sábado, 12 de janeiro de 2013

Eva, cascalhos e bicicletas

 ISMAEL CANAPPELE*

 
“O verão é um cara magro”, sentencia Eva, a modelo de volta ao lar. Estamos os dois na sua casa de infância, o lugar que Eva deixou há muitos anos. Apesar do calor infernal, talvez o maior já registrado desde a invenção do termômetro, Eva sequer ousa suar. Absorve o mormaço como somente os extremamente magros são capazes de fazer. Protegida do sol debaixo do pequeno parreiral de uvas no interior de Arroio do Meio, a modelo lamenta a opção da mãe em se manter constantemente refrigerada nos dias de calor. “O verão é a mais interessante das estações, tudo está vivo e, no entanto, as pessoas estão todas trancadas dentro de casa”, reclama a modelo, apontando para a estrada vazia. Ela, que ainda adolescente deixou o interior para cair nas passarelas e páginas de revista, não compreende como a mãe se resigna a fugir da natureza nos ápices de temperatura. “Deve ser culpa da obesidade”, constata ela, antes de engolir mais uma das muitas uvas que, geladas, transpiram dentro da pequena bacia de inox. Uvas limpas, desenvolvidas sem a adição de agrotóxicos, uvas que servem apenas para o consumo interno da pequena família de vinicultores alemães. Todo o resto está envenenado. O vento volta a soprar, e o cheiro forte de merda de porco toma conta do quintal. Depois um de nós fecha mais um cigarro. Nas tardes de muito calor, só mesmo fumando.

Estima-se que hoje metade da população brasileira se encontre em situação de sobrepeso. Se por um lado nunca consumimos tantos aparelhos de ar-condicionado, também nunca atingimos tão altos índices de obesidade. Quando envolto em uma grossa camada de gordura, o corpo aquecido encontra mais dificuldades para resfriar. Se os magros, quase desprovidos da camada adiposa que os poderia aquecer, sofrem com o frio, os obesos sofrem com o calor. Eva me disse que as gorduras da mãe, aquecidas pelo sol, fritam-lhes a existência. Para a mãe, o conforto mora no quarto frio. A exuberância do calor que Eva experimenta intensamente sempre que volta ao verão gaúcho é, para a mãe, um inferno a ser vencido. Um martírio a ser suportado. “Talvez só os magros sejam felizes no verão”, conclui a modelo, cuja esqualidez a impede de sentir calor.

Nos meses de verão, as ruas de Roma são tomadas por uma profusão de sombrinhas chinesas. Mesmo com filtro solar, todos querem se proteger do calor carregando consigo a sua própria sombra portátil. Na capital italiana, uma delicada seda semitransparente protege os caminhantes dos raios solares, ao mesmo tempo em que tinge suas epidermes com a cor do tecido. Não pense que faz pouco calor no verão italiano, mas a cidade, a capital das fontes, permite que água fresca jorre quase em cada esquina. Na história de Roma, foram muitos os concursos anuais para escolher a mais bela fonte da cidade. No Parque do Ibirapuera, em São Paulo, borrifadores d’água com a marca de uma multinacional refrescam o calor daqueles que correm. Se o antigo império romano refrescava a população sem esquecer da beleza, nós, latino-americanos, contamos com as multinacionais e suas tristes propagandas enganosas para nos aliviar do calor.

No Brasil, o calor é mais uma das muitas desculpas que encontramos para a aquisição de um carro. Quem vai querer caminhar sobre o asfalto quente de uma Porto Alegre a quarenta graus? “Ninguém, a menos que você seja muito magro”, responde Eva. Assim, compra-se carro, caminha-se menos, acumula-se peso, compra-se ar-condicionado, tranca-se em casa... a cadeia é simples, e geralmente os gráficos de ociosidade e consumo aumentam exponencialmente. No afã de consumir, muitas vezes se esquece que o caminho mais confortável quase sempre é o mais perigoso. Há uma profusão de bicicletas à espera de serem usadas nos meses de intenso calor. A cidade, um pouco mais vazia de carros, é um convite às novas formas de transporte urbano. Tire vantagem da estação. Ou simplesmente consuma menos. Ocupe menos espaço com seu carro. Faça menos barulho. Suje menos o ar. Mas existirá sempre um motorista que, no conforto claustrofóbico de seu carro gelado, vilanizará o ciclista na delicada teia que constitui o transporte urbano.

Para a milenar medicina Ayurveda, o calor é agente de desintoxicação. Acreditam os seus praticantes que o corpo, quando sua, executa uma limpeza de dentro para fora. O calor, quando explode na pele na forma líquida do suor, traz consigo uma série de impurezas aprisionadas nas células de gordura. Toda a cultura de saunas e banhos turcos usa o calor com a mesma finalidade terapêutica: suar. É como se fosse um banho, só que ao contrário. Cabe ao homem, ciente dos benefícios advindos da natureza, tirar proveito do verão e desintoxicar o corpo. Mais uma vez, não será no conforto gelado das salas blindadas que o benefício do calor poderá ser absorvido. Será preciso mergulhar sem medo no universo quente de um janeiro gaúcho para que o suor nos limpe a alma. Suar é também deixar de ser.

Por volta das oito da noite, quando a fúria do sol finalmente se acalma, Eva me convida para ir ao rio. Pego as chaves do carro, mas a garota monta na velha bicicleta e oferece a carona para mim. “É uma decida, quase não vou ter que pedalar, sobe aí”. Obedeço. Há quanto tempo eu não era levado na carona de uma jovem modelo? Antes que eu pudesse responder à minha própria pergunta, a última curva da estrada desemboca na cascalheira do Passo do Corvo. “O rio Taquari é sempre lindo ao anoitecer”, Eva está fascinada pela beleza de sua terra natal. Desde que voltou, ainda não havia descido ao rio. Estar de volta àquela água é sempre forte demais para ela. Não demora muito para que notemos a visível diminuição da praia: “Estão tirando todo o cascalho”. Ao longe, no cada vez mais diminuto balneário de seixos, uma barraca, um Chevette branco e uma canoa parada indicam a presença humana. Eva pedala até o acampamento. De chinelo de dedo sobre cascalhos escaldantes, persigo a bicicleta.

Nem bem chegamos à pequena barraca, Eva pergunta ao velho sobre a visível diminuição da praia. “Volta e meia tem caminhão e patrola levando o cascalho embora”, comenta o senhor, quase um estrangeiro em seu próprio país. Com um forte sotaque germânico, ele frita os peixes recém pescados no rio. O neto, um rapaz de longos cabelos loiros, surge das águas turvas do Taquari. Estava mergulhando. Ao nos cumprimentar, percebo a diferença entre o sotaque do neto e o sotaque do avô. O híbrido fascinante entre português e alemão falado pelo velho representa uma geração em vias de se extinguir. Uma extinção que levará consigo uma linguagem, uma fonética, uma espécie de canto anterior ao nosso. Com a morte de nossos avós, morre também um pouco de nós. Com o desaparecimento do cascalho, desaparece também um pouco do rio.

O sol cai atrás da opressora cadeia de montanhas que cerca o vale. Tudo fica ainda mais bonito quando tingido pela luz alaranjada do final de mais um dia. A brisa do começo da noite promete refrescar a existência. É possível que os enclausurados do ar-condicionado finalmente deixem seus casulos gelados para respirar o ar quente de uma noite de verão. O calor, quando desprovido do sol, é sempre mais fácil de ser suportado.
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* Escritor. Autor de Os Famosos e os Duendes da Morte. Publica no Cultura a coluna “A estética do calor”
Fonte: ZH on line, 12/01/2013

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