sábado, 7 de novembro de 2009

Para ler Finnegans Wake de James Joyce

Dirce Waltrick do Amarante






Para ler Finnegans Wake de James Joyce, de Dirce Waltrick do Amarante, é uma entrada nos bastidores da elaboração do último livro do escritor irlandês, uma espécie de guia de leitura bastante sofisticado, já que não se furta de comentar os muitos estudos feitos por pesquisadores do mundo inteiro sobre este romance considerado de difícil leitura, e ainda uma ousada investida na tradução de um de seus capítulos, o oitavo, intitulado “Anna Livia Plurabelle”.
Desse modo, pode-se pensar nele como uma enorme ficha de leitura que acompanha esta obra de James Joyce, já traduzida no Brasil, primeiro por Augusto e Haroldo de Campos, e depois por Donald Schüller, esta em versão integral.
As duas traduções brasileiras são amplamente citadas e recomendadas pela autora, cujo esforço mais visível e digno de nota é oferecer tanto ao leitor interessado apenas em conhecer a obra de Joyce, como a estudiosos do livro, a mais ampla gama de informações pertinentes à leitura. Numa época em que o Finnegans Wake é preterido mesmo nos cursos de letras pela sua dificuldade de leitura, o esforço é louvável e certamente contribui com os estudos de literatura dentro e fora das universidades. Dirce Waltrick do Amarante é professora e certamente conhece a contribuição que pode dar um roteiro de abordagem de uma obra desse porte.
Mantendo as citações do Finnegans Wake na língua original e fazendo a tradução para o português, o livro permite a tradução também do leitor que quiser se aventurar nos jogos de linguagem propostos por Joyce. É interessante perceber as opções da tradutora para as palavras-valises, os trocadilhos, as paródias e, principalmente, para as combinações de palavras de línguas diferentes. Uma leitura da mesma passagem do Finnegans Wake, traduzida por Dirce Waltrick do Amarante, por Augusto e Haroldo de Campos e por Donaldo Schüller, dá uma ideia das opções de cada um no que diz respeito à participação do tradutor na versão do texto original. Certamente o conceito usado por Augusto e Haroldo de Campos é mais pertinente para o caso: a tradução do Finnegans Wake é, na verdade, sempre uma transcriação.
Vejamos o original de James Joyce:

“Who? Anna Livia? Ay, Anna Livia. Do you know she was calling bakvandets sals from all around, nyumba noo, chamba choo, to go in till him, her herring cheef, and tickle the pontiff aisy-oisy? She was? Gota pot! Yssel that the limmat? As El Negro winced when He wonced in La Plate”.
Agora vejamos a versão de Augusto e Haroldo de Campos:
 “Quem? Anna Livia? Sim, Anna Livia. Sabe que ela transandou com tudo quanto é salso, nyumba nu, chamba chu, pra ir atrás dele, seu patrão patrusco, e tiltirar o sumo patífice no betsiboca? Ela foi? Yssel é o finn! Você limmata! Como El Negro piscou quando pescou em La Plata”.
A versão de Donaldo Schüller para o mesmo trecho:
“Anna Livia? Ai, Anna Livia. Sabes que ela chamava garotas dos arredores à casa úmida, ao esconderijo, para visitá-lo, Salso para seu Arenque-chefe, excitar o pontífice, Toc-an-tins, Toc-em-mins. Foi ela? Deus do léu! N Yssel a não chegou ao limite? Como quando El Negro dormiu com La Plata”.
E, por fim, a de Dirce Waltrick do Amarante:
“Quem? Anna Livia? Ah, Anna Livia. Sabias que ela estava chamando backseatantes gilrotas de toda parte, nyumba noo, chamba choo, para ir até ele, seu comandante transgressor, e excitar o pontífice daqui-dali? Estava? Deudossel é o cúmulo! Assim como El Negro recuou quando ele triunfou em La Plata”.
O fragmento escolhido como exemplo é justamente o que cita os rios brasileiro e argentino e serve como amostra do que pretendeu Joyce: “Centenas de rios percorrem o texto. Creio que se move”.
Dirce Waltrick do Amarante nos dá informações interessantes sobre as primeiras traduções do livro, das quais Joyce participa e orienta. O capítulo 8, por exemplo, foi traduzido pela primeira vez em 1931, para o francês, por uma equipe constituída por Samuel Beckett, Eugene Jolas, Paul Léon, Alfred Perron, Ivan Goll, Adrienne Mounier e Phillipe Soupault.
O método utilizado é interessante. Depois de feita uma primeira tradução por Samuel Beckett, mais dois professores fizeram a revisão e só então ela foi submetida a Joyce que, todas as quintas-feiras, se reunia com a equipe para ler em voz alta as duas versões: “Às duas horas e meia da tarde, o senhor Joyce chegava e começávamos imediatamente a trabalhar. Instalávamo-nos em torno de uma grande mesa redonda. O senhor Joyce numa poltrona fumava Maryland. O senhor Léon lia o texto em inglês e eu [Phillipe Soupault] seguia com a versão francesa revista. Paul Léon destacava uma frase do texto em inglês, eu lia a tradução da frase e nós discutíamos. Repelíamos, de acordo com o senhor Joyce, aquilo que nos parecia contrário ao ritmo, ao sentido, à metamorfose das palavras e tentávamos de nossa parte propor uma tradução. Essas sessões duravam três horas”.
Sendo um texto plurilíngue – foi escrito numa mescla de palavras em 65 idiomas diferentes – é comum a afirmação, segundo Dirce Waltrick do Amarante, de que o tema do Finnegans Wake era pretexto, e que o verdadeiro leitmotiv da obra de Joyce era a linguagem.
A autora dedica uma parte de seu livro para comentar as implicações políticas da experimentação linguística de Joyce, afirmando, de acordo com outros pesquisadores, como Phillipe Sollers, a dimensão política do Finnegans Wake, que em sua criatividade e crítica “inclui a questão da identidade irlandesa, dentro de uma concepção universal da história”. Para Dirce, “parece que Joyce quis despertar do pesadelo da história irlandesa (para usar a expressão de Stephen Dedalus no livro Ulisses) através da destruição/reinvenção da linguagem do vencedor”.
Assim, também a proposição de traduzir “Anna Livia Plurabelle” contém em si mesma um ato político, qual seja o de trazer a público a primeira versão feminina do texto de Joyce, já que todas as versões citadas em Para ler Finnegans Wake de James Joyce são assinadas por homens. Creio, porém, que a apresentação assinada por Aurora Fornoni Bernardini, na orelha, força a mão na recomendação do livro por esse viés, afirmando ter este trabalho contribuído para uma visão de Joyce como um aliado do feminismo. À exceção do posfácio, da própria autora, o livro não busca no Finnegans Wake, nem em James Joyce, um aliado do feminismo, senão dar ao leitor algumas chaves de leitura para que conheça as técnicas usadas por Joyce na composição da obra.
A tradução de “Anna Livia Plurabelle” é, portanto, iluminada pelo conhecimento do contexto de produção e publicação da obra, das traduções já feitas e das técnicas de criação do texto, o que faz com que o leitor procure abordá-lo de diversas maneiras: pelo som do rio Liffey, pelo jogo de encontrar os inúmeros nomes de rios que Joyce cifrou no texto, pela montagem de palavras com radicais de diversos idiomas, pelo modo de falar das duas lavadeiras que estão em cena, pelo tema, ou seja, pelo que falam a respeito de Anna Livia Plurabelle. A possibilidade de confrontar a tradução de Dirce com o original de Joyce garante uma riqueza a mais que, por sua vez, permite conferir as técnicas antes descritas.
Assim como a equipe que primeiro traduziu “Anna Livia Plurabelle”, Dirce Waltrick do Amarante também realizou leituras com falantes nativos do inglês e do português antes de firmar a versão final do texto. Uma em Cambridge, com a professora de literatura e língua inglesa Joanna Parker, e outra no Brasil, com o auxílio do poeta e professor de literatura da UFSC, Sérgio Medeiros.

Reportagem de IEDA MAGRI, Jornal do Brasil
Fonte: Caderno IDÉIAS & LIVROS - Jornal do Brasil, online - 02/11/2009

Nenhum comentário:

Postar um comentário