Eduardo Hoonaert *
Escrevo estas reflexões no dia depois que se virou mais uma página na história política do Brasil. A partir de janeiro próximo teremos uma nova presidente (alguns dizem: presidenta). Hoje meu sentimento de expectativa e esperança vem misturado com o gosto amargo deixado na mente pelo descarrego de tanta baixaria na tela de meu computador no decorrer do último mês. Houve dias em que tive de eliminar 10 ou até 15 mensagens seguidas, todas repletas de sentimentos negativos. Nada escapa à capacidade destrutiva da mente humana.
A internet, maravilhoso instrumento de comunicação, tão novo e tão promissor, já vem sendo deturpada. Eu me lembrei: nada aparece no mundo dos homens que não venha a ser, cedo ou tarde, deturpado.
O mesmo cérebro que cria admiráveis novidades tecnológicas se mostra igualmente disposto a desvirtuar suas próprias invenções. Quando os primeiros aviões cruzavam o céu, todos ficavam entusiasmados. Poucos anos depois já se viam aviões lançando bombas incendiárias. Logo depois da descoberta da energia atômica e das imensas possibilidades daí decorrentes, duas bombas atômicas de imensa capacidade de destruição foram lançadas em cima do Japão.
A televisão, essa admirável janela aberta sobre o mundo e que poderia ser um grande instrumento de educação pelo mundo afora virou uma banalidade comercial (e política). Suspeito que hoje o mesmo esteja acontecendo com a telefonia celular.
Esse problema é congênito da raça humana, ele afeta a humanidade desde suas origens. O homem apenas balbuciou as primeiras palavras quando já inventou a arte de mentir. Ele apenas começou a sonhar com o céu e já inventou o inferno, começou a ver em Deus um pai bondoso e já falou no demônio. Ao mesmo tempo em que ele ficou entusiasmado com a extensão de terras em sua frente, capazes de sustentá-lo com a família, ele já mandou cercar um terreno e assim formou as primeiras propriedades privadas. O cérebro humano, ao mesmo tempo em que cria as coisas mais admiráveis, se mostra estranhamente hábil a destruir ou pelo menos emporcalhar tudo que ele mesmo inventa.
Antigamente, essa capacidade destrutiva da mente humana era chamada pecado. Hoje não se fala mais desse modo, o que não quer dizer que o fenômeno tenha desaparecido. Não, ele só ganhou outros nomes, alguns claros, outros nem tanto.
Na campanha eleitoral que acaba de terminar, por exemplo, saíram do baú eletrônico os demônios do machismo, do fanatismo religioso, das mentiras deslavadas, das ironias de mau gosto e das piadas sem nenhum gosto, dos ataques diretos à honra, das insinuações maldosas, das acusações infundadas, das invenções de factóides, das ofensas diretas, enfim, de grosserias de todo tipo. Demônios soltos em cima, principalmente, da candidata Dilma Rousseff.
Em certo momento, senti vergonha de participar da raça humana, que se mostra capaz de tanta baixaria. As mensagens me pareciam um assalto à mão armada. Por trás das palavras pressenti pessoas dispostas a me agredir, escondidas por trás da máscara da internet, cobertas (em parte) pelo manto do anonimato, hackers inescrupulosos que se sentem à vontade para jogar na minha cara esse lixo todo.
Agora a eleição passou. Não é bom passar por cima da sujeira e dar a impressão que nada tenha ocorrido. É preciso parar para refletir. Como respeitar uma presidente que acabamos de arrastar pela lama?
A velha moral ensina que depois do pecado vem a penitência. Para nossa saúde mental e para a saúde da sociedade brasileira é importante que se elimine energicamente a mentira, senão ela continua aderindo à mente. Há de se remover logo o entulho, limpar a mente, encarar a realidade, praticar o respeito, a tolerância, enfim, a democracia. Penso que o segundo turno serviu para demonstrar que convém usar a cabeça de maneira autônoma, reagir com independência diante de poderosos instrumentos de comunicação (TV, internet, revistas), cada vez menos sujeitos ao controle social, já que pertencem a restritos grupos de pessoas que gozam de imenso poder político.
Ser dono de sua própria cabeça, como diz o provérbio chinês: ‘Você não pode impedir que os pássaros façam seus ninhos nas árvores. Mas que eles se instalem em cima de sua cabeça, isso você é capaz de impedir’.
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* Padre casado, belga, com mais de 5O anos de Brasil, historiador e teólogo, mais de 20 livros publicados. Mora em Salvador. Dedica-se agora ao estudo das origens do cristianismo
Fonte: Adital online, 05/11/2010



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