quarta-feira, 3 de março de 2010

Um refúgio para o coração?

Joel Birman*


Os temas presentes na produção cinematográfica nos revelam sempre as preocupações maiores que se evidenciam no imaginário social da contemporaneidade. Podemos aquilatar assim, no registro ficcional da experiência estética, as linhas de força que incidem sobre nós, configurando as nossas ações e anseios. A mesma formulação poderia ser igualmente válida no que concerne a literatura e outras produções artísticas, como o teatro e a pintura. Porém, como estas são formas de criação dirigidas para um público mais restrito, do ponto de vista do consumo cultural, talvez não enunciem com tanta agudeza e pontualidade o que se revela pelo cinema, que se dirige para a massa. Podemos então considerar que, pela produção cinematográfica, se colocam em cena as questões e angústias que se impõem efetivamente com maior vigor e tragicidade, na atualidade.

Assim, no ano de 2008, o tema da imigração se encontrava presente, de maneira disseminada, na produção cinematográfica internacional. Cineastas provenientes dos mais diversos quadrantes do planeta e pertencentes a diferentes tradições culturais se voltaram para a exibição dos horrores produzidos pelos processos imigratórios, que se realizam na contemporaneidade. Nesses, populações imensas, provenientes de países pobres – da África, da Ásia, da América Latina e mesmo da Europa –, buscam um lugar ao sol nos países ricos, situados no Hemisfério Norte. As humilhações e a vergonha presentes nas populações que migravam, assim como os que eram capazes de suportar em nome de um futuro possível, eram as paixões essenciais destas narrativas cinematográficas. Enfim, num mundo onde os direitos humanos só valem para os humanos direitos, isto é, os bons consumidores, todos os demais vão para o cadafalso do sacrifício.

No entanto, em 2009 e 2010, o imaginário fílmico se configurou de uma outra maneira. O que está em pauta agora é a temática da família, que se problematiza de diferentes maneiras. O recente Festival de Cinema de Berlim, que ocorreu no mês de fevereiro, indica esta tendência com muita clareza. Com efeito, ao lado de ter um filme intitulado The family, muitos outros se voltaram ostensivamente para a leitura desta temática.

Porém, diversos filmes que foram exibidos no Festival de Cinema de Cannes, em 2009, tiveram igualmente na família o seu foco principal. Assim, dos filmes Mother, do cineasta sul-coreano Bong Joon Ho, e Fita branca, do austríaco Haneke, passando pela obra-prima do norte-americano Coppola, intitulado Tetro, é sempre a família que está no centro da cena fílmica. Não da mesma maneira, é claro.

Com efeito, se no filme sul-coreano é a manutenção do vínculo familiar o que conta acima de tudo, mesmo que isso implique no mais terrível assassinato, em Tetro, em contrapartida, o que está em pauta é a impossibilidade da figura paterna em aceitar que o filho possa querer alçar a glória no mundo das artes, posição para aquele apenas concedida como regente nas mais prodigiosas orquestras do mundo. Portanto, se no filme de Coppola o pai não tem qualquer escrúpulo em sacrificar a vida do filho em nome de sua grandeza, no filme Mother é a figura da mãe que é capaz de matar alguém com requintes de crueldade, para manter a única coisa que lhe resta na vida, isto é, o filho.

Da mesma forma, num filme realizado um pouco antes pelo cineasta sul-africano Steven Jacobs, intitulado Desgrace, baseado no romance de Coetzee, esta tendência já se delineava com contornos claros. Assim, nesta estória desconcertante, um pai perverso, pelas suas práticas de sedução das mulheres, é completamente subvertido na sua existência, pela decisão de sua filha lésbica de ter o filho de um homem que a estuprou. Tudo isso se passa num contexto sociopolítico marcado pela dívida simbólica entre os descendentes dos africaners e a população negra por aqueles dominada, numa história marcada pela crueldade e pela injúria. Enfim, a ritualização da força erótica, como expressão da pura animalidade, se declina numa sinfonia trágica, pela qual as práticas perversas do pai se marcam, em contrapartida, como injúria no corpo profanado da filha. Como contraponto, no delicado filme italiano intitulado La pavolina, dos cineastas Tizza Covi e Rainer Frimmeli, é o destino de uma menina, que foi abandonada pela mãe numa praça pública, que está no centro da narrativa. Acolhida por saltimbancos pobres de um circo, na periferia de Roma, a criança enjeitada passa a se sentir afortunada pela sua nova família, que a preenche com carinhos.

A indagação que se impõe com premência é qual é a condição concreta de possibilidade para tal proliferação de filmes sobre a família e que problematizam essa de maneira bastante diferenciada. Vale dizer, o que se passa efetivamente na contemporaneidade para que tenha se imposto como tema a questão da família, de forma imperativa?

O que se coloca aqui em pauta, de maneira radical, são os efeitos desconcertantes do neoliberalismo sobre as formas de sociabilidade na atualidade. Esta mesma formulação é válida para a produção cinematográfica em torno da imigração, no qual as populações buscam espaços possíveis de vida num mundo marcado por desigualdades econômicas absurdas. Porém, o que o tema da família indica é que num contexto sócio-histórico marcado pela corrosão das formas de sociabilidade e de ostensiva desconstrução da política, em nome da produtividade econômica e da boa gestão empresarial, a única coisa que resta para as pessoas como lugar de segurança é a instituição da família. Com efeito, no mundo mensurado pelos indicadores macroeconômicos não existiria mais qualquer outro reduto para o coração e para o afeto do que o universo familiar.

Porém, as formas diferenciadas pelas quais os diversos filmes procuram problematizar a questão da família indicam que, se essa pode ser ainda o único refúgio para o amor e para a proteção contra o infortúnio, por um lado, evidencia igualmente que a família pode ser também o lugar do não acolhimento e da catástrofe. Vale dizer, se queremos ainda acreditar que, face à dissolução das formas de sociabilidade, a família é ainda um refúgio para o coração, é preciso ficar aqui bem atento para o lance de que a família pode ser também o pior dos mundos possíveis.

Parece-me que é nessa direção que se tecem as linhas de força da novela Viver a vida, de Manoel Carlos, em exibição na TV Globo, que nos mostra como as rivalidades, as intrigas e as invejas permeiam os laços incestuosos das famílias, conduzindo os sujeitos para becos imprevisíveis e para a mais vil crueldade.
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*Joel Birman é psicanalista.
Fonte: Jornal do Brasil online, 03/03/2010

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