Entrevista para seção Com A Palavra com o deputado e ex-BBB Jean Wyllys
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Marcelo Oliveira /
Agencia RBS
Em entrevista a ZH, o deputado fala da eleição do Congresso mais conservador desde 1964, dos ataques de Jair Bolsonaro (PP-RJ) e das bandeiras defendidas pela comunidade LGBT
A trajetória de Jean Wyllys de Matos antes da fama se assemelha a
de milhões de brasileiros espalhados pelo país. Filho de uma lavadeira e
de um mecânico, teve de vencer várias batalhas ao longo de sua vida, e a
primeira delas, com apenas um ano, foi contra a desnutrição. Por esse e
outros motivos, costuma se definir como um sobrevivente, uma exceção à
regra.
Formado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, Jean
ficou famoso ao vencer o programa Big Brother Brasil em 2005. Antes
disso, passou pelos jornais Tribuna da Bahia e Correio da Bahia e foi
professor universitário.
Aos 40 anos, baiano nascido em Alagoinhas, foi reeleito deputado
federal pelo PSOL do Rio de Janeiro, com 144,7 mil votos – desempenho 11
vezes superior ao de sua estreia, em 2010. Alvo da ira de alguns
pastores e seus seguidores por defender temas polêmicos como a
legalização das drogas e do aborto, Jean foi coroinha e começou sua
formação política no movimento pastoral da Igreja Católica, influenciado
pela Teologia da Libertação.
Aos 15 anos, afastou-se da instituição depois de questionar o
motivo de a Igreja não se abrir aos homossexuais e obter como resposta
um diagnóstico de crise de fé. Anos mais tarde, retomou o engajamento
político no movimento gay da Bahia. Nesta entrevista, fala da eleição do
Congresso mais conservador desde 1964, dos ataques de Jair Bolsonaro
(PP-RJ) e das bandeiras defendidas pela comunidade LGBT.
ENTREVISTA:
A nova configuração do Congresso Nacional, as declarações
racistas pós-eleições e os atos pedindo a volta do regime militar são
sintomas de uma guinada conservadora da sociedade brasileira?Acho
que a gente não pode falar em guinada porque pressupõe que nós éramos
progressistas e acordamos conservadores. Há, na verdade, uma manutenção
de tendência. O conservadorismo vem crescendo no Brasil nos últimos
anos, e essa tendência se acentuou nas eleições. Isso surpreendeu. Muita
gente de esquerda esperava que depois das jornadas de junho de 2013,
que apontaram uma crise de representação política, seria eleito um
Congresso mais progressista, mas aconteceu o contrário: foi eleito mais
do mesmo.
E por que isso aconteceu?Porque as
manifestações eram muito complexas. A maioria das pessoas de esquerda e
até mesmo da imprensa fazia uma leitura de que aquelas multidões eram
conscientemente progressistas e reivindicavam uma participação maior no
sistema político, e isso transformaria o Brasil. Eu via aquelas
manifestações com um olhar um pouco mais apurado, porque acompanhei o
processo desde o início. Quando os atos começaram a atrair mais pessoas,
a maioria da imprensa viu ali um meio de desestabilizar o governo e,
então, passou a fazer o que eu chamo de cobertura-convocação. O caráter
originário delas, as reivindicações pontuais foram engolidas por
reivindicações generalizantes e por expressões de extrema direita,
pedindo a volta da ditadura, o fechamento do Congresso.
Como avalia os 12 anos de governos petistas?Há
um paradoxo. Os 12 anos de governos petistas melhoraram materialmente a
vida das pessoas. Isso é inegável. Houve uma mobilidade social no
Brasil, só que essa mobilidade foi tão somente material. O PT ampliou o
acesso à educação, mas não assegurou uma escola de qualidade. As escolas
públicas continuam colocando para fora pessoas analfabetas funcionais,
mesmo nos cursos de nível superior. Isso é inadmissível. Nesses 12 anos,
o fundamentalismo religioso cresceu de uma maneira absurda, começou de
maneira insidiosa.
O PT colaborou com a despolitização, então?De
certa forma. E colaborou de maneira deliberada, porque, ao cooptar
líderes de movimentos sociais, o governo engessou os próprios, que
poderiam fazer a crítica e pressionar para que o governo fosse mais
progressista. O governo Dilma, por exemplo, falhou bastante nas questões
indígenas e LGBT, não fez um enfrentamento eficaz do extermínio da
juventude negra e pobre que está acontecendo nas grandes periferias.
Então, foram 12 anos de um governo contraditório, que foi muito bom por
um lado, mas ruim por outro.
O que é mais difícil: ficar três meses confinado no BBB ou
ter de ouvir discursos em plenário de colegas como Jair Bolsonaro
(PP-RJ) e Marco Feliciano (PSC-SP), que pensam muito diferente de você?O
Big Brother é um reality show, é feito para entreter. Aquela casa, no
fundo, é um estúdio, embora ela esteja cercada de falsos espelhos e a
gente não veja as câmeras. Por mais duro que seja conviver três meses
com 14 pessoas que você nunca viu na vida, não tem termos de comparação
com o Congresso, e nem acho bacana comparar. O Congresso é uma coisa
séria, é a instância maior do Poder Legislativo, onde são elaboradas as
leis que vão nortear nossas vidas. Por tudo isso, acho que uma figura
como o Jair Bolsonaro desrespeita esse poder da República. Teria
vergonha de ter votado em um cara daqueles que se senta na Comissão dos
Direitos Humanos e xinga outro parlamentar pelas costas de veado, como
se estivesse em uma sala de colegial. E olhe lá, aluno da 5ª série
consegue ser mais maduro do que um cara que insulta seus colegas durante
uma sessão (do Congresso).
A votação expressiva dele, mais de 400 mil votos, o surpreendeu?Olha,
me surpreendeu. Principalmente pelo fato de a maioria dos votos dele
vir da capital do Rio de Janeiro, que é uma cidade aparentemente
libertária. A gente imaginava que fosse uma cidade mais progressista,
mas não. Essa cidade votou no Bolsonaro, mas essa cidade também votou em
mim, me deu 140 mil votos, votou no Chico Alencar (PSOL), no Alessandro
Molon (PT), na Jandira Feghali (PC do B) (os três eleitos para a Câmara
Federal pelo Rio na última eleição). Então, continuo achando que o Rio
de Janeiro é uma cidade progressista e arejada, mas que concentra um
nicho, um contingente de pessoas fascistas. Isso é que foi surpreendente
para mim.
Você é um dos poucos parlamentares com coragem para defender
temas como a descriminalização do aborto, das drogas e da prostituição. É
uma tarefa difícil?É uma tarefa difícil, mas faço isso
por convicção, e não porque é polêmico. São temas necessários. A gente
não pode discutir segurança pública nesse país hoje sem abordar a
questão da legalização das drogas. Um dos grandes motivos do número de
homicídios que o Brasil produz anualmente está ligado à guerra das
drogas, que está nos territórios onde moram os pobres, não a classe
média alta. Somos hoje a terceira população carcerária em números
absolutos do mundo. Estamos fazendo gestão da pobreza mediante o
encarceramento e o extermínio, e isso não pode continuar.
Durante a campanha, a criminalização da homofobia e o direito
ao casamento civil para homossexuais pautaram debates. Essas propostas
têm chances de avançar?Nosso desafio é esse. A vitória
da Dilma só se deu por conta da esquerda, que decidiu botar suas
diferenças de lado e ir para as ruas defender esse governo. Então, a
gente quer que a presidenta se incline a atender essas reivindicações.
Apresentei cinco pontos programáticos para dar o apoio crítico, e a
gente vai cobrar dela. Um desses pontos é a criminalização da homofobia.
Qual desses temas acima é o mais importante para a causa LGBT?Os
dois são importantes, mas acho que o casamento tem um impacto maior
porque hoje há uma discriminação jurídica quando se nega esse direito
aos homossexuais. Há mais de cem direitos correlatos que hoje são
negados aos homossexuais. Se a gente estende – não como uma decisão do
Judiciário, mas do Legislativo – esses direitos, reconhece as famílias
homoafetivas e produz um impacto de médio prazo na homofobia. Perceba:
as crianças das novas gerações crescerão sabendo que existem famílias de
todos os tipos e que há amor em todos os tipos de família. A
criminalização é uma coisa mais imediata, pontual, para combater a
violência dura que hoje se abate contra os homossexuais.
Em 2013, um homossexual foi assassinado a cada 28 horas no
país, segundo uma pesquisa do Grupo Gay da Bahia. Por que é tão difícil
para algumas pessoas respeitar as diferenças?Preconceito
tem a ver com falsa certeza que é historicamente transmitida e
socialmente partilhada. A maioria das pessoas não teve acesso aos meios
de desconstrução dessas falsas certezas. Muito pelo contrário. Nos
últimos 12 anos, essas pessoas tiveram acesso a espaços onde esses
preconceitos são reafirmados e endossados, como as igrejas
neopentecostais fundamentalistas, que foram responsáveis por quase
derrubar o programa de vacinação contra HPV. Por isso, essa homofobia,
que é social, se materializa na violência. Nem todo homofóbico bate e
mata homossexual, mas todo homofóbico pavimenta o caminho para isso.
"Mas eu já vivi a vergonha de ser gay.
Minha homossexualidade foi motivo
para
todas as humilhações que vivi na escola.
Ouvi pela primeira vez a
expressão
veado como insulto aos seis anos."
No livro Tempo bom, tempo ruim, você conta que já levou um
murro de um desconhecido na rua por ser gay. Como você lida com o
preconceito no dia a dia?Não é fácil. Sei que vou
morrer ouvindo insulto. Talvez as próximas gerações possam viver num
mundo em que vão estar livres do insulto homofóbico. Mas, para mim, isso
não vai acontecer.
O que você falaria para as pessoas que dizem existir uma “ditadura gay” hoje?Que
elas são equivocadas e que esse discurso não é novidade. Não há sentido
em falar em orgulho hétero porque ninguém tem vergonha de ser hétero.
Mas eu já vivi a vergonha de ser gay. Minha homossexualidade foi motivo
para todas as humilhações que vivi na escola. Ouvi pela primeira vez a
expressão veado como insulto aos seis anos.
A reforma política é debatida há mais de 20 anos no Congresso. Acredita que a proposta finalmente poderá sair do papel?Quero
crer que sim, e aposto muito nisso, porque, do jeito que está, não dá
mais para continuar. Tem deputado que gastou na campanha R$ 5 milhões.
Isso torna a disputa muito injusta. Ainda é a força da grana que
determina o resultado das eleições.
Em 2015, as mulheres ocuparão apenas 10% das cadeiras no Congresso, embora sejam 51,5% da população. Como mudar isso?Defendo
que o Poder Legislativo seja paritário, que obrigatoriamente metade das
vagas seja ocupada por mulheres. De diferentes partidos, de diferentes
etnias. Pelos valores que essa cultura atribuiu ao gênero feminino, as
mulheres desenvolveram uma sensibilidade que pode renovar a política.
Também sou a favor de determinar cotas para a população negra, que
também é sub-representada, assim como os povos indígenas.
Voltando ao seu livro, você diz também que, desde o início,
sua vida foi uma luta. Qual foi a batalha mais dura que já teve de
enfrentar?Foi a batalha contra fome. É um horror você
dormir e acordar sem a perspectiva de ter o que comer. Você esperar seu
pai trazer alguma carne para cozinhar, e ele chegar, à noite, de mãos
vazias e bêbado. E você ter de trabalhar aos 10 anos para ajudar em
casa. É muito fácil para uma figura como Aécio Neves, na campanha, falar
em meritocracia. É muito fácil para essas pessoas falar em meritocracia
quando elas tiveram a vida pavimentada por suas famílias ricas, pelos
cursos de inglês que fizeram na infância e na adolescência, pelas
viagens à Disney. É muito fácil falar em meritocracia, ser contra cotas.
Quem pode falar sobre meritocracia sou eu, que sou deputado federal e
consegui chegar aonde cheguei graças aos meus esforços. Mas sou exceção,
não a regra. E eu quero ser a regra.
Você se considera um sobrevivente?Sou um
sobrevivente. Mas não falo isso com orgulho. Para estar aqui, ralei pra
caramba. Só se pode falar em meritocracia quando pudermos assegurar a
todos as condições para que partam do mesmo lugar.
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Reportagem por Cleidi Pereira
Fonte: ZH online, 28/12/2014
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