sábado, 30 de março de 2013

Três narrativas essenciais na modernidade (*)

Paulo Ghiraldelli Jr

 

Qual a utilidade da filosofia? Em princípio, essa pergunta é tola. Afinal, Platão, o inventor da filosofia como gênero literário, idealizou-a como uma narrativa especial e específica, distinta da narrativa do sofista, tipicamente utilitária. A filosofia seria uma narrativa diferente da narrativa do útil.

Enquanto personagem de Platão, Sócrates insistia em dizer que procurava a verdade e que o que dizia era verdadeiro, não simplesmente o útil. O filme de Roberto Rosselini, “Sócrates”, insiste nesse ponto, dando uma interpretação interessante da obra de Platão. O sofista, por sua vez, tanto na visão platônica quanto na visão que tinha de si mesmo, não procurava a verdade. Isso, no entanto, não porque gostasse do falso e da mentira, mas simplesmente porque entendia que ao falar, já estava sempre na verdade, uma vez que tudo que qualquer um pudesse pensar e dizer, uma vez pensado e dito, seria verdadeiro.

Essa tese do sofista não era nenhuma bobagem. Estava baseada em um filósofo importante, que Platão respeitava muito: Parmênides. Esse filósofo havia dito que podemos falar do “que é”, mas não temos como falar do que “não é”. O que não é, o falso, não pode ser dito, pois uma vez dito, estaria produzindo “o que não é” como “o que é”. Ora, mas o que não é, não é! Falamos do ser, do não-ser, não falamos. Em outras palavras: o discurso do que chamamos de falso não seria possível. Platão resolveu esse problema de modo técnico, garantido que aquilo que fazemos é perfeitamente correto e possível: pronunciamos discursos falsos tanto quanto pronunciamos discursos verdadeiros. Fazemos assim, ao menos em várias situações, por meio de usar o diferente, e não exatamente o “não-ser”. Nesse sentido, a busca do filósofo pela verdade, o que implica em distingui-la do falso, foi mostrada por Platão como uma prática com sentido e perfeitamente legítima.

Desse modo, Platão tornou possível o discurso da filosofia e da ciência, e criou um espaço social para tal discurso: a academia ou a universidade. O discurso da academia, isto é, o discurso acadêmico, teria por objetivo a verdade. E o discurso do sofista, cujo objetivo era o útil, desapareceria?

Bem, de certo modo, Platão quis fazê-lo senão desaparecer, cair para o segundo plano. Platão desejou fazer com o sofista aquilo que o sofista vinha fazendo com o filósofo. Platão quis que o discurso acadêmico se pusesse na academia, claro, mas também na política. Então, no projeto platônico, cabia a ideia de que os jovens da elite não iriam mais ficar à mercê da educação sofística, própria para a política, para a Ágora. Eles seriam educados filósofos e comandariam a cidade. Comandariam a cidade sob a luz da verdade e, portanto, fariam a cidade justa permanecer justa. O discurso propriamente político, o discurso da democracia ateniense, que pelo útil trabalhava consensos a cada passo na administração da cidade, não teria dado bom resultado, segundo Platão. Afinal, a política só havia criado balbúrdias e injustiças, ou seja, guerra de grupos e a própria condenação de um homem justo e inocente: Sócrates.

Assim, podemos dizer que o mundo antigo foi palco do confronto entre três grandes narrativas. Sim, porque as narrativas do sofista e do filósofo, que disputavam terreno entre si, também se opunham à narrativa mais velha, a do poeta ou rapsodo, a narrativa da religião, ou seja, da mitologia. Essas três grandes narrativas compunham a Paideia grega, a ar espiritual que cada grego poderia usufruir na sua formação cultural.

Nós modernos, somos herdeiros dessa cultura tripartida. Todavia, somos modernos não pelo tempo, mas justamente porque começamos a acreditar que a disputa entre essas narrativas não precisaria ser levada adiante de modo sanguinário e com propósito de eliminação do rival. Poderíamos e deveríamos encontrar espaços próprios para cada uma delas. De certo modo isso ficou refletido na filosofia de Kant e foi visto por Max Weber com uma característica própria dos “tempos modernos”.

Nas sociedades modernas, onde funciona a democracia liberal, tentamos conviver com as três grandes espécies de narrativas: a filosófica ou científica, a política e a mitológica ou religiosa. Nessa sociedade, temos três instituições para acolher essas três narrativas, respectivamente: a universidade, o parlamento e a Igreja ou igrejas. Com a primeira, fazemos investigação sobre a verdade, o que fixamos por meio de conceitos e definições. Com a segunda, conversamos sobre o útil, de modo a criarmos possibilidades de persuasão mútua, da qual emergem consensos e acordos. Com a terceira, professamos nossa fé e louvamos nossos antepassados e nossa história por meio de nossa vinculação aos deuses, além de, não raro, os vermos como fonte de educação ética e moral, dando-nos identidade cultural e esperança.

Nosso projeto pedagógico no Ocidente moderno, herdeiro do humanismo e do Iluminismo, foi temperado e retemperado. Ele considera que a juventude deve aprender as três espécies de narrativas e, para tal, mantém uma instância própria onde isso deve ocorrer: a escola. O jovem que quer adentrar na sociedade moderna ocidental, uma vez na escola básica e, depois, na secundária ou pré-universitária, deve aprender a usar das três narrativas e saber como e quando cada uma tem seu valor. Deve, inclusive, saber que às vezes há cruzamentos, como no caso do pragmatismo (de Peirce, James e Dewey), que faz a prática de busca da verdade olhar para a prática da busca do consenso, ou seja, a prática característica da política. Deve entender que há quem possa usar da fé religiosa para a investigação da verdade, como fez Santo Agostinho, para quem a fé era o facho de luz atrás da cabeça, que não lhe dava visão dogmática, mas ampliava o campo iluminado garantindo-lhe, adiante, um mundo com sentido e, portanto, apreensível pelo intelecto.

Quando alguns adultos acham que as crianças devem aprender essas três narrativas de maneira incompleta, o que fazem é mudar o quadro das disciplinas tradicionais de nossa escola. E o que pior podem fazer quando assim agem, é retirar dos alunos um modo de aprender a distinguir narrativas e gêneros literários. Para fazer o pior, eles tiram da escola a filosofia. Criam então pessoas que não sabem o valor das narrativas e seus lugares. Criam pessoas propensas a acreditar que podemos suprimir narrativas. Geram os que, ao levarem adiante o cultivo da eliminação, abrem portas e janelas ao demônio. E este é habilidoso em dizer o seguinte: para eliminar narrativas, o melhor modo é eliminar o narrador. Assim, disputas entre discursos ganham um sobrediscurso que se põe como legítimo: o da violência.  Logo, é a própria violência que se instaura, suprimindo todo e qualquer discurso.

A utilidade da filosofia é esta: a de cultivar as propriedades das narrativas, de modo que a violência não seja a única prática que possa parecer legítima. Nós filósofos acreditamos nisso, que podemos driblar o demônio. Somos ingênuos? Ah, sim, sem dúvida. Apesar de Platão, nosso patrono, ter desejado eliminar o sofista ou o político, nós, filósofos liberais e democráticos, modernos, nunca quisemos isso. Apostamos na filosofia não como o que pode falar mais ou de maneira melhor que outras narrativas, mas como a que tem tempo para falar sobre todas de maneira a arbitrar o conflito entre elas, sem deixar que elas se destruam ou sejam destruídas por força externa. Por isso mesmo Richard Rorty, o filósofo americano falecido em 2007, deixou como título-proposta de sua última obra, “a filosofia como política cultural”.
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© 2013 Paulo Ghiraldelli Jr. é filósofo, escritor, cartunista e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.
(*) Artigo feito a pedidos do prof. Balestra, da Espanha, a propósito da tentativa de retirada de horas de filosofia do ensino básico espanhol por parte do governo.
Imagem da Internet
Fonte:  http://ghiraldelli.pro.br/2013/03/tres-narrativas-essenciais-na-modernidade/

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