem sempre fui compreendido na França por ser muito eclético. Não me identifico com uma Filosofia em particular. Eu gosto de todos os grandes pensadores, todos eles me cativam, mas meu trabalho não é de comentar uma disciplina ou escola filosófica. Li bastante Marx, Freud, Nietzsche, Tocqueville, são pensadores muito importantes, mas diferentes entre si. Em cada um me interessa algo e aproveito no meu trabalho.
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Fonte: REVISTA FILOSOFIA – Ed. 49 – Julho/2010 - pg.8 a 13. Editora Escala.

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